Cruzeiro 3 x 2 Uberaba – Uma virada preguiçosa

Sonolento no primeiro tempo, o Cruzeiro virou o jogo no “abafa” contra o Uberaba na Arena do Calçado, domingo em Nova Serrana.

No primeiro tempo, Cruzeiro num 4-3-1-2 com Élber estacionado na direita, um deserto na esquerda e um abismo entre defesa e ataque

Vágner Mancini pois poupou vários titulares para a partida de volta contra a Chapecoense pela Copa do Brasil. Diego Renan, Anselmo Ramon, Wallyson e Leandro Guerreiro deram lugar a Everton, Bobô, Élber e Amaral. Roger entrou na articulação no lugar do suspenso Montillo, e Thiago Carvalho entrou para ganhar ritmo, já que Léo está suspenso do jogo de quarta-feira.

O Uberaba entrou com uma proposta defensiva em seu 4-3-2-1, com Gustavinho e Gabriel Davis atrás do solitário atacante Araújo.

Foi um jogo sem muita graça taticamente, com o Cruzeiro visivelmente preguiçoso e desentrosado. O que mais se destacou, no entanto, foi a maneira divorciada com a qual o Cruzeiro jogava. Roger recuava para fazer a saída, mas WP, que tentou se movimentar mais, e Élber, estacionado na ponta direita, não recompunham com a perda de posse de bola. Quando roger avançava, também não voltava depois pra defender. Assim, os 7 ou 6 jogadores mais recuados do Cruzeiro ficavam muito distantes dos 3  ou 4 mais avançados.

Dois momentos que ilustram o divórcio entre os defensores e os atacantes cruzeirenses

O jogador mais avançado do Uberaba, Araújo, marcava o volante cruzeirense que ficava na proteção e com isso, o time do Triângulo tinha 5 ou 6 homens no meio-campo, contra apenas 3 cruzeirenses. O resultado direto é que o Cruzeiro tinha dificuldade em furar o bloqueio vermelho, mesmo com Roger, que não fez uma boa partida, recuando para qualificar a saída. Os flancos também não eram boas vias, já que Marcos e Everton pouco avançavam. O lateral direito tinha Élber à sua frente, que estava sumido atrás da marcação e não dava opções de passe. Já o camisa 6 centralizava quando subia, invertendo com Marcelo Oliveira, e portanto, não fossem as raras incursões de WP pela canhota, aquela seria uma área deserta do ataque azul.

Além disso, quando tinha a bola, o Uberaba tinha plena liberdade para tocar a bola sem ser incomodado. O Cruzeiro não encurtava espaços e o Uberaba, que veio pra se defender, parece ter ficado surpreso com o espaço que tinha e pouco chegou ao terço final do campo.

O gol uberabense ilustra bem a situação. Gabriel Davis lançou uma bola quase do meio-campo, onde havia espaço, e achou Gustavinho em velocidade para cabecear e Fábio defender. Nenhum defensor celeste acompanhou o lance e Araújo pegou aproveitou o rebote.

Note de onde Gabriel Davis cruza para achar Gustavinho livre dentro da área

Mesmo após o gol, o desinteresse e a apatia continuaram. O Uberaba recuou ainda mais e passou a jogar no erro cruzeirense, que era frequente, principalmente no último passe. Os contra-ataques se tornaram frequentes e perigosos. E o primeiro tempo assim terminou, sonolento.

O técnico celeste revelou, na entrevista coletiva ao fim do jogo, ter dado uma bronca bem dada nos jogadores no intervalo. Ele classificou o time como preguiçoso, mas não fez nenhuma alteração. Aparentemente, a bronca deu certo, pois só aos 5 minutos de jogo o Uberaba teve sua primeira posse de bola. O time celeste avançou suas linhas e ficava bem mais tempo no campo de ataque. Roger passou a jogar mais perto do gol e Wellington Paulista se movimentava mais. Marcelo Oliveira e Everton combinavam bem pelo lado esquerdo. Mas o último passe ainda continuava ruim, dando o contra-ataque para o Uberaba.

O segundo gol uberabense foi uma infelicidade do lateral Marcos. Claro que o cruzamento veio num contra-ataque nas costas de Everton, que estava bem avançado. Mas foi um passe despretensioso que não tinha alvo certo: a ofensiva adversária já estava sob controle. Não é o caso de se dizer que Marcos estava no lugar errado.

Antes do gol, Wallyson já estava preparado para ir a campo no lugar do apagado Bobô. Foi jogar na meia-esquerda, um pouco mais recuado. WP foi para a referência. Depois, Fábio Lopes entrou na vaga de Marcos e foi para a ponta esquerda, Amaral passou a revezar com Victorino na lateral direita e o Cruzeiro passou a um 4-3-3 mais clássico, com triângulo de base alta no meio, com Marcelo Oliveira na volância, comandando a saída. Era a tentativa de Mancini de sufocar o Uberaba com a superpopulação no campo de ataque. Já no Uberaba, Paulo César Catanoce tirou Gabriel Davis e lançou o atacante Marlon, fazendo um losango com Gustavinho de trequartista, mas voltando para defender. A ideia era explorar ainda mais os contra-ataques com bolas longas, para tentar o mano-a-mano com os dois defensores cruzeirenses.

A virada começou por causa de dois fatores. Primeiro, o mesmo lado esquerdo que ficou despovoado no primeiro tempo agora estava bem movimentado. Por ali, Wallyson, Everton e Fábio Lopes eram demais para o lateral Éder. E a movimentação dentro da área de WP também era interessante, já que os outros dois atacantes azuis ficavam fora da área, atraindo a marcação. Disputando contra apenas um único marcador, o camisa 9 cabeceou certeiro um cruzamento de Wallyson da esquerda para diminuir.

Após as alterações, Cruzeiro na forma mais clássica do 4-3-3, com dois meias, Victorino liberado e WP comandando a área

Éder saiu para a entrada do zagueiro Alberto, que foi para a mesma posição: lateral-direito. Reforçar a marcação era preciso, pensou Paulo César Capanoce. Vágner Mancini não quis saber e lançou Gilson no lugar de Roger, que já estava em marcha lenta, empurrando Everton para o meio. Wallyson inverteu de lado e foi para a ponta direita, e Élber ficou na articulação mais central junto com Everton. O jogo passou a ser praticamente de um time só, ainda que o Cruzeiro pecasse no último passe novamente.

A última substituição do Uberaba foi a entrada de Jeferson no lugar de Gustavinho. Alteração direta, apenas para ter sangue novo para puxar os contra-ataques: o losango no meio-campo se manteve. Mas a expulsão de Gabriel Elói dois minutos fez com que o técnico uberabense reconfigurasse a equipe num 4-4-1, com o recuo de Jeferson para a segunda linha. Vágner Mancin plantou Amaral e Thiago Carvalho e liberou Victorino para atacar. E numa insistência pelo lado direito, Wallyson recuperou a bola, achou WP livre dentro da área, que foi ao fundo e cruzou com força. A bola bateu no uruguaio depois da defesa do goleiro e entrou. Era o empate.

O jogo seguiu na mesma toada, e o Uberaba se defendendo bravamente, mesmo já rebaixado e com os jogadores sabendo que seriam dispensados no dia seguinte. Os jogadores caíam no gramado para forçar atendimentos, retardavam o jogo ao máximo. O Cruzeiro chegava sempre com muitos jogadores no ataque e errava ou na assistência ou na conclusão. Mas um personagem improvável apareceu e resolveu o jogo. Marcelo Oliveira bloqueou bem Wellington no meio-campo, que teve de girar para trás. Foi perseguido e, com a ajuda de Élber, desarmado. Marcelo Oliveira passou livre em velocidade e recebeu do garoto, tirando seu marcador com estilo e cruzando para WP, livre na pequena área, decretar a virada nos acréscimos. Há que se notar que havia ainda dois outros jogadores celestes dentro da área para apenas um zagueiro.

Lições que podem ser tiradas deste jogo: Élber é um jogador jovem, tem técnica, mas precisa ter mais inteligência tática. Isso significa pensar por si próprio e ocupar os espaços da maneira certa, e não ficar preso somente a um setor do campo porque o técnico pediu. Definitivamente, WP rende muito mais quando joga dentro da área. Temo que ele e Anselmo Ramon tenham que disputar a mesma posição. E é preciso encarar todos os jogos com a mesma seriedade, mesmo se poupando para uma decisão de vaga como na quarta-feira pela Copa do Brasil, mesmo já classificado para as semi-finais do Mineiro.

Porque neste jogo conseguimos virar na base da pressão, mas em outro o adversário se defenderá muito bem e poderemos não conseguir. E este jogo, com certeza, já vai estar valendo muito.

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