Náutico 0 x 0 Cruzeiro – Em branco de novo

Mostrando evolução defensiva mais uma vez, mas com uma queda brusca de criatividade, o Cruzeiro não sofreu gol de um esforçado Náutico no Recife. Mas também não fez, num jogo fraco tecnicamente pela segunda rodada do Brasileirão 2012.

O 4-2-2-2 torto cruzeirense da primeira etapa: quem dá amplitude de ataque pela direita?

O esquema de jogo mudou de Celso Roth mudou em relação à primeira rodada, com Everton saindo para a entrada do recém-contratado Tinga. Ambos são volantes de origem que jogam como meias, mas a diferença é que Everton joga mais aberto, e Tinga centraliza mais – região onde Montillo atua mais costumeiramente. A solução encontrada por Celso Roth para escalar ambos foi adiantar o argentino, transformando-o num segundo atacante. Souza trocou de lado e foi para a esquerda, e o Cruzeiro ficou num 4-2-2-2 torto, com Charles novamente tendo mais liberdade do que Amaral para sair com a bola.

O Náutico de Alexandre Gallo entrou num 4-2-2-1. Não, eu não errei a conta: somente 9 dos jogadores de linha guardavam posição. Araújo era servido por Cleverson e Ramon, e os 4 defensores tinham a proteção de Elicarlos e Glaydson. Derley, o jogador que faltou, ficou com a missão de ser a sombra de Montillo, e perseguia o camisa 10 por todo o campo, onde quer que fosse, até mesmo quando a posse de bola era do time da casa. O resultado é que o esquema do Náutico ficou bem difícil de definir. Por vezes parecia mais um 3-4-1-2, já que Derley afundava na caça à Montillo e com isso os laterais puderam atuar bem avançados, alinhados aos volantes.

Com o recuo de Derley no encalço de Montillo, os laterais avançavam, quase se alinhando ao dois meias atrás de Araújo no 4-3-2-1 (3-4-2-1) do Náutico

O Cruzeiro começou o da mesma forma que contra o Atlético/GO: marcando alto no campo. Deu certo, pois ora o Cruzeiro retomava a posse em uma posição melhor, ora a qualidade do passe do time da casa era muito reduzida, ocasionando chutões ou passes afoitos, facilitando os desarmes. O resultado foi mais posse de bola, e como a escola Barcelona nos ensina, consequentemente mais passes e mais finalizações, correto? Errado. O Cruzeiro teve um aproveitamento tanto de passes quanto de finalizações menor do que na primeira rodada. Das 9 conclusões, só uma foi ao alvo, o pior aproveitamento entre todos os times nas duas rodadas, de acordo com números da ESPN Brasil.

Ainda, com Souza preso do lado esquerdo, Tinga mais por dentro e Montillo tentando ser um segundo atacante, o time pouco usava o lado direito do ataque. Quando Montillo caía por ali, sempre acompanhado de Derley, acabava cercado por mais adversários. Lúcio, sem ter a quem marcar, jogou avançado e prendeu Diego Renan. O resultado é que, neste jogo, o Cruzeiro concentrou 10,6% da sua posse de bola na ponta esquerda contra 6,39% do outro lado. Contra o Atlético/GO, estes números eram 5,6% e 12,21% respectivamente, um indício de quanto Souza é atualmente responsável por fazer a bola chegar ao ataque.

O Náutico, sem opções, optou por esperar o Cruzeiro em seu campo para jogar na transição ofensiva, também conhecida como contra-ataque. Mas não obtinha muito sucesso, já que a defesa azul estava bem postada e não deixava espaços aos atacantes pernambucanos. Além disso, o Náutico conseguiu ter um aproveitamento de passes ainda pior que o Cruzeiro: apenas 80,4% de acerto (contra 82,68%).

A solidez defensiva é boa notícia, mas isso se refletiu na criatividade do time. Como já dito, poucos passes trocados, pouca qualidade nos que eram e poucas finalizações no alvo, apesar da maior posse de bola no primeiro tempo. Souza se movimentava pouco, preso na esquerda, Montillo parou na marcação implacável de Derley e Tinga foi um lutador, aparecendo para jogar em todos os setores do campo, mas recebendo poucas bolas e dando passes mais seguros (como se espera dele). Assim, foi uma primeira etapa chata, a não ser por uma bobeada de Fábio ao dominar com os pés que o Náutico não conseguiu aproveitar, e por um lance curioso do juiz que “desexpulsou” Charles ao transferir o que seria o segundo cartão amarelo do volante para Diego Renan, que também estava no lance. Sorte do camisa 7, pois foi ele de fato quem fez a falta.

No fim, Cruzeiro num 4-3-1-2 muito defensivo, com vários jogadores recuando demais

No segundo tempo o Náutico veio com mais gás, ou o Cruzeiro veio com menos, e a pressão alta já não era exercida. Com William Magrão, mais um estreante, no lugar do amarelado e “desexpulso” Charles, o Cruzeiro manteve o esquema, mas decidiu se afundar e sair na boa, dando liberdade para o primeiro passe dos volantes do Náutico. Derley até esqueceu Montillo por alguns momentos para tentar uma jogada mais profunda para seus companheiros, que agora tinham Rhayner e Souza nos lugares de Cleverson e Glaydson. O primeiro jogou como meia-atacante, fazendo mais companhia a Araújo; o segundo entrou como volante pela esquerda, no mesmo local onde Glaydson atuava: seis por meia dúzia em termos táticos, mas com pernas descansadas e com mais liberdade para infernizar a vida de Diego Renan e Amaral. Era um 4-3-2-1 com cara de 4-3-1-2.

A qualidade defensiva mostrada no primeiro tempo aos poucos foi sendo minada, com algumas falhas individuais que poderiam comprometer todo o plano. O trio ofensivo do time de Pernambuco promovia movimentação e atuavam sempre próximos, tentando confundir a marcação azul. Diego Renan ficou cada vez mais preso, e os volantes já não tinham liberdade para manter a posse da bola, mesmo que ineficiente, como no primeiro tempo. A situação estava se invertendo.

Aos 15, Celso Roth enxergou o óbvio e sacou Souza, mais lento, e promoveu a entrada de Everton. O volante foi jogar na mesma posição que jogou no primeiro jogo, aberto pela esquerda. Mas infelizmente a situação não mudou: o Náutico continuava encurtando os espaços e até obrigou Fábio a fazer algumas defesas difíceis. Alexandre Gallo então soltou o time de vez, com Rodrigou Tiuí na vaga de Ramon para fazer um 4-3-3, e Celso Roth respondeu logo em seguida lançando Wallyson no lugar do cansado Tinga. Wallyson foi fazer companhia ao inoperante WP e Montillo recuou para sua posição de origem. O Náutico tinha, de fato, apenas um volante, principalmente se considerarmos que Derley continuava vigiando Montillo de perto, e o argentino o arrastava para fora de posição (se é que havia uma para o camisa 150).

O Cruzeiro só foi ter uma posse de bola mais tranquila aos 29 minutos, que parou num impedimento de WP. Pouco para quem marcava pressão com sucesso no início da partida a agora recuava suas linhas para tentar um chutão de contra-ataque para os atacantes. Até Montillo, que normalmente não recua tanto, estava jogando à frente da sua própria área cercando os espaços do trio ofensivo.

6-3-1?

Mas não teve de fazer muito esforço, já que o Náutico martelava, mas já não finalizava tanto e se contentava com jogadas de bola parada. Talvez pelo cansaço do adversário, nos últimos minutos o Cruzeiro conseguiu segurar mais a bola, mas sem o ímpeto do ataque. Só podia dar em um zero a zero entediante.

Jonathan Wilson, autor do livro Inverting the Pyramid: A History of Football Tactics, disse bem em seu blog no The Guardian: “Simetria não é essencial, mas o equilíbrio é”. O Cruzeiro jogou sem simetria mas mostrou que agora sabe se defender melhor. Mas agora precisa encontrar equilíbrio e mostrar que sabe atacar também, como o próprio Roth disse na coletiva após o jogo.

Melhor pra ele, pois aqui é Cruzeiro: futebol ofensivo sempre foi a nossa marca. Chega de zero a zero, eu quero é ver gol.

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