Cruzeiro 1 x 0 Flamengo – Raça

Para ir à Arena Independência, preciso tomar uma condução que tem como parte do seu itinerário passar na Praça Sete, no centro de Belo Horizonte. Porém, o “P” do letreiro adesivado que indicava isto no pára-brisa do ônibus havia caído ou se desgastado, fazendo com que no letreiro se lesse “RAÇA 7”. Era um sinal, mas eu só fui me dar conta depois do jogo.

Cruzeiro repetindo o 3-4-1-2, dando liberdade a Ceará pela direita e bloqueando Léo Moura pela esquerda com Marcelo Oliveira, mas com poucos homens no meio com Magrão sendo arrastado para fora do campo por Luiz Antônio

Ao contrário do que tentou prever este blogueiro, Celso repetiu o 3-4-1-2 da vitória contra a Portuguesa. Fábio viu Leandro Guerreiro de pertinho mais uma vez, jogando na sobra dos zagueiros Mateus e Rafael Donato, permitindo aos laterais Ceará e Marcelo Oliveira — substituto do suspenso Diego Renan — jogarem mais avançados. William Magrão e Charles, de volta ao time, fizeram a dupla volância atrás de Montillo, que armava para Wellington Paulista e Borges.

Joel Santana (que não deixou nenhuma saudade por aqui) levou o Flamengo a campo num previsível 4-3-1-2 losango: o gol de Paulo Victor foi defendido pela dupla de zaga Gonzales e Marllon, com Léo Moura e Ramon fechando os flancos. No vértice mais baixo do losango, Amaral tinha Ibson pela direita e Renato Abreu pela esquerda, suportando Luiz Antônio atrás de Vágner Love e Adryan.

No enfrentamento dos esquemas, dois aspectos já se notaram claros. O primeiro era que os alas cruzeirenses, jogando bem à frente, fechavam a porta para o avanço dos laterais do adversário, com Marcelo Oliveira praticamente neutralizando o excelente apoio de Léo Moura. Do outro lado, Ceará fez um bom jogo, marcando bem as subidas de Ramon e dando opção de passe pela direita. Com três volantes bloqueando a entrada da área, como é característica do losango, o ataque pelos lados era o caminho: Ceará cruzou uma bola que passou pelos dois centro-avantes azuis dentro da área, e deopis serviu William Magrão na linha de fundo, que cruzou para cabeceio fraco de WP.

O segundo aspecto era que, com Leandro Guerreiro afundando entre os zagueiros, o Cruzeiro tinha a sobra garantida contra os dois atacantes adversários, mas tinha menor número no meio-campo. William Magrão ficou por conta de perseguir Luiz Antônio, e com isso Charles só podia encurtar em um de dois adversário: ora Ibson, ora Renato Abreu. Quem sobrava tinha certo tempo com a bola e podia pensar melhor a jogada. Além disso o Cruzeiro perdia muitas segundas bolas, a ponto de um torcedor atrás de mim nas arquibancadas ficar gritando “cadê os três volantes, cadê os três volantes”.

Na metade do primeiro tempo, Luiz Antônio passou a abrir pela direita, arrastando William Magrão consigo e abrindo ainda mais espaço para seus companheiros. Renato Abreu arriscou alguns chutes de longe, e Ibson virava o jogo de forma inteligente, aproveitando a compactação lateral do time da casa, fazendo sua equipe ter profundidade rapidamente. Aos poucos o Flamengo foi descobrindo este caminho e ameaçou em dois lances: Adryan teve uma boa escapada pela esquerda, mas cruzou mal, e Vágner Love chegou a ficar de frente com Fábio, mas talvez tinha ficado esperando a decisão do melhor goleiro do mundo. Perdeu o duelo.

Mas justo quando o Flamengo tentava sair mais para o jogo, o Cruzeiro marcou. Montillo passou a Ceará, bem aberto pela direita como um bom lateral. O camisa 2 encaixou um bom cruzamento e achou Borges na pequena área. O atacante se livrou do zagueiro e se antecipou a Paulo Victor, demonstrando excelente senso de posicionamento, cabeceando baixo para o fundo das redes flamenguistas.

Na volta do intervalo não houve mudanças. Joel deve ter considerado o gol um lance isolado, porque seu time teve mais volume de jogo no fim da primeira etapa, e portanto deve ter considerado que assim continuaria o jogo. Mas o Cruzeiro voltou diferente mesmo sem alterações. Ceará recuou um pouco mais, e Leandro Guerreiro pôde enfim participar da briga no meio do campo. Marcelo Oliveira continuava um pouco mais à frente, em mais precauções contra Léo Moura. O Cruzeiro passou então a usar o mesmo 4-3-1-2 do adversário.

O movimento desarmou o ataque flamenguista. Nas arquibancadas, este blogueiro pernsou que o Cruzeiro se fecharia, deixaria a bola com o Flamengo e partiria em contra-ataques, o que tem sido sua arma mais letal nos últimos jogos. Mas a equipe acabou ficando mais com a bola do que o Flamengo, que já não tinha o mesmo espaço de antes. Além disso, Guerreiro tinha mais liberdade para se juntar às ações ofensivas, aparecendo em vários momentos como elemento surpresa, inclusive arriscando finalizações. No entanto, a grande quantidade de erros no último passe, como tem sido quando o Cruzeiro quer criar, não resultaram em chances claras.

Borges se contundiu sozinho em um lance e Anselmo Ramon entrou em seu lugar, mantendo a formação, apesar da característica diferente deste último Anselmo — Borges tem mais presença na área, e Anselmo é mais forte, faz melhor o pivô. Talvez por isso, Anselmo recuava um pouco mais para receber um bola longa e segurá-la até a chegada de seus companheiros. A consequência direta foi o avanço das linhas do Flamengo, o que ajudou Ramon a explorar mais o corredor à sua frente, já que Ceará estava mais preso na segunda etapa.

O Flamengo foi avançando e ganhando volume: livre, Ibson recebeu passe de Ramon na entrada da área e arriscou, mas Fábio espalmou a escanteio; Adryan finalizou dentro da área em rebote da defesa e foi bloqueado por William Magrão; e logo após um bom avanço de Marcelo Oliveira em contra-ataque veloz, mas desperdiçado pelo péssimo passe, Léo Moura aproveitou o espaço, passou a Adryan do outro lado, que passou a Renato Abreu finalizar, mas Ceará não deixou a bola chegar a Fábio.

Vendo a situação, os treinadores trataram de mexer em suas equipes, e dos 27 aos 31, quatro substituições em sequência: no Cruzeiro, Élber e Sandro Silva entravam nas vagas de Charles e Wellington Paulista, e no Flamengo Hernane e Camacho substituíam Adryan e Renato Abreu. A intenção de Joel era abrir o time, e Hernane foi jogar aberto pela direita, com Camacho e Ibson articulando para ele, Love e Luis Antônio do outro lado. Já Celso queria explorar o espaço que se abria nas costas de Ramon para puxar o contra-ataque com Élber naquele setor, e também auxiliar Marcelo Oliveira na marcação pela esquerda, com Sandro Silva caindo por ali.

Uma árvore de natal (4-3-2-1) que Joel Natalino Santana tentou, mas não conseguiu derrubar

Não era o jogo que o Cruzeiro costuma fazer, fechando os flancos e partindo em velocidade num 4-4-1-1. Era um espécie de 4-3-2-1 “torto”, já que Sandro Silva e Marcelo Oliveira praticamente ocupavam o mesmo setor, muito afundados, e do outro lado Élber esperava ao lado de Montillo uma bola perdida para contra-atacar, o que acabou não acontecendo. O jogo tinha ficado perigoso demais, e o Cruzeiro precisava avançar um pouco, afastar o Flamengo de sua área.

Mas é preciso fazer isso com inteligência, pois aos 33, com a linha defensiva jogando muito alta, Léo Moura saiu de trás e recebeu uma bola longa da defesa, iniciando o lance mais emblemático da partida. Ele entrou na área e preferiu cruzar ao invés de finalizar, talvez por respeitar demais o melhor goleiro do mundo. Do lado esquerdo chegavam Vágner Love e Hernane, acompanhados por Donato. O zagueiro conseguiu atrapalhar a primeira conclusão de Love, mas a bola ainda sobrou para ele, Fábio abafou, a bola bateu em Hernane e beijou o travessão, voltando mais uma vez para Love, que foi novamente abafado por Fábio em defesa espetacular. Na sobra, Hernane girou e bateu, mas Marcelo Oliveira já tinha conseguido voltar e estava debaixo das traves, mandando o empate para escanteio.

Parecia ter sido o último suspiro do time carioca, que não conseguiu mais finalizar. Matheus ainda entraria na vaga de Luis Antônio, oficializando o 4-3-3 alto, mas foi o Cruzeiro quem teve outra chance, com Élber pela esquerda. O garoto pôs velocidade e cruzou para Montillo que chegava pelo meio. O argentino deixou a bola passar para Anselmo Ramon, mas ela veio um pouco antes do que ele esperava e a conclusão saiu torta.

A vitória chegou, mas foi muito mais fruto de raça e entrega dos jogadores do que pelo posicionamento tático. A mexida para proteger o lado esquerdo dos avanços de Léo Moura foi inteligente, mas desguarneceu o meio-campo no primeiro tempo. O losango do segundo tempo poderia ter sido usado desde o início, diminuindo o tempo de bola dos meias flamenguistas. Claro, isso faria com que Ceará avançasse menos, mas a experiência do lateral compensaria.

Por outro lado, Leandro Guerreiro vem se mostrando um jogador versátil, expandindo sua área de atuação ao invés de ficar preso à frente da zaga. Universalidade, como diz Jonathan Wilson na última frase de “Invertendo a Pirâmide”, parece ser o futuro do futebol, e a desenvoltura de Guerreiro em outra função é excelente notícia.

Além disso, Ceará parece ter resolvido o problema da lateral direita. Assim, a dúvida sobre a recuperação de Borges dirige minha aposta para o jogo contra o Corinthians para a volta de Fabinho ao time, retomando o 4-2-3-1 diagonal para o enfrentamento contra o 4-2-3-1 variando para 4-2-4-0 (ou seja, sem centro-avantes de ofício) de Tite. Afinal, jogar no 3-4-1-2 contra um time que executa o 4-2-3-1 tão bem é problemático. Além disso, Tite provavelmente vai armar algum esquema para não deixar Montillo jogar, talvez destacando Ralf para a marcação do argentino. Daí a importância de se ter, também, volantes que saiam para o jogo com qualidade, para aproveitar o espaço que certamente será gerado com a movimentação de Montillo para as pontas. A volta de Tinga poderá ser importante neste sentido, ainda mais se Roth escalá-lo como ponteiro direito, abrindo o corredor para o apoio de Ceará e fazendo número no meio-campo.

O Cruzeiro é visitante indigesto do Corinthians no Brasileirão. No entanto, para vencer o Corinthians de Tite — um dos times mais táticos do país, senão o mais tático —  é preciso acrescentar à gororoba um tempero a mais do “chef” Roth. Ou temos grandes chances de voltar de São Paulo com a barriga vazia.

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