Cruzeiro 2 x 1 Coritiba – “Pies intercambiados”

Isso é que é azar: justo no dia em que deixei de ir ao Independência por causa da chuva, meus anseios foram atendidos, e o time jogou do jeito que eu sempre pedi neste blog.

Foram necessárias muitas rodadas e a tranquilidade proporcionada pelo fato de não se ter mais nada a ambicionar no campeonato para que, finalmente, Celso Roth experimentasse o 4-2-3-1. Contra o Bahia já havia sido assim, mas sem Montillo. Contra o Fluminense, era Martinuccio quem tinha ficado fora. Desta vez os dois estavam disponíveis, só restava saber como Roth ia escalá-los no meio-campo azul.

O 4-2-3-1 do Cruzeiro no primeiro tempo: Guerreiro na zaga, ponteiros argentinos, WP saindo da área e Tinga sendo o ponto de apoio

No último jogo diante de sua torcida no ano, Roth botou Montillo como ponteiro direito e Martinuccio como o esquerdo, flanqueando Tinga e municiando WP à frente. Charles e Marcelo Oliveira fizeram uma dupla de volantes com liberdade para sair, o segundo mais que o primeiro, e Leandro Guerreiro parece ter achado sua nova posição em campo, sendo o melhor jogador da partida. Fábio voltou ao gol da equipe que ainda teve Ceará na lateral direita e Diego Renan na esquerda (Éverton, com dois amarelos, foi poupado para o clássico), com Thiago Carvalho sendo parceiro de Guerreiro na área.

O Coritiba do técnico Marquinhos Santos veio no mesmo sistema de jogo, o que pra eles é o costumeiro 4-2-3-1. Rafinha pela esquerda e Everton Ribeiro pela direita eram os ponteiros, e Lincoln foi o meia central atrás de Deivid. Gil era o volante mais plantado e Willian tentava sair um pouco mais, e a última linha defensiva foi composta por Victor Ferraz na direita, Luccas Claro e Escudero no miolo e Dênis na esquerda, defendendo o gol de Vanderlei.

Posse de bola

Em rápida entrevista antes da bola rolar, Wellington Paulista disse ao repórter do PFC que a estratégia era “marcar direitinho para podermos contra-atacar com qualidade”. De fato, o 4-2-3-1 com os argentinos abertos favorece esse tipo de postura, muito devido à velocidade e a vitória pessoal dos ponteiros. Entretanto, o que se viu foi a manutenção da posse de bola. A diferença de característica entre WP e Anselmo Ramon também facilita, pois o primeiro se movimenta, sai da área e puxa os zagueiros com ele, enquanto o segundo fica à frente esperando uma bola longa para fazer o pivô ou disputar de cabeça, incentivando o chutão.

Assim, com a bola no chão, o Cruzeiro procurava os ponteiros argentinos para dar a saída de bola, até porque Tinga não é um construtor de jogadas, mas ocupou bem o espaço e fazia um bom trabalho defensivo, se juntando aos volantes quando o Cruzeiro perdia a bola. Procurar os flancos, entretanto, não causou a série de cruzamentos infrutíferos que o time vinha realizando. A maioria dos últimos passes era em profundidade para os ponteiros ou então uma bola rasteira dos ponteiros para o meio da área.

Tudo isso foi resumido no lance do primeiro gol. Montillo recebe a bola pela direita e avança, como é sua característica. Porém, WP está na ponta direita, abrindo espaço para que alguém chegue de trás, que no caso foi Tinga. WP recebe do argentino, faz um corte e cruza para a área, onde o cabeludo tenta desviar mas a bola passa direto e engana Vanderlei.

Depois do gol o Cruzeiro recuou um pouco e esperou o Coritiba em seu campo. A única vulnerabilidade estava em Diego Renan, que teve certa dificuldade em para Rafinha, inclusive levando um amarelo bem cedo. Mas não comprometeu. Esse momento defensivo também foi importante para avaliar a recomposição dos ponteiros argentinos, acompanhando os laterais adversários. Martinuccio e Montillo até que a fizeram bem, ocupando o espaço e tentando roubar a bola de seus adversários, mas ainda precisam melhorar nesse aspecto. Nada que o treinamento não resolva.

“Pés invertidos”

Aproximadamente aos 25 minutos, os argentinos inverteram de lado. Montillo foi para a esquerda, posição em que jogou bem contra o Palmeiras no primeiro turno, e Martinuccio veio para a direita, onde se destacou no Peñarol na Libertadores de 2011 e chamou a atenção do futebol brasileiro. E foi o melhor momento do Cruzeiro no primeiro tempo, com o lance em que Montillo buscou o ângulo de Vanderlei mas mandou alto demais, e logo em seguida o gol anulado de Tinga em jogada de Montillo. É possível reparar que, se Tinga, que estava impedido, deixasse passar, a bola chegaria limpa para Martinuccio concluir pelo lado direito.

Infelizmente o bom momento não foi aproveitado, e os hermanos voltaram às suas posições originais. O Coritiba apertou um pouco, principalmente quando Everton Ribeiro passou a centralizar mais, ajudando Lincoln e abrindo espaço para Denis apoiar. Foram deles os chutes que Fábio defendeu, mas nada mais além disso.

Segundo tempo

Nenhuma alteração nos dois times na volta do intervalo. Entretanto, os times mudaram a formação. Roth instruiu Tinga e ficar mais para ajudar Marcelo Oliveira e Charles no combate a Lincoln e Everton Ribeiro, que continuava jogando mais por dentro. A alteração ficou por conta de Rafinha, que inverteu de lado e passou a jogar em cima de Ceará, o que foi uma mudança estranha, já que Diego Renan já tinha amarelo e claramente sofria para marcar o ponteiro.

As mexidas táticas fizeram o Cruzeiro procurar ainda mais a estratégia dos contra-ataques. Porém, sem um meia central por onde passar a bola, a velha tática do chutão foi empregada, e WP claramente é pior que Anselmo Ramon para disputar as bolas aéreas e fazer a retenção. Com isso, as bolas rebatidas quase sempre voltavam, pois a posse não era recuperada em definitivo. O Coritiba cresceu, teve mais a bola e mais domínio territorial. Mas era um domínio estéril, com a defesa celeste bem postada e Leandro Guerreiro se tornando o dono da grande área azul, tirando todas as bolas e se antecipando com qualidade.

Em um determinado momento, o repórter informa que Celso Roth ordenou Martinuccio e Montillo que invertessem novamente. Eu tive esperanças de um futebol vistoso e veloz, mas o recuo do Cruzeiro era demais. Sem um meia-central e sem alguém forte na referência, os argentinos ficaram esperando a bola que nunca veio. Talvez o momento fosse de centralizá-los no meio, fazendo um interessantíssimo 4-3-2-1, já que eles se entendiam bem quando trocavam passes e levariam uma preocupação a mais para os volantes paranaenses. Mas isso não foi feito.

A tranquilidade veio um lance de bola parada. Ceará cobra falta na área, WP cabeceia na trave e Guerreiro, sozinho e com categoria, finaliza o rebote no canto oposto do goleiro Vanderlei, que nem pulou. Um prêmio pela atuação segura e sólida do ex-volante.

com o novo gol sofrido, o Coritiba desanimou. Celso Roth então iniciou as trocas, mas manteve a formação, trocando os três meias. Primeiro Élber, pedido pela torcida, entrando no lugar de Tinga e empurrando Montillo para o centro. Era uma formação que eu queria muito ver, com três meias rápidos. Mas logo depois, Souza entrou na vaga de Montillo, mantendo-se pelo centro para passar a bola, frustrando minhas expectativas. E por fim, Fabinho entrou na vaga de Martinuccio, mantendo o posicionamento pela esquerda. O garoto Élber até deu trabalho pela direita, e Souza cumpriu bem o papel de condutor e passador. Fabinho jogou pouco para uma avaliação melhor.

O Coritiba tentou vir pra cima nos minutos finais e cedeu o contra-ataque, mas o Cruzeiro estava em um ritmo muito baixo, até desinteressado. Everton Ribeiro, sondado para vir para o Cruzeiro, diminuiu no fim, mas não havia tempo para mais nada.

Atuação digna, mas ainda pode ser melhor

Arrisco dizer que foi uma das melhores partidas celestes no certame. Claro que há ainda muito o que melhorar: defensivamente, treinar melhor a marcação dos ponteiros e fazer uma pressão alta, no campo do adversário, mais consistente; ofensivamente, a chegada de trás dos volantes, e o apoio mais frequente dos laterais e a manutenção da posse de bola. Agora que os ponteiros argentinos foram testados, talvez seja a hora de experimentar Souza como meia central para distribuir o jogo e cadenciar o ritmo.

Entretanto, é preciso comemorar. Celso Roth finalmente enxergou que pode jogar com o time dessa forma. Se tivesse entrado assim há mais tempo, talvez sobrevivesse no cargo. Mas é o suficiente para termos esperanças de vencer e convencer no clássico na última rodada, jogando como o Cruzeiro sempre jogou.

Tomara que o próximo treinador, quem quer que seja ele, tenha visto o jogo de hoje.

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