Meio-campo em losango: prós e contras

De volta com o blog mais tático da torcida cruzeirense, analisaremos as duas últimas partidas do Cruzeiro no Brasileirão 2012, as frustrantes derrotas para Palmeiras e Ponte Preta. Em ambas as partidas, Celso Roth insistindo em começar o jogo com seu 4-3-1-2 com meio-campo em losango que, convenhamos, já está claro que não deu e não vai dar certo, simplesmente porque os jogadores que existem no elenco hoje não tem as características para fazer esta formação funcionar.

Neste post, entretanto, a análise será feita de forma diferente. Analisarei a formação em si, sem aplicar a uma equipe específica, e assim concluiremos se o atual desenho tático celeste é ou não é eficaz.

Um breve histórico

O 4-3-1-2 losango teve origem no Flamengo em 1941, com o técnico Flávio Costa. Ele girou o quadrado de meio do W-M (ou 3-2-2-3, esquema mais usado no mundo naquela época) e fez o lado esquerdo ficar mais à frente do direito. Porém, essa mudança acabou dando origem ao 4-2-4, sistema no qual o Brasil venceu a Copa de 58. Com o passar do tempo, foi ficando comum nesse sistema que um dos meio-campistas ficasse mais preso para dar proteção à linha defensiva, e isso combinado à obsessão dos argentinos por um jogador criativo principal, um número 10 clássico, fez a Argentina da Copa de 1966 resgatar a formação, dessa vez como um verdadeiro 4-3-1-2, e definiu as bases para a concepção moderna do sistema: um volante preso flanqueado por dois jogadores “vaivém” — carilleros, como são conhecidos na Argentina, o único país, aparentemente, a dar um nome específico à função.

Geometria no meio-campo

O 4-3-1-2 losango pode também ser descrito como um 4-1-2-1-2, isso porque à frente da linha defensiva, um jogador permanece plantado para “quebrar as ondas”, como descreveu Viktor Maslov, técnico do Dínamo de Kiev na década de 60 e também um dos adeptos do sistema. De cada lado, os jogadores mais importantes da formação: os carilleros, que vamos chamar aqui de meias. À frente destes, o maestro e principal articulador da equipe, um meio-campista ofensivo, logo atrás dos dois atacantes. Visto de cima, o desenho do meio-campo forma um losango, e por isso a denominação. Em inglês, essa formação é chamada de “the diamond” (diamante).

Controle do centro

A principal vantagem do losango é que ele provê uma plataforma sólida pelo centro do campo. Ela permite a uma equipe manter a posse da bola com a movimentação inteligente dos jogadores e bons passes curtos, devido ao maior número de jogadores no setor, tanto na fase defensiva quanto na ofensiva. Portanto, é uma formação destinada a controlar o jogo a partir do centro do campo, com posse de bola.

Flancos problemáticos

Porém, os mesmos fatores que levam o losango a ser forte no centro fazem o desenho ser vulnerável pelos lados. Essa é a maior fraqueza do sistema: contra-ataques rápidos pelos lados são fatais. Mesmo que os carilleros se movam para ajudar pelos lados, sempre haverá espaços a serem cobertos, principalmente contra um ataque rápido. Ofensivamente, a fraqueza dos lados também se revela no sentido de que não há profundidade pelos lados do campo. Além disso, se não houver adaptações, toda a criatividade do time se resume a um único jogador, o que pode ser facilmente contido com uma marcação forte.

Jogadores para um losango ideal

Pode-se compensar a falta de amplitude ofensiva de duas formas. Uma é ter laterais ofensivos, e a outra é ter meias que saibam jogar. Em ambos os casos, a profundidade lateral será provida por esse jogador, que ainda aliviará a pressão criativa sobre o único armador da equipe. Assim, em cada lado do campo, é ideal que exista um jogador capaz de avançar e se juntar à iniciativa ofensiva, seja um lateral ofensivo, como Daniel Alves e Léo Moura, e/ou um meia de bom passe, como Xavi. Também é possível empregar um segundo atacante rápido em um lado do campo, mas o outro tem que ser necessariamente coberto por um lateral ou um meia.

Na ponta de cima do losango, um jogador criativo, passador, que dite o ritmo e aiba ler o jogo antecipadamente é fundamental — Alex é um dos melhores exemplos.

E o Cruzeiro atual?

Com o esquema destrinchado, fica fácil identificar os problemas. De cara, os companheiros do volante preso Leandro Guerreiro deveriam ser volantes com bom passe. Quando eles apareceram em determinados jogos, foram inexplicavelmente sacados do time, como Lucas Silva e Diego Árias. Arrisco dizer que a fase em que o colombiano jogou foi a melhor fase do sistema atual. A insistência de Roth com volantes marcadores, como Marcelo Oliveira, William Magrão e Charles, só faz o problema aparecer ainda mais.

No topo do losango, é preciso ter um camisa 10 típico, o enganche, como é chamado na Argentina. Teoricamente, este jogador seria Souza, mas o veterano não conseguiu dar padrão à equipe nestes dois últimos jogos. Mas talvez isso tenha acontecido porque ficou sobrecarregado, pois o time não tinha amplitude de ataque, e com isso ninguém dividia com ele a responsabilidade de pensar o jogo. Facilita a marcação.

E esse jogador não é Montillo. Não, não estou louco, e repito: Montillo não é camisa 10. Ok, ele é o camisa 10 do Cruzeiro, mas não é um camisa 10. Montillo é um ponteiro, rápido e driblador. Não estou inventando, é só pegar exemplos de sucesso por aí: Cristiano Ronaldo, Ribery, Robben, Lucas, Neymar. Todos são ponteiros: o antigo ponta, mas recuado para o meio-campo para combater o lateral adversário.

Nas laterais, Ceará é uma boa escolha, mas tem que estar 100% fisicamente. Tem cumprido funções mais defensivas pelo lado direito, principalmente porque do outro lado Éverton tem se mandado para o ataque com mais frequência, e feito bem este papel. Defensivamente é que o volante-lateral tem deficiências que podem ser corrigidas.

No ataque, a presença de Anselmo Ramon no ataque é um indício da contradição entre o desenho tático e a estratégia. O losango, como dito, tem como premissa controlar o meio-campo, e no entanto o Cruzeiro é um time de ligação direta. Principalmente porque não tem qualidade no meio para passar a bola. Assim, bola para o Anselmo disputar no alto ou fazer o pivô e esperar a chegada dos companheiros.

Martinuccio tem feito bem seu papel como segundo atacante, mas sofreu com a marcação nas duas últimas partidas. Estreou bem e se tornou logo uma boa opção de saída de bola, mas os outros técnicos também assistem a jogos do Cruzeiro e logo trataram e marcar o lado forte do ataque celeste. Martinuccio, porém, é como Montillo: rápido e driblador. Ou seja, ideal para ser um ponteiro.

A conclusão é que temos alguns jogadores sim que podem ser utiliazdos com sucesso no esquema, mas nas posições mais cruciais — os meias e o armador — os jogadores que temos não são os melhores para as funções.

O início do fim

Já é quase certo que Celso não permanecerá na próxima temporada. Por isso, as especulações não param de surgir. Numa enquete realizada o site Bloguerreiro, do cruzeirense PC Almeida, o argentino Jorge Sampaoli, discípulo de Marcelo Bielsa, foi eleito o preferido pela torcida, e eu assino embaixo. Sampaoli seria um sopro de novidade no futebol brasileiro, principalmente na parte tática. Seus princípios são um futebol ofensivo sempre, independente do resultado, e marcação pressão. Mesmo com a derrota da La U, seu atual time, para o São Paulo na Sulamericana, Sampaoli disse ficar “orgulhoso” de seus jogadores, porque a equipe atacou sempre. Uma filosofia que vai de encontro à linha histórica de times ofensivos e vistosos do Cruzeiro.

Um sinal claro de que o cruzeirense não quer mais do mesmo é que Felipão e Luxemburgo foram opções vencidas: já os considero ultrapassados. Também figuraram na lista Adilson Batista (que tem muita rejeição mas seria um bom nome, desde que se atualizasse) e Marcelo Oliveira (ex-Coritiba, atual Vasco e atleticano, ou seja, não). A imprensa ventilou também Enderson Moreira, atual técnico do Goiás. É uma aposta arriscadíssima, principalmente devido à falta de experiência de Enderson em um time de ponta e toda a pressão que isso acarreta. Mas ele vem fazendo um bom trabalho no Goiás — inclusive fazendo uma substituição criticada pelo comentarista da TV, mas que acabou por ser determinante no gol fora de casa que eliminou o Atlético Mineiro na Copa do Brasil deste ano.

Amanhã irei ao Independência na esperança de ver um outro esquema de jogo. Qualquer outro que não o losango já servirá. Se não, pode escrever aí: o Ceará vai sofrer com o Neymar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *