Cruzeiro 2 x 1 Atlético/MG – O Mineirão é nosso

Com licença, caro leitor. Cabe aqui algumas palavras sobre um retorno que definitivamente será marcante para toda a cruzeiridade.

Sabe aquele momento, após entrar pelo portão do estádio, quando você sobe aquele último lance de escadas que dá para a arquibancada, e dá de cara com o relvado verde, como um palco com cortinas fechadas esperando o espetáculo se iniciar? Foi assim que este blogueiro se sentiu ontem no Mineirão, após dois anos e tanto de um longo e tenebroso inverno.

Foi nesse palco que eu vi as maiores glórias do Cruzeiro desde que passei a me entender por gente. Vi Elivélton marcar o gol do bi; vi Geovanni seguir a dica do Muller e bater por baixo da barreira para desespero do Ceni; vi aquela falta que o Zinho cobrou passar por cima de todo mundo e entrar direto, e depois Alex, que estava fora daquele jogo, dar a volta olímpica antes do jogo acabar: ninguém se lembra daquele gol do Paysandu.

Quando eu ia ao estádio do América, no ano passado, assistir aos jogos do Cruzeiro, eu não me sentia em casa de fato. A torcida estava lá, o time estava lá, mas tinha algo diferente, inexplicável, que incomodava, não nos deixava à vontade. Essa sensação nunca existiu ontem. Apesar de tantos problemas de serviço, nunca me senti tão confortável.

Talvez os jogadores se sentiram da mesma forma. Talvez seja este um dos fatores que contribu­íram para a vitória — o resultado não podia ser outro no jogo inaugural. Afinal, o Mineirão é, sem sombra de dúvida, a verdadeira casa do Cruzeiro.

Isto posto, vamos às notas táticas.

4-2-3-1 vs. 4-2-3-1

O 4-2-3-1 inicial do Cruzeiro, com Guerreiro preso na marcação de Ronaldinho, Nilton mais solto e Everton Ribeiro levando vantagem sobre Júnior César

O 4-2-3-1 inicial do Cruzeiro, com Guerreiro preso na marcação de Ronaldinho, Nilton mais solto e Everton Ribeiro levando vantagem sobre Júnior César

Ao contrário da previsão deste blogueiro – naturalmente – Marcelo Oliveira escolheu Anselmo Ramon ao invés de Vinicius Araújo para ocupar a referência do ataque à frente da linha de três meias do 4-2-3-1. Everton Ribeiro à direita, Ricardo Goulart por dentro e Everton à esquerda tinham o suporte de Nilton, mais atrás, enquanto Leandro Guerreiro ficou quase exclusivamente na proteção aos zagueiros Bruno Rodrigo e Paulão. Ceará na direita e Egídio do outro lado fechavam a última linha defensiva à frente de Fábio.

O time rival veio com o mesmo onze manjado do ano passado, exceção feita ao estreante Araújo como ponteiro direito no 4-2-3-1 de Cuca. A meta de Victor foi defendida por Marcos Rocha na lateral direita, Réver e Leonardo Silva no miolo de zaga e Júnior César na esquerda. Pierre e Leandro Donizete faziam a dupla volância, com Ronaldinho centralizado distribuindo para Araújo e Bernard, este pela esquerda, enquanto Jô era o centro-avante.

A dupla volância

É normal em um 4-2-3-1 que um dos volantes saia mais para o jogo enquanto o outro fique mais por conta de marcar o meia central adversário. No Cruzeiro, Leandro Guerreiro perseguiu Ronaldinho como uma sombra, enquanto Nilton tinha mais tempo livre. Já no rival, isto ficou mais indefinido. Pierre deveria marcar Ricardo Goulart, mas a movimentação do nosso camisa 31 dificultou seu trabalho. Assim, Nilton e Leandro Donizete tinham um pouco mais liberdade, e frequentemente se encontravam em campo, um marcando o outro.

Mas Nilton conseguia se livrar melhor da marcação no meio e se juntar ao ataque, e com isso Pierre ficava sobrecarregado. Facilitou para Ricardo Goulart, que demorou a achar um espaço entre as linhas para ter tempo de encaixar um passe, mas quando o fez foi decisivo: primeiro conectou a Everton Ribeiro livre nas costas de Junior César, na primeira finalização do Novo Mineirão. Depois, em jogada rápida, viu Leandro Guerreiro aparecer como homem-surpresa e cruzar na primeira trava para Anselmo Ramon marcar o primeiro gol da história do novo estádio.

Sim, foi ele, não importa o que diga a súmula.

Estilo de centro-avante

Falando em Anselmo: falar após o jogo é fácil, mas análise tática é informação, e não previsão. Marcelo Oliveira acertou ao escalar o camisa 99 ao invés do garoto Vinicius Araújo. Explico: a vantagem que Nilton proporcionava ao Cruzeiro no meio-campo, explicada acima, era muito sutil. O gol do rival em uma falha de posicionamento na bola parada — normal em um início de temporada — fez o jogo seguir muito parelho, com o meio-campo bem travado, já que nenhuma das equipes optou por marcar adiantado. Os zagueiros ficavam livres, mas as linhas de passe para os volantes e laterais não. A consequência era um festival de ligação direta: por isso a escolha por Anselmo Ramon. Os zagueiros de ambos os times procuravam seus centroavantes, que disputavam a bola pelo alto ou seguravam a posse até receberem ajuda de trás. Fosse o garoto camisa 30 no comando do ataque, o Cruzeiro seria forçado a jogar mais pelo chão, com o que teria dificuldades.

Os lados do campo

Os embates nas pontas do campo eram os previstos, mas com uma certa vantagem para o Cruzeiro em ambos os lados. Do lado esquerdo, a presença de Everton segurou o ímpeto de Marcos Rocha, que pouco apoiou no primeiro tempo. Egídio teve certa dificuldade para marcar Araújo, mas conseguiu fazer bem seu trabalho e aproveitou a vulnerabilidade defensiva do rival para apoiar mais.

No lado direito, a vantagem azul era mais clara. Ceará, experiente, embolsou Bernard mais uma vez, salvo em algumas jogadas individuais do jogador rival, e ainda conseguiu subir ao ataque com consistência, provendo cruzamentos perigosos. Júnior César sofreu com Éverton Ribeiro, que tem tudo para ser um dos melhores jogadores desta equipe. Joga pelo lado, mas centraliza quando precisa e confunde toda a marcação.

Mudanças

Percebendo a desvantagem, Cuca trocou seus dois volantes de uma só vez no intervalo. Gilberto Silva entrou para ser o cão de guarda da defesa, e Serginho foi jogar mais no alto do campo, encostando mais em Nilton. As mudanças fizeram o time rival ficar num 4-1-2-3, a formação clássica de um 4-3-3. Além disso, Cuca inverteu Bernard e Araújo, na esperança de que o primeiro levasse vantagem sobre Egídio. A esperança se confirmou e o rival passou a ter um leve domínio no início da segunda etapa.

Após algumas chances desperdiçadas pelo adversário, Marcelo Oliveira se mexeu. A esperada entrada de Dagoberto aconteceu, mas para supresa de todos, foi Éverton quem saiu. Egídio permaneceu na lateral esquerda. Além disso, outra cria da base entrou no jogo: o garoto Alisson, na vaga de Ricardo Goulart. Com isso, Éverton Ribeiro ficou na articulação central, com Dagoberto na direita e Alisson na esquerda. Nem passaram três minutos e, em funções “invertidas”, Anselmo Ramon, na ponta esquerda recebendo passe de Egídio, cruzou para Dagoberto, de centro-avante, testar com força, para o chão, e ver Victor se lamentar ao ver o gol da vitória cruzeirense.

Dez contra onze

Com um a menos, Marcelo Oliveira ousou um 4-2-3 que deixava Gilberto Silva, o jogador adversário menos perigoso com a bola nos pés, livre

Com um a menos, Marcelo Oliveira ousou um 4-2-3 que deixava Gilberto Silva, o jogador adversário menos perigoso com a bola nos pés, livre

O rival sentiu o golpe e o jogo ficou parelho novamente, até que Leandro Guerreiro recebeu o vermelho por acúmulo de cartões amarelos: muitas faltas em Ronaldinho. Cuca imediatamente colocou mais um homem de área, prevendo a maior posse de bola no meio-campo devido ao homem a mais: Alecsandro entrou no lugar de Araújo. O 4-3-3 se manteve. Marcelo Oliveira, já que tinha de dar espaço a algum jogador, inteligentemente decidiu dá-lo ao que tinha menos qualidade com a bola nos pés: sacou Everton Ribeiro do time, colocou Tinga onde Leandro Guerreiro devia estar, e assim o Cruzeiro deixava de ter um meia-central, dando espaço e liberdade para o veterano Gilberto Silva.

Com este ousado 4-2-3, o Cruzeiro foi melhor mesmo com um a menos em campo. O rival tinha mais a bola nos pés, mas era uma posse de bola infrutífera. Fábio, a rigor, não fez nenhuma defesa difícil durante todo o jogo, diferente do goleiro rival, que salvou o terceiro gol em várias ocasiões. E o jogo seguiu nesse diapasão até o fim.

Reinaugurado em grande estilo

Marcelo Oliveira fez um jogo para superar a desconfiança e até animar a torcida do Cruzeiro. Armou uma estratégia para vencer o clássico, e conseguiu neutralizar as principais armas do oponente: bola aérea com os zagueiros e lançamentos em profundidade de Ronaldinho para os pontas. Ofensivamente, surpreendeu o adversário e a própria torcida, com movimentação, fazendo parecer que já jogavam juntos há algum tempo. O tal do desentrosamento pouco apareceu em campo com a bola rolando.

Marcelo me parece ser um bom estrategista — como todo técnico de futebol moderno deve ser. Tem bola leitura de jogo, e, diferente do ano passado, o Cruzeiro agora tem peças para variar sua estratégia e esquema. Torceremos para continuar nesse caminho. Pois, se ontem o Mineirão foi devidamente reinaugurado pelo Cruzeiro, com o primeiro gol marcado, o primeiro sofrido, o primeiro cartão vermelho, o primeiro grande jogo e a primeira vitória, temos tudo para termos, já neste ano, na nossa verdadeira casa, o primeiro título.

Oxalá!

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