Araxá 2 x 3 Cruzeiro – Depois do vermelho

Num jogo em que o Araxá executou muito bem sua proposta tática, Borges marcou duas vezes e o Cruzeiro manteve a liderança do Campeonato Mineiro — tarefa que foi facilitada pela expulsão de Carlão no início da etapa final.

O 4-2-3-1 inicial: Diego Souza se movimentando, laterais bloqueados pelos alas adversários e volantes pouco participativos

O 4-2-3-1 inicial: Diego Souza se movimentando, laterais bloqueados pelos alas adversários e volantes pouco participativos

O 4-2-3-1 habitual de Marcelo Oliveira desta vez teve duas novidades no quarteto ofensivo em relação ao jogo passado: atrás do garoto Vinicius Araújo no comando do ataque, Dagoberto voltou ao time titular como ponteiro esquerdo. Diego Souza centralizado e Everton Ribeiro completavam a linha de três meias, suportada por Leandro Guerreiro e Nilton na dupla volância e a linha defensiva formada por Ceará na lateral direita, Everton na lateral esquerda e Nirley estreando ao lado de Paulão no miolo de zaga, protegendo o gol de Fábio.

O Araxá do técnico Flávio Lopes teve três zagueiros “ão” à frente do gol de Marcelo Cruz: dois “Rodrigões”, o Mineiro pela direita e o Paulista por dentro, e Carlão pela esquerda. No meio campo do 3-4-1-2, os alas Osvaldir na direita e Fabiano na esquerda flanqueavam os volantes Bruno Moreno e Balduíno e Braitner era o encarregado da ligação para Evandro e Fabrício Carvalho.

Encaixe

Em seu livro sobre a história da tática no futebol, “Invertendo a Pirâmide” (infelizmente ainda não publicado no Brasil), Jonathan Wilson discorre sobre a ascensão do 4-2-3-1 e, por consequência, o declínio do 3-5-2 (e sistemas derivados). Em resumo, ele diz, citando Nelsinho Batista, que os alas do 3-5-2 têm que recuar para marcar os ponteiros do 4-2-3-1, criando uma sobra redundante de cinco homens contra três. Isso libera os laterais adversários para ser o homem da sobra na defesa, ajudar no meio-campo ou apoiar o ataque sem ser incomodados. Assim, o time do 4-2-3-1 domina a posse de bola e ao mesmo tempo tem mais amplitude.

No entanto, corajosamente, Flávio Lopes pediu justamente o oposto para seus alas: Fabiano e, principalmente, Osvaldir jogavam muito avançados, alinhando-se com os meias, formando uma espécie de 3-2-4-1. O objetivo era justamente bloquear a saída pelas laterais do Cruzeiro, que foi a única alternativa no primeiro tempo do jogo anterior. Era só a bola chegar em Ceará ou Everton que eles já eram pressionados, à frente da linha do meio-campo, pelos alas. Quase não vimos o camisa 2 e o 23 apoiarem o ataque. Isso, somado à pouca participação ofensiva dos volantes, e a forte marcação imposta ao quarteto ofensivo, deixava o Cruzeiro com mais posse de bola — chegou a mais de 60% em um determinado momento do primeiro tempo — mas sem produzir muito.

Sobra no meio

A marcação araxaense na última linha, inclusive, tinha uma particularidade. Os zagueiros não permaneciam centralizados, como é o costume de um sistema com um trio defensivo. Os zagueiros de lado saíam à caça dos ponteiros cruzeirenses, enquanto Rodrigão Paulista ficava a cargo de Vinicius Araújo. Não havia cobertura na zaga, pois ela estava no meio-campo: Diego Souza era perseguido de perto por Balduíno, com Bruno Moreno ajudando. Com todos os jogadores ocupados, sobrava para os zagueiros Paulão e Nirley — nenhum particularmente criativo ou bom passador — iniciarem o trabalho de ataque.

Todos estes fatores fizeram o Araxá ser melhor no primeiro tempo. A cada passe errado do Cruzeiro, a bola chegava rapidamente em Fabrício Carvalho, que fez uma excelente partida na função do centro-avante de referência. Ele abusou dos passes de primeira para o velocíssimo Evandro, sempre levando a melhor sobre Nirley e pegando a defesa do Cruzeiro desprevenida, sem o suporte dos volantes. As chances criadas pelo time da casa não foram em vão.

A jogada do gol não teve particularmente um aspecto tático, tirando o fato do Araxá estar com a marcação bem adiantada na posse de bola azul (a alternância de pressão do Araxá também foi um fator que chamou a atenção). A lambança de Nirley e Fábio gerou o escanteio que expôs novamente o que já podemos dizer ser um problema crônico do Cruzeiro: a bola parada, cada vez mais uma arma no futebol moderno — para a tristeza deste blogueiro, que gosta de gols com bola rolando.

10 contra 11

A movimentação de Diego Souza, tentando cair pelos lados para fugir da perseguição de Balduíno, aumentou um pouco a paciência de Marcelo Oliveira, que não mexeu no intervalo. Ele provavelmente quis testar o comportamento do time atrás no placar. Dez minutos foram suficientes para ver que nada tinha mudado: mesmo vencendo, o time da casa não abdicou do ataque e manteve a proposta, tendo a primeira chance logo a um minuto em contra-ataque velocíssimo, finalizado por Bruno Moreno em cima de Fábio.

Após as substiuições, Luan e Everton Ribeiro se revezavam pela esquerda, mas foi a velocidade de Élber do outro lado que provocou a expulsão

Após as substituições, Luan e Everton Ribeiro se revezavam pela esquerda, mas foi a velocidade de Élber do outro lado que provocou a expulsão

O time precisava de velocidade e movimentação. Élber entrou na vaga de Dagoberto, invertendo Everton Ribeiro de lado, e Borges entrou na vaga de Vinicius Araújo: o 4-2-3-1 estava mantido. Logo no primeiro lance, Élber sofreu falta dura de Carlão, que já tinha amarelo. A expulsão por acúmulo desmontou o sólido sistema defensivo de Flávio Lopes, mesmo após a recomposição do trio de zagueiros com a entrada de Bruno na vaga de Braitner. Isso porque a cobertura no meio-campo deixou de existir, já que um dos volantes agora tinha que cuidar de Nilton ou Leandro Guerreiro, agora livres para apoiar. E com isso um pouco do futebol de Diego Souza apareceu.

Logo após o empate de Paulão, fuzilando de primeira após cabeceio ofensivo de escanteio, o camisa 10 fez uma jogada na sua característica, arrancando na força física. Rodrigão teve de sair da marcação a Borges para tentar parar o avanço do meia, mas o passe de Diego Souza nesse exato momento matou a cobertura e deixou o camisa 9 na cara do gol, que venceu Marcelo Cruz para a virada.

Quando tudo parecia mais tranquilo, o Araxá empatou em pênalti cometido por Nirley em Fabrício Carvalho. Logo após o gol, Marcelo Oliveira lançou Luan de ponteiro esquerdo na vaga de Everton, passando Everton Ribeiro para a lateral esquerda. Na verdade era muito mais um revezamento, mas a intenção era dar mais verticalidade àquele lado do campo. Mas o gol da vitória veio pela direita. Ceará achou Diego Souza fugindo da marcação no meio, indo para a direita da área. Com apenas um marcador à frente, Diego arriscou pro gol, e no rebote de Marcelo Cruz, Borges fez seu segundo gol na partida.

Flávio Lopes ainda tentou mandar o time à frente para tentar novo empate, com as entradas de Roberto Jacaré e Michel Cury no meio-campo nas vagas de Bruno Moreno e Evandro, deixando apenas Fabrício Carvalho à frente. A intenção era repovoar o meio-campo, mas com um homem a menos havia muito chão para cobrir, e o Cruzeiro manteve a tranquilidade com a posse de bola até o fim.

Paciência e elenco

O jogo de ontem mostrou que o Cruzeiro ainda tem deficiências a serem corrigidas — o que é normal, pois ainda considero o time em formação. A bola parada, uma das cinco fases do jogo, ainda não deve ser a prioridade de Marcelo Oliveira nos treinamentos, mas sim as outras quatro: a fase ofensiva (posse de bola no ataque), transição ofensiva (também conhecido como contra-ataque), transição defensiva (contra-ataque do adversário, ou seja, a recomposição) e fase defensiva (posse de bola do adversário). Este blogueiro-torcedor aprova: marcar gols e evitar os do adversário com a bola rolando faz com que eventuais deslizes na bola parada sejam menores.

Um outro possível problema está na volância: o Cruzeiro precisa, nestes jogos, de um volante passador, que apóie mais. Nilton e Leandro Guerreiro são excelentes na marcação, mas contra esquemas como o de ontem não conseguem jogar. A variação tática proporcionada por um jogador como Henrique ou Lucas Silva, por exemplo, seria muito importante para anular estes sistemas defensivos, já que o avanço do volante configuraria um 4-1-4-1 temporário e cancelaria a sobra dupla no meio, dando mais liberdade a Diego Souza.

O camisa 10, aliás, foi uma das notas boa do jogo: movimentou-se mais, recebeu mais bolas e deu mais assistências. Aos poucos vai ganhando “ritmo de futebol brasileiro” e tem tudo para despontar nas fases agudas do Mineiro e nas primeiras rodadas do Brasileirão, no qual os adversários certamente jogarão de maneira menos reativa que os últimos adversários celestes.

É claro que, exigente como é, a torcida cruzeirense já quer que o time esteja voando. Mas é preciso paciência. A boa notícia que é o banco está resolvendo. É como aquela frase famosa diz: “bons times ganham jogos, bons elencos ganham campeonatos”.

E são campeonatos que nós queremos.

2 observações em “Araxá 2 x 3 Cruzeiro – Depois do vermelho

  1. Rodrigo disse:

    Concordo com a justificativa de “time em formação”. No entanto, o fato de o time render melhor no segundo tempo e com atletas que saem do banco não mostra que as escalações estão equivocadas?

  2. Christiano Candian disse:

    Rodrigo, acho que o cartão vermelho foi mais determinante que as substituições. Não só os jogadores que entraram conseguiram melhorar o time, mas também os que já estavam em campo melhoraram, vide Diego Souza. Prefiro encarar isto como um fato que há muito não se vê: o Cruzeiro tem elenco, e os reservas também resolvem. Obrigado pelo comentário!

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