Atlético/PR 2 x 2 Cruzeiro – Futebol de lama

Abro a análise de hoje com a síntese do jogo que o técnico Marcelo Oliveira deu ao repórter do Premiere FC após a partida.

“Foram tempos distintos. O Atlético nos dominou no primeiro tempo, se adaptou melhor ao gramado — se é que posso chamar de gramado. Então foi chutão pra lá e pra cá, [o Atlético] aproveitou da bola parada e da segunda bola. E nós equilibramos no segundo tempo, fizemos alguns contra-ataques importantes, e desperdiçamos. Mas acho que ficou de bom tamanho, foi justo o empate.”

Marcelo fala de três fatores determinantes para o resultado de hoje: (1) o arremedo de gramado prejudica a execução de qualquer estratégia que não seja (2) a bola longa e a bola parada. E foi usando exatamente desse expediente que o Cruzeiro mudou a forma de jogar no segundo tempo e conseguiu (3) contra-ataques que poderiam resultar em mais três pontos.

Porém, há outros aspectos que também devem ser levados em conta.

Escalações

A grande distância entre os volantes e os meias e a sobrecarga pelo lado esquerdo dificultaram o jogo cruzeirense na primeira etapa

A grande distância entre os volantes e os meias e a sobrecarga pelo lado esquerdo dificultaram o jogo cruzeirense na primeira etapa

Marcelo mandou a campo o 4-2-3-1 de sempre, o que hoje pode ser considerado o time titular. A linha defensiva que protegia o gol de Fábio era formada por Dedé e Bruno Rodrigo na zaga, ladeados por Ceará à direita e Egídio do outro lado. Leandro Guerreiro e Nilton, este último ligeiramente mais avançado, faziam a proteção à área. Everton Ribeiro era o ponteiro direito, com a famosa tendência a centralizar e se juntar a Diego Souza, o meia central. Na ponta esquerda, Dagoberto ficava um pouco mais espetado e procurava se juntar a Borges, na frente.

O Atlético Paranaense do técnico Ricardo Drubscky entrou num 4-3-3 clássico, com um volante e dois meias (4-1-2-3). O gol de Weverton foi defendido por Léo na lateral direita, Manoel e Cleberson no miolo e Pedro Botelho à esquerda. Deivid foi o volante mais preso, liberando João Paulo e Everton para se juntarem ao ataque, formado por Ederson na ponta direita, Marcão centralizado e Felipe pela esquerda.

Terrestre x aéreo

O Cruzeiro tinha confiança que ia superar o péssimo estado do gramado tentando jogar da mesma forma de sempre: trocando passes, cadenciando e girando a bola. Mas o gramado venceu essa batalha prejudicando muito a estratégia celeste, simbolizada num lance em que Everton Ribeiro pega uma sobra de bola e passa a Borges. A devolução do camisa 9 foi boa, e Everton Ribeiro se posicionou de forma a esperar a bola que certamente chegaria em seus pés se o gramado fosse minimamente razoável, mas que ficou presa em uma poça de lama que freou sua trajetória, atrasando o que seria um excelente contra-ataque.

Já o Atlético não quis saber de transições pelo chão e jogava a bola longa pelo alto. Foi assim que o Atlético Paranaense chegava com facilidade à frente da área cruzeirense. Pra essa estratégia funcionar, entretanto, é preciso que o time atacante pegue a segunda bola. Chama-se de” segunda bola” a sobra da disputa de cabeça pelo alto, que é a “primeira bola” Quando treinadores falam que o jogo foi de primeira e segunda bola, eles querem dizer “disputas pelo alto e vamos ver quem pega a sobra”.

Descompactação

No Atlético, a ligação direta quase sempre procurava Marcão, que disputava na maioria das vezes com Dedé. Ele não ganhou muitas, mas a segunda bola era sempre do time da casa, isso porque os setores do Cruzeiro estavam muito espaçados. Marcelo queria a marcação no alto do campo, e quarteto ofensivo tentava fazer isso, mas a zaga e os volantes era pressionados pra trás pela bola longa, abrindo um clarão de Guerreiro e Nilton aos três meias. A segunda bola quase sempre caía por ali, e com isso os jogadores de meio do Atlético avançavam com a bola dominada quase sempre com pouca marcação.

Dois contra um

Mas a parte mais vulnerável do time era o lado esquerdo da defesa. Ricardo Drubscky certamente estudou o Cruzeiro e notou que o trabalho defensivo de Dagoberto por aquele setor não é tão intenso. Ele escalou Léo, um jovem lateral com muito ímpeto ofensivo e grande velocidade, e Ederson, também muito veloz e driblador. Sem Dagoberto para auxiliar na marcação, Egídio se viu sobrecarregado e precisou da ajuda constante dos volantes Nilton e Guerreiro. Em uma jogada específica é possível ver os dois volantes celestes jogando por aquele lado, deixando a direita e o meio totalmente desprotegidos.

Com essa dificuldade, o Cruzeiro cometia sucessivas faltas, deixando a oportunidade da bola aérea em sua própria defesa. Todos os fatores combinados originaram os gols da equipe da casa. Falta cometida por Guerreiro pela esquerda, bola na área, a defesa afasta mal e a bola volta. Sem marcação, do outro lado, o lateral esquerdo Pedro Botelho completou no canto de Fábio. Depois, mais uma falta pela esquerda, e desta vez Manoel completou a bola aérea em falha dos dois zagueiros do Cruzeiro, que subiram errado na bola e deixaram o zagueiro atleticano livre.

O feitiço contra o feiticeiro

Ainda no fim do primeiro tempo, o jovem Léo sentiu uma lesão e foi substituído pelo volante Derley na lateral direita. Isso representou um alívio imediato para Egídio, e também para Dagoberto, que agora não precisava voltar tanto já que Derley era muito mais marcador que Léo. Com menos pressão, Egídio começou a se aventurar mais na frente, e foi numa falta sofrida pelo lateral cruzeirense em tabela com Diego Souza — naquele momento pela esquerda, com Dagoberto pela direita e Everton Ribeiro no meio — que o empate começou a ser construído. Cobrança de Dagoberto, a zaga afasta mal e Dedé, de pé esquerdo, jogou mansinho para o gol.

No intervalo, Marcelo Oliveira percebeu que o jogo tinha que ser feio: muito mais físico do que técnico. Aproveitou a indisposição de Dagoberto para lançar Luan, muito menos driblador mas bem mais forte, pelo lado esquerdo do campo. O empate veio no primeiro toque do camisa 88 na bola, numa jogada que ilustra como o Cruzeiro teve que mudar sua estratégia de jogo. Logo na saída, bola longa para Luan disputar pelo alto. A bola sobrou pra Borges, que foi desarmado, mas depois também sobrou limpa para Luan completar de fora da área.

Taticamente mais preso àquele setor, Luan não só segurou Derley por ali como também voltava muito mais para marcar do que Dagoberto, praticamente anulando as investidas de Ederson pela direita do ataque atleticano. Com Egídio mais livre, era Ederson quem tinha que voltar, e com isso a situação se invertia: o lado esquerdo do Cruzeiro, direito do Atlético Paranaense, antes o caminho do gol para o time da casa, era agora vantajoso para o time celeste.

Contra-ataques

A entrada de Luan e o recuo da linha ofensiva ajudaram a resolver os problemas da primeira etapa e o Cruzeiro por pouco não conseguiu a virada

A entrada de Luan e o recuo da linha ofensiva ajudaram a resolver os problemas da primeira etapa, e o Cruzeiro por pouco não conseguiu a virada

O jogo de fato ficou bem mais feio, mais pegado e disputado, e com muito menos técnica. Celso Roth diria que era um jogo não para se jogar, mas para se “competir”. E o Cruzeiro entendeu bem isso, disputando cada bola e equilibrando a partida na base da força. O Atlético sentiu o empate e procurava ficar mais com a bola. Mas Marcelo Oliveira certamente pediu para seus homens de frente marcarem atrás da linha do meio-campo, e a aproximação dos setores compactou o time fechando todas as brechas. A segunda bola já não era sempre do time da casa, e não havia brechas por onde entrar.

Com o time mais recuado, o Cruzeiro chamava o Atlético a seu campo e partia em contra-ataques, quase sempre usando a bola longa para Luan ou Borges. Numa jogada, Egídio pegou uma segunda bola e achou Diego Souza pela esquerda, que fez o pivô e mandou a Borges sozinho na área. O cabeceio veio fraco, mas o lance ilustra como o Cruzeiro teve chances em jogadas de velocidade e pelo alto. Luan ainda teria mais duas oportunidades, e também Everton Ribeiro para decretar a virada, mas o placar insistiu no empate.

As outras trocas feitas pelos treinadores não alteraram as plataformas táticas nem as estratégias de jogo. Borges por Anselmo na referência, Everton Ribeiro por Ricardo Goulart na meia, mandando Diego Souza para a direita. No Atlético, as trocas foram diretas e simples, e o 4-3-3 se manteve até o fim.

Números e o “gramado”

Ao invés de fazer uma conclusão, darei aqui alguns números que provam como o Cruzeiro poderia ter saído com os três pontos se não tivesse errado tanto. Ambos os times acertaram 50% de suas finalizações, mas o Cruzeiro finalizou 18 vezes, contra 14 do Atlético. Considerando que o Atlético teve mais posse de bola (60% x 40%), o Cruzeiro foi mais eficiente e chegou mais ao gol adversário — fruto da estratégia do segundo tempo.

O site da ESPN Brasil também disponibiliza os números da Footstats de tempo de posse de bola por setor do campo. O Atlético passou 42,47% do tempo com a bola em seu lado direito, e o Cruzeiro 43,09%, mostrando como o jogo se concentrou naquele lado do campo. Também, o Cruzeiro foi a equipe que passou menos tempo em seu meio-campo do que nos setores de ataque e defesa nesta rodada, ilustrando bem o jogo de bola longa que o gramado permitia.

O jogo de hoje mostrou que o Cruzeiro tem capacidade de adaptação e elenco variado e heterogêneo, aspectos quase indispensáveis para se almejar o título. Por outro lado, também mostrou algumas falhas, como erros em bolas aéreas e algumas decisões estratégicas equivocadas, mas estes fatores foram causados mais pelo péssimo estado do campo do que propriamente pelo adversário.

Como acho difícil jogarmos novamente em um gramado tão ruim, o Cruzeiro ainda está muito credenciado ao título.

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