Cruzeiro 5 x 0 Atlético/GO – Bom, mas nem tanto

O Cruzeiro reencontrou o Mineirão com uma pentagoleada sobre o Atlético Goianiense, com gols de cinco jogadores diferentes, e praticamente garantiu passagem às oitavas da Copa do Brasil. Entretanto, o jogo não foi tão bom taticamente, mas o Cruzeiro soube aproveitar as fragilidades do adversário para marcar. Ao contrário do que muitas críticas que li em vários sites, não achei uma exibição exemplar.

Escretes iniciais

Com Diego mais próximo de Vinicius Araújo, Cruzeiro pressionou a saída dois goianos no primeiro tempo, mas sem qualidade de passe

Com Diego mais próximo de Vinicius Araújo, Cruzeiro pressionou a saída dois goianos no primeiro tempo, mas sem qualidade de passe

Marcelo Oliveira mandou o mesmo time que enfrentou a Portuguesa no fim de semana, no já usual 4-2-3-1: o gol de Fábio protegido por Dedé e Bruno Rodrigo, com Mayke na direita e Egídio fechando pela esquerda. Nilton mais plantado liberava Souza, que se juntava ao trio de meias: Everton Ribeiro vindo da direita pro centro, Diego Souza por dentro mas se aproximando de Vinicius Araújo na frente e Luan um pouco mais preso à faixa esquerda.

O Atlético Goianiense de Renê Simões também veio no 4-2-3-1, mas com o posicionamento mais fixo. O goleiro Márcio teve Diogo Campos à direita, Artur e Diego Giaretta na zaga central e Ernandes na esquerda. Na dupla volância, Dodó e Marino ajudavam João Paulo por dentro, que era flanqueado por Pipico na destra e Jorginho na esquerda, todos procurando o centro-avante Ricardo Jesus.

Pressão na frente

Diferentemente do que fez contra a Portuguesa, logo no início do jogo o Cruzeiro avançou a marcação e forçava ou o chute longo ou a saída de bola errada do time goiano. Mas, ao recuperar a bola, não sabia muito bem o que fazer com ela. O Atlético Goianiense aproximava suas linhas e dificultava a saída pelo chão, fazendo com que os zagueiros e volantes cruzeirenses trocassem passes sem ser incomodados. Souza até tinha tempo com a bola, mas não consguia achar alvos à frente. Diego e Everton Ribeiro, muito marcados, não tinham condições de receber os passes com tempo para pensar o jogo, e assim o trabalho ofensivo era forçado para os laterais. Egídio saía mais que Mayke no início do jogo, mas foi numa jogada pela direita que saiu o primeiro gol, logo aos 10 minutos, com Diego Souza.

Como é de praxe, o gol mudou o jogo. O Atlético Goianiense ficou menos tímido e, quando conseguia sair da pressão no alto do campo imposta pelo Cruzeiro, conseguia achar bolsões de espaço justamente atrás dos ponteiros, particularmente Everton Ribeiro, que não volta tanto com o lateral adversário como Luan faz do outro lado. Num desses lances, Pipico conseguiu iludir a marcação e chutar de dentro da área, em falha de posicionamento de Dedé.

Já o Cruzeiro não diminuiu o seu ritmo, mas pecava na hora de decidir entre acelerar e cadenciar o jogo. Na expectativa de pegar a defesa goiana aberta, o Cruzeiro muitas vezes errava um passe bobo, pois queria acelerar demais o jogo quando não era necessário, e rapidamente concedia novamente a posse de bola. Quando encaixava o passe, porém, chegava com facilidade sobre a lenta defesa goiana. Assim, mesmo sem fazer muita força e com alguns problemas coletivos, o Cruzeiro dominava a partida, fazendo ainda mais dois gols de cabeça em cobranças de falta pelo lado: uma pela esquerda, com Souza mandando na cabeça de Vinicius Araújo, e outra pela esquerda, com Egídio assistindo Dedé.

Segundo tempo

No intervalo, Renê Simões trocou Jorginho por Robston e Pipico por Juninho. Robston foi jogar mais perto de Dodó, fazendo um terceiro homem de meio-campo, e João Paulo foi ser ponteiro esquerdo. Já Juninho foi uma substituição direta, para tentar explorar sua velocidade nas costas de Egídio — um espaço que o lateral deixa e que já foi citado neste blog. O time visitante acabou se postando num 4-3-3 que virava 4-1-4-1 sem a bola, encaixando ainda mais a marcação no time celeste. Isso equilibrou o jogo, e o Cruzeiro já não domínio escancarado da posse de bola e nem tanto domínio territorial. Não houve muitas chances para cada lado, porém.

E se o jogo já estava morno com o 3 a 0, o quarto gol esfriou a partida de vez. Egídio contava com a entrega tática de Luan para continuar apoiando, e na primeira investida ao ataque, cruzou para Vinicius Araújo. Um erro de linha de impedimento da zaga goiana e um corta-luz involuntário do garoto fizeram a bola sobrar limpa para Everton Ribeiro completar para o gol vazio.

Com dez

Após a expulsão e as mudanças, o Cruzeiro se encastelou num 4-4-1 bem compacto que não deu chances para o adversário

Após a expulsão e as mudanças, o Cruzeiro se encastelou num 4-4-1 bem compacto que não deu chances para o adversário

Pouco tempo depois do gol, Bruno Rodrigo foi expulso ao disputar de carrinho uma bola que ele mesmo errou na saída. Um erro infantil para um zagueiro experiente e com o jogo já decidido. Antes das substituições de recomposição, Nilton recuou para a zaga, Diego Souza afundou pra segunda linha e os dois ponteiros se alinharam a ela, ensaiando o 4-4-1 que estaria por vir — o esquema padrão para jogar com dez homens. Os sacrificados foram Everton Ribeiro e Diego Souza, com Léo indo compor a zaga e Nilton retornando ao meio-campo, e Tinga entrando pela direita.

As linhas compactas do Cruzeiro eram mais que suficientes para Fábio se sentir seguro debaixo das traves. O Atlético Goianiense tinha mais a bola, naturalmente, mas não conseguia invadir a área para finalizar com mais qualidade — apenas chutes de longe eram tentados. Renê Simões ainda tentou lançar Caio na vaga de João Paulo, mas isso piorou o time, pois Caio foi jogar por dentro ao invés de ir pela esquerda, transformando o time num 4-3-1-2 losango. A regra padrão para se jogar contra dez jogadores é tentar abrir a defesa, com jogadores de ambos os lados, e o losango é um sistema conhecido por ser estreito. Ernandes bem que tentou apoiar, mas Tinga e Mayke seguraram bem as investidas do lateral esquerdo goiano.

Ainda sobrou tempo para Egídio roubar uma bola do zagueiro Artur e acertar um lindo chute de fora da área, completando a goleada. Mérito do lateral esquerdo, tão contestado pela torcida pela sua deficiência na marcação e por alguns passes afobados. Neste jogo, foi um dos principais jogadores em campo.

No fim, Marcelo Oliveira fez a última substituição, mantendo o 4-4-1 com Ricardo Goulart na vaga de Vinicius Araújo. A troca não foi só para o garoto ser aplaudido na saída, mas também porque Goulart consegue segurar mais a bola no pé ao invés de fazer pivô, limpando a jogada e cadenciando. Fosse para fazer pivô, o escolhido seria Anselmo Ramon, mas isso só faria sentido se os ponteiros fosse rápidos, coisa que Luan e Tinga certamente não são.

Um passo atrás

Estes dois jogos após a Copa das Confederações mostraram que o Cruzeiro perdeu um pouco do entrosamento conquistado até junho. É claro que as lesões de Dagoberto e Borges contribuíram para isso, mas o fator principal foi a chegada de Souza, um volante com características bem diferentes de Nilton e Leandro Guerreiro, que vinha sendo a dupla titular. Este era um problema que este blog já relatava no primeiro semestre, a falta de um volante passador. Pois bem, ele chegou, e com isso o time mudou sua característica. Ainda vai levar um tempo maior para o time se adaptar a isso.

Também é primordial que Marcelo Oliveira encontre uma solução para o pouco trabalho defensivo de Everton Ribeiro, e também para a cobertura de Egídio — ou fazer o lateral esquerdo treinar mais a defesa de seu setor. Hoje, estes são os setores que me parece mais vulneráveis na equipe celeste, e isso se tornará um problema ainda maior com a volta de Dagoberto, que não defende tanto quanto Luan.

E mais: com Dagoberto, Mayke e Souza, o time celeste passa a ter uma característica muito ofensiva, até um pouco desequilibrada, o que faz com que os passes errados sejam uma questão que deve ser resolvida o quanto antes. Não há problema em ter esta vocação para o ataque, desde que o time fique com a bola e seja atacado o mínimo possível — aí estão as filosofias de Barcelona e Espanha que não me deixam mentir. Errar um passe mais incisivo é normal, mas passes laterais e curtos não, e isso vem acontecendo com mais frequência que o aceitável.

Em suma, o meu desejo é que este passo atrás seja para que se dê dois passos pra frente depois. Sabemos que esta é a primeira temporada deste time, mas já tivemos algumas amostras de como a equipe pode render. A torcida do Cruzeiro já está esperando pelo menos uma vaga na Libertadores e/ou chegar longe na Copa do Brasil.

Objetivos possíveis, mas não fáceis de ser alcançados.

6 observações em “Cruzeiro 5 x 0 Atlético/GO – Bom, mas nem tanto

  1. Rodrigo disse:

    Parabéns, é difícil ver alguém conter a euforia depois de uma goleada. Mas é dever observar como a fragilidade do rival, que permitiu a goleada, também foi o suficiente para encontrar espaços e pôr pra correr a zaga celeste pra correr. A falta de compactação entre setores já virou problema crônico?

  2. João Paulo disse:

    Cristiano,

    Parabéns pela análise. O Marcelo Albuquerque citou a análise do PVC a cerca do jogo, realmente muito lúcida, assim como a sua.
    A conclusão que chego, meio que óbvia, é ainda somos um time em formação. O M. Oliveira ainda não deu um padrão tático ao time, principalmente no que tange a maneira do time jogar sem a bola. O problema das laterais seria resolvido se a recomposição do meio campo e da defesa fosse mais rápida, cada um marcando um setor e/ou adversário sempre tendo em mente o fechamento das diagonais e da linha do passe. Tática semelhante a que o Corinthians utilizava no ano passado.
    O grande risco que corremos, e já observado por alguns técnicos adversários, é o da lateral esquerda se tornar o mapa da mina para atacar o Cruzeiro. Esse aspecto deve ser corrigido rapidamente, pois, se enfrentarmos adversários de um grau técnico um pouco melhor, iremos enfrentar sérias dificuldades.
    No mais, gostei da movimentação do Vinícius e da postura do Egídio. Nossas laterais são armas ofensivas importantes, o caminho é encontrar um equilíbrio para continuar com os dois laterais (o Mayke tem se mostrado apto a vestir a camisa de titular) sofrendo menos nos contra ataques.
    Outro ponto, que também ficou claro no jogo, e já salientado no blog, é que tanto a cobertura do B. Rodrigo quanto do Dedé é lenta e falha, deixando o time ainda mais exposto.
    No mais, mesmo com o passo para trás, acho que o time dá sinais de crescimento.
    E a saída do Diego Souza, o que acharam?

  3. Marcelo Albuquerque disse:

    A juventude do elenco dá fôlego para a almejada recomposição rápida, mas é preciso treiná-la, pois não se trata apenas de voltar, mas de reorganizar a marcação.
    A compactação e a saída de jogo, igualmente, exige treinamento tático (pois a técnica, os nossos jogadores têm).
    Começa a me preocupar que a fragilidade da grande maioria dos adversários enfrentados até aqui mascare a nossa própria. O número de passes errados no jogo contra o fraquíssimo Náutico assustou.
    A venda do Diego Souza foi uma ótima saída para desobrigar o Marcelo de escalá-lo e dar chances para jogadores que podem produzir mais, como Goulart e Lucca. Só lamento que, pelo menos por enquanto, tal saída não tenha deslocado o Everton Ribeiro para o meio, onde creio que ele renderá muito mais.

  4. João Paulo disse:

    Marcelo,

    Eu acho que com a mobilidade e velocidade tanto do Lucca quanto do Goulart, a tendência é o Éverton voltar a ocupar o meio de campo, mas flutuando sempre, principalmente pela esquerda.
    No lance do gol do Vinícius, meio que sem querer, ele deu uma assistência, mas o lance do gol em si foi de uma jogada trabalhada, inclusive com um ótimo passe do Vinícius para o Ribeiro, que só não marcou porque “não tem” a perna direita. Aos poucos o futebol dele irá se ajustar.
    O que vocês acharam da vinda do Willian? Parece que ele faz o lado direito, abrindo possibilidades para um 4-3-3 e sabe recompor a defesa. Se o M. Oliveira conseguir corrigir estes detalhes que estamos discutindo, as possibilidades do time crescem muito, espero que ele esteja atento às falhas do time, para corrigi-las.
    Como o Campeonato Brasileiro é de “arrancada”, ainda dá tempo de corrigir estes detalhes. Contra o São Paulo vai ser uma boa oportunidade de vermos um teste mais forte, pois, apesar do momento, o time deles é bom.

  5. Rodrigo disse:

    Se o Willians realmente era banco no Metalist, acho pouco provável que sua fase permita que seja titular no Cruzeiro. Também gosto do Ribeiro flutuando no meio. Triste ver toda a imprensa mineira insistindo que o time precisa de um “armador clássico”.

  6. Christiano Candian disse:

    Concordo, Rodrigo. Mas isso é mal de torcedor brasileiro. A nossa “escola” é de ter um armador clássico, um camisa 10 cérebro do time. Mas esses jogadores estão em extinção. Os últimos da espécie são Alex e Riquelme. Por isso que esses velhos ficam em polvorosa quando aparece um Ganso da vida, mas olhaí no que deu: quando o cara não participa sem a bola, perde espaço.

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