Coritiba 2 x 1 Cruzeiro – Chegou a hora

Uma ferroada de abelha, para pessoas não-alérgicas, não costuma trazer nenhuma consequência mais séria, apenas uma dor intensa e inchaço. Picadas múltiplas, entretanto, pode levar a um colapso.

Pois tal como se tivesse sido atacado por um enxame de abelhas — como indicava o uniforme do time da casa — os jogadores do Cruzeiro mostraram um certo torpor durante a partida de domingo e colecionaram sua terceira derrota em quatro jogos. É claro que os gols do adversário aconteceram por um erro individual e um lance bizarro, mas a falta de intensidade acabou mesmo sendo a principal causa do revés. Sim, já que se tivesse aplicado um pouco mais de vontade, certamente o Cruzeiro conseguiria marcar mais gols, que acabariam por compensar os erros.

Fichas iniciais

O 4-4-1-1 do Coritiba bloqueou a já reduzida movimentação do trio de meias e ao mesmo tempo liberava Alex da marcação, deixando os defensores celestes trocando passes laterais

O 4-4-1-1 do Coritiba bloqueou a já reduzida movimentação do trio de meias e ao mesmo tempo liberava Alex da marcação, deixando os defensores celestes trocando passes laterais

Marcelo Oliveira escalou o Cruzeiro no 4-2-3-1 usual, apenas com Henrique na vaga do suspenso Lucas Silva — cuja ausência foi sentida, como veremos adiante. Do gol, Fábio teve Ceará e Egídio como laterais da linha defensiva, composta por Dedé e Bruno Rodrigo. Nilton foi o companheiro de Henrique na proteção, e na frente o quarteto ofensivo que mais vem se repetindo nos últimos jogos: Éverton Ribeiro de ponteiro direito, Ricardo Goulart de central, Willian de ponteiro esquerdo e Borges na referência.

Já Péricles Chamusca armou o Coritiba num 4-4-1-1, feito para diminuir ao máximo os efeitos da falta de mobilidade e combatividade de Alex, ao mesmo tempo em que aproveita sua melhor arma: o passe. Protegendo a meta de Vanderlei, os zagueiros Luccas Claro e Leandro Almeida eram flanqueados por Gil à direita e Carlinhos na esquerda. Na cabeça de área, Willian e Júnior Urso faziam a base do tripé do meio, completado por Alex à frente, e ainda tinham a companhia de Robinho pelo lado direito e Geraldo fechando o lado esquerdo. Na frente, Júlio César.

O primeiro e o último passe

Ao contrário do que normalmente acontece, o time da casa preferiu esperar o Cruzeiro em seu campo. As duas linhas de quatro do Coritiba tiravam os espaços do quarteto ofensivo e deixavam os zagueiros e laterais celestes sem opções de passes para a frente. Parecia um jogo de handebol, no qual a bola girava de um lado para o outro: de Ceará a Dedé a Bruno a Egídio, que devolvia para Bruno, para Dedé e de volta a Ceará. O Coritiba se limitava a fechar as linhas de passe para os volantes com Alex e Júlio César, que por vezes se alinhavam desenhando um 4-4-2, e até mesmo com Alex sendo o jogador mais avançado. A pressão nos zagueiros celestes era muito esporádica.

Assim, não era raro ver Henrique voltando para pegar a bola nos pés dos zagueiros. O camisa 8 saía do meio-campo e recebia, mas não conseguia iniciar a jogada por nenhum lado, acabando por voltar a bola para os zagueiros ou para os laterais. Lucas Silva faz melhor este papel. E mesmo quando algum jogador tentava um passe agudo para iniciar a movimentação ofensiva, os erros aconteciam e armavam contra-ataques para o time da casa.

Quando conseguiu, com muita paciência, chegar na intermediária ofensiva, o Cruzeiro até imprimia velocidade, mas errava o último passe — aquele que deixa o jogador em condições de finalização. Vanderlei quase não trabalhou no primeiro tempo, pois quando finalmente o Cruzeiro conseguia superar todas estas dificuldades e finalizar, não era com qualidade.

Foi a partida com mais posse de bola do Cruzeiro, empatada com a 7ª rodada contra o Náutico no Mineirão -- mas era um domínio estéril, com muitos passes no campo defensivo

Foi a partida com mais posse de bola do Cruzeiro, empatada com a 7ª rodada contra o Náutico no Mineirão — mas era um domínio estéril, com muitos passes no campo defensivo (veja mais aqui)

Sem a bola

Defensivamente o Cruzeiro até que se postava bem. Alex não tinha espaço para criar e Júlio César ficou escondido diante da excelente atuação dos zagueiros celestes. Pela esquerda, Egídio não sofreu tanto com Gil e Robinho, mas Ceará tinha muito trabalho pela direita, e foi por ali que saiu o gol. Uma jogada de ultrapassagem de Carlinhos e Geraldo, que viu o avanço de seu lateral e fez o passe por cima. Ceará conseguiu voltar e tomar a frente, mas tentou se apoiar no corpo do jogador do Coritiba, errou e passou da bola, que sobrou limpa para Carlinhos finalizar.

Era tudo o que o Coritiba queria, se defender o máximo possível e jogar nos erros do Cruzeiro — uma estratégia que vários time vem usando, muito por conta do desempenho que o Cruzeiro apresentou no campeonato. Dedé ainda fez um gol injustamente anulado pelo árbitro, mas pouco criou além disso.

Segundo tempo

Após o intervalo, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 e  jogo abriu: após o empate, Lincoln entrou e deu movimentação; no Cruzeiro, Luan acertou o lado esquerdo e Dagoberto acelerou, mas e o Cruzeiro pecou nas finalizações

Após o intervalo, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 e jogo abriu: após o empate, Lincoln entrou e deu movimentação; no Cruzeiro, Luan acertou o lado esquerdo e Dagoberto acelerou, mas e o Cruzeiro pecou nas finalizações

Nenhum dos treinadores fez trocas, mas o jogo mudou. O Cruzeiro aparentemente cansou, não reteve a bola no ataque nem pressionou o homem da bola no seu campo defensivo. Resultado: com os mesmo onze, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 com o avanço dos ponteiros, e por quinze minutos, jogou praticamente sozinho: Alex, Júlio César e Robinho tiveram chances. Marcelo Oliveira então resolveu agir: primeiro se precaveu lançando Luan na lateral esquerda na vaga de Egídio — o lateral estava sendo pressionado por Robinho e já tinha cartão amarelo — e depois trocou Borges por Dagoberto na direita, centralizando Éverton Ribeiro e fazendo Goulart mais uma vez ser o centroavante.

Praticamente na jogada seguinte, Willian conseguiu enganar o árbitro e Dagoberto converteu o pênalti. O empate não foi consequência direta das substituições, mas o Cruzeiro melhorou depois de igualar o placar. Luan, por incrível que pareça, melhorou a marcação do lado esquerdo e ainda apareceu mais vezes no ataque, e Dagoberto deu mais ofensividade pela direita. Péricles Chamusca já havia substituído Júlio César por Keirrison, sem alterar o sistema, mas equilibrou o jogo novamente com a entrada de Lincoln na vaga de Alex. O sistema não se alterou, mas Lincoln se movimentou mais do que o veterano camisa 10 do Coritiba, que é mais lento. O jogo ficou aberto, com chances de parte a parte.

Chuteira na mão

Com exceção do erro que originou o gol, Ceará continuava tendo uma boa atuação defensiva, como lhe é costumeiro. Em um lance até perdeu a chuteira para ganhar a posse de bola. O futebol é cheio de ironias, no entanto, e justamente por causa de estar com a chuteira na mão, não conseguiu correr para impedir novo ataque do Coritiba pela esquerda. Assim, Dedé saiu na cobertura e Léo, que tinha entrado no lugar do lesionado Bruno Rodrigo, marcou a bola ao invés de Keirrison, que cabeceou sozinho para o gol. Talvez tenha sido por causa do posicionamento nas três partidas anteriores: zagueiro direito, no lugar de Dedé, ao invés de ser pela esquerda como naquela tarde.

Dali pra frente, foi ataque contra defesa. O Coritiba achou o seu resultado e se contentou em voltar ao modo inicial do jogo: se defender e jogar no erro celeste. Já o Cruzeiro foi pra cima e criou, mas tomou decisões ruins na hora de finalizar. Dagoberto, Willian e até Dedé tiveram chances, mas se afobaram ou erraram a conclusão e não conseguiram evitar a inesperada derrota.

O físico, o psicológico e o técnico

Está claro que o problema do time nestes últimas partidas não é no sistema tático, que é o mesmo desde o início da temporada — foi com ele que o Cruzeiro conseguiu sua melhor sequência no campeonato. A questão passa pela execução do esquema, que exige intensidade tanto com quanto sem a posse da bola, e isso obviamente passa pela parte física, essa sim prejudicada. O desgaste, por sua vez, influencia também em outros aspectos, como o técnico — exemplificado na média acima do normal de erros de passe e finalização.

Porém, a parte mental é uma das que precisa melhorar. Talvez a grande vantagem, ainda mantida para o segundo colocado, tenha afetado a motivação dos jogadores, mesmo que inconscientemente. Também, os outros times já não tem mais tempo de recuperação no campeonato e acabam por jogar tudo o que conseguem na partida contra o líder, ao passo de que o Cruzeiro, por ter vantagem, não vai atrás do resultado com a mesma fome.

A rotação dos jogadores, antes feita com maestria por Marcelo Oliveira, deixou de acontecer há algumas rodadas. A troca de uma ou outra posições a cada jogo serve tanto como motivação para os que estão na reserva quanto como descanso para os que jogaram sequências grandes. Talvez seja a hora de voltar com esta política. Já no campo psicológico, nada pode ser mais motivante que o título nacional. Difícil entender como Marcelo pode melhorar neste aspecto.

Chega de sentar na vantagem, é hora de resolver o certame.

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