Santos 0 x 1 Cruzeiro – O último passe

Com uma atuação bem segura na defesa e jogando o suficiente no ataque, o Cruzeiro conseguiu uma vitória fora de casa que, até certo ponto, não era parte dos planos. Tanto melhor, já que nos traz a possibilidade de campeonar já na próxima rodada — que é ao que se refere o título acima.

Em que pese o gol ter saído numa jogada de pura habilidade de Éverton Ribeiro — e portanto, sem nenhum aspecto tático — Marcelo Oliveira fez uma boa leitura no segundo tempo e reduziu ainda mais chances do Santos de achar o empate, que àquela altura já eram bem pequenas.

As formações

No primeiro tempo, Cícero procurava o centro e deixava o corredor livre para Ceará, e Montillo caía pelos lados com Nilton na cola; na frente, a movimentação dos meias celestes desorganizou a retaguarda santista

No primeiro tempo, Cícero procurava o centro e deixava o corredor livre para Ceará, e Montillo caía pelos lados com Nilton na cola; na frente, a movimentação dos meias celestes desorganizou a retaguarda santista

Marcelo Oliveira não teve problemas para o jogo, as preferiu manter Dagoberto como ponteiro esquerdo do 4-2-3-1, na vaga de um desgastado Willian. Dessa forma, o time do goleiro-capitão Fábio teve Ceará e Egídio nas laterais da linha defensiva e Dedé e Léo atuando por dentro. Na proteção, Nilton se segurava mais para dar liberdade a Lucas Silva, que se aproximava do ponteiro direito Éverton Ribeiro e do central Goulart, além de Dagoberto. Na frente, Borges fazia a referência.

Claudinei Oliveira armou o Santos no mesmo 4-2-3-1, com Aranha no gol, Edu Dracena e Gustavo Henrique como zagueiros, flanqueados por Cicinho à direita e pelo chileno Mena à esquerda. Alison ficou mais plantado para que Arouca, seu companheiro de volância, pudesse tentar se juntar ao ataque. Cícero fechava o lado esquerdo sem a bola mas entrava para armar o jogo junto ao central Montillo, com Éverton Costa à direita e William José de centroavante.

Saída pelos laterais

De maneira até surpreendente, o Santos deixou a bola com os zagueiros celestes e não fez pressão para forçar o chutão. Dedé e Léo se sentiram seguros para trocar alguns passes e tentar achar a primeira bola com mais facilidade. E o caminho era pelos lados.

Normalmente, Ceará é o lateral que fica mais, para dar liberdade a Egídio pelo outro lado e, junto aos zagueiros, garantir uma eventual sobra de três contra dois atacantes do time adversário. Porém, Cícero não dava profundidade pelo lado esquerdo, fechando no centro para tentar pensar o jogo quando o Santos tinha a bola. Ceará só dava combate direto quando Mena fazia suas raras incursões no campo de ataque. Dessa forma, o camisa 2 teve liberdade para receber a bola e avançar até onde Mena se posicionava para marcá-lo, e dali conectar a um dos meias ou fazer a ultrapassagem.

Do outro lado, Egídio tinha a presença de Éverton Costa, bem aberto, para lhe causar incômodo em seus avanços. Jogando em casa, era de se esperar que o Santos tivesse um ímpeto maior de atacar, mas Costa parece ter se preocupado mais em segurar as investidas de Egídio do que em propriamente atacá-lo — e isso acabou sendo bom, pois Dagoberto é um jogador que não faz tanto o auxílio na recomposição como Willian, e Egídio em teoria ficaria mais exposto. De qualquer forma, algumas vezes o time preferiu sair por ali ao invés de ser com Ceará, já que Costa também não fazia uma pressão tão grande, apenas ficava posicionado no setor.

Cruzeiro ataca

Mais à frente, Alison e Arouca pareciam perdidos na marcação de Goulart e Ribeiro, muito por causa das inversões entre os dois e também com Dagoberto. Isso é ilustrado nas duas boas chances de gol da primeira etapa: na primeira, Dagoberto está no centro, passa a Ribeiro e corre para a direita para receber de volta. Com isso, Ribeiro ocupa o espaço deixado pelo companheiro e recebe em boas condições de finalizar — a bola resvalou na cabeça de Gustavo Henrique e foi para fora. Depois, Ribeiro é quem está do lado esquerdo, puxando a marcação para Ricardo Goulart receber, tabela com Borges e sair na cara de Aranha, mas errar a finalização. Jogadas típicas deste Cruzeiro de 2013, pelo chão, toques rápidos e envolventes, com movimentação.

Santos com a bola

Já o Santos praticamente só se defendia. Quando tinha a bola, não conseguia criar: Montillo saía do centro para os dois lados para abrir espaço para Cícero que saía da esquerda, mas era implacavelmente marcado por Nilton e pouco viu a bola. Apenas aos 33 minutos o time da casa apareceu no campo de ataque, na única vez em que Montillo teve um pouco mais de liberdade. O argentino tocou para Arouca, aparecendo na ponta direita, que cruzou rasteiro na direção de William José, mas a zaga bem posicionada afastou e ficou com a bola.

Pela direita, com Éverton Costa apagado, coube a Cicinho tentar fazer as ultrapassagens, se aproveitando do pouco poder de marcação de Dagoberto. Mas o lateral não foi feliz e nada conseguiu na primeira etapa, bem como seu companheiro do outro lado, Mena.

De certa forma, acabou sendo um primeiro tempo tranquilo em termos defensivos, mais porque o meio-campo celeste marcou bem do que pela falta de criatividade dos meias santistas. Mesmo assim o zero a zero insistiu no placar.

Montillo, “falso” centroavante

Claudinei mudou no intervalo, lançando Victor Andrade pela esquerda, empurrando Cícero de fez para o centro e avançando Montillo para ser centroavante — obviamente, não no sentido de ser o homem-alvo da bola longa ou do cruzamento, mas pelo fato de ser o jogador mais avançado do time. Talvez a intenção fosse dar velocidade e desarrumar a defesa celeste, pois o argentino insiste em trabalhar pelos lados do campo e, com isso, arrastaria um zagueiro com ele, abrindo espaço para quem chegasse de trás.

O mapa de calor da Footstats mostra como Montillo praticamente abandona o centro para jogar pelos lados

O mapa de calor da Footstats mostra como Montillo praticamente abandona o centro para jogar pelos lados

Mas o jogo seguiu na mesma toada do primeiro tempo. Se Montillo já não via a bola quando estava no meio-campo, que dirá quando ficasse na frente. Nilton passou a marcar Cícero, Éverton Costa continuou apagado e o recém-lançado Victor Andrade tinha ninguém menos que o melhor defensor celeste pela frente: Ceará. Resultado: a bola continuava a não chegar ao ataque do Santos e continuava nos pés dos jogadores celestes.

Golaço, avanço e espaço

No fim, Claudinei soltou o time mas deixou espaços às costas dos volantes, muito bem explorados pelos substitutos que Marcelo mandou ao jogo

No fim, Claudinei soltou o time mas deixou espaços às costas dos volantes, muito bem explorados pelos substitutos que Marcelo mandou ao jogo

O gol que deu a vitória, porém, não tem nenhuma nota tática. Puro talento de Éverton Ribeiro, que deixou três ou quatro adversários para trás e concluiu sem chances para Aranha. Uma jogada típica de um ponteiro de pé invertido (canhoto na direita), o que, diga-se, não é a característica de Ribeiro (Robben é um exemplo melhor).

Atrás no placar, Claudinei finalmente tirou Éverton Costa do campo e mandou o jovem Geuvânio em seu lugar, na mesma função. Deu certo em certa medida, pois ele deu bem mais trabalho para Egídio do que seu antecessor, obrigando o lateral a ficar mais em seu campo. O Santos avançou suas linhas e tentou ocupar mais o campo de ataque, mas a bola continuava sem chegar com qualidade à frente.

Já Marcelo Oliveira esperou quase quinze minutos após o gol para fazer sua primeira mexida. Tirou Borges do jogo e mandou Júlio Baptista sem seu lugar, avançando Goulart para o comando do ataque, tentando explorar este espaço nas costas dos volantes santistas que se abriu com avanço do time da casa. E praticamente no seu primeiro lance, Júlio criou uma excelente chance, recebendo passe de Dagoberto no fundo e cruzando para trás, achando Éverton Ribeiro livre. Dessa vez, a bola raspou a trave e saiu. Depois tirou Dagoberto por Élber, na mesma função, novamente para jogar a bola longa e pegar o time adversário desprevenido e no um contra um.

Ação e reação

Fábio só apareceu mesmo em chute de Geuvânio, escapando da marcação frouxa dos volantes no meio central. Claudinei se animou e soltou o time de vez com a entrada de Alan Santos, volante mais leve, na vaga de Alison. Essa alteração, porém, foi anulada por Marcelo Oliveira com Éverton Ribeiro por Tinga, que saía da direita para auxiliar a marcação por dentro.

Depois de todas as mexidas, ficou claro que o treinador celeste levou vantagem no jogo tático, pois foi o Cruzeiro quem perdeu a melhor chance, em bola longa para Goulart nas costas da defesa avançada do Santos. Ele cruzou para Élber que fechava da esquerda em velocidade, mas o jovem conseguiu perder um gol praticamente debaixo das traves, que felizmente não fez falta.

Foi o suficiente: falta bem pouco

Defensivamente, a partida foi bem segura. Nilton e Lucas Silva minimizaram o trabalho de Léo e Dedé, além de tirarem a sobrecarga de Egídio e Ceará. A postura do adversário, mesmo em casa, também ajudou. Ofensivamente, porém, um pouco mais de intensidade poderia ter resolvido o jogo por um placar maior. Ao perder a bola, não houve aquela pressão no campo ofensivo para recuperá-la — mesmo porque era o Cruzeiro quem tinha a bola a maior parte do tempo. Podemos dizer que o Cruzeiro jogou “para o gasto” — não por acaso, o gol saiu numa jogada puramente técnica.

Mas o que importa é que a vitória veio, e com ela a possibilidade de levantar o caneco já na próxima rodada. A essa altura, a parte tática já está bem assimilada e o aspecto mais difícil de controlar é o psicológico: a ansiedade de jogar logo e resolver o certame, levantar a taça e comemorar. Imagine o que se passa na cabeça do capitão celeste, Fábio.

O último passe foi bem dado e agora estamos na cara do gol — é só fazer e correr para o abraço.

Uma observação em “Santos 0 x 1 Cruzeiro – O último passe

  1. Marcelo Albuquerque disse:

    Agora que somos, de fato (embora ainda não de direito), proponho a seguintes discussões: 1) o que precisamos para melhorar taticamente para o ano seguinte? 2) quais peças precisamos mudar, agregar para conseguirmos os objetivos?
    Na minha opinião, a manutenção do elenco é o ideal (com algumas dispensas, porque está meio inchado) e o Marcelo precisa estudar um pouco (que tal um estágio na Europa?) algumas variações táticas, que foi o ponto fraco do time que, como tantas vezes dito aqui, parece só saber jogar de um jeito.
    A vulnerabilidade do lado esquerdo exige a contratação de um lateral esquerdo mais tradicional, no estilo do Ceará (o Mayke está aprendendo a marcar na direita, mas o Egídio não).
    É preciso, ainda, um volante marcador para compor o elenco e substituir Nilton ou Lucas (titulares absolutos) em partidas mais complicadas. Em síntese, alguém para substituir o Leandro Guerreiro no elenco.
    Finalmente, o Marcelo tem que decidir se confia ou não no Vinícius Araújo como centro-avante (ou se o vê como outro tipo de atacante), porque o Borges, embora adaptado ao esquema e bom no que faz, machuca muito. Sonho em ver o Fred de volta à toca, mas, no atual momento, isso queimaria o Vinícius (que se tornaria a terceira opção para o comando), o que não me parece uma boa.

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