Defensor 2 x 0 Cruzeiro – A diferença é menor do que se pensa

Muito se fala na diferença entre as equipes brasileiras e as dos outros países sul-americanos, tanto financeiramente quanto tecnicamente. De fato, essa distância existe, mas o fato de aqui no Brasil a técnica ser muito mais valorizada do que qualquer outra coisa — em detrimento, por exemplo, da tática e até da parte psicológica — acaba-se por ter a ilusão de que as equipes brasileiras são muito melhores e deveriam vencer com um pé nas costas as equipes de outros países.

Mas essa não é a verdade. No futebol, nem sempre dois mais dois é quatro, e uma diferença técnica, por maior que seja, pode ser reduzida ou até anulada com uma tática bem encaixada, com uma estratégia acertada e até mesmo com uma boa dose de ânimo e espírito de luta. Para que a parte técnica faça de fato a diferença, a equipe também tem que ser igualmente aplicada tática e psicologiamente, mas não foi isso que o Cruzeiro fez na noite de terça em Montevidéu.

Titulares

Desta vez, 4-2-3-1 celeste tinha dois volantes marcadores e pouca intensidade á frente; Defensor em duas linhas de quatro e contra-atacando pelas pontas

Desta vez, 4-2-3-1 celeste tinha dois volantes marcadores e pouca intensidade á frente; Defensor em duas linhas de quatro e contra-atacando pelas pontas

A grande novidade foi a opção de Marcelo por uma dupla de volantes mais pesada no 4-2-3-1 habitual. Rodrigo Souza e Nilton jogaram à frente da linha defensiva, formada por Ceará à direita, Egídio à esquerda e Dedé e Bruno Rodrigo protegendo o gol de Fábio. À frente, era o de sempre: Éverton Ribeiro partindo da direita e procurando mais o central Ricardo Goulart, deixando Dagoberto mais aberto pela esquerda, com Marcelo Moreno na referência.

O Defensor veio com a estratégia clara de jogar no erro do Cruzeiro e contra-ataques, mesmo em casa. Armou-se num 4-4-2 em linha, com a baliza de Campaña defendida pelos zagueiros Arias e Malvino, com Zeballos e Herrera nas laterais. A segunda linha era composta pelos volantes Cardaccio e Fleurquin, e pelos ponteiros De Arrascaeta e o brasileiro Felipe Gedoz. À frente, Olivera se movimentava mais do que Risso, mas ambos permaneciam à frente.

Estratégias

Até os quinze minutos o time uruguaio ensaiou aplicar mais intensidade, mas o Cruzeiro controlou bem as ofensivas adversárias e Fábio nem aparecia. A partir de então, o Defensor se contentou em colocar jogadores atrás da bola e deixava os zagueiros celestes tocarem entre si. Os atacantes subiam a pressão de vez em quando, mas não era bem coordenada e facilmente os laterais encontravam os volantes para fazer o primeiro passe.

E nesse ponto é que a opção de Marcelo por uma dupla de marcadores não foi boa. O time ficou sem o passe e o ímpeto que Lucas Silva certamente daria, sobrecarregando os volantes adversário junto com Ribeiro e Goulart. Sem um segundo volante, porém, a marcação ficou mais “curta” e houve menos espaço. Some-se a isso a falta da movimentação característica que o Cruzeiro mostrou no ano passado, a famosa intensidade ofensiva, e o resultado foi um domínio estéril, com muita posse no campo adversário, mas poucas chances criadas.

Contra-ataque uruguaio

Defensivamente, a estratégia do time da casa era claríssima: defender-se, tirar todos os espaços possíveis e esperar o melhor momento para partir em velocidade. Não foi à toa que o treinador Fernando Curuchet colocou dois velocistas nas pontas. Do lado direito, De Arrascaeta era também o responsável por armar o jogo nas raras vezes em que o time uruguaio tinha a posse, centralizando a partir da direita — no estilo Éverton Ribeiro. Do outro lado, Felipe Gedoz ficava mais aberto em cima de Ceará, dando muito trabalho para o lateral celeste, que com isso pouco apoiou.

Assim, ficava para Egídio tentar sair com a bola e ajudar o ataque, e para isso contava com a cobertura de Nilton. Mas o camisa 19 ainda não está na sua melhor forma física, e o lado esquerdo acabou sendo o mapa da mina para o time uruguaio. Felizmente, no primeiro tempo De Arrascaeta não teve grandes oportunidades de explorar este espaço. Sem intensidade, o Cruzeiro ainda tomou um susto no final da primeira etapa, em bola parada, um dos pontos fortes da zaga celeste: o desvio bateu na segunda trave e o rebote dentro da pequena área foi bloqueado por Bruno Rodrigo.

Segundo tempo

Os times voltaram sem mudanças para a etapa complementar, o que considero foi mais um erro de Marcelo. Ele poderia ter colocado Lucas Silva já, mesmo que o time fosse perder combatividade no meio-campo — o que não seria verdade, pois Lucas é bom marcador também. O jogo se desenhava para continuar igual, e por isso a substituição poderia não só ter dado mais volume e controle do meio-campo ao Cruzeiro como também ter desafogado a surpreendente pressão que o time da casa fez no começo da segunda etapa. Sim, pois Lucas Silva daria uma opção a mais de saída de bola, dificultando a marcação alta do adversário e assim o Cruzeiro manteria a bola por mais tempo.

A intensidade foi passando aos poucos, e o jogo foi voltando ao padrão da primeira etapa. Porém, a estratégia dos uruguaios funcionou, sempre pelo lado esquerdo celeste. Os espaços às costas de Egídio, desta vez, foram bem aproveitados por De Arrascaeta. Primeiro, condução rápida pela esquerda em erro de passe celeste, obrigando Nilton a usar todo o fôlego que ainda não tem para desviar a finalização no último momento. Depois, sem opções, Egídio forçou a conexão com Dagoberto, mas De Arrascaeta interceptou o passe, e levou até a entrada da área de Fábio com muita velocidade, sendo parado apenas pela falta de Rodrigo Souza. Na cobrança, Gedoz marcou um belo gol — mérito do cobrador, mas também falha da barreira e de Fábio, que a posicionou mal.

O efeito de um erro

O gol assustou o Cruzeiro. Tanto que, a essa altura, Willian já havia entrado na vaga de Moreno, com Goulart avançando, mas mesmo assim o time começou a levantar bolas na área, quando o correto era baixar a tensão e entrar por baixo. Ironicamente, foi uma bola levantada na área que originou o lance capital do jogo. O zagueiro Arias levantou demais o pé dentro da área e atingiu o Goulart, levando o segundo amarelo. O empate com um a mais certamente animaria o Cruzeiro e as chances de uma virada aumentariam consideravelmente.

Mas o futebol é feito de acertos e de erros, e Dagoberto perdeu seu primeiro penal em um ano e quatro meses vestindo a camisa celeste. O desperdício teve o efeito contrário ao esperado: o time da casa se animou e defendeu com muito mais afinco — em um 4-4-1 recomposto com a entrada do zagueiro Correa na vaga do atacante Olivera — diante de um Cruzeiro já semi-desesperado. É impressionante como a parte mental pode afetar uma partida.

Dez contra onze

Marcelo tentou soltar o time totalmente colocando Marlone na vaga de Rodrigo Souza — o escolhido era o Nilton, mas Rodrigo já tinha cartão amarelo. Nilton ficou plantado, mas desta vez tinha Éverton Ribeiro a seu lado, numa espécie de 4-3-3 super ofensivo, com Willian, Dagoberto, Goulart e Marlone mais à frente. O perigo era abrir o time demais, o que ficou claro quando Ribeiro era o último homem, responsável pela cobertura, em um escanteio cobrado.

A postura desesperada cobraram o seu preço quando, novamente em contra-ataque de bola parada, De Arrascaeta aplicou dois chapéus e lançou Gedoz, desta vez aparecendo atrás de Egídio, que ganhou na corrida e tocou na saída de Fábio. Mesmo com um a menos, o Defensor matou o jogo ali.

No fim, Marcelo tentou consertar o meio-campo com Tinga na vaga de Ribeiro, mas o Defensor já estava satisfeito e não partiu mais para o contra-ataque, se contentando em proteger o resultado — coisa que conseguiu fazer com relativa facilidade. O Cruzeiro terminaria o jogo sem acertar nenhuma das 15 tentativas ao gol (Footstats).

Nenhum chute foi no alvo. Em destaque, o pênalti desperdiçado por Dagoberto

Nenhum chute foi no alvo. Em destaque, o pênalti desperdiçado por Dagoberto

Evoluir, mas fugir do lugar-comum

Quando falamos em dar intensidade, principalmente na parte ofensiva, estamos falando de movimentação e passes velozes. É bom não confundir com a velha “raça”, de se entregar, dar o sangue. Isso é um velho clichê da Libertadores e não há melhor time para destruir este lugar-comum do que o Cruzeiro, um time que joga tecnicamente solto. Bastava impor o ritmo no primeiro tempo que a velha máxima de que “a Libertadores é guerra” não se realizaria: o time uruguaio sairia de suas trincheiras e facilitaria ainda mais o jogo celeste.

Isto posto, esta partida deve servir para tirar algumas conclusões em relação ao time. Marcelo Oliveira ainda tem muito crédito, e normalmente realiza suas trocas quando o time já está à frente no placar. Desta vez, porém, não conseguiu mudar a cara do jogo. Além disso, a opção pela escalação de dois volantes fortes se provou equivocada ao menos para este jogo, e a ousadia demonstrada ao deixar apenas Nilton no time logo após sofrer o primeiro gol não apareceu no intervalo, quando Lucas Silva deveria ter entrado na vaga do próprio Nilton, mesmo com Rodrigo Souza amarelado.

A classificação ficou mais difícil, e agora depende de um bom resultado na quinta rodada, fora de casa, contra o time mais difícil do grupo: a Universidad do Chile.

O Cruzeiro perdeu quando podia? Num Brasileiro com 38 rodadas, talvez sim. Na Libertadores, de tiro curto, nem tanto.

6 observações em “Defensor 2 x 0 Cruzeiro – A diferença é menor do que se pensa

  1. João Paulo disse:

    Prezado,

    Tive a mesma impressão que você a cerca dos dois volantes escalados, além de não funcionarem tão bem na cobertura, a baixa qualidade de saída de bola dos dois comprometeu o esquema de jogo do time e sobre carregou o meio de campo e a lateral esquerda.
    Outro detalhe foi a insistência de jogadas com o Moreno fora da área. Ele é um centroavante definidor, não tem qualidade nem características de fazer o pivô, como o Anselmo Ramon tinha, por exemplo. Em várias jogadas ele saia de próximo da área para fazer o pivô e não conseguia retornar para a área para concluir ou mesmo fazer o pivô. Com um avante como ele, as jogadas aéreas são fundamentais. A dupla Egídio/Dagoberto na esquerda só funciona quando um dos volantes faz a cobertura, pois o segundo não marca tanto quanto o Willian e o primeiro avança muito ao ataque.
    A classificação ficou difícil, mas não impossível. Cabe ao Marcelo analisar os erros e efetuar algumas correções. De agora em diante todas as partidas devem ser encaradas como decisões.

  2. Bruno disse:

    O Cruzeiro já tinha jogado mal contra o Tupi, com esses dois volantes mais pesados. Teve dificuldade em criar chances de gol e conseguiu a virada na bola parada.

    É pena que a torcida só vê o erro (forçado) de Egídio. Ninguém enxerga a cobertura falha de Nilton ou mesmo a falta de opções para o passe, já que os volantes não se apresentam ao jogo.

    Um detalhe que me marcou é como o Fábio demorava para repor a bola e sempre dava um balão. Custa jogar curto?

    Acho que o Marcelo Moreno não tem encaixado com o time. Ele não dá sequencia às jogadas rasteiras e faz o time jogar muito pelas laterais e pouco pelo meio. Ainda que se movimente mais que Borges.

    Marcelo Oliveria já tinha recuado Éverton Ribeiro naquele jogo contra o Criciúma, no Mineirão. Mas ali o time não se desesperou.

    Engraçado como quando o time perde, todo mundo, imprensa, torcida, cai nessa ladainha de raça, espírito de Libertadores, etc. Se raça ganhasse jogo, o campeonato uruguaio terminava empatado. Faltou mesmo foi futebol.

    Gostaria de ver de novo a dupla de volantes que começou o ano: Souza e Lucas Silva. Mais leves, aparecem para o jogo, fariam o Cruzeiro jogar mais pelo meio e não apenas forçar o jogo nos 25m de lateral do campo.

    Com um empate no Chile, acho que o time se classifica com os 10pts, talvez até em 1º, no desempate. Mas tem que jogar para vencer, como se estivesse em casa. Toda fez que o Cruzeiro tentou mudar seu jogo por ser visitante (no Independência, Maracanã ou no Uruguai), se deu muito mal.

  3. Rodrigo disse:

    Marcelo Oliveira explicou sua opção pela dupla de volantes buscando aproveitar o jogo aéreo e, ao mesmo tempo, fez um “mea culpa”: http://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/cruzeiro/2014/03/14/noticia_cruzeiro,279071/marcelo-oliveira-revela-retorno-de-lucas-silva-ao-time-em-duelo-com-defensor.shtml

    Interessante o Bruno lembrar das dificuldades do Cruzeiro em adaptar seu jogo como visitante. Penso que o Marcelo Oliveira está tentando buscar opções e o jogo contra o Defensor se apresentou diferente de como planejava. Esse problema vai aparecer na quinta rodada e não agora.

    O problema de agora é o centroavante, enquanto Borges não volta: relacionar Rodrigo Dias (http://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/cruzeiro/2014/03/15/noticia_cruzeiro,279154/com-atacante-da-base-marcelo-relaciona-18-jogadores-para-jogo-contra-tombense.shtml) me parece uma mensagem de que Marcelo Oliveira não espera muito de Moreno . E Julio Baptista não foi bem nessa posição contra o América.

  4. Marcelo Albuquerque disse:

    Gosto do Marcelo Moreno, mas ele não se encaixa no tipo de jogo desejado pelo Marcelo Oliveira. Pode ser opção para campo ruim ou situação de abafa que exige jogo aéreo, mas não se adequa ao padrão tático da equipe. Na falta do Borges, a melhor opção me parece a entrada do Willian e a formação de um quarteto sem centro-avante, mas isso precisa ser treinado exaustivamente, porque o time se acostumou a jogar com um atacante mais preso. Não dá para colocar o Willian no meio do jogo no lugar do Moreno e esperar entrosamento.
    O Júlio Baptista como homem de área me parece também uma boa opção, porque tem poder de finalização e recompõe o meio-campo melhor, inclusive na marcação. Ao contrário do Rodrigo, achei que ele foi muito bem diante do América, até por não ficar preso na frente (participou de boas tabelas no meio). É uma opção intermediária entre o Moreno e o Willian. Além disso, o Júlio merece uma sequência de três ou quatro jogos com o time titular, porque não é possível avaliá-lo quando entra com o jogo já caminhando para o final. O time já mostrou qualidade técnica, mas também mostrou deficiência psicológica em mata-matas, não se pode ignorar o peso do nome e da experiência de um jogador de seleção brasileira com carreira de sucesso na Europa.
    Se o quarteto ofensivo leve (com Willian) for bem treinado e escalado, Egídio em breve perderá sua vaga para Samúdio, que é um lateral mais clássico que ele. Além disso, com Samúdio e Ceará, a defesa fica mais sólida, permitindo novamente a escalação de volantes leves. Apesar da explicação do Marcelo, até agora não entendi ele ter tirado o Lucas Silva do time, é um dos melhores jogadores do time, marca bem (e discretamente) e desafoga o trio do meio…
    Enfim, para mim, o Cruzeiro 2014, neste momento, deveria jogar com uma dessas duas opções:
    1. Fábio, Ceará, Dedé, B. Rodrigo e Samúdio, Nilton e Lucas Silva, E. Riberio, R. Goulart, Dagoberto e Willian.
    2. Fábio, Mayke, Dedé, B. Rodrigo e Egídio, Rodrigo Souza e Lucas Silva, E. Ribeiro, R. Goulart, Dagoberto e Júlio Baptista.
    O que acham?

  5. Christiano Candian disse:

    Obrigado a todos pelos comentários!

    Concordo com quase tudo o que vocês disseram. E como o próprio MO “admitiu”, conforme link enviado pelo Rodrigo, ele sabe que podia ter entrado com o Lucas antes. O jogo se apresentou diferente do que ele esperava — lembro do Belletti, na transmissão do SporTV, ficar dizendo que o Defensor era um time que abusava de bola aérea. Deve ter sido a mesma informação que o MO teve. Mas mesmo assim o jogo se apresentou diferente.

    Em relação às suas formações sem Borges, caro Marcelo, eu só não acho prudente escalar Ceará e Samudio no mesmo time. Pode funcionar, mas aí teríamos que ter dois volantes que saem, porque pra fazer a analogia correta, o Samudio é o Ceará da esquerda. Muito mais defensivo que Egídio. E o Mayke é o Egídio da direita. Então o MO sempre procura balancear. É por essa razão que ele preferia escalar o Luan por ali mesmo quando o Samudio já estava bem. O time ficaria com uma linha de quatro defensiva e sólida, mas o jogo ofensivo pelos lados ficaria prejudicado, principalmente com o Dagoberto um pouco mais isolado. Talvez com Souza e Lucas Silva dê pra fazer, mas muda o jeitão de jogar.

    Uma alternativa seria mudar o esquema. Aí jogaríamos tentando controlar o meio-campo com um losango, planta o Nilton ou o Willian Farias, e solta o Lucas e o Souza (ou Nilton) pra jogar junto com o meia e os atacantes. Mas isso abre corredores perigosos pelos lados para o apoio dos laterais adversários… Não sou muito fã de losangos.

  6. Bruno disse:

    Preferia o time com Lucas Silva e Souza e dois laterais mas presos. Acho que o time tem forçado demais as jogadas pelas pontas e ficado previsível.

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