Cruzeiro 0 x 0 Atlético/MG – Inteligência e maturidade

O Constelações volta depois de merecidas férias. A viagem internacional, porém, não impediu o blogueiro de acompanhar o Cruzeiro na rua brilhante recuperação na Libertadores e no restabelecimento da ordem natural em âmbito regional. No primeiro caso, um time maduro e seguro de sua capacidade, jogando com inteligência no Chile e com ímpeto e imposição no Mineirão. Sempre no 4-2-3-1, mas uma alteração frequente para o 4-1-2-3 com um meio campo só de volantes, quando o desejo era arrastar o jogo até o fim.

Já no Campeonato Mineiro, a primeira partida da final foi praticamente igual à da fase de classificação. O Atlético tendo mais a bola, mas o Cruzeiro se defendendo bem e não abdicando do ataque. Consequência das mudanças de um lado e da evolução em outro: nem Atlético nem Cruzeiro são as mesmas equipes de 2013, apesar de terem praticamente os mesmos jogadores. O Atlético sob Paulo Autuori já não aplica mais a intensidade que Cuca sempre pedia, preferindo cadenciar um pouco mais. E o Cruzeiro, que no ano passado só sabia jogar ofensivamente — e que foi suficiente para o título nacional — já comprovou que pode jogar com outras estratégias, consequência de evolução notável da defesa.

A finalíssima

Times no 4-2-3-1, mas com o lado esquerdo atleticano vulnerável, pois Ronaldinho deixava o trabalho de marcação para Jô

Times no 4-2-3-1, mas com o lado esquerdo atleticano vulnerável, pois Ronaldinho deixava o trabalho de marcação para Jô

Para o segundo jogo, Marcelo Oliveira mandou a campo o 4-2-3-1 usual, com Fábio no gol. Mas, flanqueando os zagueiros Dedé e Bruno Rodrigo, estavam Ceará e Samudio, dois laterais que tem mais tendência a compor a linha defensiva do que apoiar. Para compensar uma eventual escassez de força ofensiva, a dupla de volantes tinha em Lucas Silva e Henrique dois jogadores com qualidade de passe e de chegada à frente, se juntando ao trio “clássico” formado por Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Dagoberto, com Júlio Baptista no comando do ataque.

Já o Atlético também veio no 4-2-3-1, mas diferente em relação ao que Cuca implementava no setor ofensivo. Jô continuou sendo o centroavante, mas fazia a cobertura para Ronaldinho, que tinha liberdade total e preferiu perambular entre o centro e a esquerda. Tardelli ficou mais à direita e Guilherme foi o meia central, principal responsável por fluir o jogo da defesa para o ataque. Atrás dele, Pierre e Leandro Donizete praticamente só defendiam a grande área de Victor, tendo o suporte na linha defensiva formada por Michel na vaga do titular Marcos Rocha, Otamendi, Leonardo Silva e Alex Silva.

Primeira etapa

Os papéis se inverteram em relação à primeira partida. Mesmo com a vantagem de um segundo empate, era o Cruzeiro quem mais demonstrava que queria vencer. Primeiro porque marcava pressão na saída atleticana e forçava o chutão, que quase sempre terminava com a bola em pés celestes; depois porque aplicava uma marcação fortíssima também no meio-campo, o que foi um fator surpreendente considerando a característica dos volantes do Cruzeiro. Eles não guardavam marcação individual, mas estavam sempre muito perto dos jogadores atleticanos e não deixavam o meio rival respirar.

O Atlético se contentou em se defender e segurar a pressão. Não foi fazer marcação alta na saída do Cruzeiro, e tinha ainda um setor vulnerável em sua defesa: a esquerda. Isso porque Ronaldinho era o homem que caía mais por aquele lado, mas não tinha nenhuma responsabilidade de marcação. Quem fazia isso por ele era Jô, que tinha que abandonar o seu posto à frente do time para marcar a saída do lateral Ceará — nem sempre ele fazia isso, pois tinha de correr muito. O resultado foi a liberdade imensa que Ceará tinha, recebendo várias bolas invertidas por Lucas ou Henrique. Foi uma tônica do primeiro tempo: o Cruzeiro tentava achar Dagoberto pela esquerda, o Atlético rodava a marcação — inclusive dos dois volantes — e deixava Ceará do outro lado sozinho para bater com Alex Silva. Foi num cruzamento de Ceará que Júlio Baptista quase marca um golaço de bicicleta.

Sem conseguir pelo chão, Paulo Autuori pediu para que Jô saísse do centro e pegasse um lateral no lançamento longo, pois assim poderia ganhar uma bola de cabeça e armar um ataque já perto da área celeste. Funcionou em certa medida, porque Ceará e Samudio não tem tanto poder aéreo, mas a segunda bola sempre era celeste — também porque os meias celestes se compactavam aos volantes e laterais, e sempre pegavam uma bola escapada das disputas aéreas ou nos duelos pelo chão, gerando grandes oportunidades de contra-ataque.

Numa delas, Éverton Ribeiro poderia ter marcado o primeiro gol dos clássicos de 2014. Se lembrando de uma conversa que teve com o goleiro Fábio — excelente indicativo de o quanto este grupo é unido — que revelou uma preferência de Victor em sair pelo chão em situação de um contra um, ele optou por dar uma cavadinha que de fato passou por cima do goleiro atleticano, mas a direção não foi boa e saiu.

Já o Atlético só assustou quando numa das raras vezes em que Ceará errou seu posicionamento, deixou Alex Silva tabelar com Ronaldinho, que enfiou uma bola na cara de Fábio. O jovem lateral preferiu cruzar, mas Samudio estava lá para tirar o perigo. E foi só.

A batalha tática dos treinadores

Autuori queimou todas as trocas: resolveu o lado esquerdo com Fernandinho marcando Ceará, mas ficou sem ninguém na lateral direita, espaço que Marcelo Oliveira aproveitou com Éverton Ribeiro invertendo de lado com a entrada de Souza

Autuori queimou todas as trocas: resolveu o lado esquerdo com Fernandinho marcando Ceará, mas ficou sem ninguém na lateral direita, espaço que Marcelo Oliveira aproveitou com Éverton Ribeiro invertendo de lado com a entrada de Souza

Vendo seu lateral exposto, Autuori resolveu voltar à fórmula Cuca do 4-2-3-1 no intervalo, tirando Guilherme, voltando com Ronaldinho para o centro e mandando Fernandinho para o jogo, caindo pela esquerda. Dessa vez, Jô não tinha mais que marcar por ali, pois a responsabilidade de marcação passou a ser de Fernandinho. Foi uma boa mexida, que em teoria daria mais ofensividade e velocidade, e ao mesmo tempo impediria a liberdade de Ceará pela direita.

Porém, só a segunda funcionou. Fernandinho mal tocou na bola, encaixotado na marcação de Ceará — que desta vez de fato ficou apenas marcando o lado esquerdo atleticano. Assim, a partida seguiu na mesma toada, mas com o Cruzeiro com menos espaços para jogar. Mesmo assim teve chances, com Éverton Ribeiro, em finalização de fora e com Ricardo Goulart, e lindo corta-luz de Éverton Ribeiro.

Nesse panorama, ou o jogo terminava em branco ou o Cruzeiro venceria. Aos 27, Autuori arriscou tudo, queimando as duas últimas trocas. Pierre por Claudinei era uma troca direta de volantes, também porque o primeiro já tinha amarelo. Mas Michel por Neto Berola mudava a cara do time: o Atlético ficou sem lateral direito, Berola foi para sua posição habitual de ponta direita, Tardelli e Ronaldinho ficaram pelo meio. Como Claudinei não foi ser lateral direito, o time ficou num sistema diferente, com linha de três e Leonardo Silva fazendo as vezes de lateral, dois volantes, dois meias e três atacantes. Algo como um 3-4-3 com meio-campo quadrado.

Quase no minuto seguinte, Marcelo respondeu com Souza na vaga de Dagoberto. O objetivo era não perder o meio-campo, mas surpreendentemente, Souza foi jogar aberto pela direita, com Éverton Ribeiro invertendo de lado. A substituição que parecia defensiva era na verdade muito ofensiva: Marcelo queria que Éverton explorasse o lado fraco da defesa atleticana. Foi um movimento excelente do treinador, que com uma única troca equilibrou as duas do treinador adversário, e ainda tinha mais duas pra fazer.

Os mapas de calor da Footstats mostram o domínio territorial celeste na partida: toques quase sempre no campo de ataque, enquanto o Atlético teve mais a bola em seu próprio campo

Os mapas de calor da Footstats mostram o domínio territorial celeste na partida: toques quase sempre no campo de ataque, enquanto o Atlético teve mais a bola em seu próprio campo

Então, Marcelo resolveu preparou o terreno. Tirou Ricardo Goulart e lançou Willian, mandando Éverton Ribeiro temporariamente para o centro. A marcação não arrefeceu um segundo sequer e o Cruzeiro continuava com o domínio territorial e de posse. Não havia motivos para continuar a movimentação defensiva, mas quase no fim do jogo, Ribeiro deu seu lugar a Tinga, para arrastar o jogo até o fim. E assim foi feito, o placar permaneceu virgem e o Cruzeiro arrebatou mais uma taça.

Jogar bem e saber jogar

Muitos analistas repercutiram as vitórias na Libertadores e o título mineiro dizendo que o Cruzeiro de 2013 está começando a aparecer novamente. Eu discordo: este Cruzeiro de 2014 é outro, evoluído, melhorado em relação àquele. Se no ano passado o Cruzeiro jogava ofensivamente e sempre busca a vitória a todo custo, já vimos neste ano o Cruzeiro jogar precisando vencer mas sem atacar alucinadamente. Sempre com equilíbrio e sabendo ditar o melhor ritmo para determinadas situações.

E é assim se que se deve jogar um torneio como a Libertadores. Atacar sempre pode dar resultado como no ano passado, principalmente porque num Brasileirão uma derrota é muito mais diluída entre os 38 jogos. Mas na fase eliminatória da Libertadores, uma derrota tem muito mais peso. Portanto é preciso saber que nem sempre atacar será a melhor solução.

Outro fator que chama a atenção é o poder de marcação celeste, que aumentou muito nesse temporada. Samudio surpreende positivamente, pois marca mais que Egídio mas não deixou a desejar no apoio. Será fundamental na caminhada. Henrique subiu muito de produção e hoje é inquestionável.

Por outro lado, o Cruzeiro tem pecado muito nas finalizações. As estatísticas não mentem: de acordo com a Fooststats, o Cruzeiro finalizou 291 vezes a gol durante todo o estadual, sendo 115 na direção certa (quase 40%). O Atlético, segundo no quesito, finalizou 191 vezes no total, 100 a menos que o time celeste, mas mandou 83 no alvo, com um aproveitamento de pouco mais de 43%.

A Libertadores continua, e vem aí o Brasileiro. Se colocar o pé na forma, dá pra levar os dois. É difícil, mas o Cruzeiro é, neste momento, o único time que pode fazer isso.

Que assim seja!

Uma observação em “Cruzeiro 0 x 0 Atlético/MG – Inteligência e maturidade

  1. Bruno R. disse:

    Destaco alguns pontos:

    “Ceará e Samudio, dois laterais que tem mais tendência a compor a linha defensiva do que apoiar. Para compensar uma eventual escassez de força ofensiva, a dupla de volantes tinha em Lucas Silva e Henrique dois jogadores com qualidade de passe e de chegada à frente”

    Um time mais equilibrado, sem depender tanto dos laterais para sair jogando e atuar ofensivamente.

    Henrique e Samúdio deram outra perspectiva ao time.

    ——–

    “marcava pressão na saída atleticana e forçava o chutão, que quase sempre terminava com a bola em pés celestes; depois porque aplicava uma marcação fortíssima também no meio-campo”

    ” a segunda bola sempre era celeste — também porque os meias celestes se compactavam aos volantes e laterais, e sempre pegavam uma bola escapada das disputas aéreas ou nos duelos pelo chão, gerando grandes oportunidades de contra-ataque”

    Acho que isso era uma característica do time ano passado que foi retomada nos últimos 2 jogos, especialmente com Goulart voltando a jogar bem.

    ————

    “Por outro lado, o Cruzeiro tem pecado muito nas finalizações”

    Não foi assim tb no ano passado? O time perdia um caminhão de gols.

    Claro que na Libertadores, isso pode ser fatal, pois não há espaço para recuperação (lembro daquele jogo contra o SPFC no Mineirão, em que o Cruzeiro jogava mal mas conseguiu construir uma chance cristalina para William desperdiçar. Depois tomou o 2×0 no 2ºT. É esse tipo de situação que certamente não pode acontecer na Libertas)

    Mas significa também que o time está voltando o criar chances de gol, a ter volume ofensivo, coisa que não se viu no mês de Março.

    Oxalá que o pé esteja na forma daqui pra frente.

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