Vitória 0 x 1 Cruzeiro – Habemus centralis

Ah, o meia central. Figura tão importante do sistema da moda no futebol mundial, o 4-2-3-1. Ele preenche o espaço mais nobre de um campo de futebol: a faixa central do meio-campo ofensivo. Incomoda os volantes adversários quando o time está defendendo, e foge deles abrindo espaço para os companheiros quando o time está atacando. Às vezes ajuda o ponteiro e o lateral a criar superioridade numérica dos lados. Em outras, entra na área para confundir os zagueiros e concluir. E até mesmo se alinha aos companheiros volantes pra bloquear o avanço adversário. Pra frente, para os lados, para trás.

Eis que Éverton Ribeiro voltou da Seleção. E além do óbvio ganho técnico, isso significou também a retomada do sistema que consagrou o Cruzeiro nestes dois anos, ainda que Ribeiro não seja normalmente o titular da função. O camisa 17 normalmente sai do lado direito para armar, mas também sabe jogar por dentro, como na partida contra o Internacional. E foi fundamental para retomar o caminho das vitórias.

Formações de partida

Cruzeiro de volta ao 4-2-3-1 com Éverton Ribeiro como central se movimentando bastante, mas Egídio preso em Marcinho, o homem que fazia o sistema do time baiano variar entre um 4-1-4-1 e 4-3-1-2 como meia de ligação

Cruzeiro de volta ao 4-2-3-1 com Éverton Ribeiro como central se movimentando bastante, mas Egídio preso em Marcinho, o homem que fazia o sistema do time baiano variar entre um 4-1-4-1 e 4-3-1-2 como meia de ligação

Depois de começar no 4-1-4-1 contra o Flamengo e ABC, Marcelo Oliveira finalmente pôde voltar ao 4-2-3-1 já treinado e comprovado. Assim, Fábio viu Dedé e Manoel protegerem seu gol, com Mayke à direita e Egídio à esquerda. Um pouco mais à frente, a dupla de volantes titular, Henrique e Lucas Silva, dava suporte ao trio ofensivo que procurava o centroavante Marcelo Moreno: Marquinhos pelo lado direito, Alisson pela faixa esquerda e Éverton Ribeiro como ponto de referência central no meio-campo.

Já Ney Franco armou o Vitória de forma a tentar parar o Cruzeiro, como já é comum, mesmo dentro de casa. Era um híbrido de 4-3-1-2 e 4-1-4-1, de acordo com a movimentação de Marcinho. Defendendo a meta de Wilson estavam Nino à direita, Kadu e Roger Carvalho na zaga central e Juan pela esquerda. Luiz Gustavo (não é o da seleção) ficou como volante preso à frente da defesa, tendo Luis Aguiar mais à direita e Richarlyson mais aberto à esquerda. Marcinho, em teoria o meia de ligação, transitava entre o centro e a direita, com Edno bem aberto pela esquerda e Dinei de centroavante.

De volta ao modo normal

Mesmo após uma sequência de resultados ruins, o Cruzeiro ainda é temido ao ponto de, mesmo jogando em casa, o Vitória escolher esperar o Cruzeiro no seu próprio campo, compactado e marcando muito, e tentar sair em velocidade. Mas, ao contrário das últimas partidas, os defensores erraram pouco e o Vitória não conseguiu fazer muita coisa. Então, basicamente foi um primeiro tempo de ataque contra defesa.

Tendo muito mais posse de bola e com Ribeiro em campo, o Cruzeiro criou. Principalmente pelo centro e pela direita, já que Egídio ficava preso na marcação de Marcinho e pouco se aproximou de Alisson no início. Mas Mayke ignorou a presença de Edno e avançou corajosamente para encontrar o espaço que nem Richarlyson nem Juan ocupavam: a intermediária esquerda.

Além disso, com um central à frente, Lucas Silva e Henrique puderam jogar nos espaços em que executam melhor as suas funções, ligeiramente atrás, oferecendo linhas de passe de retorno. Além disso, conseguiam quase sempre recuperar a segunda bola que vinha estourada da defesa do Vitória, dando continuidade à pressão ofensiva e aumentando ainda mais as estatísticas de posse de bola em favor do Cruzeiro.

Faltou algo

Mas, apesar de todo o domínio territorial e das chances criadas, o Cruzeiro pecava ao se aproximar da área. Cruzamentos muito fortes ou mal colocados, que facilitavam para os defensores; escolher chutar quando seria melhor passar a bola e vice-versa; e quando havia a finalização, era ruim. Ficou a impressão de estar faltando uma peça, um alvo a mais na área que dividisse a atenção dos defensores e desse mais uma opção de passe. Soa familiar?

Sim, o Cruzeiro sentiu ligeiramente a falta de Ricardo Goulart para dar esse toque final. Apesar de fazer bem a função de central, Éverton Ribeiro tem uma característica diferente de Goulart. Enquanto um é mais passador, criador e assistente, o outro é mais concatenador e definidor. Alguns números ilustram isso: 19 cruzamentos para a área, mas apenas 4 corretos; 8 finalizações, apenas duas obrigaram Wilson a trabalhar, ambas de Alisson.

Vitória muda

Ney Franco voltou do intervalo com uma troca dupla. Uma das substituições foi direta, de lateral por lateral: Juan cedeu lugar a Mansur. Mas a outra mudava o sistema, já que o meia Marcos Junio entrou na vaga de Luis Aguiar. Richarlyson foi se alinhar a Luiz Gustavo, Marcos Junio entrou do lado direito e Marcinho centralizou, formando o novo 4-2-3-1.

Isso era uma tentativa clara de tirar o time de trás, numa mudança até surpreendente de estratégia. Mas o tiro foi na água, e acabou por facilitar a vida celeste. Sem Marcinho em seu encalço, e com o trabalho defensivo ruim de Marcos Junio, Egídio começou a aparecer no ataque pela esquerda se aproximando de Alisson. O Cruzeiro agora invertia o lado de preferência das investidas e chegava com muito perigo por ali, sem se esquecer do lado direito. De repente o Vitória se viu sendo atacado por todos os lados, e o Cruzeiro cresceu. O gol parecia maduro, mas o placar insistia em ficar inalterado — até por ajuda do senhor juiz.

Mapa de passes de Egídio no primeiro tempo (à esquerda) e no segundo (à direita) mostra  como o lateral teve mais liberdade  para subir ao ataque após Marcinho centralizar de vez

Mapa de passes de Egídio no primeiro tempo (à esquerda) e no segundo (à direita) mostra como o lateral teve mais liberdade para subir ao ataque após Marcinho centralizar de vez

A redenção de Dedé

Vitória mudou para 4-2-3-1 e depois deixou somente Richarlyson como volante, mas isso abriu o time e o Cruzeiro teve ainda mais espaço, principalmente pela esquerda com Egídio e Ribeiro caindo por ali

Vitória mudou para 4-2-3-1 e depois deixou somente Richarlyson como volante, mas isso abriu o time e o Cruzeiro teve ainda mais espaço, principalmente pela esquerda com Egídio e Ribeiro caindo por ali

Marcelo Oliveira foi obrigado a trocar Alisson por Willian, sem alterar o sistema. Porém, o bigode não deu a intensidade que o garoto dava, e o ímpeto celeste diminuiu um pouco mas não cedeu. Ney Franco então deu sua última cartada, lançando William Henrique no lugar de Luiz Gustavo. Ele entrou pelo lado esquerdo, fazendo Edno se aproximar de Dinei e Marcinho mais recuado para ligar o contra-ataque: algo entre um 4-2-3-1 com Marcinho de volante e um 4-4-2 de linhas, com Edno mais recuado.

Depois, por causa do amarelo recebido minutos antes, Lucas Silva deu seu lugar a Willian Farias. O Cruzeiro perdia o passe de Lucas, mas a troca foi uma resposta à tentativa de Ney Franco, colocando um jogador exatamente no espaço que Edno e Marcinho queriam explorar. Com o Vitória anulado, o jogo continuou na mesma toada.

E finalmente, depois de um escanteio pela esquerda rebatido pela defesa baiana, a bola sobrou para Mayke do outro lado. Com isso, Manoel e Dedé permaneceram na área, e Mayke achou Dedé sozinho no meio da confusão, que cabeceou com firmeza. A bola passou acima da cabeça de Wilson, mas foi tão rápida que não houve nenhum tempo para reação. O gol do alívio não podera ter tido melhor autor.

Depois disso, o Cruzeiro apenas controlou o jogo, tocando a bola no campo de ataque e dando facilmente a volta na correria do já cansado time baiano. Eurico entrou no lugar de Éverton Ribeiro, mas apenas para consolidar o placar.

Técnica, tática, físico e mental

Você sempre leu neste blog que, mais importante do que vencer era jogar bem, pois ao longo prazo, o bom futebol vai trazer os resultados positivos naturalmente. No caso específico desse jogo, porém, era também muito importante que o Cruzeiro vencesse, seja como fosse, para recuperar a confiança. Mas o Cruzeiro fez mais: venceu e convenceu. Voltou a jogar com autoridade e tranquilidade, não foi ameaçado em nenhum momento e mereceu totalmente o resultado.

Muito se deve, é claro, à volta de Éverton Ribeiro à equipe. Não só pelos ganhos técnicos e táticos, mas a própria presença do camisa 17 no time fez o resto da equipe ter mais tranquilidade para jogar. E mais: ao contrário dos outros selecionáveis, Ribeiro não jogou na quarta-feira, e portanto estava devidamente descansado; junto com os demais poupados do jogo de Natal que voltaram nesta partida, o Cruzeiro também esteve melhor fisicamente.

Por isso tudo, mesmo pecando nas finalizações ao longo de todo o jogo, foi de fato uma das melhores partidas celestes no certame, como Marcelo disse na entrevista pós-jogo. E com a possível volta dos outros centrais, recuperados de lesão, o Cruzeiro tende a crescer ainda mais.

Que assim seja.

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