Santos 0 x 1 Cruzeiro – O resultado é mais importante que o futebol

Fica até chato para o leitor eu ficar repetindo sempre a mesma coisa quando o Constelações fica sem atualizações por um período. Por isso, hoje vou dar uma justificativa diferente. Como sabem, não sou jornalista e não tenho pretensão de ser, porque não quero nem tentar ser imparcial. Eu sou torcedor, e só tenho olhos para o meu time. Só vejo outras equipes quando elas estão no mesmo gramado que o Cruzeiro.

Acontece que sou um torcedor que é empolgado com análise tática. É a razão de ser do Constelações: um blog de tática com foco exclusivo no Cruzeiro. E para as análises saírem com uma qualidade minimamente razoável, é preciso ter um pouco de cabeça fria e calma para observar os movimentos dos jogadores. Porém, a emoção que as partidas celestes tem proporcionado neste fim de campeonato dificulta muito esse aspecto.

Portanto, além de ter pouco tempo para escrever as análises e não ganhar nada com isso, preferi não escrever textos sobre jogos em que a torcida pela vitória celeste prejudicou as observações em campo. Qualidade é melhor do que quantidade, é o que dizem.

Isto posto, voltemos à programação normal.

Onze inicial

No 1º tempo, os dois times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem intensidade e se movimentando pouco, e Santos levando vantagem com Robinho puxando a marcação para as infiltrações de Gabriel

No 1º tempo, os dois times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem intensidade e se movimentando pouco, e Santos levando vantagem com Robinho puxando a marcação para as infiltrações de Gabriel

Mesmo após desgastantes jogos contra o próprio Santos, Criciúma, Atlético/MG e Botafogo, Marcelo Oliveira não tem alternativas senão escalar o que tinha de melhor. Porém, resolveu poupar Henrique e Lucas Silva, que começaram no banco. Assim, o 4-2-3-1 celeste teve Fábio no gol; Ceará na lateral direita, Manoel e Bruno Rodrigo na zaga e Samudio na esquerda. Nilton foi o escolhido para a parceria com Lucas Silva, no suporte a Willian na direita, Ricardo Goulart por dentro e Marquinhos à esquerda, com Marcelo Moreno na referência do ataque.

Enderson Moreira escalou o Santos da mesma forma que no jogo de volta pela semifinal da Copa do Brasil: um 4-2-3-1 com Robinho na referência móvel do ataque. O goleiro Aranha teve sua desfalcada linha defensiva composta por Cicinho à direita e o jovem Caju à esquerda, com Neto e Bruno Uvini na zaga central. Sem Arouca, Renato foi o volante mais adiantado à frente de Alison, dando suporte à criação centralizada de Lucas Lima. E saindo das pontas para ocupar o espaço deixado por Robinho, Gabriel e Rildo.

Só uma das quatro

Se você lê o blog, sabe que o jogo celeste é baseado inteiramente em intensidade nas quatro fases do jogo: a posse de bola, a recomposição defensiva, a posse do adversário e a transição ofensiva, mais conhecida como contra-ataque. Porém, o que houve no primeiro tempo foi que o Cruzeiro simplesmente não aplicou a intensidade que lhe é característica em nenhuma dessas fases.

Quando tinha a bola, o Cruzeiro não se movimentava muito, e com isso não embaralhava a marcação postada do Santos de forma a explorar os espaços eventualmente abertos. Assim, tentava passes mais difíceis que o habitual e cedia a bola com facilidade. Nesse momento, o Santos sempre tentava sair com velocidade, principalmente com Robinho vindo buscar o primeiro passe, puxando a marcação de um dos zagueiros. O camisa 7 se livrava facilmente da pressão e encaixava o passe para a infiltração dos ponteiros Gabriel e Rildo. Ceará até que conseguiu impedir Rildo pela direita, mas Gabriel levou muita vantagem sobre Samudio, e o paraguaio teve dificuldades.

Foi assim que nasceu o lance mais perigoso do primeiro tempo: Robinho recebeu na linha do meio-campo, arrastando Bruno Rodrigo consigo, girou e deu o passe profundo para Gabriel, que foi exatamente para o espaço que Robinho deveria estar, ficando cara a cara com Fábio. Mas nosso goleiro cresceu pra cima do garoto, fechando o ângulo sem cair na primeira, dando o tempo necessário para Manoel se recuperar e atrapalhar a finalização.

Somente na fase defensiva o Cruzeiro tinha algum equilíbrio, porque apesar da movimentação do Santos ser maior, o Cruzeiro abriu tantos espaços ao time paulista. E quando roubava a bola, a velocidade da transição não era suficiente para pegar a defesa adversária desmontada. O resultado foi claro: apesar da ligeira superioridade do time da casa, nenhum chute foi na direção do gol na primeira etapa.

Mesmo com o leve domínio do Santos, todas as tentativas de gol no primeiro tempo foram pra fora ou bloqueadas pela defesa: goleiros sem tanto trabalho

Mesmo com o leve domínio do Santos, todas as tentativas de gol no primeiro tempo foram pra fora ou bloqueadas pela defesa: goleiros sem tanto trabalho

Segundo tempo

Já no intervalo, Marcelo cobrou duramente os jogadores, como revelado após a partida. Mas além disso, tirou Lucas Silva, mal na marcação de Renato no primeiro tempo, e lançou mão de Henrique. O sistema não se alterou, mas a ocupação dos espaços e a pegada no meio-campo sim. Com pernas frescas, já sem tanto sol e com o time do Santos também já mais cansado, Henrique tomou conta do setor central e reequilibrou o jogo para o Cruzeiro.

E bastaram 7 minutos para que a diferença entre os dois times aparecesse, em linda jogada de muita inteligência tática do sistema ofensivo celeste. Goulart viu Moreno recuar puxar a marcação e fazer a parede, dando oportunidade para a tabela e ao mesmo tempo abrindo espaço para Willian no centro da área. O bigode foi até lá e recebeu o segundo passe de Goulart, que fez a volta na marcação para receber de volta e chutar de canhota fora do alcance de Aranha.

A vantagem no placar fez o Cruzeiro melhorar ainda mais no jogo. Isso porque o desgaste da temporada não é apenas físico e também mental, e a vantagem no placar dá uma tranquilidade, aliviando a pressão pelo resultado.

Trocas

No fim, Cruzeiro se postou num 4-1-4-1 para proteger o resultado, mas nem havia tanta necessidade; Santos teve problemas de marcação do lado esquerdo e Éverton Ribeiro aproveitou

No fim, Cruzeiro se postou num 4-1-4-1 para proteger o resultado, mas nem havia tanta necessidade; Santos teve problemas de marcação do lado esquerdo e Éverton Ribeiro aproveitou

Pouco depois do gol, Enderson pôs Thiago Ribeiro no lugar de Rildo. A tentativa era de dar mais contundência ao ataque, mas o problema estava em outro lugar do campo e o tiro saiu pela culatra: Thiago não fazia tão bem o trabalho de recomposição pela esquerda e expôs o garoto Caju às investidas de Willian. Tentou corrigir colocando outro jovem, Zeca, na vaga de Caju, mas o problema continuou.

Marcelo Oliveira, observando a vantagem no setor, aproveitou para poupar Willian e lançar Éverton Ribeiro na sua posição característica, partindo do lado direito. E o camisa 17 aproveitou o espaço, dando ótimos passes. Enderson deu uma última cartada com Jorge Eduardo no lugar de Gabriel, mas o substituto nada produziu. Marcelo então protegeu o resultado com Willian Farias no lugar de Goulart, formando o 4-1-4-1 usado no fim dos jogos para tal fim. O volante ainda teria a chance de matar o jogo após receber passe magistral de Éverton Ribeiro, de calcanhar, ficando no mano contra Aranha, mas mandou o chute no travessão.

Jogo atípico, resultado excelente

Não foi um jogo normal do Cruzeiro. Afinal, neste fim de temporada, é difícil manter o ritmo intenso durante as partidas que encantou o Brasil no primeiro turno do Brasileirão. Porém, aqui o mais importante era o resultado. Isso pode parecer incoerente com o que eu disse quando do empate com o Botafogo no primeiro turno, por exemplo (o título dessa coluna é o inverso daquela). Mas naquele tempo ainda havia muitos jogos e, a longo prazo, jogar bem significava um número maior de vitórias. Agora, não há mais longo prazo: o fim da temporada está logo ali. Os resultados, nesse momento, são mais importantes.

Melhor que tenha sido assim, portanto: uma vitória sem ter que aplicar a intensidade necessária para furar as retrancas do Mineirão. De certa forma, até se pode dizer que o Cruzeiro venceu sem se desgastar tanto.

Isso aumenta um pouco as chances de fazer mais um bom resultado no difícil confronto com o Grêmio em Porto Alegre. O time gaúcho vem ganhando confiança e será um adversário duríssimo. Porém, o estilo de jogo do Grêmio pode favorecer o Cruzeiro, já que eles preferem marcar forte e sair para o jogo em velocidade pelas pontas, e dificilmente vão tomar a iniciativa do jogo e botar pressão ofensiva. Assim, a chance de um empate sem gols é grande.

Se tudo der certo, estarei no Mineirão no domingo para ver o Cruzeiro erguer o caneco. Fé!

Uma observação em “Santos 0 x 1 Cruzeiro – O resultado é mais importante que o futebol

  1. Bruno R. disse:

    O lance mais importante do gol do Cruzeiro, que ninguém falou, foi protagonizado por Nilton. Após recuperar a 2ª bola, ele forçou o passe no Moreno, quando o mais óbvio seria deixar a bola no Marquinhos, ao seu lado. Se a cada 5 passes para trás e para os lados, os volantes arriscassem um passe direto, para frente, os jogos no Brasil não seriam tão amarrados e feios.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *