Triturando números: a temporada 2018 do Cruzeiro até aqui

O grande Gustavo Fogaça (@pitacodoguffo), que possui entre seus vários talentos a análise de desempenho, nos presenteou com um relatório bem detalhado, fornecido pela InStat, dos números do Cruzeiro na temporada 2018. Os dados vão desde o primeiro jogo do ano, contra o Tupi no Mineirão, até o jogo de volta das quartas da Copa do Brasil contra o Santos. Neste texto, quero apresentar minhas conclusões sobre estes números. Antes, porém, um preâmbulo importante:

Cuidado!

Há bastante tempo atrás, escrevi uma vez sobre como temos que ter cuidado com números no futebol. Penso que nenhum dado, apresentado puro, sem nenhum contexto, sirva como referência de análise. Afinal, dizer que um time errou 20 passes pode ser bom ou ruim dependendo de quantos passes tentou: se foram 380 certos, houve 5% de erro; mas se foram 80 certos, são 20%. É muito diferente, e este é só um exemplo.

Por isso, gosto de dizer que, para um número ter valor, é preciso passar pelos três “C”s: contexto, comparação e conversão. Explico.

Contexto é mostrar não só o número mas qualificá-lo. Por exemplo, na lista de melhores passadores, você vê que um zagueiro é o que tem o maior índice de acerto. Significa que ele é bom passador ou que ele, por ser zagueiro, tem que executar passes mais seguros, laterais, pra evitar a perda da bola? Quanto mais à frente o campo, maior é a dificuldade no passe e, consequentemente, menor o índice de acerto.

Comparação é importante pois precisamos saber como outros jogadores ou times se comportam naquela mesma estatística. E uma primeira análise, algo como 10% de acerto de cruzamentos pode parecer ruim. Mas se for mostrado que todos os outros times acertam na média não mais do que 7%, o número fica bem mais atraente. Neste texto, só tivemos acesso aos números do Cruzeiro, portanto comparar com os outros times não será possível, prejudicando um pouco a análise.

E por fim, a conversão. Essa abordagem é para números absolutos e relativos. É o exemplo do primeiro parágrafo: errar 20 passes não quer dizer nada sem o número de tentativas. É óbvio que acertar 95% dos passes é melhor do que apenas 80%. Sempre devemos buscar a porcentagem, quando aplicável. E vice-versa: se vier só o número relativo (100% de acerto de finalizações), temos que olhar o absoluto (foi só 1 finalização).

Portanto, muito cuidado ao analisar os números aqui apresentados. Uma coisa é o dado, outra coisa é a informação extraída do dado. E essa última varia muito de pessoa pra pessoa. Aliás, leia minhas próprios conclusões abaixo com bastante desconfiança, afinal não sou e nem pretendo ser o dono da verdade. Não deixe de criar suas próprias conclusões também.

Análise dos gols

Isto posto, vamos aos números. Primeiro, vamos ver os números relativos a gols.

Gols do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

O Cruzeiro marca 20% de seus gols de bola parada (13 de 64). Não tenho os números das outras equipes pra fazer algum juízo de valor, mas se compararmos com os 37% de gols sofridos de bola parada (11 de 30) podemos analisar pelo viés pessimista — qual seja, o Cruzeiro tem problemas na bola parada defensiva — ou pelo otimista — fazer gols no Cruzeiro com a bola rolando é muito difícil, e por isso o índice de gols de bola parada é maior que o de gols marcados. Tendo os números das outras equipes seria o ideal, mas infelizmente não os temos aqui.

É interessante notar que apenas 13 dos 51 gols marcados com bola rolando foram de contra-ataques. Os outros 38 foram de ataques de posse, construindo desde a defesa. Algo que parece ir na contramão do senso comum de que o Cruzeiro é um time reativo: se defende e parte em ataques rápidos. Talvez fosse esperado que times que joguem dessa forma tenham mais gols de contra-ataques do que em fase de organização ofensiva. Novamente, uma comparação com as outras equipes ajudaria a esclarecer neste ponto.

Em relação ao corredor onde as jogadas são construídas, é distribuído: 15 pela direita, 19 pelo centro e 17 pela esquerda. Aqui, faço um parêntese: a proximidade dos números não quer dizer necessariamente que isso seja bom. No futebol, simetria não é sinônimo de equilíbrio. Depende muito do que o treinador quer para o time, dos jogadores e da forma como o time joga. Pode haver um lado mais forte que outro e não há nenhum problema nisso. Fecha parêntese.

Já sobre os 19 gols sofridos de bola rolando, foram 5 pela direita, 5 pelo centro e 9 pela esquerda. Apesar do número pequeno distorcer um pouco as porcentagens, há sim um lado mais vulnerável que o outro. O lado esquerdo é de fato mais atacado, como veremos adiante, e por isso a maioria dos gols saia por ali. Talvez pelo fato de Arrascaeta, que é quem joga pela ponta esquerda da segunda linha, ter mais liberdade de flutuação nos ataques, o que faz com que ele fique fora de posição em algumas perdas de bola, gerando algum espaço.

Jogadores e ataques de gols

Gols+Assistências de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Individualmente, duas tabelas me chamam a atenção. A primeira é a de gols + assistências, liderada — para surpresa de absolutamente ninguém — por Arrascaeta. O uruguaio marcou 11 gols e deu 7 passes pra gol, o que dá uma média de 0,7 participações de gol a cada 90 minutos. Thiago Neves é o segundo, com 11+9 e Robinho o terceiro, com 3+9. Chama a atenção como o estilo de Robinho difere dos outros dois: ele e Egídio são os únicos do top 10 que tem mais assistências do que gols. Sempre lembrando que isso é o número absoluto, o que faz com que os que jogam mais tenham números maiores. A média por 90 minutos também é um bom indicador, e aqui aparecem bem Sobis e Raniel, com 0,6 ações de gol por jogo.

Participação em ataques de gol de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Mas se expandirmos esta análise para além da assistência, e incluirmos também os passes anteriores a ela — ou seja, a participação nas jogadas de ataques de gol — os números de Arrascaeta são ainda mais impressionantes. O uruguaio tem uma média absurda de 1 participação em ataque de gol por jogo. Ele toca na bola em 43% dos ataques do Cruzeiro que terminam em gol. Novamente, vemos Thiago Neves e Robinho nas posições seguintes, pois obviamente as tabelas estão relacionadas, mas vemos que esse trio é o principal quando olhamos que apenas estes 3 tem acima de 30% de participação nos ataques de gol. Rafinha e Raniel também se destacam bem no quesito, principalmente o último, com média de 0,9 participações por jogo.

Parte ofensiva

Tipos de ataques do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Coletivamente, o Cruzeiro não tem uma preferência por lado de ataque, pelo menos analisando o conjunto das estatísticas. É claro que isso varia de jogo pra jogo, considerando fatores como o momento, os jogadores usados, o local do jogo e o adversário. Mas se olhada a temporada toda, o Cruzeiro ataca com volume bem semelhante pelos dois lados, inclusive no número de ataques que geram finalizações.

Total de passes de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

A análise fica interessante quando passamos às estatísticas individuais. Primeiro, analisando os passes tentados e acertados (importante: sem o contexto de que tipo de passe e em que lugar do campo). Egídio lidera a estatística absoluta, o único com mais de 2 mil passes tentados, tendo 82% de acerto. Na média por jogo, ele, Edílson e Romero são os que mais tentam. É um indício de que o Cruzeiro gosta de fazer a saída de bola pelos lados, fazendo os laterais serem a conexão entre a defesa e o meio-campo na primeira fase de construção.

Note que os melhores índices de acerto são de zagueiros e volantes, pois, como dito no preâmbulo, jogam em regiões onde uma perda de bola tem consequências muito ruins, então tem que dar passes mais seguros e, portanto, mais fáceis de executar. Quanto mais à frente joga um jogador, menos espaço ele terá, e ao mesmo tempo ele tende a correr mais riscos pra tentar um passe mais difícil, o que consequentemente faz o índice de acerto de passe diminuir.

Finalizações de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Sobre finalizações, temos um quarteto destacado: Thiago Neves, Arrascaeta, Raniel e Sobis. Todos com médias superiores a duas tentativas por 90 minutos (e média de chutes certos igual ou superior a um por jogo). Destaque para Fred, que mesmo sem jogar há muito tempo, ainda está em 7º na lista absoluta e lidera com folga na média de tentativas por jogo, com 3,8.

Passes-chave de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Em relação aos passes-chave (ou seja, que geram ou gerariam chances), Robinho lidera com folga. É o único que tentou mais de 100 passes do tipo e o único que tem média superior a 2 acertos por jogo. Thiago Neves e Arrascaeta vem logo atrás, com 1,5 e 1,4 passes-chave por jogo respectivamente. Mais uma vez, destaque para Fred, que tem 1,7 passes-chave de média, ficando apenas atrás de Robinho. Lembrando que a média não é prejudicada pelo tempo sem jogar, indicando como o camisa 9 ajudava muito o time à época, mesmo sem marcar muitos gols.

Combinações de passes entre jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Por fim, analisando as combinações de passes mais frequentes, vemos que o eixo esquerdo (Léo > Egídio > Arrascaeta) ocupa as duas primeiras posições. Em terceiro, temos a conexão Romero-Robinho, que é feita pelo lado direito, considerando que Romero jogou muitas vezes como lateral. Como a conexão Edilson-Robinho, em quinto. Note que temos muitas trocas de passe entre zagueiros, volantes, laterais e pontas, não vemos nenhuma combinação com Thiago Neves ou qualquer centroavante. Algo natural, pelas mesmas razões acima: é preciso considerar a região do campo onde é mais fácil executar os passes.

Parte defensiva

Ataques de adversários do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Quando se defende, os adversários preferem atacar o flanco esquerdo do Cruzeiro. São mais de 2800 posses dos adversários em organização ofensiva, e em mais de mil delas o adversário foi pelo lado de Egídio e Léo. E dos quase 700 contragolpes sofridos pelo Cruzeiro, mais de 260 foram por ali. Isso pode explicar, como falamos acima, porque o Cruzeiro sofre mais gols por esse lado, pois isso seria uma consequência natural de ser mais atacado por ele.

Disputas na defesa de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Não à toa, Egídio lidera em várias estatísticas defensivas no número absoluto. Uma delas é de disputas na defesa: são 372 duelos, com 63% de sucesso. Média de 10 a cada 90 minutos. Só Dedé tem média igual, porém o zagueiro tem uma taxa de sucesso maior: impressionantes 82%. O “Mito” é um monstro defensivo.

Desarmes de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

Egídio também é o líder em desarmes: foram 166 tentativas e 104 roubos de bola. Estes 63% são bem significativos, levando em conta que o lateral é um dos que mais tem minutos jogados. Esse índice é comparável ao de Lucas Romero, por exemplo: 66% em 135 tentativas, com média de 5 tentativas (com 3,4 desarmes certos) a cada 90 minutos. Chama a atenção a média de tentativas por 90 minutos de Bruno Silva: 7, sendo 4,1 com sucesso. Nas médias, lidera com folga. E, novamente, Dedé se destaca com seus impressiontes 81% de sucesso nos desarmes. Nenhum outro chega sequer aos 70%.

Disputas aéreas de jogadores do Cruzeiro em 2018 até 16/08 (dados: InStat)

E por fim, a disputas aéreas. Como era de se esperar, Dedé reina absoluto. Absurda a média de 6 de 7 duelos vencidos por jogo. São mais de 220 disputas e mais de 170 vencidas no total. É disparado o melhor aproveitamento (77%), só Léo (70%) chega relativamente próximo. Dedé destruindo na bola aérea defensiva? Estamos sem notícias.

Concluindo: conclua!

Estes são apenas alguns dos números do relatório. Há muitos outros, mas não vou colocar neste texto pra que não fique ainda mais longo.

Como afirmei lá em cima, não tome minhas conclusões como verdades. Números tem que ser questionados sempre. Convido você a tirar suas próprias conclusões olhando as tabelas acima. Números sozinhos não fazem nada, é preciso ter um olhar analítico e contextualizado sobre eles. Aliás, desconfie de quem usa os números como base para o argumento: eles devem ser, no máximo, suporte para uma tese.

Números não mentem. Porém, só contam uma parte da verdade. E pior, dependendo da forma e da análise feita sobre eles, omitem muitas coisas.

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