Acabou o crédito

(originalmente publicado no site Diário Celeste)

Acabou o crédito.

Acabou o crédito pra você, Gilvan. Sob sua gestão, ganhamos dois brasileiros seguidos. Um fato raro para qualquer equipe, não só na era dos pontos corridos, mas em toda a história do nacional. E é ainda mais impressionante se consideramos que não é um clube do eixo Rio-SP. Um feito, sem dúvidas. O time montado em 2013 e mantido em 2014 ficará para sempre nos corações cruzeirenses.

Mas todas as glórias que você colheu nesse período foram pisadas e esmigalhadas em mil pedacinhos, sem dó nem piedade, em 2015 e 2016. Por uma série de decisões ruins tomadas por você, Gilvan. Bancar a vinda de alguns jogadores, vetar a vinda de outros, baseado apenas no seu “conhecimento” de futebol dentro de campo — que, assuma, não é tão grande quanto você pensa. Trazer um ex-treinador em atividade, simplesmente porque você “gostava” dele, é estar vivendo do passado. Depois, ao determinar o caminho “econômico” na escolha do treinador para este ano, efetivando um cara esforçado e trabalhador, mas que ainda não estava preparado para comandar um clube tão enorme. No futebol moderno, principalmente no alto nível, não se economiza em treinador, Gilvan. Perdemos vários meses de trabalho, e os impactos desta escolha estão presentes até hoje.

Acabou o seu crédito, Gilvan.

Acabou o crédito pra você, Vicintin. Ter suas origens em uma torcida organizada o fez ser desejado por muitos como diretor de futebol. Você acabou virando vice-presidente de futebol, mas deu no mesmo: a torcida se sentiu representada dentro do clube, que apostou todas as fichas em você. E depois de um monte de erros cometidos em 2015, com a reformulação na saída do Luxemburgo, imediatamente você trouxe um treinador pensando primeiro em tirar o Cruzeiro da péssima situação, e depois em um projeto maior. As coisas funcionaram bem e você angariou crédito.

Mas este seu passado como torcedor não serve como desculpa nem como atenuante para a quantidade de erros que foram cometidos no departamento de futebol. A efetivação de Deivid pode ter sido uma ordem de cima, mas a demora em corrigir o rumo quando finalmente ele saiu é responsabilidade direta sua. Sabemos que é o presidente quem manda, mas também é seu papel mostrar pra ele quando ele está equivocado, Vicintin. Tem que bater a mão na mesa, exigir autonomia se não a tiver, ou falar com firmeza se discordar. Tem que dar a cara a tapa nos momentos ruins também, não só nos bons.

Acabou o crédito pra você, Scuro. Sabemos que você é um gestor moderno, tem formação, teve experiência em times menores, se preparou para o cargo. Gente que o futebol brasileiro como um todo precisa ter mais. Junto com Vicintin, você foi o responsável por trazer o Mano e fazer com que nosso 2015 fosse menos pior. Você vem tentando, na medida do possível dentro do que lhe é permitido, fazer contratações, estudando o mercado. Ali você ganhou pontos.

Mas a sua formação e credibilidade não podem servir de escudo para defender dos erros no planejamento da temporada, Scuro. A saída de Mano o dificultou, mas o remanejamento do elenco que está sendo feito agora devia ter sido feito antes. E com um treinador que tivesse respaldo para que pudesse desenvolver um trabalho e chegar com o time pronto para o Brasileiro, que no fim das contas é o que importa: ninguém tá nem aí pro Estadual. Em 2013 foi assim.

Acabou o crédito pra você, Bento. Quando você chegou, a torcida apoiou e entendeu que levaria um tempo até você se situar no caos que é o futebol brasileiro. Vindo de uma escola moderna, a portuguesa, que é a que mais contribui mundialmente para o entendimento teórico do futebol, você chegou com respaldo. E o time mostrou, várias vezes, boa evolução em campo, jogando melhor que o adversário em períodos longos do jogo. E ainda que os resultados não aparecessem, dava pra ver alguma coisa sendo feita. Talvez isto seja o que mais dá pra ver no seu trabalho.

Mas você vem tomando algumas decisões extremamente questionáveis, pra dizer o mínimo. Mesmo tendo vários jogadores no DM e um elenco curto disponível, certas decisões do onze inicial e em algumas substituições não são muito bem explicadas. Eu sou um dos caras que mais tenta entender todas as decisões, porque tento ver também o lado tático, o que o jogo pede, a estratégia, o placar, a circunstância do jogo; não olho só o lado técnico. Mas mesmo assim não consegui entender várias das suas decisões ultimamente, Bento. Se você tem convicções, então as explique. Se você escala um jogador por política do clube, então deixe claro quem são e quem disse isso. Mas não nos mande sinais misturados: é sua convicção ou é política do clube?

Acabou o crédito pra vocês, jogadores. Sim, todos sabemos que vocês estão tentando fazer o que podem. Eu sou otimista e acredito que ninguém está ali de brincadeira, ou fazendo corpo mole — com uma notável exceção, que não precisamos dizer quem é. Estamos cientes de que vocês estão tentando jogar da melhor forma possível dentro daquilo que lhes é pedido.

Mas nessas horas de crise, a gente exige que pelo menos um pouquinho de suor a mais seja derramado. Nem sempre os gritos de “raça, raça” da torcida fazem sentido; em alguns jogos isso é a única coisa que não falta. Sabemos que vocês nem sempre conseguem fazer o melhor que sabem, pois o futebol é coletivo e o mau desempenho de um quase sempre atrapalha o bom desempenho de todos. Mas queremos fome de bola, a famosa intensidade, mesmo se não tiver muita organização. Queremos cada disputa como se a bola fosse o único copo d’água num deserto enorme. Não se pode dar por vencido mesmo quando tudo vai mal, jogadores; tem que lutar principalmente quando tudo vai mal.

Nem espero que recuperem o crédito perdido. Podemos chegar em algum lugar na Copa do Brasil (aguardemos a quarta-feira), mas não espero ir longe. Apenas quero que terminem o ano “no azul”, ou seja, paguem as dívidas com a torcida e façam um segundo semestre digno, mirando em 2017.

Sim, pois os “juros” de um eventual “cheque especial” serão enormes, e poderão ter impacto por muitos anos. Tem uma madeira aí? Bate três vezes.



Ariel Cabral, o baixista de “la banda”

(originalmente publicado no site Diário Celeste)

Muitos se perguntam porque Ariel Cabral não está rendendo como no fim do ano passado. Talvez seja prematuro fazer tal afirmação, afinal são apenas quatro jogos, mas essa é a amostra que temos. Particularmente, penso que Ariel não se adaptou (ainda) ao modelo de jogo que Deivid quis implantar no Cruzeiro, que consiste em jogar com bloco alto para dar suporte à circulação da bola e manutenção da posse.

Eu tenho o costume de dizer que o desempenho de um jogador de futebol nunca é responsabilidade apenas dele. Afinal, estamos falando de um esporte coletivo: as ações dos companheiros, do adversário, e também a estratégia tem influência no jogo, em todos os momentos. Inclusive é por essa razão que não gosto de dar notas individuais para jogadores, mas isso é assunto para outro texto.

Antes de entrar nas questões táticas, analisemos as características do argentino. É inegável que ele tem bom passe e ótimo senso de colocação. Em muitos momentos no ano passado, quando um jogador ficava sem opções ou recebia a pressão frontal de um adversário, lá aparecia Ariel para oferecer a linha de passe. Ele sabe ler o campo de jogo e se posicionar de forma a receber a bola e continuar a progressão. Esse princípio de jogo é chamado de apoio. Além disso, por vezes consegue executar o famoso último passe, sempre vertical, deixando companheiros na cara do gol.

Ariel Cabral: sempre oferecendo a linha de passe para dar apoio aos companheiros

Por outro lado, Ariel é um jogador com pouco dinamismo. Não é veloz, não é condutor de bola, nem tem bom drible. Ou seja, não é um jogador para realizar ultrapassagem — um princípio de jogo que é quando o jogador executa um passe e avança à frente da linha da bola. Tampouco é como alguns meiocampistas de infiltração, como Elias e Paulinho foram no Corinthians de Tite, ou pra ter um exemplo mais próximo dos cruzeirenses, Ramires no Cruzeiro de 2009. Willian Arão recentemente tem sido elogiado exatamente por ter essa característica no Flamengo deste ano.

Olhando tudo isso, parece fazer pouco sentido que Ariel jogue numa função em que ele tem que cobrir bastante campo. Independente se é ao lado de Henrique à frente da zaga numa dupla volância, ou se é pela esquerda numa trinca ou losango de meio-campo, Ariel não deveria ser responsável por correr grandes distâncias para fazer coberturas, ou ser opção de passe à frente da linha da bola. E é aí que penso que ele pode estar tendo dificuldades.

Ariel e seu posicionamento inicial “preferido”, por dentro e à esquerda no meio-campo

Em 2015, Ariel jogou exatamente nessas posições descritas no último parágrafo. Jogou em dois esquemas diferentes — o 4-3-3 do início da passagem de Mano e o 4-4-1-1 do final — mas o ponto comum era a altura do bloco defensivo do Cruzeiro. Com Mano, ele era mais baixo (ou seja, recuado), pois o treinador optava por ocupar espaços, marcando pra não sofrer gols ao invés de marcar para roubar a bola. Pode parecer estranho, mas existe diferença. Uma coisa é induzir o erro do adversário, fechando espaços, outra é subir a marcação, pressionar e sufocar o adversário até roubar a bola. Dois modelos de jogo diferentes, igualmente válidos.

Este ano, Deivid optou pela segunda opção. Prefere ter a bola sempre. Como as fases do jogo estão sempre conectadas — ou seja, ao atacar, tem que se ter cuidado com a defesa e vice-versa — para facilitar a circulação da bola e manter a posse, a linha defensiva joga bem longe da área de Fábio. Em alguns jogos, os zagueiros ultrapassaram a linha divisória do meio-campo, colocando os dez jogadores de linha no campo de ataque. A isso, chamamos de compactação ofensiva: isso aproxima os jogadores para que TODOS eles participem da fase de construção, criando superioridade numérica no setor da bola.

Assim, Ariel acabava por jogar com dificuldades ofensivas e defensivas. Com o time adversário muito recuado, seu senso de colocação nos espaços do adversário não era usado, pois ele sempre ficava para dar o primeiro passe. Ou seja, não conseguia dar apoio, sua melhor característica, ou mesmo encontrar o passe final. Deivid parece também tê-lo instruído a jogar indo e voltando, como um box-to-box: avançando para ser opção à frente da linha da bola, sendo que ele deveria ser o passe de retorno, e ao mesmo tempo recuando para defender e preencher o espaço. Com as linhas altas, um contragolpe do adversário simplesmente deixa Ariel vendido, pois ele não tem velocidade para fazer essa recomposição rápida.

Portanto, a questão me parece ser mais a forma que o Cruzeiro joga esse ano, que é bem diferente da do ano passado, do que uma queda de rendimento do próprio jogador, individualmente. Ariel não desaprendeu a passar a bola, nem perdeu seu senso de colocação: a estratégia coletiva é que parece estar emperrando estas virtudes do argentino.

Já que a última analogia com os bolos fez sucesso, aqui vai mais uma: imagino que Ariel é como se fosse o baixista de uma banda. Na maioria das vezes, é discreto, sereno, aparece pouco. Não tem intensidade, eletricidade, mas é fundamental para que a música fique completa. Porém, não adianta colocar o baixista para cantar ou tocar guitarra, funções de muito mais protagonismo e dinamismo, se ele não tiver essas qualidades. Penso que é assim com Ariel: talvez ele esteja tentando exercer funções que não tiram o melhor de suas características.

Finalizando, acredito que Ariel seja um excelente jogador para situações em que o Cruzeiro precise defender o resultado. Ao invés de cobrir um latifúndio de espaço, precisaria se preocupar com um pedaço bem menor de campo, sem a necessidade de correr grandes distâncias. Bola roubada, ele apareceria nos locais certos para ajudar o time a avançar e progredir até o campo adversário. Porém, para essa estratégia que Deivid que usar, acredito que Sánchez Miño seja um jogador mais adequado, pois esse sim tem o dinamismo para ir e voltar como parece ser a função do “meia esquerda” este ano. Se o Cruzeiro continuar jogando dessa forma, penso que não demora para que Miño assuma a vaga no time inicial.



A forma do bolo

(originalmente publicado no site Diário Celeste)

Imagine que você vá fazer um bolo. Pega uma receita bacana, com passos bem explicadinhos e nos mínimos detalhes. Só que você vai usar ingredientes de qualidade duvidosa, ou substituir alguns por “equivalentes”, como trocar o tipo de farinha. E mais: troca a ordem de alguns passos, ou erra em outros, como o tempo de cozimento. A chance do bolo ficar ruim é grande. Aí vem alguém e diz: “mas também, você fez nessa forma quadrada, devia ter feito naquela forma redonda.” Faz sentido?

Por outro lado, o bolo pode ser maravilhoso de olhar. Super bem feito, confeitado, com cores vibrantes. Ter um desenho lindo. Mas aí você vai comer e ele está horrível, com gosto de fermento, solado. Afinal, o que é mais importante?

Belo formato, bem bonito. Mas será que é saboroso? (foto: bolosespeciais2010.blogspot.com.br)

A analogia é simplista, mas é ótima pra entender porque botar a culpa SOMENTE no esquema tático pelo mau desempenho de uma equipe de futebol não é correto. Relembremos: o esquema tático é um resumo útil, que serve para explicar o posicionamento inicial dos jogadores no campo. Ele NÃO envolve a chamada “posição de origem” do jogador, nem também explica as funções exercidas por ele no plano de jogo. No fim das contas, o que conta mesmo é esta última parte: COMO os jogadores executaram suas funções, e não ONDE.

Sendo assim, não dá pra enfatizar o suficiente: não existe esquema melhor ou pior por si só. Pode-se ter tem uma preferência por algum, é gosto pessoal. Eu mesmo tenho. Porém, não afirmo que os esquemas que eu não gosto são ruins. Pois depende de vários fatores: os jogadores que tenho, as características deles e o plano de jogo que eu quero implantar na minha equipe. Plano este que, diga-se de passagem, é totalmente independente do esquema tático.

Na semana passada, após a vitória suada e sofrida do Cruzeiro contra o Tombense, a discussão era sobre o esquema tático do Deivid, que mudou do primeiro para o segundo tempo. Na etapa inicial, o mesmo 4-2-3-1 dos outros dois jogos, e na final um 4-3-3 bem claro. Dada a diferença de desempenho, muitos começaram a atacar o 4-2-3-1, como se fosse algo que não funcionaria mais, nunca, em lugar nenhum. Uma falácia: como dissemos, esquema tático, sozinho, não ganha e perde jogo nenhum. Depende muito mais dos jogadores e do modelo de jogo.

Um argumento bem mais aceitável é dizer que o 4-2-3-1 não serve para estes jogadores que o Cruzeiro tem. Mas veja, aí já estamos falando de algo ALÉM do esquema tático, que é a característica e qualidade dos jogadores. O que não dá pra dizer é que o “4-2-3-1 é ruim” e só isso. Diga-se: Marcelo Oliveira usava esse sistema em 2015, e foi taxado de teimoso de foi demitido. Mas foi o com esse mesmíssimo esquema que foi bicampeão brasileiro em 2013/14. Qual a diferença? Isso mesmo que você pensou: era outro elenco, jogadores diferentes, de características diferentes, que possibilitavam um modelo de jogo diferente. Não funcionou no ano passado, mas pros dois anos anteriores sim, e muito bem.

A formação do 2º tempo. contra o Tombense. Élber bem aberto segurando o lateral, MV armando e marcando, Henrique na dele e Miño dando dinâmica. No fim, Alisson e Rafael inverteram

Outra falácia é dizer que um esquema qualquer é “ultrapassado”. Ora, há várias equipes de alto nível no mundo jogando nos mais diversos esquemas. Muitas jogam no 4-3-1-2 com meio em losango — usado por Luxa na Tríplice Coroa, lá em 2003. O 4-2-3-1 é usado por várias equipes grandes: Arsenal e Chelsea são bons exemplos. No Brasil, quatro dos cinco times que foram à Libertadores esse ano usam: CAM, Grêmio, São Paulo e Palmeiras. Mesmo o 3-5-2 e o 3-4-3 são encontrados, como no Chile de Jorge Sampaoli. E até o 2-3-5 — um esquema da década de 1920 — foi resgatado e repaginado por ninguém menos que Pep Guardiola no Bayern de Munique.

Voltando ao Cruzeiro, eu particularmente gostei muito do 4-3-3 usado na segunda etapa, mas não é porque é o “esquema do Mano” (outro mito, como explicaremos adiante). Este sistema parece ser o que mais dá suporte para o modelo de jogo que Deivid quer implantar, de controle do jogo com a posse de bola, propondo e fazendo o adversário correr. Além de ser o que melhor se encaixa nas características dos jogadores que existem no elenco. Mas isso não quer dizer que isso não funcionaria num 4-2-3-1. Ao contrário, pode funcionar muito bem. Desde que se treine para isso e que os jogadores assimilem.

O “esquema do Mano”

Muita gente também argumentou que o problema foi que “Deivid não deu sequência ao trabalho de Mano porque mudou o esquema tático”. Há um erro e um acerto nessa frase. De fato, Deivid não deu sequência ao trabalho, preferindo implantar sua própria forma de jogar. Mas essa mudança foi muito menos no esquema tático do que em qualquer outra coisa. Explico.

Uma rápida retrospectiva: Deivid, ainda na condição de interino, jogou no 4-1-4-1 contra a Ponte Preta no ano passado, inclusive sendo o responsável pela “inversão” de Henrique e Willians. Mano assumiu e deu continuidade, mas percebeu que a recomposição do ponteiro direito (na época, era Alisson) não estava acontecendo bem, e instruiu Willians a abrir cada vez mais para a direita para cobrir, com Henrique indo se alinhar a Ariel. Primeiro era só um movimento sem bola, mas depois Willians foi “efetivado” como ponteiro, dando liberdade para o agora ex-ponteiro direito circular, desenhando um 4-4-1-1, com Henrique alinhado a Ariel. Isso perdurou até o fim do ano.

Esse era o Cruzeiro de Mano na partida contra o JEC. Três volantes? Só “de ofício”: Willians era ponteiro direito

De forma que, se você olhar bem, o 4-2-3-1 que Deivid tentou nos três primeiros jogos é bem próximo do desenho que Mano usou no fim do ano. A diferença é o posicionamento dos ponteiros: com Mano, eles recuavam para ocupar o espaço na ponta da linha média, independente do movimento adversário. Com Deivid, os ponteiros permanecem à frente, só recuando caso o lateral adversário ataque o setor. Mas em termos de sistema, é muito semelhante: linha de quatro, dois alinhados à frente da zaga, dois abertos, um por dentro e um à frente.

Mas se o esquema é parecido, com Ariel e Henrique alinhados à frente da zaga, porque o time está tão diferente? A resposta está no modelo de jogo. Com Mano, o Cruzeiro se compactava atrás, defendendo os espaços. Assim, não precisava ficar correndo pra trás pra recompor. Com Deivid, as linhas são muito mais altas, o time tenta se compactar à frente, marcando alto. Se o time adversário consegue passar, vai ter campo pra avançar, e todo mundo tem que correr pra trás. A ruptura está muito mais aí: na forma de jogar, e nem tanto no desenho da equipe. Portanto, justificar o desempenho abaixo do esperado dizendo que Deivid rompeu com o esquema tático de Mano é uma meia verdade.

“Falem mal, mas falem de mim?”

Concluindo, é bem legal que cada vez mais e mais pessoas falem sobre tática. Isso melhora o entendimento do jogo e também a cobrança da torcida, a cobertura dos jornalistas e a qualidade das informações. Em geral, melhora o futebol. Porém, como ainda é uma coisa nova para muitos, certos mitos aparecem e são difíceis de combater. Esse é um deles: o esquema tático. Muitos nem sabem qual é a definição formal, e outros até sabem, mas limitam a análise apenas a isso.

Que seja. Para melhorar o futebol brasileiro, tem que ser como nos seriados japoneses: é preciso enfrentar um monstro diferente por vez.



“Podosferomania”

(originalmente publicado no site Diário Celeste)

Podosferomania: (s.f.) Obsessão pela bola de futebol. (do dicionário de neologismos do Candian, 2016)

Foram só dois jogos oficiais, mas já dá pra observar algumas coisas em relação ao modelo de jogo que Deivid quer implantar no Cruzeiro. E a temporada de 2016 começa com o time gostando de ter a redonda em seus pés. Sempre. Isso é mostrado pelos números da Footstats nesses jogos: 62% de posse de bola contra o Criciúma, fora de casa, e quase 70% contra a URT, com 600 ou mais passes tentados em cada jogo. Para se ter uma ideia, no Brasileirão 2015 inteiro, em apenas 5 jogos alguma equipe conseguiu romper essa marca.

Média de passes por jogo no Brasileiro 2015 (fonte: Footstats)

Deivid já disse em várias oportunidades que se inspira muito em Luis Aragonés, que foi o treinador da Espanha da Euro de 2008, a primeira a usar o estilo conhecido como tiki-taka, que nada mais é do que esse estilo de valorizar a posse de bola. Ele prega que, ao trocar passes incessamentemente, a chance do adversário se desorganizar é maior. O Barcelona de Guardiola levou esse estilo à perfeição no final da década passada. É claro, ninguém espera que Deivid faça do Cruzeiro um time mágico como aquele Barcelona, mas dá pra dizer que a ideia é parecida, ainda que com algumas diferenças e ajustes.

Nesse ponto, o Cruzeiro de Deivid difere e muito do de Mano Menezes. Vai muito além da simples troca de Willians por Marcos Vinícius: é o que se chama de modelo de jogo, ou seja, uma orientação geral que todos os jogadores tem em comum para saber o que fazer em determinados momentos do jogo: defendendo, atacando e nas trocas de um momento para o outro.

O Cruzeiro de Mano era um time que se protegia compactado defensivamente, marcando por zona (ou seja, o jogador ocupa um espaço ao invés de marcar um adversário). Quando roubava a bola, se possível, procurava o contra-ataque rápido. Já em momento ofensivo, avançava pouco as linhas para prevenir contras, mas com mobilidade para progredir no campo e finalizar. E se perdia a bola, pressionava apenas para atrasar a ação do adversário e dar tempo ao sistema defensivo recompor, sem necessariamente ter o objetivo de roubar a bola.

(Leia mais sobre o modelo do Cruzeiro de Mano neste post do blog Painel Tático, no qual colaborei.)

Já o de Deivid quer a bola sempre. Nos raros momentos defensivos observados até aqui, não marca à zona: os jogadores preferem fazer perseguições para evitar que o passe seja feito. A ideia é que os homens da frente também subam a pressão no portador da bola, já que o objetivo é roubá-la: o time se defende com posse, já que se o adversário não tem a bola, não pode marcar gols. Quando recupera a bola, primeiro cuida para que ela fique segura para só então iniciar a fase ofensiva, na qual a circulação da bola é a prioridade, com linhas bem altas e o quarteto de frente se mexendo para desorganizar o sistema defensivo adversário. Na transição defensiva, a pressão é imediata, sempre com o objetivo de recuperar a posse. Ou seja, tudo é em função dela: a bola.

“Sua linda, vem cá, te quero mt #t_amo_bola”

Dessa forma, podemos dizer que não houve continuidade, e sim uma ruptura. Ainda que seu sistema tenha um desenho parecido — linha de quatro, dois à frente da defesa, dois pelos lados e dois por dentro, com um deles ligeiramente mais atrás — o time de 2016 joga de uma forma muito diferente do time do fim de 2015. O que soa estranho é que Deivid foi apresentado exatamente como uma solução para, em tese, manter o que vinha dando certo com Mano. Mas não é isso o que se pôde observar até aqui.

Em tempo, não estou dizendo que discordo nem que concordo. O futebol é democrático e há várias formas de se jogar, e não estamos falando aqui apenas do desenho tático. Por exemplo, muitos times no país jogam no contragolpe puro e simples: marcam até roubar a bola e progridem o mais rápido possível. Outros preferem ter o controle da bola, mas tentando resolver a jogada rapidamente. São estilos. Deivid e seu “tiki-taka brasileiro” é apenas isso: um estilo. É claro que há críticas, nem o Barcelona, o ícone dessa forma de jogar, escapou delas.

Até que ponto Deivid teve carta branca para implantar isso, não sabemos. Somente a diretoria do Cruzeiro pode responder. A impressão que fica é que Deivid quer dar logo sua cara ao time, de maneira a perder a aura de “auxiliar técnico” que ainda paira sobre sua cabeça e que gera desconfiança na torcida mais exigente do país. É um movimento arriscado, mas muito corajoso. Se vai dar certo ou não, só o tempo dirá.

Implantar essas mudanças leva tempo, como sempre foi no futebol. Os jogadores precisam assimilar a nova forma de jogar, acostumar aos movimentos dos companheiros. Isso pode ser visto de jogo pra jogo: contra o Rio Branco, o time se movimentou bem no início da partida e criou, mas Deivid reclamou da compactação ofensiva, ou seja, a defesa ficava muito recuada, longe dos volantes, e o adversário teve tempo na bola entre essas duas linhas. No jogo seguinte, contra o Criciúma, isso foi corrigido, mas gerou outro problema: como o espaço nas costas da defesa é grande, se não cuidar bem da bola na saída, um passe mal colocado pega todos os jogadores à frente da linha da bola, gerando oportunidades de contra-ataque do adversário. Já contra a URT, isso foi corrigido também, mas o Cruzeiro exagerou na dose: cuidou tanto da bola que ficou pouco incisivo. Além disso, não apresentou a mesma mobilidade dos outros jogos, aceitando a marcação zonal da URT. Com isso, criou muito pouco, ainda mais levando em conta o grande volume que teve.

Eu poderia terminar dizendo que resta saber se a torcida terá paciência, mas, cá entre nós, sabemos que não. O que realmente resta saber é se a diretoria vai aguentar a pressão das críticas, que já chegaram fortes, e bancar o tempo necessário para que Deivid consiga implantar seu estilo. Considerando que o próprio treinador disse que espera ter um time melhor formatado na quarta rodada do estadual, então isso é o mínimo que devemos esperar.

Confesso que estou curioso pra ver onde isso vai dar. Se encaixar, será um time de encher os olhos. Se encaixar.



Linhas de ônibus

(originalmente publicado no site Diário Celeste)

Quem mora em Belo Horizonte, e certamente quem estuda ou estudou na PUC/MG, com certeza já ouviu falar da linha Dom Cabral/Anchieta, o famoso 4111. Dentre tantas opções, escolhi essa linha para esta introdução justamente por ser uma das mais parecidas com um esquema tático, os famosos numerozinhos que colocamos separados por hífen para resumir a distribuição tática de uma equipe em campo. Muitas vezes, algumas pessoas os chamam de “linha de ônibus”, quase sempre pejorativamente: alguns porque acham que tática não é importante (coitados) e outros porque acham que o esquema em si não é importante, o importante é o resto.

Este colunista discorda dos dois pontos de vista. O esquema — que também pode ser chamado de sistema tático — tem lá sua importância, pois é uma boa síntese de como os jogadores estão distribuídos em campo. Em tempos de redes sociais, você consegue dar uma boa dose de informação com apenas 5 ou 7 caracteres, dependendo do número de linhas de marcação.

Que é exatamente o que esses números representam: a quantidade de jogadores em cada linha de marcação do time. Repetindo o que disse na coluna anterior: não tem absolutamente nada a ver com a “posição de origem” do jogador, e sim com o lugar do campo que ele ocupa, o posicionamento inicial. Dizer que um time está no 4-2-3-1 não significa necessariamente que só haja dois volantes no time, ou apenas um atacante. O que isso diz é que um jogador faz o primeiro combate, atrás dele há uma linha com três, e depois uma dupla protegendo a última linha defensiva. Muitos autores inclusive gostam de usar o formato 1-4-2-3-1, para destacar o papel cada vez mais importante que o goleiro exerce em todas as fases do jogo, tanto com quanto sem a bola.

Mas reconhecer o sistema tático gera debates. Primeiro porque sabemos que futebol não é totó: os jogadores não ficam sempre alinhados uns aos outros. Eles se mexem, invertem de posição, ultrapassam e fazem cobertura. Por essa razão é mais fácil reconhecer o sistema na fase defensiva, particularmente no tiro de meta do goleiro adversário, pois é quando os jogadores retornam para suas posições iniciais, ou seja, o local do campo de onde saem para executar suas funções, e o ciclo do jogo começa novamente.

Além disso, existem diferenças sutis entre alguns sistemas, como é o caso do 4-4-1-1 e do 4-2-3-1. Ambos possuem uma linha de quatro, com dois jogadores centrais à frente dessa linha, mais um “meia” centralizado atrás do “centroavante”. A diferença é o posicionamento dos dois jogadores abertos, a quem chamo de ponteiros (para diferenciar dos pontas de antigamente). No 4-4-1-1, eles recompõem alinhados à dupla de meio-campo, fazendo uma segunda linha de quatro. No 4-2-3-1, ficam ligeiramente mais à frente, na mesma linha do central.

Assim é o Cruzeiro de Deivid. Nomes e números foram tirados de propósito. O que você enxerga? 4-2-3-1 ou 4-4-1-1?

É o caso do Cruzeiro de Deivid no amistoso contra o Rio Branco. Henrique e Ariel faziam a dupla de centro, sem definir o papel de “primeiro” e “segundo volante” — coisa obsoleta no futebol atual. Arrascaeta e Willian ficavam mais à frente, naturalmente. Mas os ponteiros Marcos Vinícius e Alisson faziam uma transição defensiva agressiva: assim que o Cruzeiro perdia a bola, eles subiam a marcação no lateral adversário, ao invés de voltar para ocupar o espaço à frente do lateral do seu lado. Com isso, muitos leram o sistema tático como um 4-2-3-1, enquanto este colunista preferiu ler o sistema num 4-4-1-1, pois não os vi alinhados a Arrascaeta em nenhum momento do jogo, e portanto não poderia colocá-los na mesma linha de marcação do uruguaio. Até mesmo o próprio Deivid, em entrevista recente, afirmou que é um 4-2-3-1 com a bola, e um 4-4-1-1 sem.

Por outro lado, algumas situações não dão essa margem de interpretação. O Cruzeiro de Mano, como dito pelo próprio em uma declaração dada para o PVC, jogava em duas linhas de quatro, com Willians aberto pela direita, depois Arrascaeta e Willian à frente: um 4-4-1-1. O que é muito diferente do 4-3-3 que alguns analistas pregam, pois este sistema considera um triângulo no centro do meio-campo, com um jogador mais recuado e outros dois ligeiramente mais à frente. A era Mano até começou assim, com Henrique sendo esse jogador único centralizado à frente da defesa. Mas na reta final do Brasileirão 2015, ele ficava alinhado a Ariel e Willians, e também a Marcos Vinícius ou Allano, dependendo de quem fosse o ponteiro esquerdo.

Mais importante, porém, é a análise não se prender somente a isso. Pois, como dito, o sistema tático é um resumo útil da distribuição espacial dos jogadores, algo para facilitar o entendimento. Uma boa análise deve se expandir em cima dele e não se limitar a ele. Devemos responder as perguntas: o que o jogador faz quando o time dele está com a bola? De que forma? Para onde se mexe? E quando o time dele está defendendo, qual o comportamento? São os princípios de jogo que o treinador define previamente, e a cujo conjunto chama-se de modelo de jogo.

Ou seja, da mesma forma que defendo que o sistema tático tem sim sua importância, reconheço a sua limitação. Resumidamente, podemos dizer que a posição de origem é o “o que”, o posicionamento inicial (e portanto, o esquema) é o “onde” e o modelo de jogo seria o “como”, o “quando” e o “por que”.

Hoje, muitos analistas táticos, ao escreverem sobre uma partida, preferem até nem dar o sistema. Nesses casos, é realmente desnecessário, pois o resto da análise é mais importante. Mas se algum comentarista falar sobre um sistema e não comentar além disso, desconfie. E desconfie ainda mais se ele disser que o esquema X é “melhor” ou “mais ofensivo” do que esquema Y, sem dissertar mais sobre o modelo de jogo.

Resumindo: da próxima vez que você ouvir alguém falando que o time joga num sistema qualquer (inclusive este colunista), entenda mas questione: “ótimo, e o que mais?”

 

Até semana que vem.