Botafogo 1 x 1 Cruzeiro – O futebol é mais importante que o resultado

O Cruzeiro foi ao Maracanã sabendo do tamanho da crise do Botafogo. Mesmo assim, tinha um discurso de respeito ao adversário. Quando a bola rolou, parecia que era o time celeste que jogava em casa: controle da posse de bola e de território, jogando bom futebol e buscando a vitória a todo instante. Foi superior técnica e taticamente, anulando a maioria das poucas ameaças que sofreu e procurando criar espaços diante da retranca carioca.

Não foi suficiente desta vez, muito por conta de um único erro coletivo e também do goleiro adversário, mas valeu. Pois não foi uma busca pelo resultado a qualquer custo, de qualquer jeito: existe uma filosofia por trás. E o Cruzeiro deste sábado foi o verdadeiro Cruzeiro, e isso é o mais importante.

Sistemas e nomes

O 4-4-1-1 do Botafogo bloqueou os laterais celestes e forçou o 4-2-3-1 celeste a jogar pelo centro; Edilson era o puxador de contras

O 4-4-1-1 do Botafogo bloqueou os laterais celestes e forçou o 4-2-3-1 celeste a jogar pelo centro; Edilson era o puxador de contras

Para este jogo, Marcelo Oliveira lançou Mayke na vaga de Ceará, lesionado, pelo lado direito da linha defensiva do goleiro Fábio. Dedé e Léo repetiram o miolo e Egídio fechava o lado canhoto. Lucas Silva e Henrique mais uma vez fizeram a parceria na proteção e apoio ao ataque, se juntando ao trio de criativos: Everton Ribeiro à direita, Ricardo Goulart como central e Marquinhos à esquerda. Moreno completava o escrete na referência.

Vágner Mancini mudou em relação às últimas partidas. Ao invés do 4-3-1-2 losango esperado, para dar suporte a Carlos Alberto como criador no meio, o Botafogo entrou num 4-4-1-1, que variava para 4-2-3-1 com a bola. Jefferson teve Lúcio à direita e Júnior César à esquerda, com Bolivar e Dória protegendo o centro. Na segunda linha, Edilson fechava o lado direito, Bolatti e Gabriel protegiam a entrada da área e Rogério, estreante, foi escalado para fechar o lado esquerdo. Carlos Alberto, sem responsabilidade defensiva, ficava logo atrás de Emerson, que se movimentavam para os lados.

Flancos fechados

O Botafogo foi humilde e reconheceu a superioridade técnica do Cruzeiro, desde o início deixando claro qual era sua proposta de jogo: bloquear o Cruzeiro e partir em contra-ataques. Assim, deixava a bola com o Cruzeiro e não pressionava no alto do campo. Carlos Alberto apenas cercava Henrique e Lucas Silva, e Emerson fazia o mesmo com os zagueiros celestes.

Se a bola chegava a um dos laterais, no entanto, o Botafogo imediatamente subia a marcação. A ideia era forçar o jogo celeste pelo centro, e foi o que aconteceu: as duplas pelos lados fecharam os espaços de Mayke e Egídio. Sem a saída pelos lados, o Cruzeiro tinha duas opções pra compensar: invertendo o lado da jogada — pois os defensores do lado oposto compactavam o time horizontalmente para tirar o espaço dos toques rápidos dos meias celestes — ou os meio-campistas se movimentavam mais, dando mais opções de passe.

Mas as duas opções envolviam velocidade, e o Cruzeiro não aplicou velocidade suficiente para sair do ferrolho botafoguense. Tentou usar a solução conhecida: trocar passes rápidos pelo centro. Não havia espaço. Parecia que era o Cruzeiro que jogava em casa, tal era a proposta defensiva do adversário.

Erros e infelicidades

O Botafogo pouco chegou ao ataque. A rigor, Fábio só fez uma defesa difícil, em cobrança de falta de Edilson — bola parada. A estratégia com a bola era dar velocidade, principalmente com Edilson pela direita nas costas de Egídio. Incrível como todos os treinadores adversários tentam explorar essa brecha no sistema defensivo celeste.

Só não fez outra porque escorregou na hora do gol local. Mas o erro neste lance foi generalizado: Marquinhos e Egídio deixaram Lúcio escapar pela direita, fazendo Léo ter que sair na cobertura. O lateral cruzou e Dedé não conseguiu ganhar de Edilson, que nem cabeceou forte. A bola veio fácil, mas o escorregão tirou a possibilidade de Fábio espalmar.

A vantagem no placar fez o Botafogo se fechar ainda mais e praticamente abdicou do ataque. Tanto é que só foi finalizar de novo já na metade do segundo tempo, quando o jogo já estava empatado. De sua parte, o Cruzeiro jogou o seu futebol, sem afobação. Tocou a bola, tentou achar espaços, se movimentou, mas não foi suficiente para empatar ainda no primeiro tempo.

Em destaque, o momento do jogo em que Fábio foi mero espectador: depois de conseguir o gol, o Botafogo não chutou nenhuma vez até levar o empate

Em destaque, o momento do jogo em que Fábio foi mero espectador: depois de conseguir o gol, o Botafogo não chutou nenhuma vez até levar o empate

Alugando o campo ofensivo

O time do empate era uma espécie de 4-3-3 com Ribeiro armando de trás, Willian e Dagoberto nas pontas e Lucas Silva sozinho na volância

O time do empate era uma espécie de 4-3-3 com Ribeiro armando de trás, Willian e Dagoberto nas pontas e Lucas Silva sozinho na volância

O segundo tempo começou sem mudanças, tanto em peças quanto nos sistemas e nas propostas. Aos dez, a entrada criminosa de Emerson em Henrique lesionou o volante e foi a deixa para Marcelo abrir o time: tirou Henrique e lançou Willian como ponteiro direito, recuando Éverton para ser um armador recuado. No mesmo movimento, Dagoberto substituiu Marquinhos: menos poder de marcação, mas mais verticalidade e drible. Com a proposta do Botafogo, não era tão arriscado.

As trocas surtiram efeito e Cruzeiro alugou o campo ofensivo. Willian mandou no travessão antes da blitz que resultou no gol celeste. Éverton Ribeiro teve que cruzar duas vezes, com os zagueiros na área todo o tempo, para achar Dedé que fez a deixadinha para Léo. O zagueiro fez um gol típico de centroavante: girou e bateu sem olhar. A bola bateu no travessão e quicou dentro da meta.

Com o empate, o Botafogo voltou à estratégia do zero a zero: sair em contra-ataques. E desta vez havia espaço, pois com um volante só a cobertura dos laterais é mais difícil. Mancini — que àquela altura já havia trocado Bolatti por Rodrigo Souto sem modificar nada — sacou Rogério e lançou Júlio César, tentando replicar a função de Edilson do outro lado: um “assistente de lateral” que puxa contra-ataques. Marcelo respondeu com Nilton na vaga de Moreno, avançando Goulart para a referência.

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro jogou o tempo todo no campo adversário; foi a partida em que o Cruzeiro mais trocou passes em todo o campeonato

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro jogou o tempo todo no campo adversário; foi a partida em que o Cruzeiro mais trocou passes em todo o campeonato

O fator Jefferson

Risco controlado, o Cruzeiro seguiu atacando, e a bola não saía do campo de ataque. Quando o Botafogo conseguia interceptar, só respondia com chutões para frente, onde não havia ninguém de cinza. Vágner Mancini ainda tentou dar um novo fôlego para a estratégia de contra-ataques com Zeballos na vaga do inoperante Carlos Alberto, mas não funcionou.

Já o time celeste buscava a vitória, mas não a qualquer custo. Com calma, mas com velocidade, tocando a bola pelo chão, sem muitos chuveirinhos na área. Só tentava o jogo aéreo quando era bola parada. Nilton cabeceou duas vezes: na primeira Jefferson milagrou, e na segunda beijou caprichosamente a trave direita. Depois, o Cruzeiro fez uma espécia de contra-contra-ataque: o time local errou sua tentativa de pegar a defesa celeste aberta e o Cruzeiro aproveitou o espaço para realizar um contra-ataque lindíssimo, partindo do meio-campo e levando a bola até dentro da área, onde Éverton perdeu a bola.

O Cruzeiro tentou 18 vezes contra a meta de Jefferson: um gol (preto), duas na trave (azul) e seis defendidas por Jefferson (vermelho escuro)

O Cruzeiro tentou 18 vezes contra a meta de Jefferson: um gol (preto), duas na trave (azul) e seis defendidas por Jefferson (vermelho escuro)

O Cruzeiro seguiu tentando, inclusive com Dagoberto no finalzinho, quando Jefferson fez novamente uma defesa espetacular e garantiu o empate.

Jogar bem sempre: somos Cruzeiro

Se no futebol os resultados fossem decididos como na ginástica artística ou nos saltos ornamentais, onde há uma junta de juízes que dão suas notas para quem foi melhor, certamente o Cruzeiro teria saído vencedor. Foi a equipe que buscou o gol a todo instante, não se alterou com o resultado adverso e o mais importante: não foi só na base da raça. Teve técnica e tática, bem aplicadas, e que só não geraram o resultado por que o goleiro adversário foi o melhor em campo.

Mesmo assim, o resultado positivo teria acontecido se o Cruzeiro não tivesse cometido seu único deslize grave na partida. O erro de marcação do lado esquerdo, a falha de Dedé e o escorregão de Fábio foi uma sequência de eventos desafortunados que nos tiraram dois pontos. Deve-se sim tentar corrigir os erros, mas é impossível anulá-los por completo. Nenhum time no mundo consegue fazer uma partida perfeita.

No fim, o que fica é que o Cruzeiro jogou bem, não se conformou com o empate e buscou o resultado, mesmo fora de casa. Postura de time que quer ser campeão novamente. E com bom futebol, que é o mais importante. Quando César Menotti assumiu a Seleção Argentina em 1974, definiu como um de seus mandamentos que “não me interessa ganhar de 1 x 0 com gol de falta; quero vencer por superar futebolisticamente o nosso rival”. Em outras palavras, o que o treinador campeão mundial em 1978 quis dizer é que jogar bem é mais importante que jogar apenas pelo resultado de apenas um jogo. No longo prazo, a filosofia e o bom futebol trarão mais vitórias.

Mas não as garantem. Pos isso, sendo Cruzeiro, prefiro empatar jogando bem do que vencer jogando um futebolzinho chulé.



Cruzeiro 3 x 0 Botafogo – O time da moda

Muito já se falou sobre o jogo de quarta-feira (leia as análises de André Rocha, do blog Olho Tático do ESPN.com.br, e de Léo Miranda, no blog Painel Tático na Globo.com). Obviamente, por ser inegavelmente o jogo mais esperado da rodada, do líder contra o vice-líder, ambos com sequências de vitórias incomuns em Campeonatos Brasileiros (7 celestes contra 4). E os textos contém muitos pontos importantes e descrevem bem a partida, mas o Constelações não poderia ficar de fora, já que é o único blog de tática exclusivo sobre o Cruzeiro Esporte Clube, o líder incontestável do Brasileirão 2013.

O jogo foi de domínio cruzeirense na primeira etapa e de equilíbrio na segunda — em que pese as propostas das equipes terem se alterado no intervalo.

Esquemas táticos iniciais

A diferença entre os 4-2-3-1 de ambas as equipes era a intensidade, e Borges se aproximando dos meias para dar velocidade às trocas de passes

A diferença entre os 4-2-3-1 de ambas as equipes era a intensidade, e Borges se aproximando dos meias para dar velocidade às trocas de passes

O Cruzeiro foi para o jogo no tradicional 4-2-3-1 de Marcelo Oliveira, apenas com a volta de Ceará à lateral direita no lugar de Mayke, que jogou contra o Atlético-PR. O resto da linha defensiva foi igual à daquele jogo, com Egídio na lateral esquerda, Dedé de zagueiro direito e Bruno Rodrigo na zaga esquerda, protegendo o gol de Fábio. Nilton e Lucas Silva fizeram mais uma vez a dupla volância para dar suporte à linha de três meias, com Ribeiro partindo da direita, Goulart se movimentando do centro para as pontas e Willian fazendo a diagonal da esquerda para a área, se aproximando do centroavante Borges.

Oswaldo de Oliveira também armou seu Botafogo no 4-2-3-1 que vem utilizando na temporada toda. De volta da Seleção, o goleiro Jefferson teve sua meta defendida pelos zagueiros Bolívar e André Bahia — este último na vaga do suspenso Dória. Nas laterais, Edilson ficou pela direita e Júlio César foi o esquerdo. Marcelo Mattos fez a marcação principal e Renato tinha um pouco mais de liberdade no meio-campo defensivo, tentando se juntar ao trio formado por Lodeiro, Seedorf e Rafael Marques. Na referência do ataque, Elias.

Pressão na saída

Como vem se tornando comum em jogos no Mineirão, no início do jogo, o Cruzeiro procurou dar o máximo de intensidade, tanto na ofensiva quanto na marcação. Pressionava os zagueiros do Botafogo, forçando-os ou a passes longos — que ficavam quase sempre com a defesa celeste — ou a erros que entregavam a posse da bola perto da sua própria área, ou mesmo dentro dela, como no passe errado de André Bahia que Borges recebeu de presente dentro da área, logo a 3 minutos. Bolívar se recuperou e travou a conclusão.

Já quando tinha a bola, a “novidade” foi o posicionamento de Borges, um pouco mais recuado junto aos três meias, que naturalmente já jogam mais próximos uns dos outros. O camisa 9 ficou mais longe da área e não teve tantas chances de conclusão, mas ofereceu uma linha de passe rápida para dar seguimento e velocidade às jogadas. Destaque para um lance de condução de Goulart, que tabelou com Borges e passou a Willian já dentro da área, com Bolívar travando o chute no último instante.

Verticalidade x cadência

O Botafogo demorou uns dez minutos para passar da linha divisória, tamanho o controle do jogo que o Cruzeiro exercia. Porém, depois dos quinze minutos iniciais, o Cruzeiro arrefeceu um pouco e passou a variar mais a altura da pressão: ora buscava encurtar em cima dos zagueiros e laterais botafoguenses para forçar o chutão, ora fechava o meio-campo e deixava o time carioca com a bola. Com isso o Botafogo cadenciou, pois lhe era vantajoso tirar a intensidade do Cruzeiro naquele momento.

A estatística de posse de bola foi virando lentamente, muito devido aos estilos contrastantes. O Cruzeiro recuperava a bola e aplicava velocidade, tentando resolver rápido a jogada para pegar os defensores cariocas fora de posição e recuando para a sua própria área, e o Botafogo tentando abrir um espaço no excelente sistema defensivo do Cruzeiro. A estratégia cruzeirense acabou funcionando melhor, com Jefferson trabalhando em conclusões de Ribeiro e Willian, além de dois lances de cruzamento rasteiro que por pouco não foram empurrados para o gol, um de cada lado.

Já o Botafogo pouco ameaçou a meta de Fábio. O bom jogo defensivo dos laterais foi um fator, mas Lucas Silva fez uma partida excelente, conseguindo ganhar a maioria dos embates com Seedorf. Isso acabou por fazer o holandês procurar espaços longe da área, para ter tempo com a bola e armar o time de trás, tentando fugir da marcação de Lucas.  Fábio só trabalhou em chute de Elias na entrada da área, mas trabalhou muito bem.

O gol e a mudança

É difícil falar em justiça no futebol, porque este blogueiro sempre acredita que o placar do jogo é o mais justo. Mas merecimento é diferente, e se tinha de haver um vencedor no primeiro tempo, este tinha de ser o Cruzeiro. E no último lance do primeiro tempo isso se comprovou, num repeteco do lance do gol contra o Atlético/PR: escanteio da direita, Dedé segurando o marcador e Nilton sozinho completando de pé para o gol. Desta vez, porém, o volante pegou mais bonito na bola para fazer um golaço.

Apesar de não terem modificações, os times voltaram diferentes. Talvez pela vantagem que conseguiu, o Cruzeiro voltou mais calmo e assistindo o Botafogo trocar passes em sua defesa, provavelmente mais cansado pela intensidade do primeiro tempo. E por isso mesmo o Botafogo, que também tem jogadores de qualidade, imprimiu mais velocidade e foi acuando o Cruzeiro, aos poucos, até que Seedorf, naquele que talvez tenha sido seu único bom lance na partida, deu um belo passe e achou Rafael Marques livre de marcação na área. Bruno Rodrigo tentou tirar, e o zagueiro acabou chutando a perna do atacante botafoguense, que já havia sido dominada por ele. A bola de Seedorf no pênalti passou rente à trave direita, e isso foi o mais perto que o Botafogo chegaria do gol de Fábio.

Trocas

O Botafogo sentiu a perda do pênalti por sua maior referência em campo, e deixou de atacar tanto o Cruzeiro. Mas àquela altura o time celeste já estava no modo “contra-ataque para matar o jogo”, e novamente o Botafogo teve mais a bola nos pés, apesar de não levar tanto perigo como antes do pênalti.

Marcelo Oliveira se viu obrigado a trocar Nilton por Henrique devido a uma lesão do volante-artilheiro, mas aproveitou para lançar Júlio Baptista na vaga de Borges. Júlio foi ser o central e Goulart passou para a referência, mas depois sairia para a entrada de Dagoberto, que foi ser ponteiro direito, com Ribeiro passando a ser o central e Júlio o centroavante. No Botafogo, Oswaldo de Oliveira mandou Hyuri na vaga de Renato, fazendo um 4-3-3 com Marcelo Mattos de único volante e Seedorf tendo a companhia de Rafael Marques no meio-campo ofensivo, e depois lançou Alex na vaga de Elias na referência.

As trocas fizeram a intensidade cruzeirense ser retomada, principalmente nos contra-ataques. E foi numa transição rápida, em bola roubada por Bruno Rodrigo, que Everton Ribeiro entrou driblando na área, caiu e o juiz marcou pênalti duvidoso. Júlio converteu e praticamente matou o jogo. Oswaldo ainda tentaria uma última cartada, com Henrique no lugar de Rafael Marques, lotando o setor ofensivo com dois centroavantes e dois jogadores abertos. Henrique chegou a fazer Fábio defender uma bola, mas um contra-ataque mortal puxado por Júlio Baptista e muito bem concluído pelo próprio em um drible de corpo deu a oitava vitória seguida ao Cruzeiro.

O site WhoScored.com mostra equilíbrio nas finalizações, mas com o Cruzeiro sendo muito mais eficiente (10 chutes certos contra 3)

O site WhoScored.com mostra equilíbrio nas finalizações, mas com o Cruzeiro sendo muito mais eficiente (10 chutes certos contra 3)

Cara de campeão

A proposta de jogo cruzeirense já é bem conhecida: marcação a partir dos atacantes sem a bola, e aproximação e troca de posição dos meias e ultrapassagem dos laterais com a bola nos pés, tudo isso feito com muita intensidade. É claro que nenhuma proposta é perfeita — às vezes o Cruzeiro dá muito espaço, deixando os adversários com tempo demais com a bola nos pés. Porém, seja quando os adversários mudam sua forma de jogar, seja quando não o fazem e exploram os pontos menos fortes do Cruzeiro, como o Botafogo fez, a vitória vem.

Além disso, o comprometimento dos jogadores com o objetivo de campeonar ficou claro na saída para o intervalo, quando o repórter do PFC tentou entrevistar Nilton. O jogador não conseguiu falar devido à emoção de ver a torcida enlouquecida com o seu gol. Indício de comprometimento e motivação.

Se o Cruzeiro vencerá o torneio, ainda é cedo para dizer. Mas que estes ingredientes dão à equipe uma cara de campeão, ah, isso dão.



Botafogo 2 x 1 Cruzeiro – Aquele ditado

Em outros esportes, ser melhor que o adversário em uma partida ou disputa quase sempre leva à vitória. Mas no futebol essa relação é bem menos direta: você pode ser melhor que o seu adversário em vários aspectos, mas mesmo assim sair de campo derrotado. É o famoso resultado “injusto” (entre aspas porque este blogueiro não acredita em injustiças no futebol).

Foi assim na partida contra o Botafogo em Volta Redonda. O Cruzeiro fez uma partida taticamente quase perfeita no primeiro tempo, mas não conseguiu transformar este domínio em gols, e alguns erros técnicos causaram oportunidades para o time adversário, que, mais eficiente nas finalizações, converteu as chances. O resultado foi ruim, mas taticamente foi uma excelente partida do time azul, o que projeta boas perspectivas.

Onze inicial

O 4-2-3-1 de marcação avançada e compacta fez o Cruzeiro ter mais posse e criar mais chances, quase todas desperdiçadas

O 4-2-3-1 de marcação avançada e compacta fez o Cruzeiro ter mais posse e criar mais chances, quase todas desperdiçadas

O cruzeirense já sabe qual é o time titular do Cruzeiro, e foi esse 4-2-3-1 que iniciou a partida, com a exceção de Borges, lesionado. Fábio no gol, Ceará e Egídio nas laterais direita e esquerda, Dedé e Bruno Rodrigo fazendo a parceria de zaga. À frente da área, Leandro Guerreiro e Nilton faziam a dupla volância atrás da conhecida linha de três meias: Everton Ribeiro partindo da direita para o centro se aproximando de Diego Souza, e Dagoberto mais incisivo pelo lado esquerdo. À frente, Anselmo Ramon foi o centro-avante substituto.

O Botafogo se postou no mesmo esquema, mas Oswaldo de Oliveira não tinha Fellype Gabriel, passador, e portanto teve de fazer mudanças. Protegendo o gol de Renan, os zagueiros Bolívar e Antônio Carlos formavam a linha defensiva com os laterais Lucas pela direita e Júlio César pela esquerda. Mais à frente, os volantes Marcelo Mattos e Gabriel davam suporte aos meias Lodeiro pela direita, Seedorf centralizado e Vitinho pela esquerda. Na frente, Rafael Marques.

Marcação alta, passe errado

Logo no início já se pôde perceber a diferença nas posturas defensivas: o Cruzeiro com um time compacto, linha defensiva alta e intensidade na marcação, com os quatro ofensivos pressionando os zagueiros e laterais e prevenindo passes para os volantes botafoguenses. Provocada a bola longa, os zagueiros cruzeirenses recolhiam a bola com tranquilidade para iniciar mais um ataque. Já o Botafogo se contentava em esperar o Cruzeiro em seu campo, deixando a última linha do Cruzeiro bem à vontade com a bola nos pés, tentando fechar os passes em sua própria intermediária.

Jogar com a defesa avançada é excelente para fechar os espaços, mas tem uma única vulnerabilidade: a velocidade em bolas verticais atrás da defesa. Normalmente, se um jogador tem tempo com a bola nos pés, pode tentar encaixar um desses passes. Esse homem era para ser Seedorf, mas o meio-campo cruzeirense marcava bem e não deixava o holandês ter liberdade ao receber a bola. É irônico, portanto, que este passe tenha vindo dos pés de um cruzeirense: Leandro Guerreiro. O camisa 55 tomou à frente de Vitinho e passou pra trás procurando Dedé, mas passou no contrapé do zagueiro, deixando a bola livre atrás da defesa azul. O próprio Vitinho vinha na corrida e tomou à frente de ambos, levando até a grande área e passando a Lodeiro do outro lado, que avançava sem marcação, já que a defesa ainda corria para trás.

Chances desperdiçadas

Após o gol, o Cruzeiro precisou de um certo tempo, mas voltou à estratégia do início da partida. O resultado foi uma posse de bola “barcelonesca” para o time celeste, que ultrapassou os 60% em um determinado momento da partida. Ter mais posse geralmente significa criar mais chances, mas que foram desperdiçadas em conclusões ruins ou decisões erradas no último passe.

Exemplos: bola de Guerreiro para Ceará ultrapassar livre pela direita, que cruzou fazendo a bola sobrar nos pés de Anselmo Ramon. O 99 chutou duas vezes em cima do goleiro, desperdiçando grande oportunidade. Em outro lance, já após o gol merecido de empate, Éverton Ribeiro ganhou de seu marcador e avançou até a área, mas tentou driblar a cobertura quando tinha Anselmo Ramon penetrando livre e de frente para o gol para concluir no centro.

Um bom resumo está no número de finalizações. Enquanto o time mandante concluiu 4 vezes, o Cruzeiro concluiu 8, o dobro. Mas em gol foram apenas 3 para cada lado: 75% de eficiência contra 38%.

Quem não faz…

As máximas do futebol são folclóricas, mas não seriam máximas se não acontecessem frequentemente. Muricy Ramalho, recém-demitido do Santos, diria que “a bola pune”.

Pelo amarelo no primeiro tempo — e não pelo erro individual — Leandro Guerreiro deu seu lugar a Lucas Silva no intervalo. A intenção era prender Nilton e soltar o garoto, que vai bem mais à frente do que os volantes titulares, para justamente ter ainda mais a posse de bola e ao mesmo tempo não desproteger a retaguarda. Deu certo e o Cruzeiro já chegou criando chances com Diego Souza aos 5 (para fora), Everton Ribeiro, aos 7 (em cima da zaga) e Dagoberto aos 8 (defendida por Renan). A virada parecia questão de tempo.

Mas aos 10, Nilton levantou demais o pé dentro da área, num lance totalmente controlado, e o juiz apontou um pênalti altamente contestável. Pênalti convertido, e a nova desvantagem no placar parece ter desanimado os jogadores, que sabiam estar dominando a partida e mesmo assim sofreram um gol — é o futebol. O Botafogo cresceu na partida e o Cruzeiro já não tinha o mesmo físico para fazer a pressão alta, o que equilibrou o confronto. O jogo cadenciado favoreceu Seedorf, que até aquela altura fazia um jogo tímido. O holandês começava a aparecer perigosamente na partida, tendo tempo com a bola nos pés para pensar o melhor passe.

Outras substituições

Aos 20, Dagoberto, escondido no jogo, deu seu lugar a Luan. O posicionamento é o mesmo, mas a característica muda, pois Luan é mais físico que o camisa 11. Sete minutos depois, Everton Ribeiro, que vem deixando a desejar, cedeu seu lugar a Ricardo Goulart. Diego Souza foi para a direita e Goulart ficou por dentro. As alterações não mudaram o panorama do jogo, que seguiu equilibrado com chances de parte a parte, mas desperdiçadas — desta vez por ambos os times.

No Botafogo, a primeira mudança foi aos 38, com o volante Renato entrando na vaga de Lodeiro. Isso liberou Vitinho para se movimentar pelos dois lados, com Renato mais preso para dar mais consistência ao meio-campo. Depois foram substituições protocolares para ganhar tempo e garantir o resultado.

Evoluir sempre

Sem analisar o que foi a partida, um torcedor mais desavisado pode achar que o Botafogo tem um time melhor que o Cruzeiro. Este blogueiro discorda, e afirma categoricamente que o Cruzeiro é mais time que o Botafogo, principalmente se considerarmos a desvantagem no tempo de trabalho do treinador. A marcação avançada, sufocando o Botafogo em seu próprio campo é fruto de um trabalho bem feito e mostra que Marcelo quer um futebol moderno no Cruzeiro de 2013.

Mas como não é só a parte tática que traz resultados, outros aspectos causaram o revés de sábado. Passes errados em momentos chave, decisões erradas na conclusão da jogada, finalizações ruins — tudo entra na conta da parte técnica. E o desânimo após o segundo gol botafoguense também impediu um eventual empate, já que permitiu ao Botafogo que crescesse na partida. É preciso, portanto, treinar estas situações mais exaustivamente. Aparentemente, é o que será feito.

Mais uma vez: taticamente, foi uma excelente partida. Ainda é preciso corrigir algumas coisas aqui e acolá, principalmente na chegada à frente de um dos volantes, algo que insisto nesse blog há algum tempo. Defensivamente, é preciso afinar a compactação e a marcação alta, que tem que ser mais sincronizada, mas o Cruzeiro me parece uma equipe bem sólida.

Uns dirão que o empate seria o resultado mais justo, mas eu não. O resultado “justo” seria a vitória. Mas assim é o futebol.



Cruzeiro 1 x 3 Botafogo – Nem tudo são espinhos

Usando o mesmo estilo de jogo do Cruzeiro no primeiro turno, para nosso azar, o Botafogo esperou um turno inteiro para devolver na mesma moeda a derrota sofrida naquela partida.

As formações iniciais

A movimentação de Leandro Guerreiro para que Everton pudesse avançar e formar um 4-1-4-1 foi fundamental para o equilíbrio das ações no início do jogo

Celso Roth tentou repetir o time da vitória sobre o Náutico, mas Charles foi suspenso e Sandro Silva foi para o jogo. Em uma primeira análise, foi uma opção estranha, já que Sandro é naturalmente reserva de Leandro Guerreiro na base do losango de meio-campo. Entretanto, com cinco minutos de jogo, a razão teria ficado mais clara, como veremos adiante. No início, o Cruzeiro se postou num 4-2-2-2 estreito demais: Fábio no gol, Léo na lateral direita, Everton na esquerda, Rafael Donato e Mateus fechando a defesa. Leandro Guerreiro e Sandro Silva protegiam a área e liberavam Tinga e Souza para armar. Na frente, Wallyson e Borges.

O Botafogo entrou no 4-2-3-1 tradicional: Renan debaixo das traves era defendido pela dupla de zaga Dória e Fábio Ferreira, flanqueados pelos laterais Lucas na direita e Márcio Azevedo na esquerda. Gabriel e Jádson na dupla volância, e mais à frente o quarteto ofensivo, com o trio Fellype Gabriel na direita, Andrezinho centralizado e Seedorf na esquerda atrás de Elkeson. No encaixe de marcação, ficou claro que Everton ficou sobrecarregado com a marcação de Fellype Gabriel e o avanço de Lucas. O mesmo ocorria do outro lado, com Léo tendo que se virar contra Seedorf e o ofensivo lateral esquerdo Márcio Azevedo. Assim, o Botafogo controlou o meio-campo, tinha mais posse e mais amplitude. O Cruzeiro nem pegou na bola nos cinco minutos iniciais.

Leandro Guerreiro e Everton

Então veio a mudança tática: Leandro Guerreiro deixou Sandro Silva marcando Andrezinho, e recuou à lateral esquerda para dar suporte a Everton e marcar Fellype Gabriel; Everton virou ponteiro esquerdo e foi marcar Lucas à frente. Do outro lado, Wallyson recuava acompanhando Márcio Azevedo e Léo ficou responsável por Seedorf. O novo 4-1-4-1 equilibrou a marcação e fazia o Cruzeiro ter mais volume, empurrando o Botafogo para trás. O setor mais perigoso do Cruzeiro era o esquerdo, e foi por este lado que saiu o gol: Souza recebeu por ali e lançou Borges em profundidade. Fábio Ferreira falhou e Borges saiu na cara de Renan, mas não conseguiu vencer o arqueiro botafoguense. Tinga, que vinha correndo para acompanhar o ataque, pegou o rebote num chute muito mais difícil que o de Borges e marcou seu primeiro gol com a camisa celeste.

O gol atordoou o Botafogo. O Cruzeiro teve volume, muito volume, e teve uma chance de ouro para ampliar com Everton, que estava vencendo o duelo contra o lateral direito Lucas. O volante-lateral disparou em velocidade, sua característica, e ao receber passe de Souza, em um só toque driblou seu marcador e invadiu a área. A opção era tocar para Wallyson, que vinha correndo do outro lado, marcar, mas ele chutou para fora. Um gol perdido que faria falta e poderia ter mudado a história do jogo.

A movimentação do quarteto ofensivo do Botafogo

O Botafogo foi controlando os nervos à medida que o Cruzeiro desperdiçava o bom momento. O quarteto ofensivo do Botafogo se movimentava, invertendo posições e tentando confundir a marcação cruzeirense, que estava muito bem. E conseguiram fazer isso por uma única vez. Souza ainda estapeava o gramado, reclamando de uma suposta falta que teria recebido, quando Fellype Gabriel, desta vez na direita, já cruzava a bola que atravessaria toda a área para encontrar Seedorf, que se movimentou às costas de Guerreiro e emendou um lindo chute de primeira no canto direito de Fábio. Com os ponteiros adversários invertidos, a marcação se confundiu.

Nem deu muito tempo de avaliar o impacto do gol, porque logo no minuto seguinte, o Botafogo viraria o jogo, novamente em passe de Fellype Gabriel para Seedorf. Desta vez eles estavam em suas posições iniciais, mas quem marcava Fellype Gabriel era Everton, já que Guerreiro estava vigiando Lucas neste lance. Quando o meia dominou dentro da área, Léo bobeou na marcação e Seedorf tomou-lhe à frente, recebeu o passe e finalizou no cantinho para decretar a virada.

Agora era a vez do Cruzeiro se sentir atordoado. O time começou a errar passes que não estava errando, fruto do nervosismo de um time ainda em formação e que está atrás no placar. Wallyson, que fazia boa partida defensivamente, não fez o mesmo atacando, e naturalmente começou a ser cobrado pela torcida, ávida pelo gol de empate. O nome de Élber era ouvido em alguns lugares da arquibancada. Mesmo assim, o Botafogo contentou-se em aguentar as tentativas cruzeirenses e tentar sair só na boa, o que não aconteceu nenhuma vez até o fim do primeiro tempo.

No segundo tempo, o contra-ataque fatal

No intervalo, Celso “atendeu” o pedido da torcida e mandou Élber a campo no lugar de Wallyson. Também, tirou Sandro Silva do jogo e mandou Wellington Paulista. Com isso, Everton voltou à lateral, Leandro Guerreiro voltou ao meio campo mas Tinga não recuou e continou sendo meia: era um 4-3-3 clássico, com triângulo alto no meio – um 4-1-2-3 para ser mais exato, mas com WP mais centralizado do que aberto pela esquerda. No Botafogo, Fellype Gabriel deu lugar ao centro-avante Willian, com Elkeson voltando para o meio-campo aberto pela direita, mantendo o 4-2-3-1.

Foram dez minutos de tentativas pelo alto e cruzamentos infrutíferos na área. O Botafogo se defendia e tentava sair em contra-ataques, quase sempre com Seedorf pela esquerda. Em uma bola parada, a zaga botafoguense conseguiu fazer exatamente isso. Seedorf e Guerreiro apostaram corrida, vencida pelo primeiro, que num toque só pôs na frente e tirou do alcance do volante. Imediatamente mandou para o centro, onde chegavam nada menos do que quatro jogadores adversários sem marcação. Fábio ameaçou sair, recuou e só saiu de vez quando Jádson dominou, mas foi driblado. Everton não conseguiu salvar a conclusão.

Outras tentativas

No fim, Cruzeiro com muita gente no ataque tentando diminuir no abafa, num 4-2-1-3 com Everton bem avançado e até Mateus saindo para o jogo

Com o jogo decidido aos 10 do segundo tempo, Celso Roth resolveu que não queria mais tomar contra-ataques deste tipo e recompôs o meio com William Magrão no lugar de Souza. Agora era Tinga quem ficava centralizado, com William Magrão tendo certa liberdade para avançar. O Cruzeiro não jogava pelo chão, e insistia muito nas bolas aéreas, tanto com Everton pela esquerda quanto com Élber pela direita. Dominou a posse, muito mais por estratégia do Botafogo de absorver as investidas do que por mérito próprio. Oswaldo de Oliveira, então, fez sua segunda mexida, para fechar o time e segurar o resultado: tirou Willian, aquele mesmo que entrou no início do segundo tempo, para colocar o zagueiro Brinner, e fazer um 5-3-1-1 para matar o quase 3-2-3-2 cruzeirense com o posicionamento alto de Everton.

Mesmo assim, o Cruzeiro ainda teve forças para criar algumas chances, como na jogada de WP recebendo passe de Borges, que fez o pivô. O atacante não foi fominha e passou a Everton que chegava livre pelo lado esquerdo, mas o chute foi dividido com o goleiro Renan e a bola saiu raspando a trave. Mas foi só.

Derrota com pontos positivos?

Não devemos atribuir o revés sempre a erros nossos. Há mérito do outro lado e é preciso reconhecer isso. Taticamente foi um jogo igual, a diferença foi na técnica: quando o Botafogo teve as chances, converteu, e o Cruzeiro não. Se Everton fizesse aquele gol no primeiro tempo, o jogo teria sido outro, mas o “se” não existe no futebol. O que vale é o resultado final — que na não tão modesta opinião deste blogueiro, sempre é justo. O Botafogo fez uma excelente partida e executou melhor a sua estratégia.

Assim, posso até estar exagerando um pouco nesta análise — pois quem me conhece sabe que sou otimista por natureza — mas acredito que este time que jogou ontem é muito mais consistente e equilibrado do que o do início do ano com Vágner Mancini, e até mesmo do que aquele do início do campeonato. É claro que ainda há muitas coisas a melhorar, mas a evolução em relação ao início do ano é clara. Por exemplo, ao contrário do que se imagina, Roth tem feito cada vez menos experiências, e portanto podemos dizer que o time tem sim uma estrutura tática. Everton me parece uma realidade pelo lado esquerdo, principalmente na parte ofensiva, tendo suporte; Wallyson ainda precisa ganhar mais confiança ofensiva, mas tem se destacado taticamente, o que é fundamental.

É sempre bom lembrar que o Cruzeiro jogou sem Ceará e Montillo, peças fundamentais nesse esquema e que dariam outra característica ao time. Também temos Lucas Silva e Charles como opções para o meio, e Martinuccio, meia canhoto, pode se integrar ao grupo em breve.

Portanto, apesar da derrota, vejo pontos positivos. Mas infelizmente, creio que só vamos ter frutos no ano que vem — isso se não mudarem o treinador, é claro.



Botafogo 2 x 3 Cruzeiro – A camisa 10 não é por acaso

É claro que os números de camisa não obrigam um jogador a um determinado posicionamento em campo. Mas bastou ter uma companhia na extrema direita e voltar ao meio-campo para o futebol do Caballero Azul despertar novamente e quebrar a maldição do Engenhão, na vitória por 3 a 2 sobre o Botafogo ontem. Direta ou indiretamente, o argentino teve papel importante nos três gols da virada convincente do time celeste.

Cruzeiro do primeiro tempo num 4-2-2-2 pendendo pra o lado direito, com Souza lento, Marcelo Oliveira alto demais e muitas compensações defensivas

O Cruzeiro entrou no jogo com o mesmo onze da partida anterior, mas com uma mudança tática: Souza voltou ao lado direito e “puxou” o 4-2-2-2 cruzeirense para seu lado, já que ele pouco centralizava, forçando Tinga a fazê-lo para cobrir os avanços de Montillo, novamente usado como segundo atacante. Oswaldo de Oliveira armou o Botafogo no tradicional 4-2-3-1, com Vitor Júnior, Andrezinho e Maicosuel atrás de Herrera, e Renato mais livre que Jadson.

O detalhe tático mais importante do primeiro tempo foi o lado direito do ataque local, esquerdo da defesa celeste. Dois aspectos: com Tinga mais por dentro, Marcelo Oliveira tinha dois adversários para marcar, já que Lucas avançava sem ser incomodado. Além disso, o camisa 6 jogava frequentemente muito alto, talvez numa tentativa de explorar este espaço que havia no ataque, e o Botafogo tratou de aproveitar aquele setor. Charles e Tinga tentavam revezar a primeira marcação pela canhota, mas o primeiro frequentemente tinha que cobrir as investidas de Marcelo Oliveira e o segundo estava centralizado demais.

Assim, o Botafogo começou a controlar as ações através dos pés de Vitor Júnior, o extremo direito. O meia foi o melhor do primeiro tempo, criando várias chances para si e para seus companheiros. Sorte nossa que temos Fábio embaixo do gol e que eles têm Herrera, que perdeu duas chances excelentes de marcar. Ele próprio emendou uma finalização na rede por fora, e no lance do escanteio que originou o gol contra de Amaral, foi ele quem serviu Herrera mais uma vez, que dividiu com Léo e Fábio num lance estranho, e a bola acabou sobrando e se encaminhando lentamente para o gol, que o camisa 1 conseguiu mandar para fora.

Amaral, aliás, não fez uma má partida, mas ficou sobrecarregado na marcação de vários jogadores. Souza e Diego Renan até que conseguiam dar conta do recado pelo lado direito, mas quando ambos avançavam era o camisa 5 que fazia a cobertura. Ele também tinha de marcar Andrezinho, o articulador central botafoguense. Ainda bem que o meia não fez uma boa partida e, como já dito, o Botafogo escolheu mais o lado direito para atacar, com Maicosuel apagado na partida. Por isso o volante só apareceu no jogo na hora do gol contra, quando poderia ter sido muito pior.

Ofensivamente, o Cruzeiro pecou em dois aspectos: previsibilidade e lentidão. Souza, preso do lado direito, cadenciava demais o jogo, por duas razões: a característica dele é essa, segurar a bola, dar um ritmo mais lento ao jogo, e também porque ele não tinha opções para o passe rápido. Montillo era vigiado de perto por Jadson, que se afundava na defesa atrás do argentino; WP encaixotado entre os dois zagueiros, Diego Renan era bem marcado por Maicosuel e Amaral ficava mais preso na proteção à zaga. Tinga tentava ser opção, mas estava centralizado demais e era perseguido por Renato. O Cruzeiro só criou quando Montillo conseguiu se livrar da marcação e centrar a bola. Ela chegou a WP que tentou driblar seu marcador, mas recebeu um toquezinho leve no joelho, o suficiente para tentar cavar uma penalidade inexistente.

Cruzeiro lento e previsível, Botafogo veloz e com espaço pela direita. Assim foi o primeiro tempo, e os números comprovam: apesar de ter tido mais posse de bola (53%), comprovando o excesso de cadência, o Cruzeiro só finalizou uma vez, contra 8 do Botafogo. De nada adianta reter a bola se o time não souber o que fazer com ela.

No intervalo, Celso Roth fez o óbvio e tirou Souza do jogo. O meia não conseguiu dar profundidade pela direita, coisa que Fabinho fez muito bem. E logo de cara o jogo mudou, pois Montillo havia voltado à sua posição original e Fabinho foi ser o segundo atacante acompanhando WP. O veloz camisa 17 confundiu a marcação e congelou o lateral esquerdo Márcio Azevedo. Além disso, se tornava opção para o passe de Montillo, que buscava a bola no círculo central e avançava com liberdade e velocidade, como lhe é característico. O Cruzeiro passou a ter volume e ocupou o campo adversário.

Mas o futebol é futebol: justo quando estava melhor na partida, o Cruzeiro sofreu o segundo gol. Tinga perdeu uma bola para Renato no meio-campo, ela sobrou para Vitor Júnior que rapidamente enfiou uma bola longa para Herrera, entre os zagueiros do Cruzeiro. Mateus estava longe do camisa 9 botafoguense e foi pego de surpresa, mas nada pode fazer para evitar o gol. Surpreendentemente, o Cruzeiro não se abalou e logo no primeiro lance após a saída de bola, Fabinho, excelente no jogo, completou cruzamento de Marcelo Oliveira para mandar na trave e reafirmar a blitz no campo de ataque.

Celso Roth então soltou o time mandando Anselmo Ramon e Everton nas vagas de Tinga e Marcelo Oliveira. Estava formado o 4-2-1-3 da era Vágner Mancini, mas com Everton como opção de velocidade pelo lado esquerdo, Fabinho pelo lado direito e WP pela esquerda próximo a Anselmo Ramon, enfiado e brigando com os zagueiros. Os dois pecados do primeiro tempo foram resolvidos, e no primeiro lance de Anselmo, ele tabelou com WP e mandou na rede pelo lado de fora. Depois, recebeu passe de Montillo e dividiu com o goleiro Milton Raphael, a bola sobrou para WP, fora da área, que tentou encobrir o jovem arqueiro, mas sem sucesso.

Então aconteceu a virada. Primeiro, Montillo recebeu passe pela direita, tentou driblar seu marcador e acabou arrumando um escanteio. Na cobrança, a zaga afastou mal, Mateus concluiu e Anselmo desviou levemente para fazer o primeiro gol cruzeirense no Brasileirão 2012.

Um minuto depois, em um contra-ataque ultraveloz, Montillo conduziu com muito espaço e conectou a Anselmo Ramon na quina direita da área. Ele viu WP dentro mas viu também Everton erguendo os braços e correndo como um raio, sem marcação pelo outro lado. O impulso da corrida fez o cabeceio sair forte e vencer Milton Raphael.

A velocidade no gol de empate celeste: Montillo com muito campo pra avançar, e Everton livre pela esquerda para testar para o fundo das redes

O Botafogo se lançou à frente para buscar a vitória, mas o Cruzeiro não deixou o time da casa respirar, e mais alguns minutos depois, Fabinho recebeu uma bola longa, dominou com categoria e achou Montillo que ia escapando entre os zagueiros do time da casa. O goleiro dividiu com ele, mas cometendo falta. Pênalti que WP converteu contra seu ex-time.

O time que virou o jogo era um 4-2-3-1 que virava um 4-2-1-3 com a bola, muito mais equilibrado, veloz e atacando por todos os lados

Logo após o terceiro gol, que WP preferiu não comemorar, foi possível ver Celso Roth passando instruções para o camisa 9. Certamente foi para recuar pelo lado esquerdo para recompor o 4-2-3-1, deixando Anselmo Ramon sozinho à frente. Ele conseguiu bloquear bem os avanços de Lucas, de maneira análoga a Fabinho do lado direito. Oswaldo de Oliveira tentou um único movimento: puxou Vitor Júnior para o centro, tirou Andrezinho e lançou Elkeson pela direita. Isso acabou facilitando o trabalho de Everton, que conseguiu bloquear bem os avanços dele. Vitor Junior já não tinha mais o mesmo espaço para jogar e nada fez. O Botafogo seguiu tendo mais posse de bola mas não conseguiu produzir boas chances até o fim do jogo.

Conclusões deste jogo: primeiro, Montillo é meia, e fim de papo. O próprio Celso Roth admitiu na coletiva após o fim da partida que o argentino é bom driblador, porém não dá profundidade. Ora, se ele não dá profundidade, então porque escalá-lo como segundo atacante? Além disso, ele mesmo disse preferir atuar como camisa 10. Segundo, Tinga deve render melhor se jogar como segundo volante, ao lado de Amaral ou Leandro Guerreiro. Terceiro, Fabinho entrou muito bem e fez muito mais que Souza, que não é jogador de lado de campo, é central. Merece uma chance pelo lado direito. Quarto, talvez seja melhor dar uma chance a Everton no time titular, escalando-o na extrema esquerda, e prendendo Marcelo Oliveira, como foi na primeira partida contra o Atlético/GO. Isso geraria uma 4-2-3-1 torto a la Brasil 2010, mas com os lados invertidos. E quinto, Anselmo Ramon talvez faça melhor a função de referência do que WP. É o caso de se dar uma chance.

Meu time para o jogo contra o Sport, portanto, seria Fábio; DR, Leo, Mateus e MO; Amaral e Charles (Tinga); Fabinho, Montillo e Éverton; WP (Anselmo Ramon). No entanto, como só avalio os jogos, e o treinador está lá todo dia, não acredito que isso vá acontecer.

Mas que Montillo tem que voltar à meia central, ah, pelo menos isso tem.