Goiás 0 x 1 Cruzeiro – Exagero na dose

O Serra Dourada é o maior campo do Brasil. O gramado possui as medidas máximas permitidas pela regra 1 para jogos oficiais internacionais, 110 x 75 m. O Mineirão usa as medidas oficiais para jogos da Copa, 105 x 68 m. A diferença parece pequena, mas não é: só nas laterais, são 3,5 metros a mais de espaço para cada lado — provavelmente a largura do quarto ou sala onde você está agora lendo este texto.

Um campo com medidas tão grandes tem influência direta na estratégia de marcação de uma equipe no jogo. É preciso dosar o desgaste físico, pois não há como aplicar a mesma intensidade de marcação que se usa num campo como o Mineirão, por exemplo, pois corre-se o risco de cansar em demasia no fim da partida e ficar em desvantagem numérica em alguns setores.

Foi esse controle que o Cruzeiro tentou fazer em Goiânia neste domingo. Mas exagerou na dose e quase correu o risco de perder dois pontos.

Sistemas iniciais

No primeiro tempo, ambas equipes no 4-2-3-1, espalhados, e se movimentando pouco no enorme campo do Serra Dourada

No primeiro tempo, ambas equipes no 4-2-3-1, espalhados, e se movimentando pouco no enorme campo do Serra Dourada

Como de costume, Marcelo Oliveira manteve o 4-2-3-1. Sem Mayke, Henrique e Ricardo Goulart, todos poupados para evitar lesões, Fábio teve sua linha defensiva formada por Ceará, Dedé, Léo e Egídio. Nilton reeditou a parceria com Lucas Silva no meio-campo, dando suporte a Willian na direita, Éverton Ribeiro como central e Alisson pela esquerda. Na frente, Moreno.

O Goiás não foi a campo com três zagueiros, como informou o SporTV no início da transmissão. Ricardo Drubscky também armou um 4-2-3-1, com Renan no gol, Jackson e Felipe Macedo como zagueiros, Moisés na lateral direita e Léo Veloso na esquerda. Valmir Lucas entrou como volante preso, com David tendo ligeiramente mais liberdade. O quarteto ofensivo tinha Thiago Mendes na direita, Tiago Real por dentro e Samuel na esquerda atrás de Bruno Mineiro.

Ritmo lento: Sonolência ou estratégia?

O jogo começou e parecia não ter começado, tal a lentidão que os jogadores de ambas as equipes colocavam em campo. Muitos amigos nas redes sociais já cornetavam, dizendo da sonolência do time, mas este blogueiro preferiu avaliar pelo lado da estratégia: se poupar para não cansar no enorme gramado do Serra Dourada. Assim, não vimos o Cruzeiro que normalmente vemos em outras partidas, aplicando pressão sobre a zaga adversária para roubar a bola e tocando com velocidade e intensidade quando a tinha nos pés.

Quando o Cruzeiro acelerou, chegou ao gol. Bola roubada no meio-campo, a defesa do Goiás ainda estava se arrumando, mas Éverton Ribeiro, de frente e sem marcação, tinha três opções de passe: Ceará, que já passava na direita; Alisson, totalmente livre pelo lado esquerdo com o lateral Moisés correndo para alcançá-lo; e Marcelo Moreno, marcado por um zagueiro e com outro na sobra. A escolha de Éverton foi a mais difícil: um passe em profundidade, fora do alcance da cobertura e apostando na velocidade do boliviano, que concluiu cruzado para marcar. Oitava assistência de Éverton no certame, o líder no quesito.

Talvez pela facilidade, os jogadores de certa forma se acomodaram. Conseguiam repelir as investidas goianas com facilidade, e não quiseram correr muito mais para fazer o segundo e matar logo a partida.

Segundo tempo

Nenhuma mudança houve depois do intervalo. A única diferença foi que o Cruzeiro passou a ter mais posse de bola na intermediária ofensiva ao invés da defensiva, mas com poucas tentativas de passe agudo. Só aos 15 o jogo mudaria um pouco, com Drubscky trocou Moisés por Murilo, um meia, passando Valmir Lucas para a lateral direita. Murilo foi jogar aberto na direita, e os dois Tiagos ficaram mais próximos por dentro do campo, com Real mais à direita e Mendes mais à esquerda. Uma espécie de 4-3-3, pendendo muito para a direita.

O mapa de passes do 2º tempo (Opta) mostra como o Goiás insistiu pela direita, tendo um jogador aberto naquele setor (Murilo) mas não do outro lado

O mapa de passes do 2º tempo (Opta) mostra como o Goiás insistiu pela direita, tendo um jogador aberto naquele setor (Murilo) mas não do outro lado

No Cruzeiro, Egídio deu seu lugar a Samudio. Naquele momento, achei que fosse para poupar e dar mais segurança, mas Egídio teve um problema na mão e teve que sair. Depois, com Alisson por Dagoberto, Marcelo queria definir a partida de uma vez, mas não foi o que aconteceu. O Goiás começou a ocupar a intermediária ofensiva e trocar passes muito próximo da área de Fábio, muito porque o Cruzeiro não dava pressão sobre o homem da bola neste setor. Um risco desnecessário, já que seria melhor ocupar o meio-campo e empurrar o time verde para trás.

Com Henrique, Cruzeiro fechou o meio-campo mas abriu os corredores, permitindo vários cruzamentos -- um risco desnecessário

Com Henrique, Cruzeiro fechou o meio-campo mas abriu os corredores, permitindo vários cruzamentos — um risco desnecessário

Marcelo Oliveira tentou mexer no time com Henrique na vaga de Willian, numa rara modificação de sistema tático. O Cruzeiro se postou num 4-3-1-2, com Henrique e Lucas ligeiramente mais avançados que Nilton no meio. Dagoberto se juntou a Moreno no ataque e Éverton ficou na ligação. O meio-campo central ficou mais forte defensivamente, mas sem jogadores abertos o Cruzeiro abriu os corredores, e o Goiás que começou a atacar com seus dois laterais ao mesmo tempo. O resultado foi uma profusão de bolas na área, que o Cruzeiro conseguia afastar até com certa facilidade. Mas novamente corria riscos desnecessários.

Já Ricardo Drubscky trocou seus dois atacantes para poder encaixar passes em profundidade e pegar a defesa celeste correndo pra trás. Não tinha funcionado até o último lance da partida, quando a postura cautelosa demais quase cobrou seu preço. Uma bola espirrada de Léo acabou servindo de passe para Esquerdinha. Dedé foi com ele e ganhou na bola, mas o juiz viu pênalti, que David mandou pra fora.

Segurando demais

Esta partida contra o Goiás mostrou que o Cruzeiro está ciente de sua capacidade e também tem maturidade para acelerar o jogo quando bem entende. É compreensível que os jogadores não quisessem se aplicar tanto na marcação, visto o tamanho do campo e a maratona de jogos que está por vir. No entanto, talvez tenha exagerado no freio. Era preciso acelerar um pouco, mas apenas um pouco, não a ponto do desgaste físico ser um fator. E seria suficiente para que o Cruzeiro não corresse os riscos que correu no fim da partida.

No empate contra o Botafogo e na vitória que só valeu um ponto contra o Criciúma, o time foi elogiado pela busca constante do gol e pelo jeito de jogar ofensivo e consciente. Apesar de ter valido mais pontos, esta partida não merece tantos elogios quanto as outras. O Cruzeiro quase perdeu dois pontos por puro desleixo. O tamanho do campo é um atenuante, mas não pode ser a única desculpa.

Que bom que a maioria dos próximos jogos será em campos menores, e assim poderemos ver o Cruzeiro verdadeiro em ação.



Goiás 1 x 2 Cruzeiro – Sem referência

O título acima havia nascido na cabeça deste que vos escreve já na metade do primeiro tempo, pois sintetiza bem o que foi a partida entre Goiás e Cruzeiro no Serra Dourada — atualmente o maior campo do Brasil. Lesionados, os atletas que jogam na referência — jargão do futebol que é sinônimo da posição de centroavante, ou target man no inglês — ficaram de fora. No Cruzeiro, Borges foi vetado pouco antes da partida, e no Goiás já se sabia que Walter dificilmente iria para o jogo — muito mais prejuízo, já que é referência para todo o time e não só para o ataque.

A falta de referência, porém, não estava somente na posição de centroavante, como veremos a seguir.

Formações iniciais

Goulart não foi bem como centroavante e assim o Cruzeiro ficou ficou sem referência tanto no ataque como no meio

Goulart não foi bem como centroavante e assim o Cruzeiro ficou ficou sem referência tanto no ataque como no meio

Marcelo Oliveira escolheu o jovem Alisson para a vaga de Borges, avançando Ricardo Goulart para jogar entre os zagueiros. Com isso, o posicionamento de partida dos três meias também foi modificado — Éverton Ribeiro passou a ser o central, Alisson entrou caindo mais pela esquerda e Willian trocou de lado. O resto do time foi o mesmo que iniciou a última partida, com Fábio no gol, Ceará e Egídio nas laterais direita e esquerda, respectivamente, e Dedé e Bruno Rodrigo na zaga central. Nilton e Lucas Silva mais uma vez fizeram uma boa dupla volância, com o primeiro mais preso que o segundo.

Enderson Moreira armou o Goiás num 4-3-3/4-1-4-1 para encaixar a marcação no meio-campo com o Cruzeiro: um apoiador em cada volante e dois homens abertos para bater com os laterais. A linha defensiva que protegia o gol de Renan tinha Vítor à direita, Walmir Lucas e Rodrigo na zaga e William Matheus na lateral esquerda. David foi o volante, tendo Hugo e Thiago Mendes mais à frente, com Ramon pela direita e Renan Oliveira pela esquerda. Na frente, Neto Baiano.

Respeito

Logo no começo da transmissão do jogo, a TV captou a tradicional reunião no túnel de acesso do Goiás ao gramado. Um dos jogadores falava em não pensar em empate, mas sim em vitória. Irõnico, pois o simples fato de ter que se dizer isso já indica que o empate era considerado um bom resultado. É o efeito da liderança inconteste.

E foi por isso que o Goiás se limitou a esperar o Cruzeiro e marcar forte nos minutos iniciais. Marcou em bloco médio/baixo, com Neto Baiano no círculo central olhando Dedé e Bruno Rodrigo tocarem a bola um para o outro. Se a jogada ia para os pés de Ceará, Renan Oliveira pressionava, e se fosse em Egídio, Ramon subia a marcação. O resto do time se postou num marcação individual por setor: laterais batendo com ponteiros, o volante David com o central, e os zagueiros contra Ricardo Goulart.

O central

Para sair dessa forte marcação, era preciso muita mobilidade. Na teoria, a entrada de Ricardo Goulart na vaga de Borges era exatamente pra isso — se o camisa 31 não é centroavante nato, ele se movimenta mais, saindo da área para inverter posições com os ponteiros e o central. Mas Goulart não fez isso, preferindo se limitar a jogar enfiado entre os zagueiros. E com a adição de Alisson, a linha de três não estava tão entrosada, tanto mais com Éverton Ribeiro por dentro. Assim, o time ficou também sem uma referência no meio-campo central, alguém para se movimentar, receber a bola e distribuir de volta: exatamente o papel que Ricardo Goulart faz.

O resultado direto foi que o Cruzeiro não criou pelo chão e tentava a ligação direta. Porém, Goulart dificilmente é o jogador certo para este tipo de jogo, a famosa disputa de 1ª e 2ª bola. Os zagueiros goianos ganhavam quase tudo. Sem ser agredido como esperava, o Goiás foi se soltando aos poucos e foi avançando o time, sem descuidar de seu esquema de marcação. Mesmo assim, não incomodou muito a meta de Fábio, exceção feita ao chute de Hugo pra fora após roubar uma bola na pressão alta.

Mas o Goiás achou seu gol numa falha de marcação de Egídio (veja imagem abaixo), e com a vantagem voltou ao modo inicial da partida — a meta era dificultar ao máximo as ações ofensivas celestes. Se o discurso do túnel de acesso serve de parâmetro, um vitória simples sobre o líder era um excelente resultado. Porém, a defesa goiana não contava com um passe maravilhoso do garoto Alisson. Tentando deixar Goulart em impedimento, se esqueceu de Willian, que desviou de Renan e empatou.

Fim do experimento

No intervalo, Marcelo Oliveira desfez a tentativa. Recuou Goulart e colocou os três meias nas posições “originais” — Ribeiro na direita, Goulart por dentro e Willian na esquerda — tirando Alisson da partida e lançando Anselmo Ramon. Normalmente seria Vinícius Araújo o escolhido, mas o jovem da base não foi relacionado por estar em vias de servir a seleção sub-20. A ideia era conseguir fazer o tal jogo de primeira e segunda bola, com retenção de posse no ataque, e ainda contar com o entrosamento dos três meias para dominar a posse de bola no meio.

Somente o segundo item funcionou. Com Goulart como central, a diferença no fluxo de passes era visível. Anselmo, porém, destoou do time e não venceu nenhum duelo aéreo, servindo apenas para ocupar os zagueiros do Goiás. Foram os quinze minutos de maior domínio do Cruzeiro na partida, até que Marcelo Oliveira tirou Goulart da partida e mandou Dagoberto. No Goiás, Neto Baiano saiu para a entrada de Júnior Viçosa, mais veloz, mas mantendo o sistema tático.

O período de maior produção ofensiva foi justamente quando Ricardo Goulart estava como central, entre as duas primeiras trocas do Cruzeiro

O período de maior produção ofensiva foi justamente quando Ricardo Goulart estava como central, entre a primeira e a segunda troca

Erro ou acerto?

Difícil dizer que a troca foi um erro após o resultado conhecido, mas no momento não me pareceu a melhor escolha. Dagoberto ainda está voltando de lesão, pegando o ritmo, e notadamente não tem a mesma aplicação defensiva que os outros ponteiros celestes. Além disso, o Cruzeiro novamente ficou sem sua referência de passe no meio-campo, com Éverton Ribeiro voltando a ser o central para dar espaço a Dagoberto na direita. Willian continuou pelo lado esquerdo.

O Goiás passou a dominar a posse de bola novamente e chegou com perigo algumas vezes. Enderson Moreira sentiu que podia vencer e colocou Tartá na ponta direita na vaga de Ramon, para pressionar Egídio. No Cruzeiro, Ceará sentiu cansaço ou lesão, e deixou o gramado para a entrada de Mayke — uma troca que é aparentemente seis por meia dúzia, mas quem acompanha o blog sabe que não é bem assim. Mayke é mais ofensivo e veloz, enquanto Ceará dá mais segurança na marcação.

Virada de líder

No fim, o Goiás se soltou num 4-2-4/4-2-3-1 mas deu campo para o Cruzeiro contra-atacar com Dagoberto e quase matar a partida

No fim, o Goiás se soltou num 4-2-4/4-2-3-1 mas deu campo para o Cruzeiro contra-atacar com Dagoberto e quase matar a partida

Ter queimado a regra três logo aos 25 do segundo tempo acabou por ser determinante, porque três minutos após a substituição, Lucas Silva virou a bola para Dagoberto na direita. Mayke passou como um raio em direção à linha de fundo e foi acionado. Levantou a cabeça e achou Willian na marca do pênalti, fazendo o famoso “facão” da esquerda pra dentro e virando o placar.

Depois do gol, Enderson Moreira tentou abriu totalmente o time num misto de 4-2-3-1 e 4-2-4 super ofensivo com Araújo na vaga de Hugo, recuando levemente Viçosa para o meio. Incomodou, é verdade, mas correu o risco de dar o contra-ataque para o time celeste, que desperdiçou duas oportunidades. Mas Fábio e a trave nos deram a sexta vitória seguida e a manutenção da vantagem na liderança.

Até quando se erra, se acerta

Ousadamente, manterei a minha opinião: a saída de Goulart foi um erro. A entrada de Dagoberto pode ter sido boa, mas a saída de Ricardo diminuiu consideravelmente o domínio territorial no meio-campo, e correu-se risco demais de sofrer um gol por causa disso.

Entretanto, mesmo com este equívoco, o Cruzeiro venceu. E não foi num erro do adversário, mas sim mérito: jogada construída, com passes conscientes, movimentação e excelência técnica. Além disso, contou com uma pitada de sorte nas duas bolas na trave que levou, e ainda com uma grande defesa de Fábio quando o jogo ainda estava em 1 a 1 — nosso capitão foi praticamente um espectador nas últimas partidas, mas provou que quando acionado é um dos melhores do Brasil. Ou seja, todos os ingredientes de um time campeão: elenco variado, qualidade técnica, time entrosado, confiança e sorte.

É aquela história: quando a fase é boa, tudo dá certo.



Cruzeiro 5 x 0 Goiás – Erros e acertos

Com dois gols de Nilton, que somado aos de Bruno Rodrigo e Diego Souza somam quatro em jogadas de bola parada, o Cruzeiro goleou o Goiás na estreia do Brasileirão e já contabiliza uma rodada na liderança.

Muitos disseram que o Goiás errou muito, e por isso o resultado. Os erros na marcação contribuíram, mas não há como negar o mérito cruzeirense em provocar estes erros: os escanteios não aconteceram porque o Goiás errou, mas sim porque o Cruzeiro atacou com qualidade. Não fosse uma ótima atuação do goleiro Harlei, o placar poderia ser ainda maior.

Escretes iniciais

O 4-2-3-1 costumeiro, mas com Egídio e Dagoberto se alternando como quarto homem de meio e Borges fugindo da zaga goiana

O 4-2-3-1 costumeiro, mas com Egídio e Dagoberto se alternando como quarto homem de meio e Borges fugindo da zaga goiana

Marcelo Oliveira parece ter se decidido num time titular e repetiu a escalação da partida contra o Resende: Fábio; Ceará, Dedé, Bruno Rodrigo e Egídio; Leandro Guerreiro e Nilton; Everton Ribeiro, Diego Souza e Dagoberto; Borges. O mesmo 4-2-3-1 usual, que você leitor, já está acostumado a ver por aqui.

Foi difícil precisar o sistema tático do Goiás. O goleiro Harlei teve uma linha de quatro na defesa: Vítor na lateral, Ernando e Valmir Lucas no miolo e William Mateus na esquerda. À frente da defesa, Amaral fazia a proteção. Na frente Walter atuava centralizado, tendo o suporte de Araújo pela esquerda e Renan Oliveira partindo da direita e se movimentando. Na recomposição, Renan Oliveira fechava o lado direito e Hugo ficava centralizado, formando uma linha de três. A dúvida ficou por conta do posicionamento de Thiago Mendes. Então é provável que fosse um 4-2-3-1, ou no máximo um 4-1-4-1 desconjuntado, com o camisa 8 do time goiano mais recuado que o normal.

O sistema foi difícil de identificar o meio-campo do Goiás praticamente não participou do jogo. O time visitante optava pela ligação direta com Walter, que não conseguiu vencer nenhum duelo contra Dedé e Bruno Rodrigo, muito seguros. Araújo foi bem marcado por Ceará e nada fez, e Renan Oliveira, que em teoria era o principal articulador, pouco tocou na bola ante a forte marcação de Leandro Guerreiro.

Forte lado esquerdo

Quando o Cruzeiro tinha a bola, vários foram os fatores para que a meia cancha esmeraldina ficasse perdida na marcação. Os três meias fizeram as trocas de posição habituais, e os ponteiros do Goiás não acompanhavam as descidas dos laterais celestes: nem Araújo voltava com Ceará, nem Renan Oliveira ou Hugo desciam com Egídio.

O mais interessante, entretanto, foi um padrão que já havia acontecido no fim do jogo contra o Resende: as rotas de Egídio. O lateral esquerdo tem frequentemente procurado o centro enquanto Dagoberto dá amplitude pela esquerda, num movimento “inverso” ao que fazem Everton Ribeiro e Ceará na direita. Assim ele conseguiu ficar sozinho para arriscar a primeira finalização do jogo, e assim ele deu a assistência para o gol de Borges, o terceiro do Cruzeiro.

Mas o camisa 6 não deixa de fazer a ultrapassagem quando Dagoberto tenta cortar pra dentro para usar a sua melhor perna, a direita. Essa variação confundiu totalmente o lateral direito Vitor, que ficou sobrecarregado na marcação e não foi ao apoio uma única vez.

Foi daquele lado que veio a falta que originou o primeiro gol. Diego Souza aproveitou a lambança da zaga do Goiás pra fazer o primeiro gol celeste no Brasileirão. Erro do adversário, sim, mas mérito de Diego que ali estava no lugar certo. É possível notar que Diego pára de ir em direção ao gol, enquanto a defesa goiana continua correndo pra trás.

Borges

Também foi do lado esquerdo que saiu a jogada que originou o escanteio do segundo gol. Dagoberto recebe, procura o centro e aciona Borges. O camisa 9 quase sempre vencia os zagueiros do Goiás no giro quando duelava no um contra um. A finalização saiu forte, mas Harlei espalmou. Na cobrança do tiro esquinado, Bruno Rodrigo ganhou pelo alto e aumentou a contagem.

Borges também saía da área e fugia da marcação dos zagueiros goianos. Em contra-ataque puxado por Nilton, ele vinha correndo pelo lado esquerdo, longe do alcance de Ernando e Valmir Lucas. Como é de sua característica, assim que chegou perto o suficiente, mandou a bomba, para mais uma vez Harlei espalmar para escanteio. Desta vez foi Nilton quem apareceu para completar a cobrança de escanteio e fazer o terceiro.

O quarto gol foi tanto um prêmio pela boa movimentação de Borges quanto uma boa ilustração dos dois conceitos aqui expostos: Dagoberto e Egídio tabelam pela esquerda, com o lateral correndo para o centro e destruindo a marcação goiana. Borges fugiu de seu marcador e apareceu livre para receber o passe. A defesa ficou pedindo um impedimento que não existiu e Borges fuzilou. Desta vez Harlei não conseguiu espalmar para escanteio.

Entrando com a garotada

O intervalo veio com o jogo já definido. Mas Enderson Moreira ainda tinha esperança de diminuir o prejuízo e tirou Hugo, inoperante no meio-campo, para a entrada do meia Ramon. Era uma tentativa de dar um pouco mais de posse de bola e criatividade no meio-campo, para evitar as ligações diretas. A grande vantagem que o Cruzeiro tinha no placar fez com a equipe naturalmente tirasse o pé, e com isso a alteração surtiu algum efeito, no sentido de que o Cruzeiro parou de jogar na intensidade que vinha jogando e o Goiás tinha mais a bola, mas sem ter chances reais.

Mas o Cruzeiro chegava facilmente quando acelerava, pelos mesmos atalhos do primeiro tempo. E foi cozinhando o jogo dessa forma. Fábio era um espectador privilegiado, praticamente não sujou o uniforme. Marcelo Oliveira, porém, queria mais, e com o jogo controlado, lançou os garotos para tentar reacender o time: Élber entrou na vaga de Diego Souza e Lucca na de Everton Ribeiro. No início Élber foi ser ponteiro esquerdo e Lucca o direito, ao contrário do esperado, mas poucos minutos depois inverteram. Com isso Dagoberto passou a ser o meia central, uma posição diferente da que está acostumado.

No Goiás, os leves e rápidos Júnior Viçosa e Eduardo Sasha entraram nas vagas dos pesados Araújo e Walter — neste último caso, literalmente. O ataque do Goiás passou a se movimentar mais, e Eduardo Sasha chegou a finalizar duas vezes à direita de Fábio. Se Enderson Moreira tivesse começado com eles, talvez os zagueiros do Cruzeiro teriam mais problemas.

A última alteração foi a entrada de Ricardo Goulart na vaga de Dagoberto, completando a troca da linha de três meias. À exceção do gol de Nilton, em mais um cabeceio de escanteio, nada de mais importante aconteceu no jogo.

Erros e acertos

É claro que os erros de marcação do Goiás, principalmente nas bolas paradas, contribuíram para o resultado. Mas estamos vendo por aí favoritos ao título jogando contra times que também erram muito, e no entanto o placar não foi tão elástico, ou sequer favorável. O Cruzeiro só fez o que todo time em busca do título deve fazer: aproveitar destes erros sem dó nem piedade. Além disso, o outro time só erra quando o adversário causa as situações para o erro.

Assim, podemos dizer que, se o Goiás errou muito, o Cruzeiro acertou muito. Tanto tecnicamente (vitórias em disputas pessoas, por exemplo) como taticamente (a movimentação ofensiva que anulou a retaguarda goiana). Neste aspecto, aliás, Marcelo parece ter arrumado uma solução para o volante ofensivo que o Cruzeiro não tem, e que este blog vem levantando há algumas partidas. Ao invés de escalar um volante com chegada e perder o poder de marcação no meio, este papel pode ser exercido alternadamente por Everton Ribeiro ou Egídio, quando centralizam, ou Dedé, quando vai à frente.

Esses movimentos mostram que o encaixe do time está vindo bem mais rápido que o esperado. Estamos no caminho certo.