Cruzeiro 3 x 1 Vitória – O Mineirão voltou a ver bom futebol

Acabou a Copa e os trabalhos voltam no Constelações. Copa essa que, mesmo com o fiasco brasileiro, foi uma das melhores em termos técnicos e táticos que este blogueiro já viu. Só o Brasil mesmo ficou atrás nesses quesitos.

Mas como este blog fala só do Cruzeiro, vamos ao que interessa. Primeiro uma rápida análise dos reforços, e depois as notas sobre a volta do Cruzeiro ao nacional.

Reforços

O Cruzeiro não ficou parado durante o Mundial. Além dos amistosos nos EUA, o clube contratou o zagueiro Manoel, que estava no Atlético/PR, e os atacantes Marquinhos, do Vitória, e Neilton, do Santos.

Manoel é uma excelente contratação. Zagueiro técnico e com bom tempo de bola. Perfil ideal para zagueiros no time celeste. Se o Cruzeiro já tinha a melhor zaga titular do país, com Dedé e Bruno Rodrigo, agora passa a ter a melhor zaga reserva também. Apenas uma nota tática: dos quatro zagueiros, somente Bruno Rodrigo está acostumado a jogar pelo lado esquerdo. Todos os outros tem preferência em ficar mais próximos de Ceará ou Mayke, e de acordo com o observado nos amistosos nos EUA, a prioridade é de Dedé, depois de Manoel e depois Léo. Ou seja, Dedé sempre jogará pelo lado direito. Manoel só jogará pela esquerda se fizer dupla com Dedé, enquanto Léo só jogará pela direita se fizer dupla com Bruno Rodrigo.

Marquinhos e Neilton são jogadores com características parecidas. São atacantes ponteiros, velozes e leves, e em tese jogarão na linha de três meias do 4-2-3-1 preferido pelo time celeste, muito provavelmente pelo lado esquerdo, já que Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart são incontestáveis quando estiverem disponíveis. Mas em caso de suspensão, também podem jogar pela direita. Marquinhos tem mais experiência, enquanto Neilton, acredito eu, veio para ser lapidado e se integrar lentamente. É mais uma contratação de longo prazo, acredito.

Retorno do Brasileirão

Quatro dias após a Alemanha levantar seu quarto caneco, era a vez do Cruzeiro continuar a busca pelo seu tetra. E não poderia haver um time melhor para a tarefa de exorcizar o Mineirão, palco do maior vexame da história da seleção nacional, do que o Cruzeiro, campeão brasileiro com futebol ofensivo e com sobras.

E, apesar do outro time vestir rubro-negro, como naquele fatídico dia, o Cruzeiro não fugiu à responsabilidade. Diante de um Vitória muito bem armado por Jorginho, conseguiu uma vitória difícil, mas que acabou por premiar o time que buscou o gol em detrimento da equipe que entrou apenas para se defender.

Escalações iniciais

Cruzeiro no tradicional 4-2-3-1 que encaixou na marcação do 4-1-4-1 do time baiano, com perseguições individuais a cada jogada

Cruzeiro no tradicional 4-2-3-1 que encaixou na marcação do 4-1-4-1 do time baiano, com perseguições individuais a cada jogada

Marcelo Oliveira lançou a campo o 4-2-3-1 tradicional, com o gol do capitão Fábio sendo protegido por Manoel e Léo Completando a linha defensiva, Ceará mais marcador pelo lado direito e Egídio mais apoiador pela esquerda, em acordo com as suas características. Henrique e Lucas Silva faziam o doblete no meio-campo defensivo, dando suporte ao trio criativo formado por Éverton Ribeiro, partindo da direita e circulando, Ricardo Goulart, o central mais móvel do Brasil, e Marquinhos, mais agudo pela esquerda mas invertendo com seus companheiros meias. Na frente, Marcelo Moreno segurava os zagueiros.

Já o Vitória de Jorginho veio para se defender com duas linha bem próximas e um volante entre elas — o famoso 4-1-4-1. A linha defensiva que defendia a meta de Wilson tinha Ayrton pelo lado direito e Danilo Tarracha pelo lado esquerdo, e Alemão e Kadu no miolo de zaga. Entre as linhas, Adriano fazia a “sobra do meio-campo”, formado por Caio à direita, José Welison e Josa mais centralizados e Richarlyson — ele mesmo — fechando o lado esquerdo. Na frente, solitário, Dinei era o único sem responsabilidades defensivas.

Encaixe

Como é possível ver no esquema acima, essas duas formações se encaixam perfeitamente no meio-campo, e nas duas pontas sempre a dupla de zaga fica contra o centroavante solitário, garantindo a sobra. Porém, a postura sem a bola dos dois times era diferente: enquanto o Cruzeiro subia a marcação e pressionava a saída baiana mais intensamente, o Vitória preferia deixar a dupla de zaga celeste trocar passes com liberdade.

Porém, assim que a bola chegava em outro jogador que não fosse Manoel ou Léo, um dos jogadores do time visitante subia para pressionar o homem da bola. Se o Cruzeiro saía pelos lados, Caio perseguia Egídio e Richarlyson rastreava Ceará; se fosse pelo meio, Josa pegava Henrique e José Welison marcava Lucas Silva. Mais à frente, o ponteiro direito — qualquer que fosse ele naquele momento — tinha a companhia constante do lateral Tarracha, o mesmo acontecendo com o outro lado. E na maioria das vezes, Goulart, que é mais frequentemente o central, tinha próximo dele o volante entrelinhas Adriano.

Esse encaixe todo fez com que o Cruzeiro demorasse a achar saídas boas com a bola no chão. Bolas longas não eram necessárias porque os zagueiros não eram pressionados, mas as bolas curtas tinha sempre marcação fortíssima. Percebendo isso, os meias começaram a voltar para buscar a bola no pé dos zagueiros e tentar começar a construção, mas mesmo assim os marcadores baianos abandonavam o seu posicionamento para persegui-los. Era um tipo de marcação em que cada um pega o seu e vai com ele até o final da jogada. Em outros termos, marcação por função, mas a partir do encaixe, se tornava individual.

Chances

Com pouco espaço entre as linhas, o Cruzeiro teve certa dificuldade para jogar. Quando acertou o primeiro passe, pecou na construção. Quando acertou na construção, falou o último passe, e quando conseguiu fazer tudo isso, pecou nas finalizações. Também porque Wilson jogou um bom primeiro tempo.

Mesmo sob forte marcação, Cruzeiro chutou 13 bolas contra Wilson no primeiro tempo; o Vitória só uma -- e de bem longe (fonte: Squawka)

Mesmo sob forte marcação, Cruzeiro chutou 13 bolas contra Wilson no primeiro tempo; o Vitória só uma — e de bem longe (fonte: Squawka)

Normalmente, quando fica difícil jogar, apela-se para a bola parada ou para o cruzamento. E de fato o Cruzeiro teve chances usando esses dois expedientes. Mas também conseguiu usando passes rápidos e envolvendo a defesa adversária. Mas as finalizações não foram boas, e o primeiro tempo acabou mesmo em branco, com o Cruzeiro tendo mais de 60% de posse de bola.

Segundo tempo e trocas

Jorginho gostou de performance defensiva de seu time, e talvez tenha até visto uma oportunidade de vencer em uma bola, e por isso liberou um pouco mais seus jogadores para avançar. Calhou de o Cruzeiro também ter mudado a estratégia, recuando as linhas para espaçar o time baiano e tentar jogar com mais espaço. Por isso, no início da segunda etapa, vimos um Vitória com mais volume e um Cruzeiro mais defensivo.

Mas somente a estratégia baiana parecia ter funcionado. Se o Vitória não incomodava Fábio, rondava perigosamente com a bola perto de sua área, e uma falha defensiva poderia ser fatal. Mas ao recuperar a bola o Cruzeiro errou muitos passes e não conseguia dar prosseguimento.

Marcelo tentou colocar Dagoberto na vaga de Marquinhos para ver se a nova estratégia surtia efeito, mas o jogo voltou ao padrão do primeiro tempo: o Vitória recuou novamente as linhas e esperava o erro celeste. Jorginho quis arriscar um pouco mais, jogar por uma bola, e colocou um jogador mais veloz e ofensivo do lado esquerdo, Vander, na vaga do marcador Richarlyson, mas o sistema não se alterou.

Um gol muda o jogo

Justo quando o técnico celeste se preparava para mudar o sistema, abrindo mão de Lucas Silva para lançar Marlone e aproximar Éverton e Goulart no centro, efetivamente transformando o time num 4-3-3, Alemão marcou contra. A substituição foi cancelada, porque era necessário ver como o jogo ser apresentaria a partir deste gol.

E, como era esperado, o Vitória se lançou um pouco mais à frente para buscar o empate, e isso acabou por facilitar a vida dos meias celestes. Com espaço, conseguiram jogadas que mataram o jogo: Éverton Ribeiro achou Egídio, que cruzou e a bola encontrou a cabeça de Ricardo Goulart, o elemento surpresa que a zaga baiana não esperava estar ali. Depois, Goulart recebeu passe de frente para o gol já na intermediária ofensiva e com espaço, coisa que não havia acontecido até ali, e com um toque por cima, encontrou Ribeiro avançando. O meia matou no peito e bateu da entrada da área, vencendo finalmente o goleiro Wilson e sacramentando a vitória.

Jorginho tinha tentado diminuir o prejuízo após o segundo gol, com Willie na vaga de Caio, mantendo o 4-1-4-1 mas com ponteiros rápidos, mas o terceiro gol celeste matou suas esperanças. Tinga ainda entraria na vaga de Éverton Ribeiro, apenas para preencher o meio-campo e fazer o jogo se arrastar até o fim, apesar do belo gol de falta de Ayrton.

O padrão esperado dos visitantes

A postura do Vitória na noite de quinta é o que a maioria dos adversários celestes deverão fazer quando jogarem no Mineirão. O Cruzeiro é o atual campeão brasileiro e líder da competição atual, jogando futebol de respeito. Isso naturalmente encolhe o time visitante. Portanto é mais que natural que os outros times utilizem essa estratégia quando forem jogar em Belo Horizonte. Nem todos terão a mesma qualidade que o Vitória no primeiro tempo, assim como nem todos deixarão aproveitar dos erros defensivos celestes.

Todas as 13 interceptações do Vitória foram no campo defensivo, sendo 10 só no primeiro tempo (fonte: Squawka); ilustra bem qual deve ser a estratégia dos adversários do Cruzeiro no Mineirão

Todas as 13 interceptações do Vitória foram no campo defensivo, sendo 10 só no primeiro tempo (fonte: Squawka); ilustra bem qual deve ser a estratégia dos adversários do Cruzeiro no Mineirão

Assim, é preciso ter paciência. Qualquer análise tem que levar em conta os dois times, e não somente um lado, como muitos ditos jornalistas por aí fizeram. Uns dizem que o Cruzeiro só venceu porque o Vitória fez o gol contra, outros dizem que o Cruzeiro não jogou bem. Eu discordo dos dois pontos de vista. Não se pode afirmar que, mesmo sem o gol contra, o Cruzeiro não venceria, até porque não sabemos que impacto a alteração que Marcelo preparava naquele momento (Marlone x Lucas Silva) teria. O Cruzeiro jogou bom futebol e venceu com autoridade, buscando o gol e sem medo de errar. O adversário é que impõe dificuldades, e por isso mesmo, nem sempre o bom futebol vence.

Mas entre jogar bom futebol e vencer, o Cruzeiro faz os dois.



Cruzeiro 2 x 2 Ponte Preta – À brinca

Dois descuidos da zaga, no início e no finzinho do jogo, tiraram os três pontos do Cruzeiro de ressaca pelo título conquistado oficialmente em Salvador. Méritos da Ponte Preta, que se defendeu bem e aproveitou as pouquíssimas oportunidades de gol que teve.

Mas ouso dizer que caso o Cruzeiro tivesse encarado o jogo “à vera” e não “à brinca”, o resultado com certeza seria outro.

Sistemas iniciais

Ataque contra defesa: teoricamente a Ponte veio num teórico losango, mas Rildo e Adrianinho afundavam tanto que parecia um 4-5-1 em linha

Ataque contra defesa: teoricamente a Ponte veio num teórico losango, mas Rildo e Adrianinho afundavam tanto que parecia um 4-5-1 em linha

O Cruzeiro, como todos sabem — menos o cara que faz a arte com a disposição tática antes dos jogos na TV — joga no seu costumeiro 4-2-3-1, mas desta vez com muitas novidades. Fábio, que será o primeiro jogador a colocar a mão na taça no dia 1º de dezembro, não foi poupado e defendeu a baliza celeste mais uma vez, protegido pelos zagueiros Paulão e Léo, com Ceará e Éverton fechando a defesa pelas laterais. Souza e Henrique formaram a dupla volância, dando suporte a Júlio Baptista como central e a Éverton Ribeiro e Willian de ponteiros, com Ricardo Goulart na frente.

Jorginho escalou a Ponte Preta num teórico 4-3-1-2 losangal. Na prática o desenho se deformou pela postura defensiva do time de Campinas na partida. O gol de Roberto foi defendido por Artur à direita, César e Ferron no miolo e Uendel à esquerda. Baraka era o “cão de guarda” da defesa, e era acompanhado nessa tarefa por Fernando Bob e Fellipe Bastos como os vértices laterais do losango. Adrianinho era o único meia criativo, com o atacante Rildo posicionado quase como um ponteiro esquerdo e Leonardo centralizado na referência.

Estacionando o ônibus

Antes do gol, o jogo já dava sinais de que seria praticamente um exercício de ataque contra defesa. E na primeira investida, cochilo de Léo na marcação de Leonardo, que iniciou a jogada sob a marcação do zagueiro, mas entrou na área para concluir livre. Talvez porque Léo se acostumou a jogar na esquerda da zaga quando fez parceria com Dedé — quando joga ao lado de Paulão, ele fica no seu lado preferido, o direito, no qual já foi até lateral.

O gol só fez acentuar a característica do jogo. Desesperada para fugir do rebaixamento, a Ponte Preta só se defendia. Nem contra-ataques arriscava, deixando apenas Leonardo já na sua intermediária defensiva como o homem mais avançado. O losango de meio-campo se planificou, Rildo voltava acompanhando Ceará, e Adrianinho afundava entre os volantes, transformando o time praticamente um 4-5-1 — assim mesmo, com cinco jogadores quase alinhados no meio-campo.

Sem conseguir entrar na defesa campineira, o Cruzeiro abusou de cruzamentos e finalizou bastante, mas com pouco perigo. E a partir dos 30 minutos, a Ponte conseguiu sair um pouco de trás e aproveitava algumas falhas provenientes do desentrosamento dos defensores do Cruzeiro: dois jogadores na pressão da bola e nenhum na cobertura, por exemplo, abrindo espaços que normalmente o Cruzeiro não cede.

Flagrante do desentrosamento da defesa celeste: nesta bola, Paulão devia dar o combate e Ceará devia estar em Rildo, mas o atacante ficou sozinho para receber

Flagrante do desentrosamento da defesa celeste: nesta bola, Paulão devia dar o combate e Ceará devia estar em Rildo, mas o atacante ficou sozinho para receber

Segunda etapa

Após virar o intervalo na frente, Jorginho acreditou na proposta. Apenas trocou Fellipe Bastos por Magal, na direita do “losango” — entre aspas porque o jogo voltou ao padrão ataque-defesa do primeiro tempo, fazendo com que a Ponte afundasse o seu meio-campo para marcar o Cruzeiro. Só que desta vez, Éverton Ribeiro começou a jogar pra valer: chamou o jogo pra si e começou a distribuir como nunca, mas as finalizações dos companheiros não eram boas.

Depois de quinze minutos, Marcelo Oliveira resolveu que era hora de tentar vencer, para dar alegria ao torcedor uberlandense. Em duas trocas, mandou Élber e Vinícius Araújo nas vagas de Júlio Baptista e Henrique, inovando: montou um 4-2-3-1 com Élber, Goulart e Willian atrás de Vinícius, mas com Éverton Ribeiro como um “armador recuado”, posicionado como volante, mas que só tinha a função de pensar o jogo. Na prática, era um 4-1-4-1/4-3-3, pois a Ponte praticamente não atacava.

Virada

Após as trocas, Cruzeiro todo no ataque, mesmo quando já vencia, com Éverton Ribeiro distribuindo: o risco era ter marcação frouxa no meio-campo. Assim saiu o segundo gol do time de Campinas

Após as trocas, Cruzeiro todo no ataque, mesmo quando já vencia, com Éverton Ribeiro distribuindo: o risco era ter marcação frouxa no meio-campo. Assim saiu o segundo gol do time de Campinas

A terceira troca, Éverton por Luan, já estava preparada antes mesmo do empate, num cabeceio de Souza em cobrança de escanteio de — não poderia ser outro — Éverton Ribeiro. Luan entrou como lateral-esquerdo mesmo, indicando a vontade de Marcelo de atacar a todo custo. Àquela altura, Willian já fazia mais companhia a Vinícius Araújo dentro da área ofensiva do que a Éverton Ribeiro no meio. Goulart passou à esquerda e o time ficou numa espécia de 2-1-3-4 — sim, porque os laterais estavam tão avançados que já não eram mais defensores.

Jorginho lançou Elias na vaga de Adrianinho numa troca direta, de meia por meia, mas era um jogador descansado. E pouco depois, mandou Rafael Ratão na vaga de Rildo, que neste jogo não foi atacante e sim “marcador de lateral”. Mas o jogo não mudou, e mais uma vez Éverton decidiu: recebeu um passe de Vinícius Araújo e viu a movimentação do garoto, colocando uma bola precisa e preciosa para o camisa 30 chutar de primeira e fazer um dos gols mais bonitos da rodada.

O Cruzeiro até que tentou mais vezes, mas em mais um descuido — desta vez de todo o sistema defensivo — a Ponte conseguiu achar o empate, num contra-ataque nem tão rápido assim, mas que pegou a defesa celeste se recompondo. Quem erra a interceptação do passe para Leonardo é Souza, que está fazendo a cobertura de Paulão, voltando lentamente de um ataque. Como era o único volante, não havia marcadores para impedir o passe original de Elias.

Filosofia vitoriosa

No primeiro texto do ano, este blog destacou o provável estilo de jogo que o Cruzeiro teria este ano, baseado nas contratações feitas. Seria um resgate do futebol ofensivo, de toque de bola, que é a escola histórica do Cruzeiro. Deu muito certo, ainda mais considerando que é uma equipe ainda em processo de amadurecimento.

Sim, pois como disse Fábio na sua entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil: “depois da eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil, chegamos à conclusão de que nós não sabíamos jogar nos defendendo”. E sabendo dessa limitação, a partir dali o Cruzeiro arrancou para o título jogando da forma que sabe: atacando sempre, com intensidade.

Mas a frase também indica que há espaço para melhorar. Um time maduro consegue se adaptar sem problemas às características de uma partida, e haverá sim momentos em que o adversário tentará atacar de todas as formas. A Libertadores é uma competição que tem esse lado.

É preciso, portanto, saber variar a estratégia, mas sem variar o estilo. Porque deixar de ser um time de toque de bola, jamais.



Seis pontos que não empolgam

Neste fim de campeonato, o Cruzeiro já não tem maiores pretensões, nem corre mais riscos. Isso somado ao fato de já estar anunciado aos quatro ventos que Celso Roth não será o técnico celeste em 2013, faz este blogueiro perder um pouco do entusiasmo em analisar taticamente a equipe. Nem há novidades táticas ou experimentações, nem vale para fazer uma previsão de uma base tática para o ano que vem.

Assim, analisarei por alto as duas últimas partidas do Cruzeiro, surpreendentemente, duas vitórias, mas que também não dizem nada.

Cruzeiro 3 x 1 Bahia

No que me parece uma contradição, justo quando Montillo está fora, o time vai a campo num 4-2-3-1. Tinga pelo centro da linha de três armadores não é novidade, visto que o volante jogou assim contra o Palmeiras no primeiro turno. A novidade mesmo foi a escalação de Leandro Guerreiro na zaga — não como um líbero, como o volante fez em algumas partidas deste ano, mas como zagueiro de área mesmo, em dupla com Thiago Carvalho. Momento técnico fraco dos zagueiros cruzeirenses ou falta de persistência de Celso Roth? Nunca saberemos.

O certo é que Sandro Silva e Marcelo Oliveira foram escalados na dupla volância, e Fabinho entrou pelo lado direito, com Martinuccio pela esquerda e Anselmo Ramon na referência. A marcação encaixou com o 4-2-3-1 baiano, mas com Marcelo Oliveira tendo mais liberdade para subir a apoiar o ataque, o que transformava o Cruzeiro momentaneamente em um 4-3-3 clássico, ou 4-1-2-3. Em “casa” (entre aspas porque o Independência não é a casa de verdade do Cruzeiro), o time celeste teve mais a bola, mas o domínio era somente nesse quesito. Anselmo não conseguia concatenar as jogadas e Tinga estava visivelmente tendo dificuldades para ser o ponto de rotação da equipe.

Os abundantes erros de passe geravam inúmeros contra-ataques da equipe visitante. Isso aliado ao mau posicionamento na transição defensiva (recomposição quando o time perde a bola) fez com que Fábio salvasse algumas vezes o gol, mas sem conseguir evitar que ele acontecesse, numa falha de marcação que deixou Fahel totalmente livre dentro da pequena área.

O time foi para o vestiário sob fortes vaias da torcida, que pegava mais no pé de Sandro Silva e Fabinho. Mas Celso foi teimoso — como nosso presidente — e mandou o mesmo time de volta. Com vantagem no placar, o Bahia cedeu mais campo ao Cruzeiro e tentou somente se defender, mas Martinuccio não deixou. Em escanteio pela esquerda, a bola é desviada por Anselmo Ramon e acha o argentino, livre de marcação, na direita da pequena área, para mandar um bico e ver a bola rebater no amontoado de jogadores do Bahia que protegia a linha do gol e entrar.

Com o empate, o Cruzeiro foi pra cima, mas pecava demais no último passe e no excesso de cruzamentos — velho problema. Para se ter uma ideia, o Cruzeiro é o segundo time que mais cruza bolas na área (média de pouco mais de 21 por jogo), mas é somente o 14º em aproveitamento destes cruzamentos: apenas 1 a cada 5 chega até o jogador, e nem todos são garantia de finalização.

A virada só viria num contra-ataque, em que estranhamente o zagueiro do Bahia desistiu de roubar a bola de Anselmo Ramon após o centro-avante receber de costas e proteger. Com o espaço cedido, Anselmo esperou até o momento certo para mandar a bola por cima para Martinuccio, que partia em velocidade. O argentino pegou de primeira e fez um golaço.

Sandro Silva, o mesmo que a torcida pegou no pé no intervalo, fez duas faltas para amarelo em minutos de diferença. A torcida ainda iria sofrer um pouco mais. Após a expulsão, deu pra ver da arquibancada Everton e Fábio conversando sobre o posicionamento. Everton postou as duas mãos uma na frente da outra, com o polegar guardado: duas linhas de quatro. Diego Renan, Leandro Guerreiro, Thiago Carvalho e Everton protegiam a área, e à frente William Magrão (que entrou no lugar de Tinga), Marcelo Oliveira e Martinuccio. Anselmo Ramon permanecia à frente para fazer retenção da bola no novo 4-4-1.

O Bahia bem que tentou. Rodou a bola, inverteu as jogadas e tentou abrir a defesa, mas não chegou nem perto de ameaçar Fábio. Eu diria que a postura defensiva do Cruzeiro com dez homens em campo foi exemplar. Até que veio o lance da expulsão de Mancini em um lance com Souza. Com a igualdade numérica, o jogo ficou mais franco, e veio ser definido num lance improvável. Jogada pela direita, Souza passa a William Magrão meio sem querer e o volante finaliza por cima, encobrindo Marcelo Lomba e fazendo um belo gol.

Não foi a melhor atuação cruzeirense, mas uma das mais sólidas. Detalhe que essa foi apenas a segunda virada do Cruzeiro no Brasileiro deste ano — a primeira tinha sido contra o Botafogo no Engenhão, ainda no início do campeonato. É difícil relacionar a melhora psicológica à mudança do esquema, mas acredito que a nova formação possa ter dado a confiança necessária, e assim a equipe conseguiu virar o jogo, mesmo sob pressão da torcida.

Cruzeiro 2 x 0 Fluminense

Com Montillo de volta, Celso Roth voltou ao 4-3-1-2 losango. No lugar de Martinuccio, fora por força de contrato, entrou o jovem garoto Élber. A suspensão de Sandro Silva abriu espaço para Charles ser o vértice baixo do losango de meio, com Marcelo Oliveira pela esquerda e Tinga pela direita. Ceará voltou à lateral direita e Guerreiro foi mantido na zaga.

O Fluminense, já campeão, entrou no mesmo 4-2-3-1 de sempre. Sem Wellington Nem, Abel escalou Rafael Sóbis, Deco e Thiago Neves atrás de Fred. Mas a letargia pelo título antecipado e a festa que viria após o jogo, com a cerimônia de entrega da taça — como foi em 2003, quando Alex ergueu o Campeonato Brasileiro diante de um Mineirão lotado, contra o mesmo Fluminense — talvez tenha feito os jogadores do Fluminense não se doarem tanto.

Mesmo assim, há que se destacar que o Cruzeiro fez uma partida sólida defensivamente. O time da casa não conseguiu espaço para jogar, mesmo tendo Deco para desafogar o meio. O luso-brasileiro não conseguiu levar vantagem sobre a marcação de Charles. Sóbis apagado do lado esquerdo e Thiago Neves igualmente do lado direito. Sem ser abastecido, Fred não foi ameaça, e assim, o 1 a 0 com o pênalti sofrido por Anselmo Ramon e convertido por Montillo era o placar mais justo.

Na segunda etapa, o Cruzeiro ampliou a vantagem logo no início, e não deu chances de reação ao Fluminense. Em contra-ataque rápido puxado por Montillo, Élber ganhou de dois marcadores meio atabalhoadamente e ficou cara a cara com Diego Cavalieri, que não alcançou a finalização no cantinho do garoto. Com isso, o Cruzeiro passou a usar a mesma arma que o Fluminense usou durante todo o campeonato: esperou em seu próprio campo e partia na transição ofensiva, popularmente conhecida como contra-ataque.

No fim, o Fluminense veio pra cima e tentou marcar o gol de honra, mas Rafael mostrou que quando Fábio não está disponível, nada temos a temer. Fez grandes defesas, parando inclusive o artilheiro Fred, e garantiu o zero no placar adversário.

Coritiba e Atlético/MG

As últimas notícias dão conta de que Celso Roth vai escalar Montillo e Martinuccio num 4-2-3-1, com Fabinho fazendo o lado direito atrás de Wellington Paulista (Anselmo Ramon está suspenso). Diego Renan deve entrar na lateral esquerda, para poupar Everton de receber o terceiro cartão e ficar fora do clássico. Mas isso pode acabar sendo uma boa, já que Diego é mais defensivo que Everton e isso ajudará Martinuccio no trabalho defensivo, ao perseguir o lateral adversário.

Ainda não é o que eu gostaria, já que eu colocaria Montillo aberto na esquerda e Martinuccio na direita — insisto nos ponteiros de pés invertidos. Mas só de ter a linha de três com os dois argentinos já acredito que será uma das melhores partidas do Cruzeiro no ano. Estarei vendo de perto, quem sabe pela última vez no Independência. Ano que vem é Mineirão.