Cruzeiro cauteloso: escolha ou desgaste?

Problemas técnicos impediram este blog de publicar análises mais aprofundadas sobre os dois últimos jogos pelo Brasileirão. Inclusive, estive in loco no empate sem gols contra o Sport na Arena Pernambuco. De volta à ativa, darei portanto breves pitacos nestas partidas e também na partida de ontem contra o ABC pela Copa do Brasil.

Há no futebol (e no esporte em geral) uma velha máxima: a melhor defesa é o ataque. Em alguns casos, de fato: se você está atacando, o adversário não está te atacando e, portanto, você nem precisa defender. Mas essa é uma visão muito simplista. O correto é dizer: a melhor defesa, em alguns casos, é o ataque. Ou melhor: a melhor defesa nem sempre é o ataque.

Depois da derrota no clássico, o Cruzeiro jogou três partidas. E pelo menos um aspecto houve em comum em todas elas, ocasionado por diferentes razões: o Cruzeiro foi mais cauteloso. Quando tinha a bola, preferia cadenciar em vez de atacar com muita intensidade, como fez bastante em 2013, para diminuir as chances de um passe errado que gere contra-ataques. Sem a posse, a equipe preferiu esperar na linha divisória, compactada em bloco médio, em vez de pressionar alto e forçar o erro do adversário.

Coritiba 1 x 2 Cruzeiro

No Paraná, o Cruzeiro fez um dos melhores primeiros tempos que vi neste ano defensivamente. O Coritiba – armado numa espécie de 4-3-3 que variava para 4-3-1-2 de acordo com o posicionamento de Alex (leia mais aqui) – teve tempo na bola, mas não conseguia entrar nas linhas celestes. Alex, ídolo nos dois clubes, não conseguia receber a bola em espaços perigosos porque o Cruzeiro os ocupava. Isso forçava o craque a voltar até na linha de zagueiros para receber a bola e tentar ver o jogo. Sem alvos, acabava devolvendo para outro zagueiro ou um volante e voltava a correr pra frente.

Tudo isso porque a postura defensiva do Cruzeiro estava diferente. Não foi o time que joga e deixa jogar: o Cruzeiro procurou primeiro destruir – ou no caso esperar o erro do adversário – para depois construir. Com a bola recuperada, aplicou velocidade suficiente pelos lados para criar as jogadas dos dois gols: um escanteio que gerou o pênalti em Nilton e um lançamento para Ceará, que avançou até achar Éverton Ribeiro livre do lado esquerdo.

No segundo tempo, o Cruzeiro relaxou um pouco, talvez pelo desgaste físico, e o Coritiba chegou mais perto da área, até pela entrada de Martinuccio no time na vaga de um dos volantes. Mas o Cruzeiro não quis explorar os novos espaços e se contentou em absorver a pressão do time da casa, que até marcou um gol, mas depois esbarrou no eficiente sistema de marcação celeste.

Sport 0 x 0 Cruzeiro

Nesta partida, pude observar de perto esta nova postura. Contra um Sport armando no mesmo 4-2-3-1 que o Cruzeiro, eu torcia constantemente para que Moreno avançasse em cima de um dos zagueiros pernambucanos e que os meias subissem a marcação atrás dele, mas isso não acontecia. Em um momento, consegui enxergar todos os dez jogadores de linha em um espaço de não mais que 15 metros: uma compactação que não deixava o Sport jogar e que deu tranquilidade a Fábio. Não sofrer gols foi uma consequência natural.

Atacando, o Cruzeiro até que teve algumas chances, mas da arquibancada eu sentia pouca aproximação entre os três meias, tão costumeira. O desgaste físico da viagem de Curitiba para Recife, e com jogos em espaço de tempo tão curto, parece mesmo ter feito alguma diferença. Sem essa proximidade, o jogo do Cruzeiro não fluía com a mesma intensidade, e o time pernambucano tinha seu trabalho de marcação facilitado.

Mesmo assim, foi o Cruzeiro quem criou mais chances, teve mais a bola nos pés e chutou mais a gol, principalmente no segundo tempo. Mas não foi suficiente para tirar o outro zero do placar.

Cruzeiro 1 x 0 ABC

O cansaço acusado pelos jogadores no Recife forçou Marcelo Oliveira a lançar mão de seu bom elenco, mandando a campo uma formação alternativa para o jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil. Aqui, a razão para a falta de intensidade ofensiva e defensiva era a falta de ritmo e entrosamento. Borges, Dagoberto, Marlone e Willian não conseguiam muito se achar em campo, permanecendo muito estáticos em suas respectivas faixas do campo, sem as trocas costumeiras.

Some-se a isso o fato de que o time potiguar veio para perder de pouco, como esperado, e mal se aventurou no ataque para não ceder espaços. Com o time todo atrás, cabia a Nilton e Willian Farias iniciarem a construção. Mas ambos são volantes mais marcadores que passadores e tiveram certa dificuldade. No segundo tempo, Ricardo Goulart, que estava sendo poupado, entrou e, como mágica, o time instantaneamente melhorou. É impressionante como Goulart praticamente força seus companheiros a se mexerem, saindo do centro e caindo pelas pontas. Assim, quem está nas pontas procura o meio e isso acaba confundindo a marcação.

O Cruzeiro teve bem mais volume de jogo e tentou chutar mais vezes, mas o ABC continuou se defendendo bem. Faltava o capricho no último passe – sempre ele. Assim, o time potiguar não permitiu que o Cruzeiro criasse muitas chances: duas finalizações certas, sendo que só a de Egídio no primeiro tempo foi com bola rolando. A outra foi o gol de Léo, num escanteio.

Na parte defensiva, o Cruzeiro não foi tão seguro, cometeu alguns erros, mas também teve a mesma estratégia: não pressionar os zagueiros adversários no alto do campo. O ABC porém preferia entregar a bola para o Cruzeiro e tentar especular nos contra-ataques. Fábio não fez nenhuma defesa no jogo todo.

Diagnóstico: novo padrão ou resguardo?

Como vimos, nas três partidas o Cruzeiro optou por uma postura mais cautelosa defensivamente. Contra o Coritiba, fechou as linhas e esperou o adversário errar; contra o Sport, o desgaste pareceu ser o fator principal na falta de intensidade; e contra o ABC, o time reserva estava mais descansado, mas a falta de ritmo não permitiu a marcação alta.

Esta postura foi mais acentuada nas últimas partidas, mas o fato de o Cruzeiro atacar um pouco menos já podia ser visto no número de finalizações, se comparado ao do ano passado. É uma equipe que ainda ataca muito, mas menos do que antes. Duas possíveis causas: o respeito dos adversários, o que faz com que eles se armem todos atrás dificultando as ações ofensivas; e a maturidade do time, que está preferindo dosar o ritmo para não se desgastar. No fim das contas, provavelmente é uma mistura das duas coisas.

Dados da Footstats do Campeonato Brasileiro mostram: Cruzeiro finaliza menos este ano do que no ano passado

Dados da Footstats do Campeonato Brasileiro mostram: Cruzeiro finaliza menos este ano do que no ano passado

Fica a pergunta: seria este comportamento do sistema defensivo celeste uma nova forma de jogar ou é apenas temporária devido ao desgaste da temporada? Só saberemos de fato nas próximas partidas.



Cruzeiro 1 x 0 Coritiba – A outra estratégia

O Cruzeiro fugiu um pouco de seu estilo tradicional diante de um adversário muito bem montado, mas mesmo assim conseguiu a vitória. E diferente da última partida, onde jogou melhor e não merecia perder, desta vez o Cruzeiro conseguiu marcar durante seu período de domínio e levar os três pontos, seguindo no encalço da liderança.

O aproveitamento máximo no Mineirão foi mantido graças ao excelente momento técnico de alguns jogadores e à entrega física de outros, mas também à variação na estratégia de jogo, ainda que algumas alterações não tenham dado certo.

O blog Painel Tático, de Leo Miranda, fez uma boa análise do jogo, mas um tanto quanto sucinta para meus gostos tão prolixos, então aqui vão as minhas impressões.

Formações

O Coritiba lotou o meio-campo com a bola, mas sem ela se movimentava para fechar os laterais cruzeirenses

O Coritiba lotou o meio-campo com a bola, mas sem ela se movimentava para fechar os laterais cruzeirenses

Marcelo Oliveira repetiu o time das últimas duas partidas e mandou a campo o mesmo 4-2-3-1 de toda a temporada. De tão rotineiro, ainda é incrível que existam torcedores que achem que o time ainda não tem um padrão tático. Novamente, o goleiro Fábio capitaneou sua defesa composta por Dedé e Bruno Rodrigo, com Mayke e Egídio nas laterais direita e esquerda. Protegendo a área, Nilton e Souza em uma dupla volância cada vez mais entrosada, se equilibrando mais entre atacar e defender ao invés de dividirem esses papéis. Mais à frente, o trio de meias, com Everton Ribeiro partindo da direita para o centro, alternando com Ricardo Goulart, e Luan mais preso à faixa esquerda, e no comando do ataque, Vinicius Araújo se movimentando para puxar a marcação e dar opção de passe.

Marquinhos Santos, substituto de Marcelo quando este deixou o Coritiba para assumir o Vasco, não tinha o talento azul Alex à sua disposição. Assim, colocou Lincoln em seu lugar, mas o time não jogou no 4-1-4-1 adaptado das últimas partidas, e sim mais numa espécie de 4-3-2-1, com algumas particularidades. A meta de Vanderlei foi protegida pelo lateral direito Victor Ferraz, os zagueiros Leandro Almeida e Chico e o lateral esquerdo Diogo. Willian era um volante mais plantado, liberando um pouco mais Gil à sua esquerda e Robinho à direita. Botinelli ficava mais avançado formando um losango “torto” com os volantes, liberando Lincoln do combate para que ele fizesse o papel de Alex. Na frente, Gil substituiu o lesionado Deivid.

Flancos fechados

Quando o Cruzeiro tinha a bola, o Coritiba se movimentava para bloquear os laterais: bola na esquerda e Gil subia o bote para cercar Egídio, com Botinelli centralizando para impedir o passe para os volantes, e Willian fazendo a cobertura diagonal. Se o Cruzeiro atacava pelo lado direito, era Robinho quem voltava com Mayke, ajudando Diogo na marcação, e novamente com Willian na cobertura. Cabia ao volante oposto ao lado da jogada marcar Ricardo Goulart. Um cerco de três contra um, efetivamente bloqueando as saídas pelo lado e todas as opções de passes próximos.

É surpreendente, portanto, que o lance do gol tenha saído justamente numa jogada de ultrapassagem de Mayke e cruzando para o outro lado para Luan. Não só pela jogada, mas pela movimentação de outros jogadores: Ricardo Goulart invertendo com Everton Ribeiro e indo para a direita; Ribeiro aprofundando para arrastar a marcação de Willian e deixar Goulart e Mayke no dois contra dois. O meia se movimentou, recebeu do lateral e devolveu uma linda bola longa nas costas de Diogo, que não acompanhou. Do outro lado, Luan já previa o destino da bola e já corria à frente de Victor Ferraz, completando o ótimo cruzamento rasteiro de Mayke. Um gol físico, tático e técnico.

De novo, intensidade

O gol foi logo aos 11, e por isso a partida não mudou muito. O Coritiba retinha mais a bola, tentando tirar a velocidade do jogo, e conseguia, pois tinha mais jogadores no centro do meio-campo. Eram praticamente cinco contra os três (ou quatro, quando Everton centralizava) cruzeirenses. Assim, o time visitante tocava a bola, mas a excelente postura defensiva do Cruzeiro repelia qualquer perigo, principalmente nas figuras de Nilton e Souza, dois dos melhores em campo no primeiro tempo.

Já o Cruzeiro, assim que recuperava a bola, tentava resolver logo a jogada, com passes agudos ou condução em velocidade na direção do gol. Mais uma vez, a razão disso foi a intensidade de marcação celeste, que forçava um erro de passe e roubava a bola já no campo de ataque, pegando a defesa do Coritiba desprevenida. E assim foram criadas as melhores chances da primeira etapa: Egídio avançando sem marcação mas demorando a decidir; Ricardo Goulart passando a Vinicius Araújo, que bateu fraco; Luan ganhando presente de Victor Ferraz e passando para Everton Ribeiro driblar seu marcador e chutar em cima de Vanderlei; e ainda outra chance de Vinicius Araújo recebendo passe de Egídio pela direita e passando por Vanderlei, mas concluindo sem ângulo pra fora.

Ainda no primeiro tempo, Keirrison herdou a vaga de Gil, lesionado, no ataque, mas sem alterar o sistema do Coritiba.

Arthur

No fim, times no losango e marcação encaixada, mas com Tinga indefinido do lado direito causando problemas para Mayke

No fim, times no losango e marcação encaixada, mas com Tinga indefinido do lado direito causando problemas para Mayke

Na volta do intervalo, o Cruzeiro partiu com tudo para ampliar e sufocou ainda mais o Coritiba, demonstrando que era possível sim ser mais intenso. Foram dez a quinze minutos de domínio, onde o Coritiba se defendeu de todas as formas. Até a entrada de Arthur na vaga de Botinelli, o Cruzeiro já havia finalizado na trave e deixando Vinicius Araújo no mano-a-mano com Vanderlei, oportunidades de ouro desperdiçadas para “matar” o confronto.

A alteração de Marquinhos Santos, porém, mudou a cara da partida. O Coritiba mudou para um losango no meio, com Lincoln no vértice da frente e Arthur fazendo companhia a Bill no ataque. Com dois atacantes, os laterais do Cruzeiro, que já estavam tendo pouca liberdade, agora tinham ainda menos e eram obrigados a alternar no apoio para garantir a sobra na defesa. A consequência direta foi que os laterais do Coritiba começaram a apoiar mais, empurrando os pontas cruzeirenses pra trás, que tinham pouco suporte dos seus laterais. Nilton e Souza faziam o que podiam no meio para diminuir os espaços.

Tentativa de resposta

Marcelo leu bem e tentou corrigir, colocando Tinga na vaga de Ricardo Goulart. O cabeludo foi ser o lado direito do agora novo losango cruzeirense, encaixando a marcação com o Coritiba. Nilton passou a ficar mais preso, Souza foi pro lado esquerdo e Everton Ribeiro solto na ligação. A segunda troca, na frente, Vinicius Araújo saiu para a volta de reestreia de Borges após a lesão. A tentativa era de reter melhor a bola na frente, ao custo da mobilidade que Vinicius entrega melhor para o time.

As alterações, porém, não funcionaram. Sem o passe de Goulart e a mobilidade de Vinicius, Ribeiro e Luan não conseguiam fazer a bola chegar a Borges, e por isso ela logo voltava para os pés dos visitantes. E quando isso acontecia, Luan até que prendeu melhor Victor Ferraz pelo lado esquerdo, mas do outro lado Tinga esperava Diogo e indefinia a marcação entre ele e Robinho. Com isso, Mayke ficou sobrecarregado e por ali o time paranaense criou algumas chances, a mais perigosa em finalização de Keirrison na trave em cruzamento de Diogo pelas costas de Mayke.

Pé no freio

Felizmente, a bola não entrou, e a partir daí, o Cruzeiro fez o que o Coritiba tentou no primeiro tempo: tirar a velocidade do jogo. O Cruzeiro tentava reter a bola nos pés, mas o Coritiba ainda era melhor nesse quesito, fazendo o jogo ficar tenso para o torcedor no Mineirão. Mesmo assim, o Cruzeiro ainda teve chances, quando na única vez em que a bola chegou com qualidade para Borges ele fez o pivô e passou a Tinga mandar por cima.

Keirrison se lesionou e foi substituído por Everton Costa, e Nilton saiu por cansaço dando lugar a Leandro Guerreiro, mas nada de mais notável aconteceu na partida e os 100% no Mineirão estavam garantidos.

Vitória de equipe

Talvez tenha sido a partida mais difícil do Cruzeiro até aqui. O Coritiba soube anular as boas opções de saída do Cruzeiro, que mudou sua estratégia para jogar na transição ofensiva, funcionando muito bem no primeiro tempo. Sinal de que o time tem qualidade para isso, só precisando acertar um pouco mais as finalizações nas chances que cria — o Cruzeiro é o time que mais finaliza neste Brasileirão.

Marquinhos Santos, porém, se mostrou ser um desafio à altura para seu ex-mentor, tentando controlar o jogo do banco de reservas com suas trocas. Marcelo respondeu com as opções táticas corretas, mas infelizmente Tinga não fez uma boa apresentação, minando a tentativa. Abrir o time com um velocista na ponta direita poderia favorecer o contra-ataque mas certamente perderia o meio-campo, o que convidaria o Coritiba a tomar o controle do jogo.

Nem sempre as alterações dão certo. E hoje algumas de fato não deram, mas mesmo assim o Cruzeiro venceu. Não acho que tenha sido sorte, mas para os que acreditam, a sorte acompanha os competentes. E acho que não há mais dúvidas quanto à competência desta equipe, e principalmente, no trabalho de Marcelo Oliveira, que pode ser ilustrada no seguinte fato: as outras equipes que estão brigando na parte de cima da tabela com o Cruzeiro tem todas um destaque individual, celebrado pela imprensa.

Pois no Cruzeiro de 2013, o craque é justamente a coletividade.



Cruzeiro 2 x 1 Coritiba – “Pies intercambiados”

Isso é que é azar: justo no dia em que deixei de ir ao Independência por causa da chuva, meus anseios foram atendidos, e o time jogou do jeito que eu sempre pedi neste blog.

Foram necessárias muitas rodadas e a tranquilidade proporcionada pelo fato de não se ter mais nada a ambicionar no campeonato para que, finalmente, Celso Roth experimentasse o 4-2-3-1. Contra o Bahia já havia sido assim, mas sem Montillo. Contra o Fluminense, era Martinuccio quem tinha ficado fora. Desta vez os dois estavam disponíveis, só restava saber como Roth ia escalá-los no meio-campo azul.

O 4-2-3-1 do Cruzeiro no primeiro tempo: Guerreiro na zaga, ponteiros argentinos, WP saindo da área e Tinga sendo o ponto de apoio

No último jogo diante de sua torcida no ano, Roth botou Montillo como ponteiro direito e Martinuccio como o esquerdo, flanqueando Tinga e municiando WP à frente. Charles e Marcelo Oliveira fizeram uma dupla de volantes com liberdade para sair, o segundo mais que o primeiro, e Leandro Guerreiro parece ter achado sua nova posição em campo, sendo o melhor jogador da partida. Fábio voltou ao gol da equipe que ainda teve Ceará na lateral direita e Diego Renan na esquerda (Éverton, com dois amarelos, foi poupado para o clássico), com Thiago Carvalho sendo parceiro de Guerreiro na área.

O Coritiba do técnico Marquinhos Santos veio no mesmo sistema de jogo, o que pra eles é o costumeiro 4-2-3-1. Rafinha pela esquerda e Everton Ribeiro pela direita eram os ponteiros, e Lincoln foi o meia central atrás de Deivid. Gil era o volante mais plantado e Willian tentava sair um pouco mais, e a última linha defensiva foi composta por Victor Ferraz na direita, Luccas Claro e Escudero no miolo e Dênis na esquerda, defendendo o gol de Vanderlei.

Posse de bola

Em rápida entrevista antes da bola rolar, Wellington Paulista disse ao repórter do PFC que a estratégia era “marcar direitinho para podermos contra-atacar com qualidade”. De fato, o 4-2-3-1 com os argentinos abertos favorece esse tipo de postura, muito devido à velocidade e a vitória pessoal dos ponteiros. Entretanto, o que se viu foi a manutenção da posse de bola. A diferença de característica entre WP e Anselmo Ramon também facilita, pois o primeiro se movimenta, sai da área e puxa os zagueiros com ele, enquanto o segundo fica à frente esperando uma bola longa para fazer o pivô ou disputar de cabeça, incentivando o chutão.

Assim, com a bola no chão, o Cruzeiro procurava os ponteiros argentinos para dar a saída de bola, até porque Tinga não é um construtor de jogadas, mas ocupou bem o espaço e fazia um bom trabalho defensivo, se juntando aos volantes quando o Cruzeiro perdia a bola. Procurar os flancos, entretanto, não causou a série de cruzamentos infrutíferos que o time vinha realizando. A maioria dos últimos passes era em profundidade para os ponteiros ou então uma bola rasteira dos ponteiros para o meio da área.

Tudo isso foi resumido no lance do primeiro gol. Montillo recebe a bola pela direita e avança, como é sua característica. Porém, WP está na ponta direita, abrindo espaço para que alguém chegue de trás, que no caso foi Tinga. WP recebe do argentino, faz um corte e cruza para a área, onde o cabeludo tenta desviar mas a bola passa direto e engana Vanderlei.

Depois do gol o Cruzeiro recuou um pouco e esperou o Coritiba em seu campo. A única vulnerabilidade estava em Diego Renan, que teve certa dificuldade em para Rafinha, inclusive levando um amarelo bem cedo. Mas não comprometeu. Esse momento defensivo também foi importante para avaliar a recomposição dos ponteiros argentinos, acompanhando os laterais adversários. Martinuccio e Montillo até que a fizeram bem, ocupando o espaço e tentando roubar a bola de seus adversários, mas ainda precisam melhorar nesse aspecto. Nada que o treinamento não resolva.

“Pés invertidos”

Aproximadamente aos 25 minutos, os argentinos inverteram de lado. Montillo foi para a esquerda, posição em que jogou bem contra o Palmeiras no primeiro turno, e Martinuccio veio para a direita, onde se destacou no Peñarol na Libertadores de 2011 e chamou a atenção do futebol brasileiro. E foi o melhor momento do Cruzeiro no primeiro tempo, com o lance em que Montillo buscou o ângulo de Vanderlei mas mandou alto demais, e logo em seguida o gol anulado de Tinga em jogada de Montillo. É possível reparar que, se Tinga, que estava impedido, deixasse passar, a bola chegaria limpa para Martinuccio concluir pelo lado direito.

Infelizmente o bom momento não foi aproveitado, e os hermanos voltaram às suas posições originais. O Coritiba apertou um pouco, principalmente quando Everton Ribeiro passou a centralizar mais, ajudando Lincoln e abrindo espaço para Denis apoiar. Foram deles os chutes que Fábio defendeu, mas nada mais além disso.

Segundo tempo

Nenhuma alteração nos dois times na volta do intervalo. Entretanto, os times mudaram a formação. Roth instruiu Tinga e ficar mais para ajudar Marcelo Oliveira e Charles no combate a Lincoln e Everton Ribeiro, que continuava jogando mais por dentro. A alteração ficou por conta de Rafinha, que inverteu de lado e passou a jogar em cima de Ceará, o que foi uma mudança estranha, já que Diego Renan já tinha amarelo e claramente sofria para marcar o ponteiro.

As mexidas táticas fizeram o Cruzeiro procurar ainda mais a estratégia dos contra-ataques. Porém, sem um meia central por onde passar a bola, a velha tática do chutão foi empregada, e WP claramente é pior que Anselmo Ramon para disputar as bolas aéreas e fazer a retenção. Com isso, as bolas rebatidas quase sempre voltavam, pois a posse não era recuperada em definitivo. O Coritiba cresceu, teve mais a bola e mais domínio territorial. Mas era um domínio estéril, com a defesa celeste bem postada e Leandro Guerreiro se tornando o dono da grande área azul, tirando todas as bolas e se antecipando com qualidade.

Em um determinado momento, o repórter informa que Celso Roth ordenou Martinuccio e Montillo que invertessem novamente. Eu tive esperanças de um futebol vistoso e veloz, mas o recuo do Cruzeiro era demais. Sem um meia-central e sem alguém forte na referência, os argentinos ficaram esperando a bola que nunca veio. Talvez o momento fosse de centralizá-los no meio, fazendo um interessantíssimo 4-3-2-1, já que eles se entendiam bem quando trocavam passes e levariam uma preocupação a mais para os volantes paranaenses. Mas isso não foi feito.

A tranquilidade veio um lance de bola parada. Ceará cobra falta na área, WP cabeceia na trave e Guerreiro, sozinho e com categoria, finaliza o rebote no canto oposto do goleiro Vanderlei, que nem pulou. Um prêmio pela atuação segura e sólida do ex-volante.

com o novo gol sofrido, o Coritiba desanimou. Celso Roth então iniciou as trocas, mas manteve a formação, trocando os três meias. Primeiro Élber, pedido pela torcida, entrando no lugar de Tinga e empurrando Montillo para o centro. Era uma formação que eu queria muito ver, com três meias rápidos. Mas logo depois, Souza entrou na vaga de Montillo, mantendo-se pelo centro para passar a bola, frustrando minhas expectativas. E por fim, Fabinho entrou na vaga de Martinuccio, mantendo o posicionamento pela esquerda. O garoto Élber até deu trabalho pela direita, e Souza cumpriu bem o papel de condutor e passador. Fabinho jogou pouco para uma avaliação melhor.

O Coritiba tentou vir pra cima nos minutos finais e cedeu o contra-ataque, mas o Cruzeiro estava em um ritmo muito baixo, até desinteressado. Everton Ribeiro, sondado para vir para o Cruzeiro, diminuiu no fim, mas não havia tempo para mais nada.

Atuação digna, mas ainda pode ser melhor

Arrisco dizer que foi uma das melhores partidas celestes no certame. Claro que há ainda muito o que melhorar: defensivamente, treinar melhor a marcação dos ponteiros e fazer uma pressão alta, no campo do adversário, mais consistente; ofensivamente, a chegada de trás dos volantes, e o apoio mais frequente dos laterais e a manutenção da posse de bola. Agora que os ponteiros argentinos foram testados, talvez seja a hora de experimentar Souza como meia central para distribuir o jogo e cadenciar o ritmo.

Entretanto, é preciso comemorar. Celso Roth finalmente enxergou que pode jogar com o time dessa forma. Se tivesse entrado assim há mais tempo, talvez sobrevivesse no cargo. Mas é o suficiente para termos esperanças de vencer e convencer no clássico na última rodada, jogando como o Cruzeiro sempre jogou.

Tomara que o próximo treinador, quem quer que seja ele, tenha visto o jogo de hoje.