Cruzeiro 2 x 1 Bahia – Vice-versa

Com algum atraso, eis as notas táticas da difícil partida contra o Bahia no Mineirão. Depois de um primeiro tempo sem intensidade ofensiva e com problemas na marcação pela direita, o Cruzeiro reagiu já no início da segunda etapa, mesmo antes da expulsão. É verdade que o pênalti e o cartão vermelho diminuíram a dificuldade da virada, mas ninguém pode dizer que o Cruzeiro não venceria mesmo se esses lances não tivesse acontecido.

No fim, o time celeste ainda correu um risco desnecessário ao acelerar demais a partida mesmo tendo um homem a mais — a cadência, para proteger a bola e não dar chances a contras, seria o mais indicado. Felizmente, o Bahia não conseguiu sequer chutar a gol nesses momentos.

Escretes iniciais

No primeiro tempo, o 4-1-4-1 do Bahia se aproveitou do posicionamento avançado demais de Mayke no 4-2-3-1 do Cruzeiro para chegar por ali; ofensivamente, Cruzeiro foi lento

No primeiro tempo, o 4-1-4-1 do Bahia se aproveitou do posicionamento avançado demais de Mayke no 4-2-3-1 do Cruzeiro para chegar por ali; ofensivamente, Cruzeiro foi lento

Com a volta dos selecionáveis, Marcelo Oliveira tinha todos os jogadores à disposição, exceto os dois laterais esquerdos e o suspenso Dedé. Assim, seu 4-2-3-1 teve Ceará pela esquerda na linha defensiva, com Manoel e Léo no miolo e Mayke à direita, protegendo o gol de Fábio. Henrique e Lucas Silva reeditaram a parceria titular na proteção, atrás de Éverton Ribeiro na ponta direita, Ricardo Goulart por dentro e Marquinhos pela esquerda, todos procurando o centroavante Marcelo Moreno.

Já o Bahia do técnico Gilson Kleina tinha três atacantes na formação, mas se postava em um 4-1-4-1 sem a bola. Do gol, Marcelo Lomba viu Lucas Fonseca e Titi ficarem na zaga central, com Railan fechando pela direita e Guilherme Santos pelo outro lado. Fahel ficou à frente da zaga, entre as duas linhas de quatro. Rafinha protegia o lado direito, Léo Gago e Rafael Miranda ficavam mais centralizados e Rhayner ocupava a ponta esquerda. Solitário à frente ficava Maxi Biancucchi.

O setor direito

O Cruzeiro iniciou o jogo já tentando se impor, como sempre faz quando joga no Mineirão. Com o meio lotado por três volantes, o caminho natural era procurar os lados. Na esquerda, não só por estar improvisado mas também por fazer melhor a composição da linha, Ceará não avançava muito, tendo o bloqueio de Rafinha à sua frente. Mas do lado direito, Mayke foi ao fundo com bastante ousadia. Naturalmente, o Cruzeiro procurou o jogo por aquele setor, com Éverton e Goulart se achando por ali mas esbarrando na bem postada defesa baiana.

O problema, porém, era que Mayke deixou muitos espaços às suas costas. Por vezes, a formação celeste parecia ter três zagueiros, pois Mayke ficava muito avançado e Manoel acabava abrindo para fazer a cobertura. Não por acaso, foi por esse setor que o Bahia criou suas poucas chances no primeiro tempo: numa delas, a bola cruzou a extensão da área e sobrou para Rafael Mirando completar do outro lado e abrir o placar.

 

Os mapas de calor no primeiro tempo mostra: Mayke avançou demais e desguarneceu o lado direito da defesa, obrigando Manoel a fazer a cobertura

Os mapas de calor no primeiro tempo mostra: Mayke avançou demais e desguarneceu o lado direito da defesa, obrigando Manoel a fazer a cobertura

Com a bola

Quando perdia a bola, a estratégia do Bahia era de pressionar alto para tirar a saída veloz do Cruzeiro, e assim que o time fosse recomposto no 4-1-4-1, recuar as linhas e esperar. Em outras palavras, tirar a velocidade do jogo, cadenciar o ritmo do adversário. Cabia ao Cruzeiro acelerar a transição para pegar a defesa do Bahia desarrumada, mas não foi isso que o time celeste fez. Entrou na estratégia do time visitante e cadenciou. Recomposta, a defesa do Bahia não dava espaços e fez um bom primeiro tempo.

As duas bolas na trave no primeiro tempo parecem contradizer o descrito no parágrafo acima, mas o cabeceio de Manoel e o tirambaço de Lucas Silva foram lances de bola parada. Só no final do primeiro tempo o Cruzeiro aceleraria o suficiente para um contra que Marcelo Moreno chutou pra fora.

Segundo tempo

Marcelo Oliveira trocou Marquinhos por Alisson, numa tentativa de dar a intensidade que o Cruzeiro precisava com a bola. E deu muito certo. Nos primeiros minutos, o Bahia mal tocou na bola até o pênalti bem discutível cometido por Guilherme Santos em Goulart. Por reclamação exagerada, Titi levou dois amarelos no mesmo lance e foi expulso. Éverton converteu e igualou o marcador.

Com 11 contra 10, pareceria um jogo mais fácil, mas não foi. Gilson Kleina simplesmente recuou Fahel para a zaga e recompôs o time num 4-4-1, refazendo as duas linhas de quatro. O Cruzeiro continuou em cima, mas tinha dificuldade de dar o passe final. Marcelo, então, fez a sua variação tática mais comum nessa situação: tirou Henrique e lançou Dagoberto, recuando Éverton para armar de trás e chegar, e ao mesmo tempo avançando Ricardo Goulart para bem próximo de Moreno. Sem a bola, o 4-2-3-1 com Éverton como segundo volante, e atacando, um 4-1-3-2 com dois jogadores abertos e dois na área.

O time da virada tinha Goulart bem próximo a Moreno e dois ponteiros, com Éverton armando de trás, sufocando o 4-4-1 baiano

O time da virada tinha Goulart bem próximo a Moreno e dois ponteiros, com Éverton armando de trás, sufocando o 4-4-1 baiano

O efeito foi rápido. Entre a troca e o gol da virada, houve um espaço de 9 minutos em que Moreno e Goulart chutaram contra o gol de Marcelo Lomba nada menos do que 7 vezes. Uma delas foi o gol, com assistência de Moreno fazendo o pivô.

Gilson Kleina reagiu imediatamente e fez as três trocas quase sem sequência. Os três dianteiros deram seus lugares a Branquinho, William Barbio e Alessandro. Mas não houve alteração tática, eram apenas pernas mais descansadas para usar velocidade nos contras. Mas com dez homens é mais difícil, pois após os ataques celestes repelidos, a bola sempre acabava sobrando nos pés cruzeirenses — uma consequência natural de se ter um homem a mais.

Com a vantagem no placar, Marcelo reequilibrou o time, sacando Goulart para poupá-lo de levar o terceiro amarelo e ficar fora do jogo contra o São Paulo, e lançando Nilton. Com isso, Éverton Ribeiro voltou a ser o meia central.

Vice-versa

Se no primeiro tempo o Cruzeiro precisava acelerar para encontrar os espaços na defesa baiana antes que fossem preenchidos, após a virada e com vantagem numérica em campo, o Cruzeiro precisava fazer o contrário: cadenciar, para reter a posse de bola e também para encontrar os espaços que certamente se abririam no sistema defensivo do Bahia com um homem a menos.

Entretanto, o Cruzeiro fez o contrário: acelerou. Mal recuperava a bola e já partia para o ataque, às vezes tentando um passe mais arriscado e concedendo a posse de bola, sem necessidade. Isso deu ao jogo um certo ar de dramaticidade para este que vos fala, pois o jogo não estava decidido ainda. Felizmente, o Bahia não conseguiu chutar a gol, mas o Cruzeiro correu um risco desnecessário ao tentar marcar o terceiro de maneira afobada. Tanto é que após o gol, o Cruzeiro ainda chutou mais onze vezes, completando 31 finalizações no total — recorde do campeonato.

Nada menos do que TODOS os jogadores de linha do Cruzeiro tentaram chutar pelo menos uma vez, somando 31 finalizações, recorde do BR 14 até aqui

Nada menos do que TODOS os jogadores de linha do Cruzeiro tentaram chutar pelo menos uma vez, somando 31 finalizações, recorde do BR 14 até aqui

Perspectivas para domingo

Agora, é o duelo contra o São Paulo no Morumbi, o jogo que certamente será o mais difícil até aqui. O time paulista tem jogado bem, mas não tão bem quanto a mídia paulista — obviamente — quer fazer parecer. Os comandados de Muricy sofreram no jogo contra o Botafogo: o time carioca tinha uma defesa frágil e sofreu três gols, mas mesmo assim marcou dois gols e Wallyson ainda teve duas chances cara a cara com Rogério Ceni e perdeu. O São Paulo só deslanchou após a expulsão infantil de Aílton, pisando na cabeça de Pato.

Já o Cruzeiro teve este problema defensivo com Mayke, que tem que ser corrigido, e ainda teve pouca velocidade ofensiva para superar a forte marcação baiana. Mas no segundo tempo, já era bem superior até mesmo antes do pênalti e da expulsão de Titi. É até seguro dizer que, mesmo sem o cartão vermelho para o zagueiro do Bahia, provavelmente o Cruzeiro teria conseguido a virada.

O duelo de domingo, no entanto, se desenha diferente. O São Paulo vai atacar, e com a posse de bola, como é sua característica. Ganso e Kaká vão cadenciar e tentar encontrar Kardec e Pato. O Cruzeiro pode ser ver defendendo mais do que o normal. Mas o time paulista também vai deixar espaços que o Bahia não deixou, exatamente por se lançar à frente. E diferente de seu rival, o Cruzeiro não tem o estilo de tocar a bola e ter muita posse — é bem mais vertical e veloz. Portanto essa é uma característica quase certa do jogo: São Paulo com a bola, e Cruzeiro agudo e eficiente.

Não considero “final antecipada”, pois em finais o vencedor normalmente sai campeão. Não é o caso aqui — nem mesmo se for uma vitória azul. É só um bom jogo.



Bahia 0 x 1 Cruzeiro – Sofrer sem sofrer

Mesmo sem jogar bem ofensivamente e correndo riscos desnecessários, sair à frente no placar deu a tranquilidade que o Cruzeiro precisava para fazer o frágil ataque do Bahia passar em branco, no último sábado em Pituaçu.

O 4-3-1-2 losango cruzeirense do primeiro tempo, com Ceará bem mais solto que Marcelo Oliveira e sendo coberto por Lucas Silva, que sobrou no meio-campo e também chegava ao ataque com qualidade

Celso Roth fez mudanças em cinco posições e escalou o Cruzeiro num 4-3-1-2 losango “a la” Vagner Mancini. O gol de Fábio foi defendido por Ceará na direita, Marcelo Oliveira na esquerda e Léo e Thiago Carvalho no miolo. À frente destes, Leandro Guerreiro foi o vértice mais baixo do losango, que ainda tinha Lucas Silva pela direita e Charles pela esquerda. No topo, Montilo ligava para Borges, mais centralizado, e Wellington Paulista, mais pelos lados.

O Bahia foi escalado por Caio Júnior em seu esquema preferido, o 4-2-3-1, mas que tinha uma característica diagonal. O goleiro Marcelo Lomba teve os volantes Diones e Hélder nas laterais direita e esquerda respectivamente, com Danny Morais e Titi de zagueiros centrais. Fabinho e Fahel suportavam na volância Mancini, articulador central, que tinha Zé Roberto, um pouco mais recuado e aberto pela direita, Gabriel mais à frente do lado oposto e Rafael no comando do ataque.

Os dois flancos cruzeirenses tinha comportamentos diferentes. Do lado esquerdo, Marcelo Oliveira ficava naturalmente mais preso. Com isso, Charles não precisava cobrir as investidas do camisa 6 e continuou exercendo sua função de marcador no meio campo, pegando principalmente o volante adversário Fabinho, que era quem se arriscava mais — Fahel ficava mais plantado, por vezes recebendo a marcação de Montillo.

Mas o lado mais forte do Cruzeiro era o direito. Tudo porque, como Guerreiro perseguia Mancini, Lucas Silva sobrava no meio-campo. Assim, ora o garoto cobria os avanços de Ceará pela direita, marcando o meia-atacante Gabriel, ora tinha liberdade para sair, fazer o primeiro passe e até se juntar ao ataque. Tanto que em um determinado lance, mandou um petardo de fora da área que passou rente à trave direita de Lomba. Exerceu a função de meio-campista pela direita com qualidade, fazendo uma excelente partida.

E foi pela direita que nasceu o gol, em avanço de Ceará. Marcado de longe por Hélder, Ceará encaixou um cruzamento para os dois alvos dentro da área. Os zagueiros até conseguiram rebater, mas a bola sobrou para Montillo, dentro da área e com espaço. Ajeitou e finalizou primorosamente, fora do alcance dos pés dos zagueiros e da mão do goleiro adversário.

Sair na frente, como tem sempre acontecido nas partidas do Cruzeiro, acalmou os ânimos. Com um homem a mais no meio-campo, o Cruzeiro se dava ao luxo de rodar a bola com paciência, e conseguia chegar até com certa facilidade perto da área baiana. Porém, como aconteceu na partida contra a Ponte Preta, o time só atacava por um lado e ficava previsível na marcação, facilitando o trabalho dos defensores da casa. A rigor, a única boa chance do Cruzeiro além do gol foi uma bola roubada por Montillo, fazendo pressão alta no zagueiro do Bahia. Roubada a bola, o argentino esperou o posicionamento de Borges, dando um passe primoroso, fora do alcance de Lomba. Borges mandou pra fora o que seria o gol da tranquilidade absoluta.

Já o Bahia não ameaçou a meta cruzeirense nenhuma vez com real perigo no primeiro tempo, muito por conta da boa marcação que o Cruzeiro exercia nos articuladores Zé Roberto, Mancini e Gabriel. Rafael praticamente não tocaria na bola se não recuasse algumas vezes para participar do jogo no meio-campo. Com a linha de três bem marcada, quem tinha de sair para o jogo era Fabinho, o que abria ainda mais o meio-campo com quatro jogadores do Cruzeiro.

Além disso, estranhamente o Bahia não saía pelo lado direito com Diones, preferindo sair pela esquerda com Hélder. Ambos estavam livres, mas quando Hélder era acionado, Ceará e Lucas Silva alternavam na marcação, e pelo lado oposto Diones tinha campo livre, já que Charles estava mais para dentro do campo e Marcelo Oliveira estava mais preso na defesa. Isso também facilitou a marcação, e o primeiro tempo terminou com o Cruzeiro controlando a posse e o Bahia ameaçando pouco.

Os dois times voltaram modificados do vestiário. Roth tirou Borges e lançou Anselmo Ramon. A intenção era chutar a bola em direção ao pivô, para que ele segurasse a bola e esperasse a chegada dos companheiros. Já Caio Júnior colocou Lulinha na vaga de Fabinho. Ele foi jogar do lado esquerdo, Gabriel inverteu para a direita, recuando Zé Roberto para pensar o jogo ao lado de Mancini. O time se transformou num 4-3-3 brasileiro, ou 4-1-2-3.

A segunda etapa começou, entretanto, com o Cruzeiro postado num 3-4-1-2, com Guerreiro afundado entre os zagueiros. Talvez Celso Roth tivesse pensado que Lulinha seria mais um atacante ao lado de Rafael, e portanto fez a sobra sem prender os laterais, que continuariam marcando os jogadores abertos. Assim, os dois times passaram e ter trios no centro do campo, desfazendo a vantagem numérica cruzeirense no setor que havia no primeiro tempo. A consequência foi um pequeno sufoco que o Bahia aplicou nos minutos iniciais, ma sem finalizações perigosas e com muitas bolas na área, todas rebatidas pela zaga.

Aparentemente o próprio Leandro Guerreiro deve ter percebido que estava fazendo uma sobra redundante tendo apenas um jogador dentro da área, e avançou novamente para o meio-campo, recompondo o 4-3-1-2 losango inicial. A pressão baiana arrefeceu e o Cruzeiro começou a controlar novamente a posse no meio-campo, sempre tendo linhas de passe para sair tocando com tranquilidade.

Aos 20, trocas de laterais direitos nas duas equipes, mantendo a formação de ambas. Ceará deu lugar a Diego Renan, por contusão. No Bahia, Diones, volante improvisado, saiu para a entrada de Gil Bahia, revelação da base do Cruzeiro. O garoto, muito mais ofensivo que Diones, entrou para equilibrar os dois lados, e acabou fazendo dois contra um em cima de Marcelo Oliveira, junto com Gabriel. WP teve que começar a recuar pelo lado direito para ajudar Marcelo, e com os três volante do Cruzeiro postados na frente da área, o Cruzeiro ficou postado num estranho 4-4-1-1, meio torto, com um buraco do lado esquerdo, eventualmente preenchido por Montillo fazendo um 4-5-1 em linha pouco usual.

O Bahia avançava suas linhas cada vez mais, empurrando o Cruzeiro para dentro de sua própria área. Com a frente da área bem protegida, o Cruzeiro forçava o jogo do Bahia pelos lados, e o atacante adversário do lado oposto entrava na área para ser alvo dos inúmeros cruzamentos tentados. De tanto insistir, alguns foram certos, mas para sorte do Cruzeiro, nenhuma finalização foi muito perigosa, e Fábio teve pouco trabalho.

O estranho híbrido de 4-4-1-1 e 5-3-1-1 super defensivo do final da partida, tendo WP quase como volante e Anselmo Ramon como alvo das rebatidas para segurar a bola e esperar os companheiros

A última cartada de Caio Júnior foi sacar seu atacante Rafael e lançar o estreante Caio em seu lugar. O meia jogou um pouco mais recuado, os atacantes abertos entraram um pouco mais no campo e o Bahia ficou com cara de 4-1-3-2, sem centro-avante. O treinador baiano queria tentar o gol pelo chão, mas a alteração não deu muito certo e o Bahia continuava levantando bolas na área. A zaga do Cruzeiro começou a ganhar as bolas, e a entrada de Souza no lugar de um cansado Montillo, quase como um lateral esquerdo, mandando Marcelo Oliveira mais para dentro do campo e dando uma cara de 5-3-1-1 ao time, fez com que o ímpeto baiano fosse diminuindo e matando o jogo aos poucos. A bola foi ficando pelo meio-campo e a vitória veio.

Uma vitória, aliás, que veio muito mais pela qualidade técnica de Montillo na finalização do que no posicionamento tático. É verdade que com um homem a mais no meio-campo o Cruzeiro teve mais controle do setor, mas não soube aproveitar muito isto. Além disso, continuou a previsibilidade do ataque, insistindo praticamente somente pela direita ao invés de tentar virar o lado da jogada e surpreender o adversário. Isso precisa ser corrigido rapidamente.

Particularmente, não gosto dessa formação em losango. É uma boa formação quando se tem laterais ofensivos, que apóiam com qualidade, mas nossos laterais, com uma reticente ressalva feita a Ceará, não tem essa qualidade e acabam ficando muitos expostos. Se medidas forem tomadas para ajudá-los, como por exemplo, mandar os lados do losango na cobertura, abrimos o meio-campo e provavelmente perderemos a batalha pela posse de bola. Eu ainda prefiro o 4-2-3-1 com Montillo de ponteiro esquerdo.

Mas nem tudo são espinhos. Mais uma vez o garoto Lucas Silva provou que pode sim ser titular neste time, é uma grata surpresa para Celso Roth. Provavelmente será mantido. Outra virtude a se ressaltar foi que o passe errado na transição — um dos maiores defeitos da equipe atual — não apareceu na partida, o que foi consequência direta da calma do time. Esta, por sua vez, foi causada pelo fato de o time já estar à frente no placar. É um efeito cascata, que evidencia o quanto o fator psicológico vem influenciando na atuação da equipe no campeonato.

O próximo jogo será em casa contra o vice-líder Fluminense. Será o primeiro depois do episódio da torcida versus Charles na partida contra a Ponte Preta. É preciso que a torcida jogue junto, para não desestabilizar ainda mais o emocional do time.

Outra coisa importante será a formação: o Fluminense joga num conhecidíssimo 4-2-3-1, com Fred sendo suportado por três entre Deco, Thiago Neves, Wagner (aquele mesmo), Rafael Sobis e Wellington Nem. Um meio-campo ofensivo de dar inveja. Deco e Nem devem estar fora, portanto o quarteto ofensivo deve ser Sobis, Thiago Neves, Wagner e Fred. Não sou da opinião de que o losango deva ser mantido, mas a julgar pela sequência de trabalho de Celso Roth, isso deverá acontecer, e portanto podemos esperar um Cruzeiro mais recuado esperando o Fluminense em seu campo para partir em velocidade nos contra-ataques, mesmo em casa.

Sair para o jogo com essas formações em campo será arriscar demais, e o que importa atualmente são os três pontos, mesmo que seja com um futebol desagradável aos olhares brasileiros.



Cruzeiro 3 x 0 Tupi – A caminho da maturidade

Substituições certeiras – e dois gols de Anselmo Ramon como único homem de referência – deram a tranquilidade que o Cruzeiro precisava para espantar a crise.

Vágner Mancini escalou os 11 esperados, sacando Amaral para a entrada de Roger no meio, e Marcos no lugar de Gilson, com Diego Renan voltando à lateral esquerda. Já o Tupi veio para o jogo num misto de 4-2-2-2 e 4-2-3-1, com a chave sendo o posicionamento de Alan Taxista pelo lado direito, muito mais posicionado como meia do que como atacante. Michel e Leo Salino completavam o trio criativo com Adenilson sozinho à frente.

O losango “torto” celeste com Roger de box-to-box pela direita

A agradável surpresa foi o posicionamento de Roger, que recuava tanto que frequentemente se encontrava atrás da dupla de volantes, dando mais qualidade à saída de bola azul. Era um 4-3-1-2 em losango “torto”: o meia jogou mais pela direita, fazendo um papel de “box-to-box” (uma expressão inglesa que denota um jogador que transita no espaço entre as duas grande-áreas), Marcelo Oliveira na sua posição habitual pela esquerda e com um pouco mais de liberdade do que Leandro Guerreiro, primeiro vértice. Este ficou mais responsável por cobrir o apoio do lateral Marcos, muito bem na partida.

O resultado é que o time celeste teve muito mais ação ofensiva pela direita do que pelo outro lado. O primeiro gol saiu numa excelente jogada de Montillo, que, como de costume, circulava por todos os lados. O argentino recebeu a bola naquele flanco e girou em cima de seu marcador George, que o perseguiu por todo o campo. O volante teve que recorrer à falta, e a excelente cobrança de Roger achou Wellington Paulista livre para abrir o placar.

Sem a bola, o Cruzeiro se defendeu com o mesmo esquema das partidas anteriores, mas com uma fundamental diferença: Roger, como volante, se posicionava um pouco mais à frente, ocupando o espaço entre o meio e o ataque, que era um problema crônico da defesa azul. Defendendo muito bem sua grande área, o Cruzeiro impediu o trio criativo do Tupi de fazer jogadas mais agudas, que eram quase sempre obrigados a recuar a bola para os volantes para manter a posse. Esses, por sua vez, não eram jogadores de criatividade, e por causa disso Fábio mal viu a bola no primeiro tempo.

Nos minutos antes do intervalo, Roger passou a ser melhor marcado e com isso o time passou a administrar o placar. E, com a dupla de ataque se desfez no segundo tempo, cabe aqui uma observação. Reparem como WP e Anselmo Ramon raramente se conectam no ataque. Isto acontece porque ambos são jogadores muito semelhantes – são o homem de referência, ora segurando a bola para a chegada do time, ora se posicionando dentro da área para uma conclusão de um passe pelo alto ou cruzamento (veja o posicionamento dos dois no primeiro gol). Quando atuam juntos, não são tão eficientes, já que um tem que sair do caminho do outro, abrindo, e não rendem tanto quando estão fora de suas posições “naturais”. Não é de se estranhar que a dupla tenha feito 100% dos gols do time este ano e 0% das assistências.

Cruzeiro com as alterações, com Rudnei e Walter se aproximando de Montillo

O segundo tempo começou como terminou o primeiro, com a exceção de que o Tupi se lançou um pouco mais à frente. Com Roger mais apagado, o Cruzeiro recuou suas linhas naturalmente, e um leve domínio dos juizforanos apareceu, mas nada muito contundente. As melhores chances criadas pelos visitantes foram chutes de fora de área, sendo que em um deles Michel obrigou Fábio a fazer uma dupla defesa espetacular.

Mas com as substituições, o jogo mudou novamente. Mancini promoveu a estréia do atacante Walter no lugar de WP, e pôs Rudnei no lugar de Marcelo Oliveira. Walter se posicionou como segundo atacante e Rudnei foi um volante com muita liberdade para atacar pela direita. Com isso, Roger passou para o lado esquerdo. No Tupi, o volante Jaílson deu lugar ao meia-atacante Ulisses, transformando o Tupi num 4-1-3-2 com o avanço de Alan Taxista, numa tentativa de empatar a partida aproveitando o melhor momento no jogo.

Foi em vão. O trio Rudnei-Montillo-Walter combinou bem as jogadas, ajudado pelo espaço criado à frente da zaga juizforana com a saída de um dos volantes. George, sozinho, não foi capaz de comandar a marcação e o lado direito azul ganhou mais velocidade. O segundo e o terceiro gols surgiram, novamente, por aquele lado: no segundo, uma jogada de Montillo com Walter, que achou Rudnei na entrada da área, jogando como um meia. Este serviu com açúcar para Anselmo Ramon – agora único homem de referência no ataque – que tocou no canto direito de Rodrigo. O terceiro foi um cruzamento certeiro de Marcos numa outra jogada do 10 argentino, que Anselmo Ramon cabeceou sem chances para Rodrigo.

Percebendo o erro, o técnico do Tupi voltou ao 4-2-3-1 original com a entrada do zagueiro Paulinho como volante, no lugar do meia Leo Salino, com Alan Taxista voltando ao meio-campo, para evitar uma goleada maior. O Cruzeiro também desacelerou e o jogo ficou morno até os minutos finais, com o Cruzeiro por vezes tentando impor velocidade, mas sem sucesso no último passe.

Algumas conclusões a serem tiradas desse jogo:

  • WP e Anselmo Ramon estão certamente com os dias contados como dupla de ataque titular, Walter foi muito bem e deve entrar no time em um futuro muito próximo;
  • Roger deu criatividade ao time enquanto conseguiu jogar, mas no segundo tempo desapareceu, então é preciso pensar em uma alternativa para a criação além de Montillo;
  • Marcos também foi bem na lateral direita, e deve manter o lugar no time;
  • Rudnei é uma ótima opção para destravar uma retranca, pois é um volante mais incisivo;
  • o lado esquerdo vai precisa de mais criatividade;
  • os problemas mais graves dos primeiros jogos foram resolvidos, mas a qualidade de passe não: o time ainda erra muito e perde a posse da bola.

A evolução foi pequena, mas é clara. Ainda há muito espaço para crescer, no entanto. Já era para estarmos andando, mas ainda estamos engatinhando. A minha aposta é que, à época da reinauguração do Independência, no reencontro com Belo Horizonte, a maturidade chegue.