Cruzeiro 4 x 2 Chapecoense – Nota 10

Quem acompanha este espaço há mais tempo sabe que às vezes uso referências do site WhoScored.com, um site especializado em estatísticas futebolísticas e que usa dados gerados pela Opta Sports. Lá, eles possuem um sistema que dá uma nota para cada jogador em uma determinada partida de acordo com a influência no resultado.

O título deste texto é em homenagem à nota que Mayke recebeu nesta partida. Em quase dois anos acompanhando o site, este blogueiro nunca tinha visto tal número. As três assistências falam por si só, mas o jovem lateral foi muito mais do que isso. Sua atuação foi decisiva principalmente por explorar bem o único espaço que o adversário cedeu na partida: os lados do campo.

Esquemas

A "árvore de natal" (4-3-2-1) da Chapecoense que marcou o 4-2-3-1 do Cruzeiro com meias centralizados, encaixotando Goulart e dando espaço pelos lados

A “árvore de natal” (4-3-2-1) da Chapecoense que marcou o 4-2-3-1 do Cruzeiro com meias centralizados, encaixotando Goulart e dando espaço pelos lados

Depois de poupar os selecionáveis Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, Marcelo Oliveira voltou com a força máxima para este duelo, tendo apenas que escalar Samudio na vaga de Egídio. O outro lado da linha defensiva do goleiro Fábio tinha Mayke, com Dedé e Léo novamente na parceria de miolo de zaga. Lucas Silva e Henrique protegiam a última linha e ajudavam Éverton Ribeiro — partindo da direita para dentro, Ricardo Goulart — do centro para a frente, e Willian na esquerda, procurando Marcelo Moreno na área.

Já o técnico da Chapecoense, Celso Rodrigues, mandou a campo um sistema pouco comum, um 4-3-2-1 com os meias bem centralizados. O gol de Danilo foi protegido pelos zagueiros Jaílton e Rafael Lima, com Ednei fechando pela direita e Neuton pela esquerda. Wanderson ficou à frente da zaga, muito plantado, quase formando uma linha de cinco. Dedé e Abuda eram os volantes de lado, mas bem próximos do central. Mais à frente, Camilo e Zezinho perseguiam a dupla de volantes do Cruzeiro, deixando Bruno Rangel solitário à frente.

Espaço pelos flancos

A ideia do técnico visitante era muito provavelmente lotar o setor por onde o Cruzeiro é mais perigoso: a intermediária ofensiva. Para isso colocou cinco jogadores praticamente cercando Ricardo Goulart, para garantir a superioridade numérica no setor e não perder a posse de bola. Por conta disso, Goulart participou pouco do jogo no primeiro tempo, e Éverton Ribeiro não tinha com quem dialogar e nem espaço para conduzir no meio. O passe para Willian ficou distante, porque a bola não conseguia transitar por ali.

Mas, como sempre acontece, isso deixa outros setores descobertos, e esses eram as laterais. Com cinco jogadores centralizados, os corredores ficaram livres. O bloco de meio-campistas até se movimentava lateralmente para fechar o espaço, mas deixava o outro descoberto. E Lucas Silva e Henrique conseguiam recuperar o passe de retorno e mudar de lado com qualidade. Assim, trocando passes e com paciência, o Cruzeiro chegou com facilidade pelos lados até a área da Chapecoense. Não raro víamos dois contra um nos laterais do time catarinense e um jogador celeste aparecia ao lado da área com a posse da bola.

A partir daí, o problema foi outro. Sem ângulo para chutar e sem opção de passes rasteiros, a solução foi levantar a bola na área. Havia alvos, é verdade, mas a qualidade dos cruzamentos não foi boa. Por vezes, era muito forte e saía por cima ou chegava do outro lado da área; por vezes muito fechado em cima do goleiro. Quando o cruzamento saía na medida, os zagueiros da Chapecoense conseguiam tirar. Nas contas do Squawka (com dados da Opta Sports), ao todo foram 31 cruzamentos na área, sendo apenas 5 certos, e desses, 2 só foram computados como certos porque chegaram em um companheiro do outro lado da área.

Os cruzamentos do Cruzeiro no 1º tempo foram excessivos e ineficientes, indicando facilidade de chegar pelos lados mas ansiedade para definir

Os cruzamentos do Cruzeiro no 1º tempo foram excessivos e ineficientes, indicando facilidade de chegar pelos lados mas ansiedade para definir

Defendendo

Quando perdia a bola, o Cruzeiro fazia a velha e boa pressão alta. Com intensidade, obrigou os jogadores da Chapecoense a tomarem decisões precipitadas e entregarem a posse, seja em erro de passe, seja em perda de bola. O time catarinense tentou exatamente 100 passes no primeiro tempo, o que já é pouco, e ainda completou apenas 57 deles, novamente de acordo com o Squawka/Opta. Uma taxa de acerto baixíssima.

O gol foi apenas a segunda finalização do time no primeiro tempo, e também a última. A destacar apenas que o Dedé, o autor do chute original, teve muita liberdade para arriscar, mesmo sendo de longe. E isso pode decidir uma partida. Felizmente, não foi o caso.

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro obrigou a Chapecoense a se precipitar nos passes: apenas 57% de acerto nas poucas tentativas

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro obrigou a Chapecoense a se precipitar nos passes: apenas 57% de acerto nas poucas tentativas

Alisson e Mayke

Este blogueiro apostava numa alteração ousada, tirando um dos volantes se recuando Éverton para pensar o jogo de trás, fora da área do quinteto de meias da Chapecoense. Mas Marcelo Oliveira optou por Alisson na vaga de Willian, principalmente para dar profundidade do lado esquerdo em cima do lateral Ednei. Já Celso Rodrigues trocou um volante por outro. Abuda, amarelado, deu lugar a Diones, mantendo o sistema que deu tão certo no primeiro tempo.

O jogo recomeçou e víamos o Cruzeiro ligeiramente menos afobado, chegando novamente com facilidade pelos lados mas tentando fazer algo diferente. Lucas Silva e Mayke arriscaram chutes de longe. E se na etapa inicial o Cruzeiro acertou poucos levantamentos, no segundo tempo a primeira bola alçada, de Alisson, achou a cabeça de Léo para empatar o jogo. E aí começou o show de Mayke.

Enquanto teve liberdade, o jovem lateral foi muito acionado e não fugiu à responsabilidade. Apoiou o ataque sem medo e com velocidade, tendo o suporte de Samudio do outro lado — o paraguaio se limitou à marcação no segundo tempo. Primeiro, um levantamento que achou Moreno sem marcação na área, com Goulart fazendo um papel importante de atrair o zagueiro. Depois, outro levantamento que achou Alisson livre na segunda trave, atrás da defesa.

Mudança e resposta rápida

Após o quarto gol, Cruzeiro deu ritmo a Nilton e Dagoberto; Chapecoense voltou ao modo com três volantes mas com Zezinho central e Tiago Luís aberto pela esquerda

Após o quarto gol, Cruzeiro deu ritmo a Nilton e Dagoberto; Chapecoense voltou ao modo com três volantes mas com Zezinho central e Tiago Luís aberto pela esquerda

Com 3 a 1, o Cruzeiro se tranquilizou, mas seguiu atacando e tentando roubar a bola, sem deixar a Chapecoense respirar. Digno de aplausos, pois a maioria dos times se daria por satisfeito com uma vantagem dessas e naturalmente se pouparia. Mas o Cruzeiro de Marcelo Oliveira sempre quer mais.

Celso Rodrigues então tentou algo. Tirou o volante Dedé e lançou o atacante Tiago Luís, que foi jogar aberto do lado esquerdo, dando trabalho a Mayke. Nesse momento o sistema da Chapecoense parecia um 4-2-2-2 meio torto para a esquerda. E o atacante deu trabalho, sendo o principal responsável pela jogada do segundo gol, em tabela com Camilo e assistência para Bruno Rangel.

Os jogadores catarinenses nem tiveram tempo de comemorar. Na jogada seguinte, Mayke combinou com Éverton Ribeiro e achou Moreno novamente na área. Nono gol do boliviano, o que o coloca ao lado de Goulart como artilheiro do certame. Se ter o goleador do campeonato não é pra qualquer equipe, imagine ter dois.

A resposta rápida fez o ritmo da partida arrefecer. Celso Rodrigues voltou ao modo com 3 volantes para evitar mais gols, colocando Ricardo Conceição na vaga de Camilo e remontando o 4-3-2-1, mas desta vez com um jogador aberto pela esquerda. Já Marcelo Oliveira, ciente de que perderia jogadores para a Seleção, optou por dar ritmo aos prováveis substitutos. Moreno deu seu lugar a Dagoberto — centralizando Éverton Ribeiro e avançando Goulart — e depois Lucas Silva saiu para a entrada de Nilton, mas o jogo já tinha terminado.

Sintonia fina e cuidados

Esta foi uma partida atípica. Diante de um sistema incomum e atrás no placar por um acaso típico do futebol, o Cruzeiro chegou a demonstrar certa ansiedade para empatar ainda no primeiro tempo, e o excesso de cruzamentos foi um sintoma disso.

Porém, Marcelo demonstrou ter mais uma vez o grupo na mão, e, conforme revelou na coletiva pós-jogo, acalmou o time e ficou ajustando o destino dos cruzamentos na área. Uma sintonia fina que indica o quanto este time do Cruzeiro está encaixado e entrosado. Enquanto outros treinadores acertariam posicionamento, dariam broncas ou mexeriam no sistema do time, Marcelo apenas se preocupou com detalhes.

Esse é uma das razões pelas quais o Cruzeiro caminha firme rumo ao tetra. As próximas rodadas, entretanto, serão o trecho mais perigoso da campanha, com duelos diretos com todos os perseguidores mais próximos: Fluminense (19ª), São Paulo (21ª), Internacional (26ª) e Corinthians (27ª). Os quatro têm oscilado e perdido pontos para os times de baixo, mas ao jogar contra o líder darão aquele algo a mais — exatamente por se tratar de um confronto direto e que pode mudar o rumo do campeonato.

Portanto, a vantagem é enorme, mas, mais do que nunca, todo cuidado é pouco.



Resende 1 x 2 Cruzeiro – O preço da preguiça

Bem consciente de sua superioridade sobre o adversário — o que pode ser bem perigoso no esporte bretão — o Cruzeiro venceu mais uma. Mas num lance de falta de sorte com uma pitada generosa de preguiça, terá de jogar a partida de volta contra o Resende no Mineirão.

Apesar de Marcelo Oliveira colocar o que é considerado o time titular em campo, à exceção de Ceará, o time claramente se poupou, pois sabia que o adversário era inferior. Mas o Resende, por sua vez, também sabia disso, e tratou de fechar todos os espaços possíveis para poder visitar o Mineirão. E não teriam conseguido se o Cruzeiro tivesse jogado com um pouco mais de afinco.

O Cruzeiro entrou no 4-2-3-1 usual, mas sem velocidade e movimentação dos homens de frente, imporantíssimos neste sistema

O Cruzeiro entrou no 4-2-3-1 usual, mas sem velocidade e movimentação dos homens de frente, importantíssimos neste sistema

O treinador do time da casa, Eduardo Allax, escalou o Resende num 4-3-1-2, mas diferente do comum para este sistema, o meio-campo não era um losango. A linha defensiva do goleiro Mauro era composta pelos zagueiros Marcelinho e Thiago Sales, Filipi Souza fechando pela direita e Kim na lateral esquerda. Os três volantes formavam uma parede na frente da área, com Dudu por dentro, Léo Silva na direita e Denilson na esquerda. Hiroshi ficava mais à frente e com a responsabilidade de puxar os contra-ataque, e era ladeado por Geovane Maranhão e Elias.

Já o Cruzeiro foi escalado por Marcelo Oliveira no mesmo padrão que você, caro leitor assíduo deste blog, já está acostumado a acompanhar. De trás pra frente e da direita pra esquerda: Fábio no gol; Mayke (na vaga de Ceará), Léo e Bruno Rodrigo e Everton na linha defensiva; Leandro Guerreiro e Nilton na volância; e Everton Ribeiro, Diego Souza e Dagoberto atrás de Borges. Nenhuma novidade.

Bloqueio pelo centro

O treinador Eduardo Allax talvez tenha entrado neste blog e lido sobre a facilidade que Diego Souza teve na entrada da área na primeira semifinal contra o Villa (sim, eu sei que não). Isso porque plantou os três volantes fazendo uma muralha contra Diego Souza. O camisa 10, sem imprimir mesma movimentação de jogos anteriores, ficou sumido na primeira etapa. Além disso, Allax plantou os laterais para fazer a cobertura dos volantes de lado, que saíam à caça dos meias cruzeirenses e ainda fazia seus atacantes recuarem pelos flancos com Mayke e Everton. Quase um 4-5-1.

O Cruzeiro ficou muito com a bola nos pés (quase 70%) mas era previsível, lento, sem intensidade. Não tentou achar espaços entre as linhas, não tentou se movimentar para confundir a marcação carioca. O 4-2-3-1 estava lá, rígido, sem nenhuma maleabilidade. E aqui esbarramos num velho problema: a volância pouco criativa. Leandro Guerreiro e Nilton são bons marcadores, mas não os vejo fazendo mais do que entregar para um meia ou lateral quando têm a bola nos pés.

E basicamente foi isso o que aconteceu no primeiro tempo, um jogo modorrento, moroso, como o próprio Marcelo Oliveira definiu em entrevista após a partida. A melhor ilustração sobre isso, no entanto, é o “narrador” do tempo real da ESPN Brasil no site: “Fulano está fora do jogo”, “Cruzeiro toca a bola”, “O jogo está equilibrado”, “O Cruzeiro fez 18 gols nos últimos jogos”. Pouco era sobre o que acontecia dentro de campo, o que, ironicamente, era de fato o que acontecia em campo.

Leve pisada no acelerador

No intervalo, Allax lançou o veteraníssimo Acosta na vaga de Geovane Maranhão. Foi quase um seis por meia dúzia, tirando o fato de que Acosta, pela experiência, tinha mais qualidade para fazer a retenção da bola longa e esperar os companheiros mais rápidos — e jovens — chegarem para a trama ofensiva. O treinador do Resende pode ter pensado que o Cruzeiro ficaria naquela passividade o jogo todo, mas não. Com o mesmo time do primeiro tempo, o Cruzeiro entrou mais intenso e não demorou a causar problemas. A movimentação dos meias — principalmente de Dagoberto — e a velocidade nos passes foram determinantes, e o Cruzeiro chegou ao primeiro gol justamente assim: jogada rápida para Dagoberto pela esquerda, que partiu para o drible veloz e cruzou forte. A zaga rebateu pra frente e Éverton Ribeiro, presente no meio da área, pegou o rebote fatal.

Logo depois, Nilton ampliaria em chutaço de fora da área, o que ilustra bem o que acabei de dizer ali em cima. Nilton não é um jogador criativo mas tinha bastante espaço para avançar. Então, usou sua melhor arma ofensiva: o chute. Com um volante com mais qualidade de passe, mais visão de jogo, muito provavelmente algum defensor teria de deixar a formação para encurtar a marcação neste volante, e isso consequentemente abriria mais espaços em outros setores que estavam congestionados, dando mais liberdade para os meias.

Mudança tática num time, psicológica no outro

Após o gol, Eduardo Allax tirou seu lateral direito Filipi Souza e lançou Guto, que foi jogar na meia direita. Uma tímida tentativa de alcançar um gol que provocaria a partida de volta. Com isso, o volante Léo Silva foi puxado para a lateral e o Resende agora estava num típico 4-2-2-2, mas ainda com a maioria dos jogadores com atribuições defensivas. Já o Cruzeiro voltou a fritar o jogo depois do placar “necessário” construído. Quis se poupar e ficar com a bola, confiando na sua própria capacidade de manter o time adversário longe de seu próprio gol.

Marcelo Oliveira pressentiu o placar perigoso e lançou Ricardo Goulart na vaga de Everton Ribeiro, tanto para “energizar” o time como para poupar o camisa 17, que jogava com um torcicolo homenageado na hora do gol. Depois entrou Élber na vaga de Diego Souza, e Goulart foi para o centro, com Élber na direita.

Não deu muito tempo pra avaliar. Num ataque despretensioso, a bola sobrou para Guto na entrada da área. Nilton estava perto e podia ter tentado bloquear o chute, mas não foi com aquela vontade (veja aos 02:10 neste vídeo na repetição por trás do gol). A bola saiu torta, pegou em Léo no meio do caminho e matou o goleiro Fábio. Era a morosidade cobrando o seu preço no futebol.

O gol animou o time da casa, que tentou vir pra cima na vontade, mas faltou qualidade. O Cruzeiro também não mostrou vontade de eliminar o jogo de volta, e com isso, dia 22, no Mineirão, tem mais.

Pecados futebolísticos

É claro que os jogadores do Cruzeiro tinham plena consciência de que eram superiores, bem como os do Resende. Não há dúvida que se o Cruzeiro aplicasse a mesma vontade de vencer que teve contra o Atlético no primeiro jogo da temporada, por exemplo, venceria por goleada. Mas os jogadores se pouparam e acharam que fariam o gol quando bem entendessem. Bem, isto até aconteceu, mas os deuses do futebol cobram seu preço. O gol de Guto foi uma punição para a preguiça demonstrada em campo.

Mesmo assim, o gosto amargo do jogo de volta poderia ter sido evitado se tivéssemos mais qualidade na volância, algo que venho falando já há alguns posts. Com um volante chegando como um quarto homem, com bom passe e boa visão de jogo, certamente o Resende teria sofrido mais gols e provavelmente não feito nenhum.

Mas nem tudo são espinhos. Se olharmos por outro ponto de vista, o Cruzeiro venceu uma equipe semifinalista de Taça Rio — superando inclusive equipes da série A — sem jogar o seu melhor futebol, e simplesmente porque não quis fazer isto. Então, quando quiser jogar tudo que sabe, podemos esperar algo de muito bom. Talvez eu esteja um pouco otimista demais, mas o Cruzeiro deu mostras em outras partidas que que pode ir muito longe nesta temporada. O melhor início de ano da história do Cruzeiro, superando até 2003, é um indício. Sim, o nível dos adversários enfrentados não foi dos melhores, mas o Cruzeiro enfrentou este mesmo nível de oposição nos anos anteriores e não teve o mesmo desempenho. Portanto, o otimismo é justificado.

O Campeonato Mineiro foi bem usado por Marcelo Oliveira para encaixar o time. O resultado: 95% de aproveitamento, que provavelmente será aumentado no próximo jogo contra o Villa, em ritmo de treino.

Um número melhor que qualquer outro time no Brasil tem — nem o “badalado” rival. Então é hora de colocar este número à prova.



Tupi 0 x 2 Cruzeiro – Um time diferente

Usando uma formação diferente, o Cruzeiro jogou para o gasto, fez dois gols e concluiu a primeira fase do Campeonato Mineiro 2013 com incríveis 94% de aproveitamento. É o melhor início de temporada da história celeste, acima até de 2003, o ano da tríplice coroa.

Com as ausências de Everton e Everton Ribeiro, por acúmulo de cartões, e o primeiro lugar garantido na primeira fase, Marcelo Oliveira promoveu modificações, e deu chances para os laterais e reservas volantes — setores da equipe que pouco variaram desde o início do ano. Oportunidade para Mayke e Egídio, os laterais reservas, além de Lucas Silva poder mostrar seu jogo.

A formação inicial do Cruzeiro tinha um losango no meio, com muito apoio dos laterais mas pouca movimentação de Diego Souza

A formação inicial do Cruzeiro tinha um losango no meio, com muito apoio dos laterais mas pouca movimentação de Diego Souza

O 4-3-1-2 losango cruzeirense teve Rafael no gol, Mayke pela direita e Egídio pela esquerda da linha defensiva, composta ainda por Bruno Rodrigo e Léo no miolo de zaga. Nilton foi o vértice mais baixo do losango, com Tinga pela direita e Lucas Silva pela esquerda no papel de carrileros — os jogadores que atuam pelos lados do losango. Na ligação, Diego Souza, com Dagoberto pelos lados e Borges centralizado na frente.afael

O Tupi veio num tradicionalíssimo 4-2-2-2, o quadrado no meio-campo. O goleiro Jordan teve Lobinho e Fabrício protegendo a área, com Thiago Ryan pelo flanco direito e Dieguinho fechando o lado oposto. Felipe Lima e Maicon Douglas defendiam o meio-campo, atrás dos meias Paulinho e Rafael Assis. Na frente, Vinicius e Wesley.

Embates pelos lados

Os dois sistemas, o losango e o quadrado, tem em comum o fato de tentarem criar superioridade no centro do meio-campo com quatro jogadores, mas ao mesmo tempo abrindo mão de amplitude ofensiva. Por isso dependem bastante do avanço dos laterais, que fazem parte da linha defensiva, para abrirem o jogo e dar opção de passe pelas pontas. Portanto, quando estes sistemas se enfrentam, normalmente vemos uma briga direta entre os laterais: o direito marcar o esquerdo do time adversário e vice-versa.

Porém, como tem acontecido frequentemente no Campeonato Mineiro, quem ficou mais com a bola foi o Cruzeiro, e, consequentemente, os laterais avançaram mais. Mayke e Egídio utilizaram bem o espaço concedido. As principais jogadas ofensivas saíam pelos flancos. O primeiro gol foi um belo exemplo: Tinga puxou a marcação, esperou a passagem de Mayke a lançou uma bola longa para o jovem. Do cruzamento veio a falha de Thiago Ryan, que Dagoberto não perdoou.

O losango

Diego Souza jogou em função diferente: a de trequartista, enganche, ponta-de-lança. É a ponta de cima do losango, o pensador do time, a mesma função de Alex em 2003. Mas o camisa 10 de 2013, também por ter uma característica diferente, teve uma atuação tímida. Ficou escondido na marcação e não se movimentou para receber a bola. Quando recebia, não fazia uma distribuição de jogadas que se espera da função.

A escalação de Diego nesta posição, portanto, deve ser questionada. É até compreensível, pois ele é um jogador que tem um certo nome, e isso atrai a marcação adversária, abrindo espaços para outros jogadores. Mas a característica de Diego não é a de pensar o jogo e criar jogadas, e sim a de conduzir a bola com vigor físico. Sem um jogador de suporte a seu lado, como Everton Ribeiro, por exemplo, para dividir a atenção da defesa, Diego tende a sumir na marcação, pois não se movimenta muito também.

Tinga e Lucas Silva eram os volantes com liberdade pra sair. O primeiro teve um excelente jogo, combinando com Mayke frequentemente pela direita e aparecendo na frente para desafogar o jogo. Lucas Silva, pela esquerda, ficou um pouco mais preso, procurando menos a Egídio. O garoto da base teve um trabalho mais defensivo, porém tentava buscar a primeira bola para iniciar o jogo.

Jogo sem pressão

Talvez por já estar garantido no primeiro lugar, o Cruzeiro não fez pressão na defesa adversária como em outros jogos. Ao invés de pressionar alto, Borges, Diego Souza e Dagoberto se colocavam à frente dos zagueiros, fechando um passe direto nos pés dos volantes do Tupi. A intenção, acredito, era chamar cada vez mais o time de Juiz de Fora — que precisava da vitória para ainda ter chances de se classificar — e partir num contra-ataque para matar o jogo. E assim foi feito: bola roubada, contra-ataque velocíssimo, de Tinga para Dagoberto, que de primeira achou Egídio entrando em altíssima velocidade na cada do goleiro. O lateral driblou Jordan e, ao invés de marcar o gol, deu para Borges, que briga pela artilharia. Uma jogada que mostra a consciência que o time tem de suas ações em campo.

De sua parte, o Tupi também preferiu não incomodar os zagueiros do Cruzeiro. Mas a superioridade dos laterais e a movimentação dos volantes, que vinham buscar a bola nos pés dos zagueiros para iniciar o movimento ofensivo, sobrepujou a marcação do time adversário com facilidade, e o Cruzeiro chegou sem maiores problemas.

Substituições

No segundo tempo, o técnico Felipe Surian tentou consertar uma das laterais, trocando Thiago Ryan por Ygor na direita. Não deu muito certo, e o Cruzeiro continuava sendo superior em ambos os lados do campo. Aos 19, Marcelo Oliveira lançou Élber na vaga de Lucas Silva, refazendo o 4-2-3-1, com Dagoberto indo ser ponteiro esquerdo de vez. Mas o Cruzeiro já se poupava claramente e a mudança não teve muito impacto. Depois Diego Souza saiu para dar lugar a Ananias, transformando o time num híbrido de 4-2-3-1 com 4-4-1-1. E Borges, que não vai jogar na próxima rodada por ter levado a terceira advertência, foi substituído por Anselmo Ramon, para dar ritmo ao provável substituto.

No Tupi, as entradas de Cassiano e Ademílson, atacantes, nos lugares de Paulinho e Felipe Lima, meia e volante, respectivamente, também não funcionaram bem. O Tupi partiu para o tudo ou nada numa espécie de 4-2-4. Com o meio-campo esvaziado, o Cruzeiro controlou o jogo e Rafael foi pouco incomodado.

Agora é pra valer

Na próxima fase, o Cruzeiro vai jogar contra o Villa Nova, que foi o adversário mais difícil na fase de classificação. Naquela oportunidade, o Cruzeiro só equilibrou o jogo quando começou a colocar mais jogadores marcadores no meio-campo para segurar o ímpeto de Tchô, principal cabeça pensante do time de Nova Lima. Só foi superior quando espelhou o 4-3-1-2 losango do Villa com Ricardo Goulart na ligação. Mas é bem provável que Marcelo Oliveira entre com o 4-2-3-1 novamente, com a dupla volância responsável pela marcação de Tchô e do outros volantes que subirem.

Por falar em volância, é bem improvável que Marcelo Oliveira faça uma surpresa nesse setor. A tendência é a volta de Leandro Guerreiro e Nilton. Ambos são mais destruidores de jogadas do que passadores, e insisto que falta um jogador com essa característica no setor. Tinga fez muito bem esse papel contra o Tupi — apesar de ter sido em um sistema diferente — e também quando tem entrado nos jogos.

Mas o mais importante mesmo é que agora existe o clima de decisão. Finalmente saberemos como o Cruzeiro vai se comportar em partidas eliminatórias (a partida contra o CSA não serviu para muita coisa), que valem de verdade.

Finalmente.



Cruzeiro 3 x 1 Tombense – Foi na técnica

Para abrir este post, recorro novamente a Jonathan Wilson, autor do livro “Inverting the Pyramid” sobre a história da tática no futebol, em uma frase que utilizou em seu blog no jornal inglês The Guardian: “Simetria não é essencial, mas o equilíbrio é”.

Este equilíbrio é o sonho de todo treinador de futebol: defender e atacar com a mesma eficiência, em todos os setores do campo. Mas o que se viu ontem do Cruzeiro, na vitória por 3 a 1 sobre o Tombense no Mineirão, foi uma equipe sem simetria mas também sem equilíbrio. Ataque e defesa tiveram momentos diferentes durante a partida, e a vitória só veio pela diferença técnica existente entre os dois elencos.

Formações

O 4-2-3-1 da primeira etapa tinha a tendência de cair para a esquerda, com E. Ribeiro mais por dentro e Everton apoiando mais que Ceará

O 4-2-3-1 da primeira etapa tinha a tendência de cair para a esquerda, com E. Ribeiro mais por dentro e Everton apoiando mais que Ceará

Marcelo Oliveira escalou o Cruzeiro no seu já habitual 4-2-3-1, com Fábio no gol e sua linha defensiva composta por Ceará à direita, Thiago Carvalho (substituindo Bruno Rodrigo, contundido) e Paulão no miolo de zaga e Éverton na lateral esquerda. Nilton e Leandro Guerreiro mais uma vez fizeram dupla na volância, suportando Everton Ribeiro à direita, Diego Souza centralizado e a novidade Luan de ponteiro esquerdo, todos procurando Anselmo Ramon na frente.

Já o Tombense veio, como esperado, em um sistema super-defensivo para segurar o ataque azul. O técnico Marcelo Cabo mandou a campo um 4-3-2-1. O gol de Glaycon foi defendido pelos zagueiros Andrezinho e Alexandre, flanqueados por Ari na direita e Guilherme Lazaroni na esquerda. O trio de volantes era formado por Mateus Silva pela direita, Serginho por dentro e João Guilherme na esquerda. À frente, Joílson na ligação tinha a companhia do atacante Éder Luiz. Só Adeílson ficava mais à frente.

A árvore de natal e a assimetria

Dois fatores chamaram a atenção no primeiro tempo. O primeiro era que a marcação do Tombense, que lembrava uma árvore de natal, foi desenhada para forçar a posse de bola do Cruzeiro para lados do campo. Os três jogadores da frente fechavam as linhas de passe no meio, forçando os zagueiros do Cruzeiro a procurarem as laterais. Os volantes Nilton e Leandro Guerreiro, que normalmente se revezam para tentar achar o primeiro passe, quase não viam a bola em seus pés.

O outro fator que o time do Cruzeiro “pendia” para o lado esquerdo, uma vez que Everton Ribeiro, um “ponteiro de pé invertido” (canhoto na direita), tinha a tendência de centralizar mais, ao invés de ficar aberto, perto da linha lateral. Do outro lado, Luan fazia exatamente o contrário: ficava o mais aberto possível, tentando achar uma corrida em diagonal ou buscar a linha de fundo para o cruzamento.

Com isso, o time perdia amplitude no ataque (ou seja, não “alargava” o campo, tentando abrir a defesa adversária) e facilitava a marcação do Tombense. Este problema seria facilmente resolvido se Diego Souza revezasse com Everton Ribeiro na ponta direita, arrastando a marcação consigo e abrindo espaço para ele e ao mesmo tempo dando mais uma opção de passe. Mas o camisa 10 se movimentou pouco e quase não participou do jogo ofensivo.

Ceará bem que tentou ser a opção pelo lado direito, mas o lateral apoiou pouco, não só por ser estar “sozinho” naquele lado como também pelas opções de passe dos companheiros, que sempre buscavam o lado canhoto do campo.

O resultado pode ser visto nos números: de acordo com os dados coletados pela Footstats e publicados no site da ESPN Brasil, o Cruzeiro passou 43,09% de sua posse no lado esquerdo do campo, contra apenas 30,75% do lado direito. Uma discrepância grande.

Curiosamente, o gol saiu num momento em que Luan e Everton Ribeiro estavam invertidos. E numa tabela entre os dois Evertons é que saiu a conclusão do lateral que provocou o rebote para o garoto Vinicius Araújo — que havia entrado no lugar do lesionado Anselmo Ramon sem alterar o sistema — abrir o marcador.

Segundo tempo

Marcelo Cabo tirou um de seus volantes, Mateus Silva, e lançou o atacante Tiago Azulão, que foi jogar de ponteiro esquerdo. Joílson foi para a direita e Eder Luiz ficou centralizado, configurando um 4-2-3-1 que variava para um 4-4-1-1 sem a posse de bola. Talvez o treinador do Tombense queria dobrar a marcação nos dois lados do campo e ao mesmo tempo ter uma saída de contra-ataque para buscar o empate.

Porém, assim como na primeira etapa, o Cruzeiro continuava dominando a posse de bola, mas desta vez com ainda mais dificuldade para penetrar na bem postada defesa adversária. O Cruzeiro só chegava quando tocava rápido a bola, virando o jogo pelo chão mas com velocidade, o que acontecia só esporadicamente.

Somente aos 12 minutos Marcelo Oliveira mexeu: sacou Luan e lançou Dagoberto, que foi jogar espetado pelo lado esquerdo, quase como um segundo atacante. Era um 4-2-3-1 com uma variação interessantíssima para o 4-2-2-2 (com Everton Ribeiro centralizando e Dagoberto avançando). Mas a mudança mais importante com a alteração foi no estilo: Dagoberto prefere a velocidade, enquanto Luan tentava mais na força física. O time ficou mais leve e mais vertical.

Domínio visitante

Porém, com o ataque melhorando, a defesa começou a piorar. Com menos jogadores marcando nos flancos ofensivos, já que Dagoberto não acompanhava o lateral e Everton Ribeiro frequentemente estava na parte central do campo, o Tombense começou a achar uma saída de bola sem pressão. A marcação celeste, que no início do jogo era no campo adversário, agora era em bloco médio, fazendo pressão somente quando a bola já havia ultrapassado a linha divisória. O time de Tombos começou a “gostar” do jogo e saiu um pouco mais. A defesa do Cruzeiro respondia passivamente, deixando os jogadores adversários pensarem.

No fim, o Cruzeiro se postou num 4-2-2-2 com muito mais movimentação ofensiva, mas desorganização na defesa

No fim, o Cruzeiro se postou num 4-2-2-2 com muito mais movimentação ofensiva, mas desorganização na defesa

Quando o Tombense já era melhor no jogo, o Cruzeiro ampliou, justamente num contra-ataque. Bola rebatida, passe para Vinicius Araújo, que estava bem aberto pela esquerda, sem marcação. Ele avançou e cruzou rasteiro para o outro lado da área. Everton Ribeiro, que já tinha passado da linha da bola, recuou e concluiu com muita tranquilidade, sem chances para Glaycon.

Logo após o gol, Éder Luiz cedeu seu lugar a Alex, em mais uma tentativa de Marcelo Cabo em pressionar o Cruzeiro. O jogador foi jogar de meia central, mantendo o 4-2-3-1. Marcelo Oliveira queria garantir a vitória e sacou Diego Souza, apagado no jogo, lançando o garoto Élber. Dagoberto virou atacante de vez e o 4-2-2-2 estava oficializado, com quatro jogadores leves se movimentando à frente.

Mas o domínio do time de Tombos continuou. O Cruzeiro sofreu um gol em lance de bola parada, com Adeílson, e quase sofreu o empate minutos depois. Fábio, que já havia feito um milagre antes, impediu um lance e Tiago Azulão mandou pra fora em outro. A tranquilidade só veio quando, em um lance — ironicamente — de contra-ataque, Élber encontrou Dagoberto aberto pela direita do ataque. O camisa 11, dominou e esperou a chegada de Élber para devolver a bola num passe milimétrico que furou o sistema defensivo. O jovem meia bateu no canto alto esquerdo e deu números finais à partida.

Vencer sem convencer?

A vitória veio, a liderança foi mantida, mas não sem um certo sufoco. O Tombense esteve muito bem armado em campo pelo técnico Marcelo Cabo, e o resultado veio muito mais na habilidade técnica dos jogadores cruzeirenses do que na disposição tática. Nesse aspecto, arrisco dizer até que o Tombense foi superior — cumpriu muito bem o papel de travar o ataque cruzeirense.

É claro alguns fatores, como ficar duas semanas sem jogar, a atuação discreta de Diego Souza — muito marcado e sem inspiração para se movimentar e sair dela — e a pouca participação dos volantes nas ações ofensivas fizeram o Cruzeiro ficar mais previsível, facilitando o trabalho defensivo adversário. O time melhorou no segundo tempo ofensivamente com as substituições promovidas, mas caiu muito defensivamente. Fosse o Tombense um time mais técnico, certamente sairia com um resultado melhor do Mineirão.

Um time ofensivo e envolvente, como quer Marcelo Oliveira, pode ser equilibrado. Mas isso requer entrosamento (foi apenas o quarto jogo oficial do Cruzeiro na temporada) e que os jogadores executem funções para além das que estão designados: atacantes têm que marcar e defensores têm que jogar. Coisas que faltaram ao Cruzeiro ontem e que só o tempo poderá trazer.

De fato, ainda há muito trabalho a fazer.



Cruzeiro 2 x 0 América/TO – Cada um pega o seu

Assim como no jogo contra o rival, Anselmo Ramon — desta vez oficialmente — e Dagoberto foram às redes novamente para dar a segunda vitória ao Cruzeiro em dois jogos na temporada 2013. Entretanto, o jogo teve um ritmo bem mais calmo, com o América de “Tocantins” bem recuado para tentar parar o criativo e rápido ataque celeste.

Escalação inicial do Cruzeiro no já costumeiro 4-2-3-1, aqui com Everton Ribeiro liberando o corredor pra Ceará e Everton e Egídio alternando do outro lado

Escalação inicial do Cruzeiro no já costumeiro 4-2-3-1, aqui com Everton Ribeiro liberando o corredor pra Ceará e Everton e Egídio alternando do outro lado

Sem Leandro Guerreiro, suspenso por marcar Ronaldinho Gaúcho, Marcelo Oliveira mandou Tinga em seu lugar. O sistema e os outros dez eram os mesmos do jogo anterior: o 4-2-3-1 tinha Fábio no gol e sua linha defensiva com Ceará à direita, Egídio à esquerda e os zagueiros Bruno Rodrigo e Paulão. Nilton e Tinga davam suporte para a trinca de meias composta por Everton Ribeiro, Ricardo Goulart pelo meio e Everton à esquerda, todos atrás de Anselmo Ramon.

Confesso que, das arquibancadas do Mineirão, demorei a entender o esquema com o qual Gilmar Estevam armou o América. Com a proposta de marcação individual, pura e simples, a equipe passou a maior parte do jogo num 4-3-2-1, também conhecida como “árvore de natal”. O goleiro Eládio tinha à sua frente a defesa composta por Iran à direita, Elder e Rodrigo Sena centralizados e Daniel à esquerda. Os volantes Felipe Dias, Luisinho e Matheus Gonzaga marcavam um meia cada um. Luciano Mourão era o responsável pela ligação e Almir subia e descia o campo. Só Erivelto ficava mais à frente.

Jogo de um time só

Se antes do jogo já estava claro que o América iria estrear no Mineirão para não perder, com este sistema, ficou ainda mais visível a proposta de tentar parar o ataque cruzeirense. Eram três volantes, um pra cada meia adversário. Isso fazia os laterais ficarem bem fundos, esperando o lateral adversário subir. Por vezes, parecia que o time visitante tinha escalado dois laterais de cada lado. A dupla de zaga brigava contra Anselmo Ramon, para garantir a sobra. E, como se não bastasse todo esse aparato defensivo, Luciano Mourão e Almir, o segundo atacante ainda se aproximavam dos volantes azuis para fechar as linhas de passe. Só Erivelto, o camisa 9, ficava à frente, mas sem fazer pressão sobre os zagueiros celestes.

Domínio total, com destaque para o número barcelonístico de passes

Domínio total, com destaque para o número barcelonístico de passes

Isso resultou em grande posse de bola para o Cruzeiro. De acordo com os números da Footstats, publicados pelo site da ESPN Brasil, em 67,52% do tempo que a bola rolou, estava em pés azuis. Outros números comprovam o domínio: veja na imagem ao lado.

Destes números, o que mais chama a atenção é o de passes: O Cruzeiro alcançou uma marca “a la Barcelona” de 653 passes trocados durante a partida, com somente 48 erros — mais de 92% de aproveitamento. Uma média excelente, e que expressa bem o que foi a partida. Naturalmente (devido ao adversário, estreia no Mineirão e outros fatores), a intensidade do time celeste foi bem menor do que no jogo anterior. Por isso o Cruzeiro foi bem mais paciente, tocando bem a bola, rodando para tentar furar o ferrolho teófilo-otonense, gerando estes números.

Os caminhos do gol

Considerando, portanto, que praticamente se tratava de um jogo ataque contra defesa, e que a defesa já foi analisada nos parágrafos acima, passemos ao time atacante.

Pela direita, era Ceará quem dava amplitude — termo usado para designar a distância entre os jogadores horizontalmente, “alargando o campo”, para tentar abrir a defesa adversária. Normalmente, num 4-2-3-1, quem faz isso é o ponteiro, com o suporte na intermediária do lateral. Mas Everton Ribeiro se aproximava mais de Ricardo Goulart no centro para dar opções, liberando o corredor direito para o apoio de Ceará. Daniel ficava esperando o experiente lateral, que mesmo assim conseguiu ganhar em algumas jogadas e mandar a bola para a área.

Do outro lado, Everton e Egídio revezavam como ponteiro e lateral, dando muito trabalho para o volante Felipe Dias (que estava a cargo de marcar Everton) e o lateral Iran (que ia mais à frente bater com Egídio), gerando até uma pequena discussão entre os dois, A troca de posições confundiu a marcação e o Cruzeiro chegava com frequência por aquele lado também.

E finalmente, pelo meio, Ricardo Goulart até tinha um bom timing de tentar um passe mais profundo, mas ainda precisa acertar a força do passe. Ou seja, o passe era dado na hora certa, sem deixar o jogador que corre em profundidade impedido, mas a bola era forte demais ou de menos, sempre ficando mais para os defensores. De qualquer forma, ele contribuiu bastante para ocupar um marcador e tentar abrir o jogo para seus companheiros. Tinga e Nilton tentavam participar da construção ofensiva, o primeiro mais que o segundo, mas não tem a mesma visão e criatividade dos meias.

Em todos os casos, o Cruzeiro esbarrava no famoso último passe, aquele que deixa o companheiro na cara do gol, em condições de finalizar. Minha digníssima esposa, me acompanhando no jogo — também para conhecer o estádio — já estava ficando impaciente com todas as bolas que o time jogava na área nas mãos de Eládio. Mas no primeiro lance em que isso não aconteceu a bola foi às redes. Tinga achou Ceará livre pelo lado direito, aproveitando a desatenção de Daniel. O “2” cruzou rasteiro para a chegada de Anselmo Ramon, que completou de letra, para dar justiça ao placar.

Intervalo

Como era esperado, Dagoberto entrou no jogo, mas novamente quem saiu não foi Egídio, como se pensava, e sim Ricardo Goulart. Marcelo Oliveira certamente pensou que o América não arriscaria mesmo estando atrás no placar, e que continuaria defensivo. Por isso, Dagoberto, que marca menos que Everton Ribeiro, foi ser o ponteiro direito, deslocando Everton Ribeiro para o meio. E se o jogador não foi brilhante tecnicamente, mostrou que tem muita estrela, assim como no jogo contra o rival: mal entrou e deixou sua marca, desta vez convertendo pênalti.

No fim, Cruzeiro manteve o 4-2-3-1, mas com bem menos intensidade. Dagoberto nem precisou ter trabalho defensivo

No fim, Cruzeiro manteve o 4-2-3-1, mas com bem menos intensidade. Dagoberto nem precisou ter trabalho defensivo

Com a excelente vantagem, o Cruzeiro naturalmente se acomodou. Gilmar Estevam, com isso, perdeu um pouco de medo e tentou sair um pouco de trás, colocando Edilson para criar ao lado de Luciano Mourão, tirando Iran do jogo e oficializando Felipe Dias na lateral direita. Um clássico 4-2-2-2 “brasileiro”, o famoso quadrado no meio-campo. Mas o jogador mal tocou na bola, pois ela continuava na maioria do tempo em poder do time da casa. Egídio saiu para a entrada de Alisson, que foi jogar de ponteiro esquerdo, passando Everton à lateral esquerda. E o futebol do camisa 23 cresceu, e ele chegou na área em condições de finalizar algumas vezes.

Vendo as ameaças, Gilmar Estevam voltou atrás e pôs Nilo, zagueiro, na vaga de Matheus Gonzaga. Os laterais subiram para o meio e estava configurado o 3-4-2-1: Felipe Dias, agora lateral, e Daniel flanqueavam Luizinho e Edilson — mais ajudando na marcação que criando — na linha de 4 do meio. Marcelo Oliveira ainda colocaria o garoto Vinicius Araújo na vaga de Anselmo Ramon, mantendo o sistema, mas o jovem teve poucas chances para aproveitar, principalmente porque o resto do time tirou o pé no segundo tempo.

Perspectivas de um futuro animador

O Mineirão, na noite de quarta, estava iluminado com luzes azuis em seus pórticos. As redes, pra quem não reparou, eram azuis e brancas. A torcida foi em bom número, considerando que o jogo estava passando na TV, estava programado em um horário ruim e o ingresso era caro. Este não são fatores táticos, claro, mas somados ao fato de que Marcelo Oliveira quer implantar uma filosofia de posse de bola e futebol vistoso — que sempre foi a característica cruzeirense — criam uma atmosfera que faz a torcida suspirar por bons momentos em 2013. As últimas notícias dão conta de que os jogadores estão felizes e imbuídos de um objetivo comum, que é reerguer o Cruzeiro ao lugar onde sempre esteve: o céu.

Mas é preciso ter os pés no chão. Ainda há muito o que melhorar, mas estamos no caminho certo. Que o Carnaval não nos faça perder o embalo, mas que sirva pra amenizar um pouco e trazer os pés de toda a Cruzeiridade um pouco mais para o chão — afinal de contas é precisa ter cautela no início da temporada.

Bom carnaval a todos e usem camisinha.