Cruzeiro 1 x 1 Vasco – Muita calma nessa hora

Ao ler este título, o leitor mais assíduo (se é que existe um) deste blog vai notar que a análise da partida contra o Figueirense no sul não aconteceu por aqui. A intenção era escrever as duas, mas diante da situação, deixarei deliberadamente de fora a mudança brusca do losango para um inexplicável 3-4-1-2 — tão inexplicável que comprometeu até as substituições — armado por Celso Roth naquela partida. E nem existe a desculpa de que Léo estava suspenso: Diego Renan é ou não é lateral?

O 4-3-1-2 losango inicial do Cruzeiro no início da partida: Ceará “baleado”, sendo ajudado por Wallyson e Tinga, e do outro lado, mais uma vez, Everton com muita ofensividade e tendo cobertura de Guerreiro

Isto posto, Roth deve ter se iluminado e voltou ao esquema base que vinha usando, o 4-3-1-2 losango. Desta vez, Fábio teve Ceará na direita — um erro, já que o jogador claramente ainda não tinha condições físicas — Thiago Carvalho e Mateus na zaga e Everton na esquerda, novamente mais apoiando que defendendo. No losango de meio, Guerreiro era o vértice baixo, Tinga o direito, Charles o esquerdo e Montillo o alto. No ataque, Wallyson abria pela direita e WP ficava na referência.

O Vasco armado pelo estreante Marcelo Oliveira jogou no mesmíssimo esquema, o que encaixou a marcação no meio-campo criando duelos interessantes. O gol de Fernando Prass foi defendido pela dupla de zaga Dedé e Renato Silva, flanqueados por Jonas na direita e William Matheus na esquerda. Nilton ficou à frente da zaga, Juninho Pernambucano foi o volante direito e Wendell (aquele mesmo) foi o esquerdo. Carlos Alberto era o responsável por armar o jogo para Éder Luis, trabalhando pelos lados do campo, e Tenório, batendo com os zagueiros.

Duelos por todo o campo

Com a marcação encaixadinha como estava, os duelos faziam a diferença. Em alguns momentos, a dupla de zaga deixou o centro-avante concluir e quase-gols saíram: WP em dois cabeceios, um em cima de Prass e outro em cima de Dedé, e Tenório em uma jogada de profundidade, driblando Fábio mas concluindo bisonhamente. No mais, Dedé foi o senhor da grande área vascaína e engoliu WP, além de ter participações ofensivas com muita qualidade, como no lance do gol bem anulado de Tenório em furada incrível do garoto Lucas Silva, e em cabeceio livre para fora. Mateus e Thiago Carvalho fizeram o jogo razoável e tiveram sorte de não serem responsabilizados pelas chances criadas pelo time adversário, pois se defendiam como podiam.

Nas laterais, a escalação de Ceará foi claramente um erro de avaliação. O jogador não tinha condições e visivelmente mancava, por isso se limitou a defender o lado direito da área cruzeirense. Quase não cruzou a linha do meio-campo. Porém, Wallyson recuava com William e ajudava no combate, se juntando a Tinga. Some-se a isso o fato de que William Matheus também foi um lateral defensivo, e por isso o Cruzeiro foi pouco ameaçado por ali, mesmo quando Éder Luís e Carlos Alberto tentavam alguma coisa.

Lado esquerdo

Do outro lado era que o jogo fluía mais, principalmente quando o Cruzeiro tinha a bola. Mais uma vez, Everton fez um bom jogo ofensivo, explorando sua característica de velocidade e conseguia vencer alguns duelos com Jonas, criando boas jogadas. Foi com ele que saiu o primeiro gol, em tabela com Charles e aparecendo na área para um cruzamento desviado por Renato Silva jogar contra. Na defesa, como o Vasco não possuía jogadores oficialmente abertos pela esquerda, quem explorava o espaço aberto pela subida de Everton era Éder Luis, mas Leandro Guerreiro ia atrás dele e dificultava as coisas. Num desses lances, o juiz apontou uma falta inexistente, e na cobrança, Juninho mandou direto, e Fábio não conseguiu mandar para longe e evitar o rebote de Nilton, sem marcação.

A grande diferença, no entanto, foi no meio-campo. Enquanto Tinga e Wendell fizeram um duelo direto e equilibrado, os outros vértices eram diferentes. Carlos Alberto não apareceu no jogo e não fez muita coisa, e assim como Nilton, teve muita liberdade para se apresentar e ser o primeiro passe, pois os “camisas 10” não marcavam com intensidade. Montillo, mais especificamente, só marca quando o Cruzeiro faz pressão alta, tentando dificultar a saída de bola adversária; assim que a bola é aliviada, ou a marcação pressão cede, o argentino fica à frente com WP e não volta para recompor.

Juninho

O outro duelo do meio-campo é que era o mais interessante. Juninho jogou quase como um box-to-box, voltando para pegar a bola e dar passes profundos, cadenciar e dar ritmo ao Vasco. Charles penou para marcar o veterano volante-meia, que foi muito perigoso e conseguia encaixar passes muito agudos. Para nossa sorte, os alvos dos passes é que desperdiçavam os lances. Além disso, Charles tentou se desvencilhar de Juninho por várias vezes e até conseguia ficar livre em determinados momentos, quando Juninho subia para se juntar ao ataque e o Cruzeiro pegava a defesa vascaína desprevenida em contra-ataque. Mas o volante não tem a mesma qualidade de passe que seu adversário.

Todos esses fatores somados deram a característica do jogo: mais posse de bola do adversário, mesmo jogando fora, com mais trocas de passes e tendo mais volume. O Cruzeiro era mais objetivo, quando tinha a bola partia logo para definição ou então para o chutão para frente, mas os jogadores de meio do Vasco pareciam melhor posicionados nas segundas bolas e sempre o rebote da disputa de cabeça ficava com o Vasco. Foi o pior índice de posse de bola do Cruzeiro até aqui no campeonato. Assim, ambos os times tiveram chances excelentes de marcar no primeiro tempo, mas as finalizações e escolhas de último passe não eram as melhores.

Trocas

A formação só mudou de fato após as três alterações: um 4-2-3-1 com muita amplitude, com Souza e Montillo trocando de posição constantemente e Élber dando mais profundidade pela direita – a formação “ideal”

Celso Roth tirou Ceará do jogo no intervalo e mandou o garoto Lucas Silva fazer a lateral direita, efetivamente queimando uma substituição à toa. O melhor seria ter entrado com o Diego Renan já desde o início, mas o lateral nem sequer foi relacionado para o jogo. Aos 13, Tenório deu lugar a Romário (não é aquele) no Vasco. Os sistemas tático se mantiveram, mas o jogo perdeu ritmo. Em nenhum momento o Cruzeiro parecia dominar a posse de bola, sempre perdendo o meio-campo, mas o Vasco também não era muito ameaçador com a bola nos pés.

Depois, Carlos Alberto deu lugar a John Cley no meio-campo vascaíno. No Cruzeiro, Élber entrou no lugar de Wallyson, novamente sem alterar a plataforma tática, mas deste vez o Cruzeiro teve uma pequena melhora, com menos previsibilidade no ataque. Apesar de o garoto ter tido dificuldades, principalmente contra Dedé, ele conseguiu criar algumas chances pela ponta direita e incomodar.

A formação cruzeirense só iria mudar mesmo quando Souza entrou no lugar de Charles, e talvez até por acaso, ficou numa formação que considero ideal: um 4-2-3-1 com muita amplitude e ofensividade, com um passador no meio: Souza. O Cruzeiro apertou no fim e foi em busca do gol, mas parou em defesas de Prass e nas próprias escolhas de último passe, e teve que se contentar com o empate.

Destino de Roth

Muita gente apostava em queda de Roth se a vitória não viesse. De fato, isso aconteceria se o Cruzeiro não tivesse reagido e mostrado um mínimo de padrão tático e encaixe de marcação, o que aconteceu na partida de hoje, que esteve longe de ser uma das piores do ano. Há muito o que consertar, tecnicamente inclusive. Porém, no jogo de hoje, o treinador mostrou sim que fez alguma coisa nestes quatro meses à frente do Cruzeiro, mesmo considerando sua falta de capacidade em mudar a partida na Ilha do Retiro há duas rodadas, seu 3-4-1-2 maluco com Souza de ala direito do desastre no Orlando Scarpelli, e o erro de planejamento ao escalar Ceará precipitadamente hoje.

A formação do fim da partida, entretanto, me deu esperanças de que o Cruzeiro pode sim ter uma plataforma tática ofensiva, digna das tradições celestes. Este blogueiro deu uma leve pincelada sobre isso na análise contra o Náutico: escalar Souza como meia central desde o início, deslocando Montillo para a posição de ponteiro pode ser um excelente movimento — Wallyson/Élber, Souza e Montillo atrás de WP ou Borges, por exemplo. A combinação Montillo/Everton seria bombástica, assim como Ceará dando suporte a Wallyson ou Élber. Isso, é claro, após a volta 100% do lateral direito. Voltarei a isso em outro post.

Guerreiro e Éverton não estarão à disposição para o dificílimo jogo contra o São Paulo, no Morumbi, no fim de semana que vem. Sandro Silva é o substituto natural de Guerreiro, mas suprir a ausência do jogador que tem sido nossa melhor alternativa ofensiva — suplantando inclusive Montillo — é outra história. Diego Renan, que tem outra característica, deve entrar em seu lugar, com Leo voltando à lateral direita. Afinal, é melhor um zagueiro 100% do que um lateral-direito baleado.

Celso Roth ganhou mais uma chance. Mais por causa da produção da equipe, como equipe, do que pelo resultado. Normalmente as duas coisas andam juntas, mas é a primeira que sustenta um treinador, e é por isso que ele ainda será o técnico contra o São Paulo.



Cruzeiro 2 x 0 América/TO – Sob a batuta de Roger

Com Roger ditando o ritmo, o Cruzeiro só precisou de um tempo para definir a vitória contra o América-TO ontem na Arena do Jacaré, com mais 2 de WP. E ao reagir com substituições corretas às mexidas do adversário, Vágner Mancini facilitou a vitória de seus comandados, em um claro exemplo de como mexer na característica do time sem necessariamente mexer na formação.

O costumeiro losango celeste do primeiro tempo, com Roger invertendo com Leandro Guerreiro

O Cruzeiro jogou todo o jogo no 4-3-1-2 usual, com Roger dando qualidade à saída de bola, trocando frequentemente de posição com Leandro Guerreiro. Já o América-TO veio para o jogo num surpreendente 3-4-2-1, com Geraldo na referência, Diego Faria um pouco mais à frente do que Luciano Mourão na ligação. Talvez uma tentativa do técnico Gilmar Estevam de emperrar a criação celeste lotando o meio-campo com seis homens.

Não deu muito certo, no entanto. Como tem feito nos últimos jogos, Roger era frequentemente visto logo à frente dos zagueiros para receber a primeira bola e fazer o time sair,  jogando em uma função cujo nome em inglês é deep-lying playmaker (“articulador recuado”, numa tradução livre), algo como um “falso 10”, que é cada vez mais comum no futebol. E o meia tinha muita liberdade, pois somente Geraldo marcava mais à frente. Os outros nove jogadores de linha do América ficavam atrás da bola, e com isso havia muito tempo para estudar o jogo e encaixar o melhor passe.

Além disso, com três zagueiros, os laterais do time de Teófilo Otoni se posicionavam na penúltima linha. Isso criava espaços às suas costas, que não eram cobertos pelo trio defensivo, mais centralizado. As enfiadas de Roger em diagonal acabaram se tornando comuns, ilustradas pelo primeiro lance do jogo: um gol anulado de Montillo em uma jogada pela esquerda de Marcelo Oliveira, recebendo passe de Roger exatamente naquele setor. Diego Renan também usou este espaço quando lançou Anselmo Ramon, que protegeu e devolveu para o lateral dentro da área. O pênalti inexistente resultou no primeiro gol.

Com os laterais na penúltima linha e os três zagueiros muito centralizados, Roger explorava os espaços deixados dos lados do campo

Montillo ainda recebia marcação especial de Elber, que o seguia para todos os lados do campo. Com muita inteligência tática, o argentino arrastava o volante para os lados do campo, abrindo espaços para seus companheiros. Leandro Guerreiro, em uma das inversões com Roger, aproveitou este espaço e recebeu um excelente passe no meio, avançando sem ser incomodado. Ele conectou Anselmo Ramon que, fazendo muito bem o trabalho de pivô (mais uma vez, diga-se), serviu WP, que emendou de primeira no canto direito de Fábio Noronha.

Do outro lado, o Cruzeiro só era realmente incomodado em contra-ataques. O time mandante dava espaços, devido principalmente à intensa participação de seus volantes na criação, inclusive gerando um contra-ataque três contra três que, felizmente, foi desperdiçado pelo América. O posicionamento muito recuado do meio-campo visitante, entretanto, fazia com que as ações ofensivas fossem mais tímidas. Além disso, Geraldo é muito mais um homem de área do que atacante de movimentação, não sendo o homem ideal para puxar contra-ataques. A vitória azul no primeiro tempo foi justa.

Após as alterações, Cruzeiro no 4-3-1-2 quase 4-3-3 com o ataque super fluido sem centroavante fixo, e LG revezando com MO nas subidas pelo lado esquerdo

No intervalo, Gilmar Estevam colocou o lateral direito Rafinha no lugar do zagueiro Danilo, repaginando sua equipe numa árvore de natal, ou 4-3-2-1. Com mais largura na última linha, o problema dos espaços nas pontas do campo foi resolvido. Mancini tentou explorar o espaço aberto no meio-campo, ocasionado pela redução de jogadores adversários no setor (de 6 para 5), adiantando Roger para se tornar um articulador mais clássico, com Montillo praticamente de atacante, quase num 4-3-3. Mas como é um jogador que se movimenta pouco, Roger não foi tão eficiente na criação com a marcação direta que recebia, mesmo tendo criado alguns lances. Além disso, voltava lentamente para ajudar na parte defensiva, proporcionando mais posse do América.

Assim, o técnico visitante arriscou um 4-2-2-2, colocando o atacante Karreta no lugar do volante Felipe Dias, na tentativa de transformar a maior posse em gols. Mancini respondeu com a entrada de Rudnei no lugar de Roger. O esquema permaneceu sendo 4-3-1-2, mas com Rudnei muito mais móvel que Roger, aparecendo pra jogar e voltando pra marcar pela direita. MO e LG se revezavam: um protegia a zaga, o outro subia para o ataque pelo outro lado. Montillo, agora liberado atribuições defensivas, se adiantou de vez, e o Cruzeiro voltou a ter muito mais posse de bola.

Interssante notar como as batalhas individuais se davam neste momento. Nas duas pontas viam-se batalhas de dois zagueiros contra dois atacantes. Os homens da sobra de ambas as equipes agora se encontravam no meio-campo: três volantes do Cruzeiro contra dois meias do América, e dois volantes do América contra Montillo. A diferença é que os cruzeirenses se preocupavam mais em ajudar o ataque, enquanto os americanos tinha como prioridade vigiar Montillo.

As entradas de Wallyson e Walter nos lugares de WP e AR deram mais fluidez e movimentação, com um ataque sem centroavante fixo, mas tiraram um pouco o poder de conclusão. Gilmar Estevam tentou fazer o mesmo, colocando o rápido Celinho no lugar de Geraldo, mas sem sucesso. O Cruzeiro continuou com mais posse e criou várias chances, mas não conseguiu ampliar, pois o time visitante, mesmo com os dois atacantes, recuou para evitar uma goleada. Mas não precisou, pois o Cruzeiro claramente já se poupava e cozinhou o jogo até o fim, mesmo com a expulsão de Karreta, quando o América se repaginou no clássico 4-4-1.

No jogo de xadrez dos dois treinadores, Mancini venceu, tomando as contra-medidas certas para manter o controle do jogo. WP vem se destacando pelas conclusões certeiras e Roger pela qualidade na saída. Mas é importante lembrar que o Cruzeiro ainda não foi realmente testado na temporada. Contra uma equipe mais técnica e experiente, o meia muito provavelmente não terá tanta liberdade. O ataque mais móvel, com Walter e Wallyson, provavelmente será a melhor opção contra estes times, pois elas saem mais para o jogo e não ficam tão entrincheiradas.

O próximo jogo será interessante do ponto de vista tático, pois Marcelo Oliveira, Diego Renan e Wellington Paulista estão suspensos pelo terceiro cartão. Vamos ver como Vágner Mancini reagirá aos primeiros desfalques forçados da temporada.



Democrata/MG 0 x 2 Cruzeiro – Cuidado com os buracos

Com dois de Montillo (que poderiam muito bem ser creditados a Anselmo Ramon), o Cruzeiro venceu a terceira seguida, mas por sorte não caiu num enorme buraco criado pelo seu próprio treinador.

Formação inicial: 4-3-1-2 losango com muito espaço entre o trio de volantes e o trio ofensivo

Com Rudnei no lugar de Roger, poupado, o Cruzeiro continuou no seu costumeiro 4-3-1-2 losango, mas sem a criatividade de Roger na saída de bola e com mais poder de marcação proporcionado por Rudnei. José Maria Pena escalou o time da casa num 4-2-2-2, mas com o meio-campo todo formado por volantes, e com Adriano um pouco mais recuado que Léo Andrade na frente.

Com três volantes “de raiz”, o Cruzeiro novamente teve problemas de criatividade no primeiro tempo. Leandro Guerreiro, Marcelo Oliveira e Rudnei não são jogadores criativos, e Montillo joga sempre muito avançado, mais próximo do gol. Além disso, o Democrata se alinhava em duas linhas de quatro quando perdia a posse, com os dois “meias” ofensivos recompondo pelos flancos. Com isso, os laterais do Cruzeiro não avançavam muito, sob o risco de deixar um buraco nos flancos defensivos e tomar bolas nas costas em contra-ataque. O Cruzeiro só conseguia sair com a bola pelos lados, quando Montillo ou Wellington Paulista caíam pelo setor e se apresentavam para o primeiro passe, mas a essa altura já estavam muito longe do gol.

Defensivamente, o Cruzeiro se portou bem, pressionando a bola assim que perdia a posse, diminuindo ainda mais a qualidade do passe dos meio-campistas do Democrata, que eram volantes por natureza. A rigor, a única chance criada pelos valadarenses foi num erro de arbitragem, quando a defesa do Cruzeiro fez a linha de impedimento e o auxiliar nada marcou, fazendo com que Fábio tivesse que mostrar porque é um dos ídolos da torcida. De resto, alguns lampejos de Léo Andrade, que tentou se movimentar mais, na tentativa de puxar a marcação de um defensor para fora de sua zona, gerando um efeito cascata. Note como, aos 01:14 deste vídeo, como o zagueiro Leo está fora da área, à caça do atacante democratense, abrindo um buraco na defesa celeste. Diego Renan teve que sair pra fazer a cobertura, deixando dois jogadores sozinhos do lado direito do ataque. A sorte foi que Flávio Lopes, vendo-se sozinho, tentou chutar ao invés de passar para seus companheiros.

Tudo isso, aliado à péssima qualidade do gramado e ao forte calor que fazia em Valadares, contribuíram para um primeiro tempo, ironicamente, morno, de baixa qualidade técnica. O Cruzeiro teve mais posse de bola, mesmo tendo menos homens no meio-campo do que o time mandante (3 contra 4, já que Montillo era praticamente um atacante). Rudnei, mas enérgico que Roger, não conseguiu suprir a ausência deste criativamente, e mais uma vez a ligação entre o trio ofensivo e o trio de volantes foi fraca, com um buraco entre as linhas.

A saída de Rudnei abriu um buraco na meia direita celeste, recomposto mais tarde por Roger

No intervalo, Mancini substituiu Rudnei pelo atacante Walter. Com mais homens à frente, o treinador tentou fazer o time da casa se preocupar mais em defender e dar mais espaço no meio-campo para os volantes jogarem. Efetivamente, o que aconteceu foi que WP recuou ainda mais para se tornar um meia-armador de fato, Montillo continuou na sua posição normal e um buraco se abriu no meio-campo defensivo, onde antes estava Rudnei, já que os volantes não se reposicionaram no novo 4-2-2-2 “torto”. A assistência primorosa de calcanhar de Anselmo Ramon para Montillo marcar seu primeiro gol na temporada e se tornar o maior artilheiro estrangeiro do Cruzeiro (com o perdão das rimas) escondeu um pouco o alto risco da substituição escolhida pelo treinador cruzeirense.

Em desvantagem no placar, o Democrata tratou de tentar atacar o Cruzeiro, e aproveitaram o tal buraco. Se os visitantes tinham um homem a menos no meio-campo no primeiro tempo, com dois a menos ficou impossível ganhar a batalha pela posse. Com a tentativa de pressão, os dois volantes cruzeirenses recuaram ainda demais, e os mandantes ganhavam praticamente todas as bolas rebatidas pela zaga azul. No entanto, o Democrata não conseguiu criar muitas chances, seja pela baixa qualidade criativa de seus volantes, seja pelo ótimo desempenho dos defensores cruzeirenses, particularmante Victorino e Diego Renan. A pressão só foi terminar quando Mancini corrigiu seu próprio “erro” e colocou Roger no lugar de Wellington Paulista, voltando o time ao 4-3-1-2 losango. Roger, novamente, entrou na função de box-to-box, indo de uma área à outra, para fazer o time ter saída de bola e se apresentar a todo momento para receber o passe. Quando recebia, cadenciava o jogo e fazia a bola rodar, invertendo o jogo quando necessário.

Com a pressão “aliviada”, o Cruzeiro conseguiu sair um pouco mais, e gradativamente foi empurrando o time da casa para trás. Para tentar evitar a derrota em sua estréia pelo time, José Maria Pena arriscou e tentou colocar Anderson, um meia de fato, no lugar do volante Elton, para melhorar a ligação ao lado de Bob. O risco era estreitar o meio-campo, agora um quadrado de fato, e “chamar” os laterais cruzeirenses para o apoio. E o castigo veio no minuto seguinte: Diego Renan conseguiu avançar e combinou com Anselmo Ramon, que, novamente fazendo bem uma das funções do homem de referência, que é o pivô, devolveu de calcanhar para o lateral chutar forte em cima do goleiro reserva Jonathan. Montillo, desmarcado, aproveitou o rebote e cavalgou mais uma vez pelo Mamudão, definindo o jogo.

Com a expulsão de Bob, o Democrata se reorganizou num ousado 4-3-2 (ou 4-2-1-2), mas com Adriano voltando para ajudar na marcação, efetivamente um 4-4-1. O time ainda tentou se arriscar, mas o Cruzeiro tinha uma defesa recomposta com a entrada de Roger e parecia satisfeito com o resultado, se postando atrás e dificultando muito a vida dos mandantes. Wallyson ainda entrou no lugar de Anselmo Ramon, fazendo o ataque WWW (Walter Montillo, Walter e Wallyson, que é a aposta de muita gente para o decorrer do ano), mas o time manteve o desenho tático.

Fim de jogo, terceira vitória seguida e mais tranquilidade para Mancini continuar tentando dar uma cara para o Cruzeiro este ano. Destaques para as atuações de Anselmo Ramon (que vem demonstrando ser muito mais um camisa 9 do que WP) e Diego Renan, que, apesar de não ter sido brilhante ofensivamente, teve participação fundamental quando o Cruzeiro não tinha a posse de bola. No entanto, é bom não ficar muito animado, pois foram vitórias contra times mais fracos. Os verdadeiros testes serão contra América e Atlético, mais para o fim da primeira fase.

Será uma caminhada longa, e a estrada já é esburacada o suficiente.



Cruzeiro 3 x 0 Tupi – A caminho da maturidade

Substituições certeiras – e dois gols de Anselmo Ramon como único homem de referência – deram a tranquilidade que o Cruzeiro precisava para espantar a crise.

Vágner Mancini escalou os 11 esperados, sacando Amaral para a entrada de Roger no meio, e Marcos no lugar de Gilson, com Diego Renan voltando à lateral esquerda. Já o Tupi veio para o jogo num misto de 4-2-2-2 e 4-2-3-1, com a chave sendo o posicionamento de Alan Taxista pelo lado direito, muito mais posicionado como meia do que como atacante. Michel e Leo Salino completavam o trio criativo com Adenilson sozinho à frente.

O losango “torto” celeste com Roger de box-to-box pela direita

A agradável surpresa foi o posicionamento de Roger, que recuava tanto que frequentemente se encontrava atrás da dupla de volantes, dando mais qualidade à saída de bola azul. Era um 4-3-1-2 em losango “torto”: o meia jogou mais pela direita, fazendo um papel de “box-to-box” (uma expressão inglesa que denota um jogador que transita no espaço entre as duas grande-áreas), Marcelo Oliveira na sua posição habitual pela esquerda e com um pouco mais de liberdade do que Leandro Guerreiro, primeiro vértice. Este ficou mais responsável por cobrir o apoio do lateral Marcos, muito bem na partida.

O resultado é que o time celeste teve muito mais ação ofensiva pela direita do que pelo outro lado. O primeiro gol saiu numa excelente jogada de Montillo, que, como de costume, circulava por todos os lados. O argentino recebeu a bola naquele flanco e girou em cima de seu marcador George, que o perseguiu por todo o campo. O volante teve que recorrer à falta, e a excelente cobrança de Roger achou Wellington Paulista livre para abrir o placar.

Sem a bola, o Cruzeiro se defendeu com o mesmo esquema das partidas anteriores, mas com uma fundamental diferença: Roger, como volante, se posicionava um pouco mais à frente, ocupando o espaço entre o meio e o ataque, que era um problema crônico da defesa azul. Defendendo muito bem sua grande área, o Cruzeiro impediu o trio criativo do Tupi de fazer jogadas mais agudas, que eram quase sempre obrigados a recuar a bola para os volantes para manter a posse. Esses, por sua vez, não eram jogadores de criatividade, e por causa disso Fábio mal viu a bola no primeiro tempo.

Nos minutos antes do intervalo, Roger passou a ser melhor marcado e com isso o time passou a administrar o placar. E, com a dupla de ataque se desfez no segundo tempo, cabe aqui uma observação. Reparem como WP e Anselmo Ramon raramente se conectam no ataque. Isto acontece porque ambos são jogadores muito semelhantes – são o homem de referência, ora segurando a bola para a chegada do time, ora se posicionando dentro da área para uma conclusão de um passe pelo alto ou cruzamento (veja o posicionamento dos dois no primeiro gol). Quando atuam juntos, não são tão eficientes, já que um tem que sair do caminho do outro, abrindo, e não rendem tanto quando estão fora de suas posições “naturais”. Não é de se estranhar que a dupla tenha feito 100% dos gols do time este ano e 0% das assistências.

Cruzeiro com as alterações, com Rudnei e Walter se aproximando de Montillo

O segundo tempo começou como terminou o primeiro, com a exceção de que o Tupi se lançou um pouco mais à frente. Com Roger mais apagado, o Cruzeiro recuou suas linhas naturalmente, e um leve domínio dos juizforanos apareceu, mas nada muito contundente. As melhores chances criadas pelos visitantes foram chutes de fora de área, sendo que em um deles Michel obrigou Fábio a fazer uma dupla defesa espetacular.

Mas com as substituições, o jogo mudou novamente. Mancini promoveu a estréia do atacante Walter no lugar de WP, e pôs Rudnei no lugar de Marcelo Oliveira. Walter se posicionou como segundo atacante e Rudnei foi um volante com muita liberdade para atacar pela direita. Com isso, Roger passou para o lado esquerdo. No Tupi, o volante Jaílson deu lugar ao meia-atacante Ulisses, transformando o Tupi num 4-1-3-2 com o avanço de Alan Taxista, numa tentativa de empatar a partida aproveitando o melhor momento no jogo.

Foi em vão. O trio Rudnei-Montillo-Walter combinou bem as jogadas, ajudado pelo espaço criado à frente da zaga juizforana com a saída de um dos volantes. George, sozinho, não foi capaz de comandar a marcação e o lado direito azul ganhou mais velocidade. O segundo e o terceiro gols surgiram, novamente, por aquele lado: no segundo, uma jogada de Montillo com Walter, que achou Rudnei na entrada da área, jogando como um meia. Este serviu com açúcar para Anselmo Ramon – agora único homem de referência no ataque – que tocou no canto direito de Rodrigo. O terceiro foi um cruzamento certeiro de Marcos numa outra jogada do 10 argentino, que Anselmo Ramon cabeceou sem chances para Rodrigo.

Percebendo o erro, o técnico do Tupi voltou ao 4-2-3-1 original com a entrada do zagueiro Paulinho como volante, no lugar do meia Leo Salino, com Alan Taxista voltando ao meio-campo, para evitar uma goleada maior. O Cruzeiro também desacelerou e o jogo ficou morno até os minutos finais, com o Cruzeiro por vezes tentando impor velocidade, mas sem sucesso no último passe.

Algumas conclusões a serem tiradas desse jogo:

  • WP e Anselmo Ramon estão certamente com os dias contados como dupla de ataque titular, Walter foi muito bem e deve entrar no time em um futuro muito próximo;
  • Roger deu criatividade ao time enquanto conseguiu jogar, mas no segundo tempo desapareceu, então é preciso pensar em uma alternativa para a criação além de Montillo;
  • Marcos também foi bem na lateral direita, e deve manter o lugar no time;
  • Rudnei é uma ótima opção para destravar uma retranca, pois é um volante mais incisivo;
  • o lado esquerdo vai precisa de mais criatividade;
  • os problemas mais graves dos primeiros jogos foram resolvidos, mas a qualidade de passe não: o time ainda erra muito e perde a posse da bola.

A evolução foi pequena, mas é clara. Ainda há muito espaço para crescer, no entanto. Já era para estarmos andando, mas ainda estamos engatinhando. A minha aposta é que, à época da reinauguração do Independência, no reencontro com Belo Horizonte, a maturidade chegue.