Somos todos feitos de estrelas

Versão curta e rápida: o blog Constelações suspenderá suas atividades por tempo indeterminado.

O “big bang”

Duvido que alguém saiba disso, mas o blog Constelações começou ainda em 2012. Empolgadíssimo por ter descoberto o mundo das análises táticas no futebol no ano anterior — que terminou naquele 6×1 — este escriba resolveu unir esta nova paixão com uma antiga: o Cruzeiro. Assim nasceu o único blog de análises táticas dedicado a um time só. Talvez já não seja o único, mas sem dúvida foi pioneiro nesse formato.

Totalmente auto-didata, no início decidi escrever apenas para treinar. Não fazia divulgação, sequer para amigos. Portanto, eu escrevia só pra mim. A razão maior, porém, era que eu tinha era medo dos trolls. Não estava preparado para receber comentários odiosos de gente que só quer tumultuar (talvez ainda não esteja). Só depois de sentir confiança é que abri o blog, primeiro para amigos cruzeirenses próximos, para testar a reação.

Com o retorno positivo, comecei uma tímida divulgação, a partir de meados de 2012. Desde então, o blog só cresceu. Em acessos, em popularidade. Comecei a comentar os jogos ao vivo no Twitter, e com isso fui angariando mais audiência e mais seguidores. Chamei tanta atenção que fui convidado a ser colunista de um grande portal de conteúdo do Cruzeiro, o Diário Celeste, no início de 2015.

Foi quando o alcance dos meus textos chegou num ponto que eu nunca pude imaginar. Com muito mais seguidores do que eu, os textos do Diário chegaram aos computadores de dezenas de milhares de pessoas. Gente importante do jornalismo brasileiro começou a ler os meus textos. Outros analistas táticos começaram a me olhar como pares — algo que nunca entendi direito, já que não me julgo merecedor de tal honraria.

Foram três anos e meio em que tudo isso era feito com um único combustível: o amor ao Cruzeiro e à análise tática (nessa ordem). E pelo fato de não ser a minha ocupação principal, eu sempre tinha que escrever os textos nos meus horários livres. E até o momento, isso bastava.

Mas a vida nos leva por outros caminhos, e nesses caminhos há outras prioridades. O tempo disponível já não seria tão grande. Com pesar, tive que decidir pela suspensão das análises profundas aqui no blog. Talvez algum dia elas voltem, afinal, depois de uma estrada sempre há outra estrada.

Coisas que ninguém sabia

Pra não ficar um texto muito melancólico, aqui vão algumas curiosidade engraçadinhas.

  • Os diagramas táticos, também conhecidos como “campinhos”, são todos produzidos por mim usando um software de edição de imagens.
  • Nestes campinhos, propositalmente não uso os números do jogadores, apenas os nomes. Isso porque o número da camisa não tem nenhuma relevância na análise tática e usá-lo poderia confundir o entendimento (“camisa 10 na ponta direita, como assim?”).
  • Os campinhos são no formato vertical, e não no horizontal como é o “padrão” dos outros blogs de tática, por uma razão muito simples: nessa orientação, o lateral direito fica do lado direito, o esquerdo no esquerdo, a zaga fica embaixo, ou “atrás” e o ataque em cima, ou “à frente”. Além disso, facilita o entendimento de expressões como “marcação no alto do campo”, ou “o volante afundou entre os zagueiros”.
  • No início, os campinhos tinham a mesma proporção do Mineirão antigo (110 x 75m). Pós-reforma, mudei para a nova proporção (105 x 68m), e adicionei as traves.
  • O tom de azul que marca os jogadores do Cruzeiro nos campinhos é o recomendado pelo próprio clube no seu manual de aplicação da marca.
  • Na imagem de fundo do blog, há quatro constelações: em cima, a Raposa e o Cruzeiro do Sul, que são constelações que existem de verdade; do lado esquerdo, um conjunto de estrelas que representa o esquadrão de 1966, no seu 4-3-3 característico (repare na estrela amarelada no gol e como a estrela “Tostão”, na meia esquerda, brilha mais que as outras); e do lado direito, o histórico time da Tríplice Coroa de 2003, com o 4-3-1-2 losango que Luxemburgo armou para dar liberdade a Alex, a “estrela alfa” daquela equipe.

Pequenos detalhes que me faziam feliz, mesmo que ninguém soubesse deles.

Agradecimentos

Importante agradecer a todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para que o blog Constelações fosse o que é hoje.

  • Eduardo Cecconi, o pioneiro, o verdadeiro desbravador da selva com a foice na mão, que abriu caminho para vários outros com seu finado blog Preleção e depois com o blog Tabuleiro no Globo Esporte;
  • André Rocha, cuja própria história é inspiração para muitos: um torcedor comentarista de blog que ganhou uma coluna pelo excelente conteúdo de suas palavras e não parou mais de crescer. Agradeço pela oportunidade de poder colocar um texto em seu blog da ESPN, quando eu era ainda muito “verde” no assunto;
  • Leonardo Miranda, Caio Gondo, o perfil @cruzeirotatico do Twitter e tantos outros seguidores no microblog, com os quais tive debates muitíssimo enriquecedores. Só tive o que aprender com estes mestres;
  • Aos autores dos textos nos portais Taticamente Falando e A Prancheta Tática, que nos brindam com excelentes análises de vários jogos, fontes excelentes de conhecimento;
  • Jonathan Wilson, autor do livro “Invertendo a Pirâmide”, e Michael Cox, do site “Zonal Marking“, que não devem nem saber da minha existência, mas que são óbvias fontes de inspiração. Leiam o livro e visitem o site!

“We are all made of star-stuff”

O famoso astrônomo Carl Sagan uma dia disse que “somos todos feitos de estrelas”. Isto porque, de acordo com a teoria vigente, todos os átomos existentes no Sistema Solar foram criados a partir do hidrogênio existente dentro de uma estrela, que após completar o seu ciclo, explodiu e deu origem ao nosso Sol e aos planetas.

Assim, tal qual uma estrela que morre mas deixa seu rastro por toda a parte, o Constelações suspende suas atividades, mas não desaparece por completo. Pois se o blog conseguiu plantar a sementinha sobre o assunto na cabeça de muita gente que o desconhecia, se conseguiu ao menos derrubar o muro do preconceito em relação a isso que existe no Brasil, já terá cumprido o seu papel. E estará por aí, na forma do interesse despertado, da informação mais completa, da visão do jogo por um outro prisma que não o da técnica individual.

Obrigado a todos, até breve, abaixo a ditadura do 4-4-2, e finalmente e mais importante: #FechadoComOCruzeiro!



Huracán 3 x 1 Cruzeiro – O humano e o desumano

Pouco mais de dois dias após um jogo de alta intensidade, o Cruzeiro voltava a campo para jogar. Fez bons minutos iniciais, levando alguns sustos mas aplicando alguns também, mas dois terríveis erros defensivos mudaram a história do jogo. Mesmo após os gols, o Cruzeiro continuou tendo alguma iniciativa e até conseguiu diminuir no início da segunda etapa, apenas para ver sua reação morrer com mais um erro defensivo e o esgotamento físico.

Escalações

Com Henrique se movendo entre a ponta e o centro, o Cruzeiro variava entre um 4-2-3-1 e um 4-3-1-2, com Mena dando amplitude pela esquerda e Willians ajudando Mayke pela direita, com Willian circulando

Com Henrique se movendo entre a ponta e o centro, o Cruzeiro variava entre um 4-2-3-1 e um 4-3-1-2, com Mena dando amplitude pela esquerda e Willians ajudando Mayke pela direita, com Willian circulando

Com Alisson vetado, Marcelo Oliveira surpreendeu e escolheu Willian Farias para o seu lugar. Três volantes? Mais ou menos. O time foi a campo num 4-2-3-1, mas com uma variação com a movimentação de Henrique. A meta de Fábio era defendida por Mayke à direita, Léo e Paulo André no centro e Mena pela esquerda. À frente da área Willian Farias ficava mais fixo, liberando Willians para ajudar no ataque pela direita. Henrique variava entre as funções de ponteiro e volante esquerdo, com Willian do outro lado, De Arrascaeta centralizado e Damião na frente.

O Huracán do treinador Néstor Apuzzo também entrou no 4-2-3-1. A linha defensiva do goleiro Díaz tinha Nervo e Domínguez na zaga, com Mancinelli pela direita e Balbi na lateral esquerda. Na proteção, os volantes Villaruel e Vismara davam suporte ao trio formado por Puch na ponta direita, Toranzo central e Gamarra pela esquerda. Na referência, Abila.

Entendendo o sistema

Ter jogado um clássico de alta intensidade 48 horas antes não resultou apenas no veto a Alisson. Marcelo revelou após a partida que a entrada de Willian Farias era para aliviar a barra de Willians, tendo a companhia de outros dois jogadores marcadores no centro. De fato, Henrique começou o jogo bem centralizado, tentando fechar a entrada da área. Mas logo recebia instruções de Marcelo Oliveira para marcar o avanço do lateral Mancinelli, que tinha o corredor livre.

Assim, sem a bola, o Cruzeiro se configurava num 4-2-3-1, com Henrique na ponta. Quando o Cruzeiro recuperava a bola, Henrique tentava explorar o espaço entre o centro e a ponta esquerda, participando da construção e abrindo o corredor para Mena apoiar. Do outro lado, Marcelo Oliveira dava orientações para Willian estreitar no campo e abrir o corredor para o avanço de Mayke, outro objetivo deste esquema.

Errou, pagou

Depois de uma certa pressão inicial, da qual o Cruzeiro se defendeu muito bem, o jogo passou a ficar bem equilibrado. O Cruzeiro teve boas oportunidades, mas pecava ou no último passe ou na finalização. Em suma, na fase ofensiva, faltou apenas um capricho maior.

O problema do 1º tempo foi a transição ofensiva. O Huracán tentava pressionar imediatamente após a perda da bola, inclusive fazendo várias faltas, algumas não marcadas pelo juiz. Como a que Damião sofreu antes do 1º gol. Willians até recuperou a bola, mas foi displicente e tentou driblar numa área perigosa, sem sucesso. Ainda por cima, Abila estava impedido quando o passe saiu. Fábio até conseguiu adivinhar o lado do drible, mas não conseguiu pegar a conclusão.

Errou, pagou (II)

Mesmo depois do gol, o Cruzeiro não se abateu. Continuou jogando da mesma forma, inclusive nos erros: o passe final ou a conclusão. Mas em outro erro na transição, desta vez mais coletivo, redundou no segundo gol argentino. Mena estava fora da sua posição quando o Cruzeiro perdeu a bola, fazendo Paulo André sair na cobertura pela esquerda e ficar no um contra um com Puch. O atacante do Huracán teve mérito no drible, e conseguiu achar um cruzamento para dentro da área que achou Abila, totalmente livre — nem Mayke nem Léo viram a movimentação do centroavante.

No segundo gol, erros em série: Paulo André é driblado por Puch, Mena sai na cobertura mas não impede o passe e ainda deixa o espaço para Abila receber a bola, com Mayke e Léo estáticos

No segundo gol, erros em série: Paulo André é driblado por Puch, Mena sai na cobertura mas não impede o passe e ainda deixa o espaço para Abila receber a bola, com Mayke e Léo estáticos

A partir daí, o Huracán parou de pressionar alto. Deu a bola para o Cruzeiro e se contentou em absorver a pressão. O Cruzeiro se moveu até onde suas pernas aguentavam. Teve volume, e iniciava as jogadas já no campo de ataque. Teve algumas “meias chances” de diminuir, mas não conseguiu abrir a defesa argentina com clareza até o fim do primeiro tempo.

Gabriel Xavier

Após o intervalo, o Cruzeiro voltou com Gabriel Xavier na vaga do extenuado Willians. Com isso, Henrique voltou à volância ao lado de Willian Farias, e Willian inverteu de lado para que Gabriel Xavier entrasse à direita, fazendo um 4-2-3-1 mais claro. Com o jovem meia, o Cruzeiro voltou gastando as últimas forças que tinha para recuperar o placar, e aplicou uma boa pressão inicial.

De Arrascaeta caía pelos lados mas também entrava na área, com Gabriel Xavier centralizando, abrindo o corredor pra Mayke. Posteriormente, Marcelo ordenou a inversão dos ponteiros, com Willian vindo para o lado direito, mas a dinâmica continuou a mesma: ponteiros centralizando para o lateral apoiar. Foi numa dinâmica dessas que veio o empate: Mayke subiu e cruzou, achando Gabriel Xavier dentro da área do outro lado. O meia fez a assistência pra Damião, que acabou sofrendo pênalti antes de concluir, convertido por ele mesmo.

Destruindo a reação

Fim de jogo: Cruzeiro no 4-2-3-1 mais claro, mas extenuado, tentando algo pelos flancos com Riascos e Pará, mas sem físico para marcar o 4-4-2 do Huracán

Fim de jogo: Cruzeiro no 4-2-3-1 mais claro, mas extenuado, tentando algo pelos flancos com Riascos e Pará, mas sem físico para marcar o 4-4-2 do Huracán

A postura que o Cruzeiro mostrava em campo dava a impressão de que o empate era uma questão de tempo, já que continuou tendo mais volume e iniciativa. Mas outro erro defensivo destruiu o bom momento celeste. Em uma falta boba longe da área, o Huracán optou por fazer o jogo aéreo. Em bolas paradas, o Cruzeiro faz marcação individual. Damião, que era o marcador de Mancinelli, simplesmente não acompanhou o lateral, que conseguiu chegar à bola e testar no contrapé de Fábio.

A partir daí, o cansaço finalmente bateu forte, e o Cruzeiro já não tinha mais forças para correr e abrir a defesa do Huracán. Pior, também marcava mais frouxo, perdia segundas bolas, e começou a dar espaço para o time argentino. Marcelo ainda tentou reequilibrar, com Riascos e Pará nas vagas de Willian e Mena — jogadores descansados pelos lados. Eles até conseguiram alguns cruzamentos, mas nada muito perigoso. E o setor de meio-campo ainda continuava cansado, de forma que o jogo se arrastou até o fim com o Huracán tendo a bola e controlando o jogo.

Lições e aprendizados

Falhas defensivas acontecem. Sempre aconteceram com qualquer time, e continuarão a acontecer. Certamente você se lembra daquele 0x3 para o Flamengo no Maracanã ano passado. Prova de que mesmo os times comprovadamente bem treinados e até já campeões cometem erros que culminam em derrotas. Mas isso não quer dizer que não se deva cobrar dos jogadores que cometeram essas falhas. É preciso que Marcelo corrija estes erros na transição, que é um momento muito vulnerável da equipe. Não é por acaso que a pressão alta é uma grande vedete no futebol moderno.

Além disso, é impossível desconsiderar o fator físico em qualquer análise sobre o jogo. Detratores dirão que o cansaço não é desculpa, já que o time sofreu dois gols em cinco minutos. É verdade, em erros defensivos não ocasionados pelo cansaço. Mas este aspecto interferiu diretamente na escalação, na estratégia e até o modelo de jogo da equipe. Não há como dizer que não influenciou o jogo desde o minuto 1.

Essa é a lição que se tem que tirar deste jogo. Nem vou entrar na controvérsia das datas dos jogos semifinais, que já foi muito explorada. Como já está definido que será novamente domingo, é preciso que se saiba dosar a intensidade, ainda que seja um clássico. A vantagem do empate pode pesar a favor, já que é o rival que terá que vencer para passar, e para isso terá que correr mais e propor o jogo.

Marcelo certamente sabe disso e usará esses aprendizados para tomar a melhor decisão em relação à escalação e à estratégia. Nós, torcedores, podemos discordar delas. Mas durante o jogo, devemos apoiar os onze, não importa quem sejam ou o que estão fazendo em campo.



Atlético/MG 1 x 1 Cruzeiro – Jogando de maneira Horto-doxa

O Cruzeiro foi ao Horto mais uma vez para tentar acabar com a incômoda sequência negativa sem vitórias diante do rival. E seguiu o plano à risca do início ao fim: marcar bem e jogar quando possível, correndo o mínimo de risco necessário

Acabou fazendo um jogo seguro na defesa e com boa criação ofensivamente, até sofrer o gol, e depois empatou em gol antológico de De Arrascaeta. E nem mesmo a expulsão de Leonardo Silva fez o time abandonar sua estratégia ortodoxa, quando poderia ter saído com uma vitória.

Sistemas iniciais

No 1º tempo, os dois times no mesmo esquema e estratégia: 4-2-3-1 muito cautelosos, com muita gente atrás da linha da bola na fase defensiva; no Atlético, Guilherme saía da referência para armar

No 1º tempo, os dois times no mesmo esquema e estratégia: 4-2-3-1 muito cautelosos, com muita gente atrás da linha da bola na fase defensiva; no Atlético, Guilherme saía da referência para armar

Mesmo tendo jogo já na terça-feira, Marcelo Oliveira só poupou Mayke, e mesmo assim porque ele tinha desgaste excessivo. Assim, o time foi armado no 4-2-3-1, com a linha defensiva de Fábio começando com Fabiano na lateral direita, Léo e Paulo André na zaga e Mena na esquerda. Willians e Henrique novamente fizeram a parceria na proteção, atrás de Willian à direita, De Arrascaeta centralizado e Alisson à esquerda. Na centroavância, Damião.

Levir Culpi também mandou o Atlético a campo num 4-2-3-1. Protegendo o gol de Victor estavam Leonardo Silva e Jemerson, com Marcos Rocha na lateral direita e Douglas Santos do outro lado. Josué entrou na vaga do suspenso Leandro Donizete, com Rafael Carioca a seu lado e dando suporte à linha de três meias, que tinha o ponteiro direito Luan, o central Dátolo e o ponteiro esquerdo Carlos, deixando Guilherme livre para flutuar entre o meio e o ataque, quase como um “falso nove”.

Excesso de cautela

O jogo começou com os dois times com muito receio de se exporem aos ataques adversários. Nenhum marcava agressivamente no campo de ataque, preferindo fechar os espaços a partir da linha divisória, algo que contrariava a expectativa em relação à estratégia do Atlético, já que era o mandante e tinha que inverter a vantagem. Dessa forma, os zagueiros tinham bastante tempo na bola, e às vezes ficavam tocando um para o outro tentando achar a melhor saída.

Nesse ponto, as estratégias divergiram. O Cruzeiro preferia sair pelo chão, usando bastante as laterais do campo, principalmente o lado esquerdo com Mena e Alisson. Foi numa jogada dos dois que Damião completou o cruzamento do chileno na trave, logo as 7 minutos. Já o Atlético preferia usar bolas longas e inversões de um lado a outro do campo pelo alto.

O baixo número de finalizações no 1º tempo ilustra bem a postura dos dois times: Cruzeiro (vermelho) só finalizou uma vez contra 3 do Atlético (azul)

O baixo número de finalizações no 1º tempo ilustra bem a postura dos dois times: Cruzeiro (vermelho) só finalizou uma vez contra 3 do Atlético (azul)

Festival de cartões

Isso tudo em meio a uma festa de amarelos: foram 7 entre os 10 e os 34 minutos, um a cada 3 minutos e meio. Alguns muito mal aplicados, como foi o caso de Léo e Leonardo Silva pré-escanteio. O de Léo em particular forçou Marcelo a fazer a primeira troca já no primeiro tempo, colocando Manoel na vaga de Léo para prevenir uma muito provável expulsão posterior.

A partir dessa troca, o Atlético começou a tentar pressionar o Cruzeiro logo que perdia a posse, aumentando a velocidade do jogo e forçando o Cruzeiro a quebrar a bola. Com isso, o quarteto de frente, que até então estava até razoável, sumiu do jogo, e o Cruzeiro passou a se defender apenas. Mas fazia isso com muita segurança, já que o Atlético corria muito, mas não conseguia chegar próximo da meta de Fábio.

Infelizmente, o futebol não perdoa erros, por mais raros que eles sejam. Depois que o Cruzeiro perdeu a bola no ataque, Guilherme — que frequentemente saía da posição de avante e aparecia entre as linhas — ficou sozinho no círculo central, longe dos zagueiros e dos volantes do Cruzeiro, que estavam fora de posição. Com tempo e espaço, o ex-cruzeirense conseguiu inverter para Luan do lado direito, que cruzou para uma falha geral da zaga celeste, sintetizada em Fabiano perdendo na corrida para Carlos.

No lance do gol do Atlético, Guilherme está recuado e com muito espaço pra pensar, já que os volantes Henrique e Willians (destacados) estavam fora de posição; note também os dois zagueiros do Cruzeiro sem um adversário pra marcar

No lance do gol do Atlético, Guilherme está recuado e com muito espaço pra pensar, já que os volantes Henrique e Willians (destacados) estavam fora de posição; note também os dois zagueiros do Cruzeiro sem um adversário pra marcar

Jogo segue igual

No intervalo, Marcelo Oliveira novamente fez uma troca por causa do excesso de amarelos. Promovendo a estreia de Fabrício na vaga de Mena, que travava um duelo feroz com Luan no setor esquerdo. Mas a mudança esperada não veio: a de estratégia. O Cruzeiro continuou cauteloso, sem pressionar a saída sem colocar muita gente à frente da linha da bola.

Menos mal que, em uma jogada de Willians, avançando com inteligência nos espaços deixados pelo meio-campo atleticano, passou a De Arrascaeta, que quase perdeu a bola, mas num lance de pura genialidade deu no meio das pernas de Josué e driblou outros dois defensores rivais antes de vencer Victor com um tiro cruzado. Segundo golaço do garoto uruguaio na semana.

Finalmente, algo pra mudar o jogo?

Mesmo com o gol, o jogo seguiu igual, com os dois times ainda com receio de sair muito. Alguns minutos depois do empate, Damião e Leonardo Silva se estranharam e o zagueiro acabou expulso. Até a entrada de Edcarlos na vaga de Josué, Luan preencheu o lado direito da zaga, e depois voltou ao lado direito no novo 4-4-1 de Levir, com Dátolo ao lado de Rafael Carioca. Com a bola, o Atlético se tornava um ousado 4-2-3 com o avanço dos ponteiros.

Fim de jogo: Cruzeiro num 4-2-3-1 muito paciente, diante de um Atlético postado no 4-4-1 pra segurar as ações ofensivas celestes

Fim de jogo: Cruzeiro num 4-2-3-1 muito paciente, diante de um Atlético postado no 4-4-1 pra segurar as ações ofensivas celestes

Mas o jogo seguiu igual. Se o Atlético já estava cauteloso, com um a menos se postou atrás e tentou chamar o Cruzeiro para contra-ataques. Quando recuperava a bola, também não acelerava, pois não queria ceder o contra-ataque. Marcelo então lançou mão de Gabriel Xavier, tirando Willian da partida, numa tentativa de cadenciar mais a partida e tocar com paciência, para achar os espaços que um time com um a menos e atrás no placar naturalmente cederia.

Sem ímpeto no fim

Isso aconteceu em parte, já que o Cruzeiro tocou a bola com paciência e tentando não arriscar muito no último passe. Rodou a bola, mas os jogadores da frente não se movimentaram tanto para ajudar a criar espaços. Gabriel Xavier perambulou pelo meio, De Arrascaeta subiu para dentro da área e deixou o primeiro passe para os volantes. Não foi suficiente para entrar nas duas linhas do Atlético. Após a expulsão, o Cruzeiro só conseguiu dois chutes de fora da área e nada mais.

Já quando o Atlético recuperava a bola, o Cruzeiro não pressionava no alto do campo, o que era até compreensível, mas também não pressionava o homem da bola na intermediária defensiva. Os jogadores rivais conseguiam ter a bola em zonas bem próximas da área de Fábio, conseguindo faltas e escanteios perigosos. Felizmente, a equipe da casa nada conseguiu, e estava decretado mais um empate em clássicos pelo Campeonato Mineiro. Já são 5 nos últimos dois anos.

Dois lados de um tabu

É claro que o tabu de não vencer clássicos incomoda a torcida. Após o jogo choveram críticas de muitos torcedores, principalmente em relação à postura do time após a expulsão de Leonardo Silva. Apesar de exageradas, as críticas tem certo fundamento, pois a impressão que fica é que se o Cruzeiro tivesse arriscado um pouco mais teria conseguido sair do Horto com uma vitória.

Por outro lado, há muitas razões pelas quais o Cruzeiro não quis se arriscar. Além de ter a vantagem no confronto por ter melhor campanha, era um jogo na casa do rival, com a totalidade da torcida contra. Isso sem falar que o Cruzeiro jogará em menos de 48 horas na Argentina pela Libertadores, uma partida que é sim muito importante, mesmo que a classificação para as oitavas já esteja bem encaminhada.

Isto posto, é seguro dizer que esta foi uma das melhores partida do Cruzeiro no Independência, desde que os clássicos passaram a ter mando em 2013. Defensivamente foi uma equipe bem sólida, exceção feita ao erro coletivo que resultou no gol do rival. Com a bola, considerando a estratégia, foi razoável, criando boas oportunidades nos primeiros minutos. A única ressalva é em relação à postura após a expulsão, defensiva e ofensivamente.

Marcelo falou na coletiva que foi o primeiro clássico em que o Cruzeiro não foi dominado no Independência. De fato. E é um bom indício de que a sequência negativa diante do rival tem tudo pra terminar no fim de semana que vem.



Cruzeiro 3 x 0 Mineros – Igual mas diferente

Muito mais intenso do que nas outras partidas do ano, o Cruzeiro fez transparecer a diferença técnica entre ele e o time do Mineros e conseguiu uma vitória categórica. A surpreendente estratégia do time venezuelano de marcar no alto do campo atrapalhou no início, mas o Cruzeiro soube construir o placar rapidamente para lidar com isso com mais tranquilidade.

Tudo isso usando o mesmo esquema tático e praticamente os mesmos jogadores da derrota para o Tombense, inclusive no mesmo posicionamento referencial, com De Arrascaeta centralizado.

Esquemas de partida

No início, ambos os times no 4-2-3-1, com o Cruzeiro se mexendo bem no ataque e tendo problemas na saída de bola com a pressão alta que o Mineros surpreendentemente fazia, com Valyes e Blanco

No início, ambos os times no 4-2-3-1, com o Cruzeiro se mexendo bem no ataque e tendo problemas na saída de bola com a pressão alta que o Mineros surpreendentemente fazia, com Valyes e Blanco

Marcelo Oliveira insistiu no 4-2-3-1, com Damião à frente do central De Arrascaeta e Alisson e Willian pelos lados. No suporte, Henrique teve a volta de Willians, e a linha defensiva tinha Mayke e Mena pelas laterais, com Léo e Paulo André logo à frente do gol de Fábio.

O time venezuelano do técnico Marcos Mathias também veio a campo num 4-2-3-1. O gol de Romo foi protegido por Vallenilla na lateral direita, Matos e Machado na zaga e Cíchero na esquerda. Na entrada da área estavam os volantes López e Jiménez, e mais à frente estava Peña de ponteiro direito, Cabello pela esquerda e Blanco centralizado, atrás do centroavante Valoyes.

Um início diferente

O esperado era que o Mineros se fechasse em duas linhas e marcasse a partir do meio-campo, mas não foi isso o que aconteceu. Marcos Mathias mandou seus jogadores pressionarem a saída de bola com os zagueiros do Cruzeiro, forçando a quebra de bola. O Cruzeiro teve alguma dificuldade na transição para o campo de ataque, e em um momento Willian teve de entrar entre os zagueiros pra fazer a saída de 3 e sair da pressão dos dois avançados do Mineros, Blanco e Valoyes.

Porém, quando a bola chegava ao campo de ataque, o Cruzeiro finalmente teve a mobilidade e a intensidade que tanto cobrávamos, principalmente com De Arrascaeta, Alisson e Damião. O uruguaio aparecia dos dois lados, no centro e dentro da área; Alisson frequentemente centralizou no campo e até foi pro outro lado; e Damião saía da área constantemente pra ajudar na construção. Assim, aos poucos, o Cruzeiro foi apertando o Mineros contra sua própria área, com Henrique e Willians recuperando bolas já no campo de ataque e participando do reinício da fase ofensiva.

Dois golpes rápidos

O lance do primeiro gol tem tudo isso. Alisson na esquerda, De Arrascaeta na direita e Willian central, todos bem próximos. Willians recebe um passe de retorno e já passa a Alisson, que manda de letra para Mayke que estava passando para o apoio pela direita. O cruzamento foi bloqueado, mas Mayke disputou no ar e conseguiu mandar pra área, onde estava De Arrascaeta sozinho pra marcar um golaço de bicicleta.

O ínicio da jogada do 1º gol: Cruzeiro atacando com 8 jogadores, os dois laterais dando amplitude e o quarteto ofensivo bm próximo e com posições invertidas: de Willians para Alisson para Mayke para De Arrascaeta para o gol.

O ínicio da jogada do 1º gol: Cruzeiro atacando com 8 jogadores, os dois laterais dando amplitude e o quarteto ofensivo bm próximo e com posições invertidas: de Willians para Alisson para Mayke para De Arrascaeta para o gol.

Nem bem a torcida comemorava, o Cruzeiro já fazia o segundo. Mena vai cobrar um lateral e tem Alisson e Damião próximos e fora da área, o que puxou a marcação para o lado esquerdo. O outro zagueiro do Mineros não compactou lateralmente e um espaço se abriu entre os dois defensores, que Jiménez não cobriu. Foi justamente onde Damião colocou a bola para fuzilar no ângulo contrário de Romo.

Já no gol de Damião, a marcação do Mineros se concentrou em um lado e abriu um buraco no meio, já que o outro zagueiro não compactou lateralmente. Foi justamente o local de onde partiu o chutaço de Damião

Já no gol de Damião, a marcação do Mineros se concentrou em um lado e abriu um buraco no meio, já que o outro zagueiro não compactou lateralmente. Foi justamente o local de onde partiu o chutaço de Damião

Mesmo com a vantagem construída rapidamente, o Cruzeiro não diminuiu o ritmo. Continuou tendo a iniciativa do jogo, com a bola nos pés, tentando marcar o terceiro. Já o Mineros já não se arriscava tanto na pressão alta, talvez temendo uma goleada e mesmo assim, o Cruzeiro continuou tendo problemas na transição ofensiva, cedendo contra-ataques perigosos.

Intervalo

A sensação era que tinha sido o melhor primeiro tempo do Cruzeiro no ano, e não foi à toa que o time voltou dos vestiários sem nenhuma modificação. Já o Mineros voltou sem Vallenilla, que já havia recebido um amarelo que poderia ser muito bem um vermelho. O zagueiro Velásquez entrou no seu lugar e Matos foi para a lateral direita.

O Cruzeiro teve o mesmo onze, mas diminuiu o ritmo no ataque, tentando fazer uma saída de bola mais cautelosa e menos arriscada. Mas não deixou de se movimentar e aplicar intensidade na hora certa, como na jogada pela direita que envolveu Willian, Willians e Mayke. Aproximação, toques rápidos e Mayke aparecia na frente para dar uma meia-lua no zagueiro, mas infelizmente cruzar errado. Um pequeno lampejo do futebol de 2013/14.

Outras trocas

No fim, Cruzeiro apenas administrou a grande vantagem, com Gabriel Xavier fazendo bons minutos pela direita

No fim, Cruzeiro apenas administrou a grande vantagem, com Gabriel Xavier fazendo bons minutos pela direita

Vendo que nada ia mudar, Marcos Mathias trocou Peña pelo volante Acosta, que saiu sinalizando pra todo mundo. O time do Mineros mudou para um 4-1-4-1, com Jiménez atrás de uma linha formada por, Valoyes, Cabello, Acosta e López, com Blanco à frente. Parecia que ia funcionar, já que logo após a troca aconteceu uma das três únicas finalizações do Mineros na etapa final (a única certa). Mas logo o jogo assentou novamente e o Cruzeiro continuou com o controle total da partida.

Marcelo trocou Willians por Seymour, prevenindo uma possível expulsão já que o volante estava amarelado, e também Willian por Gabriel Xavier, fazendo a linha de 3 que muita gente pedia: Gabriel Xavier à direita, De Arrascaeta central e Alisson à esquerda. O esquema continuou sendo o 4-2-3-1.

Mal o chileno havia entrado em campo e o Cruzeiro fez o terceiro com Henrique cabeceando um escanteio — uma rara bola parada que funcionou este ano. A partida terminou de vez ali. O atacante Cabezas ainda entrou no lugar de Cabello, com López voltando ao centro do meio-campo e Blanco ocupando o flanco esquerdo, e no Cruzeiro, Alisson deu seu lugar a Joel, mas nada de mais interessante aconteceu na partida, exceção feita à caneta de Gabriel Xavier e ao chapéu de De Arrascaeta no finzinho que deveria ter terminado em gol.

Com intensidade, tudo dá

Quem acompanha esta coluna sabe que o diagnóstico detectado não era o sistema nem a posição de De Arrascaeta, mas sim a falta de mobilidade e intensidade na fase de organização ofensiva. Isso porque o Cruzeiro jogou só contra defesas bem fechadas quando era visitado no Mineirão, e para abrir espaços nessas defesas, é preciso se mexer.

Foi o que aconteceu na quarta. Os mesmos onze jogadores — com Willian na vaga de Judivan, no mesmo esquema tático e nos mesmos posicionamentos iniciais, fizeram um jogo bem diferente da derrota para o Tombense. De Arrascaeta e Alisson se mexiam bastante, Damião foi intenso como vem sendo sempre durante todo o ano. Além disso, a presença de Willians no meio contribuiu para a solidez do meio-campo e para a manutenção da bola no campo de ataque, importante para um time que quer se impor em casa.

Muitos podem argumentar que o Mineros é fraco, e por isso o Cruzeiro venceu com facilidade. É verdade, mas a “facilidade” (entre aspas porque nunca é realmente fácil) só aparece quando o time que é teoricamente superior joga perto do seu máximo. Aí a diferença no placar aparece. Foi 3×0, mas poderia ter sido mais se o Cruzeiro não tivesse desacelerado na segunda etapa.

Mais do que encaminhar a classificação, a vitória sobre o Mineros dá confiança. Que este jogo seja o marco zero da arrancada para o tricampeonato.



Cruzeiro 1 x 2 Tombense – Já era hora

Demorou pra acontecer. O Cruzeiro já mostrava dificuldade em superar as retrancas que os visitantes armam no Mineirão, mas conseguia pelo menos se defender bem, sofrendo poucos gols e conseguindo empates. Contra o Tombense, até trabalhou razoavelmente com a bola para abrir o placar, mas depois a já escassa mobilidade do time cessou.

Some-se a isso os graves problemas defensivos, ocasionados pela distância entre os volantes e a linha defensiva, além do mérito do adversário em explorar exatamente essas falhas, e temos a primeira derrota do Cruzeiro na temporada.

Esquemas iniciais

No início, o 4-2-3-1 Cruzeiro até teve certa mobilidade e controle, mas com o meio e a defesa longe, diante de um Tombense postado no 4-4-2 em linhas e que pressionava só a partir dos volantes celestes

No início, o 4-2-3-1 Cruzeiro até teve certa mobilidade e controle, mas com o meio e a defesa longe, diante de um Tombense postado no 4-4-2 em linhas e que pressionava só a partir dos volantes celestes

Sem Marquinhos, Marcelo Oliveira optou por Judivan na função de ponteiro direito do seu fiel 4-2-3-1, com De Arrascaeta pelo centro e Alisson na esquerda atrás de Damião. Na proteção, Charles e Henrique faziam uma dupla leve e de bom passe, à frente dos zagueiros Manoel e Paulo André, com Mayke e Mena nos flancos. Todos capitaneados pelo goleiro Fábio.

Júnior Lopes, o treinador do Tombense, armou seu time num 4-4-2 britânico, ou seja, em duas linhas: a linha defensiva do arqueiro Warley tinha Gedeílson pela direita, Heitor e Alexandre no miolo e Anderson pela esquerda; a segunda linha tinha Betinho e Jonatan pelas pontas, com os volantes Coutinho e Mateus no centro. Na frente, Rafael Pernão e Jean.

Movimentação até fazer o gol

A escalação de Charles e Henrique era uma tentativa de melhorar a saída de bola e o suporte à organização ofensiva, já que os dois tem bom passe e se alternariam na subida ao ataque. Isso aconteceu em parte, e nos primeiros minutos o Cruzeiro teve até uma saída de bola razoável, com exceção do passe errado de Manoel para De Arrascaeta que o volante Mateus interceptou, para avançar e finalizar em Fábio.

Além disso, De Arrascaeta se mexeu um pouco mais no início, aparecendo pela esquerda e pela direita do ataque, ainda que os ponteiros Judivan e Alisson não ocupassem o setor central em troca. A jogada do primeiro gol é um exemplo: o uruguaio vai até o setor direito para ajudar Mayke, Judivan e Alisson, que naquele momento estava do outro lado, contra quatro defensores. Troca rápida de passes e De Arrascaeta acha Alisson sozinho na frente, forçando a cobertura a sair da área para dar combate. Bastou um drible e veio a assistência para mais um gol de Damião.

Cobertor curto

Mas, como sempre no futebol, se você investe num lugar tem que ceder em outro, afinal são sempre 11 jogadores. Com Henrique e Charles mais voltados a participar da construção, a parte defensiva, que tanto vinha bem neste ano, deixou a desejar. Muito provavelmente a falta de entrosamento especificamente entre os dois tenha atrapalhado, já que em vários momentos ambos avançavam simultaneamente e desguarneciam a última linha.

Dessa forma, o time de Tombos, que já estava numa postura reativa, esperando uma oportunidade para sair em contra-ataques, teve o espaço que queria. Não foi surpresa, portanto, que o passe que iniciou a jogada do gol de empate tenha sido do volante Coutinho, já que Henrique e Charles estavam avançados demais. Ele passou a Rafael Pernão, mas Paulo André fez a leitura e foi pra cobertura, atrasando a jogada e dando tempo para a defesa se recompor. No entanto, isso não aconteceu, pois Charles se preocupou com o jogador dentro da área e Henrique nem voltou. Jonatan recebeu sozinho na entrada da área para empatar.

Excesso de tranquilidade?

A impressão que ficou da primeira etapa é que o Cruzeiro estava numa espécie de letargia pós-gol. Trabalhou com certa preguiça até abrir o placar e depois parou totalmente de vez de se movimentar. Tirando um chute numa jogada individual de Alisson e o gol de Damião, o Cruzeiro pouco ameaçou. Talvez, com o time já classificado no estadual e já pensando no jogo contra o Mineros pela Copa Libertadores, os jogadores naturalmente não mostrassem tanto afinco. Não pode ser desculpa.

Depois do intervalo, a equipe melhorou ligeiramente com Gabriel Xavier pela direita e Marcos Vinícius no centro, mas não o suficiente pra criar chances; problemas defensivos continuaram

Depois do intervalo, a equipe melhorou ligeiramente com Gabriel Xavier pela direita e Marcos Vinícius no centro, mas não o suficiente pra criar chances; problemas defensivos continuaram

Na coletiva, Marcelo citou muitas vezes que “faltou espírito de luta, de competição”. Segundo ele, foi por isso que voltou do vestiário com Gabriel Xavier e Marcos Vinícius nas vagas de Judivan e De Arrascaeta. Marcos Vinícius jogou pelo centro, e Gabriel Xavier o setor direito. A ideia era dar mais mobilidade ao time, e quem sabe aumentar a competitividade.

Um pouco melhor, mas igualmente ruim

As trocas deram uma movimentação um pouco melhor com a bola, já que Gabriel e Marcos se procuravam e tentavam aproximações, sem ainda ser suficiente pra abrir a defensa adversária. Tanto que o lance mais perigoso foi uma bola longa para Gabriel Xavier, que conseguiu dominar já colocando na frente para finalizar. Mandou por cima.

Os problemas defensivos, porém, continuaram. No primeiro contra-ataque da equipe de Tombos, uma falha defensiva generalizada: Alisson não percebe Gedeílson passando às suas costas e não o acompanha, além dos volantes mais uma vez estarem demasiadamente avançados, deixando a última linha em inferioridade numérica. Ainda houve tempo para recuperação, e a defesa ficou no mano a mano, mas Henrique não prestou devida atenção em Coutinho, que infiltrou e virou o placar.

Na jogada do 2º gol do Tombense, várias falhas permitiram que o adversário atacasse a última linha com superioridade numérica; a defesa ainda conseguiu se recompor, mas Henrique largou a marcação de Coutinho, o autor do tento

Na jogada do 2º gol do Tombense, várias falhas permitiram que o adversário atacasse a última linha com superioridade numérica; a defesa ainda conseguiu se recompor, mas Henrique largou a marcação de Coutinho, o autor do tento

Última cartada

No fim, Cruzeiro totalmente à frente, com Joel entrando na área e Marcos Vinícius armando de trás; Tombense fechou o centro e segurou o resultado, quase marcando o 3º num contra-ataque 4 contra 1

No fim, Cruzeiro totalmente à frente, com Joel entrando na área e Marcos Vinícius armando de trás; Tombense fechou o centro e segurou o resultado, quase marcando o 3º num contra-ataque 4 contra 1

Imediatamente após o gol, Marcelo gastou sua última troca, tirando Charles da partida para lançar Joel. Com isso, Marcos Vinícius era o responsável por qualificar a saída, com Joel entrando na área e Gabriel Xavier circulando entre a direita e o centro. Ficou bem exposto, mas o Tombense recuou as linhas e parou de sair em contra-ataques.

Num dos primeiros lances após o gol, Marcos Vinícius chutou de fora, o goleiro Warley deu rebote nos pés de Gabriel Xavier, que chutou em cima do goleiro novamente. Parecia que o time ia tomar conta, mas foi talvez o lance mais perigoso do Cruzeiro na etapa final. O time celeste finalizou muitas vezes, mas quase sempre de muito longe e sem perigo.

Já perto do fim, Júnior Lopes trocou Jean e Jonatan por Daniel Amorim e Lucas Silva. O Cruzeiro, sem substituições a fazer, se lançou de vez ao ataque, sintetizado na entrada de Paulo André na área com bola rolando, ao invés de bolas paradas como é mais comum. Bastou um erro para deixar Mayke, o último defensor, sozinho contra quatro jogadores. Pra sorte do Cruzeiro, Mayke conseguiu afastar.

Depois, o treinador do Tombense fechou o time de vez com Djair na vaga de Pernão, trancando o meio. Ainda houve tempo para um chute de Joel, mas o camaronês mandou na trave a chance de evitar o primeiro revés da temporada — que, convenhamos, já devia ter chegado antes.

Todos os 20 jogadores de linha na mesma imagem: Cruzeiro desesperado, totalmente à frente, em vias de sofrer um contra-ataque: quatro jogadores contra Mayke, que conseguiu evitar o gol

Todos os 20 jogadores de linha na mesma imagem: Cruzeiro desesperado, totalmente à frente, em vias de sofrer um contra-ataque: quatro jogadores contra Mayke, que conseguiu evitar o gol

E agora?

A grande verdade é que o Cruzeiro jogou a mesma coisa que jogou nos outros jogos. Só que desta vez teve falhas defensivas graves que foram bem aproveitadas pelo adversário. Tanto que foi o primeiro jogo do ano em que o Cruzeiro sofreu mais de um gol — não por acaso, foi a primeira derrota.

A aproveitamento no Mineirão é ruim, mas tem explicação: todos que visitaram o Cruzeiro se fecharam na defesa, inclusive o Atlético Mineiro. E o Cruzeiro atual ainda tem imensa dificuldade em entrar nessas defesas bem postadas. O time ainda é estático demais, com jogadores muito presos aos seus respectivos setores.

Esse é o diagnóstico: falta mobilidade. Nem é preciso muita, como prova o solitário gol da derrota. Muitos sugerem troca de posição de De Arrascaeta, ou mesmo a troca do esquema. Pode funcionar, desde que isso faça com o que o time tenha mobilidade. Se trocar peças, ou de esquema, mas não se mexer, vai continuar tendo dificuldade em destravar estes ferrolhos.

Na quarta-feira, mais uma vez um visitante vai se fechar no Mineirão. Marcelo já sinalizou o time titular, no 4-2-3-1, com De Arrascaeta central e Willian pela direita. Novamente será um jogo para se ter paciência, mas a movimentação tem que aparecer.

Torçamos para que o time, pelo menos, tenha mais espírito de luta.