Cruzeiro 2 x 3 Atlético/MG – “Olha eu aí!”

"Coluna dois! Ih! Olha eu aí!"

“Coluna dois! Ih! Olha eu aí!”

Antes de mais nada, sei que o jogo já passou e é hora de olhar pra frente. Por isso, este texto chega com algum atraso. Mas ele é também uma resposta aos que dizem que não há textos nas derrotas. Ora, também deixei de escrever em algumas vitórias, pois como já expliquei antes, a questão não é o resultado do jogo e sim o tempo que disponho para digitar minhas observações. Isto posto, sigamos.

O futebol é um jogo de imposição de estilos. Uma frase famosa no futebol, que o Google me diz ter sido dita por Sepp Herberger, técnico da Alemanha campeã em 1954. Mas o que Sepp não disse é que nem sempre o estilo que se impõe sai de campo vencedor. E o que se viu no Mineirão do último domingo foi exatamente isso: o domínio de uma equipe sobre a outra, se impondo e obrigando o rival a se defender como um time pequeno do interior, mas cometendo erros que foram bem aproveitados pelo adversário.

Pela postura, pela estratégia e pela imposição de um time sobre o outro — e até mesmo pelo padrão monocromático preferido pela roupagem do rival — nada mais justo e descritivo do que classificar o resultado como a mais clássica zebra. O título do texto é uma homenagem a isso.

Escalações

Cruzeiro no 4-2-3-1 de sempre, sendo forçado a sair pelos lados por conta do bloqueio dos atacantes rivais aos volantes; Atlético acuado em duas linhas de quatro

Cruzeiro no 4-2-3-1 de sempre, sendo forçado a sair pelos lados por conta do bloqueio dos atacantes rivais aos volantes; Atlético acuado em duas linhas de quatro

Marcelo Oliveira não fez nenhuma mudança em relação ao time esperado: um 4-2-3-1 com dois laterais ofensivos e dois volantes construtores. Do gol, Fábio teve sua linha formada por Mayke e Egídio nos flancos, com Dedé e Léo na área. Henrique e Lucas Silva comandaram a ligação para o trio de meias formado por Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Alisson, com Moreno na referência comandando a pressão alta.

Levir Culpi tentou surpreender, e no papel o Atlético só tinha um volante, mas na prática, fez um 4-4-2 britânico, ou seja, em duas linhas. O gol de Victor foi protegido pelos zagueiros Léo Silva e Jemerson, com Marcos Rocha na direita e Émerson Conceição na esquerda. A segunda linha tinha o já citado volante, Leandro Donizete, mas com Dátolo a seu lado, jogando por dentro, e com os flancos cobertos por Luan à direita e Carlos à esquerda. Na frente, Guilherme e Diego Tardelli.

Imposição de estilos

Continuando a velha mania da mídia em geral de dar a informação sem observar, os repórteres de campo bradavam que Levir “foi ousado” e que “iria pra cima” do Cruzeiro. Ledo engano. Como lhe é característico, o Cruzeiro tomou as rédeas da partida e já mandou uma bola no travessão logo aos dois minutos, com Alisson completando bela linha de passe. Um lance que resume bem como seriam os 90 minutos de jogo.

O Atlético até tentava ficar com a bola, mas a marcação do Cruzeiro no campo de ataque era excelente, forçando o erro rival, e logo a bola voltava aos pés celestes. Assim, praticamente durante todo o tempo, Guilherme e Diego Tardelli ficavam vendo os zagueiros celestes trocarem passes, sem subir a pressão, se limitando a fechar as linhas de passe para Lucas Silva e Henrique. Isso forçava o jogo do Cruzeiro pelos lados, o que acabou não sendo um problema, pois Mayke e Egídio conseguiam levar a melhor contra Luan e Carlos. E assim o Cruzeiro chegava com facilidade até as proximidades da área rival, mas faltava maior capricho no último passe e na hora de finalizar.

Sequência de erros

E justamente quando o gol celeste parecia madurinho, o Atlético conseguiu seu primeiro gol na sua primeira chance real. Com a jogada transcorrendo do lado esquerdo, Mayke corretamente se aproximou do centro para compactar o time lateralmente, deixando o espaço do lado direito descoberto. Émerson Conceição foi até lá e normalmente teria a companhia de Éverton Ribeiro, o ponteiro direito que acompanha o lateral. Só que Éverton também estava pelo centro e teve que correr uma grande distância para tentar bloquear o cruzamento: primeiro erro. Não foi suficiente, e o cruzamento saiu. Na disputa na área, Léo perde para Luan, muito mais baixo e franzino: segundo erro. E no rebote, Éverton Ribeiro se esqueceu de voltar e habilitou a posição de Carlos, que completou à queima-roupa: terceiro erro.

Talvez por saber que parte da culpa pelo gol foi dele, Éverton Ribeiro se enrolou na saída de bola, tentou um drible em uma posição perigosa do campo e perdeu a bola, gerando um contra-ataque bem executado, em passe de Dátolo para Tardelli já dentro da área. A transição ofensiva é o pior momento para uma equipe perder a posse, pois o pega o time saindo para o ataque, com os jogadores naturalmente saindo de suas posições defensivas. Quando acontece isso, gera um “contra-contra-ataque”, e os jogadores tem que interromper a corrida para a frente e mudar a direção, para voltar e recompor.

Voltando pro jogo

Em clássicos, normalmente um dois a zero contra é quase decisivo. Da forma como foi, mais ainda, pois foram dois gols em sequência quando o Cruzeiro era absolutamente melhor. Geralmente o time fica abalado, mas o Cruzeiro pareceu ignorar isso e continuou jogando como se o placar estivesse em branco. Seguiu com mais posse, rondando a área e chutando mal, exceto na jogada de Éverton Ribeiro, se redimindo em parte pelos erros. Ele achou Goulart sozinho em cima da linha do gol, para diminuir ainda no primeiro tempo, e fazer o Cruzeiro voltar ao jogo com muita naturalidade.

Não houve nenhuma mudança no intervalo, nem de peças, nem de estratégia e nem de estilo. O Cruzeiro continuou se impondo, mas foi muito mais perigoso e incisivo, empatando a partida logo no início com Alisson se descolando de Marcos Rocha, e depois criando uma profusão de chances. Alisson mandou na trave, Moreno mandou por cima um cruzamento da Mayke, que também teve sua chance em cabeceio livre, mas que mandou nas mãos de Victor. Um pouquinho só a mais de capricho nas conclusões teria decidido o jogo já no meio do segundo tempo a favor do Cruzeiro.

Mudanças

Depois do empate, o Atlético mudou para um 4-2-3-1 que acabou não mudando o panorama; Cruzeiro manteve o 4-2-3-1 e pressionou até perto do fim, quando pareceu ter se cansado de chutar tanto a gol

Depois do empate, o Atlético mudou para um 4-2-3-1 que acabou não mudando o panorama; Cruzeiro manteve o 4-2-3-1 e pressionou até perto do fim, quando pareceu ter se cansado de chutar tanto a gol

Após o empate, Levir viu seu time acuado e tentou fazer algo. Aproveitando uma lesão de Luan, mudou para um 4-2-3-1 com Josué ao lado de Donizete e atrás de Carlos à direita, Dátolo centralizado e Guilherme na esquerda, com Tardelli sendo o único centroavante. Depois, sabendo da deficiência defensiva de Guilherme, reforçou a marcação do lado esquerdo com Douglas Santos na lateral esquerda na vaga de Émerson Conceição. Já no Cruzeiro, Marcelo Oliveira mandou Dagoberto a campo na vaga de Alisson, lesionado, sem alterar o sistema mas colocando ainda mais verticalidade. Levir então respondeu com Eduardo na esquerda, mandando Carlos de volta para o lado direito e tirando Guilherme de campo.

Mesmo com tudo isso, o panorama não se alterava. O terceiro gol celeste parecia certo, uma questão de tempo. Marcelo lançou Borges, o melhor pivô do mundo, na vaga de Moreno, e a troca teria sido celebradíssima se Dagoberto convertesse em gol a jogada que construiu com seu antigo parceiro, numa jogada típica de Borges: costas para o adversário, toque de lado para achar o jogador na corrida e deixá-lo em ótima posição para chutar ou cruzar. Dagoberto perdeu um gol que não costuma perder.

Pareceu ser a última cartada do jogo. Talvez por cansaço, o Cruzeiro continuava com a bola mas já não ameaçava tanto a meta de Victor. O time rival conseguiu respirar um pouco e voltou a ameaçar em contra-ataques. Primeiro com Tardelli pela direita — em mais um drible errado de Éverton Ribeiro e que foi o estopim da substituição por Willian. A bola foi rebatida pela zaga e rebote atleticano foi desviado para escanteio. Mas no segundo, Leandro Donizete, com liberdade, achou um cruzamento para Carlos que, também sem marcação, cabeceou no canto oposto de Fábio e decretou o resultado final. Coisas do futebol.

Merecimento e justiça

Quem acompanha o blog sabe que sempre digo que não acredito em resultados injustos. Se o Cruzeiro se impôs, chutou mil bolas ao gol e não venceu, é porque foi incompetente na hora de concluir. E pior: cometeu erros que o rival aproveitou muito bem, com conclusões mais precisas do que as celestes. Por isso, a justiça do futebol é a da bola na rede.

Merecimento, entretanto, é algo diferente. Não que o Atlético não tenha merecido ganhar, pois fez um de seus melhores jogos num período recente, e também teve sorte com as duas bolas na trave. Mas o Cruzeiro, pelo que jogou na partida, pela forma como se impôs num clássico (que sabemos ser um jogo diferente), acuando o time rival em sua própria área, algo incomum para uma partida como essa — por causa disso tudo, o Cruzeiro não merecia perder. Infelizmente, aquele terceiro gol, que parecia certo, não saiu. Se Cruzeiro e Atlético jogassem assim cem vezes, o Cruzeiro sairia vencedor em oitenta.

A linha do tempo mostra: Cruzeiro se impondo durante os 90 minutos com muitas finalizações e Atlético com poucas chances, acuado mas mais eficiente

A linha do tempo mostra: Cruzeiro se impondo durante os 90 minutos com muitas finalizações e Atlético com poucas chances, acuado mas mais eficiente

E é nessa última parte que fica a boa impressão. Perder um clássico é sempre ruim, mas nesse caso, pareceu um pouco menos pior. Porque o futebol que o Cruzeiro mostrou, ainda que com os erros nas finalizações e na marcação do adversário, é suficiente para vencer a maioria das partidas e caminhar rumo ao título.

Ou seja: como defendo sempre, no longo prazo, a qualidade do futebol é mais importante que o resultado. E por essa ótica, o Cruzeiro ganhou de goleada.



Cruzeiro 2 x 0 Atlético/PR – Nada mudou

Começo este texto pedindo desculpas ao leitores por ter deixado passar a análise da partida contra o São Paulo no Morumbi. Como acontece de vez em quando, a vida nos atropela e temos que priorizar umas coisas sobre outras, e o Constelações acaba por ser preterido. Mas se você quiser ler boas análises a respeito daquela partida, acesse o blog Olho Tático, de André Rocha, ou então o blog Painel Tático, de Leonardo Miranda. Não são blogs exclusivos sobre o Cruzeiro e nem tem o estilo prolixo que é a marca do Constelações, mas não é por isso que deixam de ser ótimos textos.

Para recuperar-se da derrota para o perseguidor mais próximo, era imperativo ao Cruzeiro não só vencer o Atlético/PR em casa, como também fazer um bom jogo e mostrar que o revés foi só um pequeno obstáculo e não o início de uma oscilação. E depois de uma primeira etapa um pouco travada, principalmente pela rigidez ofensiva ao invés da fluidez costumeira, o Cruzeiro melhorou no segundo tempo e venceu com certa facilidade. Mesmo porque, quase não teve trabalho defensivamente.

Escalações

Os alas do 3-4-1-2 paranaense eram forçados a recuar, dando espaços para os laterais do 4-2-3-1 celeste, que por sua vez teve pouca intensidade na frente

Os alas do 3-4-1-2 paranaense eram forçados a recuar, dando espaços para os laterais do 4-2-3-1 celeste, que por sua vez teve pouca intensidade na frente

Marcelo Oliveira teve Henrique e Egídio de volta, mas não pôde contar com Goulart, suspenso. Assim, o goleiro Fábio teve sua linha defensiva formada por Mayke à direita, Dedé e Léo no meio e Egídio à esquerda. Henrique e Lucas Silva faziam a proteção e apoiavam o trio formado por Éverton Ribeiro pela direita, Júlio Baptista centralizado e Alisson pela esquerda. Na frente, o flecheiro Marcelo Moreno.

Já o Atlético/PR de Claudinei Oliveira inovou: tentou parar o líder em sua casa usando uma linha de três zagueiros. A meta de Weverton era protegida pelo trio de defensores Gustavo à direita, Cléberson no centro e Willian Rocha à esquerda. Os alas Sueliton e Natanael se alinhavam aos volantes Deivid e João Paulo, com Marcos Guilherme na ligação procurando os avantes Marcelo e Douglas Coutinho. No papel era um 3-4-1-2, mas não foi isso o que aconteceu, como veremos à frente.

O velho problema

Quem acompanha o blog sabe que vira e mexe bato nessa tecla. Um sistema com linha defensiva de três homens não funciona contra uma equipe que jogue com dois ponteiros abertos e um único centroavante, pois a marcação fica indefinida pelos lados. Os alas ficam em um dilema: se voltam para marcar os ponteiros, a linha de três se transforma em linha de cinco, o centroavante fica com dois na sobra: excesso em um setor significa falta em outro setor do campo, significando perda de posse de bola. Caso os alas permaneçam altos para marcar o avanço dos laterais adversários, aí a defesa fica no mano a mano contra o centroavante e os ponteiros, além de abrir vários buracos nos setor devido às distâncias que os zagueiros tem que percorrer.

O time paranaense escolheu voltar com os alas, o que significou muita liberdade para Mayke e Egídio avançarem. Os volantes até tentavam fazer a cobertura com movimentação lateral, mas como o Cruzeiro tinha mais meio-campistas centrais (três contra dois) conseguia tocar a bola com facilidade. Com isso, a estatística de posse de bola do Cruzeiro bateu na casa dos 80% em um dado momento do jogo.

Pouca mobilidade

Mas, se o Cruzeiro chegava fácil até a intermediária, passar dali era bem mais complicado. Éverton Ribeiro até que tentou se mexer e dar intensidade, tentando aparecer em outros setores que não o direito. Mas seus companheiros não o acompanhavam: Júlio Baptista jogava quase como um segundo atacante, ficando muito avançado quase todo o tempo e sempre na faixa central; Alisson, por sua vez, combinou bem com Egídio, foi intenso e veloz, mas não saiu do lado esquerdo. Com os meias estáticos, a marcação do Atlético/PR era facilitada.

Mesmo assim, o time celeste conseguiu abrir o marcador num lance de Alisson. E o gol fez o jogo mudar. O Atlético/PR desfez o sistema e mudou para duas linhas de quatro: os três zagueiros se “moveram” para a esquerda para acomodar o recuo oficial de Sueliton, deixando Natanael pela esquerda na segunda linha, também composta pelos dois volantes e Marcos Guilherme. Um clássico 4-4-2 em linha, que foi suficiente para diminuir o domínio sobre a bola do Cruzeiro, mas não para atacar com qualidade.

Júlio por Willian

Já depois do primeiro gol,  o Atlético/PR voltaria a ter defesa com 4 homens, e assim foi até o final; Cruzeiro só saiu do 4-2-3-1 bem no finzinho com Nilton entre as linhas

Já depois do primeiro gol, o Atlético/PR voltaria a ter defesa com 4 homens, e assim foi até o final; Cruzeiro só saiu do 4-2-3-1 bem no finzinho com Nilton entre as linhas

No intervalo, Júlio Baptista seria substituído por Willian, por lesão sofrida ainda no primeiro tempo. Mas calhou de a substituição ter dado outra cara ao Cruzeiro: Willian foi pra direita, centralizando Éverton. Alisson permaneceu do lado esquerdo. Apesar de ser da opinião de que Éverton rende mais partindo da direita, nesse caso específico foi bom, pois deu ao Cruzeiro o que faltava no setor central: intensidade, tanto ofensiva quanto defensiva. Os três meias se aproximavam e trocavam passes rápidos, lembrando muito os bons momentos do Cruzeiro de 2013.

O aspecto que acabou gerando o segundo gol, no entanto, foi a intensidade aplicada na marcação alta. Em um trabalho conjunto dos quatro homens de frente, o Cruzeiro forçou o erro da defesa do Atlético/PR, a bola sobrou pra Moreno que conduziu, viu Willian passar por um lado e Éverton passar por outro, mas no instinto de centroavante, resolveu mandar o sapato dali mesmo. Décimo primeiro gol do flecheiro, agora artilheiro isolado artilheiro do certame.

Com dois gols de vantagem o Cruzeiro tirou o pé e só controlou. Claudinei trocou Natanael por Sidcley, depois Douglas Coutinho por Mosquito, mas nada foi mudado no sistema tático. Marcelo Oliveira aproveitou e tirou Alisson, amarelado na comemoração do primeiro gol, lançando Marlone na faixa central — e aqui cabe um comentário: o reserva imediato de Goulart na função de central é Júlio Baptista, mas Marcelo tem preparado Marlone para jogar nessa posição também, já pensando à frente quando Goulart, novamente convocado, estará com a Seleção.

No fim, Claudinei ainda mudaria João Paulo por Hernani, numa tentativa de dar criatividade ao meio-campo, ao passo de que Marcelo Oliveira lançou Nilton na vaga de Éverton Ribeiro, posicionando à frente da defesa e atrás e Lucas e Henrique, com Marlone abrindo para configurar um 4-3-3. Mas Fábio nem viu a bola passar perto de seu gol e o dois a zero ficou até o final.

Alisson fez um excelente jogo e só errou um único passe nos 90 minutos: intensidade sem perder qualidade. Só falta se aventurar para longe do lado esquerdo.

Alisson fez um excelente jogo e só errou um único passe nos 90 minutos: intensidade sem perder qualidade. Só falta se aventurar para longe do lado esquerdo.

Mais um muro derrubado

Os adversários vem ao Mineirão e, cada um à sua maneira, tentam parar o Cruzeiro. Duas linhas de quatro, árvore de natal, três zagueiros — todos os sistemas falharam. Se não há um ponto em comum entre eles, então o xis da questão está do outro lado: é a inegável capacidade ofensiva que o time celeste tem em seus domínios. O respeito dos adversários só aumenta, e foi construído com um cartel impressionante de onze vitórias seguidas no Mineirão. E é esse mesmo respeito que faz com que, mesmo em uma noite não tão inspirada ofensivamente, o Cruzeiro saia com uma vitória inconteste.

Com a derrota do São Paulo em Curitiba, a vantagem voltou a ser de sete pontos, com a diferença de que agora são duas rodadas a menos pra o fim do campeonato. Mas o mais importante, contudo, é que o Cruzeiro mostrou não ter entrado na descendente como muita gente apostava. Afinal, a equipe vinha de um empate contra o Fluminense e uma vitória suada contra o Bahia no Mineirão. O futebol apresentado, se não foi brilhante, foi muito mais sólido e consistente que o dos outros times.

No fim das contas, é isso que decide quem será o campeão.



Cruzeiro 2 x 1 Bahia – Vice-versa

Com algum atraso, eis as notas táticas da difícil partida contra o Bahia no Mineirão. Depois de um primeiro tempo sem intensidade ofensiva e com problemas na marcação pela direita, o Cruzeiro reagiu já no início da segunda etapa, mesmo antes da expulsão. É verdade que o pênalti e o cartão vermelho diminuíram a dificuldade da virada, mas ninguém pode dizer que o Cruzeiro não venceria mesmo se esses lances não tivesse acontecido.

No fim, o time celeste ainda correu um risco desnecessário ao acelerar demais a partida mesmo tendo um homem a mais — a cadência, para proteger a bola e não dar chances a contras, seria o mais indicado. Felizmente, o Bahia não conseguiu sequer chutar a gol nesses momentos.

Escretes iniciais

No primeiro tempo, o 4-1-4-1 do Bahia se aproveitou do posicionamento avançado demais de Mayke no 4-2-3-1 do Cruzeiro para chegar por ali; ofensivamente, Cruzeiro foi lento

No primeiro tempo, o 4-1-4-1 do Bahia se aproveitou do posicionamento avançado demais de Mayke no 4-2-3-1 do Cruzeiro para chegar por ali; ofensivamente, Cruzeiro foi lento

Com a volta dos selecionáveis, Marcelo Oliveira tinha todos os jogadores à disposição, exceto os dois laterais esquerdos e o suspenso Dedé. Assim, seu 4-2-3-1 teve Ceará pela esquerda na linha defensiva, com Manoel e Léo no miolo e Mayke à direita, protegendo o gol de Fábio. Henrique e Lucas Silva reeditaram a parceria titular na proteção, atrás de Éverton Ribeiro na ponta direita, Ricardo Goulart por dentro e Marquinhos pela esquerda, todos procurando o centroavante Marcelo Moreno.

Já o Bahia do técnico Gilson Kleina tinha três atacantes na formação, mas se postava em um 4-1-4-1 sem a bola. Do gol, Marcelo Lomba viu Lucas Fonseca e Titi ficarem na zaga central, com Railan fechando pela direita e Guilherme Santos pelo outro lado. Fahel ficou à frente da zaga, entre as duas linhas de quatro. Rafinha protegia o lado direito, Léo Gago e Rafael Miranda ficavam mais centralizados e Rhayner ocupava a ponta esquerda. Solitário à frente ficava Maxi Biancucchi.

O setor direito

O Cruzeiro iniciou o jogo já tentando se impor, como sempre faz quando joga no Mineirão. Com o meio lotado por três volantes, o caminho natural era procurar os lados. Na esquerda, não só por estar improvisado mas também por fazer melhor a composição da linha, Ceará não avançava muito, tendo o bloqueio de Rafinha à sua frente. Mas do lado direito, Mayke foi ao fundo com bastante ousadia. Naturalmente, o Cruzeiro procurou o jogo por aquele setor, com Éverton e Goulart se achando por ali mas esbarrando na bem postada defesa baiana.

O problema, porém, era que Mayke deixou muitos espaços às suas costas. Por vezes, a formação celeste parecia ter três zagueiros, pois Mayke ficava muito avançado e Manoel acabava abrindo para fazer a cobertura. Não por acaso, foi por esse setor que o Bahia criou suas poucas chances no primeiro tempo: numa delas, a bola cruzou a extensão da área e sobrou para Rafael Mirando completar do outro lado e abrir o placar.

 

Os mapas de calor no primeiro tempo mostra: Mayke avançou demais e desguarneceu o lado direito da defesa, obrigando Manoel a fazer a cobertura

Os mapas de calor no primeiro tempo mostra: Mayke avançou demais e desguarneceu o lado direito da defesa, obrigando Manoel a fazer a cobertura

Com a bola

Quando perdia a bola, a estratégia do Bahia era de pressionar alto para tirar a saída veloz do Cruzeiro, e assim que o time fosse recomposto no 4-1-4-1, recuar as linhas e esperar. Em outras palavras, tirar a velocidade do jogo, cadenciar o ritmo do adversário. Cabia ao Cruzeiro acelerar a transição para pegar a defesa do Bahia desarrumada, mas não foi isso que o time celeste fez. Entrou na estratégia do time visitante e cadenciou. Recomposta, a defesa do Bahia não dava espaços e fez um bom primeiro tempo.

As duas bolas na trave no primeiro tempo parecem contradizer o descrito no parágrafo acima, mas o cabeceio de Manoel e o tirambaço de Lucas Silva foram lances de bola parada. Só no final do primeiro tempo o Cruzeiro aceleraria o suficiente para um contra que Marcelo Moreno chutou pra fora.

Segundo tempo

Marcelo Oliveira trocou Marquinhos por Alisson, numa tentativa de dar a intensidade que o Cruzeiro precisava com a bola. E deu muito certo. Nos primeiros minutos, o Bahia mal tocou na bola até o pênalti bem discutível cometido por Guilherme Santos em Goulart. Por reclamação exagerada, Titi levou dois amarelos no mesmo lance e foi expulso. Éverton converteu e igualou o marcador.

Com 11 contra 10, pareceria um jogo mais fácil, mas não foi. Gilson Kleina simplesmente recuou Fahel para a zaga e recompôs o time num 4-4-1, refazendo as duas linhas de quatro. O Cruzeiro continuou em cima, mas tinha dificuldade de dar o passe final. Marcelo, então, fez a sua variação tática mais comum nessa situação: tirou Henrique e lançou Dagoberto, recuando Éverton para armar de trás e chegar, e ao mesmo tempo avançando Ricardo Goulart para bem próximo de Moreno. Sem a bola, o 4-2-3-1 com Éverton como segundo volante, e atacando, um 4-1-3-2 com dois jogadores abertos e dois na área.

O time da virada tinha Goulart bem próximo a Moreno e dois ponteiros, com Éverton armando de trás, sufocando o 4-4-1 baiano

O time da virada tinha Goulart bem próximo a Moreno e dois ponteiros, com Éverton armando de trás, sufocando o 4-4-1 baiano

O efeito foi rápido. Entre a troca e o gol da virada, houve um espaço de 9 minutos em que Moreno e Goulart chutaram contra o gol de Marcelo Lomba nada menos do que 7 vezes. Uma delas foi o gol, com assistência de Moreno fazendo o pivô.

Gilson Kleina reagiu imediatamente e fez as três trocas quase sem sequência. Os três dianteiros deram seus lugares a Branquinho, William Barbio e Alessandro. Mas não houve alteração tática, eram apenas pernas mais descansadas para usar velocidade nos contras. Mas com dez homens é mais difícil, pois após os ataques celestes repelidos, a bola sempre acabava sobrando nos pés cruzeirenses — uma consequência natural de se ter um homem a mais.

Com a vantagem no placar, Marcelo reequilibrou o time, sacando Goulart para poupá-lo de levar o terceiro amarelo e ficar fora do jogo contra o São Paulo, e lançando Nilton. Com isso, Éverton Ribeiro voltou a ser o meia central.

Vice-versa

Se no primeiro tempo o Cruzeiro precisava acelerar para encontrar os espaços na defesa baiana antes que fossem preenchidos, após a virada e com vantagem numérica em campo, o Cruzeiro precisava fazer o contrário: cadenciar, para reter a posse de bola e também para encontrar os espaços que certamente se abririam no sistema defensivo do Bahia com um homem a menos.

Entretanto, o Cruzeiro fez o contrário: acelerou. Mal recuperava a bola e já partia para o ataque, às vezes tentando um passe mais arriscado e concedendo a posse de bola, sem necessidade. Isso deu ao jogo um certo ar de dramaticidade para este que vos fala, pois o jogo não estava decidido ainda. Felizmente, o Bahia não conseguiu chutar a gol, mas o Cruzeiro correu um risco desnecessário ao tentar marcar o terceiro de maneira afobada. Tanto é que após o gol, o Cruzeiro ainda chutou mais onze vezes, completando 31 finalizações no total — recorde do campeonato.

Nada menos do que TODOS os jogadores de linha do Cruzeiro tentaram chutar pelo menos uma vez, somando 31 finalizações, recorde do BR 14 até aqui

Nada menos do que TODOS os jogadores de linha do Cruzeiro tentaram chutar pelo menos uma vez, somando 31 finalizações, recorde do BR 14 até aqui

Perspectivas para domingo

Agora, é o duelo contra o São Paulo no Morumbi, o jogo que certamente será o mais difícil até aqui. O time paulista tem jogado bem, mas não tão bem quanto a mídia paulista — obviamente — quer fazer parecer. Os comandados de Muricy sofreram no jogo contra o Botafogo: o time carioca tinha uma defesa frágil e sofreu três gols, mas mesmo assim marcou dois gols e Wallyson ainda teve duas chances cara a cara com Rogério Ceni e perdeu. O São Paulo só deslanchou após a expulsão infantil de Aílton, pisando na cabeça de Pato.

Já o Cruzeiro teve este problema defensivo com Mayke, que tem que ser corrigido, e ainda teve pouca velocidade ofensiva para superar a forte marcação baiana. Mas no segundo tempo, já era bem superior até mesmo antes do pênalti e da expulsão de Titi. É até seguro dizer que, mesmo sem o cartão vermelho para o zagueiro do Bahia, provavelmente o Cruzeiro teria conseguido a virada.

O duelo de domingo, no entanto, se desenha diferente. O São Paulo vai atacar, e com a posse de bola, como é sua característica. Ganso e Kaká vão cadenciar e tentar encontrar Kardec e Pato. O Cruzeiro pode ser ver defendendo mais do que o normal. Mas o time paulista também vai deixar espaços que o Bahia não deixou, exatamente por se lançar à frente. E diferente de seu rival, o Cruzeiro não tem o estilo de tocar a bola e ter muita posse — é bem mais vertical e veloz. Portanto essa é uma característica quase certa do jogo: São Paulo com a bola, e Cruzeiro agudo e eficiente.

Não considero “final antecipada”, pois em finais o vencedor normalmente sai campeão. Não é o caso aqui — nem mesmo se for uma vitória azul. É só um bom jogo.



Fluminense 3 x 3 Cruzeiro – Futebol moderno

A preguiça do Cruzeiro diante do Santa Rita, no duelo de volta pelas oitavas da Copa do Brasil, foi tal que o time não chutou uma única bola sequer no primeiro tempo contra o gol alagoano, e ainda sofreu um gol por puro desleixo na rebatida para fora da área de um escanteio. Diante de um Santa Rita aplicado, em duas linhas de quatro, e que só queria ganhar o jogo pois sabia que a classificação era difícil, o Cruzeiro só fez o suficiente no segundo tempo pra vencer.

Mas isso foi um ponto fora da curva. Até compreensível, pela vantagem que tinha no confronto e pelo fato de ser um time alternativo. Mas no jogo seguinte, a postura tinha que ser outra — e foi. Fluminense e Cruzeiro protagonizaram um duelo moderno, com muita intensidade na marcação no meio-campo e na frente, e com velocidade na troca de passes para tentar sair dessa marcação.

Formações

Os dois times no 4-2-3-1: equilíbrio nos duelos invidivuais e marcação intensa no meio-campo

Os dois times no 4-2-3-1: equilíbrio nos duelos invidivuais e marcação intensa no meio-campo

Os dois treinadores lançaram suas equipes no 4-2-3-1. Marcelo Oliveira definiu o time com Fábio no gol, Mayke e Samudio nas laterais direita e esquerda, e Dedé e Léo no miolo de zaga. Sem Lucas Silva, na Seleção sub-20, Nilton foi o companheiro de Henrique na proteção. Marlone, como ponteiro direito, e Júlio Baptista, como meia central, foram os escolhidos para as vagas dos selecionáveis Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart. Willian ocupou sua faixa pela esquerda normalmente e Moreno foi o jogador mais avançado.

Já o bom Cristóvão Borges armou o Fluminense com Kléver no gol, Henrique e Elivélton na zaga, com Bruno fechando pela direita e Chiquinho pela esquerda. Diguinho e Jean fizeram a dupla volância atrás do trio formado por Cícero na direita, Conca centralizado e Wagner pela esquerda. Na frente, Fred.

Equilíbrio

O jogo começou bem intenso no meio-campo. Os times marcavam muito bem e chegavam poucas vezes perto da área adversária. Tanto que, após o primeira tentativa de Conca logo a um minuto de jogo, não houve mais finalizações até o pênalti cometido por Cícero em Samudio e convertido por Júlio Baptista. O lance evidencia o posicionamento, onde Cícero tinha a função de espetar pela direita quando o Fluminense tinha a bola e acompanhar Samudio quando este ia para o apoio.

O mesmo Júlio Baptista, porém, seria o responsável pela desatenção no gol de empate. Era ele quem marcava Wagner, mas no desvio de cabeça Júlio largou o meia do Fluminense, que ficou sozinho pra completar para as redes. E no segundo gol dos cariocas, o discutível lance entre Dedé e Fred seria o fator determinante. Com o zagueiro caído, a zaga ficou com um buraco, e foi exatamente esse o espaço por onde Cícero — aquele mesmo que deveria ter sido expulso pela voadora em Samudio no lance do pênalti — se infiltrou e finalizou.

Troca forçada

Antes deste gol, Samudio sentiu um problema muscular e teve que ser trocado. Sem Egídio, Marcelo só podia colocar Ceará, lateral direito com o pé trocado. O incidente com o paraguaio viria a ser um ponto chave da partida posteriormente.

Uma partida que seguia equilibrada, com muita marcação e poucas chances de parte a parte. O Cruzeiro tinha um pouco mais a bola, mas errava mais passes no terço final do campo. Mas isso era puramente uma questão de estilo. O Cruzeiro é um time que tem por característica arriscar os passes agudos ao invés de ficar rodando com a bola até encontrar um espaço maior. Por serem tentativas de passe mais difíceis, a taxa de erros de passes ofensivos era levemente maior.

Já do outro lado, Conca foi bem vigiado na função de pensar o jogo e só foi perigoso quando se infiltrou na área, talvez inspirado por Ricardo Goulart. Assim, o Fluminense preferia trocava passes no meio-campo mas só espetava quando o Cruzeiro abria uma rara brecha. Coisa que aconteceu aos 42, quando Fred recebeu dentro da área e finalizou. Fábio tocou levemente para que ela explodisse no poste esquerdo e sobrasse para Conca do outro lado. O argentino finalizou a menos de 3 metros da linha fatal, mas não contava que Fábio já estivesse ali para salvar o terceiro.

Como os deuses do futebol não brincam, praticamente no lance seguinte Júlio Baptista acertou um rebote fraco fora do alcance de Kléver e empatou a peleja. Um 2 x 2 digno do que foi o jogo.

Segundo tempo

Normalmente no segundo tempo é um jogo diferente. Se não há alterações, há pelo menos ajustes táticos feitos pelos treinadores com os 11 titulares. Mas nesse caso foi uma exceção. Cruzeiro e Fluminense mantiveram suas formações, posturas e estratégias. Aos poucos, o Fluminense foi sentindo a pressão de ter que vencer em casa e cada vez mais subia a pressão na marcação no campo de ataque. Mas era uma pressão quebrada, da qual o Cruzeiro saía facilmente e criava contra-ataques velocíssimos.

Assim foi o terceiro gol: um contra ultrarrápido que teria entrado para a história do jogo como uma chance desperdiçada por Mayke, na marca do pênalti, frente a frente com Kléver. Teria, se Moreno não fizesse um voleio espetacular no rescaldo do lance para virar o jogo para o Cruzeiro.

O lado “menos forte”

No fim, Cristóvão espetou Kenedy e deslocou Jean para a direita pra jogar em cima de Ceará; Marcelo respondeu com W. Farias para reforçar a marcação no setor

No fim, Cristóvão espetou Kenedy e deslocou Jean para a direita pra jogar em cima de Ceará; Marcelo respondeu com W. Farias para reforçar a marcação no setor

A partir daí o jogo se tornou mais tático. Com a vantagem no placar e sabendo que seria pressionado, Marcelo colocou Marquinhos na vaga de Júlio Baptista, lançando-o na direita e trazendo Marlone para a faixa central. Willian foi mantido na esquerda. A intenção era explorar a velocidade nas oportunidades de contra — ou seja, foi apenas uma oficialização do que já estava em curso na partida.

Por sua vez, Cristóvão parecia gostar do que via, pois não dava sinais de mudança. Já a torcida do Fluminense pedia Walter nas arquibancadas. Até que teve uma epifania, provavelmente se lembrando do lance em que Ceará, lateral direito na esquerda, errou um cruzamento com o pé ruim numa das raras vezes em que subiu pro apoio. Ali era o mapa da mina. Colocou o jovem Kenedy para atacar o setor, mas para não perder Cícero, deslocou-o para a faixa central junto a Conca e recuou Jean para a lateral direita, sacando Bruno. Era um 4-2-3-1 mas com cara de 4-3-3, com Cícero e Conca de meias centrais.

O jogo se desenhou conforme queriam seus treinadores. O Cruzeiro com ótimas oportunidades de fazer o quarto gol e matar a partida em contra-ataques, e o Fluminense atacava insistentemente pela direita. Kenedy deu muito trabalho para o Ceará, que ainda teve que lidar com as subidas corajosas de Jean deixando Willian para trás. Percebendo isso, Marcelo trocou de Willian: saiu o bigode e entrou o Farias. Ao contrário do que se pode pensar, o sistema não se alterou. Continuou sendo um 4-2-3-1, mas com um volante aberto na direita. A intenção era clara em reforçar a marcação daquele lado. E ia dando muito certo.

A seleção de passes do Fluminense após a entrada de Kenedy no minuto 75 mostra bem como o time abandonou o lado esquerdo e forçou em cima de Ceará

A seleção de passes do Fluminense após a entrada de Kenedy no minuto 75 mostra bem como o time abandonou o lado esquerdo e forçou em cima de Ceará

Ia, porque faltando pouco para uma vitória que seria maiúscula, Fred disputou um lançamento na grande área, Ceará fechou e o desarmou, mas a bola sobrou exatamente para Kenedy. O garoto conseguiu acertar um belo chute de fora da área, longe do alcance de Fábio, para dar números finais ao jogo.

Capricho nos detalhes

Em partidas onde os dois times se propõem a jogar, o capricho nos detalhes é o que costuma fazer a diferença. Particularmente no duelo do Maracanã, estes detalhes foram: 1- a improvisação forçada de Ceará na esquerda, o que certamente diminuiu levemente a capacidade do Cruzeiro de se defender e de atacar por aquele lado; 2- o capricho no último passe nos vários contra-ataques que o Cruzeiro teve quando o jogo ainda estava 3 a 2; 3- as pequenas falhas de marcação que acabaram por definir dois dos três gols do Fluminense: a de Júlio largando Wagner e a de Ceará que largou Kenedy, embora este último tenha feito isso para ganhar a bola de Fred.

Entretanto, em que pese o gosto amargo de ter sofrido o empate bem no finzinho do jogo, o Cruzeiro foi um time maduro em campo. Ciente de sua capacidade e responsabilidade, mesmo com os muitos desfalques, que certamente mudam a característica do time. Jogou com autoridade de líder que é, e não se intimidou em nenhum momento. Ponto positivo, diante de um Fluminense que jogou a vida pela última chance de tentar um improvável título.

Essa é, em última análise, a diferença do Cruzeiro para seus perseguidores mais próximos: joga o mesmo tipo de futebol, em qualquer lugar, contra que adversário for, e mesmo que as peças mudem de uma partida pra outra. É o motivo pelo qual o Cruzeiro mantém a folga na liderança, enquanto os outros times se revezam como candidatos a concorrentes.

Fruto de longevidade e de manutenção de elenco. E que continue assim por muitas temporadas, amém.



Cruzeiro 4 x 2 Chapecoense – Nota 10

Quem acompanha este espaço há mais tempo sabe que às vezes uso referências do site WhoScored.com, um site especializado em estatísticas futebolísticas e que usa dados gerados pela Opta Sports. Lá, eles possuem um sistema que dá uma nota para cada jogador em uma determinada partida de acordo com a influência no resultado.

O título deste texto é em homenagem à nota que Mayke recebeu nesta partida. Em quase dois anos acompanhando o site, este blogueiro nunca tinha visto tal número. As três assistências falam por si só, mas o jovem lateral foi muito mais do que isso. Sua atuação foi decisiva principalmente por explorar bem o único espaço que o adversário cedeu na partida: os lados do campo.

Esquemas

A "árvore de natal" (4-3-2-1) da Chapecoense que marcou o 4-2-3-1 do Cruzeiro com meias centralizados, encaixotando Goulart e dando espaço pelos lados

A “árvore de natal” (4-3-2-1) da Chapecoense que marcou o 4-2-3-1 do Cruzeiro com meias centralizados, encaixotando Goulart e dando espaço pelos lados

Depois de poupar os selecionáveis Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, Marcelo Oliveira voltou com a força máxima para este duelo, tendo apenas que escalar Samudio na vaga de Egídio. O outro lado da linha defensiva do goleiro Fábio tinha Mayke, com Dedé e Léo novamente na parceria de miolo de zaga. Lucas Silva e Henrique protegiam a última linha e ajudavam Éverton Ribeiro — partindo da direita para dentro, Ricardo Goulart — do centro para a frente, e Willian na esquerda, procurando Marcelo Moreno na área.

Já o técnico da Chapecoense, Celso Rodrigues, mandou a campo um sistema pouco comum, um 4-3-2-1 com os meias bem centralizados. O gol de Danilo foi protegido pelos zagueiros Jaílton e Rafael Lima, com Ednei fechando pela direita e Neuton pela esquerda. Wanderson ficou à frente da zaga, muito plantado, quase formando uma linha de cinco. Dedé e Abuda eram os volantes de lado, mas bem próximos do central. Mais à frente, Camilo e Zezinho perseguiam a dupla de volantes do Cruzeiro, deixando Bruno Rangel solitário à frente.

Espaço pelos flancos

A ideia do técnico visitante era muito provavelmente lotar o setor por onde o Cruzeiro é mais perigoso: a intermediária ofensiva. Para isso colocou cinco jogadores praticamente cercando Ricardo Goulart, para garantir a superioridade numérica no setor e não perder a posse de bola. Por conta disso, Goulart participou pouco do jogo no primeiro tempo, e Éverton Ribeiro não tinha com quem dialogar e nem espaço para conduzir no meio. O passe para Willian ficou distante, porque a bola não conseguia transitar por ali.

Mas, como sempre acontece, isso deixa outros setores descobertos, e esses eram as laterais. Com cinco jogadores centralizados, os corredores ficaram livres. O bloco de meio-campistas até se movimentava lateralmente para fechar o espaço, mas deixava o outro descoberto. E Lucas Silva e Henrique conseguiam recuperar o passe de retorno e mudar de lado com qualidade. Assim, trocando passes e com paciência, o Cruzeiro chegou com facilidade pelos lados até a área da Chapecoense. Não raro víamos dois contra um nos laterais do time catarinense e um jogador celeste aparecia ao lado da área com a posse da bola.

A partir daí, o problema foi outro. Sem ângulo para chutar e sem opção de passes rasteiros, a solução foi levantar a bola na área. Havia alvos, é verdade, mas a qualidade dos cruzamentos não foi boa. Por vezes, era muito forte e saía por cima ou chegava do outro lado da área; por vezes muito fechado em cima do goleiro. Quando o cruzamento saía na medida, os zagueiros da Chapecoense conseguiam tirar. Nas contas do Squawka (com dados da Opta Sports), ao todo foram 31 cruzamentos na área, sendo apenas 5 certos, e desses, 2 só foram computados como certos porque chegaram em um companheiro do outro lado da área.

Os cruzamentos do Cruzeiro no 1º tempo foram excessivos e ineficientes, indicando facilidade de chegar pelos lados mas ansiedade para definir

Os cruzamentos do Cruzeiro no 1º tempo foram excessivos e ineficientes, indicando facilidade de chegar pelos lados mas ansiedade para definir

Defendendo

Quando perdia a bola, o Cruzeiro fazia a velha e boa pressão alta. Com intensidade, obrigou os jogadores da Chapecoense a tomarem decisões precipitadas e entregarem a posse, seja em erro de passe, seja em perda de bola. O time catarinense tentou exatamente 100 passes no primeiro tempo, o que já é pouco, e ainda completou apenas 57 deles, novamente de acordo com o Squawka/Opta. Uma taxa de acerto baixíssima.

O gol foi apenas a segunda finalização do time no primeiro tempo, e também a última. A destacar apenas que o Dedé, o autor do chute original, teve muita liberdade para arriscar, mesmo sendo de longe. E isso pode decidir uma partida. Felizmente, não foi o caso.

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro obrigou a Chapecoense a se precipitar nos passes: apenas 57% de acerto nas poucas tentativas

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro obrigou a Chapecoense a se precipitar nos passes: apenas 57% de acerto nas poucas tentativas

Alisson e Mayke

Este blogueiro apostava numa alteração ousada, tirando um dos volantes se recuando Éverton para pensar o jogo de trás, fora da área do quinteto de meias da Chapecoense. Mas Marcelo Oliveira optou por Alisson na vaga de Willian, principalmente para dar profundidade do lado esquerdo em cima do lateral Ednei. Já Celso Rodrigues trocou um volante por outro. Abuda, amarelado, deu lugar a Diones, mantendo o sistema que deu tão certo no primeiro tempo.

O jogo recomeçou e víamos o Cruzeiro ligeiramente menos afobado, chegando novamente com facilidade pelos lados mas tentando fazer algo diferente. Lucas Silva e Mayke arriscaram chutes de longe. E se na etapa inicial o Cruzeiro acertou poucos levantamentos, no segundo tempo a primeira bola alçada, de Alisson, achou a cabeça de Léo para empatar o jogo. E aí começou o show de Mayke.

Enquanto teve liberdade, o jovem lateral foi muito acionado e não fugiu à responsabilidade. Apoiou o ataque sem medo e com velocidade, tendo o suporte de Samudio do outro lado — o paraguaio se limitou à marcação no segundo tempo. Primeiro, um levantamento que achou Moreno sem marcação na área, com Goulart fazendo um papel importante de atrair o zagueiro. Depois, outro levantamento que achou Alisson livre na segunda trave, atrás da defesa.

Mudança e resposta rápida

Após o quarto gol, Cruzeiro deu ritmo a Nilton e Dagoberto; Chapecoense voltou ao modo com três volantes mas com Zezinho central e Tiago Luís aberto pela esquerda

Após o quarto gol, Cruzeiro deu ritmo a Nilton e Dagoberto; Chapecoense voltou ao modo com três volantes mas com Zezinho central e Tiago Luís aberto pela esquerda

Com 3 a 1, o Cruzeiro se tranquilizou, mas seguiu atacando e tentando roubar a bola, sem deixar a Chapecoense respirar. Digno de aplausos, pois a maioria dos times se daria por satisfeito com uma vantagem dessas e naturalmente se pouparia. Mas o Cruzeiro de Marcelo Oliveira sempre quer mais.

Celso Rodrigues então tentou algo. Tirou o volante Dedé e lançou o atacante Tiago Luís, que foi jogar aberto do lado esquerdo, dando trabalho a Mayke. Nesse momento o sistema da Chapecoense parecia um 4-2-2-2 meio torto para a esquerda. E o atacante deu trabalho, sendo o principal responsável pela jogada do segundo gol, em tabela com Camilo e assistência para Bruno Rangel.

Os jogadores catarinenses nem tiveram tempo de comemorar. Na jogada seguinte, Mayke combinou com Éverton Ribeiro e achou Moreno novamente na área. Nono gol do boliviano, o que o coloca ao lado de Goulart como artilheiro do certame. Se ter o goleador do campeonato não é pra qualquer equipe, imagine ter dois.

A resposta rápida fez o ritmo da partida arrefecer. Celso Rodrigues voltou ao modo com 3 volantes para evitar mais gols, colocando Ricardo Conceição na vaga de Camilo e remontando o 4-3-2-1, mas desta vez com um jogador aberto pela esquerda. Já Marcelo Oliveira, ciente de que perderia jogadores para a Seleção, optou por dar ritmo aos prováveis substitutos. Moreno deu seu lugar a Dagoberto — centralizando Éverton Ribeiro e avançando Goulart — e depois Lucas Silva saiu para a entrada de Nilton, mas o jogo já tinha terminado.

Sintonia fina e cuidados

Esta foi uma partida atípica. Diante de um sistema incomum e atrás no placar por um acaso típico do futebol, o Cruzeiro chegou a demonstrar certa ansiedade para empatar ainda no primeiro tempo, e o excesso de cruzamentos foi um sintoma disso.

Porém, Marcelo demonstrou ter mais uma vez o grupo na mão, e, conforme revelou na coletiva pós-jogo, acalmou o time e ficou ajustando o destino dos cruzamentos na área. Uma sintonia fina que indica o quanto este time do Cruzeiro está encaixado e entrosado. Enquanto outros treinadores acertariam posicionamento, dariam broncas ou mexeriam no sistema do time, Marcelo apenas se preocupou com detalhes.

Esse é uma das razões pelas quais o Cruzeiro caminha firme rumo ao tetra. As próximas rodadas, entretanto, serão o trecho mais perigoso da campanha, com duelos diretos com todos os perseguidores mais próximos: Fluminense (19ª), São Paulo (21ª), Internacional (26ª) e Corinthians (27ª). Os quatro têm oscilado e perdido pontos para os times de baixo, mas ao jogar contra o líder darão aquele algo a mais — exatamente por se tratar de um confronto direto e que pode mudar o rumo do campeonato.

Portanto, a vantagem é enorme, mas, mais do que nunca, todo cuidado é pouco.