Goiás 0 x 1 Cruzeiro – Exagero na dose

O Serra Dourada é o maior campo do Brasil. O gramado possui as medidas máximas permitidas pela regra 1 para jogos oficiais internacionais, 110 x 75 m. O Mineirão usa as medidas oficiais para jogos da Copa, 105 x 68 m. A diferença parece pequena, mas não é: só nas laterais, são 3,5 metros a mais de espaço para cada lado — provavelmente a largura do quarto ou sala onde você está agora lendo este texto.

Um campo com medidas tão grandes tem influência direta na estratégia de marcação de uma equipe no jogo. É preciso dosar o desgaste físico, pois não há como aplicar a mesma intensidade de marcação que se usa num campo como o Mineirão, por exemplo, pois corre-se o risco de cansar em demasia no fim da partida e ficar em desvantagem numérica em alguns setores.

Foi esse controle que o Cruzeiro tentou fazer em Goiânia neste domingo. Mas exagerou na dose e quase correu o risco de perder dois pontos.

Sistemas iniciais

No primeiro tempo, ambas equipes no 4-2-3-1, espalhados, e se movimentando pouco no enorme campo do Serra Dourada

No primeiro tempo, ambas equipes no 4-2-3-1, espalhados, e se movimentando pouco no enorme campo do Serra Dourada

Como de costume, Marcelo Oliveira manteve o 4-2-3-1. Sem Mayke, Henrique e Ricardo Goulart, todos poupados para evitar lesões, Fábio teve sua linha defensiva formada por Ceará, Dedé, Léo e Egídio. Nilton reeditou a parceria com Lucas Silva no meio-campo, dando suporte a Willian na direita, Éverton Ribeiro como central e Alisson pela esquerda. Na frente, Moreno.

O Goiás não foi a campo com três zagueiros, como informou o SporTV no início da transmissão. Ricardo Drubscky também armou um 4-2-3-1, com Renan no gol, Jackson e Felipe Macedo como zagueiros, Moisés na lateral direita e Léo Veloso na esquerda. Valmir Lucas entrou como volante preso, com David tendo ligeiramente mais liberdade. O quarteto ofensivo tinha Thiago Mendes na direita, Tiago Real por dentro e Samuel na esquerda atrás de Bruno Mineiro.

Ritmo lento: Sonolência ou estratégia?

O jogo começou e parecia não ter começado, tal a lentidão que os jogadores de ambas as equipes colocavam em campo. Muitos amigos nas redes sociais já cornetavam, dizendo da sonolência do time, mas este blogueiro preferiu avaliar pelo lado da estratégia: se poupar para não cansar no enorme gramado do Serra Dourada. Assim, não vimos o Cruzeiro que normalmente vemos em outras partidas, aplicando pressão sobre a zaga adversária para roubar a bola e tocando com velocidade e intensidade quando a tinha nos pés.

Quando o Cruzeiro acelerou, chegou ao gol. Bola roubada no meio-campo, a defesa do Goiás ainda estava se arrumando, mas Éverton Ribeiro, de frente e sem marcação, tinha três opções de passe: Ceará, que já passava na direita; Alisson, totalmente livre pelo lado esquerdo com o lateral Moisés correndo para alcançá-lo; e Marcelo Moreno, marcado por um zagueiro e com outro na sobra. A escolha de Éverton foi a mais difícil: um passe em profundidade, fora do alcance da cobertura e apostando na velocidade do boliviano, que concluiu cruzado para marcar. Oitava assistência de Éverton no certame, o líder no quesito.

Talvez pela facilidade, os jogadores de certa forma se acomodaram. Conseguiam repelir as investidas goianas com facilidade, e não quiseram correr muito mais para fazer o segundo e matar logo a partida.

Segundo tempo

Nenhuma mudança houve depois do intervalo. A única diferença foi que o Cruzeiro passou a ter mais posse de bola na intermediária ofensiva ao invés da defensiva, mas com poucas tentativas de passe agudo. Só aos 15 o jogo mudaria um pouco, com Drubscky trocou Moisés por Murilo, um meia, passando Valmir Lucas para a lateral direita. Murilo foi jogar aberto na direita, e os dois Tiagos ficaram mais próximos por dentro do campo, com Real mais à direita e Mendes mais à esquerda. Uma espécie de 4-3-3, pendendo muito para a direita.

O mapa de passes do 2º tempo (Opta) mostra como o Goiás insistiu pela direita, tendo um jogador aberto naquele setor (Murilo) mas não do outro lado

O mapa de passes do 2º tempo (Opta) mostra como o Goiás insistiu pela direita, tendo um jogador aberto naquele setor (Murilo) mas não do outro lado

No Cruzeiro, Egídio deu seu lugar a Samudio. Naquele momento, achei que fosse para poupar e dar mais segurança, mas Egídio teve um problema na mão e teve que sair. Depois, com Alisson por Dagoberto, Marcelo queria definir a partida de uma vez, mas não foi o que aconteceu. O Goiás começou a ocupar a intermediária ofensiva e trocar passes muito próximo da área de Fábio, muito porque o Cruzeiro não dava pressão sobre o homem da bola neste setor. Um risco desnecessário, já que seria melhor ocupar o meio-campo e empurrar o time verde para trás.

Com Henrique, Cruzeiro fechou o meio-campo mas abriu os corredores, permitindo vários cruzamentos -- um risco desnecessário

Com Henrique, Cruzeiro fechou o meio-campo mas abriu os corredores, permitindo vários cruzamentos — um risco desnecessário

Marcelo Oliveira tentou mexer no time com Henrique na vaga de Willian, numa rara modificação de sistema tático. O Cruzeiro se postou num 4-3-1-2, com Henrique e Lucas ligeiramente mais avançados que Nilton no meio. Dagoberto se juntou a Moreno no ataque e Éverton ficou na ligação. O meio-campo central ficou mais forte defensivamente, mas sem jogadores abertos o Cruzeiro abriu os corredores, e o Goiás que começou a atacar com seus dois laterais ao mesmo tempo. O resultado foi uma profusão de bolas na área, que o Cruzeiro conseguia afastar até com certa facilidade. Mas novamente corria riscos desnecessários.

Já Ricardo Drubscky trocou seus dois atacantes para poder encaixar passes em profundidade e pegar a defesa celeste correndo pra trás. Não tinha funcionado até o último lance da partida, quando a postura cautelosa demais quase cobrou seu preço. Uma bola espirrada de Léo acabou servindo de passe para Esquerdinha. Dedé foi com ele e ganhou na bola, mas o juiz viu pênalti, que David mandou pra fora.

Segurando demais

Esta partida contra o Goiás mostrou que o Cruzeiro está ciente de sua capacidade e também tem maturidade para acelerar o jogo quando bem entende. É compreensível que os jogadores não quisessem se aplicar tanto na marcação, visto o tamanho do campo e a maratona de jogos que está por vir. No entanto, talvez tenha exagerado no freio. Era preciso acelerar um pouco, mas apenas um pouco, não a ponto do desgaste físico ser um fator. E seria suficiente para que o Cruzeiro não corresse os riscos que correu no fim da partida.

No empate contra o Botafogo e na vitória que só valeu um ponto contra o Criciúma, o time foi elogiado pela busca constante do gol e pelo jeito de jogar ofensivo e consciente. Apesar de ter valido mais pontos, esta partida não merece tantos elogios quanto as outras. O Cruzeiro quase perdeu dois pontos por puro desleixo. O tamanho do campo é um atenuante, mas não pode ser a única desculpa.

Que bom que a maioria dos próximos jogos será em campos menores, e assim poderemos ver o Cruzeiro verdadeiro em ação.



Cruzeiro 3 x 0 Santos, Cruzeiro 1 x 0 Grêmio – Desmantelando muros

O calendário corre. Se o Cruzeiro, como todos queremos, chegar à final da Copa do Brasil, será quarta e domingo até dezembro — a próxima semana livre seria apenas entre a penúltima e a última rodada do Brasileirão. Com isso, o blogueiro também fica sem tempo. Por isso, abaixo seguem textos mais curtos sobre as partidas em casa contra Santos e Grêmio, antes de começar a rodada 17.

Com espaço

Cruzeiro 3 x 0 Santos

Para compensar a falta de trabalho defensivo de Robinho, volantes ficavam recuados para a cobertura e abriam espaço no meio, que o trio de meias celestes aproveitou

Na partida contra o Santos, ambos os times entraram num 4-2-3-1. Marcelo Oliveira manteve Mayke na lateral direita, e por isso todos esperavam o duelo com Robinho. Isso porque o santista joga normalmente pelo lado esquerdo do ataque, mas nessa partida, Oswaldo de Oliveira optou por escalá-lo do outro lado, provavelmente para explorar os espaços que Egídio deixa ao subir para o ataque.

Teria funcionado se esse movimento não ocasionasse um efeito cascata. Mesmo com Robinho, Egídio não deixou de apoiar, e Robinho não voltava com ele. Pra evitar o dois contra um em cima de Cicinho, os volantes do Santos iam para a cobertura, principalmente Alan Santos. Isso abriu uma cratera no meio campo, por onde os meias celestes tinham espaço para jogar. O Cruzeiro dominou todo o primeiro tempo, dando chances apenas quando errava os passes e as coberturas nos contra-ataques. Destaque para a atuação de Henrique, senhor do meio-campo, com 5 desarmes.

Na etapa final, Osvaldo entrou com Rildo na vaga de Damião, centralizando Robinho no ataque. A ideia era dar mais movimento e velocidade pelos lados, já que os contra-ataques entraram no primeiro tempo, mas o gol logo no início da segunda etapa acabou com os planos do time paulista. Este gol é fruto da total inteligência tática de Ricardo Goulart e merece destaque.

Depois de troca rápida de passes pela esquerda, Egídio acionou Willian. O bigode já estava longe do alcance de Cicinho, obrigando Edu Dracena a sair na cobertura. Assim que Edu abandona a área para dar o combate, Ricardo Goulart percebe o espaço nas costas do zagueiro e o ocupa, recebendo o passe e finalizando bem. É importante ressaltar que Goulart só faz isso porque Edu Dracena saiu do seu posicionamento. Se o zagueiro continuasse mantendo a linha, é bem provável que Goulart continuasse na frente da área esperando o passe lateral. Isso é inteligência tática: perceber os espaços, ir até eles e saber o que fazer quando chegar lá.

Com 2 x 0, o jogo assentou. O Cruzeiro apenas controlava o ritmo e o Santos tentou dar velocidade. Rildo, que havia entrado como ponteiro esquerdo, começou a levar perigo em cima de Mayke, que já havia levado o amarelo. Marcelo aproveitou a troca por Ceará para lançar também Júlio Baptista na vaga de Moreno, para segurar a posse no meio e dar cadência, tirar a velocidade do jogo que naquele momento favoreceria ao Santos. Goulart foi fazer a função na frente, mas logo depois sentiria um incômodo e seria trocado por Dagoberto, fazendo Éverton Ribeiro ser o central, com Dagoberto na direita e Júlio na referência.

Oswaldo até tentou colocar Leandrinho na vaga de Alan Santos, abrindo o time num 4-3-3 com um volante só para tentar diminuir. Mas o Cruzeiro ensaiou duas vezes o contra-ataque, errando sempre o último passe. No terceiro, Éverton passou a Júlio Baptista, que com um drible mágico tirou do carrinho de Dracena antes de completar pro gol e matar o jogo.

Sem espaço

Cruzeiro 1 x 0 Grêmio

Já na partida contra o Grêmio, o 4-3-2-1/4-5-1- de Felipão fechou o meio, e o único espaço disponível era o setor de Lucas Silva e Henrique

Na partida contra o Grêmio, porém, a postura do adversário foi diferente. Contra um Cruzeiro sem Moreno por força de contrato e com Júlio Baptista em seu lugar, Felipão fez o que devia ter feito no jogo contra a Alemanha e escalou três volantes, fechando todos os espaços no meio-campo. Além disso, Dudu e Luan, os meias, jogavam abertos em cima dos laterais e voltavam com eles. Apenas o jovem Ronan ficava à frente da linha do meio-campo, fazendo uma espécie de 4-5-1 com o meio em linha sem a bola. A consequência era que os meias celestes não tinham o mesmo espaço que tiveram na partida contra o Santos, dificultando muito as ações ofensivas.

Com 9 homens atrás da bola, o espaço para jogar se encontrava entre a linha divisória e a intermediária ofensiva. Assim, o Cruzeiro chegou mais quando os meias recuavam até este espaço para iniciar a construção, ou quando Henrique e Lucas Silva, que naturalmente jogavam por ali, faziam este primeiro passe. Lucas, no entanto, não estava em um bom dia e errou muitos passes, gerando os contra-ataques perigosíssimos do Grêmio que paravam nas mãos de Fábio. O primeiro tempo terminou com o placar em branco muito por conta da atuação do capitão celeste.

Na volta, Marcelo mandou Alisson a campo na vaga de Willian, que não fez bom primeiro tempo, errando muitos passes e interrompendo a construção do ataque. Alisson tinha a missão de não só manter a intensidade e dar profundidade do lado esquerdo. Do lado oposto, Felipão trocou Riveros por Edinho, por lesão. Agora o sistema parecia bem mais um 4-1-4-1, com Edinho bem próximo da defesa e fixo entre as linhas.

Com 3 minutos, Edinho foi amarelado, mas Lucas Silva e Henrique também foram — um sinal de um jogo brigado no meio. Temendo o vermelho, Marcelo mandou Nilton na vaga de Lucas, e depois queimou a regra três aos 17 minutos, com Dagoberto na vaga de Júlio Baptista. Goulart avançou para a referência, Éverton Ribeiro foi ser o central e Dagoberto entrou pela direita. O jogo continuou encardido, e só aí Felipão sentiu segurança para tentar algo mais. Tirou Ronan e lançou Fernandinho, ex-rival, como ponteiro. Com isso, Luan foi ser o centro-avante. A tentativa era a clássica: dar velocidade nos contras.

Mas as alterações não mudaram a partida. O Cruzeiro continuou tendo a posse da bola, e o Grêmio continuou fechadinho. A equipe gaúcha parecia feliz por empatar sem gols com o melhor time do Brasil fora de casa — de fato, teria sido um grande resultado. Teria, se Dedé não fizesse jogada de lateral e acertasse um dos dois cruzamentos certos do Cruzeiro em toda a partida. Dagoberto, que naquele momento era o ponteiro esquerdo, cabeceou fora do alcance de Grohe e fez o gol que valeu 5 pontos de folga na liderança. Felipão ainda tentou lançar Alan Ruiz, meia, na vaga de Riveros, mas a área de Fábio não foi mais ameaçada.

Demolição de muros

Tanto Santos como Grêmio mostraram formas de se tentar jogar contra o Cruzeiro no Mineirão. Oswaldo confiou em Robinho para decidir, pois abriu o meio-campo para deixá-lo sem responsabiliade defensiva. Arriscou e perdeu, pois Robinho não fez boa partida e o espaço fornecido foi fundamental na vitória por 3 a 0. Portanto, o Santos foi um bom exemplo de como não se portar.

Já Felipão não quis arriscar. Usou a política do “erro zero” na defesa, para pelo menos deixar o placar em branco e quem sabe conseguiu um gol na frente. Quase um anti-futebol, onde o importante é não perder. Considerando que o Cruzeiro impõe respeito, é compreensível. E apesar do resultado não ter sido favorável, a postura gaúcha na partida de quinta à noite abre um precedente perigoso para que outros treinadores tentem fazer o mesmo.

Existe uma máxima no futebol que diz: por mais que uma equipe seja inferior técnica e taticamente a outra, pelo menos uma ou duas chances de gol ela terá. E no livro “Os Números do Jogo” é mostrado, por análises estatísticas, que a chance de vitória aumenta mais quando se evita sofrer o primeiro gol do que quando se marca o primeiro gol. Esses dois fatos corroboram com a teoria do “erro zero”: defender-se bem e marcar nas poucas chances que aparecerem é uma estratégia válida.

É claro que nem todos os adversários terão a qualidade defensiva que o Grêmio teve, nem jogadores técnicos e rápidos o suficiente para ameaçar em contra-ataques. Mas esse futebol negativo, de reação, é o que podemos esperar de quase todos os adversários do Cruzeiro no Mineirão, e até de alguns outros times na sua própria casa.

E o Cruzeiro, como melhor time do Brasil, tem a obrigação de desmantelar esses muros — para o bem do futebol brasileiro.



Criciúma 0 x 0 Cruzeiro – Enfrentando um 3-4-4-1-1

Este é um blog que fala principalmente de tática no futebol, e de vez em quando sobre estatísticas e gráficos também relacionados a futebol. A premissa principal é falar sobre essas coisas e somente sobre essas coisas, apenas dando pinceladas em outros assuntos que são importantes para os dois principais. Entretanto, quando o plano de jogo, a estratégia, a tática e a técnica dão todos certos, mas o resultado não vem assim mesmo, somente duas coisas explicam. Uma é o acaso do futebol, que de fato existe. Outra é a arbitragem.

Assim como o placar verdadeiro da partida foi 2×0, com gols de Marquinhos e Willian, o título deste texto é uma referência ao sistema tático “real” da equipe catarinense. Ora, isso dá mais de dez jogadores de linha, mas quando se consegue passar da defesa e do goleiro, aí foi preciso vencer outro trio: o de apitadores. E dessa vez o Cruzeiro não conseguiu vencer essa última “linha defensiva”.

Escalações

Criciúma no 4-4-1-1: volantes Serginho e Martinez causavam tripla marcação no lado da jogada e Paulo Baier ocupava o volante, forçando o passe de retorno aos zagueiros do 4-2-3-1 cruzeirense

Criciúma no 4-4-1-1: volantes Serginho e Martinez causavam tripla marcação no lado da jogada e Paulo Baier ocupava o volante, forçando o passe de retorno aos zagueiros do 4-2-3-1 cruzeirense

Sem Henrique, suspenso e lesionado, Nilton voltou à volância ao lado de Lucas Silva, reeditando a parceria que deu muito certo no ano passado. O goleiro Fábio ainda foi protegido pela sua linha defensiva, ainda com Mayke à direita, e também com Egídio na esquerda, e Dedé e Léo na zaga central. Mais à frente, Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Marquinhos articulavam coletivamente com a ajuda de Marcelo Moreno na referência: o 4-2-3-1 imutável de Marcelo Oliveira.

O técnico do Criciúma, Wagner Lopes, sabia do poder de criação celeste e articulou seu time num 4-4-1-1 com muita movimentação defensiva, sempre para ter superioridade numérica no seu campo. A última linha de proteção da meta de Luís tinha Eduardo à direita, Fábio Ferreira e Gualberto centralizados e Giovanni à esquerda; e a segunda linha tinha João Vitor à direita, os (velhos conhecidos) volantes Serginho e Martinez pelo centro e do lado esquerdo fechava o atacante Silvinho. Tudo para compensar a falta de combatividade do veteraníssimo Paulo Baier, que se limitou a ocupar os volantes junto com o atacante solitário Gustavo.

Sem espaço

O plano de marcação do treinador do Criciúma funcionou bem no primeiro tempo, e consistia de três partes. Primeiro, aproximar as duas linhas, evitando o trânsito entre elas e o espaço — com a diferença de que era a linha média que se aproximava da de defesa, e não o contrário. Ou seja, o Criciúma marcou em bloco médio-baixo. Segundo, pressionar imediatamente o lateral do Cruzeiro que recebesse a bola, subindo o bote dos meias abertos e fazendo a rotação, de forma que o meia aberto do lado oposto fechava no centro. E terceiro, bloquear o passe de retorno para os volantes do Cruzeiro, ocupando-os com Paulo Baier e o atacante Gustavo, para evitar a inversão rápida para o lado fraco da marcação.

Essas medidas forçavam o Cruzeiro a voltar o lance para os pés dos zagueiros Dedé e Léo, que acabaram por ficar encarregados do primeiro passe. Nesse ponto, Henrique fez falta, pois vinha fazendo muito bem esse papel. Além disso, quando o Cruzeiro conseguia engatar os passes mais rapidamente, o movimento lateral dos volantes centrais, Serginho e Martinez, superlotava o lado da jogada, fazendo não dois contra dois mais sim três contra dois e um na sobra: o lateral pegava o ponteiro mais à frente, o ponteiro e o volante pegavam o lateral, que ainda tinham o outro volante na cobertura cercando Ricardo Goulart.

Mapa de passes do 1º tempo ilustra como foi difícil entrar na bem postada defesa catarinense e Criciúma usando muitas bolas longas

Mapa de passes do 1º tempo ilustra como foi difícil entrar na bem postada defesa catarinense e Criciúma usando muitas bolas longas

Mover, mover

A única forma de sair desse ferrolho seria se movimentar. E muito. Os meias do Cruzeiro se movimentaram bem, mas não foi suficiente. E aqui, cabe a cobrança: não adianta culpar o posicionamento adversário pela falta de gols. Cabe ao Cruzeiro, como melhor time do país, encontrar os espaços ou senão criá-los.

Não foi capaz, e o primeiro tempo se esvaiu com apenas três “meias chances” para o Cruzeiro: um contra-ataque desperdiçado em um chute ruim de Marquinhos; um cruzamento de Mayke que Moreno resvalou e achou Goulart, que finalizou duas vezes em cima do goleiro Luís, e a jogada que deveria ter sido gol: em rebote da cobrança de falta de Dedé, Nilton devolve pra área de cabeça e acha Goulart, que divide em lance normal com Fábio Ferreira. Marquinhos completa para o gol e marca, mas o Sr. Jaílson viu um empurrão inexistente de Goulart.

Do outro lado, Fábio devia ter pago ingresso. Pois simplesmente assistiu ao jogo em um lugar privilegiado do estádio Heriberto Hulse.

Fábio foi espectador privilegiado: dos 4 chutes do Criciúma no 1º tempo, nenhum foi na direção certa

Fábio foi espectador privilegiado: dos 4 chutes do Criciúma no 1º tempo, nenhum foi na direção certa

Observação e trocas

A segunda etapa começou sem trocas. Alguns amigos questionaram nas redes sociais, entendendo que Marcelo deveria fazer as trocas já no intervalo. A ideia, no entanto, era observar a postura dos catarinenses no segundo tempo. Caso eles saíssem um pouco mais, abririam mais espaços e o time que iniciou a partida poderia render mais; caso contrário, uma substituição teria que ser feita.

E foi o que aconteceu. No início do segundo tempo, o Criciúma até saiu um pouco mais, mas apenas nas bolas paradas, mandando uma artilharia aérea na área do Cruzeiro para ver o que acontecia. Um futebol ruim, coisa de time sem repertório. A estratégia é válida, mas não é dá preferência deste. O Cruzeiro se viu defendendo mais do que o normal e não conseguia encaixar as sequências de passes. Mas logo o jogo voltou ao modo do primeiro tempo, e Marcelo tomou providências: mandou Willian na vaga de Marquinhos, dando total liberdade para Éverton Ribeiro se mexer por trás do ataque celeste.

A troca teria sido um sucesso se não fosse o árbitro, Sr. Jaílson, ter entrado em ação novamente. Éverton Ribeiro apareceu na esquerda, tabelou com Egídio e aplicou um corte seco no zagueiro, finalizando no ângulo oposto, tirando de Luís. O arqueiro do Criciúma ainda conseguiu encostar na bola, que beijou caprichosamente a trave e voltou nos pés de Moreno, em totais condições. Ele pegou mal o rebote, mas Willian, atrás da linha da bola, completou para as redes. O assistente viu impedimento.

Baier sai, Éverton recua

Cruzeiro antes da última troca: Willian próximo a Goulart e Ribeiro armando de trás, com Mayke pouco acionado pelo lado direito

Cruzeiro antes da última troca: Willian próximo a Goulart e Ribeiro armando de trás, com Mayke pouco acionado pelo lado direito

Wagner Lopes só tinha o contra-ataque como opção. Por isso, Paulo Baier teve que dar seu lugar ao veloz Lucca — aquele mesmo que passou pelo Cruzeiro no início do ano. O jovem foi jogar aberto à direita, centralizando Gustavo de vez. Silvinho manteve-se na esquerda, e estava configurado um 4-3-3, mas com três volantes preenchendo o meio. Isso acabou abrindo um espaço à frente da defesa do Cruzeiro, que era por onde Paulo Baier transitava. Quase que imediatamente, Éverton Ribeiro sentiu o espaço e já começou a buscá-lo, para armar o time de trás. O Cruzeiro passou a dominar a posse de bola ainda mais.

Sentindo o mesmo espaço, Marcelo Oliveira mudou pra vencer: oficializou Éverton Ribeiro como o “Pirlo cruzeirense”, tirando Lucas Silva e lançando Dagoberto no jogo. O camisa 11 foi para sua posição costumeira à esquerda, mas Willian não foi para a direita, ficou mais próximo de Goulart. Em teoria, Mayke teria campo livre para avançar, mas foi pouco acionado. Assim, o Cruzeiro forçou muito pela esquerda.

Wagner Lopes trocou de centroavante, uma troca física, por cansaço. O sistema não foi alterado. Faltando cinco minutos, Marcelo deu sua última cartada: Alisson na vaga de Moreno, mandando Goulart para a área. Agora havia cinco jogadores leves na frente e dois laterais apoiadores. Não se pode ser mais ofensivo do que isto. Porém, como definiu o próprio treinador na coletiva pós-jogo: faltou o “algo mais”, aquele toque final caprichado para chegar ao terceiro gol, que seria o primeiro válido. Infelizmente o zero teimou em permanecer no placar.

Mapa de passes do Cruzeiro no segundo tempo mostra como o time procurou muito mais o lado de Egídio do que o de Mayke

Mapa de passes do Cruzeiro no segundo tempo mostra como o time procurou muito mais o lado de Egídio do que o de Mayke

A oscilação normal e a “forçada”

Oscilar num campeonato tão longo e tão equilibrado é normal. Como dito pelo Marcelo Bechler: no Brasil não há nenhum Bayern. Perder pontos considerados mais fáceis é normal aqui. O próprio Cruzeiro fez isso no ano passado. Porém, encaixou uma sequência de 12 jogos sem perder, sendo 11 vitórias, e isso sim esteve fora da normalidade: o Cruzeiro de 2013 foi espetacular. Uma sequência que começou justamente a partir da 15ª rodada, a próxima do certame atual.

Mas a oscilação “normal” do Cruzeiro terminou no sábado. O time jogou o suficiente para fazer dois gols e voltar do sul com mais três pontos. Mas a arbitragem não deixou. E já são sete pontos pelo caminho: 2 contra o São Paulo (a falta invertida no último lance do jogo que gerou o gol de empate), 3 contra o rival citadino (os pênaltis, o inexistente marcado contra e o claro e cristalino não marcado a favor, além do impedimento ridículo da bandeirinha bonitona) e mais 2 agora.

A atuação foi um pouco abaixo do que a apresentada na última partida, mas mesmo assim foi suficiente pra vencer o Criciúma. Taticamente, não há do que reclamar: Marcelo mexeu bem e nos momentos certos, fez a leitura correta da partida. Se a vitória não veio, foi só por conta dos fatores externos já citados. Se o campeonato já seria mais difícil este ano por que os adversários diretos estão melhores, estes fatores fazem o bi se tornar ainda mais difícil. Ainda mais depois de já ter vencido o certame anterior. E ainda mais por ter nos encalços times que têm força política nos bastidores da entidade que rege o futebol.

Mesmo assim, o Cruzeiro mostrou novamente que tem bola pra vencer os 19 adversários do campo — e também os outros fora dele.



Números: cuidado com eles! A eficiência de passe dos jogadores do Cruzeiro

É costume dizer que os números são “frios”. Em outras palavras, os números contam uma verdade única e incontestável. Porém, se colocados da maneira correta, números de qualquer natureza podem contar somente uma parte da história, ou a parte da história que mais lhe convier.

Um pequeno exemplo: suponha que havia dois hospitais em uma cidade, e o prefeito foi lá e construiu mais um. Candidato à reeleição, o prefeito diz à população que aumentou em 50% o número de hospitais. Um número “impressionante”. Mas o candidato de oposição pode usar o mesmo dado, contado de forma diferente, e dizer que o atual prefeito construiu “apenas” um hospital. Um caso clássico de números relativos contra absolutos que acontece em qualquer pleito.

No futebol não é diferente. Dia desses, o perfil cruzeirense da Footstats, a maior empresa de estatísticas futebolísticas do Brasil, publicou o seguinte no Twitter:



Nada mais do que a verdade: Éverton Ribeiro é o cruzeirense que errou mais passes. Ponto. Mas essa análise não diz nada se não for mais profunda. Deve-se levar em conta, também, o total de passes tentados. Afinal, quem tenta mais passes, naturalmente erra mais passes no número absoluto. Para dar um exemplo simplório: se uma equipe A tenta 50 passes e erra 10, enquanto a equipe B tenta passar a bola 200 vezes e erra 20, a equipe B erra mais no total (20 contra 10), mas em eficiência de passes, a equipe B é melhor (90% contra 80%).

Eficiência de passes

Eficiência de passes dos jogadores do Cruzeiro até a 13ª rodada. Em branco, os jogadores que tentaram menos de 100 passes

Eficiência de passes dos jogadores do Cruzeiro até a 13ª rodada. Em branco, os jogadores que tentaram menos de 100 passes

Em termos de eficiência, de acordo com os números da própria Footstats, a maioria dos jogadores está numa faixa entre 80% e 95% de acerto. Fábio tende naturalmente a liderar o quesito, pois qualquer passe errado do goleiro pode resultar em gol adversário e portanto os passes mais seguros são os escolhidos, aumentando muito o índice. Isso se expande para os jogadores de linha: quanto mais à frente o posicionamento de um jogador, maior a probabilidade de erro. Os zagueiros em média tem mais eficiência que os volantes, que por sua vez tem uma taxa de acerto maior que os meias e assim por diante. Exploraremos isso mais à frente no texto.

Além disso, alguns desses números tem que ser relativizados. É o caso de Samudio, Júlio Baptista e Manoel. Estes jogadores estiveram em campo por apenas um jogo, ou nem isso no caso de Samudio e Júlio, e isso acaba por desviar os números demais. Dessa forma, retiramos os jogadores que tem menos de 100 tentativas de passe da análise (Júlio, Samudio, Borges, Tinga, Alisson e Manoel).

De fato, vemos que os jogadores que tem menor taxa de acerto são os jogadores de frente, onde naturalmente há menos espaço para completar um passe. E Éverton Ribeiro é o terceiro menos eficiente dentre os jogadores com mais de 100 passes, de certa forma comprovando o tuíte da Footstats acima. Mas isso também não conta a história completa, como veremos adiante.

Relação passes certos x errados

Na relação entre passes certos e errados, vemos como os jogadores se concentram uma faixa diagonal: quem tenta mais, naturalmente erra mais no número absoluto, mas também tem mais acertos

Na relação entre passes certos e errados, vemos como os jogadores se concentram uma faixa diagonal: quem tenta mais, naturalmente erra mais no número absoluto, mas também tem mais acertos

O eixo vertical representa os passes errados, ou seja, quanto mais pra cima no gráfico está um jogador, mais passes ele erra, em número absoluto. E o eixo horizontal representa os passes certos — da mesma forma, quanto mais à direita no gráfico, mais passes o jogador completa com sucesso, novamente em número absoluto.

Reparem que, de fato, Éverton é o jogador que mais errou passes no Cruzeiro, pois é o ponto que está mais acima que todos os outros. No entanto, ele também acerta muitos passes, sendo o terceiro do time neste quesito, empatado com seu companheiro Ricardo Goulart. Os dois jogadores que acertam mais são Henrique e Egídio. Como já dito, é preciso considerar que Ribeiro e Goulart jogam em regiões do campo onde há muito menos espaço, ao contrário de Henrique e Egídio. Assim, podemos dizer que são dois dos melhores passadores do time. Além disso, na maioria das vezes é deles a responsabilidade de dar o passe final, aquele que deixa o companheiro na cara do gol, e que quase sempre é um passe de maior dificuldade do que os “normais”. Por isso, a taxa de erros é ligeiramente maior.

Outro ponto a se destacar é que os jogadores se concentram numa faixa diagonal que vai do canto inferior esquerdo ao canto superior direito do gráfico. Isso é explicado facilmente pela máxima: quem tenta mais passes, erra mais vezes, mas também acerta mais do que os outros.

Qualidade x quantidade

Entre as equipes, após os dados da 13ª rodada serem contabilizados, o Cruzeiro é o segundo time que mais tenta trocar passes do Brasileirão, com 5457 tentativas, atrás apenas do São Paulo (5590). Em eficiência, o Cruzeiro é o sexto, com 90,17% de acerto. Fluminense (91,66%), Bahia (91,20%), Internacional (90,96%), Atlético-MG (90,89%) e Flamengo (90,78%) estão à frente. Nesta página você pode ver este gráfico e brincar com outros números das equipes.

Vendo estes números, cabe a pergunta: como é possível que o Flamengo, lanterna do campeonato, tenha mais eficiência em passes do que o Cruzeiro, líder absoluto da competição — 90,78% contra 90,17%? A explicação é simples: o número de passes trocados e a eficiência também não contam toda a história. Imagine que os zagueiros de um time ficam trocando passes entre si durante os 90 minutos e o time não tente uma jogada mais aguda. No fim, a equipe terá índices astronômicos de posse de bola e de passes certos, com eficiência de quase 100%, mas o placar terá ficado em branco.

Portanto, além de quantificar, é preciso qualificar a estatística. Quantos desses passes foram no campo de defesa do adversário? Ou melhor, quantos desses passes foram em direção ao terço final do campo, onde é mais difícil completá-los? Quantos foram para frente, ao invés de serem laterais ou para trás? Infelizmente, no momento a Footstats não fornece publicamente a localização dos passes. Talvez nem faça este levantamento ainda.

Há outros fornecedores de dados que fazem esta qualificação. Os dados dos sites WhoScored e Squawka são da Opta, que é a líder nesse setor na Europa e no mundo. No Squawka, é possível ver quem deu o passe, de que lugar do campo para qual lugar do campo, em que minuto do jogo ele foi feito, se ele foi completado, se criou uma chance de gol ou se foi uma assistência (ou nenhum dos dois), se foi de cabeça ou não, se foi longo ou curto — vários qualificadores que ajudam na análise.

Números: cuidado com eles

É claro que os números só dizem a verdade. Mas podem não dizer toda ela. Dependendo da forma em que são colocados, podem esconder uma parte da realidade. Qualquer análise simplista, como a do tuíte acima, pode gerar falsas impressões sobre um jogador ou equipe. Éverton Ribeiro é um dos jogadores mais técnicos do Cruzeiro, se não o mais técnico; portanto, o número absoluto de passes errados, se é o maior do time, diz pouco sobre a qualidade do jogador.

Sob a mesma ótica, também não gosto muito dos famosos “números do jogo” que as emissoras colocam nos intervalos das transmissões. Ali também consta o número de passes errados absoluto, e não a eficiência. A estatística de posse de bola, sem a análise de como foi utilizada essa posse, também não diz muita coisa. Como já dito, um time pode ficar com a bola em seu campo de defesa e não fazer nada com ela.

Penso que as análise de números no futebol no jornalismo esportivo em geral devem ser feitas com mais cuidado. Simplesmente somar as quantidades de qualquer coisa sem qualificar os números já não é o bastante e pouco acrescentam.



Botafogo 1 x 1 Cruzeiro – O futebol é mais importante que o resultado

O Cruzeiro foi ao Maracanã sabendo do tamanho da crise do Botafogo. Mesmo assim, tinha um discurso de respeito ao adversário. Quando a bola rolou, parecia que era o time celeste que jogava em casa: controle da posse de bola e de território, jogando bom futebol e buscando a vitória a todo instante. Foi superior técnica e taticamente, anulando a maioria das poucas ameaças que sofreu e procurando criar espaços diante da retranca carioca.

Não foi suficiente desta vez, muito por conta de um único erro coletivo e também do goleiro adversário, mas valeu. Pois não foi uma busca pelo resultado a qualquer custo, de qualquer jeito: existe uma filosofia por trás. E o Cruzeiro deste sábado foi o verdadeiro Cruzeiro, e isso é o mais importante.

Sistemas e nomes

O 4-4-1-1 do Botafogo bloqueou os laterais celestes e forçou o 4-2-3-1 celeste a jogar pelo centro; Edilson era o puxador de contras

O 4-4-1-1 do Botafogo bloqueou os laterais celestes e forçou o 4-2-3-1 celeste a jogar pelo centro; Edilson era o puxador de contras

Para este jogo, Marcelo Oliveira lançou Mayke na vaga de Ceará, lesionado, pelo lado direito da linha defensiva do goleiro Fábio. Dedé e Léo repetiram o miolo e Egídio fechava o lado canhoto. Lucas Silva e Henrique mais uma vez fizeram a parceria na proteção e apoio ao ataque, se juntando ao trio de criativos: Everton Ribeiro à direita, Ricardo Goulart como central e Marquinhos à esquerda. Moreno completava o escrete na referência.

Vágner Mancini mudou em relação às últimas partidas. Ao invés do 4-3-1-2 losango esperado, para dar suporte a Carlos Alberto como criador no meio, o Botafogo entrou num 4-4-1-1, que variava para 4-2-3-1 com a bola. Jefferson teve Lúcio à direita e Júnior César à esquerda, com Bolivar e Dória protegendo o centro. Na segunda linha, Edilson fechava o lado direito, Bolatti e Gabriel protegiam a entrada da área e Rogério, estreante, foi escalado para fechar o lado esquerdo. Carlos Alberto, sem responsabilidade defensiva, ficava logo atrás de Emerson, que se movimentavam para os lados.

Flancos fechados

O Botafogo foi humilde e reconheceu a superioridade técnica do Cruzeiro, desde o início deixando claro qual era sua proposta de jogo: bloquear o Cruzeiro e partir em contra-ataques. Assim, deixava a bola com o Cruzeiro e não pressionava no alto do campo. Carlos Alberto apenas cercava Henrique e Lucas Silva, e Emerson fazia o mesmo com os zagueiros celestes.

Se a bola chegava a um dos laterais, no entanto, o Botafogo imediatamente subia a marcação. A ideia era forçar o jogo celeste pelo centro, e foi o que aconteceu: as duplas pelos lados fecharam os espaços de Mayke e Egídio. Sem a saída pelos lados, o Cruzeiro tinha duas opções pra compensar: invertendo o lado da jogada — pois os defensores do lado oposto compactavam o time horizontalmente para tirar o espaço dos toques rápidos dos meias celestes — ou os meio-campistas se movimentavam mais, dando mais opções de passe.

Mas as duas opções envolviam velocidade, e o Cruzeiro não aplicou velocidade suficiente para sair do ferrolho botafoguense. Tentou usar a solução conhecida: trocar passes rápidos pelo centro. Não havia espaço. Parecia que era o Cruzeiro que jogava em casa, tal era a proposta defensiva do adversário.

Erros e infelicidades

O Botafogo pouco chegou ao ataque. A rigor, Fábio só fez uma defesa difícil, em cobrança de falta de Edilson — bola parada. A estratégia com a bola era dar velocidade, principalmente com Edilson pela direita nas costas de Egídio. Incrível como todos os treinadores adversários tentam explorar essa brecha no sistema defensivo celeste.

Só não fez outra porque escorregou na hora do gol local. Mas o erro neste lance foi generalizado: Marquinhos e Egídio deixaram Lúcio escapar pela direita, fazendo Léo ter que sair na cobertura. O lateral cruzou e Dedé não conseguiu ganhar de Edilson, que nem cabeceou forte. A bola veio fácil, mas o escorregão tirou a possibilidade de Fábio espalmar.

A vantagem no placar fez o Botafogo se fechar ainda mais e praticamente abdicou do ataque. Tanto é que só foi finalizar de novo já na metade do segundo tempo, quando o jogo já estava empatado. De sua parte, o Cruzeiro jogou o seu futebol, sem afobação. Tocou a bola, tentou achar espaços, se movimentou, mas não foi suficiente para empatar ainda no primeiro tempo.

Em destaque, o momento do jogo em que Fábio foi mero espectador: depois de conseguir o gol, o Botafogo não chutou nenhuma vez até levar o empate

Em destaque, o momento do jogo em que Fábio foi mero espectador: depois de conseguir o gol, o Botafogo não chutou nenhuma vez até levar o empate

Alugando o campo ofensivo

O time do empate era uma espécie de 4-3-3 com Ribeiro armando de trás, Willian e Dagoberto nas pontas e Lucas Silva sozinho na volância

O time do empate era uma espécie de 4-3-3 com Ribeiro armando de trás, Willian e Dagoberto nas pontas e Lucas Silva sozinho na volância

O segundo tempo começou sem mudanças, tanto em peças quanto nos sistemas e nas propostas. Aos dez, a entrada criminosa de Emerson em Henrique lesionou o volante e foi a deixa para Marcelo abrir o time: tirou Henrique e lançou Willian como ponteiro direito, recuando Éverton para ser um armador recuado. No mesmo movimento, Dagoberto substituiu Marquinhos: menos poder de marcação, mas mais verticalidade e drible. Com a proposta do Botafogo, não era tão arriscado.

As trocas surtiram efeito e Cruzeiro alugou o campo ofensivo. Willian mandou no travessão antes da blitz que resultou no gol celeste. Éverton Ribeiro teve que cruzar duas vezes, com os zagueiros na área todo o tempo, para achar Dedé que fez a deixadinha para Léo. O zagueiro fez um gol típico de centroavante: girou e bateu sem olhar. A bola bateu no travessão e quicou dentro da meta.

Com o empate, o Botafogo voltou à estratégia do zero a zero: sair em contra-ataques. E desta vez havia espaço, pois com um volante só a cobertura dos laterais é mais difícil. Mancini — que àquela altura já havia trocado Bolatti por Rodrigo Souto sem modificar nada — sacou Rogério e lançou Júlio César, tentando replicar a função de Edilson do outro lado: um “assistente de lateral” que puxa contra-ataques. Marcelo respondeu com Nilton na vaga de Moreno, avançando Goulart para a referência.

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro jogou o tempo todo no campo adversário; foi a partida em que o Cruzeiro mais trocou passes em todo o campeonato

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro jogou o tempo todo no campo adversário; foi a partida em que o Cruzeiro mais trocou passes em todo o campeonato

O fator Jefferson

Risco controlado, o Cruzeiro seguiu atacando, e a bola não saía do campo de ataque. Quando o Botafogo conseguia interceptar, só respondia com chutões para frente, onde não havia ninguém de cinza. Vágner Mancini ainda tentou dar um novo fôlego para a estratégia de contra-ataques com Zeballos na vaga do inoperante Carlos Alberto, mas não funcionou.

Já o time celeste buscava a vitória, mas não a qualquer custo. Com calma, mas com velocidade, tocando a bola pelo chão, sem muitos chuveirinhos na área. Só tentava o jogo aéreo quando era bola parada. Nilton cabeceou duas vezes: na primeira Jefferson milagrou, e na segunda beijou caprichosamente a trave direita. Depois, o Cruzeiro fez uma espécia de contra-contra-ataque: o time local errou sua tentativa de pegar a defesa celeste aberta e o Cruzeiro aproveitou o espaço para realizar um contra-ataque lindíssimo, partindo do meio-campo e levando a bola até dentro da área, onde Éverton perdeu a bola.

O Cruzeiro tentou 18 vezes contra a meta de Jefferson: um gol (preto), duas na trave (azul) e seis defendidas por Jefferson (vermelho escuro)

O Cruzeiro tentou 18 vezes contra a meta de Jefferson: um gol (preto), duas na trave (azul) e seis defendidas por Jefferson (vermelho escuro)

O Cruzeiro seguiu tentando, inclusive com Dagoberto no finalzinho, quando Jefferson fez novamente uma defesa espetacular e garantiu o empate.

Jogar bem sempre: somos Cruzeiro

Se no futebol os resultados fossem decididos como na ginástica artística ou nos saltos ornamentais, onde há uma junta de juízes que dão suas notas para quem foi melhor, certamente o Cruzeiro teria saído vencedor. Foi a equipe que buscou o gol a todo instante, não se alterou com o resultado adverso e o mais importante: não foi só na base da raça. Teve técnica e tática, bem aplicadas, e que só não geraram o resultado por que o goleiro adversário foi o melhor em campo.

Mesmo assim, o resultado positivo teria acontecido se o Cruzeiro não tivesse cometido seu único deslize grave na partida. O erro de marcação do lado esquerdo, a falha de Dedé e o escorregão de Fábio foi uma sequência de eventos desafortunados que nos tiraram dois pontos. Deve-se sim tentar corrigir os erros, mas é impossível anulá-los por completo. Nenhum time no mundo consegue fazer uma partida perfeita.

No fim, o que fica é que o Cruzeiro jogou bem, não se conformou com o empate e buscou o resultado, mesmo fora de casa. Postura de time que quer ser campeão novamente. E com bom futebol, que é o mais importante. Quando César Menotti assumiu a Seleção Argentina em 1974, definiu como um de seus mandamentos que “não me interessa ganhar de 1 x 0 com gol de falta; quero vencer por superar futebolisticamente o nosso rival”. Em outras palavras, o que o treinador campeão mundial em 1978 quis dizer é que jogar bem é mais importante que jogar apenas pelo resultado de apenas um jogo. No longo prazo, a filosofia e o bom futebol trarão mais vitórias.

Mas não as garantem. Pos isso, sendo Cruzeiro, prefiro empatar jogando bem do que vencer jogando um futebolzinho chulé.