Palmeiras 1 x 2 Cruzeiro – Se vira nos 30

Você já deve ter ouvido em entrevistas pós-jogo alguns treinadores analisarem o jogo como “de dois tempos distintos”: quando um time domina as ações em uma etapa e o adversário faz o mesmo na outra. De certa forma, foi o que houve na tarde de domingo no Pacaembu, onde podemos dizer que o Palmeiras dominou 45 minutos de jogo e o Cruzeiro controlou os outros 45, mas não coincidiu com o primeiro e segundo tempos.

Arrasador na primeira meia hora, o Cruzeiro se viu forçado ao seu campo com o recuo de Mendieta para a volância palmeirense, e absorveu a pressão durante os quinze finais do primeiro tempo e também nos primeiros trinta do segundo. Depois, o time paulista cansou de tanta intensidade e o Cruzeiro equilibrou novamente as ações, mas apenas para controlar o relógio até o final.

Os dois onze

Até a saída de Eguren, o Cruzeiro empurrou o Palmeiras para sua intermediária com bons passes pelo chão, driblando a intensidade do 4-2-3-1 paulista

Até a saída de Eguren, o Cruzeiro empurrou o Palmeiras para sua intermediária com bons passes pelo chão, driblando a intensidade do 4-2-3-1 paulista

Marcelo Oliveira repetiu o time do triunfo contra o Vitória e armou o mesmo 4-2-3-1 costumeiro: Fábio no gol, Ceará e Egídio nas laterais e Manoel e Léo na zaga central; Henrique e Lucas Silva protegendo a área e dando apoio a Éverton Ribeiro, mais pela direita, Ricardo Goulart, peça chave do sistema, como central, e Marquinhos, teoricamente na esquerda mas se movimentando como nunca. Na referência, Marcelo Moreno.

Novidade no cenário de treinadores brasileiro, Ricardo Gareca, o cabeludo argentino, armou o Palmeiras também num teórico 4-2-3-1, em seu segundo jogo à frente do time paulista. O goleiro Fábio (impostor) foi protegido pelos zagueiros Lúcio e Tobio, estreante. Na direita, Wendel fechava a linha defensiva, e William Matheus fazia o mesmo do lado oposto. A proteção ficou inicialmente por conta de Renato e Eguren, com Mendieta sendo o elemento central do meio-campo. Diferente do Cruzeiro que tem um meia e um atacante como ponteiros, o Palmeiras tinha dois atacantes de ofício nas beiradas: Leandro e Diogo se movimentavam e invertiam a todo momento. Por fim, Henrique ficou mais centralizado à frente.

Intensidade

O jogo começou a mil por hora — para as duas equipes. O Palmeiras já demonstrava que iria correr muito já nos primeiros segundos, quando o Cruzeiro deu a saída e vários jogadores de verde partiram pra cima dos de azul para roubar a bola o mais rápido possível. Um pouco do que o Cruzeiro fazia no ano passado muito bem, e nesse ano tem feito mais esporadicamente e de maneira mais irregular.

Porém, diferente dos adversários celestes no ano passado, isso não deu muito resultado. Pois dessa vez quem recebia a pressão era um time treinado, que sabia tocar a bola por baixo e só apelava para a bola longa como último recurso. Além disso, é provável que a pressão alta seja uma novidade de Gareca para os jogadores palmeirenses, e ela tem que ser bem executada e ter sincronia para funcionar. Se não, um time técnico consegue dar a volta e achar o buraco na marcação.

Na outra ponta do campo, o Cruzeiro respondeu com intensidade ofensiva. Goulart e Ribeiro apareciam sempre, mas Marquinhos se destacou, aparecendo em todos os lugares do campo. Como na ponta direita, onde ganhou do zagueiro em jogo de corpo, deu um tapa com muita técnica para que a bola ficasse inalcançável para o adversário que fazia a cobertura, chegando com tranquilidade e visão de toda a área na linha de fundo, para fazer a assistência, que ainda teve um corta-luz de Moreno, para Goulart se consolidar como artilheiro do certame. E mal deu tempo de comemorar, pois Goulart já sofria falta do lado esquerdo do campo. Falta cobrada magistralmente por Marquinhos, que achou Manoel livre na área para ampliar.

Mendieta recua

Com a lesão de Eguren, Gareca lançou Felipe Menezes e recuou Mendieta, ganhando qualidade no primeiro passe e virando a batalha da posse no meio-campo

Com a lesão de Eguren, Gareca lançou Felipe Menezes e recuou Mendieta, ganhando qualidade no primeiro passe e virando a batalha da posse no meio-campo

A sequência de gols e o domínio das ações aconteceu também porque o Palmeiras não conseguia responder à altura. No meio-campo, Renato e Eguren tentavam marcar Goulart e os volantes celestes que subiram o posicionamento audaciosamente, alugando a intermediária palmeirense. Até dificultavam, mas quando o time da casa recuperava a bola, não conseguiam dar qualidade no primeiro passe. A bola voltava para o Cruzeiro e o ciclo se repetia.

Só quando Eguren se lesionou e Gareca foi obrigado a fazer uma troca que o Palmeiras reacendeu no jogo. Isso porque, ao invés de trocar um volante por outro, o treinador do Palmeiras ousou e lançou Felipe Menezes, meia, que foi jogar como central do 4-2-3-1. Com isso, Mendieta foi recuado para jogar ao lado de Renato, resolvendo o problema da saída de bola.

Com esse movimento, o Palmeiras ganhou o meio-campo de volta. Henrique e Lucas Silva, antes participantes ativos da construção ofensiva, agora não passavam de marcadores puros, com Lucas inclusive sendo amarelado. O jogo passou a ser jogado na outra intermediária e o Cruzeiro só se defendeu, apesar de Fábio não ser ameaçado até o fim do primeiro tempo.

A animação mostra a diferença nos locais de ação das duas equipes: antes da troca de Eguren por Felipe Menezes, concentração na intermediária palmeirense; depois, a ação passa a ser mais no campo celeste

A animação mostra a diferença nos locais de ação das duas equipes: antes da troca de Eguren por Felipe Menezes, concentração na intermediária palmeirense; depois, a ação passa a ser mais no campo celeste

Amarelos e trocas

Marcelo optou por Willian Farias na vaga de Lucas Silva, com medo de uma eventual expulsão. São jogadores muito diferentes: Lucas sai para o jogo e é responsável pelas inversões de bola para o lateral oposto, participando bem da construção. Willian Farias é somente um destruidor de jogadas, com menos qualidade de passe. Henrique, em teoria, seria o volante mais avançado, mas se ocupava com a marcação de Felipe Menezes e não conseguia sair. O resultado é que com a troca o Cruzeiro convidou ainda mais o Palmeiras à frente, que por sua vez aplicou ainda mais intensidade.

Tobio diminuiu em uma jogada de bola parada, e o gol animou os mandantes. A bola só ficava em pés verdes, com o Cruzeiro marcando e jogando pouco. Henrique, Egídio e Willian Farias receberam amarelos e aumentaram muito o perigo do jogo. O Palmeiras rondou a área, finalizava muito, mas sem qualidade. A rigor, Fábio só fez duas defesas, ainda que fossem pequenos milagres, cara a cara com os avançados de verde.

A linha do tempo mostra bem os períodos de domínio: até os 30, Palmeiras só chutou uma vez; e depois dos 30, apenas uma finalização celeste

A linha do tempo mostra bem os períodos de domínio: até os 30, Palmeiras só chutou uma vez; e depois dos 30, apenas uma finalização celeste

O preço da correria

Porém, não existe nenhum time no mundo que consiga manter o ritmo de marcação e a correria por 90 minutos. O Palmeiras conseguiu surpreendentes 75. Nos quinze minutos finais, a marcação já não era tão apertada, e o Cruzeiro pode enfim respirar um pouco mais. O domínio palmeirense não havia se transformado no empate, nem mesmo com Mouche e Érik nas vagas de Mendieta e Leandro, centralizando Diogo. Marcelo se limitou a fazer trocas defensivas, com Samudio na vaga do amarelado Egídio e mais tarde Tinga no lugar de Ribeiro, sem modificar a estrutura.

Sem tanta intensidade do lado paulista, o Cruzeiro equilibrou as ações levou o jogo até o final, controlando a pressão adversária. Tinga ainda teria chance de matar o jogo ao receber passe magistral de Goulart, mas faltou técnica para o cabeludo à frente do goleiro palmeirense. Felizmente, o gol perdido não fez falta.

Conclusões, conclusões

Os números do jogo acabam por explicar bem a partida. Este foi o segundo pior índice de posse de bola do Cruzeiro no campeonato, com 44,17%, maior apenas do que no clássico no Independência na quarta rodada (43,67%). No entanto, mesmo tendo mais a bola em seus pés, o Palmeiras trocou menos passes e com menos qualidade que o Cruzeiro: 347 (82,71% de acerto) contra 360 (87,50%). Isso demonstra a verticalidade do jogo, consequência direta da intensidade: o time paulista não quis ficar trocando bola entre seus zagueiros e cadenciar, nem deixava o Cruzeiro fazer isso.

Mas o que acabou fazendo a diferença no jogo foram as finalizações. Essa foi a partida em que o Cruzeiro menos finalizou contra a meta adversária: apenas 7 vezes. O Palmeiras atentou contra a meta de Fábio mais que o dobro: 15. Porém, a qualidade das conclusões foi inversa: dos 7 chutes celestes, 2 foram pra fora, 3 foram defendidos e 2 entraram. Já o Palmeiras só conseguiu converter um em gol, com Fábio defendendo outros três: nada menos do que 11 finalizações foram para fora. Um aproveitamento de apenas 26,67%, contra 71,43% celestes — o maior índice da rodada e de todo o campeonato até aqui.

Méritos e amadurecimento

De tempos em tempos falo aqui que não acredito em resultados injustos no futebol. Depois do jogo vi um famoso comentarista (que é palmeirense), cuja opinião respeito muito, dizer que o Palmeiras merecia o empate. Eu discordo. O Cruzeiro teve méritos de fazer dois gols durante seu período de domínio, e ainda teve chances para fazer mais. Já o Palmeiras só conseguiu um, também porque o Cruzeiro teve méritos em se defender.

Mas há que se ressaltar que o Palmeiras empurrou o Cruzeiro para seu campo com seus próprios méritos. Controlou os nervos depois de ficar dois gols atrás do time que é líder, ganhou a batalha da posse no meio-campo e pressionou. Errou muitos passes e finalizações, é verdade, mas isso também é parte do jogo. O Cruzeiro foi mais feliz nesses fundamentos, e talvez por isso tenha vencido, com justiça.

Portanto, não se trata de analisar a partida somente pelo lado celeste, dizendo que o Cruzeiro recuou demais. Há jogos em que isso não será opção do Cruzeiro, como estratégia para distanciar as linhas adversárias e ter espaço para o jogo rápido e rasteiro que lhe é característico. Por vezes, o adversário impõe esta intensidade — e isso acaba por testar o equilíbrio do time, que mostrou saber se defender bem diante de tal postura do Palmeiras. Também teve méritos em conseguir sair tocando pelo chão, com qualidade, diante da pressão alta dos paulistas, o que é animador.

Sintomas de um time mais maduro — e isso pode fazer a diferença em um certame tão difícil.



Cruzeiro 3 x 1 Vitória – O Mineirão voltou a ver bom futebol

Acabou a Copa e os trabalhos voltam no Constelações. Copa essa que, mesmo com o fiasco brasileiro, foi uma das melhores em termos técnicos e táticos que este blogueiro já viu. Só o Brasil mesmo ficou atrás nesses quesitos.

Mas como este blog fala só do Cruzeiro, vamos ao que interessa. Primeiro uma rápida análise dos reforços, e depois as notas sobre a volta do Cruzeiro ao nacional.

Reforços

O Cruzeiro não ficou parado durante o Mundial. Além dos amistosos nos EUA, o clube contratou o zagueiro Manoel, que estava no Atlético/PR, e os atacantes Marquinhos, do Vitória, e Neilton, do Santos.

Manoel é uma excelente contratação. Zagueiro técnico e com bom tempo de bola. Perfil ideal para zagueiros no time celeste. Se o Cruzeiro já tinha a melhor zaga titular do país, com Dedé e Bruno Rodrigo, agora passa a ter a melhor zaga reserva também. Apenas uma nota tática: dos quatro zagueiros, somente Bruno Rodrigo está acostumado a jogar pelo lado esquerdo. Todos os outros tem preferência em ficar mais próximos de Ceará ou Mayke, e de acordo com o observado nos amistosos nos EUA, a prioridade é de Dedé, depois de Manoel e depois Léo. Ou seja, Dedé sempre jogará pelo lado direito. Manoel só jogará pela esquerda se fizer dupla com Dedé, enquanto Léo só jogará pela direita se fizer dupla com Bruno Rodrigo.

Marquinhos e Neilton são jogadores com características parecidas. São atacantes ponteiros, velozes e leves, e em tese jogarão na linha de três meias do 4-2-3-1 preferido pelo time celeste, muito provavelmente pelo lado esquerdo, já que Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart são incontestáveis quando estiverem disponíveis. Mas em caso de suspensão, também podem jogar pela direita. Marquinhos tem mais experiência, enquanto Neilton, acredito eu, veio para ser lapidado e se integrar lentamente. É mais uma contratação de longo prazo, acredito.

Retorno do Brasileirão

Quatro dias após a Alemanha levantar seu quarto caneco, era a vez do Cruzeiro continuar a busca pelo seu tetra. E não poderia haver um time melhor para a tarefa de exorcizar o Mineirão, palco do maior vexame da história da seleção nacional, do que o Cruzeiro, campeão brasileiro com futebol ofensivo e com sobras.

E, apesar do outro time vestir rubro-negro, como naquele fatídico dia, o Cruzeiro não fugiu à responsabilidade. Diante de um Vitória muito bem armado por Jorginho, conseguiu uma vitória difícil, mas que acabou por premiar o time que buscou o gol em detrimento da equipe que entrou apenas para se defender.

Escalações iniciais

Cruzeiro no tradicional 4-2-3-1 que encaixou na marcação do 4-1-4-1 do time baiano, com perseguições individuais a cada jogada

Cruzeiro no tradicional 4-2-3-1 que encaixou na marcação do 4-1-4-1 do time baiano, com perseguições individuais a cada jogada

Marcelo Oliveira lançou a campo o 4-2-3-1 tradicional, com o gol do capitão Fábio sendo protegido por Manoel e Léo Completando a linha defensiva, Ceará mais marcador pelo lado direito e Egídio mais apoiador pela esquerda, em acordo com as suas características. Henrique e Lucas Silva faziam o doblete no meio-campo defensivo, dando suporte ao trio criativo formado por Éverton Ribeiro, partindo da direita e circulando, Ricardo Goulart, o central mais móvel do Brasil, e Marquinhos, mais agudo pela esquerda mas invertendo com seus companheiros meias. Na frente, Marcelo Moreno segurava os zagueiros.

Já o Vitória de Jorginho veio para se defender com duas linha bem próximas e um volante entre elas — o famoso 4-1-4-1. A linha defensiva que defendia a meta de Wilson tinha Ayrton pelo lado direito e Danilo Tarracha pelo lado esquerdo, e Alemão e Kadu no miolo de zaga. Entre as linhas, Adriano fazia a “sobra do meio-campo”, formado por Caio à direita, José Welison e Josa mais centralizados e Richarlyson — ele mesmo — fechando o lado esquerdo. Na frente, solitário, Dinei era o único sem responsabilidades defensivas.

Encaixe

Como é possível ver no esquema acima, essas duas formações se encaixam perfeitamente no meio-campo, e nas duas pontas sempre a dupla de zaga fica contra o centroavante solitário, garantindo a sobra. Porém, a postura sem a bola dos dois times era diferente: enquanto o Cruzeiro subia a marcação e pressionava a saída baiana mais intensamente, o Vitória preferia deixar a dupla de zaga celeste trocar passes com liberdade.

Porém, assim que a bola chegava em outro jogador que não fosse Manoel ou Léo, um dos jogadores do time visitante subia para pressionar o homem da bola. Se o Cruzeiro saía pelos lados, Caio perseguia Egídio e Richarlyson rastreava Ceará; se fosse pelo meio, Josa pegava Henrique e José Welison marcava Lucas Silva. Mais à frente, o ponteiro direito — qualquer que fosse ele naquele momento — tinha a companhia constante do lateral Tarracha, o mesmo acontecendo com o outro lado. E na maioria das vezes, Goulart, que é mais frequentemente o central, tinha próximo dele o volante entrelinhas Adriano.

Esse encaixe todo fez com que o Cruzeiro demorasse a achar saídas boas com a bola no chão. Bolas longas não eram necessárias porque os zagueiros não eram pressionados, mas as bolas curtas tinha sempre marcação fortíssima. Percebendo isso, os meias começaram a voltar para buscar a bola no pé dos zagueiros e tentar começar a construção, mas mesmo assim os marcadores baianos abandonavam o seu posicionamento para persegui-los. Era um tipo de marcação em que cada um pega o seu e vai com ele até o final da jogada. Em outros termos, marcação por função, mas a partir do encaixe, se tornava individual.

Chances

Com pouco espaço entre as linhas, o Cruzeiro teve certa dificuldade para jogar. Quando acertou o primeiro passe, pecou na construção. Quando acertou na construção, falou o último passe, e quando conseguiu fazer tudo isso, pecou nas finalizações. Também porque Wilson jogou um bom primeiro tempo.

Mesmo sob forte marcação, Cruzeiro chutou 13 bolas contra Wilson no primeiro tempo; o Vitória só uma -- e de bem longe (fonte: Squawka)

Mesmo sob forte marcação, Cruzeiro chutou 13 bolas contra Wilson no primeiro tempo; o Vitória só uma — e de bem longe (fonte: Squawka)

Normalmente, quando fica difícil jogar, apela-se para a bola parada ou para o cruzamento. E de fato o Cruzeiro teve chances usando esses dois expedientes. Mas também conseguiu usando passes rápidos e envolvendo a defesa adversária. Mas as finalizações não foram boas, e o primeiro tempo acabou mesmo em branco, com o Cruzeiro tendo mais de 60% de posse de bola.

Segundo tempo e trocas

Jorginho gostou de performance defensiva de seu time, e talvez tenha até visto uma oportunidade de vencer em uma bola, e por isso liberou um pouco mais seus jogadores para avançar. Calhou de o Cruzeiro também ter mudado a estratégia, recuando as linhas para espaçar o time baiano e tentar jogar com mais espaço. Por isso, no início da segunda etapa, vimos um Vitória com mais volume e um Cruzeiro mais defensivo.

Mas somente a estratégia baiana parecia ter funcionado. Se o Vitória não incomodava Fábio, rondava perigosamente com a bola perto de sua área, e uma falha defensiva poderia ser fatal. Mas ao recuperar a bola o Cruzeiro errou muitos passes e não conseguia dar prosseguimento.

Marcelo tentou colocar Dagoberto na vaga de Marquinhos para ver se a nova estratégia surtia efeito, mas o jogo voltou ao padrão do primeiro tempo: o Vitória recuou novamente as linhas e esperava o erro celeste. Jorginho quis arriscar um pouco mais, jogar por uma bola, e colocou um jogador mais veloz e ofensivo do lado esquerdo, Vander, na vaga do marcador Richarlyson, mas o sistema não se alterou.

Um gol muda o jogo

Justo quando o técnico celeste se preparava para mudar o sistema, abrindo mão de Lucas Silva para lançar Marlone e aproximar Éverton e Goulart no centro, efetivamente transformando o time num 4-3-3, Alemão marcou contra. A substituição foi cancelada, porque era necessário ver como o jogo ser apresentaria a partir deste gol.

E, como era esperado, o Vitória se lançou um pouco mais à frente para buscar o empate, e isso acabou por facilitar a vida dos meias celestes. Com espaço, conseguiram jogadas que mataram o jogo: Éverton Ribeiro achou Egídio, que cruzou e a bola encontrou a cabeça de Ricardo Goulart, o elemento surpresa que a zaga baiana não esperava estar ali. Depois, Goulart recebeu passe de frente para o gol já na intermediária ofensiva e com espaço, coisa que não havia acontecido até ali, e com um toque por cima, encontrou Ribeiro avançando. O meia matou no peito e bateu da entrada da área, vencendo finalmente o goleiro Wilson e sacramentando a vitória.

Jorginho tinha tentado diminuir o prejuízo após o segundo gol, com Willie na vaga de Caio, mantendo o 4-1-4-1 mas com ponteiros rápidos, mas o terceiro gol celeste matou suas esperanças. Tinga ainda entraria na vaga de Éverton Ribeiro, apenas para preencher o meio-campo e fazer o jogo se arrastar até o fim, apesar do belo gol de falta de Ayrton.

O padrão esperado dos visitantes

A postura do Vitória na noite de quinta é o que a maioria dos adversários celestes deverão fazer quando jogarem no Mineirão. O Cruzeiro é o atual campeão brasileiro e líder da competição atual, jogando futebol de respeito. Isso naturalmente encolhe o time visitante. Portanto é mais que natural que os outros times utilizem essa estratégia quando forem jogar em Belo Horizonte. Nem todos terão a mesma qualidade que o Vitória no primeiro tempo, assim como nem todos deixarão aproveitar dos erros defensivos celestes.

Todas as 13 interceptações do Vitória foram no campo defensivo, sendo 10 só no primeiro tempo (fonte: Squawka); ilustra bem qual deve ser a estratégia dos adversários do Cruzeiro no Mineirão

Todas as 13 interceptações do Vitória foram no campo defensivo, sendo 10 só no primeiro tempo (fonte: Squawka); ilustra bem qual deve ser a estratégia dos adversários do Cruzeiro no Mineirão

Assim, é preciso ter paciência. Qualquer análise tem que levar em conta os dois times, e não somente um lado, como muitos ditos jornalistas por aí fizeram. Uns dizem que o Cruzeiro só venceu porque o Vitória fez o gol contra, outros dizem que o Cruzeiro não jogou bem. Eu discordo dos dois pontos de vista. Não se pode afirmar que, mesmo sem o gol contra, o Cruzeiro não venceria, até porque não sabemos que impacto a alteração que Marcelo preparava naquele momento (Marlone x Lucas Silva) teria. O Cruzeiro jogou bom futebol e venceu com autoridade, buscando o gol e sem medo de errar. O adversário é que impõe dificuldades, e por isso mesmo, nem sempre o bom futebol vence.

Mas entre jogar bom futebol e vencer, o Cruzeiro faz os dois.



Diagnósticos e perspectivas

O inverno acabou (inVerno, com V). Ele foi longo e tenebroso. Mas acabou, e aqui estamos.

Este espaço não é atualizado desde a final do Campeonato Mineiro, e muita coisa aconteceu desde então. O Brasileirão começou, técnicos já caíram, jogadores foram convocados para a Copa (ou não), e a Libertadores entrou em sua fase eliminatória, nas oitavas e quartas de final.

Brasileirão: dois estilos

Taticamente, alguns pontos chamam a atenção. No Brasileiro, o 4-2-3-1 se manteve como sistema base, mas com o time alternativo, as características dos jogadores são diferentes, e portanto, o time tem um estilo distinto do considerado titular.

Primeiro, a diferença nas laterais. Ceará e Samudio são mais marcadores do que apoiadores — ainda que o paraguaio tenha surpreendido com a qualidade na frente — e contrastam com os estilos ofensivos de Mayke e Egídio. Assim, os volantes tem que ficar um pouco mais presos para fazer a cobertura, e por isso Nilton e Souza são os escolhidos.

Mais à frente, temos Tinga como central, um jogador que ocupa bem os espaços e sempre está perto da bola para ajudar um companheiro, mas que não possui a mesma visão de jogo e qualidade de passe de Ricardo Goulart. Como ponteiros, Marlone e Willian são mais incisivos e verticais, no que se assemelham a Dagoberto, mas Luan é mais trombador e também é muito ofensivo, diferente de Éverton Ribeiro.

Todas essas diferenças acabam por favorecer Marcelo Moreno, que é um centroavante diferente de Borges ou Júlio Baptista. Com jogadores ofensivos e verticais pelos lados, o jogo celeste acaba sendo muito pelos flancos e pouco pelo meio. O resultado é um número maior de cruzamentos na área, o que favorece o boliviano pelo seu bom posicionamento na área: nos dois primeiros jogos, contra Bahia e Atlético/PR, o gol da vitória veio num cabeceio de Moreno. Não é por acaso.

O time titular jogou na segunda rodada contra o São Paulo: o número de cruzamentos em relação ao time alternativo da primeira e terceira rodadas é bem menor

O time titular jogou na segunda rodada contra o São Paulo: o número de cruzamentos em relação ao time alternativo da primeira e terceira rodadas é bem menor

Já na última partida, contra o Coritiba, o Cruzeiro jogou mais no estilo 2013, já que estavam em campo Éverton Ribeiro, Goulart, Dagoberto e Borges — o quarteto “clássico”. Um estilo que pode ser resumido no lance do segundo gol: Goulart recebe de Fábio, avança, passa a Borges e imediatamente começa a corrida para entrar na área, lendo a jogada que se desenhava. Borges, o único jogador do elenco que faz o pivô com qualidade, segura o zagueiro e toca de primeira para Éverton Ribeiro na direita. Livre, o camisa 17 acha Goulart dentro da área, que entrou livre de marcação para concluir e recolocar o Cruzeiro na frente.

 

Este gol é simbólico porque ilustra bem o papel de Goulart e o de Borges, não só taticamente como em termos de estilo de jogo. Não consigo enxergar Júlio Baptista fazendo nenhum dos dois papéis, por exemplo. Nem mesmo Marcelo Moreno fazendo esta jogada pivô, pois a sua característica seria dominar e tentar girar no zagueiro para poder concluir. Em suma, Borges é o melhor centroavante para o estilo de jogo de 2013, mas Moreno é o mais adequado para o estilo do time reserva.

O aspecto mental

Já na Libertadores, porém, o time não foi tão bem, em termos de resultados. Isso, na modesta opinião deste escriba, se deve muito mais ao fator psicológico e mental do que propriamente ao técnico ou tático, dentro de campo. É um característica, não da Libertadores, mas sim de torneios neste formato eliminatório, com uma partida de ida e volta.

Explico: em um torneio de pontos corridos, com 38 rodadas, ao sofrer um gol por um erro de tempo de bola, um desarme mal sucedido, enfim, um lance bobo, o impacto psicológico não é tão grande. Isso porque cada partida se encerra em si mesma, no sentido de que não importa quantos gols foram sofridos, o que importa é vencer aquela partida em questão e somar três pontos. O impacto de um gol sofrido, seja em casa ou fora, é diluído ao longo das rodadas.

Porém, num torneio de mata-mata, o impacto de um gol é altíssimo. Pois um erro pode decidir o confronto e a permanência ou não na competição. Isso acontece em todos os torneios que usam este formato: Copa do Mundo, Liga dos Campeões e, é claro, a Libertadores da América. Isso ainda é agravado pela regra do gol fora de casa, o famoso gol qualificado como critério de desempate — uma regra da qual este blogueiro discorda frontalmente.

Cerro Porteño

Foi o que aconteceu com o Cruzeiro nos dois confrontos. Contra o Cerro, uma partida boa até o momento do gol dos paraguaios, praticamente na única vez em que foram ao ataque, numa jogada de escanteio inexistente. Ao sofrer o gol em casa, o time se enervou e começou a falhar também tecnicamente. No fim, nada de tática: blitz na área adversária até o gol no apagar das luzes de Samudio, que minimizou o prejuízo.

No jogo da volta, o Cruzeiro escapou de sofrer gols no primeiro tempo. Os paraguaios estavam em ritmo mais acelerado, e o Cruzeiro tentando tirar a velocidade do jogo, mesmo com o zero a zero desfavorável. Estratégia ou imposição do adversário? Não saberemos. Mas na etapa final o Cruzeiro entrou correndo mais, disputando mais bolas. Não é o “espírito de Libertadores” que todos pregam, não; isso vale para qualquer campeonato. É a tal intensidade, tanto ofensiva quanto defensiva, que o Cruzeiro tanto usou em 2013 para sobrar no Brasileiro, que faltou no jogo.

A expulsão de Bruno Rodrigo por acúmulo de advertências parecia selar a eliminação, mas o gol de Dedé numa bola improvável reacendeu este espírito. Com a vantagem, o Cruzeiro se imbuiu em defender, mesmo com dez em campo um 4-4-1 que, com as câimbras de Samudio, teve Éverton Ribeiro na lateral esquerda, com o paraguaio indo ser o centroavante. Era praticamente 11 contra 9, mas o Cruzeiro se defendeu bem e ainda marcou mais um em erro da defesa do Cerro.

San Lorenzo

A classificação para as quartas veio, e ainda com a pressão adicional de ser o único brasileiro ainda vivo na competição. Porém, a forma como ela veio indicava que não estava tudo bem. Algo precisava ser feito, principalmente na parte mental. Desta vez, o primeiro jogo foi fora de casa, e foi, sem dúvida, a pior partida da equipe no certame continental. O Cruzeiro quis garantir um resultado médio para poder resolver em casa, mas pagou o preço de ficar atrás, jogando contra sua própria natureza de jogo.

As estatísticas da Conmebol provam: apenas 4 finalizações, todas de média e longa distância e erradas; apenas 174 passes, muito abaixo da média da equipe; e 8 desarmes contra 23 do time do Papa.

É claro que o resultado era plenamente reversível. Mas mais uma vez o impacto psicológico do gol sofrido fez a diferença. Nesta partida, Marcelo resolveu lançar Nilton e Marcelo Moreno na equipe titular, sacando Lucas Silva e Ricardo Goulart. A princípio, achei que fosse para liberar os laterais para o ataque e sufocar o San Lorenzo, mas depois da partida Marcelo Oliveira revelou que queria aproveitar a bola aérea do volante — a mesma explicação podia ser dada para a entrada de Moreno e a permanência de Júlio.

Até os 10 minutos, o Cruzeiro amassava o San Lorenzo, mesmo sem finalizar muito. Nilton e Moreno entraram na equipe para disputarem pelo alto, mas a bola não chegava por ali. Com Ribeiro e Júlio Baptista, a bola não rodava tanto pelos lados e os cruzamentos não saíam, e tampouco o Cruzeiro chegava pelo centro, pois Éverton Ribeiro não tem o mesmo entendimento com Júlio do que com Goulart, já que o primeiro segura mais a bola e cadencia.

O gol do San Lorenzo, porém, destruiu o espírito da equipe. Samudio saiu por lesão, piorando ainda mais a situação. Bruno Rodrigo, Marcelo Moreno e Éverton Ribeiro tentaram: o primeiro sendo absoluto na defesa, o segundo com muita luta e várias finalizações que pararam no goleiro adversário, e o terceiro sem medo de chamar a responsabilidade e tentar conduzir a equipe à frente. Mas o nervosismo atrapalhou, e quando o Cruzeiro chegava, o goleiro adversário estava em noite inspirada. O empate saiu, só aos 30 do segundo tempo, mas ainda era preciso mais dois gols. Não deu tempo.

Nas coletivas pós-jogo, tanto na ida quanto na volta, Dedé e Marcelo Oliveira se referiram à postura do Cruzeiro na Argentina. O zagueiro dizia que era estratégia, já era esperado que eles atacassem e a ordem era segurar. Já o treinador disse que nem sempre isso acontece porque o time quer, mas sim porque o adversário impõe a condição. Então fiquei na dúvida: quem está certo? Foi o San Lorenzo que impôs ao Cruzeiro a condição de apenas se defender, ou o Cruzeiro que escolheu assim para poder decidir a vaga no Mineirão?

Não há como responder, mas meu palpite era de que a ordem era sim se defender, pois era sabido que o ponto forte do time argentino é não sofrer gols, o que indica que o ataque não é tão poderoso assim. É claro que não é tão simples, mas partindo disso, o mais ousado seria atacar o San Lorenzo em sua própria casa, mesmo correndo o risco dos contra-ataques.

Pode parecer fácil falar depois dos jogos, mas a verdade é que o Cruzeiro, enquanto equipe, ainda carece de experiência para não se enervar com resultados adversos em torneios eliminatórios. A Copa do Brasil, no segundo semestre, será mais uma boa oportunidade para medir este aspecto.

Perspectivas

Uma formação possível, bem ousada, que privilegia o ataque: um 4-1-4-1 que aproxima Goulart e Ribeiro, com laterais ofensivos e ponteiros verticais

Uma formação possível, bem ousada, que privilegia o ataque: um 4-1-4-1 que aproxima Goulart e Ribeiro, com laterais ofensivos e ponteiros verticais

Olhando para frente, nas partidas em que precisava construir um resultado (a volta contra o San Lorenzo e contra o Coritiba, após sofrer novo empate), o Cruzeiro apresentou uma formação interessante, que eu gostaria muito de ver iniciando um jogo. Um dos volantes saía para a entrada de mais um ponteiro: com isso, Éverton Ribeiro recuava e fazia o segundo volante, para tentar construir o jogo de trás. Na prática, era um 4-3-3/4-1-4-1, com Ribeiro e Goulart próximos no centro do campo, Willian e Dagoberto pelas pontas e um centroavante.

Uma formação bem ofensiva, especialmente na partida contra o Coritiba, quando Mayke e Egídio estavam em campo. Atacar com 7 jogadores (2 laterais, 4 meias e o centroavante) é uma postura muito ousada e que pode dar certo para resolver as partidas o quanto antes. Seria um sistema ideal para usar nos pontos corridos, sem correr o risco de um gol sofrido dar um choque psicológico grande na equipe. É improvável, porém, que Marcelo Oliveira abandone o bom e velho 4-2-3-1, pelo menos para iniciar as partidas.

Assim, mesmo fora da Libertadores, a perspectiva ainda é boa. Mas fica a lição: em mata-mata, o fator psicológico conta muito mais do que em pontos corridos. E é preciso aprimorar esta aspecto enquanto equipe, mesmo que individualmente o Cruzeiro possua jogadores experientes. É errando que se aprende. Já foram duas (Copa do Brasil 2013 e Libertadores 2014). Na próxima, com certeza, será melhor.



Cruzeiro 0 x 0 Atlético/MG – Inteligência e maturidade

O Constelações volta depois de merecidas férias. A viagem internacional, porém, não impediu o blogueiro de acompanhar o Cruzeiro na rua brilhante recuperação na Libertadores e no restabelecimento da ordem natural em âmbito regional. No primeiro caso, um time maduro e seguro de sua capacidade, jogando com inteligência no Chile e com ímpeto e imposição no Mineirão. Sempre no 4-2-3-1, mas uma alteração frequente para o 4-1-2-3 com um meio campo só de volantes, quando o desejo era arrastar o jogo até o fim.

Já no Campeonato Mineiro, a primeira partida da final foi praticamente igual à da fase de classificação. O Atlético tendo mais a bola, mas o Cruzeiro se defendendo bem e não abdicando do ataque. Consequência das mudanças de um lado e da evolução em outro: nem Atlético nem Cruzeiro são as mesmas equipes de 2013, apesar de terem praticamente os mesmos jogadores. O Atlético sob Paulo Autuori já não aplica mais a intensidade que Cuca sempre pedia, preferindo cadenciar um pouco mais. E o Cruzeiro, que no ano passado só sabia jogar ofensivamente — e que foi suficiente para o título nacional — já comprovou que pode jogar com outras estratégias, consequência de evolução notável da defesa.

A finalíssima

Times no 4-2-3-1, mas com o lado esquerdo atleticano vulnerável, pois Ronaldinho deixava o trabalho de marcação para Jô

Times no 4-2-3-1, mas com o lado esquerdo atleticano vulnerável, pois Ronaldinho deixava o trabalho de marcação para Jô

Para o segundo jogo, Marcelo Oliveira mandou a campo o 4-2-3-1 usual, com Fábio no gol. Mas, flanqueando os zagueiros Dedé e Bruno Rodrigo, estavam Ceará e Samudio, dois laterais que tem mais tendência a compor a linha defensiva do que apoiar. Para compensar uma eventual escassez de força ofensiva, a dupla de volantes tinha em Lucas Silva e Henrique dois jogadores com qualidade de passe e de chegada à frente, se juntando ao trio “clássico” formado por Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Dagoberto, com Júlio Baptista no comando do ataque.

Já o Atlético também veio no 4-2-3-1, mas diferente em relação ao que Cuca implementava no setor ofensivo. Jô continuou sendo o centroavante, mas fazia a cobertura para Ronaldinho, que tinha liberdade total e preferiu perambular entre o centro e a esquerda. Tardelli ficou mais à direita e Guilherme foi o meia central, principal responsável por fluir o jogo da defesa para o ataque. Atrás dele, Pierre e Leandro Donizete praticamente só defendiam a grande área de Victor, tendo o suporte na linha defensiva formada por Michel na vaga do titular Marcos Rocha, Otamendi, Leonardo Silva e Alex Silva.

Primeira etapa

Os papéis se inverteram em relação à primeira partida. Mesmo com a vantagem de um segundo empate, era o Cruzeiro quem mais demonstrava que queria vencer. Primeiro porque marcava pressão na saída atleticana e forçava o chutão, que quase sempre terminava com a bola em pés celestes; depois porque aplicava uma marcação fortíssima também no meio-campo, o que foi um fator surpreendente considerando a característica dos volantes do Cruzeiro. Eles não guardavam marcação individual, mas estavam sempre muito perto dos jogadores atleticanos e não deixavam o meio rival respirar.

O Atlético se contentou em se defender e segurar a pressão. Não foi fazer marcação alta na saída do Cruzeiro, e tinha ainda um setor vulnerável em sua defesa: a esquerda. Isso porque Ronaldinho era o homem que caía mais por aquele lado, mas não tinha nenhuma responsabilidade de marcação. Quem fazia isso por ele era Jô, que tinha que abandonar o seu posto à frente do time para marcar a saída do lateral Ceará — nem sempre ele fazia isso, pois tinha de correr muito. O resultado foi a liberdade imensa que Ceará tinha, recebendo várias bolas invertidas por Lucas ou Henrique. Foi uma tônica do primeiro tempo: o Cruzeiro tentava achar Dagoberto pela esquerda, o Atlético rodava a marcação — inclusive dos dois volantes — e deixava Ceará do outro lado sozinho para bater com Alex Silva. Foi num cruzamento de Ceará que Júlio Baptista quase marca um golaço de bicicleta.

Sem conseguir pelo chão, Paulo Autuori pediu para que Jô saísse do centro e pegasse um lateral no lançamento longo, pois assim poderia ganhar uma bola de cabeça e armar um ataque já perto da área celeste. Funcionou em certa medida, porque Ceará e Samudio não tem tanto poder aéreo, mas a segunda bola sempre era celeste — também porque os meias celestes se compactavam aos volantes e laterais, e sempre pegavam uma bola escapada das disputas aéreas ou nos duelos pelo chão, gerando grandes oportunidades de contra-ataque.

Numa delas, Éverton Ribeiro poderia ter marcado o primeiro gol dos clássicos de 2014. Se lembrando de uma conversa que teve com o goleiro Fábio — excelente indicativo de o quanto este grupo é unido — que revelou uma preferência de Victor em sair pelo chão em situação de um contra um, ele optou por dar uma cavadinha que de fato passou por cima do goleiro atleticano, mas a direção não foi boa e saiu.

Já o Atlético só assustou quando numa das raras vezes em que Ceará errou seu posicionamento, deixou Alex Silva tabelar com Ronaldinho, que enfiou uma bola na cara de Fábio. O jovem lateral preferiu cruzar, mas Samudio estava lá para tirar o perigo. E foi só.

A batalha tática dos treinadores

Autuori queimou todas as trocas: resolveu o lado esquerdo com Fernandinho marcando Ceará, mas ficou sem ninguém na lateral direita, espaço que Marcelo Oliveira aproveitou com Éverton Ribeiro invertendo de lado com a entrada de Souza

Autuori queimou todas as trocas: resolveu o lado esquerdo com Fernandinho marcando Ceará, mas ficou sem ninguém na lateral direita, espaço que Marcelo Oliveira aproveitou com Éverton Ribeiro invertendo de lado com a entrada de Souza

Vendo seu lateral exposto, Autuori resolveu voltar à fórmula Cuca do 4-2-3-1 no intervalo, tirando Guilherme, voltando com Ronaldinho para o centro e mandando Fernandinho para o jogo, caindo pela esquerda. Dessa vez, Jô não tinha mais que marcar por ali, pois a responsabilidade de marcação passou a ser de Fernandinho. Foi uma boa mexida, que em teoria daria mais ofensividade e velocidade, e ao mesmo tempo impediria a liberdade de Ceará pela direita.

Porém, só a segunda funcionou. Fernandinho mal tocou na bola, encaixotado na marcação de Ceará — que desta vez de fato ficou apenas marcando o lado esquerdo atleticano. Assim, a partida seguiu na mesma toada, mas com o Cruzeiro com menos espaços para jogar. Mesmo assim teve chances, com Éverton Ribeiro, em finalização de fora e com Ricardo Goulart, e lindo corta-luz de Éverton Ribeiro.

Nesse panorama, ou o jogo terminava em branco ou o Cruzeiro venceria. Aos 27, Autuori arriscou tudo, queimando as duas últimas trocas. Pierre por Claudinei era uma troca direta de volantes, também porque o primeiro já tinha amarelo. Mas Michel por Neto Berola mudava a cara do time: o Atlético ficou sem lateral direito, Berola foi para sua posição habitual de ponta direita, Tardelli e Ronaldinho ficaram pelo meio. Como Claudinei não foi ser lateral direito, o time ficou num sistema diferente, com linha de três e Leonardo Silva fazendo as vezes de lateral, dois volantes, dois meias e três atacantes. Algo como um 3-4-3 com meio-campo quadrado.

Quase no minuto seguinte, Marcelo respondeu com Souza na vaga de Dagoberto. O objetivo era não perder o meio-campo, mas surpreendentemente, Souza foi jogar aberto pela direita, com Éverton Ribeiro invertendo de lado. A substituição que parecia defensiva era na verdade muito ofensiva: Marcelo queria que Éverton explorasse o lado fraco da defesa atleticana. Foi um movimento excelente do treinador, que com uma única troca equilibrou as duas do treinador adversário, e ainda tinha mais duas pra fazer.

Os mapas de calor da Footstats mostram o domínio territorial celeste na partida: toques quase sempre no campo de ataque, enquanto o Atlético teve mais a bola em seu próprio campo

Os mapas de calor da Footstats mostram o domínio territorial celeste na partida: toques quase sempre no campo de ataque, enquanto o Atlético teve mais a bola em seu próprio campo

Então, Marcelo resolveu preparou o terreno. Tirou Ricardo Goulart e lançou Willian, mandando Éverton Ribeiro temporariamente para o centro. A marcação não arrefeceu um segundo sequer e o Cruzeiro continuava com o domínio territorial e de posse. Não havia motivos para continuar a movimentação defensiva, mas quase no fim do jogo, Ribeiro deu seu lugar a Tinga, para arrastar o jogo até o fim. E assim foi feito, o placar permaneceu virgem e o Cruzeiro arrebatou mais uma taça.

Jogar bem e saber jogar

Muitos analistas repercutiram as vitórias na Libertadores e o título mineiro dizendo que o Cruzeiro de 2013 está começando a aparecer novamente. Eu discordo: este Cruzeiro de 2014 é outro, evoluído, melhorado em relação àquele. Se no ano passado o Cruzeiro jogava ofensivamente e sempre busca a vitória a todo custo, já vimos neste ano o Cruzeiro jogar precisando vencer mas sem atacar alucinadamente. Sempre com equilíbrio e sabendo ditar o melhor ritmo para determinadas situações.

E é assim se que se deve jogar um torneio como a Libertadores. Atacar sempre pode dar resultado como no ano passado, principalmente porque num Brasileirão uma derrota é muito mais diluída entre os 38 jogos. Mas na fase eliminatória da Libertadores, uma derrota tem muito mais peso. Portanto é preciso saber que nem sempre atacar será a melhor solução.

Outro fator que chama a atenção é o poder de marcação celeste, que aumentou muito nesse temporada. Samudio surpreende positivamente, pois marca mais que Egídio mas não deixou a desejar no apoio. Será fundamental na caminhada. Henrique subiu muito de produção e hoje é inquestionável.

Por outro lado, o Cruzeiro tem pecado muito nas finalizações. As estatísticas não mentem: de acordo com a Fooststats, o Cruzeiro finalizou 291 vezes a gol durante todo o estadual, sendo 115 na direção certa (quase 40%). O Atlético, segundo no quesito, finalizou 191 vezes no total, 100 a menos que o time celeste, mas mandou 83 no alvo, com um aproveitamento de pouco mais de 43%.

A Libertadores continua, e vem aí o Brasileiro. Se colocar o pé na forma, dá pra levar os dois. É difícil, mas o Cruzeiro é, neste momento, o único time que pode fazer isso.

Que assim seja!



Defensor 2 x 0 Cruzeiro – A diferença é menor do que se pensa

Muito se fala na diferença entre as equipes brasileiras e as dos outros países sul-americanos, tanto financeiramente quanto tecnicamente. De fato, essa distância existe, mas o fato de aqui no Brasil a técnica ser muito mais valorizada do que qualquer outra coisa — em detrimento, por exemplo, da tática e até da parte psicológica — acaba-se por ter a ilusão de que as equipes brasileiras são muito melhores e deveriam vencer com um pé nas costas as equipes de outros países.

Mas essa não é a verdade. No futebol, nem sempre dois mais dois é quatro, e uma diferença técnica, por maior que seja, pode ser reduzida ou até anulada com uma tática bem encaixada, com uma estratégia acertada e até mesmo com uma boa dose de ânimo e espírito de luta. Para que a parte técnica faça de fato a diferença, a equipe também tem que ser igualmente aplicada tática e psicologiamente, mas não foi isso que o Cruzeiro fez na noite de terça em Montevidéu.

Titulares

Desta vez, 4-2-3-1 celeste tinha dois volantes marcadores e pouca intensidade á frente; Defensor em duas linhas de quatro e contra-atacando pelas pontas

Desta vez, 4-2-3-1 celeste tinha dois volantes marcadores e pouca intensidade á frente; Defensor em duas linhas de quatro e contra-atacando pelas pontas

A grande novidade foi a opção de Marcelo por uma dupla de volantes mais pesada no 4-2-3-1 habitual. Rodrigo Souza e Nilton jogaram à frente da linha defensiva, formada por Ceará à direita, Egídio à esquerda e Dedé e Bruno Rodrigo protegendo o gol de Fábio. À frente, era o de sempre: Éverton Ribeiro partindo da direita e procurando mais o central Ricardo Goulart, deixando Dagoberto mais aberto pela esquerda, com Marcelo Moreno na referência.

O Defensor veio com a estratégia clara de jogar no erro do Cruzeiro e contra-ataques, mesmo em casa. Armou-se num 4-4-2 em linha, com a baliza de Campaña defendida pelos zagueiros Arias e Malvino, com Zeballos e Herrera nas laterais. A segunda linha era composta pelos volantes Cardaccio e Fleurquin, e pelos ponteiros De Arrascaeta e o brasileiro Felipe Gedoz. À frente, Olivera se movimentava mais do que Risso, mas ambos permaneciam à frente.

Estratégias

Até os quinze minutos o time uruguaio ensaiou aplicar mais intensidade, mas o Cruzeiro controlou bem as ofensivas adversárias e Fábio nem aparecia. A partir de então, o Defensor se contentou em colocar jogadores atrás da bola e deixava os zagueiros celestes tocarem entre si. Os atacantes subiam a pressão de vez em quando, mas não era bem coordenada e facilmente os laterais encontravam os volantes para fazer o primeiro passe.

E nesse ponto é que a opção de Marcelo por uma dupla de marcadores não foi boa. O time ficou sem o passe e o ímpeto que Lucas Silva certamente daria, sobrecarregando os volantes adversário junto com Ribeiro e Goulart. Sem um segundo volante, porém, a marcação ficou mais “curta” e houve menos espaço. Some-se a isso a falta da movimentação característica que o Cruzeiro mostrou no ano passado, a famosa intensidade ofensiva, e o resultado foi um domínio estéril, com muita posse no campo adversário, mas poucas chances criadas.

Contra-ataque uruguaio

Defensivamente, a estratégia do time da casa era claríssima: defender-se, tirar todos os espaços possíveis e esperar o melhor momento para partir em velocidade. Não foi à toa que o treinador Fernando Curuchet colocou dois velocistas nas pontas. Do lado direito, De Arrascaeta era também o responsável por armar o jogo nas raras vezes em que o time uruguaio tinha a posse, centralizando a partir da direita — no estilo Éverton Ribeiro. Do outro lado, Felipe Gedoz ficava mais aberto em cima de Ceará, dando muito trabalho para o lateral celeste, que com isso pouco apoiou.

Assim, ficava para Egídio tentar sair com a bola e ajudar o ataque, e para isso contava com a cobertura de Nilton. Mas o camisa 19 ainda não está na sua melhor forma física, e o lado esquerdo acabou sendo o mapa da mina para o time uruguaio. Felizmente, no primeiro tempo De Arrascaeta não teve grandes oportunidades de explorar este espaço. Sem intensidade, o Cruzeiro ainda tomou um susto no final da primeira etapa, em bola parada, um dos pontos fortes da zaga celeste: o desvio bateu na segunda trave e o rebote dentro da pequena área foi bloqueado por Bruno Rodrigo.

Segundo tempo

Os times voltaram sem mudanças para a etapa complementar, o que considero foi mais um erro de Marcelo. Ele poderia ter colocado Lucas Silva já, mesmo que o time fosse perder combatividade no meio-campo — o que não seria verdade, pois Lucas é bom marcador também. O jogo se desenhava para continuar igual, e por isso a substituição poderia não só ter dado mais volume e controle do meio-campo ao Cruzeiro como também ter desafogado a surpreendente pressão que o time da casa fez no começo da segunda etapa. Sim, pois Lucas Silva daria uma opção a mais de saída de bola, dificultando a marcação alta do adversário e assim o Cruzeiro manteria a bola por mais tempo.

A intensidade foi passando aos poucos, e o jogo foi voltando ao padrão da primeira etapa. Porém, a estratégia dos uruguaios funcionou, sempre pelo lado esquerdo celeste. Os espaços às costas de Egídio, desta vez, foram bem aproveitados por De Arrascaeta. Primeiro, condução rápida pela esquerda em erro de passe celeste, obrigando Nilton a usar todo o fôlego que ainda não tem para desviar a finalização no último momento. Depois, sem opções, Egídio forçou a conexão com Dagoberto, mas De Arrascaeta interceptou o passe, e levou até a entrada da área de Fábio com muita velocidade, sendo parado apenas pela falta de Rodrigo Souza. Na cobrança, Gedoz marcou um belo gol — mérito do cobrador, mas também falha da barreira e de Fábio, que a posicionou mal.

O efeito de um erro

O gol assustou o Cruzeiro. Tanto que, a essa altura, Willian já havia entrado na vaga de Moreno, com Goulart avançando, mas mesmo assim o time começou a levantar bolas na área, quando o correto era baixar a tensão e entrar por baixo. Ironicamente, foi uma bola levantada na área que originou o lance capital do jogo. O zagueiro Arias levantou demais o pé dentro da área e atingiu o Goulart, levando o segundo amarelo. O empate com um a mais certamente animaria o Cruzeiro e as chances de uma virada aumentariam consideravelmente.

Mas o futebol é feito de acertos e de erros, e Dagoberto perdeu seu primeiro penal em um ano e quatro meses vestindo a camisa celeste. O desperdício teve o efeito contrário ao esperado: o time da casa se animou e defendeu com muito mais afinco — em um 4-4-1 recomposto com a entrada do zagueiro Correa na vaga do atacante Olivera — diante de um Cruzeiro já semi-desesperado. É impressionante como a parte mental pode afetar uma partida.

Dez contra onze

Marcelo tentou soltar o time totalmente colocando Marlone na vaga de Rodrigo Souza — o escolhido era o Nilton, mas Rodrigo já tinha cartão amarelo. Nilton ficou plantado, mas desta vez tinha Éverton Ribeiro a seu lado, numa espécie de 4-3-3 super ofensivo, com Willian, Dagoberto, Goulart e Marlone mais à frente. O perigo era abrir o time demais, o que ficou claro quando Ribeiro era o último homem, responsável pela cobertura, em um escanteio cobrado.

A postura desesperada cobraram o seu preço quando, novamente em contra-ataque de bola parada, De Arrascaeta aplicou dois chapéus e lançou Gedoz, desta vez aparecendo atrás de Egídio, que ganhou na corrida e tocou na saída de Fábio. Mesmo com um a menos, o Defensor matou o jogo ali.

No fim, Marcelo tentou consertar o meio-campo com Tinga na vaga de Ribeiro, mas o Defensor já estava satisfeito e não partiu mais para o contra-ataque, se contentando em proteger o resultado — coisa que conseguiu fazer com relativa facilidade. O Cruzeiro terminaria o jogo sem acertar nenhuma das 15 tentativas ao gol (Footstats).

Nenhum chute foi no alvo. Em destaque, o pênalti desperdiçado por Dagoberto

Nenhum chute foi no alvo. Em destaque, o pênalti desperdiçado por Dagoberto

Evoluir, mas fugir do lugar-comum

Quando falamos em dar intensidade, principalmente na parte ofensiva, estamos falando de movimentação e passes velozes. É bom não confundir com a velha “raça”, de se entregar, dar o sangue. Isso é um velho clichê da Libertadores e não há melhor time para destruir este lugar-comum do que o Cruzeiro, um time que joga tecnicamente solto. Bastava impor o ritmo no primeiro tempo que a velha máxima de que “a Libertadores é guerra” não se realizaria: o time uruguaio sairia de suas trincheiras e facilitaria ainda mais o jogo celeste.

Isto posto, esta partida deve servir para tirar algumas conclusões em relação ao time. Marcelo Oliveira ainda tem muito crédito, e normalmente realiza suas trocas quando o time já está à frente no placar. Desta vez, porém, não conseguiu mudar a cara do jogo. Além disso, a opção pela escalação de dois volantes fortes se provou equivocada ao menos para este jogo, e a ousadia demonstrada ao deixar apenas Nilton no time logo após sofrer o primeiro gol não apareceu no intervalo, quando Lucas Silva deveria ter entrado na vaga do próprio Nilton, mesmo com Rodrigo Souza amarelado.

A classificação ficou mais difícil, e agora depende de um bom resultado na quinta rodada, fora de casa, contra o time mais difícil do grupo: a Universidad do Chile.

O Cruzeiro perdeu quando podia? Num Brasileiro com 38 rodadas, talvez sim. Na Libertadores, de tiro curto, nem tanto.