Coritiba 2 x 1 Cruzeiro – Chegou a hora

Uma ferroada de abelha, para pessoas não-alérgicas, não costuma trazer nenhuma consequência mais séria, apenas uma dor intensa e inchaço. Picadas múltiplas, entretanto, pode levar a um colapso.

Pois tal como se tivesse sido atacado por um enxame de abelhas — como indicava o uniforme do time da casa — os jogadores do Cruzeiro mostraram um certo torpor durante a partida de domingo e colecionaram sua terceira derrota em quatro jogos. É claro que os gols do adversário aconteceram por um erro individual e um lance bizarro, mas a falta de intensidade acabou mesmo sendo a principal causa do revés. Sim, já que se tivesse aplicado um pouco mais de vontade, certamente o Cruzeiro conseguiria marcar mais gols, que acabariam por compensar os erros.

Fichas iniciais

O 4-4-1-1 do Coritiba bloqueou a já reduzida movimentação do trio de meias e ao mesmo tempo liberava Alex da marcação, deixando os defensores celestes trocando passes laterais

O 4-4-1-1 do Coritiba bloqueou a já reduzida movimentação do trio de meias e ao mesmo tempo liberava Alex da marcação, deixando os defensores celestes trocando passes laterais

Marcelo Oliveira escalou o Cruzeiro no 4-2-3-1 usual, apenas com Henrique na vaga do suspenso Lucas Silva — cuja ausência foi sentida, como veremos adiante. Do gol, Fábio teve Ceará e Egídio como laterais da linha defensiva, composta por Dedé e Bruno Rodrigo. Nilton foi o companheiro de Henrique na proteção, e na frente o quarteto ofensivo que mais vem se repetindo nos últimos jogos: Éverton Ribeiro de ponteiro direito, Ricardo Goulart de central, Willian de ponteiro esquerdo e Borges na referência.

Já Péricles Chamusca armou o Coritiba num 4-4-1-1, feito para diminuir ao máximo os efeitos da falta de mobilidade e combatividade de Alex, ao mesmo tempo em que aproveita sua melhor arma: o passe. Protegendo a meta de Vanderlei, os zagueiros Luccas Claro e Leandro Almeida eram flanqueados por Gil à direita e Carlinhos na esquerda. Na cabeça de área, Willian e Júnior Urso faziam a base do tripé do meio, completado por Alex à frente, e ainda tinham a companhia de Robinho pelo lado direito e Geraldo fechando o lado esquerdo. Na frente, Júlio César.

O primeiro e o último passe

Ao contrário do que normalmente acontece, o time da casa preferiu esperar o Cruzeiro em seu campo. As duas linhas de quatro do Coritiba tiravam os espaços do quarteto ofensivo e deixavam os zagueiros e laterais celestes sem opções de passes para a frente. Parecia um jogo de handebol, no qual a bola girava de um lado para o outro: de Ceará a Dedé a Bruno a Egídio, que devolvia para Bruno, para Dedé e de volta a Ceará. O Coritiba se limitava a fechar as linhas de passe para os volantes com Alex e Júlio César, que por vezes se alinhavam desenhando um 4-4-2, e até mesmo com Alex sendo o jogador mais avançado. A pressão nos zagueiros celestes era muito esporádica.

Assim, não era raro ver Henrique voltando para pegar a bola nos pés dos zagueiros. O camisa 8 saía do meio-campo e recebia, mas não conseguia iniciar a jogada por nenhum lado, acabando por voltar a bola para os zagueiros ou para os laterais. Lucas Silva faz melhor este papel. E mesmo quando algum jogador tentava um passe agudo para iniciar a movimentação ofensiva, os erros aconteciam e armavam contra-ataques para o time da casa.

Quando conseguiu, com muita paciência, chegar na intermediária ofensiva, o Cruzeiro até imprimia velocidade, mas errava o último passe — aquele que deixa o jogador em condições de finalização. Vanderlei quase não trabalhou no primeiro tempo, pois quando finalmente o Cruzeiro conseguia superar todas estas dificuldades e finalizar, não era com qualidade.

Foi a partida com mais posse de bola do Cruzeiro, empatada com a 7ª rodada contra o Náutico no Mineirão -- mas era um domínio estéril, com muitos passes no campo defensivo

Foi a partida com mais posse de bola do Cruzeiro, empatada com a 7ª rodada contra o Náutico no Mineirão — mas era um domínio estéril, com muitos passes no campo defensivo (veja mais aqui)

Sem a bola

Defensivamente o Cruzeiro até que se postava bem. Alex não tinha espaço para criar e Júlio César ficou escondido diante da excelente atuação dos zagueiros celestes. Pela esquerda, Egídio não sofreu tanto com Gil e Robinho, mas Ceará tinha muito trabalho pela direita, e foi por ali que saiu o gol. Uma jogada de ultrapassagem de Carlinhos e Geraldo, que viu o avanço de seu lateral e fez o passe por cima. Ceará conseguiu voltar e tomar a frente, mas tentou se apoiar no corpo do jogador do Coritiba, errou e passou da bola, que sobrou limpa para Carlinhos finalizar.

Era tudo o que o Coritiba queria, se defender o máximo possível e jogar nos erros do Cruzeiro — uma estratégia que vários time vem usando, muito por conta do desempenho que o Cruzeiro apresentou no campeonato. Dedé ainda fez um gol injustamente anulado pelo árbitro, mas pouco criou além disso.

Segundo tempo

Após o intervalo, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 e  jogo abriu: após o empate, Lincoln entrou e deu movimentação; no Cruzeiro, Luan acertou o lado esquerdo e Dagoberto acelerou, mas e o Cruzeiro pecou nas finalizações

Após o intervalo, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 e jogo abriu: após o empate, Lincoln entrou e deu movimentação; no Cruzeiro, Luan acertou o lado esquerdo e Dagoberto acelerou, mas e o Cruzeiro pecou nas finalizações

Nenhum dos treinadores fez trocas, mas o jogo mudou. O Cruzeiro aparentemente cansou, não reteve a bola no ataque nem pressionou o homem da bola no seu campo defensivo. Resultado: com os mesmo onze, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 com o avanço dos ponteiros, e por quinze minutos, jogou praticamente sozinho: Alex, Júlio César e Robinho tiveram chances. Marcelo Oliveira então resolveu agir: primeiro se precaveu lançando Luan na lateral esquerda na vaga de Egídio — o lateral estava sendo pressionado por Robinho e já tinha cartão amarelo — e depois trocou Borges por Dagoberto na direita, centralizando Éverton Ribeiro e fazendo Goulart mais uma vez ser o centroavante.

Praticamente na jogada seguinte, Willian conseguiu enganar o árbitro e Dagoberto converteu o pênalti. O empate não foi consequência direta das substituições, mas o Cruzeiro melhorou depois de igualar o placar. Luan, por incrível que pareça, melhorou a marcação do lado esquerdo e ainda apareceu mais vezes no ataque, e Dagoberto deu mais ofensividade pela direita. Péricles Chamusca já havia substituído Júlio César por Keirrison, sem alterar o sistema, mas equilibrou o jogo novamente com a entrada de Lincoln na vaga de Alex. O sistema não se alterou, mas Lincoln se movimentou mais do que o veterano camisa 10 do Coritiba, que é mais lento. O jogo ficou aberto, com chances de parte a parte.

Chuteira na mão

Com exceção do erro que originou o gol, Ceará continuava tendo uma boa atuação defensiva, como lhe é costumeiro. Em um lance até perdeu a chuteira para ganhar a posse de bola. O futebol é cheio de ironias, no entanto, e justamente por causa de estar com a chuteira na mão, não conseguiu correr para impedir novo ataque do Coritiba pela esquerda. Assim, Dedé saiu na cobertura e Léo, que tinha entrado no lugar do lesionado Bruno Rodrigo, marcou a bola ao invés de Keirrison, que cabeceou sozinho para o gol. Talvez tenha sido por causa do posicionamento nas três partidas anteriores: zagueiro direito, no lugar de Dedé, ao invés de ser pela esquerda como naquela tarde.

Dali pra frente, foi ataque contra defesa. O Coritiba achou o seu resultado e se contentou em voltar ao modo inicial do jogo: se defender e jogar no erro celeste. Já o Cruzeiro foi pra cima e criou, mas tomou decisões ruins na hora de finalizar. Dagoberto, Willian e até Dedé tiveram chances, mas se afobaram ou erraram a conclusão e não conseguiram evitar a inesperada derrota.

O físico, o psicológico e o técnico

Está claro que o problema do time nestes últimas partidas não é no sistema tático, que é o mesmo desde o início da temporada — foi com ele que o Cruzeiro conseguiu sua melhor sequência no campeonato. A questão passa pela execução do esquema, que exige intensidade tanto com quanto sem a posse da bola, e isso obviamente passa pela parte física, essa sim prejudicada. O desgaste, por sua vez, influencia também em outros aspectos, como o técnico — exemplificado na média acima do normal de erros de passe e finalização.

Porém, a parte mental é uma das que precisa melhorar. Talvez a grande vantagem, ainda mantida para o segundo colocado, tenha afetado a motivação dos jogadores, mesmo que inconscientemente. Também, os outros times já não tem mais tempo de recuperação no campeonato e acabam por jogar tudo o que conseguem na partida contra o líder, ao passo de que o Cruzeiro, por ter vantagem, não vai atrás do resultado com a mesma fome.

A rotação dos jogadores, antes feita com maestria por Marcelo Oliveira, deixou de acontecer há algumas rodadas. A troca de uma ou outra posições a cada jogo serve tanto como motivação para os que estão na reserva quanto como descanso para os que jogaram sequências grandes. Talvez seja a hora de voltar com esta política. Já no campo psicológico, nada pode ser mais motivante que o título nacional. Difícil entender como Marcelo pode melhorar neste aspecto.

Chega de sentar na vantagem, é hora de resolver o certame.



Cruzeiro 1 x 0 Fluminense – Blasé

O Cruzeiro voltou a vencer. Mas não da mesma forma que vencia antes no Mineirão, envolvendo e acuando o adversário, bombardeando o goleiro visitante com finalizações de todos os lados, construídas com jogadas de aproximação e toques curtos e rápidos pelo meio. Foi uma vitória simples, com um gol de puro faro de centroavante, e com o time numa rotação abaixo do que se espera dele. O desgaste da temporada parece estar cobrando seu preço.

Não foi sem correr riscos, no entanto. O Fluminense teve chances e só não empatou porque Samuel, por incompetência, e Fábio, por excelência, não deixaram.

Formações

No início, ambos os times no 4-2-3-1 encaixado, mas com o Cruzeiro levando vantagem pela direita em cima de Ailton

No início, ambos os times no 4-2-3-1 encaixado, mas com o Cruzeiro levando vantagem pela direita em cima de Ailton

Marcelo Oliveira poupou Ceará e escalou Mayke em seu lugar na lateral direita do 4-2-3-1 usual. O goleiro Fábio capitaneou o time que tinha a defesa formada por Léo e Bruno Rodrigo, com Mayke do lado direito e Egídio pela esquerda. NA proteção, Nilton e Lucas Silva mais uma vez fizeram parceria, com o segundo chegando mais próximo do trio articulador formado por Éverton Ribeiro à direita, Ricardo Goulart de central e Willian à esquerda. Na frente, Borges duelava com os zagueiros cariocas.

Diferente do confronto no primeiro turno, quando mandou um losango a campo, Vanderlei Luxemburgo escalou o Fluminense no mesmo 4-2-3-1. A meta de Kléver foi defendida por Bruno na lateral direita, Gum e Leandro Euzébio centralizados e Aílton à esquerda. Mais à frente, Edinho e Jean davam suporte a Rafinha na ponta direita, Wagner mais centralizado e Rafael Sóbis mais agudo à esquerda, próximo de Samuel.

 

 

Ataque pela direita

Tanto o mapa de calor da Footstats quanto o indicador do WhoScored confirmam: o Cruzeiro adorou procurar o lado direito neste jogo (veja as imagens abaixo). Tudo porque Luxemburgo estava sem laterais esquerdos de origem e optou por Aílton naquele lado da defesa, mas o jovem foi mal defensivamente. A troca de posições entre os três meias, uma característica imprescindível para um 4-2-3-1 ofensivo como é o do Cruzeiro funcionar — e que, por sinal, tem acontecido menos do que em partidas anteriores — acabou por confundir a marcação de Ailton.

O mapa de calor da Footstats mostra o Cruzeiro com mais posse pela direita; o índice de ataques do WhoScored.com diz que quase metade dos ataques foram por aquele lado

O mapa de calor da Footstats mostra o Cruzeiro com mais posse pela direita; o índice de ataques do WhoScored.com diz que quase metade dos ataques foram por aquele lado

E após um começo nervoso, com muitos erros de passe pela ansiedade em contra-atacar, o Cruzeiro aproveitou o quarteto ofensivo encaixou alguns passes e abriu o placar com Borges. O passe de Éverton Ribeiro, aqui aparecendo de central, teve como alvo Ricardo Goulart, às costas de Aílton. Goulart avançou cortando pra dentro, mas se enrolou com a bola, que sobrou na entrada da área. Borges foi mais esperto que a cobertura de Bruno e colocou no canto direito de Kléver.

Fluminense muda

Wagner se lesionou e deu seu lugar ao veterano Felipe. Com isso, Luxemburgo reorganizou a equipe no 4-4-2, mandando Felipe para a ponta esquerda para proteger Aílton e dando liberdade a Rafael Sóbis para circular. Funcionou em certa medida, já que Sóbis causou problemas do lado esquerdo da defesa celeste, principalmente com Egídio tendo dificuldades de marcação. Daquele lado, o atacante finalizou uma vez, com certo espaço, e deu uma assistência para Samuel errar o gol dentro da pequena área. Sorte.

Mas se a marcação do lado esquerdo ficou reforçada com Felipe, necessariamente ela foi diminuída em algum outro setor da equipe. E esse setor era o meio-campo ofensivo. Sem um meia central, Nilton e Lucas Silva ficaram sem perseguidores diretos — Jean optava por recuar próximo a Edinho para ter uma sobra no meio-campo. Não por acaso, os volantes celestes tiveram liberdade para avançar e chutar, uma vez cada um.

Luxa queima a regra três

Insatisfeito, Luxemburgo usou de um expediente que lhe é bem característico: queimar todas as substituições no intervalo. Rhayner entrou na vaga de Rafinha para jogar na mesma ponta direita, mas com mais ofensividade; e Igor Julião, lateral direito de origem, entrou na lateral esquerda no lugar de Aílton, mal no primeiro tempo. Além disso, Luxemburgo soltou Jean de vez, que chegava ao ataque com frequência. Vendo que poderia ter problemas com o amarelo que Egídio levou ainda no finzinho do primeiro tempo, Marcelo diminuiu os riscos tirando o camisa 6 e mandando Ceará a campo, novamente na lateral esquerda.

O jogo ficou morno, com o Cruzeiro se contentando em defender a vantagem e o Fluminense arriscando o mínimo possível para não sofrer contra-ataques. Marcelo agiu novamente, tirando Borges e lançando Dagoberto na partida. O camisa 11 foi para a direita, centralizando Ribeiro e mandando Goulart para o ataque — uma substituição que este blogueiro particularmente não gosta, como dito em outros textos. Mas o fato é que Goulart passou a finalizar vária vezes, mas sempre para fora. Talvez pelo fato de não ser um centroavante típico e se movimentar mais, Goulart tenha confundido os zagueiros cariocas.

Sóbis no chuveiro: nada mudou

Com a lesão de Wagner, Luxemburgo repaginou o Fluminense num 4-4-2 reforçando o lado esquerdo com Felipe e dando liberdade para Sóbis, que causou problemas até a expulsão

Com a lesão de Wagner, Luxemburgo repaginou o Fluminense num 4-4-2 reforçando o lado esquerdo com Felipe e dando liberdade para Sóbis, que causou problemas até a expulsão

De toda forma, a partida começou a ficar perigosa demais, já que o Cruzeiro claramente dava indícios de que não iria correr mais do que estava correndo para ampliar o placar. O Fluminense se soltou de vez, chegando com perigo: Fábio chegou a salvar espetacularmente um cabeceio de Samuel, em cruzamento de Bruno da direita.

Mas o ímpeto de empatar acabava dando mais espaço ao Cruzeiro, que contra-atacava. E em um destes contra-ataques, puxado por Dagoberto, Rafael Sóbis fez falta para o segundo amarelo. Parecia que o jogo tinha acabado ali, já que com um a menos o Fluminense parecia não ter mais como reagir. E nos primeiros minutos do novo 4-4-1, o Cruzeiro até ensaiou uma pressão para ampliar, mas esbarrou nas más finalizações de Goulart novamente.

Marcelo Oliveira tentou aproveitar a vantagem numérica e promoveu a reestreia de Élber depois de longo tempo lesionado, na vaga de Willian. Entretanto, a expulsão de Sóbis fez mal ao Cruzeiro, que relaxou demais, e Élber quase não teve tempo na bola. Os jogadores do Fluminense conseguiram perceber este relaxamento e se soltaram novamente, enquanto o Cruzeiro se contentava em deixar o tempo passar. Teria sido uma atitude imperdoável, não fosse Samuel ter perdido mais uma vez um gol dentro da pequena área após chegada pela esquerda.

O lance pareceu ter selado o destino da partida. Mesmo correndo riscos, o Cruzeiro deixou o tempo passar, e sem ser incomodado pelo Fluminense, se reencontrou com a vitória.

O físico e o psicológico

Este blog é sobre tática, mas é claro que esta parte do futebol é também influenciada por outros fatores, e dentre eles estão a questão física e a mental. O desgaste dos jogos em sequência claramente tem emperrado a atuação de alguns jogadores. Além disso, os dois resultados ruins em sequência causaram uma certa ansiedade nos atletas, que por sua vez afetou a parte técnica — muitos erros de passe na ânsia de marcar gols logo e quebrar a sequência negativa. O próprio Marcelo Oliveira mencionou isto.

Entretanto, esses fatores não podem servir de desculpa para o relaxamento celeste no segundo tempo. Com a vitória, este aspecto pode ter ficado em segundo plano para muita gente, mas não aos olhos deste escriba. Claro que o importante era vencer novamente para retomar o caminho do título. Mas o risco de deixar de ganhar três pontos foi grande demais, mesmo em vantagem numérica.

É preciso retomar o futebol de outrora para que a torcida celeste não passe tanto sufoco. Quem sabe agora, com os jogos sendo somente aos fins de semana — exceto contra o Vitória na 34ª rodada — a questão física deixe de ser um fator e o Cruzeiro mostre a intensidade ofensiva que encantou o Brasil no primeiro turno.

A confiança no título segue inabalável, mas o Cruzeiro pode sim jogar mais do que o que jogou. Basta fazer, literalmente, um pequeno esforço a mais.



Atlético/MG 1 x 0 Cruzeiro – Nas trincheiras do círculo central

O xadrez é um dos jogos mais estudados do mundo. Talvez por ser um dos mais antigos e com regras solidificadas há tanto tempo. Por isso mesmo, existem nomes para o conjunto de movimentos na fase inicial da partida, chamadas de “aberturas“, nas quais um dos objetivos do enxadrista é tomar o controle da região central do tabuleiro, para ter vantagem territorial posteriormente.

No futebol, que é um esporte bem mais jovem mas tão estudado quanto, a analogia vale para o meio-campo: quem tem o controle deste setor normalmente tem o controle da partida – o que não significa que sairá vencedor. Há várias maneiras de se ter o controle do meio, seja com ou sem a posse de bola. E um misto de desvantagem física com estratégia agressiva do adversário no setor deram o domínio deste setor tão crucial ao Atlético Mineiro. No fim, acabou não sendo a causa direta do revés, mas explica a inoperância ofensiva celeste, este sim, um motivo– em que pese a boa atuação da dupla de zaga celeste e do goleiro Fábio.

Escalações

No 4-2-3-1, ambos os times tinha três meio-campistas centrais, mas o Atlético foi mais intenso na briga pela segunda bola e minou o toque de bola celeste

No 4-2-3-1, ambos os times tinha três meio-campistas centrais, mas o Atlético foi mais intenso na briga pela segunda bola e minou o toque de bola celeste

Os dois treinadores armaram suas equipes no 4-2-3-1 costumeiro a ambas. Marcelo Oliveira teve Fábio no gol, Ceará na lateral direita, Léo e Bruno Rodrigo na zaga central e Egídio como lateral esquerdo. Nilton e Lucas Silva faziam a dupla volância, com Éverton Ribeiro na ponta direita, Ricardo Goulart como central e Willian partindo da esquerda mas circulando. Na frente, Borges enfiando entre os zagueiros.

Já Cuca não abre mão do 4-2-3-1 que implantou com sucesso no segundo semestre do ano passado e no início deste ano. A linha defensiva do goleiro Giovanni teve Marcos Rocha e Júnior César nas laterais, com Leonardo Silva e Emerson no miolo. Pierre, mais marcador, e Josué, com mais liberdade, faziam a proteção à área e davam suporte ao quarteto ofensivo: Luan partindo da direita, Diego Tardelli centralizado e Fernandinho pela esquerda articulavam atrás de Alecsandro, o centroavante.

A segunda bola

Um fenômeno que este blogueiro ainda precisa entender é porque o Independência é um campo que favorece a bola longa e a disputa aérea, sendo que o campo possui as mesmas medidas de vários estádios do Brasil, inclusive o Mineirão. Talvez seja um um fator psicológico, pois de fato este estádio faz com que o jogo fique muito mais competido do que jogado, como dizia Celso Roth. Menos bola no chão, passes e toque de bola, e muito mais disputa e jogo de desarmes.

Mas é mais provável que seja o estilo de jogo que o Atlético Mineiro impõe no campo do Horto, pois é um estilo que lhe favorece. Intensidade na disputa pela bola, e assim que consegue, transição rápida, seja por que lado for. Eram três contra três próximos do círculo central, mas os jogadores atleticanos tinham muito mais sede — e aqui entra um fator físico, já que os titulares descansaram durante a semana especificamente com vistas ao clássico — e por isso ganhavam quase todas as sobras da disputas aéreas neste setor. Correndo o risco de ser redundante, é o famoso jogo de primeira e segunda bola, no qual um jogador faz um passe longo na direção do ataque e dois jogadores disputam o toque no ar — a primeira bola — tentando fazer a bola sobrar para um de seus companheiros — a segunda bola.

Apesar das chances, só uma finalização foi feita no primeiro tempo -- Fábio defendeu. O Cruzeiro, time que mais finaliza no Campeonato Brasileiro, não chutou sequer uma vez (Footstats)

Apesar das chances, só uma finalização foi feita no primeiro tempo — Fábio defendeu. O Cruzeiro, time que mais finaliza no Campeonato Brasileiro, não chutou sequer uma vez (Footstats)

E assim seguiu todo o primeiro tempo: bola longa de ambos os times, disputa aérea, e a posse era quase sempre do time da casa, que tentava resolver rápido a jogada. O primeiro tempo foi um jogo praticamente de ataque e defesa especificamente por causa deste aspecto. O Cruzeiro não finalizou ao gol de Giovanni uma vez sequer. Não houve nem tentativas erradas.

Mas há que se destacar também a boa atuação defensiva da zaga cruzeirense. Com tanta intensidade, o Atlético Mineiro também só conseguiu uma finalização na primeira etapa, com Fernandinho que Fábio salvou brilhantemente. Alecsandro não contribuía e as chances criadas pelo time atleticano não eram convertidas em finalização, muito por causa da boa marcação de Léo e Bruno Rodrigo. Ceará teve dificuldades com Fernandinho, mas foi brilhante em um lance dentro da área, onde evitou o pênalti a todo custo e fez o jogador adversário se enrolar com a bola e cair sozinho.

Menos refinamento, mais disputa

Com Henrique e Alisson, a disputa no meio-campo equilibrou, mas não foi suficiente para incomodar  a defesa do Atlético Mineiro

Com Henrique e Alisson, a disputa no meio-campo equilibrou, mas não foi suficiente para incomodar a defesa do Atlético Mineiro

Coincidência ou não, o estilo do rival não só lhe favorece como desfavorece o jogo celeste. Com a bola sempre sobrando nos pés dos atleticanos no meio, ela simplesmente não chegava aos pés do quarteto ofensivo, muito porque os atacantes do Atlético Mineiro forçavam o chutão — e por isso ganhava a segunda bola — e também porque o adversário lotava o meio-campo para esperar um passe errado celeste, e dali partir na transição ofensiva rápida.

Era preciso mais intensidade, portanto. Era preciso disputar com o Atlético Mineiro a bola no meio. Também por isso, no intervalo Marcelo colocou Henrique na vaga de Lucas Silva, que já estava na caderneta de advertências e não poderia entrar em disputas mais duras. E portanto, o Cruzeiro saiu um pouco de sua característica de leveza e toque de bola para competir pela posse. O jogo já não ficou tão desequilibrado, e logo no início Ricardo Goulart teve a chance de ouro de mudar a partida, mas Giovanni defendeu.

Quatro contra três

O Atlético Mineiro chegava menos, mas ironicamente começou a finalizar mais, mas sem muito perigo. Chutes bloqueados e defendidos com facilidade por Fábio nos quinze primeiros minutos. Marcelo Oliveira então lançou Alisson na vaga de Borges, numa excelente troca: Goulart foi ser centroavante para brigar no alto com os zagueiros do Atlético Mineiro, quesito no qual se saiu melhor do que Borges, e Alisson entrou de central, circulando por todo o campo e chamando Everton Ribeiro para dentro.

A marcação atleticana, individual, não encaixou no novo esquema e Júnior César ficou sem ter a quem marcar, já que Ribeiro já não ficava por ali. Resultado: o Cruzeiro tinha um homem a mais no setor em que anteriormente estava perdendo a batalha pela posse, e passou a ganhar algumas segundas bolas. Teve mais a bola no pé e equilibrou a partida de vez.

Mas a peleja seguia mais disputada do que jogada, e o ataque celeste não apareceu. Se nada mais acontecesse, dali o jogo seguiria certamente para um empate sem gols. Cuca então lançou Neto Berola na vaga de Alecsandro, invertendo Fernandinho de lado, e logo depois tirou Josué e pôs Leandro Donizete, tentando desequilibrar novamente a batalha no meio-campo. Marcelo respondeu com Dagoberto na vaga de Willian, apagado. Os dois treinadores queriam a vitória.

O Cruzeiro até teve mais a bola nos pés (52 a 48%) mas gastou quase metade de sua posse de bola no terço de defesa, ou seja de sua intermediária para trás - o maior índice até aqui no campeonato

O Cruzeiro até teve mais a bola nos pés (52 a 48%) mas gastou quase metade de sua posse de bola no terço de defesa, ou seja de sua intermediária para trás – o maior índice até aqui no campeonato

De todas as trocas, foi a primeira de Cuca que mais funcionou: Fernandinho, agora pela direita, incomodava bem mais, já que o poder de marcação de Egídio é menor que o de Ceará. O Atlético Mineiro voltou a ter chances, mas com exceção do lance de Luan defendido espetacularmente por Fábio, as outras finalizações não foram tão perigosas.

A ironia do futebol

Ironicamente, o gol que definiu a partida aconteceu em um erro de Alisson, o que tinha equilibrado o jogo: ele tentou cavar uma falta e perdeu a bola, armando o contra-ataque do Atlético com o Cruzeiro saindo para o ataque. Egídio estava muito à frente e obrigou Bruno Rodrigo a sair na cobertura, dando o bote no tempo errado — talvez seu único erro durante toda a partida. Fernandinho chutou uma bela bola e Fábio ainda raspou nela mas não conseguiu desviar o suficiente.

Depois disso, o Atlético Mineiro se encastelou e partiu nos contra-ataques, dificultando muito as ações ofensivas celestes. Com pouco tempo e sem trocas restantes, Marcelo nada pôde fazer a não ser esperar o fim do jogo.

Lições para o futuro

O clássico tem essas coisas, ainda mais agora que existe o mando de campo. O time que não tem mais nada o que fazer no campeonato descansa seus jogadores especificamente para pegar o rival — não duvido que isso tenha sido uma “ordem de cima”. Ao contrário do Cruzeiro, que está disputando o título e mandou seus melhores jogadores para a desgastante partida do meio de semana.

Portanto, o fator físico foi sim muito importante para o desenrolar deste jogo. Mas não há como negar que o modelo de jogo do rival tem seus méritos, principalmente no seu campo. Méritos de Cuca, que achou este modelo há mais de um ano atrás e ainda colhe seus frutos. Ao Cruzeiro fica a lição de que poderia sim ter vencido se tivesse sido minimamente mais aplicado no meio-campo central, minando a principal característica do jogo atleticano. A partir dali, seria mais fácil se movimentar na frente para desorganizar a marcação individual que Cuca pede a seus comandados.

O título ainda está longe de estar em perigo, muito também por causa da incompetência dos perseguidores mais próximos. Entretanto, as duas derrotas ligam o alerta: é preciso voltar a vencer para não dar nenhuma esperança aos milhares de “anti” que espreitam por aí.



Cruzeiro 0 x 2 São Paulo – No meio do caminho tinha um Muricy

Eis que a invencibilidade do Cruzeiro no Mineirão chegou ao fim. E o maior responsável foi o treinador do São Paulo, Muricy Ramalho. Uma verdadeira pedra no sapato cruzeirense.

Minimizar os erros e aproveitar ao máximo os do adversário é um dos pilares do famigerado Muricybol, estilo de jogo que veio à luz no tricampeonato do São Paulo de 2006 a 2008. Pois consciente da inferioridade técnica de sua equipe e jogando em campo desfavorável, Muricy aplicou este princípio muito bem ao armar o São Paulo para que não houvesse jogo algum, travando a movimentação celeste — principal trunfo do Cruzeiro até aqui. Com isso, o jogo se transformou em uma competição de quem errava menos e quem capitalizasse melhor as poucas oportunidades que apareceriam, e nesse quesito o São Paulo foi melhor.

Escretes

O sistema de coberturas do 3-4-1-2 de Muricy travou a movimentação dos três mais cruzeirenses: Goulart cercado e laterais pressionados pelos alas

O sistema de coberturas do 3-4-1-2 de Muricy travou a movimentação dos três mais cruzeirenses: Goulart cercado e laterais pressionados pelos alas

Marcelo Oliveira escalou o time atualmente considerado titular, desfalcado apenas de Dedé, na seleção, no já habitual 4-2-3-1. Fábio no gol, Ceará, Léo, Bruno Rodrigo e Egídio faziam a linha defensiva, Nilton e Lucas Silva na proteção e no suporte ao trio de meias, Everton Ribeiro da direita para o centro, Ricardo Goulart partindo do centro e Willian mais pela esquerda e mais agudo, se aproximando de Borges.

O São Paulo entrou num 3-4-1-2 com coberturas especiais para parar a fluidez celeste. Dênis era o goleiro e tinha em seu trio defensivo Paulo Miranda à direita, Rodrigo Caio no centro e Édson Silva à esquerda. Tudo para poder avançar os alas Douglas e Reinaldo para se alinharem aos volantes Wellington e Maicon — este último com mais liberdade para sair e se aproximar de Ganso na ligação. Na frente, Ademílson e Aloísio ficavam um de cada lado. Não havia centroavantes.

Encaixes

Os leitores mais assíduos do blog sabem que sempre menciono o problema que acontece quando trios defensivos encaram ataques com jogadores abertos, que aqui no blog chamo de ponteiros. Ou os alas têm que recuar para marcar os ponteiros — e com isso perdendo amplitude no ataque, cedendo espaços aos laterais adversários e ainda criando uma sobra dupla redundante na defesa — ou corre-se o risco de ficar no mano a mano.

Muricy optou pela segunda opção, pois ordenava constantemente seus alas a avançarem e baterem com Ceará e Egídio, travando o avanço pelos lados, deixando Rodrigo Caio com Borges e os zagueiros de lado fazendo a cobertura dos alas, deixando três contra três. Por isso a margem de erro do São Paulo era mínima, já que, ao ver o Cruzeiro se aproximar de sua área, um bote mal dado poderia gerar inferioridade numérica, o pesadelo de qualquer defesa. Mas com o setor central congestionado, com Goulart cercado pelo volantes e às vezes até por Ganso, a bola não chegava à frente com qualidade, fazendo com que a falta de um jogador na sobra da defesa fosse um problema menor.

Já na outra ponta do campo, Aloísio e Ademílson ficavam mais livres para pressionar Léo e Bruno Rodrigo, puxando Ganso para cercar o passe aos volantes, ou então eles mesmos marcarem Nilton e Lucas Silva, fazendo Ganso ficar próximo dos volantes e criando a compactação citada no parágrafo anterior.

Chama e vai

Diante da dificuldade, o Cruzeiro concedia a posse mais frequentemente que o normal e passou a tentar chamar o São Paulo para seu campo. Com a bola, Rodrigo Caio subia da da linha defensiva para junto de Wellington e confundia a marcação celeste. Num desses lances o volante-lateral avança sem ser incomodado, com Borges correndo atrás para tentar cercar, e chuta com perigo à meta de Fábio. Além disso, o São Paulo apoiava com os dois alas ao mesmo tempo, por vezes criando uma situação de quatro contra quatro na defesa celeste e obrigando um dos volantes a afundar, deixando Ganso no mano a mano com o outro volante.

Com dificuldade em reter a bola no ataque, o Cruzeiro acabava cedendo a posse e por isso o São Paulo foi a equipe com maior posse de bola no terço final do campo -- ou seja, da intermediária ofensiva para frente -- na rodada (Footstats)

Com dificuldade em reter a bola no ataque, o Cruzeiro acabava cedendo a posse e por isso o São Paulo foi a equipe com maior posse de bola no terço final do campo — ou seja, da intermediária ofensiva para frente — na rodada (Footstats)

Mesmo com dificuldades de reter a bola, o Cruzeiro conseguia se defender razoavelmente, passando a tentar explorar os contra-ataques em velocidade, talvez a única vulnerabilidade do sistema de Muricy. Porém, naquela noite os passes rápidos não estavam saindo com a mesma qualidade, e novamente a posse era perdida. Quando saiu uma jogada, foi o lance capital da partida: Éverton Ribeiro achou Goulart, que tabelou com Willian e bateu para ótima defesa de Dênis. No rebote, com o gol aberto e Dênis batido, Willian mandou na trave. O imponderável do futebol, uma espécie de Sobrenatural de Almeida às avessas entrou em campo e não queria que o Cruzeiro vencesse.

O jogo de xadrez

No início do segundo tempo o Cruzeiro foi pra cima e pressionou, sufocando o São Paulo com o time bem avançado. Foram cinco minutos em que só o Cruzeiro jogou. Mas depois disso o jogo voltou ao patamar do primeiro tempo, com cada treinador esperando o outro fazer o primeiro movimento. Como nenhum fez, os dois fizeram ao mesmo tempo: Marcelo Oliveira lançou Dagoberto, desta vez na vaga de Goulart — com isso, Ribeiro foi ser central e Dagoberto esquerda, com Willian invertendo de lado — e Muricy pôs Welliton na vaga de Aloísio, sem modificar seu sistema.

O jogo de xadrez continuou. Muricy viu que Dagoberto não voltava muito pra marcar e mandou seu ala apoiar ainda mais, dando dificuldades para Egídio. Marcelo respondeu lançando Mayke na vaga do camisa 6, invertendo Ceará de lado para reforçar a marcação. E foi justamente num lance de bote errado de Mayke em Maicon que o São Paulo abriu o placar. Note o efeito cascata nas coberturas por causa do erro: Léo, que devia estar em Welliton, saiu em Maicon. Bruno Rodrigo então saiu de Ademílson para marcar Welliton, e Ceará, por sua vez, saiu da esquerda para marcar Ademílson. A bola rodou e Douglas ficou sozinho do outro lado para finalizar.

Três minutos depois, o Cruzeiro errou mais uma vez. Méritos para Ganso, que não foi desarmado por três cruzeirenses que o cercavam na entrada da área. Na cobrança, novo erro de cobertura fez com que o rebote não fosse rebatido, e o São Paulo aumentou a vantagem. Com pouco tempo para fazer alguma coisa, Marcelo tentou Alisson na vaga de Lucas Silva, soltando de vez o Cruzeiro num 4-1-4-1/4-3-3. Muricy só fez mais uma troca, com Lucas Evangelista na vaga de Ganso, mas manteve o sistema que dava tão certo até ali e que, com o novo 4-1-4-1 celeste, ficou com a marcação ainda mais encaixada. Alisson até que se movimentou bem, causando certa confusão na marcação paulista, mas não foi suficiente para fazer Dênis trabalhar.

Acontece

Muricy mostrou porque é um grande técnico. Conseguiu descobrir um sistema que permitia maximizar as chances de parar o ataque celeste, arriscando ficar sem sobra na defesa para ter vantagem numérica no melhor setor cruzeirense, o meio ofensivo (defensivo para o São Paulo). Mesmo assim, não impediu o Cruzeiro de criar chances, que, se não foram muitas, foram perigosas. A bola de Willian na trave teria mudado o jogo completamente.

Mas não há o que lamentar. Talvez a oportunidade perdida de aumentar a vantagem de 11 para 14 pontos, já que o Grêmio conseguiu perder para o Criciúma em casa horas antes. A vantagem permaneceu a mesma, mas agora com menos jogos a serem cumpridos, o que na prática aumentou as chances celestes de título.

Na postagem passada o blog disse que o Cruzeiro poderia avançar em ritmo menor que os concorrentes que mesmo assim seria campeão. De fato, a vantagem de 11 pontos, faltando 11 partidas, nos permite fazer o seguinte raciocínio: se o Grêmio, o perseguidor mais próximo, fizer uma média de dois pontos por jogo — ou seja, um aproveitamento de 67%, que só o Cruzeiro tem no atual certame — ainda assim o Cruzeiro só precisaria fazer 1 ponto por jogo, o que daria um aproveitamento de 33%, o que seria o terceiro pior do campeonato. Mas as duas coisas me parece improváveis: nem o Grêmio dá sinais de que vai conseguir tudo isso, nem o Cruzeiro vai perder tanto gás assim até o fim do campeonato.

Assim, se não existe hora certa para perder, como disse Marcelo Oliveira na coletiva pós-jogo, não há dúvidas de que o revés, que cedo ou tarde aconteceria, veio no momento mais oportuno possível.

Seguimos olhando só para a frente.



Náutico 1 x 4 Cruzeiro – Trotando

Seis minutos do segundo tempo, escanteio para o Náutico. Ricardo Goulart é quem sobe para afastar a bola da área, que sobra no pé de Éverton Ribeiro no grande círculo. Goulart avança correndo de leve, desde a grande área defensiva vendo o lance se desenrolar. Troca de passes daqui e dali, e sem interromper o ritmo da corrida, o jogador invade a área ofensiva sem marcação, e de repente a bola chega, redondinha, até seus pés. Arremate no canto esquerdo baixo de Ricardo Berna e a corrida para o abraço.

Poucas partidas podem ser bem sintetizadas taticamente pelos lances dos gols como a que aconteceu na Arena Pernambuco no domingo — partida esta que este blogueiro teve o prazer de acompanhar in loco, pela primeira vez na torcida visitante. Acima, a descrição do segundo gol pela perspectiva de Ricardo Goulart é um bom exemplo: um Cruzeiro descansando, quase em ritmo de amistoso, mas mesmo assim conseguindo criar o suficiente para vencer de forma inapelável.

Onze inicial

Dois momentos capturados, ambos tiros de meta a serem cobrados por Fábio. Note as diferenças na marcação encaixada do Náutico nos dois momentos

Dois momentos capturados, ambos tiros de meta a serem cobrados por Fábio. Note as diferenças na marcação encaixada do Náutico nos dois momentos

O 4-2-3-1 habitual de Marcelo Oliveira teve mudanças. Para a vaga do suspenso Egídio, Mayke foi o escolhido, com Ceará indo para a lateral esquerda. E na zaga, Léo entrou no lugar de Dedé, a serviço da seleção nacional. Desta forma, o Cruzeiro se alinhou com Fábio no gol, Mayke, Léo, Bruno Rodrigo e Ceará na linha defensiva, Nilton e Lucas Silva na proteção, Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Willian na articulação e Borges na referência, como você pode ver nas fotografias ao lado, clicadas diretamente da arquibancada da Arena Pernambuco por este que vos escreve.

Já o Náutico, do até então invicto treinador Marcelo Martelotte, veio a campo num 4-3-1-2, para tentar se defender ganhando o meio-campo em número e partindo em velocidade nos contra-ataques, principalmente com Maikon Leite. A meta de Ricardo Berna foi protegida pelos zagueiros William Alves e Leandro Amaro, com João Filipe na lateral direita e Bruno Collaço na esquerda. Elicarlos — aquele mesmo — ficou plantado na frente da defesa, tendo Dadá à sua direita e Derley à sua esquerda. A criação ficou por conta de Morales, que procurava Maikon Leite mais leve pela direita e Olivera, mais centroavante, um pouco mais à esquerda.

Superioridade clara

A partida começou com domínio total de território do Cruzeiro, embora a maior posse de bola fosse um tanto preguiçosa. Os três meias não se aproximavam tanto quanto em outras jornadas, facilitando a marcação pernambucana. Na primeira vez em que Willian e Éverton Ribeiro se aproximaram e tabelaram, saiu o escanteio que originou o gol. Goulart sobe sem marcação para cabecear, num erro crasso de marcação de bola parada do time da casa. Aparentemente, ali os jogadores celestes sentiram que seria um jogo fácil, talvez inconscientemente.

Assim, após o gol, diminuiu ainda mais a velocidade, deixando o Náutico com a bola e frustrando os planos de ataque do Náutico com facilidade — principalmente com Ceará pela esquerda, iniciando o seu jogo perfeito. Sem dúvida, o veterano foi o melhor em campo defensivamente, anulando Maikon Leite no setor. Morales não via a bola e quando a tinha não criava, Olivera não era perigoso e os laterais do Náutico não apoiavam tanto, receosos de levar um contra-ataque dos rápidos meias cruzeirenses. Fábio só teve trabalho em uma cobrança de falta.

Aqui um tiro de meta defensivo, mostrando o 4-3-1-2 pernambucano. Nota-se Dadá bem aberto à direita e B. Collaço avançado para bater diretamente com Mayke

Aqui um tiro de meta defensivo, mostrando o 4-3-1-2 pernambucano. Nota-se Dadá bem aberto à direita e B. Collaço avançado para bater diretamente com Mayke

E quanto tinha a bola, porém, o Cruzeiro era marcado de duas formas diferentes pelos lados do campo. Pela direita, Dadá abria para impedir o avanço de Ceará, deixando João Filipe para marcar o ponteiro esquerdo do Cruzeiro. Do lado esquerdo, Bruno Collaço tinha liberdade para subir e bater diretamente com Mayke, e Derley fazia a cobertura do ponteiro direito celeste. Se a jogada fosse pelo meio, os volantes fechavam de novo e ajudavam Elicarlos a superlotar o setor. Só funcionou porque o Cruzeiro, como explicado, estava em ritmo de amistoso.

Mudança de planos

Com a lesão de Dadá, porém, o jogo mudou. Marcelo Martelotte ousou e mandou Peña a campo, um meia para espelhar o esquema celeste, mandando Maikon Leite para o lado esquerdo. O Náutico melhorou em três setores: o meio-campo central, que agora tinha um jogador mais criativo — Peña fazia a mesma rota de Éverton, partindo da direita para o centro; a lateral-direita, já que o corredor se abriu para o apoio do zagueiro-lateral João Filipe; e a ponta esquerda, com Maikon Leite dando muito trabalho para Mayke na marcação.

O gol de empate é a síntese: belíssimo passe de Peña entre os zagueiros celestes, achando Maikon Leite fazendo a diagonal, ganhando na velocidade de Mayke e completando de primeira.

É importante dizer, no entanto, que mesmo em ritmo claramente menor que o adversário, o Cruzeiro matou a maioria das campanhas ofensivas do Náutico e ainda conseguia com pouco esforço chegar em alguns momentos. Então, é seguro concluir que a primeira etapa foi equilibrada principalmente porque o Cruzeiro não quis acelerar muito.

Etapa final e trocas

Mas Marcelo Oliveira não queria que fosse equilibrado, e pediu mais vontade no intervalo. Dito e feito: o lance do segundo gol, narrado no primeiro parágrafo deste texto sob a perspectiva do autor do tento, novamente é uma boa síntese daquele momento do jogo e da partida como um todo. Aproximação e troca de passes entre Éverton Ribeiro e William, com intensidade suficiente para enlouquecer a defensa pernambucana, que nem viu Ricardo Goulart entrar na área praticamente andando e colocar o Cruzeiro novamente na frente. Veja o vídeo e repare na tranquilidade de Goulart: ele só aparece na imagem aos 6 segundos, à direita.

Pouco tempo depois, Willian fez fila pela esquerda e sofreu pênalti tão claro que os zagueiros nem reclamaram. Éverton Ribeiro quase perdeu mas converteu, praticamente definindo o jogo ali mesmo aos 13 da etapa final. Logo após o gol, Martelotte tirou Morales e mandou Hugo a campo como ponteiro esquerdo, centralizando Peña na criação e invertendo Maikon Leite novamente de lado. Marcelo Oliveira respondeu com Dagoberto e Tinga nas vagas de Borges e Éverton Ribeiro, com Ricardo Goulart indo fazer a função de centroavante, e Tinga flutuando entre as duas grandes áreas. Dagoberto foi para a direita.

Ao 32, quase 50 segundos de posse de bola e dezoito toques na bola até a conclusão de Mayke no canto direito que mandou a torcida pernambucana embora do estádio. Nós, torcedores celestes, agora éramos oficialmente donos daquele campo. Alisson ainda entrou no lugar de Willian, e Maikon Leite jogaria por dez minutos na função de centroavante com a entrada de Marcos Vinícius na vaga de Olivera, mas nada mais aconteceu de relevante.

Sínteses e analogias

Como dito, os gols resumem bem o que foi a partida. O primeiro estabeleceu a diferença entre as equipes, já que foi um erro infantil de marcação da defesa do Náutico; o gol de empate mostrou como o time da casa levava vantagem em alguns setores, muito devido ao baixo ritmo do Cruzeiro naquele momento; o segundo gol foi uma demonstração de que bastava o Cruzeiro acelerar um pouco mais que criava com facilidade, em clara superioridade tática; o terceiro a prova da superioridade técnica, com dribles sucessivos de Willian até o pênalti; e o quarto gol foi a confirmação do que o primeiro estabeleceu, já que o Náutico sequer encostou na bola durante vários segundos até a conclusão final.

Convido o leitor, porém, a reler o primeiro parágrafo deste texto, mas agora fazendo uma analogia diferente: o trote de Goulart de uma área até a outra, sem ter a companhia de nenhum adversário até a linha fatal, pode ser uma representação do trajeto do próprio Cruzeiro no certame a partir daqui. A vantagem de onze pontos é muito significativa, e faz com que os adversários tenham que galopar muito intensamente durante todo o resto do campeonato, e ainda contando com tragédias do Cruzeiro ao longo do caminho.

Ao Cruzeiro, porém, basta um leve trote — como o de Goulart.