Cruzeiro 0 x 4 Santos – O ocaso de Roth

A combinação de erros infantis com o imenso talento de Neymar resultaram em um hat-trick para o jovem santista e humilhação para o Cruzeiro em pleno Independência.

O estranho híbrido de 4-3-1-2 losango com 4-2-3-1 tendo Charles caindo pela direita e Sandro Silva se deslocando lateralmente, tudo por causa de Neymar

Ao contrário do que se esperava, Celso Roth não entrou com seu losango bem definido, mas com um híbrido entre este e um 4-2-3-1 torto, tudo para tentar parar Neymar. O pobre goleiro Fábio teve a linha defensiva formada por Ceará à direita, Rafael Donato e Mateus no miolo de zaga e Éverton pela esquerda. Leandro Guerreiro à frente da defesa, como de costume, mas tendo Sandro Silva perseguindo o camisa 11 santista e Charles com mais liberdade para se juntar ao ataque pelo lado direito. Montillo de ponta-de-lança, Martinuccio de ponteiro esquerdo, e Anselmo Ramon brigando com os zagueiros, na frente.

O Santos veio num esquema parecido. Rafael Cabral teve Bruno Rodrigo e Durval como dupla de zaga, flanqueados por Rafael Galhardo pela direita e Juan pela esquerda. Adriano ficava mais plantado, liberando Arouca e Henrique para se juntar ao trio Felipe Anderson no topo do losango, Neymar caindo mais pela esquerda mas com liberade de movimentação, e André centralizado.

A partida começou disputada e com a disputa no meio até certo ponto equilibrada, mas com os marcadores de Neymar falhando miseravelmente em suas missões. Sandro Silva, Rafael Donato, Mateus — todos, um a um, penaram para segurar a joia santista. Além de excelente driblador e finalizador, o jovem camisa 11 também consegue se posicionar de forma inteligente, enganando totalmente os volantes e zagueiros azuis.

O primeiro gol saiu de uma receita de bolo. Passo 1: pressione a zaga do Cruzeiro até um dos jogadores errar. Passo 2: Quando isso acontecer, você vai estar em uma posição de campo muito boa, bastando acrescentar qualidade para finalizar. E o Santos tinha isso em Neymar. Arouca passou como quis por Everton e achou o garoto dentro da área, que finalizou de primeira.

Para “desespero” de Celso Roth, o gol santista fez o Cruzeiro sair de sua cautela. Ao contrário dos últimos jogos, era Ceará o lateral que mais apoiava, e Éverton ficava mais preso, muito devido à presença de Felipe Anderson por ali. A “inversão” do comportamento dos laterais é surpreendente. Talvez a intenção de Celso fosse tentar explorar o espaço às costas de Neymar, que não ajuda na recomposição, fazendo dois contra um em Juan. Era Charles que ajudava por ali, e Montillo também caía por aquele lado. Porém, o jogo do Cruzeiro sob Celso Roth é cruzamento na área, sem qualquer alvo específico. Com Mateus, Donato e Anselmo Ramon na área, é bola alta pelos lados. Não existe jogada pelo chão.

Então veio o erro de Mateus em um ataque aparentemente dominado, culminando no segundo gol do Santos. A partir daí, foi um show de horrores, muito bem aproveitado pelo time visitante. Fábio evitou uma desvantagem maior ainda no primeiro tempo.

No intervalo, Celso tentou (?) colocar o Cruzeiro no jogo novamente, lançando Fabinho no lugar de Sandro Silva, que nada fez (nem marcar). O 4-2-3-1 era o que devia ter sido feito desde o início, mas com Ceará um pouco mais preso para tirar o espaço por onde Neymar joga. Porém, com dois gols de desvantagem, não havia alternativa senão atacar, e o Cruzeiro correu o risco. Ceará e Fabinho combinavam bastante pela direita, mas o resultado sempre era um cruzamento infrutífero.

E o risco de avançar apareceu no terceiro gol. Lateral cobrado com rapidez, Neymar com um toque bota a bola na frente e avança em velocidade. Não havia ninguém por ali para marcá-lo, e ele achou Felipe Anderson dentro da área, sem marcação nenhuma, para completar e matar o jogo.

No fim, Cruzeiro já sem forças, nem mesmo desesperado, apenas esperando acabar o jogo. Seria um 4-2-3-1 ou um 4-3-3? Não ficou claro

Jogo resolvido, o Santos se limitou a atacar no erro do Cruzeiro. E conseguia, porque o Cruzeiro errava demais. Celso Roth tirou Rafael Donato e lançou William Magrão na zaga — uma substitução técnica, não tática. Magrão não melhorou o combate. E pro fim, para a ira da torcida, sacou Martinuccio, um dos que mais lutava, para lançar Wellington Paulista dentro da área caindo pela direita, com Fabinho indo para o lado esquerdo. Substituição errada, mas coerente com a linha de pensamento do treinador: bola na área pra ver o que acontece. Não aconteceu nada.

Muricy só fez substituições para poupar seus jogadores, mantendo a mesma plataforma do início ao fim. E conseguiu até com facilidade segurar o frágil Cruzeiro, que vai caindo pelas tabelas. Celso Roth não vai continuar, e este jogo marcou, definitivamente, o fim de seu comando. Assim como o Cruzeiro, o treinador só vai cumprir tabela até o fim do campeonato.

Felizmente, o Cruzeiro só não tem chance real de descenso porque fez um bom início de campeonato, contra todos os prognósticos. Que não estavam tão errados, afinal.

Cruzeiro 2 x 0 Corinthians – Feliz 2013

Em uma partida bem sonolenta, o Cruzeiro conseguiu marcar gols na fraca defesa reserva do Corinthians e ainda contou com a falta de ímpeto do ataque adversário para sair com a vitória. Destaque mais uma vez para Martinuccio, autor de uma assistência e um gol, mostrando que deve ser titular jogando pelo lado do campo.

O 4-3-1-2 losango costumeiro sofreu com a falta de compactação no meio quando o Corinthians fez pressing. E quem joga pela direita do ataque neste time?

Celso Roth não abriu mão do sistema e mandou um 4-3-1-2 losango a campo, com Fábio no gol, Ceará e Everton nas laterais e Léo e Thiago Carvalho no miolo de zaga. Leandro Guerreiro protegia a defesa e era ajudado por William Magrão pela direita e Marcelo Oliveira pela esquerda. Montillo mais uma vez foi escalado na ligação para Martinuccio aberto pela esquerda e Anselmo Ramon na referência.

O Corinthians de Tite esteve longe de ser o time com muita movimentação tática da Libertadores. Dentre jogadores poupados, lesionados e convocados, o imutável 4-2-3-1 corintiano veio com Wallace e Paulo André protegendo no gol de Cássio e flanqueados por Weldinho na direita e Guilherme Andrade na esquerda. Guilherme e William Arão na dupla volância suportavam o trio de meias composto por Edenílson na direita, Douglas centralizado e o experiente Danilo na esquerda. À frente, Romarinho tentava ser um atacante de movimentação.

Pressing

Logo de cara já dava para ouvir os gritos de Tite na transmissão do jogo pela TV, dizendo para o time encurtar os espaços. É a característica da equipe paulista sob a batuta do técnico gaúcho: pressionar a saída de bola adversária. E nos primeiros minutos isso funcionou muito bem. O quarteto ofensivo do Corinthians subia a marcação e fazia os zagueiros e volantes do Cruzeiro cederem a posse da bola com chutões ou passes ruins. Assim, o Cruzeiro teve menos a bola no início do jogo, com muita dificuldade de saída.

Isto também acontecia porque, como já explorado neste blog antes, o losango de Celso Roth com Marcelo Oliveira e William Magrão pelos lados faz o time ficar “divorciado”, já que a principal função desses jogadores é a de marcar. Porém, os volantes do Corinthians também não se juntavam à movimentação ofensiva, e o Cruzeiro conseguia repelir os ataques adversários pelo simples fato de ter maior número de jogadores. Os volantes faziam dois contra um junto com os laterais nos meias abertos, Romarinho sofria ante a marcação dos dois zagueiros e Douglas era vigiado com qualidade por Leandro Guerreiro, fazendo com que a bola passasse pouco pelos pés do meia. Apenas Danilo conseguia levar algum perigo quando conseguia se desvencilhar de Ceará.

Cruzeiro ataca

Ofensivamente, o Cruzeiro jogou como sempre no início: bola longa para Anselmo Ramon, que disputa no alto para que a sobra fique com Montillo ou Martinuccio, ou então faz o pivô esperando a chegada dos companheiros. Aos poucos, a pressão alta corintiana foi arrefecendo e o Cruzeiro foi tendo mais espaços para jogar, principalmente pelo lado esquerdo com Martinuccio. Foi por ali que saiu o primeiro gol: o argentino recebeu passe de Montillo e fez assistência rasteira para Anselmo Ramon, no meio dos zagueiros, completar.

Porém, o outro lado do ataque era praticamente abandonado pelo Cruzeiro. Montillo preferia cair pelo lado esquerdo, uma vez que tinha companhia pra jogar no setor. Ceará pouco apoiava, principalmente por estar vigiando Danilo, e William Magrão, mais uma vez, fez uma partida ruim, sem saber se atacava com profundidade, marcava no meio-campo ou marcava o lateral esquerdo. Ainda não está claro qual é a função do volante neste esquema de Celso Roth. Provavelmente o jogo seria mais fácil se Élber estivesse jogando naquele setor, dando amplitude e profundidade ao mesmo tempo.

Ainda no primeiro tempo, Montillo sentiria uma fisgada na coxa e seria substituído por Souza. Dois jogadores com características bem diferentes, já que um parte com a bola dominada e é intenso, enquanto o outro cadencia mais, toca a bola e faz o time rodar. E foi exatamente isso que aconteceu: o primeiro tempo acabou cadenciado, sem intensidade.

Segundo tempo

Após o intervalo, os treinadores pareceram ter dito a seus times para continuarem assim, porque nenhuma mudança foi feita. Nem mesmo tática ou de postura. Assim, Cruzeiro mais com a bola no pé, mas procurando o gol da tranquilidade, e o Corinthians seguro, repelindo as investidas celestes numa tentativa de achar um gol num erro do adversário.

Ironicamente, foi num contra-ataque que o Cruzeiro ampliou. Bola roubada ainda dentro da grande área de defesa, sobrando para Souza. Bem ao seu estilo, o veterano meia conduziu, olhou, levantou a cabeça e viu Martinuccio do lado esquerdo. O argentino, destaque do jogo, cortou pra dentro do campo e tabelou com William Magrão, numa das poucas ações ofensivas produtivas do volante. Na cara do gol, Martinuccio deu uma cavadinha para vencer Cássio e consolidar a vitória.

As alterações promovidas pelos treinadores pouco mudaram taticamente, e o jogo seguiu para um final melancólico, só quebrado com a inusitada estreia do chinês Zizao no time adversário. Ele é ponteiro, jogou aberto pela esquerda. Mas pura jogada de marketing do time paulista para vender camisas no país mais populoso do mundo.

Conclusão

O Cruzeiro venceu o jogo, e até com certa facilidade, mas é preciso entender que este time do Corinthians está longe de ser o mesmo que venceu a Libertadores, com muita movimentação do quarteto ofensivo, tanto com quanto sem a bola. Talvez a pressão alta seja a característica mais marcante do time de Tite, e que só esteve presente no início do jogo.

E, enquanto foi feita, funcionou, demonstrando a dificuldade que o Cruzeiro tem em fazer ligação do meio com o ataque quando recupera a bola. Montillo não volta para buscar a bola e armar o time, essa não é a característica dele. Talvez por isso não seja tão bom escalá-lo na função de ponta-de-lança do losango de meio. Só faria sentido se os volantes pelos lados fosse bons com a bola e participassem constantemente das ações ofensivas, o que não é o caso de Marcelo Oliveira e William Magrão.

Com a vitória, enterramos de vez qualquer possibilidade de irmos parar no mesmo lugar que nossos rivais já foram. Assim, já é o caso de se pensar neste problema para 2013, ou seja, é preciso ter um volante-meia que tenha qualidade de chegada no ataque, ou então dois, para fazer este losango funcionar.

Entretanto, como vocês sabem, eu prefiro outro sistema de jogo. Mantenho as esperanças de que, um dia, um treinador do Cruzeiro perceberá que Montillo não é camisa dez como os brasileiros pensam: ele é ponteiro. E assim será feito o 4-2-3-1 com ponteiros argentinos de pés invertidos. Será que o Sampaoli faria isso?

Tomara que sim.

Cruzeiro 2 x 0 Portuguesa – O pior cego é o que não quer enxergar

Mesmo correndo riscos desnecessários e errando demais, o Cruzeiro encerrou a incômoda série de sete partidas sem triunfar, com gols de Montillo, de pênalti, e Souza no fim. Taticamente, um jogo melhor para o Cruzeiro no primeiro tempo, que foi respeitado demais pela Portuguesa. No segundo, os visitantes adiantaram a marcação e expuseram um problema crônico do time.

No primeiro tempo, os volantes do 4-3-1-2 losango de Celso Roth tiveram muito espaço para pensar e controlar o meio-campo, municiando o trio da frente

Apesar de estar no mesmo 4-3-1-2 com losango de meio, Celso Roth mudou uma das peças. Tirou Diego Árias e lançou William Magrão. Ceará não reuniu condições, e com isso o Cruzeiro foi a campo com Diego Renan na direita, Everton na esquerda e Thiago Carvalho e Mateus, substituindo o suspenso Léo, defendendo o gol de Fábio. Leandro Guerreiro protegia a área, Marcelo Oliveira foi o “tornante” pela esquerda e Magrão o direito. Montillo fechava o losango com Borges e Anselmo novamente centralizados à frente.

A Portuguesa de Geninho veio com quatro volantes no meio, mas Moisés ficava mais à frente e Léo Silva tinha liberdade, também num 4-3-1-2 losango. Zé Antônio pela direita e Marcelo Cordeiro pela esquerda fechavam a defesa de Dida, com Gustavo e Valdomiro no miolo de zaga. Ferdinando ficou mais preso, Boquita tinha mais funções defensivas que ofensivas e Léo Silva tinha mais liberdade, liberando Moisés. No ataque, o perigoso Bruno Mineiro e Ananias.

Espaço para os volantes

A Portuguesa claramente veio tentar segurar o ataque cruzeirense. Os volantes recuavam em bloco, deixando apenas Moisés e a dupla de atacantes à frente, e estes três não faziam pressão sobre a bola quando o Cruzeiro tinha a posse. O resultado é que Guerreiro, Marcelo Oliveira e William Magrão tinham muito tempo para pensar o que fazer com a bola quando a recebiam, sem ser incomodados. Assim, o Cruzeiro controlou o primeiro tempo e a Portuguesa quase não teve chances. Digo quase porque o time visitante teve chances, principalmente em erros técnicos do Cruzeiro: uma num erro de tempo de bola aérea de Mateus e outra num erro de linha de impedimento de Diego Renan.

Além disso, a bola chegava mais facilmente à frente, principalmente com Anselmo Ramon fazendo muito bem o papel de segurar a bola, dando muito trabalho para os zagueiros Valdomiro e Gustavo, que depois foi substituído por Lima por contusão. Montillo também apareceu muito bem, arriscando chutes de fora da área — coisa que não me lembro ter visto ele fazer com frequência — e dando trabalho para o ex-cruzeirense Dida. O gol de pênalti do argentino foi um prêmio pela proposta mais positiva de futebol que o Cruzeiro teve no primeiro tempo.

Marcação adiantada

No segundo tempo, Geninho viu que havia um buraco entre seu meio-campo e seu ataque e mandou seus volantes avançarem, exatamente para tirar os espaços dos volantes do Cruzeiro. Já Celso Roth, naturalmente, achou que seu time estava bem postado e seguiu com a mesma tática e mesmos jogadores. Mas Roth não contava com a audácia da Portuguesa, e um dos problemas mais graves do Cruzeiro atual ficou novamente exposto: a transição ofensiva com qualidade. Como já dito neste espaço, Montillo não é um meia clássico, estilo Alex, que recua até sua intermediária para pegar a bola e penasr o jogo. Montillo é intenso, veloz, driblador, não é criativo. Portanto, escalá-lo como ligação entre o meio e o ataque — principalmente sendo um ataque com dois camisas 9, por assim dizer — faz com que os volantes sejam a principal saída de bola pelo chão. Quando pressionados, a transição é falha, e por isso chutões são frequentes.

O resultado é que a Portuguesa quase sempre ganhava a segunda bola, que á jogada logo após uma disputa aérea originada de um chutão. Foram 15 minutos de blitz na área cruzeirense que por pouco não cedeu o empate — por sorte, Marcelo Cordeiro estava impedido antes de achar Bruno Mineiro livre dentro da área.

Celso Roth, por fim, agiu. Em sua segunda mexida — já havia trocado Thiago Carvalho por Rafael Donato, por lesão — colocou Souza na vaga de William Magrão, para diminuir o ritmo do jogo e dar mais opções de saída, mantendo o 4-3-1-2 losango. Deu certo, a pressão da Portuguesa arrefeceu, mas o Cruzeiro não retomou as rédeas da partida, que agora estava equilibrada e, portanto, perigosa. O gol de empate seria fatal.

Martinuccio

Com Martinuccio, o Cruzeiro se postou num 4-2-3-1, com o trio de meias provomento movimentação confundindo a marcação adversária e Anselmo Ramon fazendo bem o papel de pivô

Somente na última mexida é que o Cruzeiro passou a controlar o jogo. Ao contrário da partida contra o Grêmio, Roth criou coragem e fez uma mexida ofensiva, buscando ampliar o placar e matar o jogo. A entrada de Martinuccio no lugar de Borges reconfigurou o Cruzeiro num 4-2-3-1 muito amplo e móvel, que surpreendia a todo momento a zaga da Portuguesa. Oficialmente, Souza abria pela direita, Montillo ficava por dentro e Martinuccio dava opção pela esquerda, mas os meias trocavam de posição constantemente, e com Anselmo Ramon na referência, fazendo bem o pivô e buscando um dos três para o segundo passe, o Cruzeiro passou a criar bastante.

Mas a mexida também abriu o meio-campo cruzeirense, que agora só tinha dois volantes. Geninho tentou aproveitar a situação e lançou Diguinho no lugar de Zé Antônio, volante que estava jogando na lateral direita. Ferdinando foi para lá para perseguir Martinuccio, e Diguinho foi para o meio tentar aproveitar este espaço. Entretanto, Martinuccio continuava levando perigo pela esquerda, e Geninho gastou seu último cartucho para se defender disto: Rogério, zagueiro, foi jogar na direita, com Ferdinando voltando ao meio-campo.

Não deu muito certo. A Portuguesa acabou perdendo poder de fogo e só teve mais chances porque o Cruzeiro recuou demais para defender seu resultado e sair nos contra-ataques. E foi num desses que saiu o segundo gol: lançamento longo para Anselmo Ramon, disputa pela bola e sobra de Montillo. Martinuccio abre pela esquerda e recebe o passe de seu compatriota, avança sem marcação e cruza para Souza pegar de primeira e fazer as pazes com a vitória.

É hora de repensar

Não enxergar que a entrada de Martinuccio no time melhorou muito o poderio ofensivo cruzeirense é brigar com a realidade. Claro, é preciso testar mais este esquema, principalmente contra times melhores tecnicamente, e até mesmo contra ferrolhos suíços que eventualmente venham a ser armados contra o Cruzeiro. Mas é inegável que, com Martinuccio, o Cruzeiro ganhou velocidade, amplitude e profundidade. Anselmo Ramon também surpreendeu, fazendo uma boa partida como centro-avante pivô. Apesar de não prover um poder de finalização tão grande quanto Borges, Anselmo compensa isso servindo o trio de meias, que finalizam melhor. Assim, o trio Souza/Montillo/Martinuccio é, atualmente, a melhor opção para reduzir a incômoda estatística de sermos o time que menos finaliza na competição.

Mas nem tudo são flores. Apesar de conseguir mais um placar em branco, a defesa ainda apresentou alguns defeitos, principalmente Mateus, que tem sido muito inconstante ultimamente. Porém, é ele quem vai jogar a próxima partida ao lado de Léo, já que Thiago Carvalho e Rafael Donato estão suspensos, e Victorino está na seleção uruguaia.

De acordo com as últimas notícias, Martinuccio deve ser titular, mas Souza não. William Magrão é o provável titular e será o responsável por fechar o lado direito à frente de Ceará, que deve voltar à lateral direita. A presença de seu compatriota vai ajudar Montillo, já que a defesa do Flamengo terá mais gente com quem se preocupar.

Ainda não é a escalação que considero ideal, mas pelo menos ela está a apenas uma substituição de distância.

Cruzeiro 0 x 0 Internacional – Pé na forma

Finalizações sem qualidade resultaram em um placar em branco numa batalha tática padrão, ontem em Varginha.

No primeiro tempo, Éverton mais solto que Ceará e Marcelo Oliveira e Diego Árias indo e voltando como manda o figurino do 4-3-1-2 losango, mas com dois centroavantes muito estáticos

Se as voltas de Everton à lateral esquerda e de Leandro Guerreiro à base do losango do 4-3-1-2 já eram esperadas, Celso Roth surpreendeu nas outras posições: mandou Léo de volta à zaga ao lado de Thiago Carvalho e voltou com Ceará para a lateral direita; escalou Diego Árias — sim, ele mesmo — do lado direito do losango (o outro lado teve Marcelo Oliveira) e lançou Anselmo Ramon ao lado de Borges no ataque, municiados, obviamente, por Montillo no topo do meio-campo.

O Internacional veio no mesmo 4-3-1-2 losango, encaixando a marcação: Muriel teve Nei à direita e Fabrício à esquerda, com Rodrigo Moledo e Índio como dupla de zaga. No meio, Ygor foi o volante mais preso, e Guiñazu pela esquerda e Élton pela direita davam suporte ao jovem Fred, posicionado na ligação para os astros Damião e Forlán.

Sistemas iguais, estilos diferentes

Ambos os times tinham quatro defensores, com um lateral mais preso (Ceará e Fabrício) para fazer a sobra contra os dois atacantes adversários, e o outro (Everton e Nei) com mais liberdade para avançar para o ataque. No meio-campo, os “lados” do losango se pegavam: Guiãazu x Diego Árias e Marcelo Oliveira x Élton. Os cruzeirenses levaram vantagem sobre os gaúchos e se juntavam ao ataque com mais frequência, com Diego Árias fazendo bons cruzamentos e Marcelo Oliveira se entendendo bem com Everton pela esquerda.

A diferença estava no estilo dos outros jogadores. Montillo caía mais pelos lados — jogando com uma característica que Michael Cox, do excelente site Zonal Marking, cunhou como ponteiro central — enquanto Fred permanecia centralizado e dominado pela marcação de Leandro Guerreiro. No ataque, Anselmo Ramon e Borges ficavam mais parados pelo meio, enquanto no Internacional Forlán e Damião tentavam sair da marcação cerrada da defesa celeste. Apenas Damião conseguiu, em finalizações de longe e até em uma jogada típica de meia criativo, driblando dois jogadores. Ele parou em Fábio na maioria das vezes.

O cruzamento que originou o pênalti veio numa combinação de Árias e Ceará como homem surpresa pela direita. Pênalti duvidoso, que Borges converteu sem valer devido à invasão dupla. A bola por cima na segunda cobrança não abalou o Cruzeiro, que continou melhor durante todo o primeiro tempo mas não conseguiu finalizar com mais perigo.

Segundo tempo

 

Fernandão tinha que fazer alguma coisa, qualquer coisa, pois a tendência era que o Cruzeiro ganhasse o meio-campo novamente se nada fosse feito. Ele lançou o jovem meia Lucas Lima no lugar de Élton, desfazendo o losango e montando um quadrado, ou 4-2-2-2. Ele foi jogar de meia-direita, prendendo Marcelo Oliveira e liberando Ygor para ser a sombra de Montillo sem ter que se preocupar com as investidas do volante cruzeirense. Diego Árias e Guiñazu continuavam travando um duelo particular como volantes soltos.

O Internacional dominou a posse de bola por uns 10 minutos, quando Celso Roth resolveu novamente igualar as coisas, com Souza no lugar de Árias. O efeito foi exatamente o mesmo: Guiñazu teve que ficar mais preso para se preocupar com Souza e o meio-campo do Cruzeiro voltou a ter o controle do setor, principalmente com Marcelo Oliveira e o suporte de Everton pela esquerda. Mas faltava abrir o time, que tinha pouca amplitude no ataque.

Martinuccio e o sonhado 4-2-3-1

O melhor momento do Cruzeiro nas últimas partidas: o 4-2-3-1 com Martinuccio, Montillo e Souza se movimentando e confundindo a marcação gaúcha

Após substituições por contusão ou cansaço (Ceará por Diego Renan na lateral direita do Cruzeiro, e Índio por Jackson na zaga do Internacional), Celso Roth promoveu a estreia de Martinuccio, meia canhoto que jogou pela direita no Peñarol vice-campeão da Libertadores em 2011 — um ponteiro de pé invertido, como Franck Ribery (destro na esquerda), Arjen Robben e Hulk (canhotos na direita). Quem saiu foi o apagado Anselmo Ramon. Desta vez, porém, Martinuccio foi jogar pela esquerda,  com Souza pela direita e Montillo centralizado, mas com troca constante de posições.

Já no primeiro lance após a substituição é possível ver a zaga do Internacional se confundindo na marcação de Montillo, deixando Diego Renan e Borges sem marcação para cruzar e cabecear para fora, respectivamente. Depois, foram quase 20 minutos de domínio do Cruzeiro, com os ponteiros cruzeirenses amassando os laterais do Internacional em seu próprio campo e tentando confundir a marcação adversária. Muriel e as finalizações ruins impediram uma vitória que certamente viria fosse esta a formação inicial.

É preciso insistir

Não há como negar que o Cruzeiro evoluiu muito com a entrada de Martinuccio e o 4-2-3-1. Foi o melhor momento da equipe na partida, que — tomara — deve ter colocado um ponto de interrogação na cabeça de Celso Roth. O sistema com dois centroavantes não funcionou muito bem. Martinuccio, Souza e Montillo atrás de Borges é a formação mais promissora até agora, principalmente se os meias inverterem a posição: Martinuccio pela direita e Montillo pela esquerda, com Souza ditando o ritmo, acelerando e cadenciando de acordo com a necessidade.

A estreia (!) de Diego Árias também foi animadora. Quando chegou, o colombiano disse ser inspirado por Claude Makelele, volante marcador clássico, dono do espaço à frente da área. Era um forte indicativo de que ele veio para ser primeiro volante. Entretanto, no jogo de ontem, foi escalado como volante-meia pela direita do losango, e foi muito bem, marcando e participando do ataque. Realmente, não está claro porque Árias não teve chances até agora. Aposto em um novo onze inicial para ele contra o Grêmio em Porto Alegre.

Para esta partida, entretanto, a julgar pelo estilo de Roth, ele deve manter o losango. É o sistema que vem sendo usado desde a partida contra o Bahia no Pituaçu, na 16ª rodada, exceção feita ao estranhíssimo 3-4-2-1 contra o Figueirense em Florianópolis na 24ª.

É coerente, sim. Mas não me tira da impressão de que o 4-2-3-1 com os ponteiros argentinos seria a melhor formação para formar a base de 2013.

São Paulo 1 x 0 Cruzeiro – A falta de técnica matou a tática

Em um lance mezzo oportunismo de Osvaldo, mezzo falha da zaga cruzeirense e de Fábio, o São Paulo conseguiu o gol da vitória no jogo de domingo no Morumbi.

O 4-2-3-1 inicial teve pouco poder ofensivo, mas encaixou bem com o 4-2-1-3 dos paulistas, com Diego Renan vencendo Lucas mas com Leo perdendo de Osvaldo

Celso Roth surpreendeu e mandou um 4-2-3-1, diferente do que foi treinado durante a semana. À frente do goleiro Fábio, Léo reapareceu na lateral direita e Diego Renan foi para o jogo no lugar do suspenso Everton. Com isso a dupla de zaga foi Thiago Carvalho e Victorino, de volta ao time. Sem Leandro Guerreiro, também suspenso, o volante mais preso desta vez foi Charles, com Tinga jogando um pouco mais avançado e procurando se juntar ao trio de meias: Wallyson pela direita, Montillo por dentro e Marcelo Oliveira pela esquerda. Wellington Paulista era o único atacante.

O São Paulo de Ney Franco foi armado quase do mesmo jeito, a diferença sendo que os meias abertos, que neste blog chamo de ponteiros, eram mais atacantes que meias, formando um 4-2-1-3. No gol, o veteraníssimo goleiro Rogério Ceni viu Douglas pela direita e Cortez pela esquerda — dois laterais bastante ofensivos — flanquearem sua dupla de zaga, Paulo Miranda e Rhodolfo. Denilson e Maicon proviam suporte para Jádson criar para seus três atacantes: Osvaldo pela esquerda, Lucas pela direita e William José centralizado.

Um jogo equilibrado taticamente, visto que as defesas levaram a melhor sobre os ataques praticamente por todo o jogo, à exceção de alguns lances isolados. O que pode ser ilustrado pelo baixo número de finalizações certas do jogo: 6 a 0 para o time da casa. Isso mesmo: pela segunda vez no campeonato, o Cruzeiro não incomodou o goleiro adversário.

Lados (quase) fechados

Para surpresa de muitos, Diego Renan teve uma boa atuação defensiva, segurando o futuro parisiense Lucas e fechando bem o lado esquerdo. Lucas só levava perigo quando se projetava para o meio e partia driblando, sua característica. Entretanto, o mau posicionamento dos companheiros, principalmente de William José, resultava em uma jogada infrutífera. Diego era ajudado por Marcelo Oliveira, que fazia a primeira linha de marcação e acompanhava Douglas. Ofensivamente, entretanto, o lateral subia pouco, muito por causa da presença de Lucas, e Marcelo era quem tinha que prover amplitude por aquele lado. Não funcionou muito.

O lado direito, porém, estava um pouco menos desguarnecido. Cortez avançava sem medo de deixa sua própria lateral sem proteção, e Wallyson o acompanhava bravamente, bloqueando as investidas do lateral. O problema era mais atrás, onde Osvaldo conseguia ganhar na velocidade e no drible de Léo quase sempre. As melhores chances do São Paulo no primeiro tempo foram com o atacante ex-Ceará – que quase veio para o Cruzeiro no início do ano. Para nossa sorte, a zaga celeste estava bem postada e ganhava no último passe.

O calvário de Montillo

No meio-campo, o Cruzeiro levava ligeira vantagem. Charles foi o cruzeirense mais lúcido enquanto esteve em campo, tirando o tempo com bola de Jádson, e anulando o principal núcleo criativo dos paulistas. Tinga se movimentava por todo o setor central, mas o que o cabeludo tem de disposição, falta na técnica. O predador errou alguns passes e não conseguiu ser o homem surpresa do ataque celeste. Montillo, como sempre acontece quando joga pelo meio, foi muitíssimo bem marcado pelos dois volantes sãopaulinos. O argentino tentou cair pelos lados para fugir da marcação, e foi pela esquerda, nos pés dele, que morreu a melhor chance do Cruzeiro na primeira etapa, quando ao dominar uma bola com o pé esquerdo, ela acabou batendo também no pé direito do camisa 10 e ficou mais para Ceni rebater.

O grande problema de Montillo, no entanto, é a parte defensiva. Sem a bola, Montillo praticamente fica alinhado a WP e o time vira uma espécie de 4-4-2 britânico (ou seja, em duas linhas de quatro clássicas). Isso acaba sobrecarregando os volantes, que têm que marcar os volantes adversários que estão livres de marcação. Assim, se for para jogar com Montillo de meia central, é melhor entrar com o time em um 4-3-1-2 losango, como nas últimas partidas, para dar mais consistência ao meio-campo e compensar a falta de combatividade do argentino. Porém, em um 4-2-3-1 — insisto — o mais inteligente é escalá-lo pelos lados, como ponteiro, pois essa é a característica dele, e ainda ocorrreria o bônus de ter somente um marcador sobre ele — o lateral adversário.

Entretanto, ainda no primeiro tempo, a contusão dupla de WP e Wallyson obrigou Celso Roth a tirá-los do jogo. Borges no lugar de WP era o óbvio, apesar da mudança de característica — Borges é mais referência, pivô, se movimenta menos. Para o lugar de Wallyson, porém, o certo seria ter entrado com Élber, que é meia de origem, faria o trabalho defensivo tão bem quanto Wallyson e ainda traria preocupações para Cortez. Só que Roth mandou Souza a campo, meia cadenciador e passador. Não funcionou, pois o veterano não marcou tão bem as investidas de Cortez e expôs Léo, e tinha uma tendência a entrar para dentro do campo quando o Cruzeiro tinha a bola, abandonando o lado direito.

Charles fora

No segundo tempo, o jogo continuou na mesma, com o Cruzeiro levando certa vantagem e até ficando um pouco mais com a bola no pé, mas sem ser incisivo. Aos 9, uma fatalidade: Charles pisou no pé de seu próprio companheiro e torceu o tornozelo, tendo que ser substituído. O Cruzeiro perdia seu melhor jogador em campo, com o jovem Lucas Silva entrando em seu lugar para fazer a mesma função, que claramente não conseguiu — levou dois cartões amarelos em um espaço de 10 minutos e foi embora mais cedo. Esse é o preço por preterir Diego Árias, volante mais preso de ofício.

A substituição chave foi de Ney Franco: o apagado William José deu lugar a Ademílson, que se movimentou bem mais e dava opções de passe, como no lance do gol. Douglas avançou pela direita e achou o atacante, que recuou para oferecer o passe. A tabela venceu Marcelo Oliveira, e o lateral alcançou a linha de fundo para fazer um cruzamento despretensioso, sem perigo. Porém, no susto, Fábio rebateu a bola para dentro da área, onde estava Osvaldo, que completou para o gol vazio.

Com o gol, o Cruzeiro se perdeu momentaneamente e o São Paulo não aproveitou. Wellington e Casemiro ainda entrariam no lugar de Maicon e Denilson, fazendo um 4-3-3 clássico (4-1-2-3, com um volante, Wellington, e dois meias, Jádson e Casemiro), mas nada mais aconteceu.

Enfim

Podemos dizer que a fase técnica do Cruzeiro não é das melhores, e na partida de domingo, isso acabou sobrepujando a boa postura tática da equipe. O 4-2-3-1 foi bem executado defensivamente, mas ofensivamente não. WP foi mal e Wallyson não fez o que se espera dele no ataque: a fase do jovem potiguar não é das melhores. Parece que lhe falta confiança para partir para dentro do adversário e definir. Marcelo Oliveira até que tentou, mas não conseguiu dar o mesmo poder que Everton dava pelo lado esquerdo.

Montillo particularmente está tendo dificuldades e já não tem mais tanta liberdade quanto teve no primeiro ano em Belo Horizonte, quando ainda era desconhecido por aqui. Agora as equipes já sabem que o argentino é a principal peça ofensiva cruzeirense e fazem marcação especial. Volto a insistir: Montillo tem que jogar pelo lado do campo, como ponteiro. Para compensar a falta de combatividade do argentino, é necessário escalar um lateral mais preso, como Diego Renan ou o próprio Marcelo Oliveira, com Diego passando para o lado direito: Léo improvisado não vai fazer bons jogos sempre, e esta partida foi um exemplo.

Há o que se animar, entretanto. Esta partida foi um pouco pior do que a exibição contra o Vasco, mas muito superior aos duelos contra Sport e Figueirense. É esperar pra ver se Celso Roth, com as voltas de Everton e Leandro Guerreiro, e a possível estréia de Martinuccio, manterá este 4-2-3-1 contra o Internacional de Fernandão.