Vitória 0 x 1 Cruzeiro – Habemus centralis

Ah, o meia central. Figura tão importante do sistema da moda no futebol mundial, o 4-2-3-1. Ele preenche o espaço mais nobre de um campo de futebol: a faixa central do meio-campo ofensivo. Incomoda os volantes adversários quando o time está defendendo, e foge deles abrindo espaço para os companheiros quando o time está atacando. Às vezes ajuda o ponteiro e o lateral a criar superioridade numérica dos lados. Em outras, entra na área para confundir os zagueiros e concluir. E até mesmo se alinha aos companheiros volantes pra bloquear o avanço adversário. Pra frente, para os lados, para trás.

Eis que Éverton Ribeiro voltou da Seleção. E além do óbvio ganho técnico, isso significou também a retomada do sistema que consagrou o Cruzeiro nestes dois anos, ainda que Ribeiro não seja normalmente o titular da função. O camisa 17 normalmente sai do lado direito para armar, mas também sabe jogar por dentro, como na partida contra o Internacional. E foi fundamental para retomar o caminho das vitórias.

Formações de partida

Cruzeiro de volta ao 4-2-3-1 com Éverton Ribeiro como central se movimentando bastante, mas Egídio preso em Marcinho, o homem que fazia o sistema do time baiano variar entre um 4-1-4-1 e 4-3-1-2 como meia de ligação

Cruzeiro de volta ao 4-2-3-1 com Éverton Ribeiro como central se movimentando bastante, mas Egídio preso em Marcinho, o homem que fazia o sistema do time baiano variar entre um 4-1-4-1 e 4-3-1-2 como meia de ligação

Depois de começar no 4-1-4-1 contra o Flamengo e ABC, Marcelo Oliveira finalmente pôde voltar ao 4-2-3-1 já treinado e comprovado. Assim, Fábio viu Dedé e Manoel protegerem seu gol, com Mayke à direita e Egídio à esquerda. Um pouco mais à frente, a dupla de volantes titular, Henrique e Lucas Silva, dava suporte ao trio ofensivo que procurava o centroavante Marcelo Moreno: Marquinhos pelo lado direito, Alisson pela faixa esquerda e Éverton Ribeiro como ponto de referência central no meio-campo.

Já Ney Franco armou o Vitória de forma a tentar parar o Cruzeiro, como já é comum, mesmo dentro de casa. Era um híbrido de 4-3-1-2 e 4-1-4-1, de acordo com a movimentação de Marcinho. Defendendo a meta de Wilson estavam Nino à direita, Kadu e Roger Carvalho na zaga central e Juan pela esquerda. Luiz Gustavo (não é o da seleção) ficou como volante preso à frente da defesa, tendo Luis Aguiar mais à direita e Richarlyson mais aberto à esquerda. Marcinho, em teoria o meia de ligação, transitava entre o centro e a direita, com Edno bem aberto pela esquerda e Dinei de centroavante.

De volta ao modo normal

Mesmo após uma sequência de resultados ruins, o Cruzeiro ainda é temido ao ponto de, mesmo jogando em casa, o Vitória escolher esperar o Cruzeiro no seu próprio campo, compactado e marcando muito, e tentar sair em velocidade. Mas, ao contrário das últimas partidas, os defensores erraram pouco e o Vitória não conseguiu fazer muita coisa. Então, basicamente foi um primeiro tempo de ataque contra defesa.

Tendo muito mais posse de bola e com Ribeiro em campo, o Cruzeiro criou. Principalmente pelo centro e pela direita, já que Egídio ficava preso na marcação de Marcinho e pouco se aproximou de Alisson no início. Mas Mayke ignorou a presença de Edno e avançou corajosamente para encontrar o espaço que nem Richarlyson nem Juan ocupavam: a intermediária esquerda.

Além disso, com um central à frente, Lucas Silva e Henrique puderam jogar nos espaços em que executam melhor as suas funções, ligeiramente atrás, oferecendo linhas de passe de retorno. Além disso, conseguiam quase sempre recuperar a segunda bola que vinha estourada da defesa do Vitória, dando continuidade à pressão ofensiva e aumentando ainda mais as estatísticas de posse de bola em favor do Cruzeiro.

Faltou algo

Mas, apesar de todo o domínio territorial e das chances criadas, o Cruzeiro pecava ao se aproximar da área. Cruzamentos muito fortes ou mal colocados, que facilitavam para os defensores; escolher chutar quando seria melhor passar a bola e vice-versa; e quando havia a finalização, era ruim. Ficou a impressão de estar faltando uma peça, um alvo a mais na área que dividisse a atenção dos defensores e desse mais uma opção de passe. Soa familiar?

Sim, o Cruzeiro sentiu ligeiramente a falta de Ricardo Goulart para dar esse toque final. Apesar de fazer bem a função de central, Éverton Ribeiro tem uma característica diferente de Goulart. Enquanto um é mais passador, criador e assistente, o outro é mais concatenador e definidor. Alguns números ilustram isso: 19 cruzamentos para a área, mas apenas 4 corretos; 8 finalizações, apenas duas obrigaram Wilson a trabalhar, ambas de Alisson.

Vitória muda

Ney Franco voltou do intervalo com uma troca dupla. Uma das substituições foi direta, de lateral por lateral: Juan cedeu lugar a Mansur. Mas a outra mudava o sistema, já que o meia Marcos Junio entrou na vaga de Luis Aguiar. Richarlyson foi se alinhar a Luiz Gustavo, Marcos Junio entrou do lado direito e Marcinho centralizou, formando o novo 4-2-3-1.

Isso era uma tentativa clara de tirar o time de trás, numa mudança até surpreendente de estratégia. Mas o tiro foi na água, e acabou por facilitar a vida celeste. Sem Marcinho em seu encalço, e com o trabalho defensivo ruim de Marcos Junio, Egídio começou a aparecer no ataque pela esquerda se aproximando de Alisson. O Cruzeiro agora invertia o lado de preferência das investidas e chegava com muito perigo por ali, sem se esquecer do lado direito. De repente o Vitória se viu sendo atacado por todos os lados, e o Cruzeiro cresceu. O gol parecia maduro, mas o placar insistia em ficar inalterado — até por ajuda do senhor juiz.

Mapa de passes de Egídio no primeiro tempo (à esquerda) e no segundo (à direita) mostra  como o lateral teve mais liberdade  para subir ao ataque após Marcinho centralizar de vez

Mapa de passes de Egídio no primeiro tempo (à esquerda) e no segundo (à direita) mostra como o lateral teve mais liberdade para subir ao ataque após Marcinho centralizar de vez

A redenção de Dedé

Vitória mudou para 4-2-3-1 e depois deixou somente Richarlyson como volante, mas isso abriu o time e o Cruzeiro teve ainda mais espaço, principalmente pela esquerda com Egídio e Ribeiro caindo por ali

Vitória mudou para 4-2-3-1 e depois deixou somente Richarlyson como volante, mas isso abriu o time e o Cruzeiro teve ainda mais espaço, principalmente pela esquerda com Egídio e Ribeiro caindo por ali

Marcelo Oliveira foi obrigado a trocar Alisson por Willian, sem alterar o sistema. Porém, o bigode não deu a intensidade que o garoto dava, e o ímpeto celeste diminuiu um pouco mas não cedeu. Ney Franco então deu sua última cartada, lançando William Henrique no lugar de Luiz Gustavo. Ele entrou pelo lado esquerdo, fazendo Edno se aproximar de Dinei e Marcinho mais recuado para ligar o contra-ataque: algo entre um 4-2-3-1 com Marcinho de volante e um 4-4-2 de linhas, com Edno mais recuado.

Depois, por causa do amarelo recebido minutos antes, Lucas Silva deu seu lugar a Willian Farias. O Cruzeiro perdia o passe de Lucas, mas a troca foi uma resposta à tentativa de Ney Franco, colocando um jogador exatamente no espaço que Edno e Marcinho queriam explorar. Com o Vitória anulado, o jogo continuou na mesma toada.

E finalmente, depois de um escanteio pela esquerda rebatido pela defesa baiana, a bola sobrou para Mayke do outro lado. Com isso, Manoel e Dedé permaneceram na área, e Mayke achou Dedé sozinho no meio da confusão, que cabeceou com firmeza. A bola passou acima da cabeça de Wilson, mas foi tão rápida que não houve nenhum tempo para reação. O gol do alívio não podera ter tido melhor autor.

Depois disso, o Cruzeiro apenas controlou o jogo, tocando a bola no campo de ataque e dando facilmente a volta na correria do já cansado time baiano. Eurico entrou no lugar de Éverton Ribeiro, mas apenas para consolidar o placar.

Técnica, tática, físico e mental

Você sempre leu neste blog que, mais importante do que vencer era jogar bem, pois ao longo prazo, o bom futebol vai trazer os resultados positivos naturalmente. No caso específico desse jogo, porém, era também muito importante que o Cruzeiro vencesse, seja como fosse, para recuperar a confiança. Mas o Cruzeiro fez mais: venceu e convenceu. Voltou a jogar com autoridade e tranquilidade, não foi ameaçado em nenhum momento e mereceu totalmente o resultado.

Muito se deve, é claro, à volta de Éverton Ribeiro à equipe. Não só pelos ganhos técnicos e táticos, mas a própria presença do camisa 17 no time fez o resto da equipe ter mais tranquilidade para jogar. E mais: ao contrário dos outros selecionáveis, Ribeiro não jogou na quarta-feira, e portanto estava devidamente descansado; junto com os demais poupados do jogo de Natal que voltaram nesta partida, o Cruzeiro também esteve melhor fisicamente.

Por isso tudo, mesmo pecando nas finalizações ao longo de todo o jogo, foi de fato uma das melhores partidas celestes no certame, como Marcelo disse na entrevista pós-jogo. E com a possível volta dos outros centrais, recuperados de lesão, o Cruzeiro tende a crescer ainda mais.

Que assim seja.



Cruzeiro 3 x 1 Vitória – O Mineirão voltou a ver bom futebol

Acabou a Copa e os trabalhos voltam no Constelações. Copa essa que, mesmo com o fiasco brasileiro, foi uma das melhores em termos técnicos e táticos que este blogueiro já viu. Só o Brasil mesmo ficou atrás nesses quesitos.

Mas como este blog fala só do Cruzeiro, vamos ao que interessa. Primeiro uma rápida análise dos reforços, e depois as notas sobre a volta do Cruzeiro ao nacional.

Reforços

O Cruzeiro não ficou parado durante o Mundial. Além dos amistosos nos EUA, o clube contratou o zagueiro Manoel, que estava no Atlético/PR, e os atacantes Marquinhos, do Vitória, e Neilton, do Santos.

Manoel é uma excelente contratação. Zagueiro técnico e com bom tempo de bola. Perfil ideal para zagueiros no time celeste. Se o Cruzeiro já tinha a melhor zaga titular do país, com Dedé e Bruno Rodrigo, agora passa a ter a melhor zaga reserva também. Apenas uma nota tática: dos quatro zagueiros, somente Bruno Rodrigo está acostumado a jogar pelo lado esquerdo. Todos os outros tem preferência em ficar mais próximos de Ceará ou Mayke, e de acordo com o observado nos amistosos nos EUA, a prioridade é de Dedé, depois de Manoel e depois Léo. Ou seja, Dedé sempre jogará pelo lado direito. Manoel só jogará pela esquerda se fizer dupla com Dedé, enquanto Léo só jogará pela direita se fizer dupla com Bruno Rodrigo.

Marquinhos e Neilton são jogadores com características parecidas. São atacantes ponteiros, velozes e leves, e em tese jogarão na linha de três meias do 4-2-3-1 preferido pelo time celeste, muito provavelmente pelo lado esquerdo, já que Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart são incontestáveis quando estiverem disponíveis. Mas em caso de suspensão, também podem jogar pela direita. Marquinhos tem mais experiência, enquanto Neilton, acredito eu, veio para ser lapidado e se integrar lentamente. É mais uma contratação de longo prazo, acredito.

Retorno do Brasileirão

Quatro dias após a Alemanha levantar seu quarto caneco, era a vez do Cruzeiro continuar a busca pelo seu tetra. E não poderia haver um time melhor para a tarefa de exorcizar o Mineirão, palco do maior vexame da história da seleção nacional, do que o Cruzeiro, campeão brasileiro com futebol ofensivo e com sobras.

E, apesar do outro time vestir rubro-negro, como naquele fatídico dia, o Cruzeiro não fugiu à responsabilidade. Diante de um Vitória muito bem armado por Jorginho, conseguiu uma vitória difícil, mas que acabou por premiar o time que buscou o gol em detrimento da equipe que entrou apenas para se defender.

Escalações iniciais

Cruzeiro no tradicional 4-2-3-1 que encaixou na marcação do 4-1-4-1 do time baiano, com perseguições individuais a cada jogada

Cruzeiro no tradicional 4-2-3-1 que encaixou na marcação do 4-1-4-1 do time baiano, com perseguições individuais a cada jogada

Marcelo Oliveira lançou a campo o 4-2-3-1 tradicional, com o gol do capitão Fábio sendo protegido por Manoel e Léo Completando a linha defensiva, Ceará mais marcador pelo lado direito e Egídio mais apoiador pela esquerda, em acordo com as suas características. Henrique e Lucas Silva faziam o doblete no meio-campo defensivo, dando suporte ao trio criativo formado por Éverton Ribeiro, partindo da direita e circulando, Ricardo Goulart, o central mais móvel do Brasil, e Marquinhos, mais agudo pela esquerda mas invertendo com seus companheiros meias. Na frente, Marcelo Moreno segurava os zagueiros.

Já o Vitória de Jorginho veio para se defender com duas linha bem próximas e um volante entre elas — o famoso 4-1-4-1. A linha defensiva que defendia a meta de Wilson tinha Ayrton pelo lado direito e Danilo Tarracha pelo lado esquerdo, e Alemão e Kadu no miolo de zaga. Entre as linhas, Adriano fazia a “sobra do meio-campo”, formado por Caio à direita, José Welison e Josa mais centralizados e Richarlyson — ele mesmo — fechando o lado esquerdo. Na frente, solitário, Dinei era o único sem responsabilidades defensivas.

Encaixe

Como é possível ver no esquema acima, essas duas formações se encaixam perfeitamente no meio-campo, e nas duas pontas sempre a dupla de zaga fica contra o centroavante solitário, garantindo a sobra. Porém, a postura sem a bola dos dois times era diferente: enquanto o Cruzeiro subia a marcação e pressionava a saída baiana mais intensamente, o Vitória preferia deixar a dupla de zaga celeste trocar passes com liberdade.

Porém, assim que a bola chegava em outro jogador que não fosse Manoel ou Léo, um dos jogadores do time visitante subia para pressionar o homem da bola. Se o Cruzeiro saía pelos lados, Caio perseguia Egídio e Richarlyson rastreava Ceará; se fosse pelo meio, Josa pegava Henrique e José Welison marcava Lucas Silva. Mais à frente, o ponteiro direito — qualquer que fosse ele naquele momento — tinha a companhia constante do lateral Tarracha, o mesmo acontecendo com o outro lado. E na maioria das vezes, Goulart, que é mais frequentemente o central, tinha próximo dele o volante entrelinhas Adriano.

Esse encaixe todo fez com que o Cruzeiro demorasse a achar saídas boas com a bola no chão. Bolas longas não eram necessárias porque os zagueiros não eram pressionados, mas as bolas curtas tinha sempre marcação fortíssima. Percebendo isso, os meias começaram a voltar para buscar a bola no pé dos zagueiros e tentar começar a construção, mas mesmo assim os marcadores baianos abandonavam o seu posicionamento para persegui-los. Era um tipo de marcação em que cada um pega o seu e vai com ele até o final da jogada. Em outros termos, marcação por função, mas a partir do encaixe, se tornava individual.

Chances

Com pouco espaço entre as linhas, o Cruzeiro teve certa dificuldade para jogar. Quando acertou o primeiro passe, pecou na construção. Quando acertou na construção, falou o último passe, e quando conseguiu fazer tudo isso, pecou nas finalizações. Também porque Wilson jogou um bom primeiro tempo.

Mesmo sob forte marcação, Cruzeiro chutou 13 bolas contra Wilson no primeiro tempo; o Vitória só uma -- e de bem longe (fonte: Squawka)

Mesmo sob forte marcação, Cruzeiro chutou 13 bolas contra Wilson no primeiro tempo; o Vitória só uma — e de bem longe (fonte: Squawka)

Normalmente, quando fica difícil jogar, apela-se para a bola parada ou para o cruzamento. E de fato o Cruzeiro teve chances usando esses dois expedientes. Mas também conseguiu usando passes rápidos e envolvendo a defesa adversária. Mas as finalizações não foram boas, e o primeiro tempo acabou mesmo em branco, com o Cruzeiro tendo mais de 60% de posse de bola.

Segundo tempo e trocas

Jorginho gostou de performance defensiva de seu time, e talvez tenha até visto uma oportunidade de vencer em uma bola, e por isso liberou um pouco mais seus jogadores para avançar. Calhou de o Cruzeiro também ter mudado a estratégia, recuando as linhas para espaçar o time baiano e tentar jogar com mais espaço. Por isso, no início da segunda etapa, vimos um Vitória com mais volume e um Cruzeiro mais defensivo.

Mas somente a estratégia baiana parecia ter funcionado. Se o Vitória não incomodava Fábio, rondava perigosamente com a bola perto de sua área, e uma falha defensiva poderia ser fatal. Mas ao recuperar a bola o Cruzeiro errou muitos passes e não conseguia dar prosseguimento.

Marcelo tentou colocar Dagoberto na vaga de Marquinhos para ver se a nova estratégia surtia efeito, mas o jogo voltou ao padrão do primeiro tempo: o Vitória recuou novamente as linhas e esperava o erro celeste. Jorginho quis arriscar um pouco mais, jogar por uma bola, e colocou um jogador mais veloz e ofensivo do lado esquerdo, Vander, na vaga do marcador Richarlyson, mas o sistema não se alterou.

Um gol muda o jogo

Justo quando o técnico celeste se preparava para mudar o sistema, abrindo mão de Lucas Silva para lançar Marlone e aproximar Éverton e Goulart no centro, efetivamente transformando o time num 4-3-3, Alemão marcou contra. A substituição foi cancelada, porque era necessário ver como o jogo ser apresentaria a partir deste gol.

E, como era esperado, o Vitória se lançou um pouco mais à frente para buscar o empate, e isso acabou por facilitar a vida dos meias celestes. Com espaço, conseguiram jogadas que mataram o jogo: Éverton Ribeiro achou Egídio, que cruzou e a bola encontrou a cabeça de Ricardo Goulart, o elemento surpresa que a zaga baiana não esperava estar ali. Depois, Goulart recebeu passe de frente para o gol já na intermediária ofensiva e com espaço, coisa que não havia acontecido até ali, e com um toque por cima, encontrou Ribeiro avançando. O meia matou no peito e bateu da entrada da área, vencendo finalmente o goleiro Wilson e sacramentando a vitória.

Jorginho tinha tentado diminuir o prejuízo após o segundo gol, com Willie na vaga de Caio, mantendo o 4-1-4-1 mas com ponteiros rápidos, mas o terceiro gol celeste matou suas esperanças. Tinga ainda entraria na vaga de Éverton Ribeiro, apenas para preencher o meio-campo e fazer o jogo se arrastar até o fim, apesar do belo gol de falta de Ayrton.

O padrão esperado dos visitantes

A postura do Vitória na noite de quinta é o que a maioria dos adversários celestes deverão fazer quando jogarem no Mineirão. O Cruzeiro é o atual campeão brasileiro e líder da competição atual, jogando futebol de respeito. Isso naturalmente encolhe o time visitante. Portanto é mais que natural que os outros times utilizem essa estratégia quando forem jogar em Belo Horizonte. Nem todos terão a mesma qualidade que o Vitória no primeiro tempo, assim como nem todos deixarão aproveitar dos erros defensivos celestes.

Todas as 13 interceptações do Vitória foram no campo defensivo, sendo 10 só no primeiro tempo (fonte: Squawka); ilustra bem qual deve ser a estratégia dos adversários do Cruzeiro no Mineirão

Todas as 13 interceptações do Vitória foram no campo defensivo, sendo 10 só no primeiro tempo (fonte: Squawka); ilustra bem qual deve ser a estratégia dos adversários do Cruzeiro no Mineirão

Assim, é preciso ter paciência. Qualquer análise tem que levar em conta os dois times, e não somente um lado, como muitos ditos jornalistas por aí fizeram. Uns dizem que o Cruzeiro só venceu porque o Vitória fez o gol contra, outros dizem que o Cruzeiro não jogou bem. Eu discordo dos dois pontos de vista. Não se pode afirmar que, mesmo sem o gol contra, o Cruzeiro não venceria, até porque não sabemos que impacto a alteração que Marcelo preparava naquele momento (Marlone x Lucas Silva) teria. O Cruzeiro jogou bom futebol e venceu com autoridade, buscando o gol e sem medo de errar. O adversário é que impõe dificuldades, e por isso mesmo, nem sempre o bom futebol vence.

Mas entre jogar bom futebol e vencer, o Cruzeiro faz os dois.



Vitória 1 x 3 Cruzeiro – Jogando por diversão

O Cruzeiro não foi perfeito na partida contra o Vitória. Tampouco jogou com a mesma intensidade e qualidade de outras jornadas. Porém, sem o peso da pressão pelos três pontos, o Cruzeiro acabou jogando despreocupadamente, mas sem perder a seriedade, e acabou por fazer três gols quase sem fazer força contra uma boa equipe, que vinha em ascensão no campeonato, e fora de casa.

Nem era necessário vencer para confirmar o título, mas a forma como veio o triunfo foi, de certa forma, um símbolo da superioridade celeste ao longo de todo o campeonato.

Escretes iniciais

O 4-3-1-2 losango do Vitória causou problemas para Mayke e Egídio, por causa da movimentação de Escudero e do pouco auxílio dos ponteiros do 4-2-3-1 celeste

O 4-3-1-2 losango do Vitória causou problemas para Mayke e Egídio, por causa da movimentação de Escudero e do pouco auxílio dos ponteiros do 4-2-3-1 celeste

Desta feita, Marcelo Oliveira tinha vários desfalques para a montagem do time. Ao lesionado Bruno Rodrigo se juntou Nilton, e Ceará e Éverton Ribeiro estavam suspensos. Para seus lugares, o treinador escolheu, além de Léo, Leandro Guerreiro, Mayke e Willian, formando seu 4-2-3-1 costumeiro com Fábio no gol, Mayke pela direita da defesa, Dedé e Léo no miolo e Egídio pelo lado esquerdo. Na volância, Leandro Guerreiro se plantou à frente da zaga e soltou Lucas Silva para se juntar ao trio de meias-atacantes, com Willian à direita, Dagoberto à esquerda e Ricardo Goulart como central, atrás do artilheiro baiano Borges.

Ney Franco montou o vitória num 4-3-1-2 muito móvel, que variava para o 4-2-3-1 com a movimentação de Escudero pela esquerda e o recuo de Marquinhos pela direita. No modo losango, o goleiro Wilson tinha Victor Ramos e Kadu como zagueiros centrais, ladeados por Ayrton à direita e Juan pela esquerda. Marcelo ficava centralizado à frente da área, tendo Luís Cáceres à direita ligeiramente mais avançado, e Escudero à sua esquerda, mas quase na linha do ponta-de-lança Renato Cajá. Marquinhos era o atacante móvel, principalmente pela direita, e Dinei fazia a referência, mais por dentro.

Flancos expostos

O jogo começou com o Cruzeiro tendo alguns problemas defensivos pelos flancos. Com Willian e Dagoberto em campo, o time fica muito agudo e com menos poder de recomposição, ainda que Willian recuasse com Juan por alguns momentos. Com Leandro Guerreiro tendo dificuldade em fazer a cobertura com a mesma qualidade que Nilton, os laterais ficaram expostos demais, principalmente Mayke pela direita, que tinha que vigiar Escudero e Juan ao mesmo tempo. Do outro lado, Ayrton não ajudava tanto a Marquinhos, mas Egídio também teve dificuldades.

Porém, o Vitória foi acometido por um mal que o Cruzeiro já sofrera neste certame: a má pontaria. Marquinhos teve uma chance de ouro em erro de Leandro Guerreiro na saída, recebendo um passe de Renato Cajá e mandando nas mãos de Fábio, e depois Escudero ficou livre para a finalização na entrada da área após jogada pela direita, mas mandou por cima. A principal chance, porém, foi uma jogada na qual Juan avançou pelo centro, com Escudero mais aberto, e que confundiu a marcação de Mayke. O lateral do time baiano recebeu passe de Cáceres e ajeitou para Dinei, sozinho e de frente para Fábio, mandar à direita.

O Vitória foi o time que mais tentou o gol na rodada, mas, ao contrário do Cruzeiro, não era eficiente; e quando acertava a o gol, tinha Fábio pela frente

O Vitória foi o time que mais tentou o gol na rodada, mas, ao contrário do Cruzeiro, não era eficiente; e quando acertava a o gol, tinha Fábio pela frente

Precisão cirúrgica

Se atrás o Cruzeiro escapava por pouco de sofrer o gol, na frente não deixava de atacar, ainda que sem o mesmo toque de bola. O comentarista já dizia, não se pode errar contra este time. Borges já tinha conseguido um lance típico de centroavante, girando na marcação e tocando no cantinho, com a bola passando muito perto da trave. Mas foi num chutão da defesa que o Cruzeiro “ensinou” ao Vitória como jogar em velocidade: Dagoberto ganhou a disputa aérea e imediatamente lançou Willian, livre, que avançou e venceu Wilson.

Era apenas a quarta finalização do Cruzeiro no jogo, a segunda na direção do gol, contra 9 do Vitória àquela altura. O Cruzeiro ainda é o time que mais finaliza no campeonato, mas também tem a melhor eficiência, com praticamente 46% das conclusões indo na direção do gol — um belo indício do estilo de jogo ofensivo e que prevaleceu sobre todos os outros no torneio.

Primeiras trocas

O gol fez o Vitória perder um pouco o norte, e o primeiro tempo acabaria mesmo com o Cruzeiro na frente. No intervalo, Ney Franco desfez o losango, tirando Renato Cajá para a entrada de William Henrique, que foi jogar na ponta esquerda em cima de Mayke. Com isso, Escudero foi “oficializado” na meia-esquerda, e assim o time passou para um 4-3-3. Já Marcelo Oliveira promoveu a entrada de Éverton na vaga de Egídio, com dois objetivos. Um era reforçar um pouco mais a marcação naquele setor, e o outro era rodar o elenco, àquela altura já matematicamente campeão. Era um experimento, por assim dizer.

Ironicamente, as duas trocas funcionaram a favor do Cruzeiro. Sem um armador central, o Vitória forçou ainda mais pelos flancos, mas Éverton de fato segurou o ímpeto ofensivo de Marquinhos de maneira mais eficiente que Egídio pela esquerda. Na direita, Mayke tinha um alvo de marcação bem definido, que era William Henrique. Teve trabalho, mas foi bem melhor que no primeiro tempo, exceção feita ao lance do gol, mas que é totalmente perdoável — depois de um chutão de Léo que rebateu em um jogador do Vitória, Mayke errou o tempo da bola e não conseguiu interceptá-la, e ela sobrou para William Henrique. Dedé abandonou Dinei e foi na cobertura, e por isso o centroavante recebeu o passe por cima, concluindo em cima de Fábio — a bola rebateu nele mesmo e foi para o gol.

Clima de festa

No segundo gol, a movimentação de Goulart e Júlio confunde Ayrton, que é atraído para dentro e acaba abandonando Dagoberto

No segundo gol, a movimentação de Goulart e Júlio confunde Ayrton, que é atraído para dentro e acaba abandonando Dagoberto

Depois disso, quase nada aconteceu por 20 minutos, até a segundas trocas dos times. O Cruzeiro não forçava muito pois já era campeão, e jogava leve. Já o Vitória tinha dificuldade para penetrar na defesa celeste, agora melhor postada. Ney Franco soltou o time de vez tirando seu único volante de marcação, Marcelo, para promover a entrada de Euller na lateral esquerda, mudando Juan para a meia-direita e fazendo Cáceres ser o meio-campista mais recuado. Marcelo fez uma a troca já corriqueira, Borges por Júlio Baptista, avançando Goulart.

O Vitória melhorou, mas nem bem tentava imprimir seu ritmo o Cruzeiro aumentou com muita tranquilidade. Willian carregou pelo meio e viu a movimentação de Goulart e Júlio Baptista, que também atraiu a atenção do lateral Ayrton. Dagoberto ficou livre, e a bola chegou diretamente ao camisa 11. Dali, foi só rolar pra dentro para Júlio Baptista colocar o campeão novamente na frente.

Fim de jogo?

O time da casa “sentiu” o gol, na gíria do futebol. Mas neste caso foi um pouco diferente, era o peso do time campeão, do melhor ataque do campeonato, de um elenco com muita qualidade. Só chegou quando o Cruzeiro tinha 10 em campo, com Léo fora do gramado para receber atendimento: Kadu acertou a trave após ficar sozinho na área, no lugar onde provavelmente Léo estaria.

Antes do lance, Marcelo Oliveira havia mandado Tinga a campo na vaga de Dagoberto, numa rara troca mais defensiva — o cabeludo ficou pela direita mesmo, ajudando Mayke na marcação. O Vitória perdeu força de ataque e o jogo parecia estar no fim, mas não antes do Cruzeiro marcar o terceiro gol, com muita tranquilidade de Willian, o assistente, e de Ricardo Goulart, o autor do gol. Nenhum deles sofria combate próximo.

Ney Franco ainda desfez a linha de quatro com o atacante Pedro Oldoni na vaga do lateral Ayrton. Não havia sistema de jogo, era só atacar para tentar diminuir, mas o máximo que o time baiano fez foi consagrar Fábio em um chute de William Henrique.

Qualidade pura

Além de confirmar o título, mesmo que a vitória não fosse necessária, a partida de quarta-feira serviu para mostrar a qualidade verdadeira deste elenco celeste e de seu treinador. A pressão pelo triunfo é um fator psicológico que pode ajudar ou atrapalhar um time, dependendo das circunstâncias. Neste jogo, porém, vimos uma equipe desobrigada de vencer, sem pressão, e por isso jogando um futebol em estado puro, apenas na base da técnica e da tática. E por isso prevaleceu: pois tem jogadores melhores e um treinador que soube explorar as características de seus comandados, armando um sistema que hoje é muito bem assimilado por todo o elenco.

Título garantido, já se pode projetar a temporada seguinte. Certamente chegarão reforços e Marcelo provavelmente poderá pensar em variações, que devem ser treinadas no início do ano, já que 2014 terá um calendário ainda mais apertado que 2013, sem tempo para treinamentos táticos. Variações que não só são necessárias no que se refere ao sistema de jogo, mas também ao estilo: em alguns momentos, é preciso se defender mais do que atacar, como na partida contra o Flamengo pela Copa do Brasil. A Libertadores tem este caráter decisivo em sua fase eliminatória, e isso é um ponto a melhorar nesta equipe.

Mas, se essa equipe foi campeã em seu primeiro ano junta, podemos esperar voos ainda mais altos daqui pra frente.

Três volantes e um armador? Não, é um meia e três atacantes.

Três volantes e um armador? Não, é um meia e três atacantes.



Cruzeiro 5 x 1 Vitória – Variedade e qualidade

Mesmo sem os considerados titulares Bruno Rodrigo, Souza e Luan, suspensos, o Cruzeiro se impôs no Mineirão contra o Vitória. A manutenção da qualidade do futebol apresentado prova que o elenco celeste é muito bom, quiçá um dos melhores do país. Taticamente, a partida mostrou um Cruzeiro que sabe se adaptar sem alterar seu estilo, e que consegue atacar por todos os lados com a mesma qualidade.

Além disso, a goleada “recuperou” o saldo perdido nos últimos jogos, quando a produção ofensiva não tinha sido a mesma do restante da temporada, muito por causa do alto índice de chances criadas e não aproveitadas — que ainda persistiram nesta partida, mas em menor grau.

Os onze

Depois do 1x0, Caio Jr. inverteu Vander para marcar Egídio, deixando Mayke livre para jogar com Everton Ribeiro; e Goulart ia para os flancos para fugir do trio de volantes centralizados

Depois do 1×0, Caio Jr. inverteu Vander para marcar Egídio, deixando Mayke livre para jogar com Everton Ribeiro; e Goulart ia para os flancos para fugir do trio de volantes centralizados

As três suspensões já obrigariam Marcelo Oliveira a mudar mais peças do que a média das últimas partidas. Porém, ainda mais trocas foram feitas: Mayke retornou e Borges entrou na vaga de Vinicius Araújo. Quase metade do time estava modificado, portanto, mas a estrutura tática se preservou. O 4-2-3-1 teve Fábio no gol, com Mayke e Egídio flanqueando Dedé e seu novo parceiro de zaga Léo. À frente da área, Nilton teve a seu lado Lucas Silva na volância, e Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart foram acompanhados por Willian na linha de três meias, tendo Borges no comando do ataque.

Caio Júnior armou o Vitória num 4-3-2-1 que variou para um 4-3-1-2, mas com o meio-campo sem formar um losango. Os volantes, Cáceres, Michel e Luís Alberto fizeram um parede à frente da área, uma linha de três homens bloqueando as ações pelo centro. Atrás deles, a linha defensiva tinha os jovens Dimas e Euler nas laterais direita e esquerda respectivamente, com os zagueiros Victor Ramos e Fabrício defendendo o gol de Wilson. Na frente, Renato Cajá tinha a missão de armar o jogo partindo do centro, com Vander a princípio mais recuado à esquerda e Maxi Biancucchi sozinho à frente.

Dando a volta no “muro”

O posicionamento defensivo do Vitória, inicialmente, pareceu ter dois objetivos: primeiro, fechar o lado direito, principalmente com Vander perseguindo Mayke; e segundo, bloquear as ações pelo centro, com os três volantes bem recuados e centralizados. Com isso, tinha campo para avançar até a intermediária ofensiva, quando Cáceres subia o posicionamento para bloquear o camisa 6. Porém, sem Luan à sua frente para fazer a jogada de pivô e receber de volta, Egídio não procurava tanto Willian, e o jogo não fluiu tanto por aquele lado.

Mas Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro, vendo o congestionamento à sua frente, começaram a se movimentar. Goulart procurava os flancos para fugir do muro de volantes, se apresentando com a primeira opção de passe dos laterais. E Ribeiro, além de fazer sua rota regular, saindo da direita para armar o time do centro, desta vez também deu profundidade pela direita, vendo o espaço que o jovem Euler dava por ali, levando ampla vantagem. Primeiro recebeu um lateral de Mayke para cruzar rasteiro e Willian concluir em cima de Wilson, e depois ao limpar a marcação do lateral baiano pra dentro e bater para Wilson espalmar e ceder o escanteio que originou o primeiro gol.

Vander

Não se sabe ao certo porque Caio Júnior decidiu inverter Vander de lado. Talvez ele estivesse considerando que Egídio, sendo a principal saída cruzeirense no jogo, pudesse crescer na partida e se tornar mais uma ameaça. O certo é que, depois do gol, o atacante baiano se posicionou bem aberto pela direita, combatendo Egídio assim que o lateral recebia a bola. Se antes era o camisa 6 quem tinha espaço, desta vez foi Mayke quem tinha mais liberdade. Renato Cajá tentava compensar, saindo do centro para acompanhar o lateral.

Funcionou em certa medida, mas o Cruzeiro continuou a criar e chutar a gol, dominando amplamente a posse de bola. O Vitória só finalizou três vezes no primeiro tempo, sendo duas apenas nos minutos finais. Já o Cruzeiro parecia que seria novamente atacado pelo “fantasma do pé torto”: 8 finalizações, sendo 3 certas (com um gol), 3 erradas e 2 bloqueadas.

Segundo tempo

Mas só parecia. Pois no intervalo Caio Júnior tirou um de seus volantes, Michel, para dar lugar a Dinei, centroavante de ofício, coisa que Maxi Biancucchi nunca foi. O argentino foi jogar atrás de Dinei, empurrando Renato Cajá de vez para o lado direito, formando um 4-2-3-1. A marcação encaixou, mas Éverton Ribeiro continuou levando muita vantagem sobre Euler, que não sabia como marcar o camisa 17 celeste. Renato Cajá não tinha poder de marcação suficiente para acompanhar Mayke, significando que o Cruzeiro fez a festa pelo lado direito, de onde saiu o segundo gol: Ribeiro, bem aberto pela ponta, recebeu de Nilton e viu Mayke passar como um raio às suas costas. Bola pro garoto, que chutou rasteiro e contou com o desvio do zagueiro para fazer seu primeiro gol como profissional. Já era hora.

Everton Ribeiro e Mayke foram bastante acionados, como mostra a mapa de posse de bola do Cruzeiro (Footstats)

Caio Júnior finalmente percebeu a mina de ouro que estava entregando ao Cruzeiro e tirou o garoto Euler do time, lançando o zagueiro Reniê, que foi fazer parceria com Victor Ramos no miolo de zaga. Com isso, Fabrício foi deslocado para a lateral esquerda. A tentativa de aumentar a marcação naquele lado era clara. A resposta de Marcelo Oliveira foi imediata: colocou Élber, mais incisivo, na vaga de Everton Ribeiro, provavelmente pensando em poupar o meia para a partida da Copa do Brasil contra o Flamengo. E na sua primeira jogada, Elber já mostrou a que veio, deixando Fabrício sentado no chão antes de concluir para a defesa de Wilson.

Impassível

Mesmo com a marcação mais encaixada e o zagueiro Reniê na lateral esquerda, o Cruzeiro continuou fazendo a festa pela direita, e também pela esquerda com Martinuccio

Mesmo com a marcação mais encaixada e o zagueiro Reniê na lateral esquerda, o Cruzeiro continuou fazendo a festa pela direita, e também pela esquerda com Martinuccio

Mesmo antes do pênalti cometido atabalhoadamente por Dedé em Dinei, Marcelo já preparava sua segunda mudança: Martinuccio na mesma ponta esquerda onde estava o pouco participativo Willian. E mesmo com a conversão da penalidade, Marcelo não modificou sua substituição — sinal de que confia no seu elenco e não viu o resultado ameaçado em nenhum momento. E pouco tempo depois a mudança já surtiria efeito: passe de Egídio, jogando como meia, para Martinuccio levar até o fundo e cruzar na testa de Borges e aumentar a conta.

Logo após o gol, Caio Júnior mexeu pela última vez, trocando Vander por Marquinhos, sem alterar o sistema, talvez para dar mais folêgo ao time. Mas o jogo já estava resolvido, e a defesa baiana seguiu dando espaços. O Cruzeiro passou a dominar amplamente, e consagrou o goleiro baiano Wilson. É até estranho dizer que o goleiro foi o melhor adversário em campo numa partida que terminou em goleada, mas foi o que aconteceu. Tanto Ricardo Goulart quanto Martinuccio tiveram chance de aumentar a conta, até que finalmente, Goulart fez o trigésimo gol celeste no certame em cruzamento de Élber, lançado na velocidade por Nilton.

Marcelo Oliveira ainda tinha uma troca a fazer, e quis dar moral para o garoto Vinicius Araújo, lançando-o na vaga de Borges. Ele não decepcionou: cabeceou firme pro fundo do gol a cobrança de falta pela esquerda de Egídio, fechando a goleada.

Variado e qualificado

Mais uma vez, um adversário é goleado no Mineirão pelo melhor ataque do Brasileirão. Não é pra menos: das 264 conclusões do Cruzeiro até aqui, nada menos do que 115 foram no alvo, o que coloca o Cruzeiro como o terceiro melhor aproveitamento de finalizações (43,56%), atrás de Grêmio (43,68%) e Ponte Preta (44,58%) — mas é preciso levar em conta que estas equipes tem números bem menores em total de finalizações (174 e 166, respectivamente).

Porém, o principal aspecto tático da partida foi que, mesmo com tantas peças modificadas, o time continuou jogando da mesma forma, mas se adaptando dentro de campo para sobrpeujar os diferentes esquemas defensivos dos adversários. Aparentemente, jogar contra o Cruzeiro é o problema do cobertor curto: se você cobre um setor, abre o outro para que o time ataque com a mesma qualidade (se não ainda melhor). O Cruzeiro é uniformemente bom em todos os setores: direita, centro e esquerda; zaga, meio-campo e ataque.

É claro que, quando há trocas, as características mudam. Por exemplo, como ponteiros esquerdos podem jogar Luan, Martinuccio e Dagoberto — jogadores muito diferentes. Assim como Élber, Everton Ribeiro e Willian, pela direita. Ou Borges e Vinicius Araújo na frente; Júlio Baptista e Ricardo Goulart por dentro; Lucas Silva, Henrique, Souza e Nilton — isso só mostra como Marcelo Oliveira tem opções de qualidade para mexer no time sem alterar muito a estrutura tática.

Um treinador disse uma vez que bons times ganham jogos, mas bons elencos ganham campeonatos. Mais uma razão para acreditar-se que o Cruzeiro está, sim, muito bem na briga pelo caneco.