O sol e os planetas (ou: A anatomia de um gol coletivo)

Futebolisticamente, sou um coletivista convicto. No sentido de ser anti-individualista. Ou seja, sempre vou dar prioridade ao coletivo sobre o individual, em qualquer aspecto. E não poderia ser diferente quando o assunto é uma jogada de gol.

Não me entendam mal, também gosto de gols de técnica individual. O voleio do Arrascaeta contra o América é qualquer coisa. Outro gol que me marcou muito é o primeiro do Brasil na Copa de 2006, um chute do Kaká de esquerda contra a Croácia. Lembro da minha cara “derretendo” naquele dia depois daquele lance. E vários outros, desnecessário citar.

Mas curto muito mais um gol coletivo, desses em que as movimentações e escolhas dos jogadores simplesmente desorganizam e deixam as defesas perdidas. É tão atordoante que nem é preciso técnica muito apurada para executar. É só fazer “mais ou menos”, porque as ações coletivas tornam tudo mais fácil. Sempre me lembro do segundo gol do Goulart contra o Náutico em 2013. Eu estava no estádio no dia, depois revi o gol em vídeo umas mil vezes. É incrível como a defesa pernambucana simplesmente não vê como Goulart foi parar ali.

Mas esse texto, como podem imaginar, é sobre o golaço do Cruzeiro contra o Villa Nova no sábado. Vou tentar dissecar os movimentos ofensivos pra tentar mostrar porque eu gosto muito mais de gols assim.

(os créditos de todas as imagens abaixo são do globoesporte.com)

Rafinha, sozinho, não tem opção senão cruzar. Por sorte, a bola volta pra ele

Ironicamente, tudo começa com um erro. Rafinha, aberto na direita, recebe lançamento de Egídio. Henrique e Fred já estão na grande área, e Mancuello corre pra lá. Ninguém se aproxima de Rafinha para o jogo apoiado, de forma que só resta a ele tentar o cruzamento. Ele erra.

Mancuello se desloca e leva dois com ele, abrindo espaço na meia-lua

Por sorte, a bola volta pra ele. E aí é que começa a trama bem feita. No momento em que Mancuello percebe que o cruzamento falhou, muda a direção de sua corrida, para sair do centro ao invés de dar profundidade. Esse movimento puxa a marcação de um jogador do Villa Nova, que depois “transfere” a responsabilidade para outro mais atrás com um gesto. E isso é suficiente pra deixar Fred e Henrique no mano a mano dentro da área e abrir um espaço próximo à meia-lua.

Fred percebe o espaço e vai até ele, atraindo todo o lado direito da defesa do Villa para o centro

Rafinha, então, escolhe centralizar com a bola. Nesse momento, vemos Edilson avançando aberto pra ser opção, mas não é acionado. Ao mesmo tempo, Fred percebe o espaço aberto por Mancuello e se movimenta até ele. Rafinha já percebeu e toca. Dois jogadores do Villa também percebem e saem à caça: um era o marcador “original” de Fred, e outro é um volante que está chegando. Mas já é tarde: a bola chega em Fred, que já sabe o que vai fazer. Ele tinha a opção de Arrascaeta que chegava logo atrás dele, sem marcação. Mas ele já havia escolhido tocar de primeira para Henrique, ainda na área.

Henrique recebe e tem várias opções, inclusive Cabral totalmente livre pelo movimento de Fred

Esse movimento de Fred desorganiza totalmente a defesa do Villa Nova. Henrique fica sozinho com um marcador, que não está totalmente em cima dele, permitindo receber o passe. Nesse momento, Henrique já tem várias opções. Devolver no Fred, tentar um passe de efeito para Mancuello atrás dele, ou amortecer pro Rafinha chegar. Mas talvez a melhor opção ali fosse abrir para Ariel Cabral. Note o argentino se movimentando ali com muita tranquilidade, devido ao espaço aberto pela movimentação de Fred.

Henrique escolhe Rafinha, que também tem opções: Cabral, Fred ou finalizar

A opção é escolhida é a deixadinha. Rafinha, depois de iniciar a jogada lá atrás, é simplesmente ignorado pela defesa do Villa, pois a atenção de todos os jogadores está voltada para Fred e Henrique, as maiores ameaças. Rafinha sequer é incomodado. Ele também tinha algumas opções além de chutar: também poderia tentar dar o passe pra Ariel Cabral, que se sofresse de agorafobia estaria com problemas. Ou para Fred, que passava às costas do seu confuso marcador, na dúvida entre acompanhar o camisa 9 ou tentar parar Rafinha.

Rafinha escolhe finalizar e o faz com maestria: o gesto técnico mais “difícil” da jogada

Rafinha escolhe finalizar, e o faz com categoria no canto direito do goleiro — no que talvez seja o único gesto que exigiu um pouco mais de técnica.

Fora da bola

Como diz a música do Skank, “olhando para a bola eu vejo o sol”. Ela é a estrela do espetáculo e é natural que chame todas as atenções. Mas é importante ver o movimento dos jogadores que não estão com ela, ou até mesmo longe dela. A movimentação destes, se bem feita, no fim das contas acaba facilitando as coisas para os companheiros. Afinal, jogar com espaço é muito mais fácil.

Jogadores de futebol jogam (muito) mais sem a bola no pé do que com ela. Façamos uma conta bem tosca: um jogo tem 90 minutos, mas em média só 60 de bola rolando. Considerando 30 pra cada time, e que não dá pra dois jogadores terem a posse ao mesmo tempo, divida 30 por 11 em campo e você terá aí uma média de 2:44 de tempo na bola pra cada jogador. Isso sem contar o tempo de bola viajando no ar ou pelo chão, além de ignorar que os jogadores de defesa ficam muito mais com a bola do que os atacantes.

Ok, dois minutos e meio na bola. E o que os jogadores fazem nos outros 27:30 da posse do seu time? Se movimentando e abrindo espaço. Como no lance acima: Mancuello sequer fica próximo à bola, mas sua movimentação é fundamental pra abrir o espaço que Fred enxerga. Fred, por sua vez, movimenta-se de forma inteligente, arrastando mais dois consigo. Cabral só fica totalmente livre por isso. E Rafinha é ignorado também por isso: a atenção da defesa estava totalmente voltada para outros jogadores. Isso é jogar futebol, sem a bola.

Então, Samuel Rosa que me perdoe: de fato, o “sol” chama toda a atenção, mas ele não seria a mesma coisa sem os “planetas” que orbitam a seu redor.



Somos todos feitos de estrelas

Versão curta e rápida: o blog Constelações suspenderá suas atividades por tempo indeterminado.

O “big bang”

Duvido que alguém saiba disso, mas o blog Constelações começou ainda em 2012. Empolgadíssimo por ter descoberto o mundo das análises táticas no futebol no ano anterior — que terminou naquele 6×1 — este escriba resolveu unir esta nova paixão com uma antiga: o Cruzeiro. Assim nasceu o único blog de análises táticas dedicado a um time só. Talvez já não seja o único, mas sem dúvida foi pioneiro nesse formato.

Totalmente auto-didata, no início decidi escrever apenas para treinar. Não fazia divulgação, sequer para amigos. Portanto, eu escrevia só pra mim. A razão maior, porém, era que eu tinha era medo dos trolls. Não estava preparado para receber comentários odiosos de gente que só quer tumultuar (talvez ainda não esteja). Só depois de sentir confiança é que abri o blog, primeiro para amigos cruzeirenses próximos, para testar a reação.

Com o retorno positivo, comecei uma tímida divulgação, a partir de meados de 2012. Desde então, o blog só cresceu. Em acessos, em popularidade. Comecei a comentar os jogos ao vivo no Twitter, e com isso fui angariando mais audiência e mais seguidores. Chamei tanta atenção que fui convidado a ser colunista de um grande portal de conteúdo do Cruzeiro, o Diário Celeste, no início de 2015.

Foi quando o alcance dos meus textos chegou num ponto que eu nunca pude imaginar. Com muito mais seguidores do que eu, os textos do Diário chegaram aos computadores de dezenas de milhares de pessoas. Gente importante do jornalismo brasileiro começou a ler os meus textos. Outros analistas táticos começaram a me olhar como pares — algo que nunca entendi direito, já que não me julgo merecedor de tal honraria.

Foram três anos e meio em que tudo isso era feito com um único combustível: o amor ao Cruzeiro e à análise tática (nessa ordem). E pelo fato de não ser a minha ocupação principal, eu sempre tinha que escrever os textos nos meus horários livres. E até o momento, isso bastava.

Mas a vida nos leva por outros caminhos, e nesses caminhos há outras prioridades. O tempo disponível já não seria tão grande. Com pesar, tive que decidir pela suspensão das análises profundas aqui no blog. Talvez algum dia elas voltem, afinal, depois de uma estrada sempre há outra estrada.

Coisas que ninguém sabia

Pra não ficar um texto muito melancólico, aqui vão algumas curiosidade engraçadinhas.

  • Os diagramas táticos, também conhecidos como “campinhos”, são todos produzidos por mim usando um software de edição de imagens.
  • Nestes campinhos, propositalmente não uso os números do jogadores, apenas os nomes. Isso porque o número da camisa não tem nenhuma relevância na análise tática e usá-lo poderia confundir o entendimento (“camisa 10 na ponta direita, como assim?”).
  • Os campinhos são no formato vertical, e não no horizontal como é o “padrão” dos outros blogs de tática, por uma razão muito simples: nessa orientação, o lateral direito fica do lado direito, o esquerdo no esquerdo, a zaga fica embaixo, ou “atrás” e o ataque em cima, ou “à frente”. Além disso, facilita o entendimento de expressões como “marcação no alto do campo”, ou “o volante afundou entre os zagueiros”.
  • No início, os campinhos tinham a mesma proporção do Mineirão antigo (110 x 75m). Pós-reforma, mudei para a nova proporção (105 x 68m), e adicionei as traves.
  • O tom de azul que marca os jogadores do Cruzeiro nos campinhos é o recomendado pelo próprio clube no seu manual de aplicação da marca.
  • Na imagem de fundo do blog, há quatro constelações: em cima, a Raposa e o Cruzeiro do Sul, que são constelações que existem de verdade; do lado esquerdo, um conjunto de estrelas que representa o esquadrão de 1966, no seu 4-3-3 característico (repare na estrela amarelada no gol e como a estrela “Tostão”, na meia esquerda, brilha mais que as outras); e do lado direito, o histórico time da Tríplice Coroa de 2003, com o 4-3-1-2 losango que Luxemburgo armou para dar liberdade a Alex, a “estrela alfa” daquela equipe.

Pequenos detalhes que me faziam feliz, mesmo que ninguém soubesse deles.

Agradecimentos

Importante agradecer a todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para que o blog Constelações fosse o que é hoje.

  • Eduardo Cecconi, o pioneiro, o verdadeiro desbravador da selva com a foice na mão, que abriu caminho para vários outros com seu finado blog Preleção e depois com o blog Tabuleiro no Globo Esporte;
  • André Rocha, cuja própria história é inspiração para muitos: um torcedor comentarista de blog que ganhou uma coluna pelo excelente conteúdo de suas palavras e não parou mais de crescer. Agradeço pela oportunidade de poder colocar um texto em seu blog da ESPN, quando eu era ainda muito “verde” no assunto;
  • Leonardo Miranda, Caio Gondo, o perfil @cruzeirotatico do Twitter e tantos outros seguidores no microblog, com os quais tive debates muitíssimo enriquecedores. Só tive o que aprender com estes mestres;
  • Aos autores dos textos nos portais Taticamente Falando e A Prancheta Tática, que nos brindam com excelentes análises de vários jogos, fontes excelentes de conhecimento;
  • Jonathan Wilson, autor do livro “Invertendo a Pirâmide”, e Michael Cox, do site “Zonal Marking“, que não devem nem saber da minha existência, mas que são óbvias fontes de inspiração. Leiam o livro e visitem o site!

“We are all made of star-stuff”

O famoso astrônomo Carl Sagan uma dia disse que “somos todos feitos de estrelas”. Isto porque, de acordo com a teoria vigente, todos os átomos existentes no Sistema Solar foram criados a partir do hidrogênio existente dentro de uma estrela, que após completar o seu ciclo, explodiu e deu origem ao nosso Sol e aos planetas.

Assim, tal qual uma estrela que morre mas deixa seu rastro por toda a parte, o Constelações suspende suas atividades, mas não desaparece por completo. Pois se o blog conseguiu plantar a sementinha sobre o assunto na cabeça de muita gente que o desconhecia, se conseguiu ao menos derrubar o muro do preconceito em relação a isso que existe no Brasil, já terá cumprido o seu papel. E estará por aí, na forma do interesse despertado, da informação mais completa, da visão do jogo por um outro prisma que não o da técnica individual.

Obrigado a todos, até breve, abaixo a ditadura do 4-4-2, e finalmente e mais importante: #FechadoComOCruzeiro!



Contratações 2015: funções táticas e encaixes

Então 2014 chegou ao fim. Mas no futebol tupiniquim, já estamos em 2015 há muito tempo. Terminado o Brasileiro, a época de contratações foi aberta e o mercado se movimentou. E o Cruzeiro, é claro, não ficou parado e contratou jogadores de maneira pontual, pois a manutenção da base de 2013/14 é sem dúvida uma grande vantagem.

Mas, como de praxe, existe um certo reducionismo da imprensa — e a reboque, dos torcedores — em relação à posição e função tática dos reforços que chegam. E o Constelações tenta aqui analisar como os jogadores contratados até este 31 de dezembro podem contribuir taticamente.

Fabiano

Como vocês sabem, Fabiano é lateral-direito de origem e jogava na Chapecoense em 2014. Muita gente especulou que isso era uma precaução do Cruzeiro em relação a uma possível perda de Mayke para o futebol europeu. Não é assim que enxergo, pois Fabiano tem muito mais características defensivas, faz a linha de quatro atrás com mais qualidade e às vezes até joga de zagueiro.

No entanto, também sabe apoiar bem o ataque, ainda que não tenha o mesmo ímpeto de Mayke. Ele foi o jogador que mais deu assistências para gol na Chapecoense, e o 20º no campeonato, com 5 (números Footstats). Podemos dizer que ele é um misto entre Mayke e Ceará, mas bem mais próximo do segundo do que do primeiro.

 

Gilson

Do outro lado da defesa, o Cruzeiro tem Egídio, o titular, e Breno, contratado no meio do ano. Samudio não teve seu empréstimo renovado. Assim, com Gilson, que estava emprestado ao América, o Cruzeiro passaria a contar com três laterais esquerdos.

Mas a decisão de reintegrar Gilson pode não passar pelo setor. Pois se quando jogava no Cruzeiro, ele de fato era um lateral, no América Gilson jogou aberto pela esquerda no meio-campo, ou seja, como ponteiro esquerdo, à frente do lateral. O jogador foi o 3º geral em assistências na Série B, e ainda marcou 5 gols.

Em cima, o mapa de calor de Gilson em sua última partida na Série B pelo América/MG contra a Ponte Preta; note o posicionamento avançado em relação a Raul (embaixo), o lateral esquerdo de fato na mesma partida

Em cima, o mapa de calor de Gilson em sua última partida na Série B pelo América/MG contra a Ponte Preta; note o posicionamento avançado em relação a Raul (embaixo), o lateral esquerdo de fato na mesma partida

Joel

Destaque da sofrível campanha do Coritiba deste ano, Joel é um atacante do tipo Élber: ousado, driblador e veloz. Parte pra cima do zagueiro no um-contra-um sem medo. No time paranaense, jogava constantemente pelo lado direito na linha de três do 4-2-3-1 de Marquinhos Santos.

Como era um time feito para dar liberdade a Alex, que não tinha nenhum trabalho defensivo, Joel era obrigado a ter responsabilidades de marcação no lateral esquerdo adversário. Mas também jogava de centroavante móvel, principalmente quando o time mudava para um 4-4-1-1, no qual o Coritiba se fechava em duas linhas e deixava apenas Alex e Joel para os contra-ataques. Repare essa formação no vídeo abaixo, no gol marcante contra o São Paulo, quando ele pula a placa e cai no túnel de acesso dos vestiários:

 

Seymour

Surpresa para muitos — inclusive para este escriba, a contratação do chileno foi, ao que parece, um pedido do técnico Marcelo Oliveira para dar consistência na marcação à frente da área. Para a posição, já temos Nilton e Willian Farias, tendo ainda Eurico como terceira opção. De acordo com o noticiado, o jogador veio devido à sua experiência em torneios sul-americanos, pois foi o dono do meio-campo da Universidad do Chile de 2010/11, que encantou o continente sob o comando de Jorge Sampaoli.

Porém, depois daquele período, Seymour foi para a Itália e não rendeu o esperado. Foi emprestado pelo Genoa para o Spezia, da segunda divisão. Lá jogou alguns jogos e, dizem as notícias, foi bem. Mas por alguma razão ainda não jogou na temporada 2014/15, e está parado há alguns meses. Resta saber se a chegada dele representa uma possível precaução da diretoria com a perda de algum outro da posição — Nilton tem proposta séria do Internacional, por exemplo.

Damião

Talvez a contratação mais controversa de todas, Damião é a aposta da diretoria celeste para a posição de referência no ataque. Com Borges liberado e Marcelo Moreno muito caro para ser comprado em definitivo, o Cruzeiro ficou sem centroavantes. Hugo Ragelli é da posição, mas acabou de subir da base e portanto precisa de tempo de maturação. Deve ser a terceira opção, com a segunda sendo ou a reintegração de Anselmo Ramon, ou uma contratação ainda não anunciada.

A grande questão em relação a Damião, no entanto, nem é se ele vai recuperar o futebol de 2012/13 do Internacional, e sim o seu estilo. Se o Cruzeiro desse ano deu muito certo com Moreno na frente, era porque o boliviano era intenso: liderava a pressão alta, saía da área para abrir espaço para Goulart, e ainda era bom no jogo aéreo e tinha velocidade, ainda que tivesse menos técnica e errasse muitas finalizações.

Veja no vídeo abaixo um exemplo: Moreno aplicava tanta intensidade que às vezes roubava bolas até dos companheiros:

 

Damião é um jogador diferente. Se tem mais técnica que Moreno, me parece mais um nove clássico, homem-alvo dentro da área, sem se movimentar tanto, o que pode facilitar a marcação das defesas adversárias. Talvez até engessar um pouco a movimentação do quarteto de frente, prendendo Ricardo Goulart ao meio-campo. Defensivamente, Damião terá de ser a referência da marcação adiantada, como é responsabilidade de todo centroavante do 4-2-3-1. É ele quem vai decidir quando subir a pressão ou não, e o resto do time tem de acompanhar.

Conclusão: versatilidade conta

As contratações celestes até aqui — com a notável exceção de Leandro Damião — me parecem ter uma coisa em comum: todos os jogadores podem fazer mais de uma função em campo para além das “oficiais”. Isso é mais nítido nos casos de Fabiano (lateral e zagueiro) e Gilson (lateral e ponteiro). Joel é menos versátil, mas para uma situação de proteção de resultado e de contra-ataques, ele pode jogar como um centroavante solto e veloz. E Seymour, apesar de ser tipicamente um volante de marcação, tem bom arremate e pode participar da construção como Henrique faz atualmente.

Assim, de certa forma, apenas Damião é um jogador de uma função só. Porém, não acredito que Marcelo Oliveira se contentará com isso e deverá treiná-lo para que, sem a bola, incomode os zagueiros adversários, e até mesmo caia pelos lados para dar o último passe. Se ficar parado, esperando a bola, perderá a posição, pois irá atrapalhar a dinâmica do time, e será uma contratação perdida.

Essa busca pela versatilidade faz sentido. Ainda que não seja explícito — ou até mesmo consciente — por parte do Cruzeiro, é nessa direção que o futebol mundial está seguindo. Para contratar um jogador de uma função só, somente se ele for extraordinário. E todos dessa classe provavelmente estão na Europa.

Feliz 2015

É isso para 2014, amigos. Este blog deseja a todos um 2015 azul-celeste. E que venha o tri da Libertadores, o penta do Brasileiro e o Mundial!



Super-especialistas? Só os extraordinários

Alex, o segundo maior camisa 10 da história do Cruzeiro — atrás de Dirceu Lopes — vai se aposentar neste domingo. Um exemplo de jogador, dentro e fora de campo. Sua visão de jogo era tão grande que eu costumava brincar que ele tinha na cabeça aqueles mapinhas dos vídeo-games de futebol, indicando a posição dos jogadores em tempo real. Sem precisar olhar, ele parecia saber onde estavam seus companheiros e adversários, e assim conseguia encaixar passes quase inacreditáveis.

Mas o Talento Azul faz parte de uma classe de jogadores em extinção. Nela estão nomes como Zlatan Ibrahimovic, Miroslav Klose, Juan Roman Riquelme e Claude Makélélé. São os últimos representantes dos super-especialistas, aqueles que fazem uma única função tática dentro de campo e nada mais. E este processo de desaparecimento não é uma questão de formação, e sim da exigência do futebol moderno.

Não há dúvidas que Ibra é um exímio finalizador, e qualquer time do mundo gostaria de contar com os gols do atacante sueco. É um centroavante camisa 9 típico. No entanto, dificilmente você o verá perseguindo o lateral, destruindo jogadas, recompondo no meio-campo para abafar a saída de bola. O mesmo se pode dizer de Klose, a quem Michael Cox, do site Zonal Marking, chamou de “the last goal-poacher” (“o último finalizador”, numa tradução livre). Maior artilheiro da história das Copas, não foi titular na campanha do tetra em terras brasileiras exatamente por isso: só fazia uma função tática.

Não raro, vemos em mesas de discussão na mídia esportiva brasileira um brado saudosita pelos camisas 10 “das antigas”. Um jogador cerebral, que joga com a cabeça em pé, recebe o passe, pensa, cadencia. Riquelme e Alex são os últimos representantes deste naipe de jogadores, e que tem, inegavelmente, cada vez menos espaço no futebol moderno, muito mais rápido e físico: um jogador mal pega na bola e já tem um ou dois adversários em seu encalço para lhe roubá-la. Não há mais tempo para pensar como antes. E pior: quando surge um jogador que pode vir a se tornar um desses, como Paulo Henrique Ganso, por exemplo, a mídia logo celebra, e fica aumentando o ego do jogador, prejudicando sua formação e até o seu futebol em campo.

Mais atrás no campo, temos os famosos volantes “brucutus”: marcadores implacáveis, roubadores de bola que dariam inveja a muitos larápios profissionais por aí. São os “cães-de-guarda” das defesas. Claude Makélélé foi um exemplo tão marcante desse tipo de jogador que a função foi apelidada de “Makelele role”. No entanto, com cada vez menos espaço no terço final do campo, a responsabilidade de dar o primeiro passe e começar o jogo ofensivo recai cada vez mais sobre esses jogadores. Volantes sem qualidade de passe e visão e jogo estão sendo preteridos em favor de jogadores mais técnicos.

Em suma, a era dos jogadores super-especialistas já terminou. Não há mais espaço para o atacante que só fica dentro da área esperando a bola para finalizar; não há mais espaço para o meia-armador que só joga com a bola no pé e quer tempo para “pensar o jogo”; não há mais espaço para os volantes que só destroem jogadas, e assim que roubam a bola já se livram dela, passando a um companheiro próximo, pois não tem técnica alguma.

A única exceção que podemos abrir para estes super-especialistas é se eles forem jogadores, de fato, excepcionais — como os citados Ibrahimovic e Alex. Pois no futebol de hoje, estamos caminhando para a universalização: todos os jogadores fazendo todas as funções com qualidade. Até chegar lá, veremos cada vez mais em campo centroavantes que marcam, armadores que correm pra trás e dão bote, volantes com bom passe. São jogadores que antigamente eram chamados de “curingas”.

Inclusive, é bem provável, em um futuro próximo, que vejamos zagueiros armadores e até goleiros jogando com a bola nos pés, no melhor estilo goleiro-linha do futsal — Manuel Neuer que o diga. Com o “esgotamento” das revoluções táticas no futebol indicado pelas últimas Copas, o próximo grande passo é fazer com que, literalmente, todos marquem e todos joguem.



Números: cuidado com eles! A eficiência de passe dos jogadores do Cruzeiro

É costume dizer que os números são “frios”. Em outras palavras, os números contam uma verdade única e incontestável. Porém, se colocados da maneira correta, números de qualquer natureza podem contar somente uma parte da história, ou a parte da história que mais lhe convier.

Um pequeno exemplo: suponha que havia dois hospitais em uma cidade, e o prefeito foi lá e construiu mais um. Candidato à reeleição, o prefeito diz à população que aumentou em 50% o número de hospitais. Um número “impressionante”. Mas o candidato de oposição pode usar o mesmo dado, contado de forma diferente, e dizer que o atual prefeito construiu “apenas” um hospital. Um caso clássico de números relativos contra absolutos que acontece em qualquer pleito.

No futebol não é diferente. Dia desses, o perfil cruzeirense da Footstats, a maior empresa de estatísticas futebolísticas do Brasil, publicou o seguinte no Twitter:



Nada mais do que a verdade: Éverton Ribeiro é o cruzeirense que errou mais passes. Ponto. Mas essa análise não diz nada se não for mais profunda. Deve-se levar em conta, também, o total de passes tentados. Afinal, quem tenta mais passes, naturalmente erra mais passes no número absoluto. Para dar um exemplo simplório: se uma equipe A tenta 50 passes e erra 10, enquanto a equipe B tenta passar a bola 200 vezes e erra 20, a equipe B erra mais no total (20 contra 10), mas em eficiência de passes, a equipe B é melhor (90% contra 80%).

Eficiência de passes

Eficiência de passes dos jogadores do Cruzeiro até a 13ª rodada. Em branco, os jogadores que tentaram menos de 100 passes

Eficiência de passes dos jogadores do Cruzeiro até a 13ª rodada. Em branco, os jogadores que tentaram menos de 100 passes

Em termos de eficiência, de acordo com os números da própria Footstats, a maioria dos jogadores está numa faixa entre 80% e 95% de acerto. Fábio tende naturalmente a liderar o quesito, pois qualquer passe errado do goleiro pode resultar em gol adversário e portanto os passes mais seguros são os escolhidos, aumentando muito o índice. Isso se expande para os jogadores de linha: quanto mais à frente o posicionamento de um jogador, maior a probabilidade de erro. Os zagueiros em média tem mais eficiência que os volantes, que por sua vez tem uma taxa de acerto maior que os meias e assim por diante. Exploraremos isso mais à frente no texto.

Além disso, alguns desses números tem que ser relativizados. É o caso de Samudio, Júlio Baptista e Manoel. Estes jogadores estiveram em campo por apenas um jogo, ou nem isso no caso de Samudio e Júlio, e isso acaba por desviar os números demais. Dessa forma, retiramos os jogadores que tem menos de 100 tentativas de passe da análise (Júlio, Samudio, Borges, Tinga, Alisson e Manoel).

De fato, vemos que os jogadores que tem menor taxa de acerto são os jogadores de frente, onde naturalmente há menos espaço para completar um passe. E Éverton Ribeiro é o terceiro menos eficiente dentre os jogadores com mais de 100 passes, de certa forma comprovando o tuíte da Footstats acima. Mas isso também não conta a história completa, como veremos adiante.

Relação passes certos x errados

Na relação entre passes certos e errados, vemos como os jogadores se concentram uma faixa diagonal: quem tenta mais, naturalmente erra mais no número absoluto, mas também tem mais acertos

Na relação entre passes certos e errados, vemos como os jogadores se concentram uma faixa diagonal: quem tenta mais, naturalmente erra mais no número absoluto, mas também tem mais acertos

O eixo vertical representa os passes errados, ou seja, quanto mais pra cima no gráfico está um jogador, mais passes ele erra, em número absoluto. E o eixo horizontal representa os passes certos — da mesma forma, quanto mais à direita no gráfico, mais passes o jogador completa com sucesso, novamente em número absoluto.

Reparem que, de fato, Éverton é o jogador que mais errou passes no Cruzeiro, pois é o ponto que está mais acima que todos os outros. No entanto, ele também acerta muitos passes, sendo o terceiro do time neste quesito, empatado com seu companheiro Ricardo Goulart. Os dois jogadores que acertam mais são Henrique e Egídio. Como já dito, é preciso considerar que Ribeiro e Goulart jogam em regiões do campo onde há muito menos espaço, ao contrário de Henrique e Egídio. Assim, podemos dizer que são dois dos melhores passadores do time. Além disso, na maioria das vezes é deles a responsabilidade de dar o passe final, aquele que deixa o companheiro na cara do gol, e que quase sempre é um passe de maior dificuldade do que os “normais”. Por isso, a taxa de erros é ligeiramente maior.

Outro ponto a se destacar é que os jogadores se concentram numa faixa diagonal que vai do canto inferior esquerdo ao canto superior direito do gráfico. Isso é explicado facilmente pela máxima: quem tenta mais passes, erra mais vezes, mas também acerta mais do que os outros.

Qualidade x quantidade

Entre as equipes, após os dados da 13ª rodada serem contabilizados, o Cruzeiro é o segundo time que mais tenta trocar passes do Brasileirão, com 5457 tentativas, atrás apenas do São Paulo (5590). Em eficiência, o Cruzeiro é o sexto, com 90,17% de acerto. Fluminense (91,66%), Bahia (91,20%), Internacional (90,96%), Atlético-MG (90,89%) e Flamengo (90,78%) estão à frente. Nesta página você pode ver este gráfico e brincar com outros números das equipes.

Vendo estes números, cabe a pergunta: como é possível que o Flamengo, lanterna do campeonato, tenha mais eficiência em passes do que o Cruzeiro, líder absoluto da competição — 90,78% contra 90,17%? A explicação é simples: o número de passes trocados e a eficiência também não contam toda a história. Imagine que os zagueiros de um time ficam trocando passes entre si durante os 90 minutos e o time não tente uma jogada mais aguda. No fim, a equipe terá índices astronômicos de posse de bola e de passes certos, com eficiência de quase 100%, mas o placar terá ficado em branco.

Portanto, além de quantificar, é preciso qualificar a estatística. Quantos desses passes foram no campo de defesa do adversário? Ou melhor, quantos desses passes foram em direção ao terço final do campo, onde é mais difícil completá-los? Quantos foram para frente, ao invés de serem laterais ou para trás? Infelizmente, no momento a Footstats não fornece publicamente a localização dos passes. Talvez nem faça este levantamento ainda.

Há outros fornecedores de dados que fazem esta qualificação. Os dados dos sites WhoScored e Squawka são da Opta, que é a líder nesse setor na Europa e no mundo. No Squawka, é possível ver quem deu o passe, de que lugar do campo para qual lugar do campo, em que minuto do jogo ele foi feito, se ele foi completado, se criou uma chance de gol ou se foi uma assistência (ou nenhum dos dois), se foi de cabeça ou não, se foi longo ou curto — vários qualificadores que ajudam na análise.

Números: cuidado com eles

É claro que os números só dizem a verdade. Mas podem não dizer toda ela. Dependendo da forma em que são colocados, podem esconder uma parte da realidade. Qualquer análise simplista, como a do tuíte acima, pode gerar falsas impressões sobre um jogador ou equipe. Éverton Ribeiro é um dos jogadores mais técnicos do Cruzeiro, se não o mais técnico; portanto, o número absoluto de passes errados, se é o maior do time, diz pouco sobre a qualidade do jogador.

Sob a mesma ótica, também não gosto muito dos famosos “números do jogo” que as emissoras colocam nos intervalos das transmissões. Ali também consta o número de passes errados absoluto, e não a eficiência. A estatística de posse de bola, sem a análise de como foi utilizada essa posse, também não diz muita coisa. Como já dito, um time pode ficar com a bola em seu campo de defesa e não fazer nada com ela.

Penso que as análise de números no futebol no jornalismo esportivo em geral devem ser feitas com mais cuidado. Simplesmente somar as quantidades de qualquer coisa sem qualificar os números já não é o bastante e pouco acrescentam.