Vitória 0 x 1 Cruzeiro – Habemus centralis

Ah, o meia central. Figura tão importante do sistema da moda no futebol mundial, o 4-2-3-1. Ele preenche o espaço mais nobre de um campo de futebol: a faixa central do meio-campo ofensivo. Incomoda os volantes adversários quando o time está defendendo, e foge deles abrindo espaço para os companheiros quando o time está atacando. Às vezes ajuda o ponteiro e o lateral a criar superioridade numérica dos lados. Em outras, entra na área para confundir os zagueiros e concluir. E até mesmo se alinha aos companheiros volantes pra bloquear o avanço adversário. Pra frente, para os lados, para trás.

Eis que Éverton Ribeiro voltou da Seleção. E além do óbvio ganho técnico, isso significou também a retomada do sistema que consagrou o Cruzeiro nestes dois anos, ainda que Ribeiro não seja normalmente o titular da função. O camisa 17 normalmente sai do lado direito para armar, mas também sabe jogar por dentro, como na partida contra o Internacional. E foi fundamental para retomar o caminho das vitórias.

Formações de partida

Cruzeiro de volta ao 4-2-3-1 com Éverton Ribeiro como central se movimentando bastante, mas Egídio preso em Marcinho, o homem que fazia o sistema do time baiano variar entre um 4-1-4-1 e 4-3-1-2 como meia de ligação

Cruzeiro de volta ao 4-2-3-1 com Éverton Ribeiro como central se movimentando bastante, mas Egídio preso em Marcinho, o homem que fazia o sistema do time baiano variar entre um 4-1-4-1 e 4-3-1-2 como meia de ligação

Depois de começar no 4-1-4-1 contra o Flamengo e ABC, Marcelo Oliveira finalmente pôde voltar ao 4-2-3-1 já treinado e comprovado. Assim, Fábio viu Dedé e Manoel protegerem seu gol, com Mayke à direita e Egídio à esquerda. Um pouco mais à frente, a dupla de volantes titular, Henrique e Lucas Silva, dava suporte ao trio ofensivo que procurava o centroavante Marcelo Moreno: Marquinhos pelo lado direito, Alisson pela faixa esquerda e Éverton Ribeiro como ponto de referência central no meio-campo.

Já Ney Franco armou o Vitória de forma a tentar parar o Cruzeiro, como já é comum, mesmo dentro de casa. Era um híbrido de 4-3-1-2 e 4-1-4-1, de acordo com a movimentação de Marcinho. Defendendo a meta de Wilson estavam Nino à direita, Kadu e Roger Carvalho na zaga central e Juan pela esquerda. Luiz Gustavo (não é o da seleção) ficou como volante preso à frente da defesa, tendo Luis Aguiar mais à direita e Richarlyson mais aberto à esquerda. Marcinho, em teoria o meia de ligação, transitava entre o centro e a direita, com Edno bem aberto pela esquerda e Dinei de centroavante.

De volta ao modo normal

Mesmo após uma sequência de resultados ruins, o Cruzeiro ainda é temido ao ponto de, mesmo jogando em casa, o Vitória escolher esperar o Cruzeiro no seu próprio campo, compactado e marcando muito, e tentar sair em velocidade. Mas, ao contrário das últimas partidas, os defensores erraram pouco e o Vitória não conseguiu fazer muita coisa. Então, basicamente foi um primeiro tempo de ataque contra defesa.

Tendo muito mais posse de bola e com Ribeiro em campo, o Cruzeiro criou. Principalmente pelo centro e pela direita, já que Egídio ficava preso na marcação de Marcinho e pouco se aproximou de Alisson no início. Mas Mayke ignorou a presença de Edno e avançou corajosamente para encontrar o espaço que nem Richarlyson nem Juan ocupavam: a intermediária esquerda.

Além disso, com um central à frente, Lucas Silva e Henrique puderam jogar nos espaços em que executam melhor as suas funções, ligeiramente atrás, oferecendo linhas de passe de retorno. Além disso, conseguiam quase sempre recuperar a segunda bola que vinha estourada da defesa do Vitória, dando continuidade à pressão ofensiva e aumentando ainda mais as estatísticas de posse de bola em favor do Cruzeiro.

Faltou algo

Mas, apesar de todo o domínio territorial e das chances criadas, o Cruzeiro pecava ao se aproximar da área. Cruzamentos muito fortes ou mal colocados, que facilitavam para os defensores; escolher chutar quando seria melhor passar a bola e vice-versa; e quando havia a finalização, era ruim. Ficou a impressão de estar faltando uma peça, um alvo a mais na área que dividisse a atenção dos defensores e desse mais uma opção de passe. Soa familiar?

Sim, o Cruzeiro sentiu ligeiramente a falta de Ricardo Goulart para dar esse toque final. Apesar de fazer bem a função de central, Éverton Ribeiro tem uma característica diferente de Goulart. Enquanto um é mais passador, criador e assistente, o outro é mais concatenador e definidor. Alguns números ilustram isso: 19 cruzamentos para a área, mas apenas 4 corretos; 8 finalizações, apenas duas obrigaram Wilson a trabalhar, ambas de Alisson.

Vitória muda

Ney Franco voltou do intervalo com uma troca dupla. Uma das substituições foi direta, de lateral por lateral: Juan cedeu lugar a Mansur. Mas a outra mudava o sistema, já que o meia Marcos Junio entrou na vaga de Luis Aguiar. Richarlyson foi se alinhar a Luiz Gustavo, Marcos Junio entrou do lado direito e Marcinho centralizou, formando o novo 4-2-3-1.

Isso era uma tentativa clara de tirar o time de trás, numa mudança até surpreendente de estratégia. Mas o tiro foi na água, e acabou por facilitar a vida celeste. Sem Marcinho em seu encalço, e com o trabalho defensivo ruim de Marcos Junio, Egídio começou a aparecer no ataque pela esquerda se aproximando de Alisson. O Cruzeiro agora invertia o lado de preferência das investidas e chegava com muito perigo por ali, sem se esquecer do lado direito. De repente o Vitória se viu sendo atacado por todos os lados, e o Cruzeiro cresceu. O gol parecia maduro, mas o placar insistia em ficar inalterado — até por ajuda do senhor juiz.

Mapa de passes de Egídio no primeiro tempo (à esquerda) e no segundo (à direita) mostra  como o lateral teve mais liberdade  para subir ao ataque após Marcinho centralizar de vez

Mapa de passes de Egídio no primeiro tempo (à esquerda) e no segundo (à direita) mostra como o lateral teve mais liberdade para subir ao ataque após Marcinho centralizar de vez

A redenção de Dedé

Vitória mudou para 4-2-3-1 e depois deixou somente Richarlyson como volante, mas isso abriu o time e o Cruzeiro teve ainda mais espaço, principalmente pela esquerda com Egídio e Ribeiro caindo por ali

Vitória mudou para 4-2-3-1 e depois deixou somente Richarlyson como volante, mas isso abriu o time e o Cruzeiro teve ainda mais espaço, principalmente pela esquerda com Egídio e Ribeiro caindo por ali

Marcelo Oliveira foi obrigado a trocar Alisson por Willian, sem alterar o sistema. Porém, o bigode não deu a intensidade que o garoto dava, e o ímpeto celeste diminuiu um pouco mas não cedeu. Ney Franco então deu sua última cartada, lançando William Henrique no lugar de Luiz Gustavo. Ele entrou pelo lado esquerdo, fazendo Edno se aproximar de Dinei e Marcinho mais recuado para ligar o contra-ataque: algo entre um 4-2-3-1 com Marcinho de volante e um 4-4-2 de linhas, com Edno mais recuado.

Depois, por causa do amarelo recebido minutos antes, Lucas Silva deu seu lugar a Willian Farias. O Cruzeiro perdia o passe de Lucas, mas a troca foi uma resposta à tentativa de Ney Franco, colocando um jogador exatamente no espaço que Edno e Marcinho queriam explorar. Com o Vitória anulado, o jogo continuou na mesma toada.

E finalmente, depois de um escanteio pela esquerda rebatido pela defesa baiana, a bola sobrou para Mayke do outro lado. Com isso, Manoel e Dedé permaneceram na área, e Mayke achou Dedé sozinho no meio da confusão, que cabeceou com firmeza. A bola passou acima da cabeça de Wilson, mas foi tão rápida que não houve nenhum tempo para reação. O gol do alívio não podera ter tido melhor autor.

Depois disso, o Cruzeiro apenas controlou o jogo, tocando a bola no campo de ataque e dando facilmente a volta na correria do já cansado time baiano. Eurico entrou no lugar de Éverton Ribeiro, mas apenas para consolidar o placar.

Técnica, tática, físico e mental

Você sempre leu neste blog que, mais importante do que vencer era jogar bem, pois ao longo prazo, o bom futebol vai trazer os resultados positivos naturalmente. No caso específico desse jogo, porém, era também muito importante que o Cruzeiro vencesse, seja como fosse, para recuperar a confiança. Mas o Cruzeiro fez mais: venceu e convenceu. Voltou a jogar com autoridade e tranquilidade, não foi ameaçado em nenhum momento e mereceu totalmente o resultado.

Muito se deve, é claro, à volta de Éverton Ribeiro à equipe. Não só pelos ganhos técnicos e táticos, mas a própria presença do camisa 17 no time fez o resto da equipe ter mais tranquilidade para jogar. E mais: ao contrário dos outros selecionáveis, Ribeiro não jogou na quarta-feira, e portanto estava devidamente descansado; junto com os demais poupados do jogo de Natal que voltaram nesta partida, o Cruzeiro também esteve melhor fisicamente.

Por isso tudo, mesmo pecando nas finalizações ao longo de todo o jogo, foi de fato uma das melhores partidas celestes no certame, como Marcelo disse na entrevista pós-jogo. E com a possível volta dos outros centrais, recuperados de lesão, o Cruzeiro tende a crescer ainda mais.

Que assim seja.



Vitória 1 x 3 Cruzeiro – Jogando por diversão

O Cruzeiro não foi perfeito na partida contra o Vitória. Tampouco jogou com a mesma intensidade e qualidade de outras jornadas. Porém, sem o peso da pressão pelos três pontos, o Cruzeiro acabou jogando despreocupadamente, mas sem perder a seriedade, e acabou por fazer três gols quase sem fazer força contra uma boa equipe, que vinha em ascensão no campeonato, e fora de casa.

Nem era necessário vencer para confirmar o título, mas a forma como veio o triunfo foi, de certa forma, um símbolo da superioridade celeste ao longo de todo o campeonato.

Escretes iniciais

O 4-3-1-2 losango do Vitória causou problemas para Mayke e Egídio, por causa da movimentação de Escudero e do pouco auxílio dos ponteiros do 4-2-3-1 celeste

O 4-3-1-2 losango do Vitória causou problemas para Mayke e Egídio, por causa da movimentação de Escudero e do pouco auxílio dos ponteiros do 4-2-3-1 celeste

Desta feita, Marcelo Oliveira tinha vários desfalques para a montagem do time. Ao lesionado Bruno Rodrigo se juntou Nilton, e Ceará e Éverton Ribeiro estavam suspensos. Para seus lugares, o treinador escolheu, além de Léo, Leandro Guerreiro, Mayke e Willian, formando seu 4-2-3-1 costumeiro com Fábio no gol, Mayke pela direita da defesa, Dedé e Léo no miolo e Egídio pelo lado esquerdo. Na volância, Leandro Guerreiro se plantou à frente da zaga e soltou Lucas Silva para se juntar ao trio de meias-atacantes, com Willian à direita, Dagoberto à esquerda e Ricardo Goulart como central, atrás do artilheiro baiano Borges.

Ney Franco montou o vitória num 4-3-1-2 muito móvel, que variava para o 4-2-3-1 com a movimentação de Escudero pela esquerda e o recuo de Marquinhos pela direita. No modo losango, o goleiro Wilson tinha Victor Ramos e Kadu como zagueiros centrais, ladeados por Ayrton à direita e Juan pela esquerda. Marcelo ficava centralizado à frente da área, tendo Luís Cáceres à direita ligeiramente mais avançado, e Escudero à sua esquerda, mas quase na linha do ponta-de-lança Renato Cajá. Marquinhos era o atacante móvel, principalmente pela direita, e Dinei fazia a referência, mais por dentro.

Flancos expostos

O jogo começou com o Cruzeiro tendo alguns problemas defensivos pelos flancos. Com Willian e Dagoberto em campo, o time fica muito agudo e com menos poder de recomposição, ainda que Willian recuasse com Juan por alguns momentos. Com Leandro Guerreiro tendo dificuldade em fazer a cobertura com a mesma qualidade que Nilton, os laterais ficaram expostos demais, principalmente Mayke pela direita, que tinha que vigiar Escudero e Juan ao mesmo tempo. Do outro lado, Ayrton não ajudava tanto a Marquinhos, mas Egídio também teve dificuldades.

Porém, o Vitória foi acometido por um mal que o Cruzeiro já sofrera neste certame: a má pontaria. Marquinhos teve uma chance de ouro em erro de Leandro Guerreiro na saída, recebendo um passe de Renato Cajá e mandando nas mãos de Fábio, e depois Escudero ficou livre para a finalização na entrada da área após jogada pela direita, mas mandou por cima. A principal chance, porém, foi uma jogada na qual Juan avançou pelo centro, com Escudero mais aberto, e que confundiu a marcação de Mayke. O lateral do time baiano recebeu passe de Cáceres e ajeitou para Dinei, sozinho e de frente para Fábio, mandar à direita.

O Vitória foi o time que mais tentou o gol na rodada, mas, ao contrário do Cruzeiro, não era eficiente; e quando acertava a o gol, tinha Fábio pela frente

O Vitória foi o time que mais tentou o gol na rodada, mas, ao contrário do Cruzeiro, não era eficiente; e quando acertava a o gol, tinha Fábio pela frente

Precisão cirúrgica

Se atrás o Cruzeiro escapava por pouco de sofrer o gol, na frente não deixava de atacar, ainda que sem o mesmo toque de bola. O comentarista já dizia, não se pode errar contra este time. Borges já tinha conseguido um lance típico de centroavante, girando na marcação e tocando no cantinho, com a bola passando muito perto da trave. Mas foi num chutão da defesa que o Cruzeiro “ensinou” ao Vitória como jogar em velocidade: Dagoberto ganhou a disputa aérea e imediatamente lançou Willian, livre, que avançou e venceu Wilson.

Era apenas a quarta finalização do Cruzeiro no jogo, a segunda na direção do gol, contra 9 do Vitória àquela altura. O Cruzeiro ainda é o time que mais finaliza no campeonato, mas também tem a melhor eficiência, com praticamente 46% das conclusões indo na direção do gol — um belo indício do estilo de jogo ofensivo e que prevaleceu sobre todos os outros no torneio.

Primeiras trocas

O gol fez o Vitória perder um pouco o norte, e o primeiro tempo acabaria mesmo com o Cruzeiro na frente. No intervalo, Ney Franco desfez o losango, tirando Renato Cajá para a entrada de William Henrique, que foi jogar na ponta esquerda em cima de Mayke. Com isso, Escudero foi “oficializado” na meia-esquerda, e assim o time passou para um 4-3-3. Já Marcelo Oliveira promoveu a entrada de Éverton na vaga de Egídio, com dois objetivos. Um era reforçar um pouco mais a marcação naquele setor, e o outro era rodar o elenco, àquela altura já matematicamente campeão. Era um experimento, por assim dizer.

Ironicamente, as duas trocas funcionaram a favor do Cruzeiro. Sem um armador central, o Vitória forçou ainda mais pelos flancos, mas Éverton de fato segurou o ímpeto ofensivo de Marquinhos de maneira mais eficiente que Egídio pela esquerda. Na direita, Mayke tinha um alvo de marcação bem definido, que era William Henrique. Teve trabalho, mas foi bem melhor que no primeiro tempo, exceção feita ao lance do gol, mas que é totalmente perdoável — depois de um chutão de Léo que rebateu em um jogador do Vitória, Mayke errou o tempo da bola e não conseguiu interceptá-la, e ela sobrou para William Henrique. Dedé abandonou Dinei e foi na cobertura, e por isso o centroavante recebeu o passe por cima, concluindo em cima de Fábio — a bola rebateu nele mesmo e foi para o gol.

Clima de festa

No segundo gol, a movimentação de Goulart e Júlio confunde Ayrton, que é atraído para dentro e acaba abandonando Dagoberto

No segundo gol, a movimentação de Goulart e Júlio confunde Ayrton, que é atraído para dentro e acaba abandonando Dagoberto

Depois disso, quase nada aconteceu por 20 minutos, até a segundas trocas dos times. O Cruzeiro não forçava muito pois já era campeão, e jogava leve. Já o Vitória tinha dificuldade para penetrar na defesa celeste, agora melhor postada. Ney Franco soltou o time de vez tirando seu único volante de marcação, Marcelo, para promover a entrada de Euller na lateral esquerda, mudando Juan para a meia-direita e fazendo Cáceres ser o meio-campista mais recuado. Marcelo fez uma a troca já corriqueira, Borges por Júlio Baptista, avançando Goulart.

O Vitória melhorou, mas nem bem tentava imprimir seu ritmo o Cruzeiro aumentou com muita tranquilidade. Willian carregou pelo meio e viu a movimentação de Goulart e Júlio Baptista, que também atraiu a atenção do lateral Ayrton. Dagoberto ficou livre, e a bola chegou diretamente ao camisa 11. Dali, foi só rolar pra dentro para Júlio Baptista colocar o campeão novamente na frente.

Fim de jogo?

O time da casa “sentiu” o gol, na gíria do futebol. Mas neste caso foi um pouco diferente, era o peso do time campeão, do melhor ataque do campeonato, de um elenco com muita qualidade. Só chegou quando o Cruzeiro tinha 10 em campo, com Léo fora do gramado para receber atendimento: Kadu acertou a trave após ficar sozinho na área, no lugar onde provavelmente Léo estaria.

Antes do lance, Marcelo Oliveira havia mandado Tinga a campo na vaga de Dagoberto, numa rara troca mais defensiva — o cabeludo ficou pela direita mesmo, ajudando Mayke na marcação. O Vitória perdeu força de ataque e o jogo parecia estar no fim, mas não antes do Cruzeiro marcar o terceiro gol, com muita tranquilidade de Willian, o assistente, e de Ricardo Goulart, o autor do gol. Nenhum deles sofria combate próximo.

Ney Franco ainda desfez a linha de quatro com o atacante Pedro Oldoni na vaga do lateral Ayrton. Não havia sistema de jogo, era só atacar para tentar diminuir, mas o máximo que o time baiano fez foi consagrar Fábio em um chute de William Henrique.

Qualidade pura

Além de confirmar o título, mesmo que a vitória não fosse necessária, a partida de quarta-feira serviu para mostrar a qualidade verdadeira deste elenco celeste e de seu treinador. A pressão pelo triunfo é um fator psicológico que pode ajudar ou atrapalhar um time, dependendo das circunstâncias. Neste jogo, porém, vimos uma equipe desobrigada de vencer, sem pressão, e por isso jogando um futebol em estado puro, apenas na base da técnica e da tática. E por isso prevaleceu: pois tem jogadores melhores e um treinador que soube explorar as características de seus comandados, armando um sistema que hoje é muito bem assimilado por todo o elenco.

Título garantido, já se pode projetar a temporada seguinte. Certamente chegarão reforços e Marcelo provavelmente poderá pensar em variações, que devem ser treinadas no início do ano, já que 2014 terá um calendário ainda mais apertado que 2013, sem tempo para treinamentos táticos. Variações que não só são necessárias no que se refere ao sistema de jogo, mas também ao estilo: em alguns momentos, é preciso se defender mais do que atacar, como na partida contra o Flamengo pela Copa do Brasil. A Libertadores tem este caráter decisivo em sua fase eliminatória, e isso é um ponto a melhorar nesta equipe.

Mas, se essa equipe foi campeã em seu primeiro ano junta, podemos esperar voos ainda mais altos daqui pra frente.

Três volantes e um armador? Não, é um meia e três atacantes.

Três volantes e um armador? Não, é um meia e três atacantes.



São Paulo 1 x 0 Cruzeiro – A falta de técnica matou a tática

Em um lance mezzo oportunismo de Osvaldo, mezzo falha da zaga cruzeirense e de Fábio, o São Paulo conseguiu o gol da vitória no jogo de domingo no Morumbi.

O 4-2-3-1 inicial teve pouco poder ofensivo, mas encaixou bem com o 4-2-1-3 dos paulistas, com Diego Renan vencendo Lucas mas com Leo perdendo de Osvaldo

Celso Roth surpreendeu e mandou um 4-2-3-1, diferente do que foi treinado durante a semana. À frente do goleiro Fábio, Léo reapareceu na lateral direita e Diego Renan foi para o jogo no lugar do suspenso Everton. Com isso a dupla de zaga foi Thiago Carvalho e Victorino, de volta ao time. Sem Leandro Guerreiro, também suspenso, o volante mais preso desta vez foi Charles, com Tinga jogando um pouco mais avançado e procurando se juntar ao trio de meias: Wallyson pela direita, Montillo por dentro e Marcelo Oliveira pela esquerda. Wellington Paulista era o único atacante.

O São Paulo de Ney Franco foi armado quase do mesmo jeito, a diferença sendo que os meias abertos, que neste blog chamo de ponteiros, eram mais atacantes que meias, formando um 4-2-1-3. No gol, o veteraníssimo goleiro Rogério Ceni viu Douglas pela direita e Cortez pela esquerda — dois laterais bastante ofensivos — flanquearem sua dupla de zaga, Paulo Miranda e Rhodolfo. Denilson e Maicon proviam suporte para Jádson criar para seus três atacantes: Osvaldo pela esquerda, Lucas pela direita e William José centralizado.

Um jogo equilibrado taticamente, visto que as defesas levaram a melhor sobre os ataques praticamente por todo o jogo, à exceção de alguns lances isolados. O que pode ser ilustrado pelo baixo número de finalizações certas do jogo: 6 a 0 para o time da casa. Isso mesmo: pela segunda vez no campeonato, o Cruzeiro não incomodou o goleiro adversário.

Lados (quase) fechados

Para surpresa de muitos, Diego Renan teve uma boa atuação defensiva, segurando o futuro parisiense Lucas e fechando bem o lado esquerdo. Lucas só levava perigo quando se projetava para o meio e partia driblando, sua característica. Entretanto, o mau posicionamento dos companheiros, principalmente de William José, resultava em uma jogada infrutífera. Diego era ajudado por Marcelo Oliveira, que fazia a primeira linha de marcação e acompanhava Douglas. Ofensivamente, entretanto, o lateral subia pouco, muito por causa da presença de Lucas, e Marcelo era quem tinha que prover amplitude por aquele lado. Não funcionou muito.

O lado direito, porém, estava um pouco menos desguarnecido. Cortez avançava sem medo de deixa sua própria lateral sem proteção, e Wallyson o acompanhava bravamente, bloqueando as investidas do lateral. O problema era mais atrás, onde Osvaldo conseguia ganhar na velocidade e no drible de Léo quase sempre. As melhores chances do São Paulo no primeiro tempo foram com o atacante ex-Ceará – que quase veio para o Cruzeiro no início do ano. Para nossa sorte, a zaga celeste estava bem postada e ganhava no último passe.

O calvário de Montillo

No meio-campo, o Cruzeiro levava ligeira vantagem. Charles foi o cruzeirense mais lúcido enquanto esteve em campo, tirando o tempo com bola de Jádson, e anulando o principal núcleo criativo dos paulistas. Tinga se movimentava por todo o setor central, mas o que o cabeludo tem de disposição, falta na técnica. O predador errou alguns passes e não conseguiu ser o homem surpresa do ataque celeste. Montillo, como sempre acontece quando joga pelo meio, foi muitíssimo bem marcado pelos dois volantes sãopaulinos. O argentino tentou cair pelos lados para fugir da marcação, e foi pela esquerda, nos pés dele, que morreu a melhor chance do Cruzeiro na primeira etapa, quando ao dominar uma bola com o pé esquerdo, ela acabou batendo também no pé direito do camisa 10 e ficou mais para Ceni rebater.

O grande problema de Montillo, no entanto, é a parte defensiva. Sem a bola, Montillo praticamente fica alinhado a WP e o time vira uma espécie de 4-4-2 britânico (ou seja, em duas linhas de quatro clássicas). Isso acaba sobrecarregando os volantes, que têm que marcar os volantes adversários que estão livres de marcação. Assim, se for para jogar com Montillo de meia central, é melhor entrar com o time em um 4-3-1-2 losango, como nas últimas partidas, para dar mais consistência ao meio-campo e compensar a falta de combatividade do argentino. Porém, em um 4-2-3-1 — insisto — o mais inteligente é escalá-lo pelos lados, como ponteiro, pois essa é a característica dele, e ainda ocorrreria o bônus de ter somente um marcador sobre ele — o lateral adversário.

Entretanto, ainda no primeiro tempo, a contusão dupla de WP e Wallyson obrigou Celso Roth a tirá-los do jogo. Borges no lugar de WP era o óbvio, apesar da mudança de característica — Borges é mais referência, pivô, se movimenta menos. Para o lugar de Wallyson, porém, o certo seria ter entrado com Élber, que é meia de origem, faria o trabalho defensivo tão bem quanto Wallyson e ainda traria preocupações para Cortez. Só que Roth mandou Souza a campo, meia cadenciador e passador. Não funcionou, pois o veterano não marcou tão bem as investidas de Cortez e expôs Léo, e tinha uma tendência a entrar para dentro do campo quando o Cruzeiro tinha a bola, abandonando o lado direito.

Charles fora

No segundo tempo, o jogo continuou na mesma, com o Cruzeiro levando certa vantagem e até ficando um pouco mais com a bola no pé, mas sem ser incisivo. Aos 9, uma fatalidade: Charles pisou no pé de seu próprio companheiro e torceu o tornozelo, tendo que ser substituído. O Cruzeiro perdia seu melhor jogador em campo, com o jovem Lucas Silva entrando em seu lugar para fazer a mesma função, que claramente não conseguiu — levou dois cartões amarelos em um espaço de 10 minutos e foi embora mais cedo. Esse é o preço por preterir Diego Árias, volante mais preso de ofício.

A substituição chave foi de Ney Franco: o apagado William José deu lugar a Ademílson, que se movimentou bem mais e dava opções de passe, como no lance do gol. Douglas avançou pela direita e achou o atacante, que recuou para oferecer o passe. A tabela venceu Marcelo Oliveira, e o lateral alcançou a linha de fundo para fazer um cruzamento despretensioso, sem perigo. Porém, no susto, Fábio rebateu a bola para dentro da área, onde estava Osvaldo, que completou para o gol vazio.

Com o gol, o Cruzeiro se perdeu momentaneamente e o São Paulo não aproveitou. Wellington e Casemiro ainda entrariam no lugar de Maicon e Denilson, fazendo um 4-3-3 clássico (4-1-2-3, com um volante, Wellington, e dois meias, Jádson e Casemiro), mas nada mais aconteceu.

Enfim

Podemos dizer que a fase técnica do Cruzeiro não é das melhores, e na partida de domingo, isso acabou sobrepujando a boa postura tática da equipe. O 4-2-3-1 foi bem executado defensivamente, mas ofensivamente não. WP foi mal e Wallyson não fez o que se espera dele no ataque: a fase do jovem potiguar não é das melhores. Parece que lhe falta confiança para partir para dentro do adversário e definir. Marcelo Oliveira até que tentou, mas não conseguiu dar o mesmo poder que Everton dava pelo lado esquerdo.

Montillo particularmente está tendo dificuldades e já não tem mais tanta liberdade quanto teve no primeiro ano em Belo Horizonte, quando ainda era desconhecido por aqui. Agora as equipes já sabem que o argentino é a principal peça ofensiva cruzeirense e fazem marcação especial. Volto a insistir: Montillo tem que jogar pelo lado do campo, como ponteiro. Para compensar a falta de combatividade do argentino, é necessário escalar um lateral mais preso, como Diego Renan ou o próprio Marcelo Oliveira, com Diego passando para o lado direito: Léo improvisado não vai fazer bons jogos sempre, e esta partida foi um exemplo.

Há o que se animar, entretanto. Esta partida foi um pouco pior do que a exibição contra o Vasco, mas muito superior aos duelos contra Sport e Figueirense. É esperar pra ver se Celso Roth, com as voltas de Everton e Leandro Guerreiro, e a possível estréia de Martinuccio, manterá este 4-2-3-1 contra o Internacional de Fernandão.