Flamengo 3 x 0 Cruzeiro – Supresa desagradável

Você já viu algumas vezes aqui neste blog explicações pelos “atrasos” nas análises pós-jogo. No caso do último domingo, porém, as mesmas razões de sempre acabaram por ajudar. Afinal, a atuação celeste foi de dar raiva, e assim como jogadores e treinadores de sangue quente após a partida tem grandes chances de falar asneiras, também este blogueiro sofreria do mesmo mal. O tempo foi bom para poder analisar os fatos de maneira fria.

Pela primeira vez no Brasileirão, o Cruzeiro perdeu duas vezes seguidas. E nesta segunda derrota, não é preciso ser expert para saber que o problema principal da foi o excesso de erros defensivos individuais. Mas como este blog fala de tática, o novo sistema que Marcelo Oliveira foi obrigado a usar também foi, na opinião deste, um dos motivos do revés.

A surpresa

O surpreendente 4-1-4-1 celeste com Nilton entre as linhas teve dificuldade de dar a volta no 4-4-2 em linha do Flamengo, pois não tinha força criativa central

O surpreendente 4-1-4-1 celeste com Nilton entre as linhas teve dificuldade de dar a volta no 4-4-2 em linha do Flamengo, pois não tinha força criativa central

Diante da indisponibilidade de TODOS os centrais do elenco – Éverton Ribeiro na seleção e Ricardo Goulart, Júlio Baptista e Tinga lesionados – e da atuação insegura de Marlone na função diante do Corinthians, Marcelo Oliveira fez uma coisa inédita em todo o seu tempo de Cruzeiro. Iniciou uma partida num esquema diferente do 4-2-3-1 usual.

Nilton foi o escolhido para entrar na equipe, e assim o Cruzeiro se armou num 4-1-4-1. A meta de Fábio foi protegida por Mayke à direita, Egídio à esquerda e Dedé e Manoel na zaga central. Nilton ficou à frente da área, com Henrique e Lucas Silva ligeiramente mais à frente, completando a trinca de volantes. Marquinhos fechou o lado direito, com Alisson pelo outro lado e Moreno fazendo a referência na frente.

Já o Flamengo de Vanderlei Luxemburgo entrou no mesmo 4-4-2 que jogou na última partida. Luxemburgo não tinha João Paulo, e optou pelo estreante Anderson Pico na lateral esquerda. À frente do goleiro Paulo Victor, Marcelo e Wallace fizeram a dupla de zaga, e o veterano Léo Moura fechou o lado direito da defesa. A segunda linha começava à direita com Márcio Araújo, mais contido, próximo a Canteros e Cáceres, liberando um pouco mais Éverton pelo outro lado. Na frente, Eduardo da Silva e Alecsandro.

Dificuldade de criar

Ciente das limitações de seu time, e do poderio celeste, Luxa optou pela estratégia de dar a bola ao Cruzeiro e tentar parar o ataque celeste e partir em contragolpes, mesmo em casa. Portanto, cabia ao Cruzeiro, enquanto time que tinha a posse de bola, encontrar espaços ou criá-los a partir da movimentação ofensiva – nenhuma novidade para o time de Marcelo.

Porém, a tarefa do Flamengo foi facilitada diante de um Cruzeiro pouco acostumado a jogar no novo sistema. Sem um jogador central ocupando o espaço entre os volantes cariocas, e com Marquinhos e Alisson presos pelos lados do campo, caiu nos pés de Lucas Silva e Henrique a tarefa de criar e aparecer na frente para concatenar as jogadas ofensivas. E por mais que Lucas e Henrique saibam bem o que fazer com a bola nos pés, ainda são volantes. A função deles é marcar e dar o primeiro passe. Mas quando é deles a responsabilidade de construir a jogada propriamente dita, encontrando companheiros e boas posições de finalizar ou de dar o último passe, a jogada não flui.

Os erros defensivos

Diante disso, e de um Flamengo feliz em apenas repelir as tentativas celestes, o primeiro tempo tinha tudo pra terminar com o placar em branco. Mas isso não aconteceu, porque Egídio errou o drible e perdeu a bola para Márcio Araújo, que imediatamente acionou Alecsandro exatamente no espaço em que Egídio deveria estar. O cruzamento foi ruim, e Fábio faria a defesa tranquilamente, se Dedé não “intervisse”.

O gol deu uma certa tranquilidade ao Flamengo, que parou de pressionar no alto do campo. O Cruzeiro lentamente tentou se recuperar, e até conseguiu criar algumas chances, a mais clara delas a inversão para Egídio já dentro da área, que assistiu Moreno de cabeça. A bola ficou um pouquinho longe, e Moreno se esticou e conseguiu desviar, mas não com força suficiente.

Mudanças de sistema, mas…

Depois do intervalo, o Cruzeiro voltou ao 4-2-3-1 diante de um Flamengo no 4-1-4-1, e teve mais volume, mas cometeu mais dois erros defensivos individuais e matou o seu próprio jogo

Depois do intervalo, o Cruzeiro voltou ao 4-2-3-1 diante de um Flamengo no 4-1-4-1, e teve mais volume, mas cometeu mais dois erros defensivos individuais e matou o seu próprio jogo

Mesmo tendo mais posse de bola e mais finalizações que o Flamengo, o Cruzeiro ficou longe do volume ofensivo que normalmente tem. Por isso, Marcelo voltou para o 4-2-3-1 com Willian na vaga de Nilton. Com isso, o Cruzeiro agora tinha Alisson como meia central. Luxemburgo, querendo explorar ainda mais as subidas de Egídio, e ao mesmo tempo “fechar a casinha”, entrou com Gabriel na direita, centralizando Márcio Araújo ao lado de Canteros e recuando Cáceres para a frente da zaga – um novo 4-1-4-1. Os sistemas se inverteram.

Naturalmente, o Cruzeiro se avolumou, roubando as segundas bolas após as tentativas repelidas pelo Flamengo e continuando a pressão. Mas nenhum sistema tático ou estratégia resiste a mais um erro defensivo capital. A falha de comunicação entre Manoel e Fábio definiu o jogo logo aos 12 minutos do segundo tempo. E, como se não bastasse, poucos minutos depois, em mais um chutão da zaga carioca, Manoel perdeu dividida para Alecsandro pelo alto e demorou a se recuperar para acompanhar Éverton. Alecsandro avançou pela esquerda sem ser incomodado, já que Egídio estava no campo de ataque, e cruzou para Éverton, sozinho dentro da área e longe de Manoel, completar sem chances para Fábio.

Substituições inúteis

Marcelo Oliveira bem que tentou. Mas o jogo já estava 3×0 quando Marlone entrou na vaga de Marquinhos, novamente jogando Alisson para a ponta esquerda e invertendo Willian. Depois, uma troca direta, Moreno por Borges. Mas pouco adiantou. Ironicamente, Marlone foi o único jogador que obrigou Paulo Victor a fazer uma defesa – todas as outras finalizações foram bloqueadas pela zaga carioca ou para fora.

Luxemburgo simplesmente gastou sua última troca – já havia trocado seis por meia dúzia ainda no primeiro tempo, com Wallace por Chicão – para lançar Muralha na vaga de Márcio Araújo. O Flamengo facilmente repeliu as investidas celestes, garantindo o zero no placar celeste.

Não é só Ribeiro e Goulart

É claro que o Cruzeiro sentiu falta dos selecionáveis, que fariam falta em qualquer time do Brasil. Mas não foi apenas a ausência de Ribeiro e Goulart que minou o poderio ofensivo celeste. Todos os jogadores da mesma posição não estavam disponíveis, e isso obrigou Marcelo a mudar o sistema, sem ter tempo pra treiná-lo.

Não dá pra botar a culpa da derrota na mudança de sistema. Mas talvez a história fosse outra se o Cruzeiro iniciasse o jogo na formação em que está acostumado a jogar. Fosse um 4-2-3-1, o Cruzeiro certamente teria mais volume, como teve já no início do segundo tempo, e a chance e ir para os vestiários com pelo menos um gol seria maior.

Apesar da maior posse de bola, o Cruzeiro só deu um chute na direção do gol -- no finzinho e bem de longe

Apesar da maior posse de bola, o Cruzeiro só deu um chute na direção do gol — no finzinho e bem de longe

Mas, como disse no texto, não há sistema que resista a erros defensivos individuais como os cometidos por Dedé e Manoel. Na coletiva pós-jogo, Marcelo Oliveira disse que não estava muito preocupado, porque o Cruzeiro não foi massacrado. De fato, teve posse de bola, mais finalizações, principalmente no primeiro tempo, mas não foi capaz de sequer ameaçar a meta de Paulo Victor.

Portanto, o blog discorda de Marcelo. Pois mesmo que o Cruzeiro não tenha sido dominado, teve desequilíbrio ofensivo, com pouca produção, e defensivo, com erros em demasia. E isso é, sim, sinal de preocupação.

Cruzeiro 0 x 1 Corinthians – Uma questão (de) central

O Cruzeiro tem o melhor elenco do Brasil. Uma frase que é unanimidade entre os analistas, e até entre torcedores de outros times. Mas nem mesmo o melhor elenco do Brasil teve reposição à altura quando todos os jogadores de uma mesma posição não estão aptos.

Ricardo Goulart, o titular, está no DM. Seu reserva imediato, Júlio Baptista, também. Éverton Ribeiro, que também sabe jogar na posição, está na China com a Seleção. Até mesmo Tinga, se recuperando de uma fratura, seria uma opção. A solução foi improvisar – em termos.

Onzes iniciais

Times no 4-2-3-1: no começo da partida, o Cruzeiro até levava vantagem pelos lados, já que Malcom não acompanhava Egídio e Petros tinha dificuldade com as bolas longas de Lucas Silva para Mayke

Times no 4-2-3-1: no começo da partida, o Cruzeiro até levava vantagem pelos lados, já que Malcom não acompanhava Egídio e Petros tinha dificuldade com as bolas longas de Lucas Silva para Mayke

Como Marcelo Oliveira não tinha opções de meia central, optou por Marlone para a função. Com isso, o Cruzeiro foi a campo com Fábio no gol, Mayke e Egídio nas laterais, e Manoel e Léo no miolo de zaga. Lucas Silva e Henrique fizeram a parceria usual na volância, e fazendo companhia a Marlone estavam Marquinhos à direita e Willian à esquerda. Moreno ficou na referência.

Mano Menezes escolheu o mesmo 4-2-3-1. Protegendo a meta de Cássio, Fagner fechava o lado direito, Felipe e Anderson Martins fizeram a zaga e Fábio Santos ficou do lado esquerdo. Bruno Henrique e Guilherme Andrade fizeram a proteção atrás do trio formado por Malcom à direita, Renato Augusto centralizado e Petros à esquerda. Solitário à frente, Mano optou por Romero.

Um começo promissor

O Cruzeiro começou o jogo dando pinta de que não sentiria a falta dos selecionáveis e lesionados, chegando principalmente pelos lados do campo. Na direita, Petros marcava o avanço de Mayke quando a jogada era no setor, mas se fosse na esquerda, ele se juntava a Renato Augusto no centro. Assim, quando a bola chegava em Lucas Silva, ele tinha espaço para inverter a jogada e achar Mayke livre e com espaço para avançar. Ele e Marquinhos combinaram bem por ali para criar algumas boas jogadas.

Já no outro flanco, Malcom foi orientado a não voltar com Egídio, numa tentativa de usar de sua velocidade quando o Corinthians recuperasse a bola. A estratégia se revelou quando, após uma falta, a transmissão da TV fechou em uma imagem de Renato Augusto, que fez um claro sinal para Malcom com a mão, como quem diz: “vai, corre”. Era a ideia de Mano, igual à de todos os outros times que enfrentam o Cruzeiro no Mineirão.

Passes de Lucas Silva (à esq.) e de Renato Augusto (à dir.) nos 20 primeiros minutos: volante celeste preferindo inversões para Mayke aproveitar o espaço; Renato Augusto sempre procurando Malcom

Passes de Lucas Silva (à esq.) e de Renato Augusto (à dir.) nos 20 primeiros minutos: volante celeste preferindo inversões para Mayke aproveitar o espaço; Renato Augusto sempre procurando Malcom

Corinthians equilibra

Porém, Egídio fez várias vezes dois contra um junto com Willian em cima de Fagner, fazendo o Cruzeiro ter grande volume por ali. Mano ficou preocupado e a todo momento dava orientações para que seu time se organizasse defensivamente, sendo que uma dessas instruções foi pedir a Malcom que voltasse com Egídio. O Corinthians perdeu a jogada óbvia de velocidade, mas equilibrou seu lado direito.

Com isso, o Cruzeiro passou a ficar sem opções. Marlone até que se movimentou no início do jogo, assim como Willian e Marquinhos, que por vezes invertiam o lado, mas não foi suficiente para sair da marcação por zona disciplinada do time paulista. Lucas e Henrique tinha dificuldades em achar alvos para bons passes e acabavam por forçar alguns, elevando os erros.

A partir daí, o jogo ficou equilibrado, entre as duas intermediárias, pois o Cruzeiro também não dava chances. Os únicos momentos de maior tensão foram nos erros do próprio Cruzeiro, em passes displicentes ou desnecessariamente enfeitadas, como a letra de Marlone que gerou um contra-ataque desperdiçado por Malcom. Parecia ser um aviso do que estaria por vir.

Trocas por opção, ou não

No intervalo, Marcelo queria aumentar a intensidade na frente, e para isso ele tinha o jogador certo: Alisson. O garoto entrou no jogo, mas não na vaga de Marlone como a torcida esperava, e sim na de Willian — o que é natural, já que Alisson é muito mais ponteiro do que meia central. Mas nem bem começou o segundo tempo e Marcelo foi obrigado a queimar a segunda troca, pois Egídio sofreu pancada nas costas e não conseguiu prosseguir. Ceará foi improvisado do lado esquerdo.

Alisson até deu mais intensidade como esperado, mas o jogo seguiu equilibrado, sem chances claras de parte a parte. A estratégia do Corinthians ia dando certo, mas Mano quis timidamente arriscar um pouco mais, lançando Luciano na vaga de Romero, mantendo o 4-2-3-1. Sem opções, Marcelo tentou um movimento novo, mandando Dagoberto a campo na vaga de Marlone. O atacante foi jogar na direita do ataque, com Marquinhos invertendo o lado e Alisson centralizando.

Desorganização e erro

Com a vantagem no placar, Corinthians se fechou e resistiu a um desorganizado Cruzeiro, que sentiu falta de um central típico: Alisson também não conseguiu fazer a função

Com a vantagem no placar, Corinthians se fechou e resistiu a um desorganizado Cruzeiro, que sentiu falta de um central típico: Alisson também não conseguiu fazer a função

A alteração não funcionou bem, como o próprio Marcelo admitiu na coletiva pós-jogo. Nas palavras dele, o time “ficou um pouco desorganizado”. Isso porque Alisson tende naturalmente a cair pelas pontas, mas era acompanhado pelos volantes. Na teoria, isso abriria espaço para Lucas e Henrique avançarem, mas Renato Augusto e o próprio Luciano fechavam nos volantes celestes e, ao contrário do primeiro tempo, não os deixavam jogar. O resultado era um espaço vazio no meio-campo central, perto da área corintiana.

Com o Cruzeiro sem inspiração e totalmente neutralizado, bastou ao Corinthians aproveitar só um dos muitos erros de passe cometidos. Henrique sofreu pressão dos volantes paulistas, e Lucas Silva apareceu pra salvá-lo. Mas Henrique tentou dar um passe de letra que foi interceptado por Petros. O avanço do adversário não foi contido, e Luciano achou um espaço do lado direito para passar por Léo – que nitidamente evitou o pênalti ao recolher a perna – e bater no canto oposto de Fábio.

Fim de jogo

Já não havia muito mais o que fazer, pois o Corinthians já controlava o jogo com o placar em branco. Com a vantagem, concentrou toda a sua atenção em conter o Cruzeiro. Conseguiu na maior parte do tempo, só levando perigo no chute cruzado de Moreno que Cássio mandou a escanteio com a ponta dos dedos, e nos acréscimos, quando Dagoberto cabeceou pra fora totalmente livre na pequena área.

Mano ainda colocaria Danilo na vaga de Bruno Henrique, aberto pelo lado direito, nitidamente para segurar a posse de bola. Com isso, Petros recuou para a volância e Malcom inverteu de lado. E no fim, trocou Guilherme Andrade por Ferrugem, que nem teve trabalho.

Opções (ou a falta delas)

Ficou claro que o Cruzeiro teve dificuldades ofensivas por não ter um meia central típico. As ausências de Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, por si só, não seriam um problema grande, se o Cruzeiro ainda tivesse Júlio Baptista ou Tinga disponíveis. Portanto, coube a Marlone a tarefa de ser este jogador. Ele já vinha sendo preparado por Marcelo Oliveira para jogar assim em alguns jogos anteriores, mas ontem não teve uma boa atuação.

Dessa forma, o mais coerente seria sacá-lo do time para a partida contra o Flamengo. Mas Marcelo literalmente não tem alternativas se quiser manter o 4-2-3-1. Se houvesse mais tempo para treinar, Alisson poderia ser o meia central, fazendo a função com uma característica ligeiramente diferente. Mas como não há, isso seria reproduzir a desorganização que o time demonstrou no final do jogo.

Outra opção seria lançar Nilton e abdicar da função, efetivamente mudando para um 4-1-4-1, com Henrique e Lucas na dupla função de marcar e passar. O Cruzeiro já jogou assim antes, mas sempre no fim dos jogos e quando já estava em vantagem no placar. Iniciar uma partida nessa formação seria muito arriscado, pois mexe na estrutura do time.

Marlone, Alisson ou Nilton? Pois é. Às vezes, até a vida do treinador do melhor time é difícil.

Cruzeiro 2 x 1 Internacional – Correr, construir, controlar

Cruzeiro e Internacional protagonizaram grandes duelos no passado, principalmente na década de 70, quando o Cruzeiro se vingou da derrota na final do Brasileiro com uma vitória na Libertadores do ano seguinte, que culminaria no título. E o jogo deste sábado não ficou pra trás, disputado e tecnicamente agradável.

Mas além destes fatores, houve também um duelo tático interessantíssimo entre os dois treinadores. Abel Braga fez o primeiro movimento e complicou muito o jogo, mas Marcelo Oliveira respondeu à altura e garantiu o resultado.

Escalações iniciais

Domínio total do Cruzeiro no 1º tempo de muita intensidade, contra um 4-1-4-1 frágil pelos lados e com volantes celestes livres e com tempo na bola

Domínio total do Cruzeiro no 1º tempo de muita intensidade, contra um 4-1-4-1 frágil pelos lados e com volantes celestes livres e com tempo na bola

Com Ricardo Goulart e Júlio Baptista lesionados, era natural que Marcelo optasse por Éverton Ribeiro como meia central do 4-2-3-1 costumeiro. Com isso, o gol de Fábio foi protegido por Dedé e Manoel, com Mayke e Egídio fechando os lados da defesa. Protegendo a área, Henrique e Lucas Silva formavam o meio-campo com Marquinhos à direita, Ribeiro central e Willian pelo lado esquerdo, atrás do centroavante Moreno.

Já Abel Braga não tinha Eduardo Sasha, e criou-se uma expectativa pelo substituto do ponteiro esquerdo. O treinador do Internacional optou por Valdívia mais surpreendeu, tirando Alex do time e armando um 4-1-4-1, com Dida no gol, Gilberto na lateral direita, Paulão e Juan na zaga central e Fabrício fechando o lado esquerdo da defesa. Willians ficou entre a defesa e segunda linha formada, da direita para a esquerda, por D’Alessandro aberto, Aranguiz e Wellington mais centralizados e Valdívia na outra ponta. Na frente, Rafael Moura duelava com os zagueiros celestes.

Volantes livres

Diferentemente do que anunciara durante a semana, Abel postou seu time marcando a partir da linha do meio-campo, tentando tirar a velocidade que o Cruzeiro queria impor. A ideia era parar o ataque do Cruzeiro e acionar Valdívia e D’Alessandro pelos lados para os contra-ataques. Ou seja, a mesma coisa que quase todos os times que vieram ao Mineirão tentaram. Eis o respeito que quase dois anos de bom futebol impõem.

Mas, ao contrário de vários outros times, o Internacional não se preocupou com a marcação de Lucas Silva e Henrique. Os próprios volantes do Internacional ficavam muito próximos à própria área, distantes dos volantes celestes. Assim, ambos tiveram bastante tempo na bola e liberdade para levantar a cabeça e iniciar a construção, alavancando as estatísticas de posse de bola celeste.

Dois contra um

Com isso, D’Alessandro e Valdívia acabavam por tentar ajudar, indefinindo a marcação: ou fechavam nos volantes ou perseguiam os laterais subirem livres. Não dúvida, não fizeram nenhuma das duas coisas bem, e o resultado foi que tanto Egídio quanto Mayke subiam e faziam dois contra um junto com Willian e Marquinhos em cima de Gilberto e Fabrício.

Em um determinado lance, foi possível ver D’Alessandro perto de Egídio, preparado para acompanhar o lateral celeste caso ele subisse, mas a bola chegou nos pés de Lucas Silva, livre. O argentino então decidiu centralizar para marcá-lo, e bastaram dois passes para que a bola chegasse nos pés de Egídio, sem marcação e já numa posição avançada do campo, fora do alcance de D’Alessandro.

Marquinhos do lado “errado”

E outro fator que contribuiu para o desmoronamento da estratégia gaúcha foi o posicionamento de Marquinhos. Normalmente, o ponteiro joga pela esquerda, mas nesse jogo Marcelo optou por invertê-lo de lado com Willian para que ele pudesse marcar Fabrício, o mais ofensivo dos dois laterais adversários. Marquinhos cumpriu bem a função e ainda jogou bem com a bola, como visto no segundo gol.

Tudo isso contribuía para que o jogo fosse totalmente dominado pelo Cruzeiro no primeiro tempo: intensidade ofensiva e defensiva, volantes com liberdade, laterais sem marcação quando apoiavam.

A marcação no alto do campo, pressionando o homem da bola, gerou o primeiro gol, em que Moreno bloqueia o passe de Aranguiz, a bola sobra para Willian, que limpa o marcador com um drible, mas o próprio Moreno “rouba” a conclusão de Willian para vencer Dida. E em jogada pelo lado esquerdo, onde o Cruzeiro tinha superioridade numérica, cruzamento de Éverton Ribeiro para Marquinhos, livre do lado contrário, marcar o segundo.

Com Alex, Internacional mudou para um 4-2-3-1 e  tinha superioridade numérica com o movimento do meia da direita para o centro, causando problemas para Lucas Silva e Henrique

Com Alex, Internacional mudou para um 4-2-3-1 e tinha superioridade numérica com o movimento do meia da direita para o centro, causando problemas para Lucas Silva e Henrique

Inferioridade numérica no centro

O Cruzeiro voltou para o segundo tempo mais cadenciador, tentando descansar com a bola. Já o Internacional fez o contrário: começou a correr e querer roubar a bola de qualquer forma. Mas foi a alteração de Abel no intervalo que mudou o panorama da partida. Wellington deu seu lugar a Alex, que entrou pela esquerda do ataque; Valdívia foi pro outro lado, D’Alessandro centralizou e Aranguiz recuou para perto de Willians, formando o novo 4-2-3-1.

Com a bola, Alex centralizava e se aproximava de D’Alessandro, causando problemas na marcação para Lucas Silva e Henrique. Tanto na jogada que gerou a falta que bateu na trave quanto no gol, Alex e D’Alessandro se encontravam em posições centrais, e no lance do gol especificamente, os dois meias tabelaram e deram a volta na marcação dos volantes celestes.

A resposta de Marcelo

Marcelo Oliveira não estava gostando do que estava vendo e demorou a achar uma solução, mas achou. De uma só vez, tirou Éverton Ribeiro e Willian, lançando Nilton e Dagoberto, formando um 4-1-4-1 que remediava a inferioridade numérica no meio, mas perdia em capacidade de criação.

Marcelo Oliveira respondeu com Nilton e Dagoberto, configurando um 4-1-4-1 que encaixou a marcação e corrigiu o problema de inferioridade numérica no centro

Marcelo Oliveira respondeu com Nilton e Dagoberto, configurando um 4-1-4-1 que encaixou a marcação e corrigiu o problema de inferioridade numérica no centro

O jogo reequilibrou e o Internacional não conseguia mais chegar com facilidade. Até ficava mais com a bola, mas com a marcação encaixada, os volantes e zagueiros adversários, agora com tempo pra pensar, não tinham opções de passe. O Internacional parou de ameaçar a meta de Fábio, e o Cruzeiro controlava o jogo sem ter a bola em seus pés.

Outras trocas

Sem alternativas, Abel tentou mais velocidade com Leandro na vaga de Valdívia, sem sucesso, e depois abrindo o time de vez com Alan Patrick na vaga de Willians. Aranguiz passou a ser o volante único, mas o tiro saiu pela culatra e quem passou a dominar o meio-campo foi o Cruzeiro, já que o Internacional também arrefeceu o ritmo. A partir de então teve mais chances reais de ampliar do que sofrer o empate.

Borges ainda entrou na vaga de Moreno, mas apenas para fazer o tempo passar e garantir a vitória e aumentar a diferença para o vice-líder para impressionantes nove pontos.

A linha do tempo mostra as quatro fases distintas do jogo: 1- Cruzeiro arrasador até o 1ª gol; 2- Cruzeiro menos intenso mas ainda dominando até o fim do primeiro tempo; 3- Internacional tentando contra Fábio até a entrada de Nilton; 4- controle do jogo sem a bola até o final.

A linha do tempo mostra as quatro fases distintas do jogo: 1- Cruzeiro arrasador até o 1º gol; 2- Cruzeiro menos intenso mas ainda dominando até o fim do primeiro tempo; 3- Internacional tentando contra Fábio até a entrada de Nilton; 4- controle do jogo sem a bola até o final.

Maturidade para dosar o esforço

No último texto, questionei se a falta de intensidade do Cruzeiro nas últimas partidas havia sido uma coisa pensada ou se era um resultado natural do cansaço pelas partidas em sequência. A resposta veio nesse jogo, e foi um pouco das duas coisas: a temporada desgastante fez com que Marcelo usasse conscientemente uma estratégia mais cautelosa para diminuir o cansaço dos jogadores. Tudo visando os jogos mais importantes, como este contra o Internacional, o perseguidor mais próximo.

Ao que parece, a estratégia funcionou bem e os jogadores deram o máximo durante os primeiros 45 minutos, construíram o placar e apenas controlaram no segundo tempo, ainda que o Internacional tenha tido um domínio devido à entrada de Alex no time. Isso é sinal de um time maduro, que sabe em que momentos deve acelerar ou cadenciar o jogo. E mais: sabe também em que momentos da temporada deve se poupar para poder usar mais gás nas partidas decisivas.

E, com a reta final da temporada começando, o fator desgaste pesa ainda mais, para todas as equipes. Saber dosar o esforço será fundamental. E até nisso o Cruzeiro parece sair na frente.

Cruzeiro cauteloso: escolha ou desgaste?

Problemas técnicos impediram este blog de publicar análises mais aprofundadas sobre os dois últimos jogos pelo Brasileirão. Inclusive, estive in loco no empate sem gols contra o Sport na Arena Pernambuco. De volta à ativa, darei portanto breves pitacos nestas partidas e também na partida de ontem contra o ABC pela Copa do Brasil.

Há no futebol (e no esporte em geral) uma velha máxima: a melhor defesa é o ataque. Em alguns casos, de fato: se você está atacando, o adversário não está te atacando e, portanto, você nem precisa defender. Mas essa é uma visão muito simplista. O correto é dizer: a melhor defesa, em alguns casos, é o ataque. Ou melhor: a melhor defesa nem sempre é o ataque.

Depois da derrota no clássico, o Cruzeiro jogou três partidas. E pelo menos um aspecto houve em comum em todas elas, ocasionado por diferentes razões: o Cruzeiro foi mais cauteloso. Quando tinha a bola, preferia cadenciar em vez de atacar com muita intensidade, como fez bastante em 2013, para diminuir as chances de um passe errado que gere contra-ataques. Sem a posse, a equipe preferiu esperar na linha divisória, compactada em bloco médio, em vez de pressionar alto e forçar o erro do adversário.

Coritiba 1 x 2 Cruzeiro

No Paraná, o Cruzeiro fez um dos melhores primeiros tempos que vi neste ano defensivamente. O Coritiba – armado numa espécie de 4-3-3 que variava para 4-3-1-2 de acordo com o posicionamento de Alex (leia mais aqui) – teve tempo na bola, mas não conseguia entrar nas linhas celestes. Alex, ídolo nos dois clubes, não conseguia receber a bola em espaços perigosos porque o Cruzeiro os ocupava. Isso forçava o craque a voltar até na linha de zagueiros para receber a bola e tentar ver o jogo. Sem alvos, acabava devolvendo para outro zagueiro ou um volante e voltava a correr pra frente.

Tudo isso porque a postura defensiva do Cruzeiro estava diferente. Não foi o time que joga e deixa jogar: o Cruzeiro procurou primeiro destruir – ou no caso esperar o erro do adversário – para depois construir. Com a bola recuperada, aplicou velocidade suficiente pelos lados para criar as jogadas dos dois gols: um escanteio que gerou o pênalti em Nilton e um lançamento para Ceará, que avançou até achar Éverton Ribeiro livre do lado esquerdo.

No segundo tempo, o Cruzeiro relaxou um pouco, talvez pelo desgaste físico, e o Coritiba chegou mais perto da área, até pela entrada de Martinuccio no time na vaga de um dos volantes. Mas o Cruzeiro não quis explorar os novos espaços e se contentou em absorver a pressão do time da casa, que até marcou um gol, mas depois esbarrou no eficiente sistema de marcação celeste.

Sport 0 x 0 Cruzeiro

Nesta partida, pude observar de perto esta nova postura. Contra um Sport armando no mesmo 4-2-3-1 que o Cruzeiro, eu torcia constantemente para que Moreno avançasse em cima de um dos zagueiros pernambucanos e que os meias subissem a marcação atrás dele, mas isso não acontecia. Em um momento, consegui enxergar todos os dez jogadores de linha em um espaço de não mais que 15 metros: uma compactação que não deixava o Sport jogar e que deu tranquilidade a Fábio. Não sofrer gols foi uma consequência natural.

Atacando, o Cruzeiro até que teve algumas chances, mas da arquibancada eu sentia pouca aproximação entre os três meias, tão costumeira. O desgaste físico da viagem de Curitiba para Recife, e com jogos em espaço de tempo tão curto, parece mesmo ter feito alguma diferença. Sem essa proximidade, o jogo do Cruzeiro não fluía com a mesma intensidade, e o time pernambucano tinha seu trabalho de marcação facilitado.

Mesmo assim, foi o Cruzeiro quem criou mais chances, teve mais a bola nos pés e chutou mais a gol, principalmente no segundo tempo. Mas não foi suficiente para tirar o outro zero do placar.

Cruzeiro 1 x 0 ABC

O cansaço acusado pelos jogadores no Recife forçou Marcelo Oliveira a lançar mão de seu bom elenco, mandando a campo uma formação alternativa para o jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil. Aqui, a razão para a falta de intensidade ofensiva e defensiva era a falta de ritmo e entrosamento. Borges, Dagoberto, Marlone e Willian não conseguiam muito se achar em campo, permanecendo muito estáticos em suas respectivas faixas do campo, sem as trocas costumeiras.

Some-se a isso o fato de que o time potiguar veio para perder de pouco, como esperado, e mal se aventurou no ataque para não ceder espaços. Com o time todo atrás, cabia a Nilton e Willian Farias iniciarem a construção. Mas ambos são volantes mais marcadores que passadores e tiveram certa dificuldade. No segundo tempo, Ricardo Goulart, que estava sendo poupado, entrou e, como mágica, o time instantaneamente melhorou. É impressionante como Goulart praticamente força seus companheiros a se mexerem, saindo do centro e caindo pelas pontas. Assim, quem está nas pontas procura o meio e isso acaba confundindo a marcação.

O Cruzeiro teve bem mais volume de jogo e tentou chutar mais vezes, mas o ABC continuou se defendendo bem. Faltava o capricho no último passe – sempre ele. Assim, o time potiguar não permitiu que o Cruzeiro criasse muitas chances: duas finalizações certas, sendo que só a de Egídio no primeiro tempo foi com bola rolando. A outra foi o gol de Léo, num escanteio.

Na parte defensiva, o Cruzeiro não foi tão seguro, cometeu alguns erros, mas também teve a mesma estratégia: não pressionar os zagueiros adversários no alto do campo. O ABC porém preferia entregar a bola para o Cruzeiro e tentar especular nos contra-ataques. Fábio não fez nenhuma defesa no jogo todo.

Diagnóstico: novo padrão ou resguardo?

Como vimos, nas três partidas o Cruzeiro optou por uma postura mais cautelosa defensivamente. Contra o Coritiba, fechou as linhas e esperou o adversário errar; contra o Sport, o desgaste pareceu ser o fator principal na falta de intensidade; e contra o ABC, o time reserva estava mais descansado, mas a falta de ritmo não permitiu a marcação alta.

Esta postura foi mais acentuada nas últimas partidas, mas o fato de o Cruzeiro atacar um pouco menos já podia ser visto no número de finalizações, se comparado ao do ano passado. É uma equipe que ainda ataca muito, mas menos do que antes. Duas possíveis causas: o respeito dos adversários, o que faz com que eles se armem todos atrás dificultando as ações ofensivas; e a maturidade do time, que está preferindo dosar o ritmo para não se desgastar. No fim das contas, provavelmente é uma mistura das duas coisas.

Dados da Footstats do Campeonato Brasileiro mostram: Cruzeiro finaliza menos este ano do que no ano passado

Dados da Footstats do Campeonato Brasileiro mostram: Cruzeiro finaliza menos este ano do que no ano passado

Fica a pergunta: seria este comportamento do sistema defensivo celeste uma nova forma de jogar ou é apenas temporária devido ao desgaste da temporada? Só saberemos de fato nas próximas partidas.

Cruzeiro 2 x 3 Atlético/MG – “Olha eu aí!”

"Coluna dois! Ih! Olha eu aí!"

“Coluna dois! Ih! Olha eu aí!”

Antes de mais nada, sei que o jogo já passou e é hora de olhar pra frente. Por isso, este texto chega com algum atraso. Mas ele é também uma resposta aos que dizem que não há textos nas derrotas. Ora, também deixei de escrever em algumas vitórias, pois como já expliquei antes, a questão não é o resultado do jogo e sim o tempo que disponho para digitar minhas observações. Isto posto, sigamos.

O futebol é um jogo de imposição de estilos. Uma frase famosa no futebol, que o Google me diz ter sido dita por Sepp Herberger, técnico da Alemanha campeã em 1954. Mas o que Sepp não disse é que nem sempre o estilo que se impõe sai de campo vencedor. E o que se viu no Mineirão do último domingo foi exatamente isso: o domínio de uma equipe sobre a outra, se impondo e obrigando o rival a se defender como um time pequeno do interior, mas cometendo erros que foram bem aproveitados pelo adversário.

Pela postura, pela estratégia e pela imposição de um time sobre o outro — e até mesmo pelo padrão monocromático preferido pela roupagem do rival — nada mais justo e descritivo do que classificar o resultado como a mais clássica zebra. O título do texto é uma homenagem a isso.

Escalações

Cruzeiro no 4-2-3-1 de sempre, sendo forçado a sair pelos lados por conta do bloqueio dos atacantes rivais aos volantes; Atlético acuado em duas linhas de quatro

Cruzeiro no 4-2-3-1 de sempre, sendo forçado a sair pelos lados por conta do bloqueio dos atacantes rivais aos volantes; Atlético acuado em duas linhas de quatro

Marcelo Oliveira não fez nenhuma mudança em relação ao time esperado: um 4-2-3-1 com dois laterais ofensivos e dois volantes construtores. Do gol, Fábio teve sua linha formada por Mayke e Egídio nos flancos, com Dedé e Léo na área. Henrique e Lucas Silva comandaram a ligação para o trio de meias formado por Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Alisson, com Moreno na referência comandando a pressão alta.

Levir Culpi tentou surpreender, e no papel o Atlético só tinha um volante, mas na prática, fez um 4-4-2 britânico, ou seja, em duas linhas. O gol de Victor foi protegido pelos zagueiros Léo Silva e Jemerson, com Marcos Rocha na direita e Émerson Conceição na esquerda. A segunda linha tinha o já citado volante, Leandro Donizete, mas com Dátolo a seu lado, jogando por dentro, e com os flancos cobertos por Luan à direita e Carlos à esquerda. Na frente, Guilherme e Diego Tardelli.

Imposição de estilos

Continuando a velha mania da mídia em geral de dar a informação sem observar, os repórteres de campo bradavam que Levir “foi ousado” e que “iria pra cima” do Cruzeiro. Ledo engano. Como lhe é característico, o Cruzeiro tomou as rédeas da partida e já mandou uma bola no travessão logo aos dois minutos, com Alisson completando bela linha de passe. Um lance que resume bem como seriam os 90 minutos de jogo.

O Atlético até tentava ficar com a bola, mas a marcação do Cruzeiro no campo de ataque era excelente, forçando o erro rival, e logo a bola voltava aos pés celestes. Assim, praticamente durante todo o tempo, Guilherme e Diego Tardelli ficavam vendo os zagueiros celestes trocarem passes, sem subir a pressão, se limitando a fechar as linhas de passe para Lucas Silva e Henrique. Isso forçava o jogo do Cruzeiro pelos lados, o que acabou não sendo um problema, pois Mayke e Egídio conseguiam levar a melhor contra Luan e Carlos. E assim o Cruzeiro chegava com facilidade até as proximidades da área rival, mas faltava maior capricho no último passe e na hora de finalizar.

Sequência de erros

E justamente quando o gol celeste parecia madurinho, o Atlético conseguiu seu primeiro gol na sua primeira chance real. Com a jogada transcorrendo do lado esquerdo, Mayke corretamente se aproximou do centro para compactar o time lateralmente, deixando o espaço do lado direito descoberto. Émerson Conceição foi até lá e normalmente teria a companhia de Éverton Ribeiro, o ponteiro direito que acompanha o lateral. Só que Éverton também estava pelo centro e teve que correr uma grande distância para tentar bloquear o cruzamento: primeiro erro. Não foi suficiente, e o cruzamento saiu. Na disputa na área, Léo perde para Luan, muito mais baixo e franzino: segundo erro. E no rebote, Éverton Ribeiro se esqueceu de voltar e habilitou a posição de Carlos, que completou à queima-roupa: terceiro erro.

Talvez por saber que parte da culpa pelo gol foi dele, Éverton Ribeiro se enrolou na saída de bola, tentou um drible em uma posição perigosa do campo e perdeu a bola, gerando um contra-ataque bem executado, em passe de Dátolo para Tardelli já dentro da área. A transição ofensiva é o pior momento para uma equipe perder a posse, pois o pega o time saindo para o ataque, com os jogadores naturalmente saindo de suas posições defensivas. Quando acontece isso, gera um “contra-contra-ataque”, e os jogadores tem que interromper a corrida para a frente e mudar a direção, para voltar e recompor.

Voltando pro jogo

Em clássicos, normalmente um dois a zero contra é quase decisivo. Da forma como foi, mais ainda, pois foram dois gols em sequência quando o Cruzeiro era absolutamente melhor. Geralmente o time fica abalado, mas o Cruzeiro pareceu ignorar isso e continuou jogando como se o placar estivesse em branco. Seguiu com mais posse, rondando a área e chutando mal, exceto na jogada de Éverton Ribeiro, se redimindo em parte pelos erros. Ele achou Goulart sozinho em cima da linha do gol, para diminuir ainda no primeiro tempo, e fazer o Cruzeiro voltar ao jogo com muita naturalidade.

Não houve nenhuma mudança no intervalo, nem de peças, nem de estratégia e nem de estilo. O Cruzeiro continuou se impondo, mas foi muito mais perigoso e incisivo, empatando a partida logo no início com Alisson se descolando de Marcos Rocha, e depois criando uma profusão de chances. Alisson mandou na trave, Moreno mandou por cima um cruzamento da Mayke, que também teve sua chance em cabeceio livre, mas que mandou nas mãos de Victor. Um pouquinho só a mais de capricho nas conclusões teria decidido o jogo já no meio do segundo tempo a favor do Cruzeiro.

Mudanças

Depois do empate, o Atlético mudou para um 4-2-3-1 que acabou não mudando o panorama; Cruzeiro manteve o 4-2-3-1 e pressionou até perto do fim, quando pareceu ter se cansado de chutar tanto a gol

Depois do empate, o Atlético mudou para um 4-2-3-1 que acabou não mudando o panorama; Cruzeiro manteve o 4-2-3-1 e pressionou até perto do fim, quando pareceu ter se cansado de chutar tanto a gol

Após o empate, Levir viu seu time acuado e tentou fazer algo. Aproveitando uma lesão de Luan, mudou para um 4-2-3-1 com Josué ao lado de Donizete e atrás de Carlos à direita, Dátolo centralizado e Guilherme na esquerda, com Tardelli sendo o único centroavante. Depois, sabendo da deficiência defensiva de Guilherme, reforçou a marcação do lado esquerdo com Douglas Santos na lateral esquerda na vaga de Émerson Conceição. Já no Cruzeiro, Marcelo Oliveira mandou Dagoberto a campo na vaga de Alisson, lesionado, sem alterar o sistema mas colocando ainda mais verticalidade. Levir então respondeu com Eduardo na esquerda, mandando Carlos de volta para o lado direito e tirando Guilherme de campo.

Mesmo com tudo isso, o panorama não se alterava. O terceiro gol celeste parecia certo, uma questão de tempo. Marcelo lançou Borges, o melhor pivô do mundo, na vaga de Moreno, e a troca teria sido celebradíssima se Dagoberto convertesse em gol a jogada que construiu com seu antigo parceiro, numa jogada típica de Borges: costas para o adversário, toque de lado para achar o jogador na corrida e deixá-lo em ótima posição para chutar ou cruzar. Dagoberto perdeu um gol que não costuma perder.

Pareceu ser a última cartada do jogo. Talvez por cansaço, o Cruzeiro continuava com a bola mas já não ameaçava tanto a meta de Victor. O time rival conseguiu respirar um pouco e voltou a ameaçar em contra-ataques. Primeiro com Tardelli pela direita — em mais um drible errado de Éverton Ribeiro e que foi o estopim da substituição por Willian. A bola foi rebatida pela zaga e rebote atleticano foi desviado para escanteio. Mas no segundo, Leandro Donizete, com liberdade, achou um cruzamento para Carlos que, também sem marcação, cabeceou no canto oposto de Fábio e decretou o resultado final. Coisas do futebol.

Merecimento e justiça

Quem acompanha o blog sabe que sempre digo que não acredito em resultados injustos. Se o Cruzeiro se impôs, chutou mil bolas ao gol e não venceu, é porque foi incompetente na hora de concluir. E pior: cometeu erros que o rival aproveitou muito bem, com conclusões mais precisas do que as celestes. Por isso, a justiça do futebol é a da bola na rede.

Merecimento, entretanto, é algo diferente. Não que o Atlético não tenha merecido ganhar, pois fez um de seus melhores jogos num período recente, e também teve sorte com as duas bolas na trave. Mas o Cruzeiro, pelo que jogou na partida, pela forma como se impôs num clássico (que sabemos ser um jogo diferente), acuando o time rival em sua própria área, algo incomum para uma partida como essa — por causa disso tudo, o Cruzeiro não merecia perder. Infelizmente, aquele terceiro gol, que parecia certo, não saiu. Se Cruzeiro e Atlético jogassem assim cem vezes, o Cruzeiro sairia vencedor em oitenta.

A linha do tempo mostra: Cruzeiro se impondo durante os 90 minutos com muitas finalizações e Atlético com poucas chances, acuado mas mais eficiente

A linha do tempo mostra: Cruzeiro se impondo durante os 90 minutos com muitas finalizações e Atlético com poucas chances, acuado mas mais eficiente

E é nessa última parte que fica a boa impressão. Perder um clássico é sempre ruim, mas nesse caso, pareceu um pouco menos pior. Porque o futebol que o Cruzeiro mostrou, ainda que com os erros nas finalizações e na marcação do adversário, é suficiente para vencer a maioria das partidas e caminhar rumo ao título.

Ou seja: como defendo sempre, no longo prazo, a qualidade do futebol é mais importante que o resultado. E por essa ótica, o Cruzeiro ganhou de goleada.