América/MG 0 x 2 Cruzeiro – Eficiente e suficiente

A partida contra o América foi bem melhor do que a de quinta na Venezuela, mas era bem difícil ser pior ou até mesmo igual. O Cruzeiro ainda teve alguns problemas, inclusive cansaço físico da longa viagem — como revelado por Marcelo Oliveira na coletiva — mas foi mais compacto, protegeu bem sua área e conseguiu explorar um pouco melhor os espaços no contra-ataque.

Não foi nada brilhante, mas o Cruzeiro errou muito pouco, tanto na marcação quanto nas poucas chances que teve, e por isso saiu com a vitória.

Formações iniciais

Cruzeiro e América entraram no 4-2-3-1. Cruzeiro numa postura reativa, com De Arrascaeta se mexendo um pouco mais para acionar os ponteiros em contra-ataque; América tinha mais a bola, com Renatinho caindo pelos lados para criar superioridade numérica

Cruzeiro e América entraram no 4-2-3-1. Cruzeiro numa postura reativa, com De Arrascaeta se mexendo um pouco mais para acionar os ponteiros em contra-ataque; América tinha mais a bola, com Renatinho caindo pelos lados para criar superioridade numérica

As duas equipes vieram no 4-2-3-1. Marcelo Oliveira mandou a campo o mesmo onze do jogo com o Mineros, com Fábio no gol, Mayke na lateral direita e Mena na esquerda, com Léo e Paulo André no miolo de zaga. Willian Farias e Henrique ficaram na proteção, e mais à frente Alisson e Marquinhos flanqueavam De Arrascaeta, atrás de Damião.

O América de Givanildo tinha João Ricardo no gol, Wesley Matos e Anderson Conceição na zaga, com Robertinho à direita e Bryan fechando o lado esquerdo. Na volância, Thiago Santos e Diego Lorenzi davam suporte ao central Renatinho, que tinha ainda Felipe Amorim pela direita e Sávio pela esquerda, com Rubens na referência.

Duelos por todo o campo

A marcação encaixou e gerou duelos interessantes nos quatro cantos do campo: Mayke x Sávio, Mena x Felipe Amorim, Alisson x Robertinho e Marquinhos x Bryan. No meio-campo, Henrique e Willian Farias se encarregavam de marcar Renatinho e o volante que subisse, que normalmente era Diego Lorenzi, enquanto Thiago Santos ficava a cargo de cuidar de De Arrascaeta. E os centroavantes duelavam com as duplas de zagueiros nas áreas.

Mas quem marcava mais eram os celestes. Isso porque o América tomou a iniciativa e ficou com a bola, tentando chegar pelos lados, devido à movimentação de Renatinho, que saía do centro para criar superioridade numérica nesses setores. Por duas vezes, a marcação celeste ficou indefinida e os jogadores americanos conseguiram chegar ao fundo. Talvez De Arrascaeta pudesse se espelhar nisso, apesar de ter sido muito mais móvel neste jogo do que na Venezuela.

Felipe Amorim deu muito trabalho para Mena pela esquerda. Até conseguiu passar em alguns lances, mas no cômputo geral, Mena fez um bom trabalho: o camisa 7 americano só conseguiu criar duas chances, uma em cada tempo. Do outro lado, Sávio se dava melhor contra Mayke, porque destro que é, partia para o centro e batia com a perna direita. Acertou a trave num desses chutes.

Zagueiros e contra-ataque

Com o time do Cruzeiro mais compacto, porém, o América não conseguia entrar na área adversária. No 1º tempo, o time da casa finalizou 6 vezes, mas todas de fora da área. Muito por causa de um bom trabalho da linha defensiva, mais uma vez. Léo e Paulo André venciam todas pelo alto e pelo chão, em contraste com o desempenho irregular da dupla de volantes.

Em azul, as finalizações do América, e em vermelho, as do Cruzeiro; os dois únicos chutes do América de dentro da área foram no 2º tempo (Footstats)

Em azul, as finalizações do América, e em vermelho, as do Cruzeiro; os dois únicos chutes do América de dentro da área foram no 2º tempo (Footstats)

Com as linhas avançadas, o América deixava espaços atrás, cedendo o contra-ataque ao Cruzeiro, que ensaiou uma, duas até acertar na terceira. Após cobrança de falta do América, a bola sobrou na esquerda, e a defesa rechaçou novo cruzamento. A bola sobrou para Marquinhos, que viu a movimentação de De Arrascaeta e deu na frente. O uruguaio girou e acionou Alisson imediatamente pela esquerda, onde estava apenas Diego Lorenzi, com o outro volante Thiago Santos, na cobertura — os zagueiros estavam na área adversária por causa da bola parada. Alisson avançou, cortou pra dentro e bateu maravilhosamente no canto, fora do alcance de João Ricardo.

Com o gol, Givanildo percebeu o perigo e recuou as linhas. O América passou a marcar a partir do meio-campo, dando um pouco mais a bola para o Cruzeiro e partindo em velocidade. Mas o primeiro tempo acabou mesmo com o Cruzeiro em vantagem.

Segundo tempo

As equipes voltaram do intervalo sem alterações, assim como o panorama do jogo após o gol. A posse de bola era equilibrada, e nenhuma das duas equipes via necessidade avançar as linhas: o Cruzeiro porque tinha o placar a seu favor, e o América porque não queria sofrer mais estocadas no perigoso contra-ataque celeste. A partida ficava sendo disputada entre as duas intermediárias, e a bola só se aproximava dos goleiros em bolas paradas.

Givanildo com quem fez o primeiro movimento, trocando de centroavante: Rodrigo Silva na vaga de Rubens. A partida não mudou, mas o Cruzeiro conseguiu achar alguns bons passes pela esquerda. Marquinhos achou Mena, que cruzou para Damião sozinho perder; e depois Alisson foi acionado, driblou duas vezes mas no último toque a bola escapou ligeiramente e ele bateu prensado.

Troca nas pontas

Marcelo então mexeu nos flancos. Trocou de ponteiros: Alisson deu lugar a Gilson — que sim, foi jogar na meia esquerda — e Marquinhos cedeu vaga a Judivan. O 4-2-3-1 estava mantido, mas com mais fôlego pelos lados e mais proteção a Mena pela esquerda, já que Gilson também é lateral e sabe recompor. Após o jogo, Marcelo justificou as trocas dizendo que era por cansaço, já que os titulares não estavam mais recompondo.

Fim de jogo: ambos os times mantiveram o 4-2-3-1 durante todos os 90 minutos; Cruzeiro teve Gilson como ponteiro esquerdo para recompor melhor e ajudar Mena

Fim de jogo: ambos os times mantiveram o 4-2-3-1 durante todos os 90 minutos; Cruzeiro teve Gilson como ponteiro esquerdo para recompor melhor e ajudar Mena

No América, Pedrinho entrou na vaga de Sávio, com câimbras. Ele se posicionou pela esquerda do ataque, mantendo o sistema original. Mas quem continuava dando trabalho era Felipe Amorim, que derivou para o centro a partir da direita, levando Mena consigo e causando o chileno a cometer falta. Ele mesmo cobrou, mas mal.

O que ele não imaginava é que o tiro de meta originaria o segundo gol celeste. Na bola longa de Fábio, Damião inverte com De Arrascaeta para brigar pelo alto, e foi exatamente o que aconteceu: uma casquinha para o uruguaio na frente, que driblou seu marcador e avançou pela esquerda. Damião também fez um movimento interessante: primeiro ele corre na direção do zagueiro, “empurrando-o” pra longe. Quando De Arrascaeta se aproxima da área, ele muda de direção, indo para a primeira trave. Isso fez ficar sozinho pra receber o passe e aumentar o placar.

No lance, o zagueiro Anderson Conceição se lesionou e teve de ser substituído por Allison, acabando com as trocas do América. E no fim, Marcelo tirou Damião apenas para receber os aplausos da torcida. Henrique Dourado jogou pouco mas conseguiu roubar uma bola excelente no meio-campo, fazendo o que se espera de centroavantes modernos.

Novo estilo

O Cruzeiro de 2013/14 nos acostumou a ver uma equipe com a bola nos pés, intensa na movimentação e inversão de posições. Mobilidade necessária para criar os espaços diante de times que enfrentavam o Cruzeiro com muito respeito, com muitos jogadores postados atrás da linha da bola. Em 2015, a equipe parece ter uma característica diferente: marca forte no meio (apesar das deficiências dos últimos dois jogos) e prefere jogar na transição, com velocidade. Quando acertou o passe nessa fase, venceu.

Já são dois meses na temporada e o Cruzeiro ainda não fez um jogo em que dominou a posse de bola criou chances em profusão. O entrosamento, que ainda não chegou totalmente, tem parte nisso, mas talvez já seja hora de reconhecer que o Cruzeiro de 2015 seja um time diferente, mais reativo, mais competitivo e letal.

Sofrer poucos gols e ser muito eficiente nas poucas chances que cria. Não me agrada, mas aí já é questão de gosto. E não que eu acredite nisso, mas torço para que esta característica seja mais eficaz para campeonar na Copa Libertadores — que, ao fim e ao cabo, é o objetivo principal.

Cruzeiro 1 x 1 Atlético/MG – Zero a zero com gols

No primeiro clássico do ano, o Cruzeiro voltou a apresentar os mesmos problemas em encontrar espaços diante de defesas fechadas no Mineirão. A partida contra o Huracán já havia mostrado essa deficiência criativa, mas naquela partida o Cruzeiro pelo menos chegou fácil pelos lados. Neste jogo o excesso de cruzamentos não aconteceu, também por causa do pouco ímpeto dos laterais, que são os responsáveis pela amplitude no ataque.

Foi um jogo concentrado no terço central, já que ambas as equipes pouco criaram: o Cruzeiro por não ter mobilidade suficiente para criar os espaços e o Atlético por proposta de jogo.

Os escretes

Times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem muito apoio dos laterais e sem mobilidade, Atlético bem compactas negando espaços entre as linhas e Luan responsável pela ligação

Times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem muito apoio dos laterais e sem mobilidade, Atlético bem compactas negando espaços entre as linhas e Luan responsável pela ligação

Marcelo Oliveira não fez nenhum mistério e escalou o time no 4-2-3-1 esperado, com o gol do capitão Fábio sendo protegido por Léo e Paulo André, com Mayke fechando pela direita e Mena pela esquerda. A dupla volância teve Willians e Henrique mais uma vez, no suporte ao trio formado por Marquinhos na direita, Willian à esquerda e De Arrascaeta centralizado atrás de Leandro Damião, o centroavante.

Levir Culpi tinha muitos desfalques e armou seu time no mesmo 4-2-3-1, mas que virava um 4-4-2 em fase defensiva, que foi na maior parte do tempo. Victor tinha Patric à direita e Douglas Santos à esquerda flanqueando a dupla de zaga formada por Edcarlos e Jemerson. Na frente da área, Rafael Carioca e Leandro Donizete faziam a proteção, deixando os corredor esquerdo para Carlos e o direito para Cesinha, o que dava liberdade para Luan se juntar a Dodô na frente.

Posse e recomposição

Com os desfalques e na condição de visitante, era esperado que o Atlético se preocupasse mais em marcar o Cruzeiro e partir em contras. Nas duas últimas visitas ao Cruzeiro no Mineirão, foi exatamente o que o Atlético fez, e nas duas saiu com a vitória. Querendo evitar novo revés, Marcelo armou seu time para atacar, mas também preocupado com os contragolpes, principalmente pelos lados, e por isso prendeu um pouco mais os laterais. A primeira função de Mayke e Mena era acompanhar os ponteiros adversários, e depois subir.

Mas os ponteiros do Cruzeiro tem a característica de centralizar o jogo, se aproximar do centro. Foi assim em 2013 e 2014, e assim é em 2015, ainda que com jogadores diferentes. E dessa forma, o Cruzeiro pouco chegou pelos lados, diferente da partida contra o Huracán. O Atlético marcava bem compacto, negando espaços entre as duas linhas, dificultando as ações do trio ofensivo atrás de Damião.

Flagrante do posicionamento ofensivo do Cruzeiro: laterais dão amplitude, mas não profundidade; trio de meias bem próximos, mas sem espaço entre as duas linhas do Atlético (foto: @rodrigodeaf)

Flagrante do posicionamento ofensivo do Cruzeiro: laterais dão amplitude, mas não profundidade; trio de meias bem próximos, mas sem espaço entre as duas linhas do Atlético (foto: @rodrigodeaf)

Sem opções, o Cruzeiro chegava perto da área do Atlético até com facilidade, mas a partir dali não sabia bem o que fazer com a bola. Diante de um time bem postado taticamente, cabe ao time com a bola se movimentar e aproximar, tentando desmontar a defesa para criar os espaços e usá-los. Mas para isso é preciso que os jogadores se conheçam bem, saibam a característica de cada um: onde preferem a bola, em que pé, de que forma, como se movimentam. É o tal entrosamento, que, como sabemos, ainda está sendo construído.

Defesa e transição

Quando o Atlético recuperava a bola, o Cruzeiro não fazia pressão alta. Recompunha-se e marcava a partir do meio-campo, usando a mesma estratégia do adversário. Quem fazia a transição era sempre Luan. Ele buscava a bola atrás e carregava para o campo de ataque, aparecia pelos lados e tentava encontrar os companheiros no meio da defesa celeste. Os avançados atleticanos até tinham mais mobilidade, mas não achavam o passe e entregavam a posse de bola.

Mas ao invés de partir na transição rápida, o Cruzeiro não aplicava velocidade suficiente e deixava a defesa adversária se recompor também. O único lance em que isso aconteceu foi uma jogada de Marquinhos pela direita, mas Damião não chegou a tempo e a zaga afastou.

Com as defesas levando vantagem sobre os ataques, não por acaso o primeiro tempo só teve uma grande chance, e de bola parada: escanteio do Atlético que Fábio fez dois milagres. E foi só: basicamente, um jogo de uma intermediária à outra.

Segundo tempo

Após o intervalo, o panorama pouco mudou. De Arrascaeta passou a se movimentar e aparecer mais para o jogo, e com isso o Cruzeiro teve mais volume, mas ainda sem ter o passe final qualificado. Aos 15, Marcelo fez troca dupla: tirou o uruguaio e Willian, lançando Alisson e Judivan — as mesmas duas trocas do jogo contra o Huracán. Alisson foi à esquerda e Judivan ficou pelo centro. Quatro minutos depois, Levir respondeu com Danilo Pires e Maicosuel nas vagas de Cesinha e Dodô. Danilo entrou para segurar mais a bola, e Maicosuel para dar velocidade aos contras.

Se no jogo contra o time argentino as alterações de Marcelo deram um certo resultado, nesta partida nem tanto. As mexidas de Levir acabaram por neutralizar as de Marcelo: o Atlético de fato passou a ficar mais com a bola, e foi saindo aos poucos para o ataque, principalmente com Patric pelo lado direito — de onde começou a jogada do gol bizarro que Fábio sofreu.

Marquinhos volante

No fim, Cruzeiro se lançou em busca do empate com Marquinhos armando de trás e Judivan e Alisson nas pontas, e quase virou o jogo, mas cedeu espaços importantes que o Atlético não aproveitou

No fim, Cruzeiro se lançou em busca do empate com Marquinhos armando de trás e Judivan e Alisson nas pontas, e quase virou o jogo, mas cedeu espaços importantes que o Atlético não aproveitou

Atrás no placar, Marcelo não viu alternativa senão a de abrir o time de vez, e fez a substituição esperada: recuou Marquinhos para armar de trás na vaga de um dos volantes, que desta vez foi Willians, por precaução, entrando Joel pelo centro e abrindo Judivan à direita. Novamente, uma substituição arriscada, pois sem a bola Marquinhos era o segundo volante e tinha que marcar as saídas de bola atleticana no contra ataque.

O Cruzeiro não teve o volume esperado com a alteração, mas o gol de empate acabou saindo por causa dela. Joel, se movimentando, ganhou uma jogada de Luan pela direita e achou Marquinhos na posição de armador central. Ele tocou pra Damião, que a partir daí fez todo o trabalho sozinho: protegeu no pivô, girou em cima de Jemerson, ganhou no pé de ferro de Douglas Santos e finalizou cruzado por baixo das pernas de Jemerson, longe do alcance de Victor. A bola morreu mansinha nas redes azuis do Mineirão.

O gol deu força para o Cruzeiro que foi com tudo, até com uma certa ansiedade, se desorganizando atrás e dando o contra-ataque. Chegou mais uma vez com Alisson pela esquerda, num cruzamento rasteiro que nem Damião nem Judivan alcançaram, mas também correu riscos. Mena e Léo tiveram que parar contragolpes com faltas e por isso foram advertidos, mas nenhum dos dois times levou mais perigo à meta adversária.

Devagar, devagar

Quem conhece este blogueiro sabe que sempre acredito na justiça do placar. Pelo que foi o jogo, considerando as propostas e estratégias, o empate foi um resultado que espelha bem o equilíbrio que houve na partida. O Atlético se limitou a repelir as ações ofensivas celestes e atacar poucas vezes, e o Cruzeiro teve a bola mas pouca criatividade para furar o bloqueio defensivo adversário. Talvez só o zero a zero fosse um placar melhor.

As marcas azuis indicam as finalizações do Cruzeiro e as vermelhas as do rival; o baixo número de acertos (em cores mais escuras) ilustra bem o que foi a partida

As marcas azuis indicam as finalizações do Cruzeiro e as vermelhas as do rival; o baixo número de acertos (em cores mais escuras) ilustra bem o que foi a partida

Está claro que o Cruzeiro tem um problema de criatividade na fase ofensiva, mas que tem que ser relativizado pelo fato de ter enfrentado duas defesas muito fechadas. Nem sempre os adversários se comportarão desta forma; o Cruzeiro será atacado em alguns momentos. Porém, é um problema de fato, e pode ser resolvido de várias formas.

Vi gente nas redes sociais clamando por mudanças no sistema tático, ao que sou frontalmente contrário. Para enfrentar adversários organizados, só existe um jeito: intensidade de movimentação, seja em qual esquema for. Também vi mais pedidos por mais um meia criativo, o que pode resolver, mas talvez também não seja a solução. Como sempre digo: não adianta ter um bom passador se todos os alvos de passe ficam estáticos e marcados. Os bons passes são responsabilidade tanto de quem os executa quanto de quem os recebe.

Assim, o meia ideal para o Cruzeiro é o Entrosamento da Silva. Esse aí, não tem como contratar. Ele só vem com o tempo. Hoje, Ricardo Drubscky foi demitido do Vitória, porque segundo a diretoria do clube baiano, o time não vinha convencendo em campo. Ricardo só tinha um mês de trabalho. Depois da demissão, Ricardo disse: “Eu não consigo ver um trabalho com alguma substância com menos de três meses.”

Parece muito? Pois já vi treinadores consagrados dizendo que às vezes precisa de um ano inteiro. A hora agora é de paciência.

Tupi 0 x 3 Cruzeiro – Comendo pelas beiradas

Comendo pelas beiradas

Já era sabido qual era o onze que Marcelo Oliveira iria mandar a campo em Juiz de Fora. Restava saber em que formação tática, já que não havia nenhum meia “de ofício” no time. Se a formação não foi surpresa, a escalação de Bruno Edgar pelo lado direito foi. E como bom ponteiro, ajudou a abrir espaço pelos lados, de onde o Cruzeiro construiu rapidamente o placar, administrando na segunda etapa.

Sistemas iniciais

Times no 4-2-3-1, mas o Cruzeiro com uma linha de meias "torta" devido ao posicionamento estreitado de Bruno Edgar, o que acabou por confundir a marcação do lado esquerdo da defesa do Tupi

Times no 4-2-3-1, mas o Cruzeiro com uma linha de meias “torta” devido ao posicionamento estreitado de Bruno Edgar, o que acabou por confundir a marcação do lado esquerdo da defesa do Tupi

Mesmo com os reservas, Marcelo Oliveira não abriu mão da sua formação predileta, o 4-2-3-1, mas devido às características dos jogadores, principalmente de Bruno Edgar, o time variava bastante para um 4-3-1-2, e às vezes ficava num 4-2-3-1 “torto”. O goleiro Rafael teve o retorno de Mayke à lateral direita, a estreia de Pará do outro lado e Manoel e Bruno Rodrigo na zaga central. Mais à frente, Willian Farias protegia a área, com Eurico a seu lado esquerdo ligeiramente mais solto. Bruno Edgar variava entre a ponta direita e o centro, deixando Joel mais aberto pela esquerda e Judivan centralizado para se juntar a Dourado na frente.

Já o treinador Felipe Surian armou o Tupi num 4-2-3-1, mas com problemas pelos lados. A meta de Glaysson foi protegida pelos zagueiros Sílvio e Mailson, com Osmar no flanco direito e Fabrício Soares no esquerdo. Genalvo e Noé faziam a proteção e davam suporte a Marcos Goiano, o meia central. E os ponteiros Ygor, pela direita, e Danilo, do outro lado, tentavam achar o centroavante móvel Daniel Morais.

Espaço pela direita

A partida começou com o Tupi tentando atacar o flanco direito do Cruzeiro, talvez tentando explorar uma eventual inexperiência ou insegurança do jovem estreante jovem Pará. Tanto o lateral Osmar como o ponteiro Ygor insistiram muito por aquele lado, também porque Fabrício Soares era um zagueiro improvisado na lateral esquerda e ficava naturalmente mais contido.

Com isso, sobrava para Danilo dar amplitude pela esquerda no ataque juiz-forano. Ele tinha também a incumbência de dobrar a marcação pela direita, mas a movimentação de Bruno Edgar confundiu a defesa do Tupi. Danilo frequentemente ficava muito estreito, deixando o corredor livre para Mayke se juntar a Bruno Edgar e fazer dois contra um em Fabrício Soares. Assim o Cruzeiro chegava naturalmente por aquele lado e conseguiu bons cruzamentos; em um deles, Bruno Edgar achou Henrique Dourado na área, que tomou à frente de seu marcador para cabecear e abrir o placar.

O lado esquerdo

Do outro lado, Pará tinha que ficar naturalmente mais contido, tanto em função do ímpeto do Tupi quanto em função da pouca ajuda que recebia de Joel. Mas isso não intimidou o garoto, que fez um ótimo movimento ao escapar despercebido pela recomposição de Ygor e receber a maravilhosa inversão de Mayke em cobrança de falta. Com isso, o lateral teve que sair na cobertura e deixou Joel com o outro zagueiro, matando a sobra. Com a zaga no mano a mano, Mailson tentou tomar a frente de Henrique para interceptar o excelente cruzamento de Pará, mas jogou contra a própria meta.

Aqui o momento em que Mayke faz a inversão de bola que originou o segundo gol: note a ótima ultrapassagem de Pará e os ponteiros do Tupi fora de posição

Aqui o momento em que Mayke faz a inversão de bola que originou o segundo gol: note a ótima ultrapassagem de Pará e os ponteiros do Tupi fora de posição

Com o segundo gol, o Cruzeiro tirou o pé. Natural para um time que tem grande vantagem no placar, e ainda mais um que joga poucas vezes juntos. Depois da parada técnica e da conversa com os treinadores, os times se “arrumaram” em campo: Danilo e Bruno Edgar permaneciam mais abertos. Mas Fabrício Soares continuava não subindo, fazendo o time da casa naturalmente continuar preferindo jogar em cima de Pará. Mas o Tupi só conseguiu chegar mesmo por ali em jogada de calcanhar de Ygor para Osmar, que não foi acompanhado por Joel. O lateral achou Daniel Morais, mas o camisa 9 chutou pra fora.

Intervalo

O Tupi voltou do vestiário com duas alterações. Felipe Surian trocou Ygor por Rafael, tentando atacar ainda mais o lado esquerdo celeste. Já o volante Noé deu seu lugar ao meia Bruno Arrabal, para qualificar o passe tanto na saída quanto na criação. O Cruzeiro voltou com a mesma formação, mantendo o 4-2-3-1 mais claro, com Bruno Edgar efetivamente como ponteiro direito, alinhado a Judivan e Joel.

Já após a parada técnica no 1º tempo e também no segundo, o Cruzeiro voltou ao 4-2-3-1 "tradicional": B.Edgar mais aberto e alinhado a Joel e Judivan, aqui mais projetado para um eventual duelo aéreo no tiro de meta de Rafael

Já após a parada técnica no 1º tempo e também no segundo, o Cruzeiro voltou ao 4-2-3-1 “tradicional”: B.Edgar mais aberto e alinhado a Joel e Judivan, aqui mais projetado para um eventual duelo aéreo no tiro de meta de Rafael

As alterações do Tupi funcionaram e o time da casa começou a ter muito volume, embora sem ameaçar de verdade a meta de Rafael, com exceção de um chute de longe de Daniel Morais. Marcelo Oliveira, como é de costume, quis então dar fôlego novo ao ataque para não deixar o Cruzeiro sem intensidade. Primeiro colocou Fabiano na vaga de Mayke, que ainda não tinha fôlego para 90 minutos, e logo depois, lançou Neílton na vaga de Joel, na mesma função de ponteiro esquerdo.

E logo na sua primeira jogada, Neílton recebeu de Judivan e avançou pela esquerda; Pará fez a ultrapassagem puxando a marcação de Sílvio e deixou Osmar sozinho contra Neílton e Judivan. Quando Genalvo chegou, Neílton já tinha passado a Judivan na frente, que ficou cara a cara com Glaysson. Dessa vez, ele não foi fominha e deu de volta pra Neílton, que não foi acompanhado por Genalvo e ficou livre dentro da área para fazer o terceiro. Um belo exemplo de gol coletivo, que demonstra como a movimentação dos jogadores pode desmontar um sistema defensivo bem postado.



As últimas trocas

Times no 4-2-3-1 até antes da expulsão de Maílson. Após o vermelho, o volante Genalvo recuou para a zaga

Times no 4-2-3-1 até antes da expulsão de Maílson. Após o vermelho, o volante Genalvo recuou para a zaga

O terceiro gol definiu a partida, que seguiu praticamente num piloto automático. Marcelo Oliveira aproveitou essa situação e promoveu a estreia de Gabriel Xavier, na vaga de Judivan, também na mesma função de meia central. O treinador celeste revelou depois do jogo que a ideia era segurar a bola, e GX fez isso muito bem, e ainda teve uma chance de marcar o seu, mas desperdiçou.

Felipe Surian, de sua parte, lançou Marcinho na vaga de Danilo, enfiando mais um atacante para tentar diminuir o prejuízo. Mas com tantos atacantes que não recompunham, o Cruzeiro tinha espaço para tocar a bola, a ponto de fazer a torcida gritar “olé”. Num dado momento, o time celeste chegou a ficar com a bola nos pés durante mais de um minuto, numa jogada que rodou a defesa inteira, passando pelo meio-campo e culminando numa finalização de Pará.

A expulsão do zagueiro Mailson, que saiu numa cobertura tão atabalhoada a ponto de atingir Pará já no campo de ataque, assentou a partida de vez. Genalvo recuou para a zaga, o Cruzeiro se limitou a puxar mais “olés” da arquibancada, e o Tupi não ameaçou mais até o fim do jogo.

A capacidade do elenco

A partida foi excelente para avaliar o nível verdadeiro do elenco celeste. Muitos jogadores se destacaram nessa partida, principalmente os jovens: Pará teve muita personalidade na lateral esquerda, mesmo sob pressão de dois jogadores; Eurico foi bem na marcação mas ainda tem a evoluir, particularmente no passe; Bruno Edgar mostrando ter muita versatilidade, caraterística de jogadores modernos; Judivan com boa penetração na área, mas tem que ser um pouco mais coletivo; e Neílton entrando com muita intensidade pelo lado esquerdo. A destacar também a partida de Henrique Dourado, que faz muito bem o primeiro combate, será excelente sombra para Damião.

Entretanto, também não se pode empolgar tanto. Por mais que os adversários do Campeonato Mineiro sejam bons times e estejam bem armados, não estão no mesmo nível das equipes que o Cruzeiro enfrentará nas grandes competições. O estadual está, neste ponto, servindo ao seu propósito: observação de jogadores e preparação do time.

Para a semana dura que chega, com a estreia em casa pela Libertadores o clássico no fim de semana, Marcelo terá um bom time. Mas é como diz aquele ditado: times ganham jogos, elencos ganham campeonatos. A vitória sem sustos foi uma prova inequívoca disso.

U. Sucre 0 x 0 Cruzeiro – Faltou pouco (e não foi ar)

Na estreia pela Libertadores, o Cruzeiro subiu a cordilheira e usou uma estratégia inteligente para minimizar os efeitos da altitude: dosar a intensidade. Para isso, tentou fechar os espaços e sair em velocidade, algo pouco comum nos últimos dois anos. Mas com o desenrolar do jogo, o time foi lentamente tendo mais posse de bola, mas não conseguiu se adaptar por completo à maior velocidade da bola na altitude e acabou voltando da Bolívia com apenas um ponto.

Formações iniciais

Cruzeiro no 4-2-3-1 com ponteiros recuando, desenhando duas linhas de quatro para partir em contra; Universitario no 4-3-3, com Silvestre livre e Cuesta articulando

Cruzeiro no 4-2-3-1 com ponteiros recuando, desenhando duas linhas de quatro para partir em contra; Universitario no 4-3-3, com Silvestre livre e Cuesta articulando

O Cruzeiro de Marcelo Oliveira não tinha nenhuma surpresa. O 4-2-3-1 costumeiro tinha Fábio no gol, Fabiano e Mena nas laterais e Léo e Paulo André no miolo de zaga. No suporte, Henrique e Willian Farias marcavam por dentro, com Willian e Marquinhos recompondo pelos lados. De Arrascaeta ficava ligeiramente mais atrás de Damião, ambos centralizados.

Já o Universitario do “DT” Julio Baldivieso entrou num 4-3-3 clássico: triângulo de base alta no meio-campo. Protegendo o gol de Robles, a linha defensiva tinha Ballivián pela direita, Filippetto e Barón no miolo e Camacho pela esquerda. No vértice baixo, o volante Silvestre fazia a saída, tendo Ribera mais contido para liberar Cuesta. À frente, Palavicini era o centroavante, com Bejarano pela direita e Castro pela esquerda.

Cruzeiro esperando

A partida começou com o Universitario mais com a bola, como esperado, por estar em casa. O Cruzeiro não pressionava alto, marcando a partir do meio-campo, esperando o avanço do time boliviano. Os ponteiros Marquinhos e Willian se alinhavam a Willian Farias e Henrique formando uma segunda linha de quatro, deixando De Arrascaeta e Damião à frente. Essa segunda linha fazia bem o trabalho de fechar as linhas de passe, deixando os zagueiros do time boliviano sem opções.

Pouca compactação

Porém, em alguns momentos, o Cruzeiro subia a pressão, mas só com o quarteto de frente. Os volantes não acompanhavam, e a linha defensiva ficava quase sempre mais próxima da área de Fábio, talvez porque era composta por jogadores lentos, e correr pra trás em lançamentos profundos por cima era um perigo. Isso “dividia” o time em dois, deixando um espaço entre o sexteto defensivo e os quatro da frente. Se a pressão não funcionava, os bolivianos achavam um passe nesse espaço e se aproximavam muito da área de Fábio.

Felizmente, os defensores foram bem e conseguiam neutralizar quase todas as investidas do Universitario. Henrique foi disparado quem mais teve recuperações de bola na partida, com 7 (dados da Conmebol). Paulo André e Léo venciam quase todos os duelos aéreos, e os laterais fizeram boa partida defensivamente, principalmente Mena, que tinha menos a ajuda de Willian do que Fabiano a de Marquinhos.

Dados da Conmebol mostram Cruzeiro roubando muito a bola: 21x2; só Henrique roubou 7

Dados da Conmebol mostram Cruzeiro roubando muito a bola: 21×2; só Henrique roubou 7

Transição rápida

Quando roubava a bola, a tentativa era sempre de resolver a jogada o mais rápido possível. Mas isso também era afetado pela altitude: com o ar mais rarefeito, a bola fica levemente mais rápida. E os jogadores não conseguiam acertar o tempo do passe, ou a força a aplicar na bola.

Um lance no primeiro tempo (aos 9 segundos do vídeo abaixo) exemplifica bem isso: De Arrascaeta mandou de primeira para Willian na esquerda, que ficou livre. Mas a bola foi um pouco mais longe que o ideal, fazendo Willian correr um pouco a mais pra recolher a bola e atrasar o tempo da jogada. Aí Willian esperou Damião entrar na área para executar o passe, mas novamente a bola foi um pouco mais rápida que o bigode queria, e Damião chegou atrasado.



Segundo tempo

No intervalo, Marcelo tirou Willian Farias por causa de um cartão amarelo desnecessário e lançou Willians. Além disso, ajustou melhor o posicionamento pra não dar tanto espaço na entrelinha. Assim, o jogo seguiu da mesma forma, mas o Universitario dessa vez não conseguia mais se aproximar tanto da área de Fábio, se limitando a tentar cruzamentos aéreas a partir da intermediária.

Com isso, o Cruzeiro passou a ter mais posse de bola e conseguia chegar, mas pecou no último passe ou na finalização. Damião teve pelo menos duas chances, assim como de Arrascaeta, no seu último lance antes de ser substituído. Foi uma troca estranha a princípio, mas Marcelo explicou na coletiva pós-jogo que avaliou o uruguaio como um dos mais afetados pela altitude, não fisicamente mas tecnicamente.

Judivan + laterais expostos

Quem entrou em seu lugar foi Judivan, e a ideia de Marcelo era tanto marcar o volante Silvestre, vértice baixo do triângulo de meio do 4-3-3 boliviano, quanto dar velocidade na transição, já que o Cruzeiro conseguia roubar a bola até com certa facilidade.

Porém, à essa altura do jogo, Willian já não recompunha tão bem e expunha Mena ainda mais pelo lado esquerdo ao avanço do lateral Ballivián. Do outro lado, Marquinhos ainda conseguia voltar, mas também não marcava com mesmo afinco, deixando Fabiano no dois contra um. Marcelo então viu o problema e tentou corrigir com Joel na vaga do bigode, pelo lado esquerdo.

Um a menos

No fim, Cruzeiro com um a menos se postou num 4-4-1, mas não foi ameaçado, conseguindo até equilibrar na posse de bola

No fim, Cruzeiro com um a menos se postou num 4-4-1, mas não foi ameaçado, conseguindo até equilibrar na posse de bola

Teria sido uma boa alteração, pois os jogadores de fôlego renovado poderiam dar a velocidade que o Cruzeiro precisava para chegar com qualidade ao gol de Robles. Mas Joel só ficou 6 minutos em campo, expulso com o vermelho direto após uma entrada desnecessária no campo de ataque.

Com um a menos, Judivan saiu do centro e foi pra ponta esquerda, fazendo duas linhas de deixando apenas Damião à frente: 4-4-1. Uma pressão do time da casa era esperada, mas ela não veio, e mesmo com um a menos, a posse de bola foi equilibrada, com o Cruzeiro ameaçando a área do Universitario. Judivan não teve muita disciplina para recompor e deixou o lado esquerdo exposto, com Henrique se desdobrando para cobrir, mas o gol de Fábio não foi mais seriamente ameaçado até o fim do jogo.

Foi bom, mas poderia ter sido melhor

A estratégia usada pelo Cruzeiro em Sucre foi acertada, distribuindo o fôlego ao longo dos 90 minutos para não cansar antes da hora e correr riscos. Nesse ponto, o time foi surpreendeu positivamente, pois no fim parecia que poderia engrenar e chegar ao gol da vitória. Mas duas coisas frearam este movimento: a expulsão de Joel e a saída de De Arrascaeta.

O camaronês — que não parece, mas é mais jovem que Alisson e Mayke, por exemplo — entrou pilhado demais na marcação e acabou prejudicando o time com sua saída. Mesmo com um a menos, o Cruzeiro conseguiu ter alguma posse, o que dá a medida que com onze em campo, poderia ter feito uma pressão no fim.

Já a saída do também jovem uruguaio fez o Cruzeiro ser mais intenso com Judivan, numa tentativa de gastar o resto de oxigênio até o fim da partida e se impor fisicamente. Isso até aconteceu, mas sem o camisa 10, o time ficou pouco com a bola nos pés, acelerando muito. De Arrascaeta talvez pudesse ser o jogador que desse cadência, fazendo os bolivianos correrem atrás na marcação. Mas não dá pra ser engenheiro de obra pronta, criticando depois do acontecido. Naquele momento, Marcelo tinha de tomar uma decisão, e tomou.

Fica a impressão positiva de que o Cruzeiro foi um time tranquilo, sem pressa nem pilha excessiva, o famoso “espírito de Libertadores” (exceção feita à Joel). Se continuar com essa solidez defensiva, ajustando alguns pontos aqui e ali, e também evoluir ofensivamente, como é a tendência com o maior entrosamento, o Cruzeiro só tem a crescer.

Para o temor dos rivais.

Cruzeiro 3 x 0 Boa – Tranquilidade visando a estreia

O Cruzeiro segue evoluindo. Na partida de sábado, mostrou mais movimentação e entrosamento quando tinha a bola nos pés, o que ocorreu em grande parte do tempo. Sem a bola, foi pouco testado, devido à postura reativa e ao sistema de marcação que o Boa usou. Com grande atuação de Damião, que marcou dois e deu passe pro outro, o Cruzeiro ficou tranquilo durante toda a partida — algo que dificilmente acontecerá na partida de quarta-feira na Bolívia.

O onze inicial

Cruzeiro no 4-2-3-1 costumeiro, contra um Boa usando perseguições individuais por todo o campo e um zagueiro na sobra

Cruzeiro no 4-2-3-1 costumeiro, contra um Boa usando perseguições individuais por todo o campo e um zagueiro na sobra

Marcelo Oliveira promoveu a estreia de Paulo André no lado esquerdo da zaga, na parceria com Léo. Além deles, a linha defensiva do goleiro Fábio tinha Fabiano pela direita e Mena pela esquerda. Na proteção, Willian Farias e Henrique se alternavam nas raras tentativas de suporte ao quarteto ofensivo, que tinha Marquinhos à direita, Willian à esquerda, De Arrascaeta central e Damião na referência, completando o 4-2-3-1 quase imutável de Marcelo.

Já o Boa do técnico Ney da Mata veio num teórico 4-3-2-1, mas o desenho era muito bagunçado pela escolha do sistema de marcação, como veremos a seguir. O gol de Douglas foi protegido por Arlan à direita, Éverton Sena e Matheus Ferraz no miolo e Marinho Donizete pela esquerda. À frente da zaga, Gilson era flanqueado por Leonardo e Mardley, deixando Hiltinho e Natan um pouco mais recuados em relação ao Daivison, o centroavante solitário.

Perseguições individuais do Boa

Chamei o sistema do Boa de 4-3-2-1, mas poderia chamá-lo também de 4-1-4-1, porque cada jogador tinha o seu adversário destacado para marcar, com o zagueiro Matheus Ferraz na sobra. Os duelos só trocavam quando a jogada iniciava com os jogadores do Cruzeiro em posições diferentes; por exemplo, se Willian e Marquinhos invertiam de lado, Leonardo pegava o baiano e Mardley marcava o bigode.

O problema com esse sistema de marcação é que um drible ou uma escapada já deixa um jogador livre para avançar, matando a sobra. Ou então, numa transição defesa-ataque veloz, com os jogadores sem estar “encaixados” na marcação individual, gerando superioridade numérica. O Boa usou este sistema até o fim do jogo, e em vários momentos expôs seu goleiro a situações de perigo por causa destes problemas.

O primeiro gol é um bom exemplo: pressão pelo lado direito na saída do Boa e Léo intercepta e já aciona Arrascaeta pela direita, livre da marcação de dois adversários e com muito campo pra avançar. O uruguaio carregou e inverteu para Damião, já no mano a mano com Éverton Sena. O camisa 9 girou e esperou a chegada de Msdarquinhos, mandando por cima de Mardley, que vinha tentando acompanhar o baiano. Sem marcação, Marquinhos fuzilou mesmo sem ângulo.

Flagrante dos encaixes individuais do Boa: laterais do Cruzeiro dando amplitude e ponteiros procurando o centro, sendo perseguidos por seus marcadores designados

Flagrante dos encaixes individuais do Boa: laterais do Cruzeiro dando amplitude e ponteiros procurando o centro, sendo perseguidos por seus marcadores designados

O problema da saída de bola e a posse inócua

De certa forma, a escolha por esse sistema facilitou o trabalho da defesa celeste. Isso porque o Boa esperava o Cruzeiro errar um passe para partir em contra, mas com pouca gente. Assim, a defesa rechaçava as investidas do Boa facilmente, recuperando a bola. O Boa então voltava para o modo de perseguições individuais, mas sem pressionar alto. Com isso, os zagueiros ficavam trocando passes entre si, até um deles tentar o passe longo, ou o lateral vir buscar mais atrás, momento em que era pressionado pelo lateral adversário.

Henrique e Willian Farias também tentavam ajudar na saída, mas também não conseguiam achar os companheiros, todos marcados individualmente. Esse problema também era sentido na transição defesa-ataque veloz, também conhecida como contra-ataque: se a bola era roubada no campo de defesa e o Cruzeiro tentava acelerar, o jogador com a bola ficava sem opções de passe e logo tinha que parar o avanço e usar o passe de retorno, voltando ao modo anterior.

Cruzeiro no campo de ataque

Porém, quando o Cruzeiro finalmente conseguia chegar perto da área adversária, as coisas fluíam melhor. Houve mais mobilidade, principalmente em relação aos jogadores atrás de Damião: Willian e Marquinhos apareciam por dentro para participar da construção junto com Arrascaeta, que também procurava as pontas. Damião também saía da área para abrir espaços, e Mena e Fabiano avançavam, o primeiro melhor que o segundo.

Mas se a bola era perdida, o Cruzeiro fazia uma de duas coisas: ou pressionava alto com uma linha de quatro, com os ponteiros alinhados a Damião e Arrascaeta, ou recuava e deixava apenas o uruguaio e o centroavante à frente. Ou seja, ou se desenhava num 4-2-4, ou num 4-4-2 em linhas.

A primeira abordagem dificultava muito o primeiro passe do Boa, mas se o time de Varginha conseguia passar desse primeiro combate, achava muito espaço, pois os volantes e a linha defensiva não subiam a pressão junto, deixando o time pouco compactado. Já o segundo modo reduzia mais o espaço entrelinhas, mas o ponteiro do lado oposto da bola não recuava até a linha dos volantes, preferindo ficar alto próximo ao lateral adversário.

Tudo quase igual

Mesmo do segundo gol, a postura das duas equipes não se alterou. O Boa continuou marcando individualmente, esperando no campo de defesa, enquanto o Cruzeiro ficava com a bola, mas sem a verticalidade do ano passado, pouco incisivo. Veio o intervalo e com ele a entrada Ualison Pikachu na vaga de Natan, numa tentativa de Ney da Mata de melhorar a articulação. O sistema de marcação permaneceu o mesmo, no entanto.

Passava o tempo e o panorama não mudava, mas o Cruzeiro já não ficava mais tanto com a bola, muito por causa da vantagem no placar. As investidas do Boa eram facilmente repelidas, mas o Cruzeiro também não encaixava seus ataques. Marcelo então resolveu agir com Judivan na vaga de Marquinhos, que tinha acabado de ser advertido.

Flagrante do 4-2-3-1 em fase defensiva, num momento em que o Cruzeiro dava campo ao Boa: Judivan, aqui invertido com Willian, não acompanhou o lateral e deixou estourar 2 contra 1 em Mena

Flagrante do 4-2-3-1 em fase defensiva, num momento em que o Cruzeiro dava campo ao Boa: Judivan, aqui invertido com Willian, não acompanhou o lateral e deixou estourar 2 contra 1 em Mena

E quase na sua primeira jogada, mais uma vez o problema da marcação individual por função apareceu: Judivan venceu seu marcador, que não por coincidência, era o mesmo Mardley que marcou Marquinhos no 1º tempo. De frente para a área, viu Damião se descolar de Éverton Sena e cruzou na medida para o cabeceio certeiro do camisa 9, no contrapé de Douglas.

Boa perigoso e a resposta de MO

No fim, o Cruzeiro apenas protegeu sua enorme vantagem no placar e partia em contragolpes, principalmente pelo lado esquerdo com Mena e Judivan

No fim, o Cruzeiro apenas protegeu sua enorme vantagem no placar e partia em contragolpes, principalmente pelo lado esquerdo com Mena e Judivan

Ney da Mata trocou de centroavante, Daivison por Alexandre, assim como Marcelo Oliveira. Damião saiu sob aplausos para a entrada de Dourado. Depois, no Boa, Mardley deu seu lugar a Éverton Ferrão. Nesse momento, o Boa foi pra cima e o Cruzeiro não respondia, talvez com seus defensores já se poupando para a estreia na Libertadores em Sucre.

Marcelo não gostou nada disso e lançou Joel na vaga de Willian, invertendo Judivan de lado. Joel protegeu melhor Fabiano e ainda deu mais intensidade pela direita. Judivan fez o mesmo com Mena pela esquerda, combinando bem em três jogadas de contra-ataque que quase resultaram em gol, um do próprio Judivan e dois de Henrique Dourado. Mas infelizmente não aconteceram, e nada mais aconteceu na partida.

Ok, mas e para quarta?

Impossível negar que o Cruzeiro melhorou. Teve mais mobilidade na fase ofensiva, pressionou melhor quando perdia a bola e se defendeu bem quando era atacado. Porém, muito disso se deveu à estratégia adotada pelo time de Varginha, de esperar no seu campo e usar perseguições homem a homem por todo o campo. O sistema defensivo não chegou a ser testado verdadeiramente.

Para o jogo de quarta pela Libertadores, que é o que realmente importa, o Cruzeiro deve enfrentar uma situação diferente. Jogando em casa e tentando usar a altitude a seu favor (ainda que Sucre não seja tão alto), o Universitario deve atacar bem mais o Cruzeiro. Dessa forma, apesar da evolução, podemos esperar um jogo duríssimo na Bolívia. Pessoalmente, acredito em um Cruzeiro com pouca posse de bola, mas que assim que recuperá-la, fará tentativas de resolver a jogada o mais rápido possível. De certa forma, a questão da saída de bola fica amenizada com essa estratégia.

Marcelo Oliveira já declarou que quer um Cruzeiro mais competitivo, brigando mais nos momentos sem a bola, mas sem deixar de atacar. Principalmente nos jogos fora de casa. Acredito que o treinador saberá usar a melhor estratégia para este jogo, até mesmo por estar mais experiente na competição. E mais do que ninguém, ele tem que saber que este grupo não é tão fácil como a imprensa gosta de alardear. Pode ser menos difícil, mas ainda assim é muito difícil.

Que os jogadores também tenham essa consciência, e sejam competitivos como a Libertadores pede e merece. Que seja o início do tri.