Cruzeiro 1 x 2 América/MG – O problema nunca foi o esquema

Num ímpeto desorganizado, o Cruzeiro está fora das finais do Mineiro 2012 devido a uma excelente execução tática do América.

A formação inicial titular do Cruzeiro, com os dois meias que a torcida tanto queria, mas sem força pelo lado esquerdo

Vágner Mancini tinha todo o elenco à disposição, à exceção de Walter, e optou por entrar com o tradicional 4-2-2-2 que a torcida tanto pediu, com Roger e Montillo servido Anselmo Ramon e Wellington Paulista, deixando Wallyson de fora. Givanildo só não pôde contar com o lateral esquerdo Pará, lançando o jovem Bryan em seu lugar. No resto do time, sem mistério: o mesmíssimo 4-3-1-2 do primeiro jogo das semifinais.

Logo no início do jogo, o Cruzeiro mostrou sua proposta: atacar e muito. Anselmo Ramon recebeu de costas, girou e bateu pra fora. Seria um sinal do que o jogo seria. Mas logo no início o Cruzeiro sofreu um golpe: Rodriguinho recebeu na esquerda, ganhou no mano-a-mano com Diego Renan e conseguiu um cruzamento. Victorino estava na marcação de Alessandro, e atrapalhado pelo americano, cabeceou contra a própria meta.

Com a vantagem, o América se fechou ainda mais e se preocupava mais em defender do que incomodar em contra-ataques. Assim, deu campo ao Cruzeiro, que chegava até a intermediária até com certa facilidade. O time tinha mais posse de bola (chegou a 60% na metade do primeiro tempo), mas esbarrou no mesmo problema dos últimos jogos: a falta de criatividade no meio. Mesmo com Roger e Montillo em campo, ainda havia algum espaço entre os defensores e atacantes, sendo que Roger estava no primeiro grupo e Montillo no segundo. Roger mais uma vez afundou entre os volantes para fazer a bola rodar, cadenciar o jogo. Mas os outros jogadores pareciam não querer cadenciar e queriam resolver logo. WP e AR mal pegavam na bola e finalizavam, muitas vezes sem estarem em boas condições para isso.

Montillo, por sua vez, novamente teve Dudu em seu encalço. Recentemente ele disse que, no esquema com três atacantes, era mais difícil fugir do homem-a-homem, pois havia pouco espaço pelos lados, já que os pontas ocupam estes setores. No jogo de hoje, o argentino de fato participou mais do jogo e tentou sim cair pelos lados, mas esteve longe de ser o jogador decisivo de outros jogos. Dudu fez um excelente jogo e reduziu muito a efetividade do camisa 10.

Anselmo Ramon, como de costume, jogou enfiado entre os zagueiros, mas a bola chegou pouco a ele. WP caía pela direita e tinha a marcação direta de Bryan, com a cobertura de Leandro Ferreira. Não chegou a ser anulado, mas também não foi efetivo. Roger, quando subia (e, por vezes, até quando recuava) era vigiado pelo mesmo Leandro Ferreira, que forçava o camisa 7 a se livrar logo da bola. Sobrava sempre para Leandro Guerreiro e Marcelo Oliveira, que não fizeram um bom jogo ofensivamente. O último errou muitos passes e esteve longe de sua forma usual.

O jogador mais lúcido era Everton. Mas, como já dito neste espaço antes, ele tem tendência a centralizar, pois é meia de formação. Portanto, a ponta esquerda do Cruzeiro foi um setor pouco utilizado no primeiro tempo. Uma indicação disso é que o Cruzeiro teve 26% de sua posse pela esquerda do meio-campo, mas apenas 9% pela esquerda no ataque. Mesmo assim, foi dele a jogada do pênalti que WP conseguiu desperdiçar para vestir a camisa do Inacreditável Futebol Clube.

Sem criatividade e afobado nas jogadas pelo chão, restou ao Cruzeiro fazer o chuveirinho na área, para tentar aproveitar a boa presença de área de Anselmo Ramon e Wellington Paulista. Foram 13 cruzamentos no primeiro tempo, somente dois certos (no segundo tempo o Cruzeiro errou todos os 13 cruzamentos que tentou). De tanto insistir, o Cruzeiro chegou ao empate, não numa jogada aérea, mas na presença de área de WP. Diego Renan disputou uma bola pelo alto com o zagueiro, a bola foi em direção ao zagueiro Gabriel, que, ao tentar cortar o lance, acabou jogando para trás dando um presente para o camisa 9, que desta vez fez o gol.

O gol deu mais ânimo para o Cruzeiro, mas o América, com a cabeça fria, resolveu manter um pouco mais de posse. E para seu próprio espanto, conseguiu e até criou algumas chances. Porque este é o diagnóstico do Cruzeiro das últimas partidas: um time que passa aperto quando o adversário resolve manter a posse, já que deixa jogar, e somente consegue levar mais perigo se o adversário chamar o Cruzeiro para seu campo e abdicar do ataque. Foi assim contra o Uberaba, contra o Atlético/MG e na ida contra o América, quando o Cruzeiro só conseguiu gols na base da vontade, mas não em jogadas construídas e trabalhadas. Protagonismo, só quando o adversário quis.

Na saída para o intervalo, o meia Rodriguinho do América resumiu bem: “temos que manter mais posse na frente para que o Cruzeiro não tenha tanto volume”. E foi realmente isso o que houve no primeiro tempo: muito volume, mais posse (54%), mas pouco eficaz (4 finalizações certas de 13 tentativas).

Não houve alterações no intervalo, mas o Cruzeiro voltou a campo num losango, com Roger pela direita e LG na proteção à zaga. Num primeiro momento, o novo posicionamento até parecia dar certo, pois aso 4 minutos o América fazia uma marcação bem alta, e o Cruzeiro conseguiu sair numa linha de passe pelo chão sem dificuldades. A bola chegou a Everton na esquerda, que foi para o meio com a bola e, ao perceber que não havia ninguém na direita para o passe (Diego Renan estava mais preso hoje) resolveu ir ele mesmo até receber uma falta na entrada da área. Roger mandou no travessão.

Mas não demorou muito para o Cruzeiro começar a errar na saída de bola e o América aproveitar estes erros. Em um deles, Moisés recebeu uma bola livre na direita (Everton não estava por ali) e centrou para Alessandro completar. A bola caprichosamente bateu nos pés de Fábio, que já estava vencido, e ficou viva na frente do gol. Diego Renan tirou em cima da linha.

Vágner Mancini lançou Wallyson na vaga de Marcelo Oliveira. Com isso, Everton foi para o meio-campo, Diego Renan inverteu de lado e Wallyson foi jogar na ala direita. Sem a bola, Leandro Guerreiro afundava entre os zagueiros, empurrando Leo para a direita, desenhando um 4-3-3, com Roger ao lado de Everton e Montillo mais avançado à frente. Com ela, Guerreiro saía para fazer a primeira bola do 3-4-3 losango. Givanildo percebeu que o Cruzeiro era vulnerável na recomposição e lançou Bruno Meneghel no lugar de Alessandro para puxar os contra-ataques.

Aos poucos, o Cruzeiro começou a ter mais e mais dificuldade de saída de bola, já que o América recuava cada vez mais e fazia uma marcação perfeita. Para além da linha do meio-campo, os jogadores azuis tinham pouquíssimo espaço. WP não conseguia vencer Rodrigo Heffner pela esquerda e tinha que recuar ainda mais para tentar participar do jogo, mas era improdutivo. Wallyson até ganhava de Bryan pela esquerda e tinha chances, mas sua opção de passe era sempre ruim (ou inexistente, já que os atacantes se posicionavam na pequena área para concluir pelo alto). Dudu continuava perseguindo Montillo, que estava sumido no jogo, e Roger já estava cansado. Everton continuou sendo o melhor cruzeirense em campo, mas também errava.

Uma tentativa de explicar a formação cruzeirense após todas as alterações; meias de volante, volantes de zagueiros e zagueiro de lateral

O América levava perigo em contra-golpes e assustava, mas a pressão do Cruzeiro só aumentava. Em um dado momento, foi possível observar os 11 jogadores do América dentro da sua própria área. Mas a pressão era desordenada. Élber entrou no lugar de Diego Renan, fazendo Everton voltar para a lateral esquerda. A formação ficou um tanto confusa, uma espécie de 3-2-3-2, com Élber na esquerda, Montillo pelo meio e Wallyson na direita atrás dos dois centro-avantes. Roger era volante e nem aparecia no ataque mais. Everton subia para atacar e o Cruzeiro ficava com apenas dois defensores.

Sem sucesso, Mancini preparava Bobô no lugar de WP para dar mais estatura e força e jogar a bola na área (claramente uma estratégia de desespero). Mas foi forçado a mudar, já que Victorino levou uma cotovelada ao disputar uma bola aérea e saiu de campo sangrando. O Cruzeiro só ficou com um zagueiro de ofício em campo, e a formação a essa altura era quase impossível de entender.

O gol de Fábio Júnior, nos acréscimos, dá uma idéia disso. Na hora do lançamento, era Léo que estava encurtando em China (que havia entrado no lugar de Rodriguinho, o melhor em campo), tendo Amaral e Leandro Guerreiro mais centralizados na última linha de defesa. Amaral que não é zagueiro, sai da marcação de Bruno Meneghel, que parte em velocidade. Everton, perdido, deu condições, mas parou pedindo impedimento. Ficaram dois contra Fábio.

Léo cerca China, Amaral se “esquece” de Bruno Meneghel, já pedindo bola, e Everton, fora da imagem, dá condições

É preciso entender que o adversário foi melhor. Executou sua proposta tática com precisão e segurou o ataque sem criatividade do Cruzeiro. Mesmo com três meias e três atacantes. Ao Cruzeiro, restou a Copa do Brasil. Se não chegar ao menos em uma semi-final, pode sobrar para o técnico, e todo o trabalho de 4 meses é jogado fora (infelizmente, mas no Brasil é assim). Mas, como o título do post diz, o problema nunca foi a formação tática, mas sim sua execução.

É compreensível que 2012 seja um ano de mudanças, afinal é uma administração nova, um time novo (diferente da era Adilson Batista, na qual o meio-campo jogava junto há muito tempo). É compreensível que não seja um ano de conquistas. Mas é preciso mudar para que o ano não seja de vergonhas.

Na coletiva do fim do jogo, ao ser perguntado se o Cruzeiro iria brigar na rabeira do Brasileiro novamente, Montillo foi categórico: “No”. E, depois de uma pausa, emendou: “Tomara que no.”

Tomara que “no”, Montillo. Tomara que “no”.



Caldense 0 x 5 Cruzeiro – O laboratório ideal

Com a tarefa facilitada pela boba expulsão do atacante Max ainda no primeiro tempo, o Cruzeiro não precisou fazer força para golear a Caldense hoje em Poços de Caldas. Uma clara demonstração de que o time pode se adaptar a diferentes formações dependendo das situações de jogo encontradas.

No primeiro tempo, Cruzeiro no 4-3-3 com Anselmo Ramon na referência e atacantes abertos recompondo para formar um meio-campo com 5 homens

O Cruzeiro veio a campo com o mesmo 4-3-3 que começou as últimas duas partidas, porém com Anselmo Ramon na referência e Marcelo Oliveira na parceria com Leandro Guerreiro. A Caldense veio num tradicional 4-3-1-2, tendo Fábio Neves na articulação atrás dos atacantes Max e Luisinho.

A Caldense começou com tudo, pressionando o Cruzeiro no alto do campo, que teve que ceder a posse em alguns momentos. Porém, o Cruzeiro devolveu na mesma moeda, e em pouco tempo a bola passou a ficar mais tempo em pés azuis do que verdes. A defesa jogava avançada, para tentar empurrar o adversário em seu próprio campo, e com isso a Caldense chegou a ter algumas oportunidades de contra-ataque com o rápido Luisinho, mas sem sucesso.

Ofensivamente, o Cruzeiro tinha mais posse, mas não conseguia passar pela bem montada defesa da Caldense. O primeiro volante Mário era o responsável por marcar Montillo, mas quando o argentino saía da zona central, ele não ia atrás, a marcação mudava de jogador e a estrutura defensiva com 9 homens atrás da bola se mantinha. Assim, o time azul optou por jogadas mais agudas, de menos probabilidade de sucesso, mesmo tendo maior posse de bola. Quando perdia a posse, deixava de pressionar, numa tentativa de atrair um pouco mais a defesa da Caldense para si e jogar em velocidade.

Não foi bem assim que saiu o primeiro gol, mas a falta cobrada rapidamente por Montillo, deixando WP cara a cara com Glaysson e originando o pênalti – convertido pelo próprio atacante – ilustram a proposta de jogo dos visitantes. Atrás no placar, a Caldense tentou sair um pouco mais, avançando seus volantes e laterais, mas isso deixou espaços cruciais atrás destes últimos. E os atacantes abertos trataram de explorar este espaço: logo no minuto seguinte ao gol, Wallyson recebeu, livre, uma inversão em diagonal, numa jogada muito parecida com o segundo gol de Montillo contra o Villa Nova, e cruzou rasteiro, mas nenhum atacante aproveitou. Cinco minutos depois, foi a vez de WP emendar um cruzamento de primeira, mas para fora, também naquele setor.

A expulsão do atacante Max ainda no primeiro tempo só facilitou um jogo que já estava totalmente controlado. A Caldense não mudou o esquema, mantendo somente Luisinho à frente. Se o camisa 11 voltasse para recompor o meio, os volantes azuis tinham todo o tempo do mundo para conectar-se às variadas opções not ataque. Mas se Luisinho ficava à frente, o Cruzeiro tinha um homem a mais no meio, e assim o jogo passou a ser ataque contra defesa. Os visitantes ganhavam todas as segundas bolas, e os zagueiros Victorino e Thiago Carvalho quase não tinham trabalho.

O segundo gol veio após um escanteio cabeceado por Anselmo Ramon e defendido à queima-roupa por Glaysson. A sobra, como esperado, ficou com o lateral Marcos, que achou Montillo no meio e correu para a área, no “contra-fluxo” da defesa adversária. Marcos recebeu a devolução do argentino na medida para dar um tapa de primeira e achar três cruzeirenses livres. A defesa da Caldense acusava impedimento enquanto Victorino comemorava seu primeiro gol com a (nova e lindíssima) camisa cruzeirense.

O primeiro tempo terminou na mesma toada, com WP recebendo passe dentro da área de uma posição aberta, mas desta vez nenhum companheiro estava dentro da área.

O técnico Ademir Fonseca ainda tentou arriscar no intervalo, tirando seu principal articulador, Fábio Neves, e lançando um novo parceiro de ataque para Luisinho, Félix, mudando para um ousado 4-3-2. Mas os planos do treinador da Caldense foram por água abaixo quando Leandrão errou um passe em seu próprio campo e WP aproveitou, avançando com seus dois companheiros de ataque contra dois zagueiros apenas. A conclusão plástica de Anselmo Ramon para o cruzamento de WP resolveu o jogo, e o Cruzeiro passou a administrar. Fonseca fez mais duas alterações, mas trocando seis por meia dúzia em termos táticos, ao invés de fechar seu time e tentar evitar mais gols.

Sem necessidade de correr atrás, o Cruzeiro deixava a Caldense com a bola, sabendo que tinha todos os espaços controlados, esperando o erro do adversário. E num desses erros, o quarteto ofensivo funcionou mais uma vez. WP, aberto pela esquerda, avançou com a bola, vendo Montillo disparar para receber pelo flanco da área. Lançado, o camisa 10 passou com a facilidade que lhe é característica pelo seu marcador e cruzou na cabeça de Wallyson, livre na pequena área.

O 4-2-4 ultra-ofensivo no fim do jogo, com intenso revezamento dos homens de frente e zagueiros adiantados

O quarto gol fez Mancini abrir seu laboratório. Primeiro, tirou Leandro Guerreiro, de característica mais defensiva, para lançar Amaral, um volante que sai mais para o jogo. Marcelo Oliveira passou a ficar mais tempo recuado, e o 4-3-3 se manteve, mas mais ofensivo, algo como um 4-1-2-3. Depois, Diego Renan deu lugar ao garoto Élber, que entrou na articulação central. Marcelo Oliveira foi para a lateral esquerda e Montillo virou atacante, transformando o Cruzeiro numa espécie de 4-2-4 ultra ofensivo. O sexteto ofensivo promoveu uma intensa movimentação, se revezando nas quatro posições frontais constantemente. Além disso, Everton ainda entrou no lugar de Marcelo Oliveira na esquerda, para dar ainda mais ofensividade ao time azul.

Nesse momento, talvez a melhor descrição para a formação seja provavelmente um 2-4-4, pois o domínio era tal que não havia necessidade de os laterais recomporem a última linha de defesa. Nos últimos lances da partida, era comum ver Victorino e Thiago Carvalho além da linha do meio-campo, sem a companhia de Marcos e Everton, que avançavam para combinar aos atacantes abertos. Anselmo Ramon nem teve que saltar para cabecear o quinto gol em centro de Amaral, tal era a fragilidade do sistema defensivo do time de Poços.

Ao fim do jogo, Vágner Mancini disse na entrevista coletiva que o Cruzeiro ainda não jogou contra um adversário à altura. De fato, o resultado não pode empolgar. Contra times mais experientes, nas fases finais da Copa do Brasil e no Brasileiro, o Cruzeiro não terá tanta facilidade. Mas também disse que “o trabalho é feito para finais de campeonato”. Portanto, os jogos contra times menores – leia-se, primeira fase do Campeonato Mineiro e fases iniciais da Copa do Brasil – são o campo de experiências ideal para se chegar às grandes competições com o time formado. E um time formado é aquele que consegue jogar em diferentes esquemas táticos e diferentes situações de jogo.

Vágner Mancini vai, aos poucos, controlando as variáveis e obtendo resultados. Experimentando variações com calma, sem pressa, como um cientista. Quem sabe, no futuro, tenhamos uma máquina engenhosa. De fazer gols.



Nacional/MG 2 x 4 Cruzeiro – (Des)confiança

Os três gols de Wellington Paulista e o de Wallyson não podem nem devem mascarar uma atuação regular do Cruzeiro hoje em Divinópolis, contra o Nacional de Nova Serrana.

O 4-3-1-2 celeste do primeiro tempo, com Roger mal passando da linha de meio-campo

O Cruzeiro veio a campo com o costumeiro 4-3-1-2 losango com Roger recuado e responsável pela saída de bola, e Anselmo Ramon mais dentro da área adversário que Wellington Paulista. O Nacional veio no mesmo esquema, um 4-3-1-2 losango montado por Emerson Ávila, com Alex Maranhão articulando para Reinaldo Alagoano e Marcinho.

Porém, apesar de estarem no mesmo desenho, havia duas diferenças: a qualidade dos volantes “natos” e, principalmente, o posicionamento de Roger. Desta vez, o meia se posicionou como um volante clássico, uma mudança fundamental em relação ao jogo contra o Tupi. Sem a bola, Roger fechava o lado direito do losango, por vezes ajudando Marcos na marcação. Com a posse, ele centralizava e recuava ainda mais, frequentemente buscando a bola atrás de Leandro Guerreiro, que teoricamente seria o homem mais plantado do meio-campo. Esporadicamente, Roger subia para articular com Montillo e Guerreiro cobria, mas o meia passou a maior parte do tempo tentando criar de trás, e Guerreiro era quem subia mais frequentemente para ajudar o trabalho ofensivo, juntamente com Marcelo Oliveira.

Mesmo assim, o trabalho de criação mais uma vez não foi bom. Com Roger posicionado desta forma, o Cruzeiro consegue sair melhor para o jogo, mas peca no momento em que precisa jogar mais incisivamente, perto da área adversária. Montillo ora jogava muito enfiado – fazendo com que os volantes fossem responsáveis pela articulação – ora abria pelos lados, dificultando sua característica de jogo, que driblar em velocidade com a bola. Tanto que as melhores chances eram criadas quando o Cruzeiro retomava a posse e partia rapidamente, quando o argentino tinha espaço para correr e dois alvos à frente. A jogada do primeiro gol ilustra isto: um passe de Montillo – mais longe da área e correndo em direção a ela – para Anselmo Ramon, que trabalho de pivô e devolveu para o meia pela esquerda do ataque. O cruzamento foi desviado pelo goleiro, mas WP aproveitou a incrível falha do zagueiro e chutou em ótima posição para vencer Douglas.

O desequilíbrio entre os dois lados do time celeste ainda persiste. Na direita, Marcos mais uma vez fez uma boa partida, apoiando bem e fazendo cruzamentos certeiros, como no segundo gol. Já Diego Renan, cada vez com menos confiança por conta da perseguição da torcida, ficou muito tímido e apoiava pouco, mas fez uma boa partida defensivamente, ajudado por Marcelo Oliveira.

Com os flancos fechados, restou ao Nacional duas opções: entrar tocando ou ligação direta. A primeira era difícil de executar, pois Alex Maranhão foi bem marcado e a criação ficava por conta dos volantes do Nacional, que não são jogadores criativos. Na única vez em que conseguiu se desvencilhar, o meia colocou Reinaldo Alagoano cara a cara com Fábio, que salvou com o pé. Ademais, o time de Nova Serrana se limitou a bolas longas da defesa para o ataque, tentando pegar a defesa azul desprevenida.

Apesar de nenhuma alteração ter sido feita no intervalo, a equipe mandante avançou suas linhas para forçar o Cruzeiro a errar mais passes, além de impor velocidade na recuperação da bola. E deu certo: a defesa azul, jogando alto, tentou deixar o ataque do Nacional impedido, mas Leo deu condições e Éder finalizou um passe em profundidade para empatar. Depois disso, o Nacional ameaçou várias vezes, sempre em passes verticais que desmontavam a zaga cruzeirense. Algo estava errado e os jogadores sabiam, tanto que todos os 11 fizeram uma conferência durante um atendimento a um jogador adversário para tentar resolver a situação.

Em vão. Roger, apagado no segundo tempo (como no jogo anterior contra o Tupi) saiu para a entrada de Rudnei. O time celeste voltava ao 4-3-1-2 ortodoxo, com três volantes de ofício, mas Rudnei deu mais energia e avançava mais que Roger. O jogo ficou mais aberto, com os times procurando mais atacar do que se defender, até que numa blitz de bolas aéreas, a defesa se perdeu – é possível ver três jogadores do Cruzeiro avançando para cima do jogador da sobra, que cruzou para o zagueiro Alessandro Lopes matar a bola no peito, praticamente sozinho dentro da área, e mandar no ângulo de Fábio.

Formação após as alterações, com WP como homem de referência e M. Oliveira como lateral esquerdo fixo

Com a virada, o time da casa recuou e deu campo para o adversário. Mancini pôs Wallyson para jogar pelos flancos na vaga de Diego Renan, com Marcelo Oliveira indo fazer a esquerda, transformando um time num 4-2-1-3. Assim, WP pôde ficar mais dentro da área para jogar como centroavante de referência – posição em que fez dois gols consecutivos e iguais, em cruzamentos da direita de Marcos e Montillo, e que fizeram o Cruzeiro retomar as rédeas do jogo. Novamente atrás no placar, Emerson Ávila lançou o meia-atacante Dudu no lugar do lateral-direito Afonso, tentando criar uma ameaça para o improvisado e já amarelado Marcelo Oliveira, mas Mancini respondeu colocando Everton no lugar de Anselmo Ramon, reequilibrando o setor esquerdo. Ávila ainda tentou pressionar colocando o atacante Juninho Frizzi no lugar do volante Éber, efetivamente transformando o time num 4-2-4, mas uma bola rebatida para longe por Leo e aparentemente perdida foi recuperada por Montillo, sozinho no campo adversário, que acabou sofrendo o pênalti que sacramentou a vitória azul com a conversão de Wallyson.

Em suma, uma vitória construída primeiro pelo talento de Montillo – que deu dois passes pra gol e sofreu o pênalti – e depois pela entrada de Wallyson, que resultou em WP se posicionando dentro da área. Mas, novamente, vale ressaltar a fragilidade do adversário. O ataque foi eficiente mas não foi de encher os olhos: estamos muito presos a bolas aéres pelos flancos. É preciso construir mais jogadas terrestres e linhas de passe. Contra times mais técnicos ou mais experientes, o Cruzeiro terá dificuldades se continuar jogando assim. Já a defesa apresentou novamente ter problemas quando joga contra times que tentam impor velocidade, e não pode ficar tão perdida como ficou nos gols do Nacional. Como o próprio Vágner Mancini disse em entrevista após o jogo, a defesa é um setor que tem que passar confiança. Mas, como bons mineiros, tem muito torcedor por aí (eu inclusive) desconfiado com ela.