Democrata 1 x 2 Cruzeiro – Cedo demais

Enfim 2015 começou. Mas não da forma como gostaríamos, apesar dos três pontos em Governador Valadares contra o Democrata. Isso porque o Cruzeiro foi obrigado a estrear oficialmente na temporada sem ter todos seus jogadores à disposição. Alguns sem condições burocráticas, outros sem condições físicas.

Considerando estas ausências e o gramado ruim, o Cruzeiro até que se portou bem. Foi dominado no início até sofrer o gol, muito pela superioridade física do adversário, que começou a pré-temporada antes. Depois, sofreu com a falta de criatividade no meio-campo para furar a boa marcação. Porém, com o cansaço do Democrata e as trocas de Marcelo Oliveira, conseguiu superar essa deficiência na articulação e conseguir a virada.

Escretes iniciais

No início, o "novo velho" 4-2-3-1 do Cruzeiro diante de um 3-4-1-2 intenso do Democrata; meias tentavam buscar jogo sem sucesso e alas valadarenses pressionando a saída celeste

No início, o “novo velho” 4-2-3-1 do Cruzeiro diante de um 3-4-1-2 intenso do Democrata; meias tentavam buscar jogo sem sucesso e alas valadarenses pressionando a saída celeste

Marcelo Oliveira mandou a campo a formação já esperada pelos treinos, o mesmo 4-2-3-1 do ano passado, embora com características diferentes. A linha defensiva do goleiro Fábio teve Mayke e Gilson nas laterais, com Léo e Bruno Rodrigo no miolo. Mais à frente, Eurico teve a chance de mostrar serviço, liberando um pouco mais Henrique para se aproximar da linha de três, composta por Marquinhos à direita, Judivan por dentro e Willian à esquerda, com Damião na referência.

Já o Democrata foi armado por Gilmar Estevam num 3-4-1-2 que variava para um 3-5-2 sem a bola. O gol de Fábio Noronha foi protegido por um trio de defensores: Ricardo Duarte à direita, Rodrigo Lima centralizado e Jadson pela esquerda. Com isso, os ala direito Osvaldir e o esquerdo Denilson ficavam mais altos, na segunda linha, que tinha ainda os volantes Júlio César e Marcel. Mais à frente, um trio de atacantes, mas com Paulinho fazendo a ligação para João Paulo e Rodrigão.

Intensidade, a palavra da moda

Antes do jogo, Gilmar Estevam declarou que a diferença de condicionamento físico entre os dois times talvez fosse um fator. E logo que o jogo começou, isso ficou claro: os jogadores valadarenses se movimentavam muito para fugir da marcação da defesa celeste, e quando perdiam a bola, pressionavam para tentar forçar o chutão.

O resultado foi que o Democrata ficava muito mais com a bola no campo de ataque, rodando perigosamente a área celeste. E numa dessas, numa bola que parecia inocente pelo lado esquerdo da defesa, Osvaldir aproveitou que os marcadores do Cruzeiro estavam mais distantes e arriscou um cruzamento dali mesmo, da intermediária. Achou Rodrigão na área, que pegou de primeira com rara felicidade.

Posse estéril

Depois do gol, o Democrata arrefeceu um pouco a marcação no campo de ataque, dando o primeiro combate somente a partir da linha do meio-campo. Paulinho afundava entre os volantes, fazendo ter um jogador para cada um dos três meias do Cruzeiro, e assim os alas tinham liberdade para pressionar os laterais Mayke e Gilson. Os dois atacantes marcavam os volantes e deixavam os zagueiros do Cruzeiro livres.

Mas eles não tinham pra quem passar a bola. Eurico e Henrique conseguiam aparecer pra receber, mas logo devolviam porque também não tinham alvos. Judivan e Marquinhos começaram a recuar para tentar armar de trás, mas não tem essa característica. Em suma, faltou ao Cruzeiro no primeiro tempo fazer a ligação entre a defesa e o ataque com qualidade, seja com um meia articulador (como Éverton Ribeiro era) ou com mais movimentação.

Segundo tempo

Marcelo Oliveira resolveu dar mais tempo ao onze inicial e não fez alterações no intervalo. O segundo tempo começou como terminou o primeiro: Cruzeiro com a bola nos pés mas sem contundência, e o Democrata parecia satisfeito em apenas conter as investidas celestes. Quinze minutos se passaram até que Marcelo mudou o sistema: trocou Eurico por Joel, que foi jogar por dentro; colocou Marquinhos ao seu lado e abriu Judivan à direita. Henrique agora ficava entre duas linhas de quatro: 4-1-4-1.

Flagrante do 4-1-4-1 do Cruzeiro, com Henrique entre as duas linhas de quatro

A troca funcionou até certo ponto, até mesmo porque o Democrata já não aplicava a mesma intensidade na marcação que no primeiro tempo. Mas a nova formação também obrigava os alas valadarenses a marcarem os ponteiros celestes, já que o Cruzeiro agora não tinha mais inferioridade numérica no meio. Os espaços apareceram, também porque Joel deu certa intensidade na posse de bola, mas ainda faltava aquele toque de qualidade para deixar o companheiro na cara do gol.

Empate, recomposição e fluidez

Marcelo ainda lançou Neilton como ponteiro direito na vaga de Judivan, invertendo Willian de lado. O jovem deu ainda mais intensidade, mas continuava faltando criatividade. Gilmar Estevam respondeu com o veloz Leandro na vaga de Paulinho, numa tentativa de explorar os contra-ataques. Mas o jogo não mudou de figura.

O treinador do Cruzeiro já preparava a última substituição, que seria a entrada de Marcos Vinicius, jovem meia recém-promovido da base, mas que nunca tinha treinado sequer no time reserva. Mas mudou os planos após o gol de empate de Henrique, após Damião dar uma casquinha no escanteio cobrado por Willian. Bruno Edgar foi o escolhido, entrando na vaga de Marquinhos e recompondo o 4-2-3-1, mas desta vez com Henrique como primeiro homem de meio, como em 2014. Joel passou a jogar centralizado, Neilton na direita e Willian na esquerda.

Após o empate, o Cruzeiro se reestruturou no 4-2-3-1, e depois da virada, Joel passou para o lado pois tinha mais fôlego que Willian pra acompanhar o ala Douglas

Após o empate, o Cruzeiro se reestruturou no 4-2-3-1, e depois da virada, Joel passou para o lado pois tinha mais fôlego que Willian pra acompanhar o ala Douglas

Bruno conseguiu dar uma fluidez melhor ao meio-campo, e apenas quatro minutos depois do empate, Neilton partiu com a bola dominada, achou espaço e tentou lançar Damião, mas a bola foi desviada e acabou nos pés de Joel. O camaronês viu a movimentação de Willian às suas costas e tabelou com ele, recebendo de volta já dentro da área. A conclusão de pé esquerdo foi indefensável, e a virada tinha chegado.

Com a virada, o Democrata se lançou desesperadamente ao ataque, mas de maneira desorganizada. Perto do fim, Willian se cansou e foi para o centro, deixando Joel na esquerda para marcar o ala Douglas, que havia entrado no lugar de Osvaldir. Diante do 4-2-3-1 bem postado do Cruzeiro, o time da casa não conseguiu mais ameaçar a meta de Fábio.

Devagar com o andor

Infelizmente, ainda não se pode tirar muitas conclusões a respeito desse novo Cruzeiro. Além do gramado ruim, o forte calor e o condicionamento físico ainda não ideal, o Cruzeiro jogou em Valadares com um time misto. Sim, porque vários contratados ainda não estavam regularizados e não poderiam estrear, outros jogadores foram poupados e outros lesionados. Podemos dizer, portanto, que era uma equipe desfalcada.

Isso tudo dificulta fazer uma projeção de como o time pode jogar em 2015. Talvez as únicas conclusões que podem ser tiradas, e ainda assim sem muita convicção, são que Marcelo Oliveira pretende manter o 4-2-3-1 como sistema base, e que Henrique passará a ser o volante que sai mais para o jogo, tentando emular o papel de Lucas Silva no ano passado.

Há outras coisas que podemos inferir pelos treinamentos e amistosos, como as tentativas com Joel e Judivan como meias centrais. Mas o próprio Marcelo Oliveira já parece ter abandonado a ideia de colocar Judivan na posição, pois em entrevista recente disse achar que Judivan rende mais pelo lado. Sinal de que o treinador ainda está experimentando.

Por isso, é preciso ter paciência, sem pressão por resultados. O importante é formar o time, encaixar as características. Felizmente, porém, em Valadares o resultado veio. E isso dá confiança, que também é muito importante.



Contratações 2015: funções táticas e encaixes

Então 2014 chegou ao fim. Mas no futebol tupiniquim, já estamos em 2015 há muito tempo. Terminado o Brasileiro, a época de contratações foi aberta e o mercado se movimentou. E o Cruzeiro, é claro, não ficou parado e contratou jogadores de maneira pontual, pois a manutenção da base de 2013/14 é sem dúvida uma grande vantagem.

Mas, como de praxe, existe um certo reducionismo da imprensa — e a reboque, dos torcedores — em relação à posição e função tática dos reforços que chegam. E o Constelações tenta aqui analisar como os jogadores contratados até este 31 de dezembro podem contribuir taticamente.

Fabiano

Como vocês sabem, Fabiano é lateral-direito de origem e jogava na Chapecoense em 2014. Muita gente especulou que isso era uma precaução do Cruzeiro em relação a uma possível perda de Mayke para o futebol europeu. Não é assim que enxergo, pois Fabiano tem muito mais características defensivas, faz a linha de quatro atrás com mais qualidade e às vezes até joga de zagueiro.

No entanto, também sabe apoiar bem o ataque, ainda que não tenha o mesmo ímpeto de Mayke. Ele foi o jogador que mais deu assistências para gol na Chapecoense, e o 20º no campeonato, com 5 (números Footstats). Podemos dizer que ele é um misto entre Mayke e Ceará, mas bem mais próximo do segundo do que do primeiro.

 

Gilson

Do outro lado da defesa, o Cruzeiro tem Egídio, o titular, e Breno, contratado no meio do ano. Samudio não teve seu empréstimo renovado. Assim, com Gilson, que estava emprestado ao América, o Cruzeiro passaria a contar com três laterais esquerdos.

Mas a decisão de reintegrar Gilson pode não passar pelo setor. Pois se quando jogava no Cruzeiro, ele de fato era um lateral, no América Gilson jogou aberto pela esquerda no meio-campo, ou seja, como ponteiro esquerdo, à frente do lateral. O jogador foi o 3º geral em assistências na Série B, e ainda marcou 5 gols.

Em cima, o mapa de calor de Gilson em sua última partida na Série B pelo América/MG contra a Ponte Preta; note o posicionamento avançado em relação a Raul (embaixo), o lateral esquerdo de fato na mesma partida

Em cima, o mapa de calor de Gilson em sua última partida na Série B pelo América/MG contra a Ponte Preta; note o posicionamento avançado em relação a Raul (embaixo), o lateral esquerdo de fato na mesma partida

Joel

Destaque da sofrível campanha do Coritiba deste ano, Joel é um atacante do tipo Élber: ousado, driblador e veloz. Parte pra cima do zagueiro no um-contra-um sem medo. No time paranaense, jogava constantemente pelo lado direito na linha de três do 4-2-3-1 de Marquinhos Santos.

Como era um time feito para dar liberdade a Alex, que não tinha nenhum trabalho defensivo, Joel era obrigado a ter responsabilidades de marcação no lateral esquerdo adversário. Mas também jogava de centroavante móvel, principalmente quando o time mudava para um 4-4-1-1, no qual o Coritiba se fechava em duas linhas e deixava apenas Alex e Joel para os contra-ataques. Repare essa formação no vídeo abaixo, no gol marcante contra o São Paulo, quando ele pula a placa e cai no túnel de acesso dos vestiários:

 

Seymour

Surpresa para muitos — inclusive para este escriba, a contratação do chileno foi, ao que parece, um pedido do técnico Marcelo Oliveira para dar consistência na marcação à frente da área. Para a posição, já temos Nilton e Willian Farias, tendo ainda Eurico como terceira opção. De acordo com o noticiado, o jogador veio devido à sua experiência em torneios sul-americanos, pois foi o dono do meio-campo da Universidad do Chile de 2010/11, que encantou o continente sob o comando de Jorge Sampaoli.

Porém, depois daquele período, Seymour foi para a Itália e não rendeu o esperado. Foi emprestado pelo Genoa para o Spezia, da segunda divisão. Lá jogou alguns jogos e, dizem as notícias, foi bem. Mas por alguma razão ainda não jogou na temporada 2014/15, e está parado há alguns meses. Resta saber se a chegada dele representa uma possível precaução da diretoria com a perda de algum outro da posição — Nilton tem proposta séria do Internacional, por exemplo.

Damião

Talvez a contratação mais controversa de todas, Damião é a aposta da diretoria celeste para a posição de referência no ataque. Com Borges liberado e Marcelo Moreno muito caro para ser comprado em definitivo, o Cruzeiro ficou sem centroavantes. Hugo Ragelli é da posição, mas acabou de subir da base e portanto precisa de tempo de maturação. Deve ser a terceira opção, com a segunda sendo ou a reintegração de Anselmo Ramon, ou uma contratação ainda não anunciada.

A grande questão em relação a Damião, no entanto, nem é se ele vai recuperar o futebol de 2012/13 do Internacional, e sim o seu estilo. Se o Cruzeiro desse ano deu muito certo com Moreno na frente, era porque o boliviano era intenso: liderava a pressão alta, saía da área para abrir espaço para Goulart, e ainda era bom no jogo aéreo e tinha velocidade, ainda que tivesse menos técnica e errasse muitas finalizações.

Veja no vídeo abaixo um exemplo: Moreno aplicava tanta intensidade que às vezes roubava bolas até dos companheiros:

 

Damião é um jogador diferente. Se tem mais técnica que Moreno, me parece mais um nove clássico, homem-alvo dentro da área, sem se movimentar tanto, o que pode facilitar a marcação das defesas adversárias. Talvez até engessar um pouco a movimentação do quarteto de frente, prendendo Ricardo Goulart ao meio-campo. Defensivamente, Damião terá de ser a referência da marcação adiantada, como é responsabilidade de todo centroavante do 4-2-3-1. É ele quem vai decidir quando subir a pressão ou não, e o resto do time tem de acompanhar.

Conclusão: versatilidade conta

As contratações celestes até aqui — com a notável exceção de Leandro Damião — me parecem ter uma coisa em comum: todos os jogadores podem fazer mais de uma função em campo para além das “oficiais”. Isso é mais nítido nos casos de Fabiano (lateral e zagueiro) e Gilson (lateral e ponteiro). Joel é menos versátil, mas para uma situação de proteção de resultado e de contra-ataques, ele pode jogar como um centroavante solto e veloz. E Seymour, apesar de ser tipicamente um volante de marcação, tem bom arremate e pode participar da construção como Henrique faz atualmente.

Assim, de certa forma, apenas Damião é um jogador de uma função só. Porém, não acredito que Marcelo Oliveira se contentará com isso e deverá treiná-lo para que, sem a bola, incomode os zagueiros adversários, e até mesmo caia pelos lados para dar o último passe. Se ficar parado, esperando a bola, perderá a posição, pois irá atrapalhar a dinâmica do time, e será uma contratação perdida.

Essa busca pela versatilidade faz sentido. Ainda que não seja explícito — ou até mesmo consciente — por parte do Cruzeiro, é nessa direção que o futebol mundial está seguindo. Para contratar um jogador de uma função só, somente se ele for extraordinário. E todos dessa classe provavelmente estão na Europa.

Feliz 2015

É isso para 2014, amigos. Este blog deseja a todos um 2015 azul-celeste. E que venha o tri da Libertadores, o penta do Brasileiro e o Mundial!



Santos 0 x 1 Cruzeiro – O resultado é mais importante que o futebol

Fica até chato para o leitor eu ficar repetindo sempre a mesma coisa quando o Constelações fica sem atualizações por um período. Por isso, hoje vou dar uma justificativa diferente. Como sabem, não sou jornalista e não tenho pretensão de ser, porque não quero nem tentar ser imparcial. Eu sou torcedor, e só tenho olhos para o meu time. Só vejo outras equipes quando elas estão no mesmo gramado que o Cruzeiro.

Acontece que sou um torcedor que é empolgado com análise tática. É a razão de ser do Constelações: um blog de tática com foco exclusivo no Cruzeiro. E para as análises saírem com uma qualidade minimamente razoável, é preciso ter um pouco de cabeça fria e calma para observar os movimentos dos jogadores. Porém, a emoção que as partidas celestes tem proporcionado neste fim de campeonato dificulta muito esse aspecto.

Portanto, além de ter pouco tempo para escrever as análises e não ganhar nada com isso, preferi não escrever textos sobre jogos em que a torcida pela vitória celeste prejudicou as observações em campo. Qualidade é melhor do que quantidade, é o que dizem.

Isto posto, voltemos à programação normal.

Onze inicial

No 1º tempo, os dois times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem intensidade e se movimentando pouco, e Santos levando vantagem com Robinho puxando a marcação para as infiltrações de Gabriel

No 1º tempo, os dois times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem intensidade e se movimentando pouco, e Santos levando vantagem com Robinho puxando a marcação para as infiltrações de Gabriel

Mesmo após desgastantes jogos contra o próprio Santos, Criciúma, Atlético/MG e Botafogo, Marcelo Oliveira não tem alternativas senão escalar o que tinha de melhor. Porém, resolveu poupar Henrique e Lucas Silva, que começaram no banco. Assim, o 4-2-3-1 celeste teve Fábio no gol; Ceará na lateral direita, Manoel e Bruno Rodrigo na zaga e Samudio na esquerda. Nilton foi o escolhido para a parceria com Lucas Silva, no suporte a Willian na direita, Ricardo Goulart por dentro e Marquinhos à esquerda, com Marcelo Moreno na referência do ataque.

Enderson Moreira escalou o Santos da mesma forma que no jogo de volta pela semifinal da Copa do Brasil: um 4-2-3-1 com Robinho na referência móvel do ataque. O goleiro Aranha teve sua desfalcada linha defensiva composta por Cicinho à direita e o jovem Caju à esquerda, com Neto e Bruno Uvini na zaga central. Sem Arouca, Renato foi o volante mais adiantado à frente de Alison, dando suporte à criação centralizada de Lucas Lima. E saindo das pontas para ocupar o espaço deixado por Robinho, Gabriel e Rildo.

Só uma das quatro

Se você lê o blog, sabe que o jogo celeste é baseado inteiramente em intensidade nas quatro fases do jogo: a posse de bola, a recomposição defensiva, a posse do adversário e a transição ofensiva, mais conhecida como contra-ataque. Porém, o que houve no primeiro tempo foi que o Cruzeiro simplesmente não aplicou a intensidade que lhe é característica em nenhuma dessas fases.

Quando tinha a bola, o Cruzeiro não se movimentava muito, e com isso não embaralhava a marcação postada do Santos de forma a explorar os espaços eventualmente abertos. Assim, tentava passes mais difíceis que o habitual e cedia a bola com facilidade. Nesse momento, o Santos sempre tentava sair com velocidade, principalmente com Robinho vindo buscar o primeiro passe, puxando a marcação de um dos zagueiros. O camisa 7 se livrava facilmente da pressão e encaixava o passe para a infiltração dos ponteiros Gabriel e Rildo. Ceará até que conseguiu impedir Rildo pela direita, mas Gabriel levou muita vantagem sobre Samudio, e o paraguaio teve dificuldades.

Foi assim que nasceu o lance mais perigoso do primeiro tempo: Robinho recebeu na linha do meio-campo, arrastando Bruno Rodrigo consigo, girou e deu o passe profundo para Gabriel, que foi exatamente para o espaço que Robinho deveria estar, ficando cara a cara com Fábio. Mas nosso goleiro cresceu pra cima do garoto, fechando o ângulo sem cair na primeira, dando o tempo necessário para Manoel se recuperar e atrapalhar a finalização.

Somente na fase defensiva o Cruzeiro tinha algum equilíbrio, porque apesar da movimentação do Santos ser maior, o Cruzeiro abriu tantos espaços ao time paulista. E quando roubava a bola, a velocidade da transição não era suficiente para pegar a defesa adversária desmontada. O resultado foi claro: apesar da ligeira superioridade do time da casa, nenhum chute foi na direção do gol na primeira etapa.

Mesmo com o leve domínio do Santos, todas as tentativas de gol no primeiro tempo foram pra fora ou bloqueadas pela defesa: goleiros sem tanto trabalho

Mesmo com o leve domínio do Santos, todas as tentativas de gol no primeiro tempo foram pra fora ou bloqueadas pela defesa: goleiros sem tanto trabalho

Segundo tempo

Já no intervalo, Marcelo cobrou duramente os jogadores, como revelado após a partida. Mas além disso, tirou Lucas Silva, mal na marcação de Renato no primeiro tempo, e lançou mão de Henrique. O sistema não se alterou, mas a ocupação dos espaços e a pegada no meio-campo sim. Com pernas frescas, já sem tanto sol e com o time do Santos também já mais cansado, Henrique tomou conta do setor central e reequilibrou o jogo para o Cruzeiro.

E bastaram 7 minutos para que a diferença entre os dois times aparecesse, em linda jogada de muita inteligência tática do sistema ofensivo celeste. Goulart viu Moreno recuar puxar a marcação e fazer a parede, dando oportunidade para a tabela e ao mesmo tempo abrindo espaço para Willian no centro da área. O bigode foi até lá e recebeu o segundo passe de Goulart, que fez a volta na marcação para receber de volta e chutar de canhota fora do alcance de Aranha.

A vantagem no placar fez o Cruzeiro melhorar ainda mais no jogo. Isso porque o desgaste da temporada não é apenas físico e também mental, e a vantagem no placar dá uma tranquilidade, aliviando a pressão pelo resultado.

Trocas

No fim, Cruzeiro se postou num 4-1-4-1 para proteger o resultado, mas nem havia tanta necessidade; Santos teve problemas de marcação do lado esquerdo e Éverton Ribeiro aproveitou

No fim, Cruzeiro se postou num 4-1-4-1 para proteger o resultado, mas nem havia tanta necessidade; Santos teve problemas de marcação do lado esquerdo e Éverton Ribeiro aproveitou

Pouco depois do gol, Enderson pôs Thiago Ribeiro no lugar de Rildo. A tentativa era de dar mais contundência ao ataque, mas o problema estava em outro lugar do campo e o tiro saiu pela culatra: Thiago não fazia tão bem o trabalho de recomposição pela esquerda e expôs o garoto Caju às investidas de Willian. Tentou corrigir colocando outro jovem, Zeca, na vaga de Caju, mas o problema continuou.

Marcelo Oliveira, observando a vantagem no setor, aproveitou para poupar Willian e lançar Éverton Ribeiro na sua posição característica, partindo do lado direito. E o camisa 17 aproveitou o espaço, dando ótimos passes. Enderson deu uma última cartada com Jorge Eduardo no lugar de Gabriel, mas o substituto nada produziu. Marcelo então protegeu o resultado com Willian Farias no lugar de Goulart, formando o 4-1-4-1 usado no fim dos jogos para tal fim. O volante ainda teria a chance de matar o jogo após receber passe magistral de Éverton Ribeiro, de calcanhar, ficando no mano contra Aranha, mas mandou o chute no travessão.

Jogo atípico, resultado excelente

Não foi um jogo normal do Cruzeiro. Afinal, neste fim de temporada, é difícil manter o ritmo intenso durante as partidas que encantou o Brasil no primeiro turno do Brasileirão. Porém, aqui o mais importante era o resultado. Isso pode parecer incoerente com o que eu disse quando do empate com o Botafogo no primeiro turno, por exemplo (o título dessa coluna é o inverso daquela). Mas naquele tempo ainda havia muitos jogos e, a longo prazo, jogar bem significava um número maior de vitórias. Agora, não há mais longo prazo: o fim da temporada está logo ali. Os resultados, nesse momento, são mais importantes.

Melhor que tenha sido assim, portanto: uma vitória sem ter que aplicar a intensidade necessária para furar as retrancas do Mineirão. De certa forma, até se pode dizer que o Cruzeiro venceu sem se desgastar tanto.

Isso aumenta um pouco as chances de fazer mais um bom resultado no difícil confronto com o Grêmio em Porto Alegre. O time gaúcho vem ganhando confiança e será um adversário duríssimo. Porém, o estilo de jogo do Grêmio pode favorecer o Cruzeiro, já que eles preferem marcar forte e sair para o jogo em velocidade pelas pontas, e dificilmente vão tomar a iniciativa do jogo e botar pressão ofensiva. Assim, a chance de um empate sem gols é grande.

Se tudo der certo, estarei no Mineirão no domingo para ver o Cruzeiro erguer o caneco. Fé!



Cruzeiro 1 x 0 Santos – Retomadas

Voltar a vencer após uma sequência ruim de resultados foi importante. Não sofrer gols em casa na Copa do Brasil, ainda mais. Mas o primordial foi retomar o velho estilo, ainda que por pouco tempo, para mandar um recado a todos os outros times do país, para a própria torcida a para si mesmo: o Cruzeiro ainda sabe ser Cruzeiro, e deve ser temido.

O desgaste físico é inegável, mas enquanto teve pernas, o Cruzeiro foi infinitamente superior ao Santos, tanto com a bola quanto sem ela, e construiu o resultado nesse período. Depois, quando foi obrigado a “descansar”, controlou o jogo, perdeu o controle e o retomou novamente, e ainda foi prejudicado pela arbitragem — elementos que certamente veremos nas últimas partidas do ano.

Escretes

As duas equipes entraram no 4-2-3-1; Cruzeiro muito mais intenso, com movimentação do quarteto ofensivo e Mayke sem ser perseguido por Robinho

As duas equipes entraram no 4-2-3-1; Cruzeiro muito mais intenso, com movimentação do quarteto ofensivo e Mayke sem ser perseguido por Robinho

Marcelo Oliveira mandou o costumeiro 4-2-3-1 a campo, mesmo sem ter Marcelo Moreno 100% fisicamente. Júlio Baptista foi o escolhido para ficar à frente do trio de meias, formado por Éverton Ribeiro à direita, Ricardo Goulart centralizado e Willian à esquerda. No suporte, a dupla dinâmica Henrique e Lucas Silva, e protegendo o goleiro Fábio, a última linha tinha Mayke à direita, Egídio à esquerda, e Dedé e Léo no miolo.

O Santos de Enderson Moreira também entrou num 4-2-3-1. O goleiro Aranha teve Cicinho na lateral direita, Edu Dracena e David Braz pelo meio e Mena aberto à esquerda. Mais à frente, Alisson ficava mais plantado liberando Arouca, que se juntava ao trio formado por Rildo à direita, Lucas Lima como central e Robinho pelo lado esquerdo, com Gabriel sendo o homem mais avançado.

Cruzeiro sendo Cruzeiro

O temor era que Júlio Baptista, sem ritmo, quebrasse um pouco a intensidade que o Cruzeiro sempre aplica no início das partidas, mas isso não aconteceu (muito). A movimentação e troca de posições que Willian, Ribeiro e Goulart impunham desorganizava a marcação santista, com o maior exemplo sendo o lance do gol. Naquele momento, Willian estava à direita, Ribeiro estava do outro lado e Júlio era o meia central, com Goulart sendo o centroavante. Tudo invertido.

A bola saiu da esquerda para Júlio, e de Júlio foi a Willian, totalmente livre do lado direito. O bigode chutou, a bola voltou e em um lance técnico maravilhoso, bateu com o lado do pé esquerdo, que não é o bom, aplicando uma curva de fora pra dentro que saiu totalmente do alcance de Aranha e fazendo a bola bater na bochecha da rede. Golaço.

Ponteiros x laterais

Além da movimentação ofensiva, havia outro fato que causava o grande domínio de posse de bola e territorial do Cruzeiro: a passagem dos laterais. Se pelo lado esquerdo Rildo tentava voltar com Egídio até a própria linha de fundo — e mesmo assim perdendo o duelo, do outro lado Robinho não fazia o mesmo com Mayke. Mena teve problemas em lidar com o jovem lateral e o ponteiro que caía por ali.

No meio do primeiro tempo, Enderson inverteu os lados para fazer Robinho ficar em Egídio e Rildo acompanhar Mayke, uma medida que teve um certo sucesso — mas num período do jogo em que o Cruzeiro já não estava mais tão intenso, como explicado nos parágrafos abaixo.

Pressão alta

Além disso, o Cruzeiro não era intenso só na movimentação ofensiva. Quando o ataque não se completava, o Cruzeiro sufocava a saída do Santos, sem deixar os jogadores respirarem. Lucas Silva e Henrique marcavam na intermediária de ataque; o ponteiro do lado da bola e o meia central faziam pressão no homem da bola e o ponteiro oposto fechava para o centro para recuperar um possível rebote, e o centroavante fechava as linhas de passe para os zagueiros e goleiros. Uma coordenação de time bem treinado, e que gerou muitas roubadas de bola já no campo de ataque.

Esse é o estilo deste Cruzeiro. Porém, toda essa intensidade vem sendo usada há dois anos. Nenhum time consegue aplicar essa velocidade defensiva e ofensiva durante os 90 minutos, que dirá durante duas temporadas inteiras. E agora, no fim da temporada, os jogadores estão cansando e naturalmente tendo que dosar. Após o gol, o time começou a preferir esperar o Santos já a partir da linha de meio-campo.

Mas não tive certeza quanto ao motivo: seria cansaço ou estratégia, uma vez que o placar era favorável? Ou ainda, seria o Santos que conseguiu concatenar mais passes? As duas primeiras opções me parecem mais prováveis, e foi assim que acabou o primeiro tempo: com o Cruzeiro “descansando” com a bola e às vezes sem ela, mas controlando o jogo. Fábio sequer sujou o uniforme.

Após o intervalo

Diferente do que alguns analistas da mídia disseram, o segundo tempo começou igual ao primeiro. Nada havia mudado: a vantagem no placar permitia ao Cruzeiro se posicionar mais pragmaticamente, fechando os espaços em seu próprio campo. Isso obrigava os zagueiros do Santos a trocarem passes entre si, sem encaixar uma bola mais aguda. E mesmo quando isso acontecia, o recebedor do passe imediatamente recebia pressão e era obrigado a voltar a bola para a última linha.

Numa dessas ocasiões, Willian subiu o bote em David Braz e roubou a bola, partindo num contra-ataque de três contra dois. Edu Dracena correu de costas até a grande área, e quando parou para dar o bote, Willian passou a Júlio na esquerda. O meia bateu para rebote de Aranha que Goulart completou para as redes. Mas o gol, bem construído, foi mal anulado pelo bandeira, que deu impedimento de Júlio no primeiro lance.

Perigo de gol

O segundo gol sem dúvida teria um impacto psicológico e na estratégia de ambos os times. O Cruzeiro passaria a proteger o resultado com mais calma, e o Santos tentaria se expor um pouco mais para tentar marcar ao menos um gol fora de casa, devido à abominável regra do gol qualificado. O gol anulado manteve as coisas como estavam, o que acabou sendo pior para o Cruzeiro no decorrer do segundo tempo.

Já sem muito vigor físico, o Cruzeiro começou a ceder espaços importantes no meio-campo ofensivo. Arouca começou a se sentir à vontade para se juntar à construção, e não era marcado por nenhum dos meias celeste. Além disso, Lucas Lima começou a voltar para pegar a bola nos pés dos zagueiros — um movimento que Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart repetem constantemente no Cruzeiro — e também não era perseguido. Com liberdade, o meia começou a encaixar passes nas costas dos laterais para os ponteiros, que geraram lances muito perigosos. Só não aconteceu o gol porque os jogadores santistas finalizaram muito mal.

Trocas

Com o Cruzeiro já cansado e mais espaçado em campo, Lucas Lima e Arouca tentaram aproveitar os buracos da marcação, mas a entrada de Damião travou o time, e a partir daí o Cruzeiro controlou melhor a posse com Goulart mais fixo na faixa central tendo Moreno à sua frente

Com o Cruzeiro já cansado e mais espaçado em campo, Lucas Lima e Arouca tentaram aproveitar os buracos da marcação, mas a entrada de Damião travou o time, e a partir daí o Cruzeiro controlou melhor a posse com Goulart mais fixo na faixa central tendo Moreno à sua frente

Marcelo foi obrigado a lançar Dagoberto na vaga de Willian, que havia sofrido uma fratura na costela ainda no primeiro tempo e continuou jogando por mais um tempo. Dagoberto entrou inicialmente pelo lado direito, invertido com Éverton Ribeiro, mas logo isso se desfez. Já Enderson Moreira trocou o opaco Gabriel por Serginho. Com isso, Robinho passou ao centro do ataque e Serginho passou ao lado esquerdo.

O jogo não mudou muito, com o Santos ainda com mais posse de bola. Visando uma melhor recomposição e também numa tentativa de colocar sangue novo na sua equipe, Marcelo Oliveira colocou Marlone na vaga de Éverton Ribeiro. Dessa vez, Marlone jogou na sua posição “original”, que é o lado do campo. Se ofensivamente não contribuiu para equilibrar a posse de bola, taticamente foi importante para fechar os espaços a Mena pelo lado esquerdo.

Centroavantes

Por fim, Júlio Baptista, ainda sem ritmo, não aguentou os 90 minutos e Marcelo Moreno entrou em seu lugar. Mais fixo à frente, Moreno fazia com que Ricardo Goulart ficasse mais fixo como meia central, passando a organizar melhor o ataque celeste. Enderson respondeu com Jorge Eduardo na vaga do Rildo e também com Leandro Damião na vaga de Robinho, mas as trocas não deram certo, pois Damião travou o time e facilitou a marcação da defesa celeste.

As duas coisas somadas — Goulart fixo como meia central e Damião fixo como centroavante — acabaram por reequilibrar a posse de bola e a disputa no meio-campo. Com ambas as equipes cansadas e taticamente iguais, a melhor técnica dos jogadores celestes começou a aparecer e o Cruzeiro ainda criaria boas chances de aumentar, principalmente em cruzamentos de Mayke pela direita, mas o placar permaneceu inalterado.

Chover no molhado

O jogo foi importante para reafirmar, não só para todo o Brasil como também para si mesmo, que o Cruzeiro ainda é o melhor time do país. E foi isso o que Marcelo Oliveira e seus comandados buscaram na primeira meia hora de jogo: amassando o Santos, o Cruzeiro foi muito superior e teve azar nas finalizações. Mas o fim de temporada cobrou seu preço, e já no primeiro tempo o Cruzeiro teve que dosar o ritmo.

E é isso que devemos esperar para todos os jogos até o fim do ano. Dificilmente o Cruzeiro jogará com a intensidade que lhe é característica durante mais de 30 minutos por jogo, e em alguns casos não vai fazer isso em nenhum momento das partidas. Em 2014, o Cruzeiro já fez 3 partidas a mais que em 2013, e não há como negar que isso tem um impacto.

Sim, todos os outros times também estão desgastados, mas o estilo de jogo que o Cruzeiro prefere usar faz com que os jogadores se desgastem mais. Então é seguro concluir que isso afeta mais ao Cruzeiro que a outros times. No entanto, agora é a hora de se superar. Apesar do desgaste, falta pouco agora. Longas viagens sempre cansam, mas quando se está perto do destino, sabendo que falta tão pouco, um ânimo surge do nada para que demos um último gás e completemos a jornada.

Dez jogos, talvez menos, para dois títulos. Seguiremos confiantes como nunca.



Cruzeiro 2 x 1 Internacional – Correr, construir, controlar

Cruzeiro e Internacional protagonizaram grandes duelos no passado, principalmente na década de 70, quando o Cruzeiro se vingou da derrota na final do Brasileiro com uma vitória na Libertadores do ano seguinte, que culminaria no título. E o jogo deste sábado não ficou pra trás, disputado e tecnicamente agradável.

Mas além destes fatores, houve também um duelo tático interessantíssimo entre os dois treinadores. Abel Braga fez o primeiro movimento e complicou muito o jogo, mas Marcelo Oliveira respondeu à altura e garantiu o resultado.

Escalações iniciais

Domínio total do Cruzeiro no 1º tempo de muita intensidade, contra um 4-1-4-1 frágil pelos lados e com volantes celestes livres e com tempo na bola

Domínio total do Cruzeiro no 1º tempo de muita intensidade, contra um 4-1-4-1 frágil pelos lados e com volantes celestes livres e com tempo na bola

Com Ricardo Goulart e Júlio Baptista lesionados, era natural que Marcelo optasse por Éverton Ribeiro como meia central do 4-2-3-1 costumeiro. Com isso, o gol de Fábio foi protegido por Dedé e Manoel, com Mayke e Egídio fechando os lados da defesa. Protegendo a área, Henrique e Lucas Silva formavam o meio-campo com Marquinhos à direita, Ribeiro central e Willian pelo lado esquerdo, atrás do centroavante Moreno.

Já Abel Braga não tinha Eduardo Sasha, e criou-se uma expectativa pelo substituto do ponteiro esquerdo. O treinador do Internacional optou por Valdívia mais surpreendeu, tirando Alex do time e armando um 4-1-4-1, com Dida no gol, Gilberto na lateral direita, Paulão e Juan na zaga central e Fabrício fechando o lado esquerdo da defesa. Willians ficou entre a defesa e segunda linha formada, da direita para a esquerda, por D’Alessandro aberto, Aranguiz e Wellington mais centralizados e Valdívia na outra ponta. Na frente, Rafael Moura duelava com os zagueiros celestes.

Volantes livres

Diferentemente do que anunciara durante a semana, Abel postou seu time marcando a partir da linha do meio-campo, tentando tirar a velocidade que o Cruzeiro queria impor. A ideia era parar o ataque do Cruzeiro e acionar Valdívia e D’Alessandro pelos lados para os contra-ataques. Ou seja, a mesma coisa que quase todos os times que vieram ao Mineirão tentaram. Eis o respeito que quase dois anos de bom futebol impõem.

Mas, ao contrário de vários outros times, o Internacional não se preocupou com a marcação de Lucas Silva e Henrique. Os próprios volantes do Internacional ficavam muito próximos à própria área, distantes dos volantes celestes. Assim, ambos tiveram bastante tempo na bola e liberdade para levantar a cabeça e iniciar a construção, alavancando as estatísticas de posse de bola celeste.

Dois contra um

Com isso, D’Alessandro e Valdívia acabavam por tentar ajudar, indefinindo a marcação: ou fechavam nos volantes ou perseguiam os laterais subirem livres. Não dúvida, não fizeram nenhuma das duas coisas bem, e o resultado foi que tanto Egídio quanto Mayke subiam e faziam dois contra um junto com Willian e Marquinhos em cima de Gilberto e Fabrício.

Em um determinado lance, foi possível ver D’Alessandro perto de Egídio, preparado para acompanhar o lateral celeste caso ele subisse, mas a bola chegou nos pés de Lucas Silva, livre. O argentino então decidiu centralizar para marcá-lo, e bastaram dois passes para que a bola chegasse nos pés de Egídio, sem marcação e já numa posição avançada do campo, fora do alcance de D’Alessandro.

Marquinhos do lado “errado”

E outro fator que contribuiu para o desmoronamento da estratégia gaúcha foi o posicionamento de Marquinhos. Normalmente, o ponteiro joga pela esquerda, mas nesse jogo Marcelo optou por invertê-lo de lado com Willian para que ele pudesse marcar Fabrício, o mais ofensivo dos dois laterais adversários. Marquinhos cumpriu bem a função e ainda jogou bem com a bola, como visto no segundo gol.

Tudo isso contribuía para que o jogo fosse totalmente dominado pelo Cruzeiro no primeiro tempo: intensidade ofensiva e defensiva, volantes com liberdade, laterais sem marcação quando apoiavam.

A marcação no alto do campo, pressionando o homem da bola, gerou o primeiro gol, em que Moreno bloqueia o passe de Aranguiz, a bola sobra para Willian, que limpa o marcador com um drible, mas o próprio Moreno “rouba” a conclusão de Willian para vencer Dida. E em jogada pelo lado esquerdo, onde o Cruzeiro tinha superioridade numérica, cruzamento de Éverton Ribeiro para Marquinhos, livre do lado contrário, marcar o segundo.

Com Alex, Internacional mudou para um 4-2-3-1 e  tinha superioridade numérica com o movimento do meia da direita para o centro, causando problemas para Lucas Silva e Henrique

Com Alex, Internacional mudou para um 4-2-3-1 e tinha superioridade numérica com o movimento do meia da direita para o centro, causando problemas para Lucas Silva e Henrique

Inferioridade numérica no centro

O Cruzeiro voltou para o segundo tempo mais cadenciador, tentando descansar com a bola. Já o Internacional fez o contrário: começou a correr e querer roubar a bola de qualquer forma. Mas foi a alteração de Abel no intervalo que mudou o panorama da partida. Wellington deu seu lugar a Alex, que entrou pela esquerda do ataque; Valdívia foi pro outro lado, D’Alessandro centralizou e Aranguiz recuou para perto de Willians, formando o novo 4-2-3-1.

Com a bola, Alex centralizava e se aproximava de D’Alessandro, causando problemas na marcação para Lucas Silva e Henrique. Tanto na jogada que gerou a falta que bateu na trave quanto no gol, Alex e D’Alessandro se encontravam em posições centrais, e no lance do gol especificamente, os dois meias tabelaram e deram a volta na marcação dos volantes celestes.

A resposta de Marcelo

Marcelo Oliveira não estava gostando do que estava vendo e demorou a achar uma solução, mas achou. De uma só vez, tirou Éverton Ribeiro e Willian, lançando Nilton e Dagoberto, formando um 4-1-4-1 que remediava a inferioridade numérica no meio, mas perdia em capacidade de criação.

Marcelo Oliveira respondeu com Nilton e Dagoberto, configurando um 4-1-4-1 que encaixou a marcação e corrigiu o problema de inferioridade numérica no centro

Marcelo Oliveira respondeu com Nilton e Dagoberto, configurando um 4-1-4-1 que encaixou a marcação e corrigiu o problema de inferioridade numérica no centro

O jogo reequilibrou e o Internacional não conseguia mais chegar com facilidade. Até ficava mais com a bola, mas com a marcação encaixada, os volantes e zagueiros adversários, agora com tempo pra pensar, não tinham opções de passe. O Internacional parou de ameaçar a meta de Fábio, e o Cruzeiro controlava o jogo sem ter a bola em seus pés.

Outras trocas

Sem alternativas, Abel tentou mais velocidade com Leandro na vaga de Valdívia, sem sucesso, e depois abrindo o time de vez com Alan Patrick na vaga de Willians. Aranguiz passou a ser o volante único, mas o tiro saiu pela culatra e quem passou a dominar o meio-campo foi o Cruzeiro, já que o Internacional também arrefeceu o ritmo. A partir de então teve mais chances reais de ampliar do que sofrer o empate.

Borges ainda entrou na vaga de Moreno, mas apenas para fazer o tempo passar e garantir a vitória e aumentar a diferença para o vice-líder para impressionantes nove pontos.

A linha do tempo mostra as quatro fases distintas do jogo: 1- Cruzeiro arrasador até o 1ª gol; 2- Cruzeiro menos intenso mas ainda dominando até o fim do primeiro tempo; 3- Internacional tentando contra Fábio até a entrada de Nilton; 4- controle do jogo sem a bola até o final.

A linha do tempo mostra as quatro fases distintas do jogo: 1- Cruzeiro arrasador até o 1º gol; 2- Cruzeiro menos intenso mas ainda dominando até o fim do primeiro tempo; 3- Internacional tentando contra Fábio até a entrada de Nilton; 4- controle do jogo sem a bola até o final.

Maturidade para dosar o esforço

No último texto, questionei se a falta de intensidade do Cruzeiro nas últimas partidas havia sido uma coisa pensada ou se era um resultado natural do cansaço pelas partidas em sequência. A resposta veio nesse jogo, e foi um pouco das duas coisas: a temporada desgastante fez com que Marcelo usasse conscientemente uma estratégia mais cautelosa para diminuir o cansaço dos jogadores. Tudo visando os jogos mais importantes, como este contra o Internacional, o perseguidor mais próximo.

Ao que parece, a estratégia funcionou bem e os jogadores deram o máximo durante os primeiros 45 minutos, construíram o placar e apenas controlaram no segundo tempo, ainda que o Internacional tenha tido um domínio devido à entrada de Alex no time. Isso é sinal de um time maduro, que sabe em que momentos deve acelerar ou cadenciar o jogo. E mais: sabe também em que momentos da temporada deve se poupar para poder usar mais gás nas partidas decisivas.

E, com a reta final da temporada começando, o fator desgaste pesa ainda mais, para todas as equipes. Saber dosar o esforço será fundamental. E até nisso o Cruzeiro parece sair na frente.