Atlético/MG 1 x 1 Cruzeiro – Jogando de maneira Horto-doxa

O Cruzeiro foi ao Horto mais uma vez para tentar acabar com a incômoda sequência negativa sem vitórias diante do rival. E seguiu o plano à risca do início ao fim: marcar bem e jogar quando possível, correndo o mínimo de risco necessário

Acabou fazendo um jogo seguro na defesa e com boa criação ofensivamente, até sofrer o gol, e depois empatou em gol antológico de De Arrascaeta. E nem mesmo a expulsão de Leonardo Silva fez o time abandonar sua estratégia ortodoxa, quando poderia ter saído com uma vitória.

Sistemas iniciais

No 1º tempo, os dois times no mesmo esquema e estratégia: 4-2-3-1 muito cautelosos, com muita gente atrás da linha da bola na fase defensiva; no Atlético, Guilherme saía da referência para armar

No 1º tempo, os dois times no mesmo esquema e estratégia: 4-2-3-1 muito cautelosos, com muita gente atrás da linha da bola na fase defensiva; no Atlético, Guilherme saía da referência para armar

Mesmo tendo jogo já na terça-feira, Marcelo Oliveira só poupou Mayke, e mesmo assim porque ele tinha desgaste excessivo. Assim, o time foi armado no 4-2-3-1, com a linha defensiva de Fábio começando com Fabiano na lateral direita, Léo e Paulo André na zaga e Mena na esquerda. Willians e Henrique novamente fizeram a parceria na proteção, atrás de Willian à direita, De Arrascaeta centralizado e Alisson à esquerda. Na centroavância, Damião.

Levir Culpi também mandou o Atlético a campo num 4-2-3-1. Protegendo o gol de Victor estavam Leonardo Silva e Jemerson, com Marcos Rocha na lateral direita e Douglas Santos do outro lado. Josué entrou na vaga do suspenso Leandro Donizete, com Rafael Carioca a seu lado e dando suporte à linha de três meias, que tinha o ponteiro direito Luan, o central Dátolo e o ponteiro esquerdo Carlos, deixando Guilherme livre para flutuar entre o meio e o ataque, quase como um “falso nove”.

Excesso de cautela

O jogo começou com os dois times com muito receio de se exporem aos ataques adversários. Nenhum marcava agressivamente no campo de ataque, preferindo fechar os espaços a partir da linha divisória, algo que contrariava a expectativa em relação à estratégia do Atlético, já que era o mandante e tinha que inverter a vantagem. Dessa forma, os zagueiros tinham bastante tempo na bola, e às vezes ficavam tocando um para o outro tentando achar a melhor saída.

Nesse ponto, as estratégias divergiram. O Cruzeiro preferia sair pelo chão, usando bastante as laterais do campo, principalmente o lado esquerdo com Mena e Alisson. Foi numa jogada dos dois que Damião completou o cruzamento do chileno na trave, logo as 7 minutos. Já o Atlético preferia usar bolas longas e inversões de um lado a outro do campo pelo alto.

O baixo número de finalizações no 1º tempo ilustra bem a postura dos dois times: Cruzeiro (vermelho) só finalizou uma vez contra 3 do Atlético (azul)

O baixo número de finalizações no 1º tempo ilustra bem a postura dos dois times: Cruzeiro (vermelho) só finalizou uma vez contra 3 do Atlético (azul)

Festival de cartões

Isso tudo em meio a uma festa de amarelos: foram 7 entre os 10 e os 34 minutos, um a cada 3 minutos e meio. Alguns muito mal aplicados, como foi o caso de Léo e Leonardo Silva pré-escanteio. O de Léo em particular forçou Marcelo a fazer a primeira troca já no primeiro tempo, colocando Manoel na vaga de Léo para prevenir uma muito provável expulsão posterior.

A partir dessa troca, o Atlético começou a tentar pressionar o Cruzeiro logo que perdia a posse, aumentando a velocidade do jogo e forçando o Cruzeiro a quebrar a bola. Com isso, o quarteto de frente, que até então estava até razoável, sumiu do jogo, e o Cruzeiro passou a se defender apenas. Mas fazia isso com muita segurança, já que o Atlético corria muito, mas não conseguia chegar próximo da meta de Fábio.

Infelizmente, o futebol não perdoa erros, por mais raros que eles sejam. Depois que o Cruzeiro perdeu a bola no ataque, Guilherme — que frequentemente saía da posição de avante e aparecia entre as linhas — ficou sozinho no círculo central, longe dos zagueiros e dos volantes do Cruzeiro, que estavam fora de posição. Com tempo e espaço, o ex-cruzeirense conseguiu inverter para Luan do lado direito, que cruzou para uma falha geral da zaga celeste, sintetizada em Fabiano perdendo na corrida para Carlos.

No lance do gol do Atlético, Guilherme está recuado e com muito espaço pra pensar, já que os volantes Henrique e Willians (destacados) estavam fora de posição; note também os dois zagueiros do Cruzeiro sem um adversário pra marcar

No lance do gol do Atlético, Guilherme está recuado e com muito espaço pra pensar, já que os volantes Henrique e Willians (destacados) estavam fora de posição; note também os dois zagueiros do Cruzeiro sem um adversário pra marcar

Jogo segue igual

No intervalo, Marcelo Oliveira novamente fez uma troca por causa do excesso de amarelos. Promovendo a estreia de Fabrício na vaga de Mena, que travava um duelo feroz com Luan no setor esquerdo. Mas a mudança esperada não veio: a de estratégia. O Cruzeiro continuou cauteloso, sem pressionar a saída sem colocar muita gente à frente da linha da bola.

Menos mal que, em uma jogada de Willians, avançando com inteligência nos espaços deixados pelo meio-campo atleticano, passou a De Arrascaeta, que quase perdeu a bola, mas num lance de pura genialidade deu no meio das pernas de Josué e driblou outros dois defensores rivais antes de vencer Victor com um tiro cruzado. Segundo golaço do garoto uruguaio na semana.

Finalmente, algo pra mudar o jogo?

Mesmo com o gol, o jogo seguiu igual, com os dois times ainda com receio de sair muito. Alguns minutos depois do empate, Damião e Leonardo Silva se estranharam e o zagueiro acabou expulso. Até a entrada de Edcarlos na vaga de Josué, Luan preencheu o lado direito da zaga, e depois voltou ao lado direito no novo 4-4-1 de Levir, com Dátolo ao lado de Rafael Carioca. Com a bola, o Atlético se tornava um ousado 4-2-3 com o avanço dos ponteiros.

Fim de jogo: Cruzeiro num 4-2-3-1 muito paciente, diante de um Atlético postado no 4-4-1 pra segurar as ações ofensivas celestes

Fim de jogo: Cruzeiro num 4-2-3-1 muito paciente, diante de um Atlético postado no 4-4-1 pra segurar as ações ofensivas celestes

Mas o jogo seguiu igual. Se o Atlético já estava cauteloso, com um a menos se postou atrás e tentou chamar o Cruzeiro para contra-ataques. Quando recuperava a bola, também não acelerava, pois não queria ceder o contra-ataque. Marcelo então lançou mão de Gabriel Xavier, tirando Willian da partida, numa tentativa de cadenciar mais a partida e tocar com paciência, para achar os espaços que um time com um a menos e atrás no placar naturalmente cederia.

Sem ímpeto no fim

Isso aconteceu em parte, já que o Cruzeiro tocou a bola com paciência e tentando não arriscar muito no último passe. Rodou a bola, mas os jogadores da frente não se movimentaram tanto para ajudar a criar espaços. Gabriel Xavier perambulou pelo meio, De Arrascaeta subiu para dentro da área e deixou o primeiro passe para os volantes. Não foi suficiente para entrar nas duas linhas do Atlético. Após a expulsão, o Cruzeiro só conseguiu dois chutes de fora da área e nada mais.

Já quando o Atlético recuperava a bola, o Cruzeiro não pressionava no alto do campo, o que era até compreensível, mas também não pressionava o homem da bola na intermediária defensiva. Os jogadores rivais conseguiam ter a bola em zonas bem próximas da área de Fábio, conseguindo faltas e escanteios perigosos. Felizmente, a equipe da casa nada conseguiu, e estava decretado mais um empate em clássicos pelo Campeonato Mineiro. Já são 5 nos últimos dois anos.

Dois lados de um tabu

É claro que o tabu de não vencer clássicos incomoda a torcida. Após o jogo choveram críticas de muitos torcedores, principalmente em relação à postura do time após a expulsão de Leonardo Silva. Apesar de exageradas, as críticas tem certo fundamento, pois a impressão que fica é que se o Cruzeiro tivesse arriscado um pouco mais teria conseguido sair do Horto com uma vitória.

Por outro lado, há muitas razões pelas quais o Cruzeiro não quis se arriscar. Além de ter a vantagem no confronto por ter melhor campanha, era um jogo na casa do rival, com a totalidade da torcida contra. Isso sem falar que o Cruzeiro jogará em menos de 48 horas na Argentina pela Libertadores, uma partida que é sim muito importante, mesmo que a classificação para as oitavas já esteja bem encaminhada.

Isto posto, é seguro dizer que esta foi uma das melhores partida do Cruzeiro no Independência, desde que os clássicos passaram a ter mando em 2013. Defensivamente foi uma equipe bem sólida, exceção feita ao erro coletivo que resultou no gol do rival. Com a bola, considerando a estratégia, foi razoável, criando boas oportunidades nos primeiros minutos. A única ressalva é em relação à postura após a expulsão, defensiva e ofensivamente.

Marcelo falou na coletiva que foi o primeiro clássico em que o Cruzeiro não foi dominado no Independência. De fato. E é um bom indício de que a sequência negativa diante do rival tem tudo pra terminar no fim de semana que vem.



Cruzeiro 1 x 1 Atlético/MG – Zero a zero com gols

No primeiro clássico do ano, o Cruzeiro voltou a apresentar os mesmos problemas em encontrar espaços diante de defesas fechadas no Mineirão. A partida contra o Huracán já havia mostrado essa deficiência criativa, mas naquela partida o Cruzeiro pelo menos chegou fácil pelos lados. Neste jogo o excesso de cruzamentos não aconteceu, também por causa do pouco ímpeto dos laterais, que são os responsáveis pela amplitude no ataque.

Foi um jogo concentrado no terço central, já que ambas as equipes pouco criaram: o Cruzeiro por não ter mobilidade suficiente para criar os espaços e o Atlético por proposta de jogo.

Os escretes

Times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem muito apoio dos laterais e sem mobilidade, Atlético bem compactas negando espaços entre as linhas e Luan responsável pela ligação

Times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem muito apoio dos laterais e sem mobilidade, Atlético bem compactas negando espaços entre as linhas e Luan responsável pela ligação

Marcelo Oliveira não fez nenhum mistério e escalou o time no 4-2-3-1 esperado, com o gol do capitão Fábio sendo protegido por Léo e Paulo André, com Mayke fechando pela direita e Mena pela esquerda. A dupla volância teve Willians e Henrique mais uma vez, no suporte ao trio formado por Marquinhos na direita, Willian à esquerda e De Arrascaeta centralizado atrás de Leandro Damião, o centroavante.

Levir Culpi tinha muitos desfalques e armou seu time no mesmo 4-2-3-1, mas que virava um 4-4-2 em fase defensiva, que foi na maior parte do tempo. Victor tinha Patric à direita e Douglas Santos à esquerda flanqueando a dupla de zaga formada por Edcarlos e Jemerson. Na frente da área, Rafael Carioca e Leandro Donizete faziam a proteção, deixando os corredor esquerdo para Carlos e o direito para Cesinha, o que dava liberdade para Luan se juntar a Dodô na frente.

Posse e recomposição

Com os desfalques e na condição de visitante, era esperado que o Atlético se preocupasse mais em marcar o Cruzeiro e partir em contras. Nas duas últimas visitas ao Cruzeiro no Mineirão, foi exatamente o que o Atlético fez, e nas duas saiu com a vitória. Querendo evitar novo revés, Marcelo armou seu time para atacar, mas também preocupado com os contragolpes, principalmente pelos lados, e por isso prendeu um pouco mais os laterais. A primeira função de Mayke e Mena era acompanhar os ponteiros adversários, e depois subir.

Mas os ponteiros do Cruzeiro tem a característica de centralizar o jogo, se aproximar do centro. Foi assim em 2013 e 2014, e assim é em 2015, ainda que com jogadores diferentes. E dessa forma, o Cruzeiro pouco chegou pelos lados, diferente da partida contra o Huracán. O Atlético marcava bem compacto, negando espaços entre as duas linhas, dificultando as ações do trio ofensivo atrás de Damião.

Flagrante do posicionamento ofensivo do Cruzeiro: laterais dão amplitude, mas não profundidade; trio de meias bem próximos, mas sem espaço entre as duas linhas do Atlético (foto: @rodrigodeaf)

Flagrante do posicionamento ofensivo do Cruzeiro: laterais dão amplitude, mas não profundidade; trio de meias bem próximos, mas sem espaço entre as duas linhas do Atlético (foto: @rodrigodeaf)

Sem opções, o Cruzeiro chegava perto da área do Atlético até com facilidade, mas a partir dali não sabia bem o que fazer com a bola. Diante de um time bem postado taticamente, cabe ao time com a bola se movimentar e aproximar, tentando desmontar a defesa para criar os espaços e usá-los. Mas para isso é preciso que os jogadores se conheçam bem, saibam a característica de cada um: onde preferem a bola, em que pé, de que forma, como se movimentam. É o tal entrosamento, que, como sabemos, ainda está sendo construído.

Defesa e transição

Quando o Atlético recuperava a bola, o Cruzeiro não fazia pressão alta. Recompunha-se e marcava a partir do meio-campo, usando a mesma estratégia do adversário. Quem fazia a transição era sempre Luan. Ele buscava a bola atrás e carregava para o campo de ataque, aparecia pelos lados e tentava encontrar os companheiros no meio da defesa celeste. Os avançados atleticanos até tinham mais mobilidade, mas não achavam o passe e entregavam a posse de bola.

Mas ao invés de partir na transição rápida, o Cruzeiro não aplicava velocidade suficiente e deixava a defesa adversária se recompor também. O único lance em que isso aconteceu foi uma jogada de Marquinhos pela direita, mas Damião não chegou a tempo e a zaga afastou.

Com as defesas levando vantagem sobre os ataques, não por acaso o primeiro tempo só teve uma grande chance, e de bola parada: escanteio do Atlético que Fábio fez dois milagres. E foi só: basicamente, um jogo de uma intermediária à outra.

Segundo tempo

Após o intervalo, o panorama pouco mudou. De Arrascaeta passou a se movimentar e aparecer mais para o jogo, e com isso o Cruzeiro teve mais volume, mas ainda sem ter o passe final qualificado. Aos 15, Marcelo fez troca dupla: tirou o uruguaio e Willian, lançando Alisson e Judivan — as mesmas duas trocas do jogo contra o Huracán. Alisson foi à esquerda e Judivan ficou pelo centro. Quatro minutos depois, Levir respondeu com Danilo Pires e Maicosuel nas vagas de Cesinha e Dodô. Danilo entrou para segurar mais a bola, e Maicosuel para dar velocidade aos contras.

Se no jogo contra o time argentino as alterações de Marcelo deram um certo resultado, nesta partida nem tanto. As mexidas de Levir acabaram por neutralizar as de Marcelo: o Atlético de fato passou a ficar mais com a bola, e foi saindo aos poucos para o ataque, principalmente com Patric pelo lado direito — de onde começou a jogada do gol bizarro que Fábio sofreu.

Marquinhos volante

No fim, Cruzeiro se lançou em busca do empate com Marquinhos armando de trás e Judivan e Alisson nas pontas, e quase virou o jogo, mas cedeu espaços importantes que o Atlético não aproveitou

No fim, Cruzeiro se lançou em busca do empate com Marquinhos armando de trás e Judivan e Alisson nas pontas, e quase virou o jogo, mas cedeu espaços importantes que o Atlético não aproveitou

Atrás no placar, Marcelo não viu alternativa senão a de abrir o time de vez, e fez a substituição esperada: recuou Marquinhos para armar de trás na vaga de um dos volantes, que desta vez foi Willians, por precaução, entrando Joel pelo centro e abrindo Judivan à direita. Novamente, uma substituição arriscada, pois sem a bola Marquinhos era o segundo volante e tinha que marcar as saídas de bola atleticana no contra ataque.

O Cruzeiro não teve o volume esperado com a alteração, mas o gol de empate acabou saindo por causa dela. Joel, se movimentando, ganhou uma jogada de Luan pela direita e achou Marquinhos na posição de armador central. Ele tocou pra Damião, que a partir daí fez todo o trabalho sozinho: protegeu no pivô, girou em cima de Jemerson, ganhou no pé de ferro de Douglas Santos e finalizou cruzado por baixo das pernas de Jemerson, longe do alcance de Victor. A bola morreu mansinha nas redes azuis do Mineirão.

O gol deu força para o Cruzeiro que foi com tudo, até com uma certa ansiedade, se desorganizando atrás e dando o contra-ataque. Chegou mais uma vez com Alisson pela esquerda, num cruzamento rasteiro que nem Damião nem Judivan alcançaram, mas também correu riscos. Mena e Léo tiveram que parar contragolpes com faltas e por isso foram advertidos, mas nenhum dos dois times levou mais perigo à meta adversária.

Devagar, devagar

Quem conhece este blogueiro sabe que sempre acredito na justiça do placar. Pelo que foi o jogo, considerando as propostas e estratégias, o empate foi um resultado que espelha bem o equilíbrio que houve na partida. O Atlético se limitou a repelir as ações ofensivas celestes e atacar poucas vezes, e o Cruzeiro teve a bola mas pouca criatividade para furar o bloqueio defensivo adversário. Talvez só o zero a zero fosse um placar melhor.

As marcas azuis indicam as finalizações do Cruzeiro e as vermelhas as do rival; o baixo número de acertos (em cores mais escuras) ilustra bem o que foi a partida

As marcas azuis indicam as finalizações do Cruzeiro e as vermelhas as do rival; o baixo número de acertos (em cores mais escuras) ilustra bem o que foi a partida

Está claro que o Cruzeiro tem um problema de criatividade na fase ofensiva, mas que tem que ser relativizado pelo fato de ter enfrentado duas defesas muito fechadas. Nem sempre os adversários se comportarão desta forma; o Cruzeiro será atacado em alguns momentos. Porém, é um problema de fato, e pode ser resolvido de várias formas.

Vi gente nas redes sociais clamando por mudanças no sistema tático, ao que sou frontalmente contrário. Para enfrentar adversários organizados, só existe um jeito: intensidade de movimentação, seja em qual esquema for. Também vi mais pedidos por mais um meia criativo, o que pode resolver, mas talvez também não seja a solução. Como sempre digo: não adianta ter um bom passador se todos os alvos de passe ficam estáticos e marcados. Os bons passes são responsabilidade tanto de quem os executa quanto de quem os recebe.

Assim, o meia ideal para o Cruzeiro é o Entrosamento da Silva. Esse aí, não tem como contratar. Ele só vem com o tempo. Hoje, Ricardo Drubscky foi demitido do Vitória, porque segundo a diretoria do clube baiano, o time não vinha convencendo em campo. Ricardo só tinha um mês de trabalho. Depois da demissão, Ricardo disse: “Eu não consigo ver um trabalho com alguma substância com menos de três meses.”

Parece muito? Pois já vi treinadores consagrados dizendo que às vezes precisa de um ano inteiro. A hora agora é de paciência.



Cruzeiro 2 x 3 Atlético/MG – “Olha eu aí!”

"Coluna dois! Ih! Olha eu aí!"

“Coluna dois! Ih! Olha eu aí!”

Antes de mais nada, sei que o jogo já passou e é hora de olhar pra frente. Por isso, este texto chega com algum atraso. Mas ele é também uma resposta aos que dizem que não há textos nas derrotas. Ora, também deixei de escrever em algumas vitórias, pois como já expliquei antes, a questão não é o resultado do jogo e sim o tempo que disponho para digitar minhas observações. Isto posto, sigamos.

O futebol é um jogo de imposição de estilos. Uma frase famosa no futebol, que o Google me diz ter sido dita por Sepp Herberger, técnico da Alemanha campeã em 1954. Mas o que Sepp não disse é que nem sempre o estilo que se impõe sai de campo vencedor. E o que se viu no Mineirão do último domingo foi exatamente isso: o domínio de uma equipe sobre a outra, se impondo e obrigando o rival a se defender como um time pequeno do interior, mas cometendo erros que foram bem aproveitados pelo adversário.

Pela postura, pela estratégia e pela imposição de um time sobre o outro — e até mesmo pelo padrão monocromático preferido pela roupagem do rival — nada mais justo e descritivo do que classificar o resultado como a mais clássica zebra. O título do texto é uma homenagem a isso.

Escalações

Cruzeiro no 4-2-3-1 de sempre, sendo forçado a sair pelos lados por conta do bloqueio dos atacantes rivais aos volantes; Atlético acuado em duas linhas de quatro

Cruzeiro no 4-2-3-1 de sempre, sendo forçado a sair pelos lados por conta do bloqueio dos atacantes rivais aos volantes; Atlético acuado em duas linhas de quatro

Marcelo Oliveira não fez nenhuma mudança em relação ao time esperado: um 4-2-3-1 com dois laterais ofensivos e dois volantes construtores. Do gol, Fábio teve sua linha formada por Mayke e Egídio nos flancos, com Dedé e Léo na área. Henrique e Lucas Silva comandaram a ligação para o trio de meias formado por Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Alisson, com Moreno na referência comandando a pressão alta.

Levir Culpi tentou surpreender, e no papel o Atlético só tinha um volante, mas na prática, fez um 4-4-2 britânico, ou seja, em duas linhas. O gol de Victor foi protegido pelos zagueiros Léo Silva e Jemerson, com Marcos Rocha na direita e Émerson Conceição na esquerda. A segunda linha tinha o já citado volante, Leandro Donizete, mas com Dátolo a seu lado, jogando por dentro, e com os flancos cobertos por Luan à direita e Carlos à esquerda. Na frente, Guilherme e Diego Tardelli.

Imposição de estilos

Continuando a velha mania da mídia em geral de dar a informação sem observar, os repórteres de campo bradavam que Levir “foi ousado” e que “iria pra cima” do Cruzeiro. Ledo engano. Como lhe é característico, o Cruzeiro tomou as rédeas da partida e já mandou uma bola no travessão logo aos dois minutos, com Alisson completando bela linha de passe. Um lance que resume bem como seriam os 90 minutos de jogo.

O Atlético até tentava ficar com a bola, mas a marcação do Cruzeiro no campo de ataque era excelente, forçando o erro rival, e logo a bola voltava aos pés celestes. Assim, praticamente durante todo o tempo, Guilherme e Diego Tardelli ficavam vendo os zagueiros celestes trocarem passes, sem subir a pressão, se limitando a fechar as linhas de passe para Lucas Silva e Henrique. Isso forçava o jogo do Cruzeiro pelos lados, o que acabou não sendo um problema, pois Mayke e Egídio conseguiam levar a melhor contra Luan e Carlos. E assim o Cruzeiro chegava com facilidade até as proximidades da área rival, mas faltava maior capricho no último passe e na hora de finalizar.

Sequência de erros

E justamente quando o gol celeste parecia madurinho, o Atlético conseguiu seu primeiro gol na sua primeira chance real. Com a jogada transcorrendo do lado esquerdo, Mayke corretamente se aproximou do centro para compactar o time lateralmente, deixando o espaço do lado direito descoberto. Émerson Conceição foi até lá e normalmente teria a companhia de Éverton Ribeiro, o ponteiro direito que acompanha o lateral. Só que Éverton também estava pelo centro e teve que correr uma grande distância para tentar bloquear o cruzamento: primeiro erro. Não foi suficiente, e o cruzamento saiu. Na disputa na área, Léo perde para Luan, muito mais baixo e franzino: segundo erro. E no rebote, Éverton Ribeiro se esqueceu de voltar e habilitou a posição de Carlos, que completou à queima-roupa: terceiro erro.

Talvez por saber que parte da culpa pelo gol foi dele, Éverton Ribeiro se enrolou na saída de bola, tentou um drible em uma posição perigosa do campo e perdeu a bola, gerando um contra-ataque bem executado, em passe de Dátolo para Tardelli já dentro da área. A transição ofensiva é o pior momento para uma equipe perder a posse, pois o pega o time saindo para o ataque, com os jogadores naturalmente saindo de suas posições defensivas. Quando acontece isso, gera um “contra-contra-ataque”, e os jogadores tem que interromper a corrida para a frente e mudar a direção, para voltar e recompor.

Voltando pro jogo

Em clássicos, normalmente um dois a zero contra é quase decisivo. Da forma como foi, mais ainda, pois foram dois gols em sequência quando o Cruzeiro era absolutamente melhor. Geralmente o time fica abalado, mas o Cruzeiro pareceu ignorar isso e continuou jogando como se o placar estivesse em branco. Seguiu com mais posse, rondando a área e chutando mal, exceto na jogada de Éverton Ribeiro, se redimindo em parte pelos erros. Ele achou Goulart sozinho em cima da linha do gol, para diminuir ainda no primeiro tempo, e fazer o Cruzeiro voltar ao jogo com muita naturalidade.

Não houve nenhuma mudança no intervalo, nem de peças, nem de estratégia e nem de estilo. O Cruzeiro continuou se impondo, mas foi muito mais perigoso e incisivo, empatando a partida logo no início com Alisson se descolando de Marcos Rocha, e depois criando uma profusão de chances. Alisson mandou na trave, Moreno mandou por cima um cruzamento da Mayke, que também teve sua chance em cabeceio livre, mas que mandou nas mãos de Victor. Um pouquinho só a mais de capricho nas conclusões teria decidido o jogo já no meio do segundo tempo a favor do Cruzeiro.

Mudanças

Depois do empate, o Atlético mudou para um 4-2-3-1 que acabou não mudando o panorama; Cruzeiro manteve o 4-2-3-1 e pressionou até perto do fim, quando pareceu ter se cansado de chutar tanto a gol

Depois do empate, o Atlético mudou para um 4-2-3-1 que acabou não mudando o panorama; Cruzeiro manteve o 4-2-3-1 e pressionou até perto do fim, quando pareceu ter se cansado de chutar tanto a gol

Após o empate, Levir viu seu time acuado e tentou fazer algo. Aproveitando uma lesão de Luan, mudou para um 4-2-3-1 com Josué ao lado de Donizete e atrás de Carlos à direita, Dátolo centralizado e Guilherme na esquerda, com Tardelli sendo o único centroavante. Depois, sabendo da deficiência defensiva de Guilherme, reforçou a marcação do lado esquerdo com Douglas Santos na lateral esquerda na vaga de Émerson Conceição. Já no Cruzeiro, Marcelo Oliveira mandou Dagoberto a campo na vaga de Alisson, lesionado, sem alterar o sistema mas colocando ainda mais verticalidade. Levir então respondeu com Eduardo na esquerda, mandando Carlos de volta para o lado direito e tirando Guilherme de campo.

Mesmo com tudo isso, o panorama não se alterava. O terceiro gol celeste parecia certo, uma questão de tempo. Marcelo lançou Borges, o melhor pivô do mundo, na vaga de Moreno, e a troca teria sido celebradíssima se Dagoberto convertesse em gol a jogada que construiu com seu antigo parceiro, numa jogada típica de Borges: costas para o adversário, toque de lado para achar o jogador na corrida e deixá-lo em ótima posição para chutar ou cruzar. Dagoberto perdeu um gol que não costuma perder.

Pareceu ser a última cartada do jogo. Talvez por cansaço, o Cruzeiro continuava com a bola mas já não ameaçava tanto a meta de Victor. O time rival conseguiu respirar um pouco e voltou a ameaçar em contra-ataques. Primeiro com Tardelli pela direita — em mais um drible errado de Éverton Ribeiro e que foi o estopim da substituição por Willian. A bola foi rebatida pela zaga e rebote atleticano foi desviado para escanteio. Mas no segundo, Leandro Donizete, com liberdade, achou um cruzamento para Carlos que, também sem marcação, cabeceou no canto oposto de Fábio e decretou o resultado final. Coisas do futebol.

Merecimento e justiça

Quem acompanha o blog sabe que sempre digo que não acredito em resultados injustos. Se o Cruzeiro se impôs, chutou mil bolas ao gol e não venceu, é porque foi incompetente na hora de concluir. E pior: cometeu erros que o rival aproveitou muito bem, com conclusões mais precisas do que as celestes. Por isso, a justiça do futebol é a da bola na rede.

Merecimento, entretanto, é algo diferente. Não que o Atlético não tenha merecido ganhar, pois fez um de seus melhores jogos num período recente, e também teve sorte com as duas bolas na trave. Mas o Cruzeiro, pelo que jogou na partida, pela forma como se impôs num clássico (que sabemos ser um jogo diferente), acuando o time rival em sua própria área, algo incomum para uma partida como essa — por causa disso tudo, o Cruzeiro não merecia perder. Infelizmente, aquele terceiro gol, que parecia certo, não saiu. Se Cruzeiro e Atlético jogassem assim cem vezes, o Cruzeiro sairia vencedor em oitenta.

A linha do tempo mostra: Cruzeiro se impondo durante os 90 minutos com muitas finalizações e Atlético com poucas chances, acuado mas mais eficiente

A linha do tempo mostra: Cruzeiro se impondo durante os 90 minutos com muitas finalizações e Atlético com poucas chances, acuado mas mais eficiente

E é nessa última parte que fica a boa impressão. Perder um clássico é sempre ruim, mas nesse caso, pareceu um pouco menos pior. Porque o futebol que o Cruzeiro mostrou, ainda que com os erros nas finalizações e na marcação do adversário, é suficiente para vencer a maioria das partidas e caminhar rumo ao título.

Ou seja: como defendo sempre, no longo prazo, a qualidade do futebol é mais importante que o resultado. E por essa ótica, o Cruzeiro ganhou de goleada.



Cruzeiro 0 x 0 Atlético/MG – Inteligência e maturidade

O Constelações volta depois de merecidas férias. A viagem internacional, porém, não impediu o blogueiro de acompanhar o Cruzeiro na rua brilhante recuperação na Libertadores e no restabelecimento da ordem natural em âmbito regional. No primeiro caso, um time maduro e seguro de sua capacidade, jogando com inteligência no Chile e com ímpeto e imposição no Mineirão. Sempre no 4-2-3-1, mas uma alteração frequente para o 4-1-2-3 com um meio campo só de volantes, quando o desejo era arrastar o jogo até o fim.

Já no Campeonato Mineiro, a primeira partida da final foi praticamente igual à da fase de classificação. O Atlético tendo mais a bola, mas o Cruzeiro se defendendo bem e não abdicando do ataque. Consequência das mudanças de um lado e da evolução em outro: nem Atlético nem Cruzeiro são as mesmas equipes de 2013, apesar de terem praticamente os mesmos jogadores. O Atlético sob Paulo Autuori já não aplica mais a intensidade que Cuca sempre pedia, preferindo cadenciar um pouco mais. E o Cruzeiro, que no ano passado só sabia jogar ofensivamente — e que foi suficiente para o título nacional — já comprovou que pode jogar com outras estratégias, consequência de evolução notável da defesa.

A finalíssima

Times no 4-2-3-1, mas com o lado esquerdo atleticano vulnerável, pois Ronaldinho deixava o trabalho de marcação para Jô

Times no 4-2-3-1, mas com o lado esquerdo atleticano vulnerável, pois Ronaldinho deixava o trabalho de marcação para Jô

Para o segundo jogo, Marcelo Oliveira mandou a campo o 4-2-3-1 usual, com Fábio no gol. Mas, flanqueando os zagueiros Dedé e Bruno Rodrigo, estavam Ceará e Samudio, dois laterais que tem mais tendência a compor a linha defensiva do que apoiar. Para compensar uma eventual escassez de força ofensiva, a dupla de volantes tinha em Lucas Silva e Henrique dois jogadores com qualidade de passe e de chegada à frente, se juntando ao trio “clássico” formado por Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Dagoberto, com Júlio Baptista no comando do ataque.

Já o Atlético também veio no 4-2-3-1, mas diferente em relação ao que Cuca implementava no setor ofensivo. Jô continuou sendo o centroavante, mas fazia a cobertura para Ronaldinho, que tinha liberdade total e preferiu perambular entre o centro e a esquerda. Tardelli ficou mais à direita e Guilherme foi o meia central, principal responsável por fluir o jogo da defesa para o ataque. Atrás dele, Pierre e Leandro Donizete praticamente só defendiam a grande área de Victor, tendo o suporte na linha defensiva formada por Michel na vaga do titular Marcos Rocha, Otamendi, Leonardo Silva e Alex Silva.

Primeira etapa

Os papéis se inverteram em relação à primeira partida. Mesmo com a vantagem de um segundo empate, era o Cruzeiro quem mais demonstrava que queria vencer. Primeiro porque marcava pressão na saída atleticana e forçava o chutão, que quase sempre terminava com a bola em pés celestes; depois porque aplicava uma marcação fortíssima também no meio-campo, o que foi um fator surpreendente considerando a característica dos volantes do Cruzeiro. Eles não guardavam marcação individual, mas estavam sempre muito perto dos jogadores atleticanos e não deixavam o meio rival respirar.

O Atlético se contentou em se defender e segurar a pressão. Não foi fazer marcação alta na saída do Cruzeiro, e tinha ainda um setor vulnerável em sua defesa: a esquerda. Isso porque Ronaldinho era o homem que caía mais por aquele lado, mas não tinha nenhuma responsabilidade de marcação. Quem fazia isso por ele era Jô, que tinha que abandonar o seu posto à frente do time para marcar a saída do lateral Ceará — nem sempre ele fazia isso, pois tinha de correr muito. O resultado foi a liberdade imensa que Ceará tinha, recebendo várias bolas invertidas por Lucas ou Henrique. Foi uma tônica do primeiro tempo: o Cruzeiro tentava achar Dagoberto pela esquerda, o Atlético rodava a marcação — inclusive dos dois volantes — e deixava Ceará do outro lado sozinho para bater com Alex Silva. Foi num cruzamento de Ceará que Júlio Baptista quase marca um golaço de bicicleta.

Sem conseguir pelo chão, Paulo Autuori pediu para que Jô saísse do centro e pegasse um lateral no lançamento longo, pois assim poderia ganhar uma bola de cabeça e armar um ataque já perto da área celeste. Funcionou em certa medida, porque Ceará e Samudio não tem tanto poder aéreo, mas a segunda bola sempre era celeste — também porque os meias celestes se compactavam aos volantes e laterais, e sempre pegavam uma bola escapada das disputas aéreas ou nos duelos pelo chão, gerando grandes oportunidades de contra-ataque.

Numa delas, Éverton Ribeiro poderia ter marcado o primeiro gol dos clássicos de 2014. Se lembrando de uma conversa que teve com o goleiro Fábio — excelente indicativo de o quanto este grupo é unido — que revelou uma preferência de Victor em sair pelo chão em situação de um contra um, ele optou por dar uma cavadinha que de fato passou por cima do goleiro atleticano, mas a direção não foi boa e saiu.

Já o Atlético só assustou quando numa das raras vezes em que Ceará errou seu posicionamento, deixou Alex Silva tabelar com Ronaldinho, que enfiou uma bola na cara de Fábio. O jovem lateral preferiu cruzar, mas Samudio estava lá para tirar o perigo. E foi só.

A batalha tática dos treinadores

Autuori queimou todas as trocas: resolveu o lado esquerdo com Fernandinho marcando Ceará, mas ficou sem ninguém na lateral direita, espaço que Marcelo Oliveira aproveitou com Éverton Ribeiro invertendo de lado com a entrada de Souza

Autuori queimou todas as trocas: resolveu o lado esquerdo com Fernandinho marcando Ceará, mas ficou sem ninguém na lateral direita, espaço que Marcelo Oliveira aproveitou com Éverton Ribeiro invertendo de lado com a entrada de Souza

Vendo seu lateral exposto, Autuori resolveu voltar à fórmula Cuca do 4-2-3-1 no intervalo, tirando Guilherme, voltando com Ronaldinho para o centro e mandando Fernandinho para o jogo, caindo pela esquerda. Dessa vez, Jô não tinha mais que marcar por ali, pois a responsabilidade de marcação passou a ser de Fernandinho. Foi uma boa mexida, que em teoria daria mais ofensividade e velocidade, e ao mesmo tempo impediria a liberdade de Ceará pela direita.

Porém, só a segunda funcionou. Fernandinho mal tocou na bola, encaixotado na marcação de Ceará — que desta vez de fato ficou apenas marcando o lado esquerdo atleticano. Assim, a partida seguiu na mesma toada, mas com o Cruzeiro com menos espaços para jogar. Mesmo assim teve chances, com Éverton Ribeiro, em finalização de fora e com Ricardo Goulart, e lindo corta-luz de Éverton Ribeiro.

Nesse panorama, ou o jogo terminava em branco ou o Cruzeiro venceria. Aos 27, Autuori arriscou tudo, queimando as duas últimas trocas. Pierre por Claudinei era uma troca direta de volantes, também porque o primeiro já tinha amarelo. Mas Michel por Neto Berola mudava a cara do time: o Atlético ficou sem lateral direito, Berola foi para sua posição habitual de ponta direita, Tardelli e Ronaldinho ficaram pelo meio. Como Claudinei não foi ser lateral direito, o time ficou num sistema diferente, com linha de três e Leonardo Silva fazendo as vezes de lateral, dois volantes, dois meias e três atacantes. Algo como um 3-4-3 com meio-campo quadrado.

Quase no minuto seguinte, Marcelo respondeu com Souza na vaga de Dagoberto. O objetivo era não perder o meio-campo, mas surpreendentemente, Souza foi jogar aberto pela direita, com Éverton Ribeiro invertendo de lado. A substituição que parecia defensiva era na verdade muito ofensiva: Marcelo queria que Éverton explorasse o lado fraco da defesa atleticana. Foi um movimento excelente do treinador, que com uma única troca equilibrou as duas do treinador adversário, e ainda tinha mais duas pra fazer.

Os mapas de calor da Footstats mostram o domínio territorial celeste na partida: toques quase sempre no campo de ataque, enquanto o Atlético teve mais a bola em seu próprio campo

Os mapas de calor da Footstats mostram o domínio territorial celeste na partida: toques quase sempre no campo de ataque, enquanto o Atlético teve mais a bola em seu próprio campo

Então, Marcelo resolveu preparou o terreno. Tirou Ricardo Goulart e lançou Willian, mandando Éverton Ribeiro temporariamente para o centro. A marcação não arrefeceu um segundo sequer e o Cruzeiro continuava com o domínio territorial e de posse. Não havia motivos para continuar a movimentação defensiva, mas quase no fim do jogo, Ribeiro deu seu lugar a Tinga, para arrastar o jogo até o fim. E assim foi feito, o placar permaneceu virgem e o Cruzeiro arrebatou mais uma taça.

Jogar bem e saber jogar

Muitos analistas repercutiram as vitórias na Libertadores e o título mineiro dizendo que o Cruzeiro de 2013 está começando a aparecer novamente. Eu discordo: este Cruzeiro de 2014 é outro, evoluído, melhorado em relação àquele. Se no ano passado o Cruzeiro jogava ofensivamente e sempre busca a vitória a todo custo, já vimos neste ano o Cruzeiro jogar precisando vencer mas sem atacar alucinadamente. Sempre com equilíbrio e sabendo ditar o melhor ritmo para determinadas situações.

E é assim se que se deve jogar um torneio como a Libertadores. Atacar sempre pode dar resultado como no ano passado, principalmente porque num Brasileirão uma derrota é muito mais diluída entre os 38 jogos. Mas na fase eliminatória da Libertadores, uma derrota tem muito mais peso. Portanto é preciso saber que nem sempre atacar será a melhor solução.

Outro fator que chama a atenção é o poder de marcação celeste, que aumentou muito nesse temporada. Samudio surpreende positivamente, pois marca mais que Egídio mas não deixou a desejar no apoio. Será fundamental na caminhada. Henrique subiu muito de produção e hoje é inquestionável.

Por outro lado, o Cruzeiro tem pecado muito nas finalizações. As estatísticas não mentem: de acordo com a Fooststats, o Cruzeiro finalizou 291 vezes a gol durante todo o estadual, sendo 115 na direção certa (quase 40%). O Atlético, segundo no quesito, finalizou 191 vezes no total, 100 a menos que o time celeste, mas mandou 83 no alvo, com um aproveitamento de pouco mais de 43%.

A Libertadores continua, e vem aí o Brasileiro. Se colocar o pé na forma, dá pra levar os dois. É difícil, mas o Cruzeiro é, neste momento, o único time que pode fazer isso.

Que assim seja!



Atlético/MG 0 x 0 Cruzeiro – Sempre aprendendo

Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores pela demora nas atualizações. O apertado calendário de 2014 — que, tirando o período da Copa do Mundo, prevê uma semana inteira de folga para o Cruzeiro em apenas três oportunidades caso a equipe chegue a todas as finais — também aperta os períodos que este humilde escriba tem para desenvolver os textos e figuras.

Mas desta vez, não foi apenas este o motivo. A estratégia de mercado da principal detentora dos direitos televisivos da Copa Libertadores confinou a partida do Campeão Brasileiro ao seu novo canal, numa clara tentativa de forçar a entrada nas grades das principais operadoras do país. Dessa forma, tive de recorrer à internet, mas não obtive muito sucesso e a análise ficou muito prejudicada.

Considerando que o jogo contra o América foi com os reservas, mas no mesmo 4-2-3-1 de sempre, concentrarei esta postagem à análise do clássico, que teve aspectos táticos muito interessantes por parte de Marcelo Oliveira.

Alinhamentos iniciais

Com as aquipes no 4-2-3-1, os ponteiros celestes estavam invertidos para explorar a deficiência defensiva na esquerda e mitigar a saída forte pela direta

Com as aquipes no 4-2-3-1, os ponteiros celestes estavam invertidos para explorar a deficiência defensiva na esquerda e mitigar a saída forte pela direta

Ambos os times vieram no 4-2-3-1 que os consagraram na temporada passada. Fábio teve uma linha defensiva com Ceará pela direita e Egídio pela esquerda, com Dedé e Bruno Rodrigo na área. Lucas Silva sentiu dores e em seu lugar entrou Rodrigo Souza, e com isso Souza teve um pouco mais de liberdade para subir e ajudar o trio de meias. Dagoberto espetava pela direita, Éverton Ribeiro foi deslocado para o centro e Willian entrou pela esquerda, com Ricardo Goulart à frente.

O Atlético Mineiro de Paulo Autuori entrou com mudanças do lado esquerdo da zaga. O goleiro Victor foi protegido por Leonardo Silva e o estreante Otamendi, com Marcos Rocha à direita e Dátolo, meia de origem, na lateral esquerda. Dali pra frente foi o time de 2013: Pierre como volante marcador e Josué com um pouco mais de liberdade, atrás do ponteiro direito Tardelli, do central Ronaldinho e do ponteiro esquerdo Fernandinho. À frente, Jô duelava com os zagueiros.

O novo desenho do quarteto ofensivo

A saída de Moreno do time talvez tenha sido a maior surpresa. De uma maneira geral, creditou-se a mudança à falta de ritmo de Marcelo Moreno, fato que Marcelo Oliveira confirmou após a partida. Mas o que ficou subentendido é que o treinador aproveitou esse fato para armar seu time de forma a parar o Atlético Mineiro em sua casa.

A estratégia começava com a entrada de Willian no lado contrário. Quando Dagoberto joga, Willian normalmente fica pela direita para deixar o camisa 11 mais à vontade em seu lado preferido, o esquerdo. Porém, no jogo de domingo Willian apareceu pela esquerda mesmo, com Dagoberto do outro lado. Duas razões para isso: Willian tem mais capacidade defensiva do que Dagoberto, e portanto deveria estar mais atento ao lateral direito Marcos Rocha, que é uma das principais saídas de bola do rival. E Dagoberto foi colocado para jogar em cima de Dátolo, exatamente para explorar a pouca força defensiva do meia improvisado na lateral esquerda.

Essas mudanças significavam que Éverton Ribeiro teria que ir para o centro do campo, onde fica menos à vontade, embolado com os volantes adversários. Ricardo Goulart foi o centroavante, mas ficou mais preso do que normalmente fica entre os zagueiros. Ainda assim, recuava mais que um centroavante de ofício.

Mais posse, poucas finalizações

Mais atrás, Rodrigo Souza tinha a clara função de marcar Ronaldinho, e o fez muito bem. Souza era, portanto, o responsável por se juntar à criação, mas não possui um passe tão bom quando Lucas Silva e teve dificuldades nessa atribuição. Mesmo assim, sua mera presença no setor, aliada aos eventuais recuos de Goulart para a faixa intermediária, faziam o Cruzeiro ter mais homens no meio-campo e controlar a posse de bola. Tanto é que, mesmo com a pequena pressão atleticana no meio do segundo tempo, o Cruzeiro ainda terminaria a partida tendo a bola nos pés por 55,9% do tempo.

Em destaque, a única finalização do adversário no primeiro tempo: o bom desempenho defensivo é consequência direta das mudanças táticas de Marcelo Oliveira

Em destaque, a única finalização do adversário no primeiro tempo: o bom desempenho defensivo é consequência direta das mudanças táticas de Marcelo Oliveira

Mas esse controle da bola não gerou muitas finalizações. É verdade que foram mais do que o adversário: 7 contra apenas 1, mas destas, somente o cabeceio de Dedé no início da partida foi no alvo. Mas, por outro lado, permitir apenas uma finalização ao Atlético em sua própria casa, com 100% da torcida contra mostrou o excelente desempenho defensivo do Cruzeiro na primeira etapa. A estratégia do rival facilitava, já que era a mesma do ano passado: diagonais longas procurando os ponteiros. Mas estes estavam bem marcados, como Ronaldinho, e pouco produziram.

Além disso, as boas atuações de Dedé e Bruno Rodrigo negaram a Jô uma das armas do Atlético — a segunda bola. Os zagueiros venciam todos os duelos aéreos contra o provável reserva de Fred na Copa. Portanto, considerando tudo isto, foi um excelente primeiro tempo, ainda que o desempenho ofensivo tenha deixado a desejar. O fato de Fábio nem ter sujado o uniforme é a prova cabal da superioridade celeste.

Mudar para vencer

Provavelmente por ordem de Autuori, o Atlético voltou no segundo tempo ainda mais retraído, tentando chamar o Cruzeiro para seu campo e abrir espaços na frente. O Atlético só marcava o primeiro passe, mas deixava a bola com a defesa celeste. Os zagueiros Dedé e Bruno Rodrigo já não eram pressionados, e os laterais conseguiam receber a bola sem ser acossados. O Cruzeiro, por isso mesmo, não arriscava muito, e a sensação era de que o jogo iria continuar na mesma, com o Cruzeiro finalizando mal e o Atlético tendo poucos momentos com a bola nos pés.

A entrada de Moreno e a "desinversão" dos ponteiros expôs Egídio, que deu seu lugar a Ceará -- Marcelo Oliveira abandonou a cautela para vencer o rival, e por pouco não conseguiu

A entrada de Moreno e a “desinversão” dos ponteiros expôs Egídio, que deu seu lugar a Ceará — Marcelo Oliveira abandonou a cautela para vencer o rival, e por pouco não conseguiu

Aos 18, Marcelo Oliveira tentou mudar a cara da partida. Lançou Moreno na vaga de Éverton Ribeiro, apagadíssimo como central — o craque do Brasileirão 2013 rende mais partindo da direita, como ponteiro passador (sim, uma terminologia “emprestada” do voleibol), ou precisa ter alguém a seu lado no centro, para poder dividir a atenção da marcação. Com isso, Goulart recuou para sua posição “original”. Mas não só isso: Dagoberto e Willian trocaram de lado, para seus lados de preferência. A alteração era ofensiva, já que colocava Willian para atacar ao invés de defender e arriscando com Dagoberto pelo lado de Marcos Rocha.

Para compensar isso e ainda adicionar mais um elemento ofensivo, cinco minutos depois Marcelo Oliveira tirou o já amarelado Egídio e que agora estava exposto, sem a ajuda de Willian ou de Dagoberto, para lançar Mayke, invertendo Ceará para a esquerda. O veterano camisa 2 ficou por conta de marcar somente, e Mayke foi liberado para o apoio. Isso abriu o time um pouco e o Atlético começou a levar mais perigo em suas estocadas, fazendo o Cruzeiro conceder muitas faltas perto de sua grande área. Felizmente, Ronaldinho não estava em tarde inspirada nas cobranças e Fábio não foi exigido.

Foi o momento mais perigoso da partida. A torcida do Atlético já gritava contra seu treinador, que só fez uma troca, mandando Neto Berola na vaga de Tardelli, sem alterar muito o esquema. No mesmo momento, Marlone foi para a vaga de Dagoberto, também sem alterar o sistema, mas dando muito mais preocupações defensivas a Marcos Rocha do que Neto Berola a Ceará. No fim, uma cobrança de falta de Souza fez Victor rebotear nos pés de Rodrigo Souza, que se fizesse o gol teria coroado sua excelente atuação.

É o clássico

É lugar comum, mas não seria se não fosse verdade: o clássico é um jogo diferente. Ele faz os treinadores mudarem as características de seus times para explorar cada fraqueza do rival — Mourinho fez isso recentemente com seu Chelsea na partida contra o Manchester City pela Premier League. Sem os “titulares” Lucas Silva e Moreno, as entradas mais esperadas eram as de Júlio Baptista (empurrando Goulart à frente) e Henrique na posição de segundo volante. Mas Marcelo lançou Rodrigo Souza e Willian, visando explorar a deficiência defensiva pela esquerda e mitigar a saída forte pela direita. Tudo isso ainda povoando o meio-campo e vencendo a batalha pela posse. Pontos para o treinador.

Mas como em futebol não existe tática perfeita, algo teve de ser sacrificado. E foi a movimentação ofensiva característica deste Cruzeiro, com intensidade e troca de posições constante. Willian ficou preso na sua atribuição defensiva e pouco centralizou. Dagoberto já não tem tanto esta característica, preferindo naturalmente ficar mais aberto, e Éverton Ribeiro, centralizado, ficou encaixotado na marcação dos volantes atleticanos. Por isso não vimos o Cruzeiro vibrante do ano passado.

De qualquer forma, foi uma evolução. Após a confirmação do título nacional, Fábio foi a um programa de entrevistas e disse que a eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil fez o grupo perceber que não sabia jogar se defendendo. Portanto, o time de 2013 só sabia jogar de um jeito: atacar o tempo todo. No clássico, o Cruzeiro teve uma postura mais cautelosa, mas com a bola nos pés, conseguindo criar mais chances e ficar mais perto da vitória do que o rival — ainda que isso seja contra a escola de futebol preferencial dos cruzeirenses, é importante saber jogar assim de vez em quando.

E e parece que este grupo aprendeu.