Cruzeiro 0 x 2 São Paulo – No meio do caminho tinha um Muricy

Eis que a invencibilidade do Cruzeiro no Mineirão chegou ao fim. E o maior responsável foi o treinador do São Paulo, Muricy Ramalho. Uma verdadeira pedra no sapato cruzeirense.

Minimizar os erros e aproveitar ao máximo os do adversário é um dos pilares do famigerado Muricybol, estilo de jogo que veio à luz no tricampeonato do São Paulo de 2006 a 2008. Pois consciente da inferioridade técnica de sua equipe e jogando em campo desfavorável, Muricy aplicou este princípio muito bem ao armar o São Paulo para que não houvesse jogo algum, travando a movimentação celeste — principal trunfo do Cruzeiro até aqui. Com isso, o jogo se transformou em uma competição de quem errava menos e quem capitalizasse melhor as poucas oportunidades que apareceriam, e nesse quesito o São Paulo foi melhor.

Escretes

O sistema de coberturas do 3-4-1-2 de Muricy travou a movimentação dos três mais cruzeirenses: Goulart cercado e laterais pressionados pelos alas

O sistema de coberturas do 3-4-1-2 de Muricy travou a movimentação dos três mais cruzeirenses: Goulart cercado e laterais pressionados pelos alas

Marcelo Oliveira escalou o time atualmente considerado titular, desfalcado apenas de Dedé, na seleção, no já habitual 4-2-3-1. Fábio no gol, Ceará, Léo, Bruno Rodrigo e Egídio faziam a linha defensiva, Nilton e Lucas Silva na proteção e no suporte ao trio de meias, Everton Ribeiro da direita para o centro, Ricardo Goulart partindo do centro e Willian mais pela esquerda e mais agudo, se aproximando de Borges.

O São Paulo entrou num 3-4-1-2 com coberturas especiais para parar a fluidez celeste. Dênis era o goleiro e tinha em seu trio defensivo Paulo Miranda à direita, Rodrigo Caio no centro e Édson Silva à esquerda. Tudo para poder avançar os alas Douglas e Reinaldo para se alinharem aos volantes Wellington e Maicon — este último com mais liberdade para sair e se aproximar de Ganso na ligação. Na frente, Ademílson e Aloísio ficavam um de cada lado. Não havia centroavantes.

Encaixes

Os leitores mais assíduos do blog sabem que sempre menciono o problema que acontece quando trios defensivos encaram ataques com jogadores abertos, que aqui no blog chamo de ponteiros. Ou os alas têm que recuar para marcar os ponteiros — e com isso perdendo amplitude no ataque, cedendo espaços aos laterais adversários e ainda criando uma sobra dupla redundante na defesa — ou corre-se o risco de ficar no mano a mano.

Muricy optou pela segunda opção, pois ordenava constantemente seus alas a avançarem e baterem com Ceará e Egídio, travando o avanço pelos lados, deixando Rodrigo Caio com Borges e os zagueiros de lado fazendo a cobertura dos alas, deixando três contra três. Por isso a margem de erro do São Paulo era mínima, já que, ao ver o Cruzeiro se aproximar de sua área, um bote mal dado poderia gerar inferioridade numérica, o pesadelo de qualquer defesa. Mas com o setor central congestionado, com Goulart cercado pelo volantes e às vezes até por Ganso, a bola não chegava à frente com qualidade, fazendo com que a falta de um jogador na sobra da defesa fosse um problema menor.

Já na outra ponta do campo, Aloísio e Ademílson ficavam mais livres para pressionar Léo e Bruno Rodrigo, puxando Ganso para cercar o passe aos volantes, ou então eles mesmos marcarem Nilton e Lucas Silva, fazendo Ganso ficar próximo dos volantes e criando a compactação citada no parágrafo anterior.

Chama e vai

Diante da dificuldade, o Cruzeiro concedia a posse mais frequentemente que o normal e passou a tentar chamar o São Paulo para seu campo. Com a bola, Rodrigo Caio subia da da linha defensiva para junto de Wellington e confundia a marcação celeste. Num desses lances o volante-lateral avança sem ser incomodado, com Borges correndo atrás para tentar cercar, e chuta com perigo à meta de Fábio. Além disso, o São Paulo apoiava com os dois alas ao mesmo tempo, por vezes criando uma situação de quatro contra quatro na defesa celeste e obrigando um dos volantes a afundar, deixando Ganso no mano a mano com o outro volante.

Com dificuldade em reter a bola no ataque, o Cruzeiro acabava cedendo a posse e por isso o São Paulo foi a equipe com maior posse de bola no terço final do campo -- ou seja, da intermediária ofensiva para frente -- na rodada (Footstats)

Com dificuldade em reter a bola no ataque, o Cruzeiro acabava cedendo a posse e por isso o São Paulo foi a equipe com maior posse de bola no terço final do campo — ou seja, da intermediária ofensiva para frente — na rodada (Footstats)

Mesmo com dificuldades de reter a bola, o Cruzeiro conseguia se defender razoavelmente, passando a tentar explorar os contra-ataques em velocidade, talvez a única vulnerabilidade do sistema de Muricy. Porém, naquela noite os passes rápidos não estavam saindo com a mesma qualidade, e novamente a posse era perdida. Quando saiu uma jogada, foi o lance capital da partida: Éverton Ribeiro achou Goulart, que tabelou com Willian e bateu para ótima defesa de Dênis. No rebote, com o gol aberto e Dênis batido, Willian mandou na trave. O imponderável do futebol, uma espécie de Sobrenatural de Almeida às avessas entrou em campo e não queria que o Cruzeiro vencesse.

O jogo de xadrez

No início do segundo tempo o Cruzeiro foi pra cima e pressionou, sufocando o São Paulo com o time bem avançado. Foram cinco minutos em que só o Cruzeiro jogou. Mas depois disso o jogo voltou ao patamar do primeiro tempo, com cada treinador esperando o outro fazer o primeiro movimento. Como nenhum fez, os dois fizeram ao mesmo tempo: Marcelo Oliveira lançou Dagoberto, desta vez na vaga de Goulart — com isso, Ribeiro foi ser central e Dagoberto esquerda, com Willian invertendo de lado — e Muricy pôs Welliton na vaga de Aloísio, sem modificar seu sistema.

O jogo de xadrez continuou. Muricy viu que Dagoberto não voltava muito pra marcar e mandou seu ala apoiar ainda mais, dando dificuldades para Egídio. Marcelo respondeu lançando Mayke na vaga do camisa 6, invertendo Ceará de lado para reforçar a marcação. E foi justamente num lance de bote errado de Mayke em Maicon que o São Paulo abriu o placar. Note o efeito cascata nas coberturas por causa do erro: Léo, que devia estar em Welliton, saiu em Maicon. Bruno Rodrigo então saiu de Ademílson para marcar Welliton, e Ceará, por sua vez, saiu da esquerda para marcar Ademílson. A bola rodou e Douglas ficou sozinho do outro lado para finalizar.

Três minutos depois, o Cruzeiro errou mais uma vez. Méritos para Ganso, que não foi desarmado por três cruzeirenses que o cercavam na entrada da área. Na cobrança, novo erro de cobertura fez com que o rebote não fosse rebatido, e o São Paulo aumentou a vantagem. Com pouco tempo para fazer alguma coisa, Marcelo tentou Alisson na vaga de Lucas Silva, soltando de vez o Cruzeiro num 4-1-4-1/4-3-3. Muricy só fez mais uma troca, com Lucas Evangelista na vaga de Ganso, mas manteve o sistema que dava tão certo até ali e que, com o novo 4-1-4-1 celeste, ficou com a marcação ainda mais encaixada. Alisson até que se movimentou bem, causando certa confusão na marcação paulista, mas não foi suficiente para fazer Dênis trabalhar.

Acontece

Muricy mostrou porque é um grande técnico. Conseguiu descobrir um sistema que permitia maximizar as chances de parar o ataque celeste, arriscando ficar sem sobra na defesa para ter vantagem numérica no melhor setor cruzeirense, o meio ofensivo (defensivo para o São Paulo). Mesmo assim, não impediu o Cruzeiro de criar chances, que, se não foram muitas, foram perigosas. A bola de Willian na trave teria mudado o jogo completamente.

Mas não há o que lamentar. Talvez a oportunidade perdida de aumentar a vantagem de 11 para 14 pontos, já que o Grêmio conseguiu perder para o Criciúma em casa horas antes. A vantagem permaneceu a mesma, mas agora com menos jogos a serem cumpridos, o que na prática aumentou as chances celestes de título.

Na postagem passada o blog disse que o Cruzeiro poderia avançar em ritmo menor que os concorrentes que mesmo assim seria campeão. De fato, a vantagem de 11 pontos, faltando 11 partidas, nos permite fazer o seguinte raciocínio: se o Grêmio, o perseguidor mais próximo, fizer uma média de dois pontos por jogo — ou seja, um aproveitamento de 67%, que só o Cruzeiro tem no atual certame — ainda assim o Cruzeiro só precisaria fazer 1 ponto por jogo, o que daria um aproveitamento de 33%, o que seria o terceiro pior do campeonato. Mas as duas coisas me parece improváveis: nem o Grêmio dá sinais de que vai conseguir tudo isso, nem o Cruzeiro vai perder tanto gás assim até o fim do campeonato.

Assim, se não existe hora certa para perder, como disse Marcelo Oliveira na coletiva pós-jogo, não há dúvidas de que o revés, que cedo ou tarde aconteceria, veio no momento mais oportuno possível.

Seguimos olhando só para a frente.



São Paulo 0 x 3 Cruzeiro – Truque de cartola

Como todos sabem, o futebol foi inventado na Inglaterra no fim do século XIX, durante o reinado da Rainha Vitória. Este período ficou conhecido como a Era Vitoriana, um tempo de prosperidade para o Reino Unido. E também nesta época foi cunhado o termo “hat-trick” (truque de cartola, numa tradução livre), referindo-se a um truque no qual um mágico tirava três coelhos de uma cartola posta sobre uma mesa. No ludopédio, a expressão passou a ser usada quando um jogador marca três vezes na mesma partida.

E foi o que Luan fez sábado à noite no Morumbi. Porém, ao contrário do que sugere a etimologia, o hat-trick de Luan não foi mágico e nem truque, e sim fruto de competência celeste e incompetência do time paulista.

Onze inicial

No primeiro tempo, um 4-2-3-1 propositalmente sem intensidade mas com espaços pela esquerda nas costas de Everton Ribeiro

No primeiro tempo, um 4-2-3-1 propositalmente sem intensidade mas com espaços pela esquerda nas costas de Everton Ribeiro

Marcelo Oliveira voltou com seus titulares poupados, com Luan pela esquerda, Everton Ribeiro na direita e Ricardo Goulart por dentro, atrás de Vinicius Araújo. Na volância, Nilton cada vez mais acostumado a ser primeiro volante, e Souza, saindo mais para o jogo. E mais atrás, Mayke e Egídio fechavam os lados da zaga com Dedé e Bruno Rodrigo, todos capitaneados por Fábio no gol — o 4-2-3-1 de sempre.

Paulo Autuori, em início de trabalho, preferiu repetir o time que perdeu a Recopa Sulamericana para o Corinthians. O São Paulo se postou num 4-2-3-1 muito parecido com o cruzeirense, com Jádson caindo pela direita mas centralizando na posse, procurando Ganso, e Osvaldo partia da esquerda e se aproximava de Luís Fabiano na frente, fazendo o time ficar com uma cara de 4-2-2-2. O goleiro Rogério Ceni teve uma linha defensiva composta por Lúcio e Rafael Tolói, com Douglas na lateral direita e Clemente Rodriguez do outro lado, e Denilson e Rodrigo Caio como volantes, este último caindo muito mais à esquerda.

Estratégias defensivas

No início, faltou um componente fundamental para que um futebol moderno e envolvente aparecesse: a intensidade. Pois o Cruzeiro tirou de propósito o ritmo da partida, marcando com muita segurança. A ideia de Marcelo Oliveira, como ele mesmo explicou depois do jogo, tinha dois propósitos: enervar a torcida adversária, tentando aproveitar o mau momento do São Paulo, e usar da melhor condição física no segundo tempo, já que no meio de semana os titulares não jogaram e o São Paulo passou por uma decisão.

Assim, nem o Cruzeiro marcava por pressão na frente, como lhe é característico, e nem o São Paulo, que por viver um mau momento, preferiu se retrair para não sofrer gols e causar ainda mais impaciência em seu torcedor. Após duas chances criadas no início, o Cruzeiro segurou o São Paulo com tranquilidade, e só fez Fábio trabalhar aos 27 minutos, em erro num bote de Egídio que deixou os zagueiros no mano-a-mano.

O lado direito

O único setor onde o São Paulo poderia ter ameaçado mais era o lado direito, nas costas de Everton Ribeiro. Quando a jogada era pelo lado esquerdo, o meia ficava muito próximo para encurtar o espaço. Virada de jogo, e Clemente Rodriguez achava muit espaço para avançar. Não era raro ver Everton Ribeiro correndo em diagonal de volta a seu campo para não sobrecarregar Mayke à frente contra Osvaldo e Clemente Rodriguez.

Felizmente, o nosso jovem lateral direito fez mais uma partida estupenda na marcação. Parece que ele vem aprendendo com Ceará e tem segurando o seu ímpeto ofensivo natural para recompor com muita propriedade a linha defensiva. Osvaldo, que é uma das principais válvulas de escape da equipe paulista, foi muito bem marcado enquanto esteve jogando aberto pela esquerda. Em um determinado momento, Osvaldo passou a compor uma dupla de centroavantes ao lado de Luís Fabiano, por ordem de Paulo Autuori, e Mayke virou quase um zagueiro de área, novamente exercendo bem a função defensiva.

Portanto, com Mayke mais preso, era natural que o Cruzeiro tentasse atacar mais pelo outro lado, mas Rodrigo Caio caía por ali e cobria Jádson, que também voltava com Egídio, congestionando o setor. Ricardo Goulart aparecia para o jogo, mas cadenciava ao invés de dar velocidade — provavelmente a pedido de Marcelo Oliveira. O primeiro tempo acabou com a sensação de que, tivesse o Cruzeiro acelerado um pouco mais, teria conseguido vencer sem dificuldade a defesa tricolor.

Etapa final

Não houve trocas no intervalo, mas houve mudança na postura do São Paulo, talvez encorajada pela estratégia cruzeirense de se poupar no primeiro tempo. O time da casa acelerava o jogo quando o Cruzeiro errava, tentando pegar a defesa celeste saindo para o ataque. Conseguiu assustar duas vezes, a primeira em passe de Ganso para Jadson chutar em cima de Fábio, e a outra quando Egídio avança e erra o passe, abrindo espaço às suas costas que Jádson aproveitou, recebendo novo passe de Ganso e cruzando perigosamente para dentro da área. Bruno Rodrigo resvalou e Fábio salvou novamente.

Logo depois, Luan abriu a contagem em cruzamento despretensioso de Mayke. Mérito do atacante, que acertou um lindo chute de primeira no ângulo de Rogério, prevendo o erro de Douglas, que pulou no tempo errado. O gol esfriou o ímpeto são-paulino, e o Cruzeiro passou a controlar a partida, perigosamente. Aloísio entrou na vaga de um inoperante Luís Fabiano, dando mais velocidade ao ataque. Duas chances aconteceram para o time da casa: Dedé errou o tempo da bola, que sobrou para Jádson cruzar e Fábio salvar nos pés de Aloísio; depois, Bruno Rodrigo arriscou uma linha de impedimento que deu errado, deixando Aloísio entrar na cara de Fábio. Assustado com a grandeza de nosso arqueiro, o atacante chutou pra fora.

Aula de contra-ataques

Com Martinuccio, Luan foi para o centro e o time se postou num 4-2-3-1/4-4-1-1 armado para contra-atacar

Àquela altura, Lucca já havia entrado na vaga de Ricardo Goulart, indo para a direita e mandando Everton Ribeiro para o centro. Mas foi a segunda substituição que mudou a partida: Everton Ribeiro deu seu lugar a Martinuccio, empurrando Luan para o centro, quase num 4-4-1-1. A ideia era clara: usar a velocidade dos dois ponteiros para puxar contra-ataques e matar o jogo, e no primeiro lance isso já aconteceu. Martinuccio lançou Vinicius Araújo, que com muita visão de jogo passou para Luan ganhar na corrida e na força de Clemente Rodriguez e vencer Rogério Ceni.

Logo após o gol, Paulo Autori tentou suas últimas cartadas, tirando Osvaldo e Denilson e lançando Silvinho e Roni. Parecia um 4-1-2-3, com Roni mais avançado ao lado de Ganso, deixando Rodrigo Caio sozinho na proteção, e Jádson e Silvinho de ponteiros. Mas não deu tempo de dar certo, pois quase num repeteco, Martinuccio avançou com velocidade e Vinicius Araújo puxa a marcação brilhantemente para o lado, abrindo um clarão imenso para Luan. Martinuccio deu um passe curto demais, mas Luan ganhou a dividida com Rodrigo Caio, e ficou novamente de frente para Rogério Ceni. Com muita frieza, escolheu o canto e tirou o terceiro coelho da cartola.

A brilhante movimentação de Vinicius Araújo no terceiro gol, arrastando Lúcio e abrindo espaço para Luan

A brilhante movimentação de Vinicius Araújo no terceiro gol, arrastando Lúcio e abrindo espaço para Luan

Com o jogo resolvido, Marcelo Oliveira estreou o ex-CSA Leandrinho na vaga de Mayke, para dar rotatividade ao elenco, mas o jogador teve pouco tempo para mostrar seu futebol.

Riscos, evolução e rivalidade

A estratégia deu certo, mas foi arriscada. O São Paulo teve chances de abrir o marcador antes do Cruzeiro, e certamente se encastelaria para segurar a vitória que há muito não vem. O ideal seria dar velocidade e já abrir o placar no primeiro tempo, provocando a ira da torcida e enervando ainda mais o time adversário. O aspecto físico faria diferença de qualquer forma no segundo tempo.

Além disso, ainda há alguns problemas na defesa cruzeirense. Egídio erra muitos passes, alguns com o time avançando o posicionamento para começar a ofensiva, e Dedé e Bruno Rodrigo tem errado alguns fundamentos, proporcionando chances em demasiado para os atacantes adversários, principalmente Dedé, que tem se mostrado um tanto estabanado para dar o bote. Felizmente, a fase ruim do São Paulo ajudou a tirar a concentração dos atacantes na hora de concluir.

No entanto, a equipe vem mostrando que assimilou o jeito de jogar e parece estar bem confortável com o sistema — o que é surpreendente para um trabalho de apenas sete meses. Mayke vem agradando muito no quesito defensivo –o lateral foi o segundo melhor em campo de acordo com o WhoScored.com, atrás de Luan, por razões óbvias. E o ataque vem mudando com frequência sem perder a eficácia, mas ainda gostaria de ver Everton Ribeiro como nosso meia central. Com a provável chegada de Júlio Baptista, isso pode ser mais difícil de acontecer.

Agora é o Superclássico. Independentemente do resultado do meio de semana, será mais um bom teste para a equipe, o primeiro bom teste no Mineirão neste campeonato. Até agora, o Cruzeiro vem sendo aprovado em quase todos os grandes jogos. E, se continuar assim e melhorar pequenos pontos aqui e ali, com certeza será aprovado em mais um.



São Paulo 1 x 0 Cruzeiro – A falta de técnica matou a tática

Em um lance mezzo oportunismo de Osvaldo, mezzo falha da zaga cruzeirense e de Fábio, o São Paulo conseguiu o gol da vitória no jogo de domingo no Morumbi.

O 4-2-3-1 inicial teve pouco poder ofensivo, mas encaixou bem com o 4-2-1-3 dos paulistas, com Diego Renan vencendo Lucas mas com Leo perdendo de Osvaldo

Celso Roth surpreendeu e mandou um 4-2-3-1, diferente do que foi treinado durante a semana. À frente do goleiro Fábio, Léo reapareceu na lateral direita e Diego Renan foi para o jogo no lugar do suspenso Everton. Com isso a dupla de zaga foi Thiago Carvalho e Victorino, de volta ao time. Sem Leandro Guerreiro, também suspenso, o volante mais preso desta vez foi Charles, com Tinga jogando um pouco mais avançado e procurando se juntar ao trio de meias: Wallyson pela direita, Montillo por dentro e Marcelo Oliveira pela esquerda. Wellington Paulista era o único atacante.

O São Paulo de Ney Franco foi armado quase do mesmo jeito, a diferença sendo que os meias abertos, que neste blog chamo de ponteiros, eram mais atacantes que meias, formando um 4-2-1-3. No gol, o veteraníssimo goleiro Rogério Ceni viu Douglas pela direita e Cortez pela esquerda — dois laterais bastante ofensivos — flanquearem sua dupla de zaga, Paulo Miranda e Rhodolfo. Denilson e Maicon proviam suporte para Jádson criar para seus três atacantes: Osvaldo pela esquerda, Lucas pela direita e William José centralizado.

Um jogo equilibrado taticamente, visto que as defesas levaram a melhor sobre os ataques praticamente por todo o jogo, à exceção de alguns lances isolados. O que pode ser ilustrado pelo baixo número de finalizações certas do jogo: 6 a 0 para o time da casa. Isso mesmo: pela segunda vez no campeonato, o Cruzeiro não incomodou o goleiro adversário.

Lados (quase) fechados

Para surpresa de muitos, Diego Renan teve uma boa atuação defensiva, segurando o futuro parisiense Lucas e fechando bem o lado esquerdo. Lucas só levava perigo quando se projetava para o meio e partia driblando, sua característica. Entretanto, o mau posicionamento dos companheiros, principalmente de William José, resultava em uma jogada infrutífera. Diego era ajudado por Marcelo Oliveira, que fazia a primeira linha de marcação e acompanhava Douglas. Ofensivamente, entretanto, o lateral subia pouco, muito por causa da presença de Lucas, e Marcelo era quem tinha que prover amplitude por aquele lado. Não funcionou muito.

O lado direito, porém, estava um pouco menos desguarnecido. Cortez avançava sem medo de deixa sua própria lateral sem proteção, e Wallyson o acompanhava bravamente, bloqueando as investidas do lateral. O problema era mais atrás, onde Osvaldo conseguia ganhar na velocidade e no drible de Léo quase sempre. As melhores chances do São Paulo no primeiro tempo foram com o atacante ex-Ceará – que quase veio para o Cruzeiro no início do ano. Para nossa sorte, a zaga celeste estava bem postada e ganhava no último passe.

O calvário de Montillo

No meio-campo, o Cruzeiro levava ligeira vantagem. Charles foi o cruzeirense mais lúcido enquanto esteve em campo, tirando o tempo com bola de Jádson, e anulando o principal núcleo criativo dos paulistas. Tinga se movimentava por todo o setor central, mas o que o cabeludo tem de disposição, falta na técnica. O predador errou alguns passes e não conseguiu ser o homem surpresa do ataque celeste. Montillo, como sempre acontece quando joga pelo meio, foi muitíssimo bem marcado pelos dois volantes sãopaulinos. O argentino tentou cair pelos lados para fugir da marcação, e foi pela esquerda, nos pés dele, que morreu a melhor chance do Cruzeiro na primeira etapa, quando ao dominar uma bola com o pé esquerdo, ela acabou batendo também no pé direito do camisa 10 e ficou mais para Ceni rebater.

O grande problema de Montillo, no entanto, é a parte defensiva. Sem a bola, Montillo praticamente fica alinhado a WP e o time vira uma espécie de 4-4-2 britânico (ou seja, em duas linhas de quatro clássicas). Isso acaba sobrecarregando os volantes, que têm que marcar os volantes adversários que estão livres de marcação. Assim, se for para jogar com Montillo de meia central, é melhor entrar com o time em um 4-3-1-2 losango, como nas últimas partidas, para dar mais consistência ao meio-campo e compensar a falta de combatividade do argentino. Porém, em um 4-2-3-1 — insisto — o mais inteligente é escalá-lo pelos lados, como ponteiro, pois essa é a característica dele, e ainda ocorrreria o bônus de ter somente um marcador sobre ele — o lateral adversário.

Entretanto, ainda no primeiro tempo, a contusão dupla de WP e Wallyson obrigou Celso Roth a tirá-los do jogo. Borges no lugar de WP era o óbvio, apesar da mudança de característica — Borges é mais referência, pivô, se movimenta menos. Para o lugar de Wallyson, porém, o certo seria ter entrado com Élber, que é meia de origem, faria o trabalho defensivo tão bem quanto Wallyson e ainda traria preocupações para Cortez. Só que Roth mandou Souza a campo, meia cadenciador e passador. Não funcionou, pois o veterano não marcou tão bem as investidas de Cortez e expôs Léo, e tinha uma tendência a entrar para dentro do campo quando o Cruzeiro tinha a bola, abandonando o lado direito.

Charles fora

No segundo tempo, o jogo continuou na mesma, com o Cruzeiro levando certa vantagem e até ficando um pouco mais com a bola no pé, mas sem ser incisivo. Aos 9, uma fatalidade: Charles pisou no pé de seu próprio companheiro e torceu o tornozelo, tendo que ser substituído. O Cruzeiro perdia seu melhor jogador em campo, com o jovem Lucas Silva entrando em seu lugar para fazer a mesma função, que claramente não conseguiu — levou dois cartões amarelos em um espaço de 10 minutos e foi embora mais cedo. Esse é o preço por preterir Diego Árias, volante mais preso de ofício.

A substituição chave foi de Ney Franco: o apagado William José deu lugar a Ademílson, que se movimentou bem mais e dava opções de passe, como no lance do gol. Douglas avançou pela direita e achou o atacante, que recuou para oferecer o passe. A tabela venceu Marcelo Oliveira, e o lateral alcançou a linha de fundo para fazer um cruzamento despretensioso, sem perigo. Porém, no susto, Fábio rebateu a bola para dentro da área, onde estava Osvaldo, que completou para o gol vazio.

Com o gol, o Cruzeiro se perdeu momentaneamente e o São Paulo não aproveitou. Wellington e Casemiro ainda entrariam no lugar de Maicon e Denilson, fazendo um 4-3-3 clássico (4-1-2-3, com um volante, Wellington, e dois meias, Jádson e Casemiro), mas nada mais aconteceu.

Enfim

Podemos dizer que a fase técnica do Cruzeiro não é das melhores, e na partida de domingo, isso acabou sobrepujando a boa postura tática da equipe. O 4-2-3-1 foi bem executado defensivamente, mas ofensivamente não. WP foi mal e Wallyson não fez o que se espera dele no ataque: a fase do jovem potiguar não é das melhores. Parece que lhe falta confiança para partir para dentro do adversário e definir. Marcelo Oliveira até que tentou, mas não conseguiu dar o mesmo poder que Everton dava pelo lado esquerdo.

Montillo particularmente está tendo dificuldades e já não tem mais tanta liberdade quanto teve no primeiro ano em Belo Horizonte, quando ainda era desconhecido por aqui. Agora as equipes já sabem que o argentino é a principal peça ofensiva cruzeirense e fazem marcação especial. Volto a insistir: Montillo tem que jogar pelo lado do campo, como ponteiro. Para compensar a falta de combatividade do argentino, é necessário escalar um lateral mais preso, como Diego Renan ou o próprio Marcelo Oliveira, com Diego passando para o lado direito: Léo improvisado não vai fazer bons jogos sempre, e esta partida foi um exemplo.

Há o que se animar, entretanto. Esta partida foi um pouco pior do que a exibição contra o Vasco, mas muito superior aos duelos contra Sport e Figueirense. É esperar pra ver se Celso Roth, com as voltas de Everton e Leandro Guerreiro, e a possível estréia de Martinuccio, manterá este 4-2-3-1 contra o Internacional de Fernandão.



Cruzeiro 2 x 3 São Paulo – O feitiço contra o feiticeiro

Surpreendido com a velocidade do contra-ataque do São Paulo, o Cruzeiro conheceu sua primeira derrota no Brasileiro 2012, sábado, no Independência. Uma soma de pequenos problemas em todos os setores do campo, aliada à habilidade de alguns jogadores do time adversário, foi a razão para o revés.

O 4-2-3-1 diagonal do Cruzeiro no primeiro tempo, sem profundidade pelo lado direito, já que Léo avançava pouco e Tinga era atraído para o meio, abrindo um corredor para Cortês

Celso Roth voltou com Tinga ao meio-campo, manteve Léo na lateral direita e escalou o Cruzeiro no já famigerado 4-2-3-1 diagonal, mas com uma particularidade no meio campo que fazia parecer um 4-2-2-2, como veremos. Já o São Paulo, com a demissão de Emerson Leão no início da semana, foi comandado pelo preparador Milton Cruz, que trabalhou com Muricy Ramalho à época do tricampeonato brasileiro entre 2006 e 2008. Por isso, resgatou a defesa com três zagueiros dos tempos de “Muricibol” e mandou um São Paulo a campo repaginado num 3-4-1-2, com muita liberdade para os laterais Douglas e Cortez, Lucas pelo centro-direita do ataque e Jádson na ligação.

Mais uma vez jogando do lado direito, Léo teve Cortez para marcar na primeira metade de etapa inicial. O lateral esquerdo são-paulino apoiou sem se preocupar em deixar seu setor desguarnecido, já que era suportado por três zagueiros e também porque Tinga era atraído para a batalha no centro meio-campo. Cortez foi uma boa opção de passe, mas Leo não o deixava ter mais profundidade e não foi uma ameaça tão grande. A consequência era que Leo ficava na defesa sem apoiar, e por isso o teve tinha poucas jogadas por aquele lado do ataque.

Do outro lado, Everton não conseguia marcar Lucas, que entrava em diagonal da direita para o centro com frequência. Ele foi ajudado por Douglas, que apoiava com coragem, deixando Fabinho mais livre à frente. O atacante celeste até recuava junto com ele, mas apenas até o meio-campo, tendo mais liberdade para atacar, e por isso o lado esquerdo foi por onde saíram a maioria das movimentações ofensivas do Cruzeiro (isso, junto à situação de Tinga pelo outro lado, é que fazia o esquema às vezes parecer um 4-2-2-2). Charles tentou ajudar na marcação por ali, mas Douglas e Lucas estavam levando a melhor naquele lado. Foi de Douglas a jogada do primeiro gol: meia-lua em Everton após dividida de Charles e Lucas, cruzamento rasteiro para a área. A bola veio nos pés de Rafael Donato, mas o zagueiro falhou e ela bateu nas suas duas pernas, sobrando para Luís Fabiano, limpa, dentro da pequena área. Nem Fábio conseguiria salvar o gol.

A desvantagem no placar mudaria o jogo, porque o Cruzeiro teria que sair para buscar o empate, mas ele veio já no minuto seguinte. Rafael Donato completou escanteio cobrado por Montillo, fazendo uma movimentação inteligente dentro da área para se desvencilhar da marcação e vencer Dênis.

Se Donato se movimentou brilhantemente no gol de empate, foi Luís Fabiano quem o fez no segundo gol são-paulino. O camisa 9 tinha a marcação do zagueiro com Victorino na sobra, mas frequentemente recuava para fazer o pivô e atraía a marcação. Num desses recuos, recebeu passe de Maicon, devolveu e recebeu de volta uma bola quase perdida. Avançou, mas adiantou demais em cima da sobra de Victorino, que dividiu com ele por baixo. A bola acabou indo para frente e sobrando para Lucas, que havia avançado para aproveitar o espaço deixado por Luís Fabiano. Os dois laterais do Cruzeiro, Leo e Everton, fecharam às pressas em cima do jovem atacante, que teve categoria para limpar o lance e tocar no canto.

Detalhe do segundo gol do São Paulo: Lucas aproveita o espaço que Luís Fabiano abre atraindo Donato para fora da área. Note o posicionamento do defensor estreante enquanto Victorino, que estava na sobra, divide com o atacante adversário

Com a contusão de Fabinho, Celso Roth aproveitou para consertar os flancos: Leo passou para o lado esquerdo para marcar Lucas, avançando Everton para segurar Douglas. Souza, o substituto, ficou pela lateral direita. A mudança deu certo e o Cruzeiro passou a ter profundidade pelos dois lados do campo. Souza aproveitou o corredor deixado por Tinga e avançava com frequência, segurando Cortez. Montillo se juntava a ele e a Everton pelo lado esquerdo. Mas os três zagueiros do São Paulo eram muito para Welligton Paulista, sozinho dentro da área. Além disso, o São Paulo sempre podia deslocar um dos defensores para melhorar o combate pelos flancos e ainda garantia a sobra em cima de WP, e por isso a primeira etapa terminou com o time visitante acuado em seu próprio campo, sem ter saída de jogo, mas sem passar muitos sustos. Ainda no primeiro tempo, Rodolpho se contundiu e deu lugar a Paulo Miranda, sem mudar a formação tática.

Nenhuma mudança foi feita no intervalo, num sinal claro que ambos os treinadores estavam razoavelmente satisfeitos com o desempenho de seus times. Porém, logo no começo da etapa final, Luís Fabiano repetiu a dose e atraiu a marcação de Donato para fora da área, literalmente abrindo um buraco à frente de Fábio, sem cobertura. Ele recebe o passe e gira em cima de Donato, deixando Maicon de frente para o gol e com muita tranquilidade para executar um passe incisivo para Cortez — Souza não acompanhou desta vez. O lateral foi parado por Fábio, que não conseguiu segurar o rebote no canto de Jádson que vinha na corrida.

O Cruzeiro não se abateu e continuou jogando como terminou o primeiro tempo. Cinco minutos depois do gol são-paulino, Rafael Donato marcaria o segundo gol, novamente de cabeça, em escanteio cobrado por Montillo. Na busca pelo empate, Celso Roth sacou Charles e mandou Wallyson a campo, “oficializando” Tinga no centro do meio-campo. Com Wallyson, WP e Everton sendo abastecidos por Montillo, Tinga e Souza — que por vezes centralizava para armar de trás — o Cruzeiro abriu a defesa do São Paulo e criou seguidas chances, esbarrando nas finalizações sem qualidade.

No único contra-ataque perigoso que teve, o São Paulo conseguiu um pênalti, Souza em Lucas, recebendo bola longa da defesa. O quarto gol seria uma ducha de água fria na pressão cruzeirense, mas Fábio estava lá para defender a cobrança de Luís Fabiano, dando ainda mais moral para o time celeste. Tinga perdeu dois lances incríveis dentro da área. A essa altura, Milton Cruz já tinha colocado Cícero e Casemiro nas vagas de Jádson e Lucas, tentando fechar o time meio-campo em uma espécia de 5-3-1-1. Roth lançou William Magrão no lugar de Tinga, mas o Cruzeiro não perdeu força ofensiva, e Everton e Wallyson fizeram o goleiro Dênis aparecer.

No final, o Cruzeiro todo ataque numa espécie de 3-3-4 com Donato de centro-avante para tentar aproveitar os inúmeros cruzamentos na área

No fim, Rafael Donato já estava jogando no ataque, num inusitado 3-3-4, mas infelizmente as chances criadas não foram convertidas no gol de empate.

Taticamente, não foi uma partida ruim e podemos ter esperanças de uma melhor sorte no Campeonato Brasileiro. Entretanto, foi só elogiar a solidez defensiva do time celeste e alguns erros aconteceram. Rafael Donato talvez tenha ficado nervoso em sua estréia em casa cheia, mas compensou as falhas com gols e seu excelente jogo aéreo. O zagueiro será uma arma importante para o time ao longo do certame e, se bem lapidado, talvez até tenha chance de titularidade. Além disso, a desvantagem no placar logo no início (desfeita e refeita logo depois) fizeram o Cruzeiro sair de sua proposta de jogo — o contra-ataque. Encurralou o São Paulo em seu campo na maior parte do tempo, mas pecou no último passe sem qualidade e nas finalizações erradas. Teve muitas chances para o empate, mas não aproveitou. O São Paulo veio para tentar abafar a recente crise e Milton Cruz surpreendeu Celso Roth com o posicionamento de sua equipe com a linha defensiva de três zagueiros. Seus jogadores com grife de Seleção fizeram a diferença quando tiveram as oportunidades.

A escalação de Tinga pelo lado direito foi um erro, na modesta opinião deste blogueiro. Tinga, como dito, tem uma tendência a ser atraído para o centro do campo para batalhar pela posse de bola, e acabou abrindo um espaço grande por aquele setor para Cortez apoiar com liberdade, além de ter pouca profundidade pela direita. Souza teria sido uma melhor opção. Essa situação, no entanto, evidencia o quanto o Cruzeiro tem carência nas laterais, já que Diego Renan é o único da posição no momento. Ceará é muito bem vindo.

A sequência difícil continua, contra o Internacional em Porto Alegre. Será mais um teste para a linha defensiva de Celso Roth provar que este jogo foi só um deslize, parando o ataque 3D – Dagoberto, D’Alessandro e Damião. E ainda tem o Oscar. Ou seja, mais gente de Seleção.

É claro que existem pontos positivos em uma derrota como essa. Mas é bom ficar de olho.