Cruzeiro 2 x 1 Internacional – Correr, construir, controlar

Cruzeiro e Internacional protagonizaram grandes duelos no passado, principalmente na década de 70, quando o Cruzeiro se vingou da derrota na final do Brasileiro com uma vitória na Libertadores do ano seguinte, que culminaria no título. E o jogo deste sábado não ficou pra trás, disputado e tecnicamente agradável.

Mas além destes fatores, houve também um duelo tático interessantíssimo entre os dois treinadores. Abel Braga fez o primeiro movimento e complicou muito o jogo, mas Marcelo Oliveira respondeu à altura e garantiu o resultado.

Escalações iniciais

Domínio total do Cruzeiro no 1º tempo de muita intensidade, contra um 4-1-4-1 frágil pelos lados e com volantes celestes livres e com tempo na bola

Domínio total do Cruzeiro no 1º tempo de muita intensidade, contra um 4-1-4-1 frágil pelos lados e com volantes celestes livres e com tempo na bola

Com Ricardo Goulart e Júlio Baptista lesionados, era natural que Marcelo optasse por Éverton Ribeiro como meia central do 4-2-3-1 costumeiro. Com isso, o gol de Fábio foi protegido por Dedé e Manoel, com Mayke e Egídio fechando os lados da defesa. Protegendo a área, Henrique e Lucas Silva formavam o meio-campo com Marquinhos à direita, Ribeiro central e Willian pelo lado esquerdo, atrás do centroavante Moreno.

Já Abel Braga não tinha Eduardo Sasha, e criou-se uma expectativa pelo substituto do ponteiro esquerdo. O treinador do Internacional optou por Valdívia mais surpreendeu, tirando Alex do time e armando um 4-1-4-1, com Dida no gol, Gilberto na lateral direita, Paulão e Juan na zaga central e Fabrício fechando o lado esquerdo da defesa. Willians ficou entre a defesa e segunda linha formada, da direita para a esquerda, por D’Alessandro aberto, Aranguiz e Wellington mais centralizados e Valdívia na outra ponta. Na frente, Rafael Moura duelava com os zagueiros celestes.

Volantes livres

Diferentemente do que anunciara durante a semana, Abel postou seu time marcando a partir da linha do meio-campo, tentando tirar a velocidade que o Cruzeiro queria impor. A ideia era parar o ataque do Cruzeiro e acionar Valdívia e D’Alessandro pelos lados para os contra-ataques. Ou seja, a mesma coisa que quase todos os times que vieram ao Mineirão tentaram. Eis o respeito que quase dois anos de bom futebol impõem.

Mas, ao contrário de vários outros times, o Internacional não se preocupou com a marcação de Lucas Silva e Henrique. Os próprios volantes do Internacional ficavam muito próximos à própria área, distantes dos volantes celestes. Assim, ambos tiveram bastante tempo na bola e liberdade para levantar a cabeça e iniciar a construção, alavancando as estatísticas de posse de bola celeste.

Dois contra um

Com isso, D’Alessandro e Valdívia acabavam por tentar ajudar, indefinindo a marcação: ou fechavam nos volantes ou perseguiam os laterais subirem livres. Não dúvida, não fizeram nenhuma das duas coisas bem, e o resultado foi que tanto Egídio quanto Mayke subiam e faziam dois contra um junto com Willian e Marquinhos em cima de Gilberto e Fabrício.

Em um determinado lance, foi possível ver D’Alessandro perto de Egídio, preparado para acompanhar o lateral celeste caso ele subisse, mas a bola chegou nos pés de Lucas Silva, livre. O argentino então decidiu centralizar para marcá-lo, e bastaram dois passes para que a bola chegasse nos pés de Egídio, sem marcação e já numa posição avançada do campo, fora do alcance de D’Alessandro.

Marquinhos do lado “errado”

E outro fator que contribuiu para o desmoronamento da estratégia gaúcha foi o posicionamento de Marquinhos. Normalmente, o ponteiro joga pela esquerda, mas nesse jogo Marcelo optou por invertê-lo de lado com Willian para que ele pudesse marcar Fabrício, o mais ofensivo dos dois laterais adversários. Marquinhos cumpriu bem a função e ainda jogou bem com a bola, como visto no segundo gol.

Tudo isso contribuía para que o jogo fosse totalmente dominado pelo Cruzeiro no primeiro tempo: intensidade ofensiva e defensiva, volantes com liberdade, laterais sem marcação quando apoiavam.

A marcação no alto do campo, pressionando o homem da bola, gerou o primeiro gol, em que Moreno bloqueia o passe de Aranguiz, a bola sobra para Willian, que limpa o marcador com um drible, mas o próprio Moreno “rouba” a conclusão de Willian para vencer Dida. E em jogada pelo lado esquerdo, onde o Cruzeiro tinha superioridade numérica, cruzamento de Éverton Ribeiro para Marquinhos, livre do lado contrário, marcar o segundo.

Com Alex, Internacional mudou para um 4-2-3-1 e  tinha superioridade numérica com o movimento do meia da direita para o centro, causando problemas para Lucas Silva e Henrique

Com Alex, Internacional mudou para um 4-2-3-1 e tinha superioridade numérica com o movimento do meia da direita para o centro, causando problemas para Lucas Silva e Henrique

Inferioridade numérica no centro

O Cruzeiro voltou para o segundo tempo mais cadenciador, tentando descansar com a bola. Já o Internacional fez o contrário: começou a correr e querer roubar a bola de qualquer forma. Mas foi a alteração de Abel no intervalo que mudou o panorama da partida. Wellington deu seu lugar a Alex, que entrou pela esquerda do ataque; Valdívia foi pro outro lado, D’Alessandro centralizou e Aranguiz recuou para perto de Willians, formando o novo 4-2-3-1.

Com a bola, Alex centralizava e se aproximava de D’Alessandro, causando problemas na marcação para Lucas Silva e Henrique. Tanto na jogada que gerou a falta que bateu na trave quanto no gol, Alex e D’Alessandro se encontravam em posições centrais, e no lance do gol especificamente, os dois meias tabelaram e deram a volta na marcação dos volantes celestes.

A resposta de Marcelo

Marcelo Oliveira não estava gostando do que estava vendo e demorou a achar uma solução, mas achou. De uma só vez, tirou Éverton Ribeiro e Willian, lançando Nilton e Dagoberto, formando um 4-1-4-1 que remediava a inferioridade numérica no meio, mas perdia em capacidade de criação.

Marcelo Oliveira respondeu com Nilton e Dagoberto, configurando um 4-1-4-1 que encaixou a marcação e corrigiu o problema de inferioridade numérica no centro

Marcelo Oliveira respondeu com Nilton e Dagoberto, configurando um 4-1-4-1 que encaixou a marcação e corrigiu o problema de inferioridade numérica no centro

O jogo reequilibrou e o Internacional não conseguia mais chegar com facilidade. Até ficava mais com a bola, mas com a marcação encaixada, os volantes e zagueiros adversários, agora com tempo pra pensar, não tinham opções de passe. O Internacional parou de ameaçar a meta de Fábio, e o Cruzeiro controlava o jogo sem ter a bola em seus pés.

Outras trocas

Sem alternativas, Abel tentou mais velocidade com Leandro na vaga de Valdívia, sem sucesso, e depois abrindo o time de vez com Alan Patrick na vaga de Willians. Aranguiz passou a ser o volante único, mas o tiro saiu pela culatra e quem passou a dominar o meio-campo foi o Cruzeiro, já que o Internacional também arrefeceu o ritmo. A partir de então teve mais chances reais de ampliar do que sofrer o empate.

Borges ainda entrou na vaga de Moreno, mas apenas para fazer o tempo passar e garantir a vitória e aumentar a diferença para o vice-líder para impressionantes nove pontos.

A linha do tempo mostra as quatro fases distintas do jogo: 1- Cruzeiro arrasador até o 1ª gol; 2- Cruzeiro menos intenso mas ainda dominando até o fim do primeiro tempo; 3- Internacional tentando contra Fábio até a entrada de Nilton; 4- controle do jogo sem a bola até o final.

A linha do tempo mostra as quatro fases distintas do jogo: 1- Cruzeiro arrasador até o 1º gol; 2- Cruzeiro menos intenso mas ainda dominando até o fim do primeiro tempo; 3- Internacional tentando contra Fábio até a entrada de Nilton; 4- controle do jogo sem a bola até o final.

Maturidade para dosar o esforço

No último texto, questionei se a falta de intensidade do Cruzeiro nas últimas partidas havia sido uma coisa pensada ou se era um resultado natural do cansaço pelas partidas em sequência. A resposta veio nesse jogo, e foi um pouco das duas coisas: a temporada desgastante fez com que Marcelo usasse conscientemente uma estratégia mais cautelosa para diminuir o cansaço dos jogadores. Tudo visando os jogos mais importantes, como este contra o Internacional, o perseguidor mais próximo.

Ao que parece, a estratégia funcionou bem e os jogadores deram o máximo durante os primeiros 45 minutos, construíram o placar e apenas controlaram no segundo tempo, ainda que o Internacional tenha tido um domínio devido à entrada de Alex no time. Isso é sinal de um time maduro, que sabe em que momentos deve acelerar ou cadenciar o jogo. E mais: sabe também em que momentos da temporada deve se poupar para poder usar mais gás nas partidas decisivas.

E, com a reta final da temporada começando, o fator desgaste pesa ainda mais, para todas as equipes. Saber dosar o esforço será fundamental. E até nisso o Cruzeiro parece sair na frente.



Seis pontos que não empolgam

Neste fim de campeonato, o Cruzeiro já não tem maiores pretensões, nem corre mais riscos. Isso somado ao fato de já estar anunciado aos quatro ventos que Celso Roth não será o técnico celeste em 2013, faz este blogueiro perder um pouco do entusiasmo em analisar taticamente a equipe. Nem há novidades táticas ou experimentações, nem vale para fazer uma previsão de uma base tática para o ano que vem.

Assim, analisarei por alto as duas últimas partidas do Cruzeiro, surpreendentemente, duas vitórias, mas que também não dizem nada.

Cruzeiro 3 x 1 Bahia

No que me parece uma contradição, justo quando Montillo está fora, o time vai a campo num 4-2-3-1. Tinga pelo centro da linha de três armadores não é novidade, visto que o volante jogou assim contra o Palmeiras no primeiro turno. A novidade mesmo foi a escalação de Leandro Guerreiro na zaga — não como um líbero, como o volante fez em algumas partidas deste ano, mas como zagueiro de área mesmo, em dupla com Thiago Carvalho. Momento técnico fraco dos zagueiros cruzeirenses ou falta de persistência de Celso Roth? Nunca saberemos.

O certo é que Sandro Silva e Marcelo Oliveira foram escalados na dupla volância, e Fabinho entrou pelo lado direito, com Martinuccio pela esquerda e Anselmo Ramon na referência. A marcação encaixou com o 4-2-3-1 baiano, mas com Marcelo Oliveira tendo mais liberdade para subir a apoiar o ataque, o que transformava o Cruzeiro momentaneamente em um 4-3-3 clássico, ou 4-1-2-3. Em “casa” (entre aspas porque o Independência não é a casa de verdade do Cruzeiro), o time celeste teve mais a bola, mas o domínio era somente nesse quesito. Anselmo não conseguia concatenar as jogadas e Tinga estava visivelmente tendo dificuldades para ser o ponto de rotação da equipe.

Os abundantes erros de passe geravam inúmeros contra-ataques da equipe visitante. Isso aliado ao mau posicionamento na transição defensiva (recomposição quando o time perde a bola) fez com que Fábio salvasse algumas vezes o gol, mas sem conseguir evitar que ele acontecesse, numa falha de marcação que deixou Fahel totalmente livre dentro da pequena área.

O time foi para o vestiário sob fortes vaias da torcida, que pegava mais no pé de Sandro Silva e Fabinho. Mas Celso foi teimoso — como nosso presidente — e mandou o mesmo time de volta. Com vantagem no placar, o Bahia cedeu mais campo ao Cruzeiro e tentou somente se defender, mas Martinuccio não deixou. Em escanteio pela esquerda, a bola é desviada por Anselmo Ramon e acha o argentino, livre de marcação, na direita da pequena área, para mandar um bico e ver a bola rebater no amontoado de jogadores do Bahia que protegia a linha do gol e entrar.

Com o empate, o Cruzeiro foi pra cima, mas pecava demais no último passe e no excesso de cruzamentos — velho problema. Para se ter uma ideia, o Cruzeiro é o segundo time que mais cruza bolas na área (média de pouco mais de 21 por jogo), mas é somente o 14º em aproveitamento destes cruzamentos: apenas 1 a cada 5 chega até o jogador, e nem todos são garantia de finalização.

A virada só viria num contra-ataque, em que estranhamente o zagueiro do Bahia desistiu de roubar a bola de Anselmo Ramon após o centro-avante receber de costas e proteger. Com o espaço cedido, Anselmo esperou até o momento certo para mandar a bola por cima para Martinuccio, que partia em velocidade. O argentino pegou de primeira e fez um golaço.

Sandro Silva, o mesmo que a torcida pegou no pé no intervalo, fez duas faltas para amarelo em minutos de diferença. A torcida ainda iria sofrer um pouco mais. Após a expulsão, deu pra ver da arquibancada Everton e Fábio conversando sobre o posicionamento. Everton postou as duas mãos uma na frente da outra, com o polegar guardado: duas linhas de quatro. Diego Renan, Leandro Guerreiro, Thiago Carvalho e Everton protegiam a área, e à frente William Magrão (que entrou no lugar de Tinga), Marcelo Oliveira e Martinuccio. Anselmo Ramon permanecia à frente para fazer retenção da bola no novo 4-4-1.

O Bahia bem que tentou. Rodou a bola, inverteu as jogadas e tentou abrir a defesa, mas não chegou nem perto de ameaçar Fábio. Eu diria que a postura defensiva do Cruzeiro com dez homens em campo foi exemplar. Até que veio o lance da expulsão de Mancini em um lance com Souza. Com a igualdade numérica, o jogo ficou mais franco, e veio ser definido num lance improvável. Jogada pela direita, Souza passa a William Magrão meio sem querer e o volante finaliza por cima, encobrindo Marcelo Lomba e fazendo um belo gol.

Não foi a melhor atuação cruzeirense, mas uma das mais sólidas. Detalhe que essa foi apenas a segunda virada do Cruzeiro no Brasileiro deste ano — a primeira tinha sido contra o Botafogo no Engenhão, ainda no início do campeonato. É difícil relacionar a melhora psicológica à mudança do esquema, mas acredito que a nova formação possa ter dado a confiança necessária, e assim a equipe conseguiu virar o jogo, mesmo sob pressão da torcida.

Cruzeiro 2 x 0 Fluminense

Com Montillo de volta, Celso Roth voltou ao 4-3-1-2 losango. No lugar de Martinuccio, fora por força de contrato, entrou o jovem garoto Élber. A suspensão de Sandro Silva abriu espaço para Charles ser o vértice baixo do losango de meio, com Marcelo Oliveira pela esquerda e Tinga pela direita. Ceará voltou à lateral direita e Guerreiro foi mantido na zaga.

O Fluminense, já campeão, entrou no mesmo 4-2-3-1 de sempre. Sem Wellington Nem, Abel escalou Rafael Sóbis, Deco e Thiago Neves atrás de Fred. Mas a letargia pelo título antecipado e a festa que viria após o jogo, com a cerimônia de entrega da taça — como foi em 2003, quando Alex ergueu o Campeonato Brasileiro diante de um Mineirão lotado, contra o mesmo Fluminense — talvez tenha feito os jogadores do Fluminense não se doarem tanto.

Mesmo assim, há que se destacar que o Cruzeiro fez uma partida sólida defensivamente. O time da casa não conseguiu espaço para jogar, mesmo tendo Deco para desafogar o meio. O luso-brasileiro não conseguiu levar vantagem sobre a marcação de Charles. Sóbis apagado do lado esquerdo e Thiago Neves igualmente do lado direito. Sem ser abastecido, Fred não foi ameaça, e assim, o 1 a 0 com o pênalti sofrido por Anselmo Ramon e convertido por Montillo era o placar mais justo.

Na segunda etapa, o Cruzeiro ampliou a vantagem logo no início, e não deu chances de reação ao Fluminense. Em contra-ataque rápido puxado por Montillo, Élber ganhou de dois marcadores meio atabalhoadamente e ficou cara a cara com Diego Cavalieri, que não alcançou a finalização no cantinho do garoto. Com isso, o Cruzeiro passou a usar a mesma arma que o Fluminense usou durante todo o campeonato: esperou em seu próprio campo e partia na transição ofensiva, popularmente conhecida como contra-ataque.

No fim, o Fluminense veio pra cima e tentou marcar o gol de honra, mas Rafael mostrou que quando Fábio não está disponível, nada temos a temer. Fez grandes defesas, parando inclusive o artilheiro Fred, e garantiu o zero no placar adversário.

Coritiba e Atlético/MG

As últimas notícias dão conta de que Celso Roth vai escalar Montillo e Martinuccio num 4-2-3-1, com Fabinho fazendo o lado direito atrás de Wellington Paulista (Anselmo Ramon está suspenso). Diego Renan deve entrar na lateral esquerda, para poupar Everton de receber o terceiro cartão e ficar fora do clássico. Mas isso pode acabar sendo uma boa, já que Diego é mais defensivo que Everton e isso ajudará Martinuccio no trabalho defensivo, ao perseguir o lateral adversário.

Ainda não é o que eu gostaria, já que eu colocaria Montillo aberto na esquerda e Martinuccio na direita — insisto nos ponteiros de pés invertidos. Mas só de ter a linha de três com os dois argentinos já acredito que será uma das melhores partidas do Cruzeiro no ano. Estarei vendo de perto, quem sabe pela última vez no Independência. Ano que vem é Mineirão.



Cruzeiro 1 x 1 Fluminense – Fail

Jogando de igual para igual contra um elenco superior, o Cruzeiro mostrou evolução tática mas não conseguiu segurar a vitória contra o Fluminense no Independência na noite de quarta. Uma falha de cada defesa — mais algumas da arbitragem — sacramentaram o primeiro empate com gols do Cruzeiro na competição.

O onze inicial do Cruzeiro num 4-3-1-2 losango que variava para um 4-2-3-1 com o avanço de Everton e a cobertura de Leandro Guerreiro na esquerda na caça à Thiago Neves

Oficialmente, o Cruzeiro entrou em campo num 4-3-1-2 losango, a mesma formação da vitória contra o Bahia, mas com uma modificação no meio. Debaixo das traves, Fábio teve Ceará pela destra, Léo, Thiago Carvalho centralizados e Everton — escalado ao invés de Diego Renan no lugar de Marcelo Oliveira — na canhota de sua defesa. A entrada da área era protegida por Leandro Guerreiro, que tinha Charles pela direita e Lucas Silva pela esquerda — uma inversão em relação ao jogo em Pituaçu, provavelmente para dar mais segurança ao lado esquerdo da defesa. No topo do losango, Montillo pensava para Fabinho, mais aberto pela direita, e Wellington Paulista na referência.

Vendo o diagrama, é possível pensar que o lado esquerdo do ataque ficaria abandonado, fazendo as ações ofensivas ficarem previsíveis e facilitando a marcação adversária. A entrada de Everton ao invés de Diego Renan, porém, explica: Leandro Guerreiro perseguia Thiago Neves, que caía constantemente pela direita do ataque. Com isso, Guerreiro fechava a defesa pela esquerda, “empurrando” Everton à frente para fazer a linha de 3 com Montillo por dentro e Fabinho à direita, atrás de WP, e Lucas Silva e Charles faziam uma dupla de volantes com bom passe. Estava configurado um 4-2-3-1.

Abel Braga, para surpresa deste blogueiro, armou o Fluminense num estreito 4-2-2-2. O goleiro Diego Cavalieri viu Gum e Leandro Euzébio à sua frente, flanqueados por Wallace à direita e Carlinhos do lado oposto. Edinho e Jean protegiam a defesa e suportavam a dupla criativa Thiago Neves e Wagner (aquele mesmo). Na frente, Fred era a referência e tinha Samuel caindo pelos lados. Quando tinha a bola, Thiago Neves abria pela direita, deixando Wagner pensar mais o jogo pelo outro lado, fazendo um híbrido de 4-2-1-3 e 4-3-3 com triângulo alto no meio-campo, com o avanço de um dos volantes.

O Cruzeiro começou numa intensidade incrível já desde os primeiros minutos. Logo aos três, Montillo carregou a bola em um contra-ataque velocíssimo, atraindo a marcação, e depois passando a Fabinho, que concluiu assim que entrou na área. A bola passou por Cavalieri, beijou sua trave esquerda e a zaga do Fluminense afastou para a lateral. Na cobrança, Ceará mandou direto para a área, e a zaga do Fluminense ficou olhando WP dominar meio com a cabeça meio com a mão, e completar pro gol. Os jogadores do Fluminense foram reclamar com o assistente de fundo, mas o árbitro confirmou o gol, e mesmo se WP de fato tiver dominado com a mão, isso não justifica a falha da zaga carioca no lance, que deixou um lateral ser cobrado diretamente para um atacante dentro da pequena área — ainda que o gol não acontecesse.

A intensidade continuou após o gol. O Cruzeiro atacava por ambos os lados e dificultava muito a marcação adversária, e algumas chances foram criadas, com Montillo saindo de dois adversários e concluindo mal, e Fabinho chutando para fora ao ficar de frente para Cavalieri dentro da pequena área, tendo Everton e WP como alvos para passar a bola.

A coisa estava tão feia para o Fluminense, que em um lance de atendimento médico, consegui ver da arquibancada atrás do gol alguns jogadores se reunindo próxmo ao círculo central, discutindo e apontando com a mão para algumas regiões do campo. Estavam certamente tentando entender o que havia de diferente e o que precisava ser corrigido. Deve ter funcionado, pois a partir da metade do primeiro tempo, a intensidade cruzeirense foi diminuindo — nenhum time no mundo conseguiria manter ritmo tão forte durante os noventa minutos — e o jogo ficou mais equilibrado. O Cruzeiro escolheu uma estratégia de partir em contra-ataques velozes ou usar bolas longas, como no lance de pênalti não marcado de Wallace sobre Everton, o que poderia ter ampliado a vantagem e dar outra cara ao jogo. O Fluminense passou a ter mais volume e foi se aproximando da área de Fábio aos poucos, e começava a criar chances. Fred, por duas vezes, foi parado por Fábio, mas em uma jogada ensaiada não conseguiu pará-lo pela terceira vez no finzinho da primeira etapa: bola parada, cobrança de falta para a direita da área onde Thiago Carvalho marcava Gum. O zagueiro carioca cabeceou para dentro da pequena área, onde estava Fred, que completou para o gol praticamente em cima da linha. Quem marcava o jogador era Ceará, e Fábio não saiu do gol. Falha geral da defesa celeste.

Os times voltaram os mesmos do intervalo, mas pareciam totalmente diferentes. Parecia que nenhuma das duas equipes queria se arriscar demais para não dar campo para o adversário. O Cruzeiro levantava muitas bolas na área, mas na maioria das vezes elas eram seguras por Cavalieri ou iam para fora. Já o Fluminense pouco ameaçava, e Abel Braga resolveu mexer duplamente: trocou Carlinhos por Tiago Carleto, sem alteração na formação, e um atacante por outro, o lento Samuel por um Matheus Carvalho um pouco mais móvel. Mas somente cinco minutos se passaram até que Matheus Carvalho se desentendesse com Charles dentro da área cruzeirense e o juiz mandasse os dois pra fora.

Uma possível formação do Cruzeiro após a dupla expulsão: sem atacante de referência e Wallyson e Fabinho fechando os flancos, para chamar o Fluminense e usar os contra-ataques. Mas Celso preferiu manter WP em campo

Sem Charles, Guerreiro voltou ao meio-campo, e Everton recuou para a lateral esquerda. No Fluminense, nenhuma alteração. O que significava ambos os times no 4-2-2-1. Celso Roth demorou a mexer no time, aos 35, e ainda assim trocando um velocista por outro, Fabinho por Wallyson. Wallyson era sim a opção correta, mas o jogador a sair era WP, com dois jogadores velozes combinando com Montillo para tentar a velocidade em um campo com muito espaço. Talvez o comandante celeste tenha ficado receoso de perder a referência na área, mas era exatamente isso que faria nos ganhar o meio-campo com um homem a mais numa espécie de 4-2-3-0, causando sobra redundante na defesa adversária.

Rafael Sóbis entraria no lugar de Wagner para configurar de vez o 4-2-3 suicida do Fluminense. A ideia era reter a posse de bola, mas os volantes do Cruzeiro conseguiam fazer isso com mais qualidade e o Cruzeiro acabou avançando mais e mais, mas sem sucesso no último passe. Ceará saiu para Diego Renan, por cansaço, sem configurar alterações táticas, e só bem no fim Souza entrou no lugar de Montillo, também cansado. Nem deu muito tempo do meia tocar na bola e o juiz já havia apitado o fim do jogo.

O primeiro empate com gols poderia vir de duas formas: com o Cruzeiro saindo atrás no placar e empatando ou vice-versa. Infelizmente foi do segundo modo, quebrando a escrita de sempre vencer quando fazia o primeiro gol. Poderíamos considerar isso um mau sinal, em uma primeira análise, mas a verdade é que o Fluminense tem um dos elencos mais qualificados do campeonato, o time joga junto há bem mais tempo e por isso mesmo está bem mais maduro. O Cruzeiro jogou de igual para igual e até melhor do que os cariocas em determinados momentos do jogo, portanto há mais coisas positivas a se destacar do que negativas nesta partida.

Mais uma vez, Everton demonstrou que pode ser um bom ponteiro esquerdo, desde que esteja devidamente protegido em sua defesa. Talvez um bom teste seria escalá-lo do lado direito, com Montillo de ponteiro esquerdo e tendo Souza ou Tinga por dentro no 4-2-3-1. A dupla Charles e Lucas Silva também foi muito bem, e pode ser útil quando o time precisar sair para o abafa tendo dois volantes passadores no meio. Lucas Silva, em particular, fez sempre jogos consistentes nas três oportunidades que teve, contra Portuguesa, Bahia e Fluminense.

A nota negativa desta partida fica por conta da demora de Roth em mudar o time após as expulsões. É claro que ele não tem o elenco que gostaria, com uma miríade de opções no banco, mas os jogadores que lá estavam poderiam sim dar uma outra cara ao jogo naquele momento. Além disso, quando fez as substituições, fez trocas conservadoras. Alguns torcedores chamaram o treinador de “burro” atrás de mim na arquibancada naquele momento.

Contra o Coritiba, que é o time que mais joga pela direita do campeonato, o time terá de ter um lado esquerdo forte defensivamente. Charles, Léo e Everton estão suspensos, com Lucas Silva e Rafael Donato entrando nos lugares dos dois primeiros, mas com a dúvida na lateral esquerda: Marcelo Oliveira ou Diego Renan? O primeiro tem mais poder de marcação que o segundo, mas sai bem menos para o jogo, e o segundo é lateral de ofício, apesar de não estar em boa fase. Para mim, Marcelo é a melhor opção em termos táticos.

Seria excelente voltarmos com a vitória de Curitiba para termos moral no clássico. E num clássico, confiança é fundamental.