As duas margens do rio

Pesquisando rapidamente para buscar inspiração para este texto, me pego lendo sobre a história do Uruguai. Nosso vizinho é conhecido oficialmente como República Oriental do Uruguai em português. Oriental, no caso, é porque o país fica à margem leste do rio Uruguai, ou seja, ocupa a banda oriental do rio Uruguai. Não sei se o termo “La Banda” pode ter vindo daí, mas é provável que seja o sentido mais óbvio pra nós: um grupo de pessoas.

Falemos, então, de alguns jogadores do Cruzeiro que vêm dos países que ficam dos dois lados do rio Uruguai.

Uruguai

Arrascaeta, como todos sabem, é uruguaio. Mas no Cruzeiro, não joga na margem oriental e sim na ocidental (considerando que o “norte” é o gol oposto — o objetivo). Nosso 10 parte do lado esquerdo do ataque para se associar com os companheiros e criar situações.

Porém, Arrascaeta está sempre “atravessando o rio”. Ele não fica preso do lado como um ponta típico, pisando na linha lateral e esperando por vários minutos a bola chegar pra tentar o drible no mano a mano. Ele flutua por dentro, vai no corredor central, e até atravessa o campo, vai se encontrar com Robinho lá do outro lado. Esse é o jogo dele, é como ele rende mais, como estamos vendo nesses dois jogos dele pós-Copa do Mundo. Moleque está voando, não só pelos gols, mas porque tem participação direta em vários lances perigosos.

Dois momentos contra o América em que Arrascaeta “flutua”: sai da ponta esquerda pra participar do jogo, às vezes até atravessando o campo

Mas, como costumo dizer, futebol é cobertor curto. Toda escolha que o treinador faz — seja em termos de escalação ou de posicionamento — tem seus benefícios, mas também traz prejuízos. É muito difícil potencializar uma coisa sem ter que tirar de outro lugar, seja como for: quer ser mais ofensivo? Vai ter que correr mais riscos atrás. Quer marcar mais alto? Vai ter que deixar espaço nas costas da defesa. Quer se retrancar? Vai ter que deixar pouca gente na frente, tornando um contragolpe mais difícil. E por aí vai. O grande trabalho de um treinador é saber mediar isso, minimizar os defeitos e potencializar as virtudes. Compensações, posicionamento de outros jogadores, o que seja: montar um time é quase uma arte.

De forma que, essa movimentação de Arrascaeta, que inegavelmente vem tendo um excelente rendimento nessa função, traz um “problema” na marcação pelo lado esquerdo. Está entre aspas porque pode não ser um problema de fato, e sim um risco assumido. Só Mano pode responder isto, mas é o que parece: quando o uruguaio flutua e o Cruzeiro perde a bola, ele está fora de posição, e um dos volantes tem que compensar. No jogo de ontem, era Ariel Cabral, o volante do lado esquerdo, mas Henrique também o fez (pois eventualmente Ariel e Henrique se cruzavam no campo). Às vezes não dá tempo de compensar e o lateral adversário tem bastante campo pra ir. Egídio pode encaixar e abandonar a linha ou ficar pra não quebrá-la, de qualquer forma, vai haver espaço em algum lugar perigoso se o adversário for rápido o suficiente.

Com Arrascaeta flutuando, na perda de bola às vezes ele está fora de lugar, e outros jogadores tem que cobrir. Aqui, Henrique tenta, mas não chega a tempo de impedir o cruzamento

É uma escolha. Como quase tudo no futebol, há o bônus e o ônus. Uma das formas de não ter esse ônus com Arrascaeta por fora é colocá-lo oficialmente por dentro no 4-2-3-1, na função do Thiago Neves. Mas aí você tem que tirar o camisa 30 do time. Ou jogar sem um centroavante. E isso mostra, de novo, como cada escolha quase sempre traz um prejuízo junto. E vendo por esse prisma, chega a ser até surpreendente ver um treinador tão conhecido pelo pragmatismo como Mano arriscar o lado do campo assim. Bem, enquanto ele estiver se pagando, como está agora, me parece claro que vale o risco.

Argentina

Do outro lado do rio, está a Argentina. Dos argentinos que jogaram ontem, já falei sobre Cabral em um texto do início de 2016. Apesar de velho, aquele texto ainda tem muita coisa atual, portanto deixo pra escrever sobre o baixista da La Banda em outro momento. Quero falar aqui de duas novidades: Barcos e Mancuello. Mancuello novidade? Sim, explicarei logo mais.

O centroavante é a mais nova aquisição do Cruzeiro. Mas como pudemos ver no jogo de ontem, ele não é um centroavante clássico, que só conclui jogadas. Ele participa do jogo, cai pelos lados, recua pra ajudar na construção. Mas ainda assim consegue dar profundidade e atrair a atenção de zagueiros. Apesar de não ter finalizado em gol ontem, a simples presença do Pirata ali abre espaços para companheiros.

No primeiro gol, ele tem uma participação sutil. Neves desce pra base da jogada, Robinho percebe e flutua por dentro. Quando a bola chega nele, um zagueiro sai da última linha pra combater, mas ele já sabe que vai tocar pra Thiago atrás dele. Leva uma pouco de sorte, pois é o zagueiro que tenta tirar e a bola acaba chegando pro camisa 30. De qualquer forma, rapidamente Robinho se desmarca e entra no espaço gerado pela quebra da linha, com Barcos prendendo o outro zagueiro. Neves toca por cima num belo passe e Robinho perde, mas Arrascaeta chega por trás pra concluir no rebote.

A mesma coisa no gol da virada: a jogada é muito bem trabalhada pelo lado esquerdo, fazendo a linha defensiva do América balançar toda pro lado da bola: o lateral direito (Norberto) vai em Egídio, o zagueiro da direita (Messias) fecha em Arrascaeta, que está infiltrando, e o outro zagueiro (Matheus Ferraz) fica na sobra. Então o lateral esquerdo Giovanni fica com sua atenção presa em Barcos, “esquecendo” Robinho às suas costas. Depois da tabela entre Neves e Arrascaeta, Barcos para a corrida e fica na marca do pênalti sozinho. Se a bola viesse nele, certamente seria uma grande chance. Mas Arrascaeta coloca na segunda trave. Dá pra ver que Giovanni parece tranquilo enquanto a bola viaja, com a certeza que está sozinho, e até faz o movimento pra tocar pra escanteio, mas Robinho intercepta.

Três momentos do gol da virada: 1- marcação encaixada com a linha defensiva do América toda para o lado da bola; 2- Barcos prende a atenção de Giovanni, Moisés é vencido pela tabela Neves-Arrascaeta; 3- no momento do cruzamento, Barcos e Robinho estão livres

Então, não foi uma estreia brilhante, mas como afirmei no último texto: o sistema do Cruzeiro meio que pede um centroavante com mais presença ali. O 4-4-2 (ou 4-2-4-0, como costumo chamar, pra destacar a ausência de um centroavante) não tem tido muito sucesso em criar superioridades no último terço. Tendo alguém ali, o Cruzeiro consegue ter mais profundidade, mais jogo central (com pivô) e até ter alvos preferenciais na área para um jogo mais lateral.

Sobre Mancuello, claro que ele em si não é uma novidade, já está aí desde o início do ano. A novidade é a função que, aparentemente, Mano está criando pra ele: jogar por dentro, e não pelos lados como tentava antes. Os amistosos já eram um indício: no primeiro contra o Corinthians e no jogo-treino contra o Coimbra, Mancuello entrou ali, porém na ponta de cima de um losango. Talvez pra acomodar todos os jogadores reservas que entraram com ele. Já no segundo amistoso com o Corinthians, ele entrou de fato por dentro no sistema usual do Cruzeiro, que por vezes é um 4-4-2 e por vezes um 4-2-3-1.

Me parece que Mano está preparando Mancuello para ser uma espécie de reserva do Thiago Neves. Claro que não tem a mesma qualidade, ainda que Thiago Neves esteja recuperando sua forma técnica aos poucos, mas Mancuello nessa função é uma aposta interessante, até mesmo porque não dá pra ter a certeza de contar com o camisa 30 em todos os jogos, principalmente na questão física. E também, porque essa função no sistema do Cruzeiro é imprescindível, como pudemos ver no jogo contra o Paraná logo antes da parada pra Copa: os dois Lucas, por trás, não infiltravam; os dois abertos, Mancuello e Robinho, não flutuavam por dentro, e os dois da frente, Sobis e Raniel, não recuavam. No fim, ninguém circulando entre as linhas do adversário. Não gera jogo.

Brasil

No futuro, escreverei mais sobre os outros integrantes da La Banda: Lucas Romero e Ariel Cabral — este com um texto novo, mais atualizado. E até mesmo sobre Barcos, com o avanço do entrosamento dele com o resto do time. Com Henrique e Cabral suspensos, Lucas Romero já deve jogar no domingo contra o Atlético/PR, ao lado de Lucas Silva. Como dito acima, essa foi a dupla de volantes contra o Paraná, o último jogo antes da Copa. Por característica, nenhum dos dois costuma infiltrar, ambos ficam por trás, na base da jogada. Assim, vamos precisar ainda mais que o quarteto de frente se movimente, pra ter sempre alguém ali nas costas dos volantes adversários.

Portanto, Robinho, Rafinha, Thiago Neves, Raniel, ou até mesmo Edilson ou Egídio (se apoiarem por dentro ao invés de passarem por fora), seja quem for jogar, vão precisar ajudar nesse setor do campo. O que não pode é ficarem estáticos em suas posições. Afinal, futebol, no Brasil, tem organização, mas na hora de atacar, é tudo junto e misturado.

E não tem problema nenhum nisso.



Goiás 0 x 1 Cruzeiro – Exagero na dose

O Serra Dourada é o maior campo do Brasil. O gramado possui as medidas máximas permitidas pela regra 1 para jogos oficiais internacionais, 110 x 75 m. O Mineirão usa as medidas oficiais para jogos da Copa, 105 x 68 m. A diferença parece pequena, mas não é: só nas laterais, são 3,5 metros a mais de espaço para cada lado — provavelmente a largura do quarto ou sala onde você está agora lendo este texto.

Um campo com medidas tão grandes tem influência direta na estratégia de marcação de uma equipe no jogo. É preciso dosar o desgaste físico, pois não há como aplicar a mesma intensidade de marcação que se usa num campo como o Mineirão, por exemplo, pois corre-se o risco de cansar em demasia no fim da partida e ficar em desvantagem numérica em alguns setores.

Foi esse controle que o Cruzeiro tentou fazer em Goiânia neste domingo. Mas exagerou na dose e quase correu o risco de perder dois pontos.

Sistemas iniciais

No primeiro tempo, ambas equipes no 4-2-3-1, espalhados, e se movimentando pouco no enorme campo do Serra Dourada

No primeiro tempo, ambas equipes no 4-2-3-1, espalhados, e se movimentando pouco no enorme campo do Serra Dourada

Como de costume, Marcelo Oliveira manteve o 4-2-3-1. Sem Mayke, Henrique e Ricardo Goulart, todos poupados para evitar lesões, Fábio teve sua linha defensiva formada por Ceará, Dedé, Léo e Egídio. Nilton reeditou a parceria com Lucas Silva no meio-campo, dando suporte a Willian na direita, Éverton Ribeiro como central e Alisson pela esquerda. Na frente, Moreno.

O Goiás não foi a campo com três zagueiros, como informou o SporTV no início da transmissão. Ricardo Drubscky também armou um 4-2-3-1, com Renan no gol, Jackson e Felipe Macedo como zagueiros, Moisés na lateral direita e Léo Veloso na esquerda. Valmir Lucas entrou como volante preso, com David tendo ligeiramente mais liberdade. O quarteto ofensivo tinha Thiago Mendes na direita, Tiago Real por dentro e Samuel na esquerda atrás de Bruno Mineiro.

Ritmo lento: Sonolência ou estratégia?

O jogo começou e parecia não ter começado, tal a lentidão que os jogadores de ambas as equipes colocavam em campo. Muitos amigos nas redes sociais já cornetavam, dizendo da sonolência do time, mas este blogueiro preferiu avaliar pelo lado da estratégia: se poupar para não cansar no enorme gramado do Serra Dourada. Assim, não vimos o Cruzeiro que normalmente vemos em outras partidas, aplicando pressão sobre a zaga adversária para roubar a bola e tocando com velocidade e intensidade quando a tinha nos pés.

Quando o Cruzeiro acelerou, chegou ao gol. Bola roubada no meio-campo, a defesa do Goiás ainda estava se arrumando, mas Éverton Ribeiro, de frente e sem marcação, tinha três opções de passe: Ceará, que já passava na direita; Alisson, totalmente livre pelo lado esquerdo com o lateral Moisés correndo para alcançá-lo; e Marcelo Moreno, marcado por um zagueiro e com outro na sobra. A escolha de Éverton foi a mais difícil: um passe em profundidade, fora do alcance da cobertura e apostando na velocidade do boliviano, que concluiu cruzado para marcar. Oitava assistência de Éverton no certame, o líder no quesito.

Talvez pela facilidade, os jogadores de certa forma se acomodaram. Conseguiam repelir as investidas goianas com facilidade, e não quiseram correr muito mais para fazer o segundo e matar logo a partida.

Segundo tempo

Nenhuma mudança houve depois do intervalo. A única diferença foi que o Cruzeiro passou a ter mais posse de bola na intermediária ofensiva ao invés da defensiva, mas com poucas tentativas de passe agudo. Só aos 15 o jogo mudaria um pouco, com Drubscky trocou Moisés por Murilo, um meia, passando Valmir Lucas para a lateral direita. Murilo foi jogar aberto na direita, e os dois Tiagos ficaram mais próximos por dentro do campo, com Real mais à direita e Mendes mais à esquerda. Uma espécie de 4-3-3, pendendo muito para a direita.

O mapa de passes do 2º tempo (Opta) mostra como o Goiás insistiu pela direita, tendo um jogador aberto naquele setor (Murilo) mas não do outro lado

O mapa de passes do 2º tempo (Opta) mostra como o Goiás insistiu pela direita, tendo um jogador aberto naquele setor (Murilo) mas não do outro lado

No Cruzeiro, Egídio deu seu lugar a Samudio. Naquele momento, achei que fosse para poupar e dar mais segurança, mas Egídio teve um problema na mão e teve que sair. Depois, com Alisson por Dagoberto, Marcelo queria definir a partida de uma vez, mas não foi o que aconteceu. O Goiás começou a ocupar a intermediária ofensiva e trocar passes muito próximo da área de Fábio, muito porque o Cruzeiro não dava pressão sobre o homem da bola neste setor. Um risco desnecessário, já que seria melhor ocupar o meio-campo e empurrar o time verde para trás.

Com Henrique, Cruzeiro fechou o meio-campo mas abriu os corredores, permitindo vários cruzamentos -- um risco desnecessário

Com Henrique, Cruzeiro fechou o meio-campo mas abriu os corredores, permitindo vários cruzamentos — um risco desnecessário

Marcelo Oliveira tentou mexer no time com Henrique na vaga de Willian, numa rara modificação de sistema tático. O Cruzeiro se postou num 4-3-1-2, com Henrique e Lucas ligeiramente mais avançados que Nilton no meio. Dagoberto se juntou a Moreno no ataque e Éverton ficou na ligação. O meio-campo central ficou mais forte defensivamente, mas sem jogadores abertos o Cruzeiro abriu os corredores, e o Goiás que começou a atacar com seus dois laterais ao mesmo tempo. O resultado foi uma profusão de bolas na área, que o Cruzeiro conseguia afastar até com certa facilidade. Mas novamente corria riscos desnecessários.

Já Ricardo Drubscky trocou seus dois atacantes para poder encaixar passes em profundidade e pegar a defesa celeste correndo pra trás. Não tinha funcionado até o último lance da partida, quando a postura cautelosa demais quase cobrou seu preço. Uma bola espirrada de Léo acabou servindo de passe para Esquerdinha. Dedé foi com ele e ganhou na bola, mas o juiz viu pênalti, que David mandou pra fora.

Segurando demais

Esta partida contra o Goiás mostrou que o Cruzeiro está ciente de sua capacidade e também tem maturidade para acelerar o jogo quando bem entende. É compreensível que os jogadores não quisessem se aplicar tanto na marcação, visto o tamanho do campo e a maratona de jogos que está por vir. No entanto, talvez tenha exagerado no freio. Era preciso acelerar um pouco, mas apenas um pouco, não a ponto do desgaste físico ser um fator. E seria suficiente para que o Cruzeiro não corresse os riscos que correu no fim da partida.

No empate contra o Botafogo e na vitória que só valeu um ponto contra o Criciúma, o time foi elogiado pela busca constante do gol e pelo jeito de jogar ofensivo e consciente. Apesar de ter valido mais pontos, esta partida não merece tantos elogios quanto as outras. O Cruzeiro quase perdeu dois pontos por puro desleixo. O tamanho do campo é um atenuante, mas não pode ser a única desculpa.

Que bom que a maioria dos próximos jogos será em campos menores, e assim poderemos ver o Cruzeiro verdadeiro em ação.



Atlético/PR 2 x 2 Cruzeiro – Futebol de lama

Abro a análise de hoje com a síntese do jogo que o técnico Marcelo Oliveira deu ao repórter do Premiere FC após a partida.

“Foram tempos distintos. O Atlético nos dominou no primeiro tempo, se adaptou melhor ao gramado — se é que posso chamar de gramado. Então foi chutão pra lá e pra cá, [o Atlético] aproveitou da bola parada e da segunda bola. E nós equilibramos no segundo tempo, fizemos alguns contra-ataques importantes, e desperdiçamos. Mas acho que ficou de bom tamanho, foi justo o empate.”

Marcelo fala de três fatores determinantes para o resultado de hoje: (1) o arremedo de gramado prejudica a execução de qualquer estratégia que não seja (2) a bola longa e a bola parada. E foi usando exatamente desse expediente que o Cruzeiro mudou a forma de jogar no segundo tempo e conseguiu (3) contra-ataques que poderiam resultar em mais três pontos.

Porém, há outros aspectos que também devem ser levados em conta.

Escalações

A grande distância entre os volantes e os meias e a sobrecarga pelo lado esquerdo dificultaram o jogo cruzeirense na primeira etapa

A grande distância entre os volantes e os meias e a sobrecarga pelo lado esquerdo dificultaram o jogo cruzeirense na primeira etapa

Marcelo mandou a campo o 4-2-3-1 de sempre, o que hoje pode ser considerado o time titular. A linha defensiva que protegia o gol de Fábio era formada por Dedé e Bruno Rodrigo na zaga, ladeados por Ceará à direita e Egídio do outro lado. Leandro Guerreiro e Nilton, este último ligeiramente mais avançado, faziam a proteção à área. Everton Ribeiro era o ponteiro direito, com a famosa tendência a centralizar e se juntar a Diego Souza, o meia central. Na ponta esquerda, Dagoberto ficava um pouco mais espetado e procurava se juntar a Borges, na frente.

O Atlético Paranaense do técnico Ricardo Drubscky entrou num 4-3-3 clássico, com um volante e dois meias (4-1-2-3). O gol de Weverton foi defendido por Léo na lateral direita, Manoel e Cleberson no miolo e Pedro Botelho à esquerda. Deivid foi o volante mais preso, liberando João Paulo e Everton para se juntarem ao ataque, formado por Ederson na ponta direita, Marcão centralizado e Felipe pela esquerda.

Terrestre x aéreo

O Cruzeiro tinha confiança que ia superar o péssimo estado do gramado tentando jogar da mesma forma de sempre: trocando passes, cadenciando e girando a bola. Mas o gramado venceu essa batalha prejudicando muito a estratégia celeste, simbolizada num lance em que Everton Ribeiro pega uma sobra de bola e passa a Borges. A devolução do camisa 9 foi boa, e Everton Ribeiro se posicionou de forma a esperar a bola que certamente chegaria em seus pés se o gramado fosse minimamente razoável, mas que ficou presa em uma poça de lama que freou sua trajetória, atrasando o que seria um excelente contra-ataque.

Já o Atlético não quis saber de transições pelo chão e jogava a bola longa pelo alto. Foi assim que o Atlético Paranaense chegava com facilidade à frente da área cruzeirense. Pra essa estratégia funcionar, entretanto, é preciso que o time atacante pegue a segunda bola. Chama-se de” segunda bola” a sobra da disputa de cabeça pelo alto, que é a “primeira bola” Quando treinadores falam que o jogo foi de primeira e segunda bola, eles querem dizer “disputas pelo alto e vamos ver quem pega a sobra”.

Descompactação

No Atlético, a ligação direta quase sempre procurava Marcão, que disputava na maioria das vezes com Dedé. Ele não ganhou muitas, mas a segunda bola era sempre do time da casa, isso porque os setores do Cruzeiro estavam muito espaçados. Marcelo queria a marcação no alto do campo, e quarteto ofensivo tentava fazer isso, mas a zaga e os volantes era pressionados pra trás pela bola longa, abrindo um clarão de Guerreiro e Nilton aos três meias. A segunda bola quase sempre caía por ali, e com isso os jogadores de meio do Atlético avançavam com a bola dominada quase sempre com pouca marcação.

Dois contra um

Mas a parte mais vulnerável do time era o lado esquerdo da defesa. Ricardo Drubscky certamente estudou o Cruzeiro e notou que o trabalho defensivo de Dagoberto por aquele setor não é tão intenso. Ele escalou Léo, um jovem lateral com muito ímpeto ofensivo e grande velocidade, e Ederson, também muito veloz e driblador. Sem Dagoberto para auxiliar na marcação, Egídio se viu sobrecarregado e precisou da ajuda constante dos volantes Nilton e Guerreiro. Em uma jogada específica é possível ver os dois volantes celestes jogando por aquele lado, deixando a direita e o meio totalmente desprotegidos.

Com essa dificuldade, o Cruzeiro cometia sucessivas faltas, deixando a oportunidade da bola aérea em sua própria defesa. Todos os fatores combinados originaram os gols da equipe da casa. Falta cometida por Guerreiro pela esquerda, bola na área, a defesa afasta mal e a bola volta. Sem marcação, do outro lado, o lateral esquerdo Pedro Botelho completou no canto de Fábio. Depois, mais uma falta pela esquerda, e desta vez Manoel completou a bola aérea em falha dos dois zagueiros do Cruzeiro, que subiram errado na bola e deixaram o zagueiro atleticano livre.

O feitiço contra o feiticeiro

Ainda no fim do primeiro tempo, o jovem Léo sentiu uma lesão e foi substituído pelo volante Derley na lateral direita. Isso representou um alívio imediato para Egídio, e também para Dagoberto, que agora não precisava voltar tanto já que Derley era muito mais marcador que Léo. Com menos pressão, Egídio começou a se aventurar mais na frente, e foi numa falta sofrida pelo lateral cruzeirense em tabela com Diego Souza — naquele momento pela esquerda, com Dagoberto pela direita e Everton Ribeiro no meio — que o empate começou a ser construído. Cobrança de Dagoberto, a zaga afasta mal e Dedé, de pé esquerdo, jogou mansinho para o gol.

No intervalo, Marcelo Oliveira percebeu que o jogo tinha que ser feio: muito mais físico do que técnico. Aproveitou a indisposição de Dagoberto para lançar Luan, muito menos driblador mas bem mais forte, pelo lado esquerdo do campo. O empate veio no primeiro toque do camisa 88 na bola, numa jogada que ilustra como o Cruzeiro teve que mudar sua estratégia de jogo. Logo na saída, bola longa para Luan disputar pelo alto. A bola sobrou pra Borges, que foi desarmado, mas depois também sobrou limpa para Luan completar de fora da área.

Taticamente mais preso àquele setor, Luan não só segurou Derley por ali como também voltava muito mais para marcar do que Dagoberto, praticamente anulando as investidas de Ederson pela direita do ataque atleticano. Com Egídio mais livre, era Ederson quem tinha que voltar, e com isso a situação se invertia: o lado esquerdo do Cruzeiro, direito do Atlético Paranaense, antes o caminho do gol para o time da casa, era agora vantajoso para o time celeste.

Contra-ataques

A entrada de Luan e o recuo da linha ofensiva ajudaram a resolver os problemas da primeira etapa e o Cruzeiro por pouco não conseguiu a virada

A entrada de Luan e o recuo da linha ofensiva ajudaram a resolver os problemas da primeira etapa, e o Cruzeiro por pouco não conseguiu a virada

O jogo de fato ficou bem mais feio, mais pegado e disputado, e com muito menos técnica. Celso Roth diria que era um jogo não para se jogar, mas para se “competir”. E o Cruzeiro entendeu bem isso, disputando cada bola e equilibrando a partida na base da força. O Atlético sentiu o empate e procurava ficar mais com a bola. Mas Marcelo Oliveira certamente pediu para seus homens de frente marcarem atrás da linha do meio-campo, e a aproximação dos setores compactou o time fechando todas as brechas. A segunda bola já não era sempre do time da casa, e não havia brechas por onde entrar.

Com o time mais recuado, o Cruzeiro chamava o Atlético a seu campo e partia em contra-ataques, quase sempre usando a bola longa para Luan ou Borges. Numa jogada, Egídio pegou uma segunda bola e achou Diego Souza pela esquerda, que fez o pivô e mandou a Borges sozinho na área. O cabeceio veio fraco, mas o lance ilustra como o Cruzeiro teve chances em jogadas de velocidade e pelo alto. Luan ainda teria mais duas oportunidades, e também Everton Ribeiro para decretar a virada, mas o placar insistiu no empate.

As outras trocas feitas pelos treinadores não alteraram as plataformas táticas nem as estratégias de jogo. Borges por Anselmo na referência, Everton Ribeiro por Ricardo Goulart na meia, mandando Diego Souza para a direita. No Atlético, as trocas foram diretas e simples, e o 4-3-3 se manteve até o fim.

Números e o “gramado”

Ao invés de fazer uma conclusão, darei aqui alguns números que provam como o Cruzeiro poderia ter saído com os três pontos se não tivesse errado tanto. Ambos os times acertaram 50% de suas finalizações, mas o Cruzeiro finalizou 18 vezes, contra 14 do Atlético. Considerando que o Atlético teve mais posse de bola (60% x 40%), o Cruzeiro foi mais eficiente e chegou mais ao gol adversário — fruto da estratégia do segundo tempo.

O site da ESPN Brasil também disponibiliza os números da Footstats de tempo de posse de bola por setor do campo. O Atlético passou 42,47% do tempo com a bola em seu lado direito, e o Cruzeiro 43,09%, mostrando como o jogo se concentrou naquele lado do campo. Também, o Cruzeiro foi a equipe que passou menos tempo em seu meio-campo do que nos setores de ataque e defesa nesta rodada, ilustrando bem o jogo de bola longa que o gramado permitia.

O jogo de hoje mostrou que o Cruzeiro tem capacidade de adaptação e elenco variado e heterogêneo, aspectos quase indispensáveis para se almejar o título. Por outro lado, também mostrou algumas falhas, como erros em bolas aéreas e algumas decisões estratégicas equivocadas, mas estes fatores foram causados mais pelo péssimo estado do campo do que propriamente pelo adversário.

Como acho difícil jogarmos novamente em um gramado tão ruim, o Cruzeiro ainda está muito credenciado ao título.