Botafogo 2 x 3 Cruzeiro – A camisa 10 não é por acaso

É claro que os números de camisa não obrigam um jogador a um determinado posicionamento em campo. Mas bastou ter uma companhia na extrema direita e voltar ao meio-campo para o futebol do Caballero Azul despertar novamente e quebrar a maldição do Engenhão, na vitória por 3 a 2 sobre o Botafogo ontem. Direta ou indiretamente, o argentino teve papel importante nos três gols da virada convincente do time celeste.

Cruzeiro do primeiro tempo num 4-2-2-2 pendendo pra o lado direito, com Souza lento, Marcelo Oliveira alto demais e muitas compensações defensivas

O Cruzeiro entrou no jogo com o mesmo onze da partida anterior, mas com uma mudança tática: Souza voltou ao lado direito e “puxou” o 4-2-2-2 cruzeirense para seu lado, já que ele pouco centralizava, forçando Tinga a fazê-lo para cobrir os avanços de Montillo, novamente usado como segundo atacante. Oswaldo de Oliveira armou o Botafogo no tradicional 4-2-3-1, com Vitor Júnior, Andrezinho e Maicosuel atrás de Herrera, e Renato mais livre que Jadson.

O detalhe tático mais importante do primeiro tempo foi o lado direito do ataque local, esquerdo da defesa celeste. Dois aspectos: com Tinga mais por dentro, Marcelo Oliveira tinha dois adversários para marcar, já que Lucas avançava sem ser incomodado. Além disso, o camisa 6 jogava frequentemente muito alto, talvez numa tentativa de explorar este espaço que havia no ataque, e o Botafogo tratou de aproveitar aquele setor. Charles e Tinga tentavam revezar a primeira marcação pela canhota, mas o primeiro frequentemente tinha que cobrir as investidas de Marcelo Oliveira e o segundo estava centralizado demais.

Assim, o Botafogo começou a controlar as ações através dos pés de Vitor Júnior, o extremo direito. O meia foi o melhor do primeiro tempo, criando várias chances para si e para seus companheiros. Sorte nossa que temos Fábio embaixo do gol e que eles têm Herrera, que perdeu duas chances excelentes de marcar. Ele próprio emendou uma finalização na rede por fora, e no lance do escanteio que originou o gol contra de Amaral, foi ele quem serviu Herrera mais uma vez, que dividiu com Léo e Fábio num lance estranho, e a bola acabou sobrando e se encaminhando lentamente para o gol, que o camisa 1 conseguiu mandar para fora.

Amaral, aliás, não fez uma má partida, mas ficou sobrecarregado na marcação de vários jogadores. Souza e Diego Renan até que conseguiam dar conta do recado pelo lado direito, mas quando ambos avançavam era o camisa 5 que fazia a cobertura. Ele também tinha de marcar Andrezinho, o articulador central botafoguense. Ainda bem que o meia não fez uma boa partida e, como já dito, o Botafogo escolheu mais o lado direito para atacar, com Maicosuel apagado na partida. Por isso o volante só apareceu no jogo na hora do gol contra, quando poderia ter sido muito pior.

Ofensivamente, o Cruzeiro pecou em dois aspectos: previsibilidade e lentidão. Souza, preso do lado direito, cadenciava demais o jogo, por duas razões: a característica dele é essa, segurar a bola, dar um ritmo mais lento ao jogo, e também porque ele não tinha opções para o passe rápido. Montillo era vigiado de perto por Jadson, que se afundava na defesa atrás do argentino; WP encaixotado entre os dois zagueiros, Diego Renan era bem marcado por Maicosuel e Amaral ficava mais preso na proteção à zaga. Tinga tentava ser opção, mas estava centralizado demais e era perseguido por Renato. O Cruzeiro só criou quando Montillo conseguiu se livrar da marcação e centrar a bola. Ela chegou a WP que tentou driblar seu marcador, mas recebeu um toquezinho leve no joelho, o suficiente para tentar cavar uma penalidade inexistente.

Cruzeiro lento e previsível, Botafogo veloz e com espaço pela direita. Assim foi o primeiro tempo, e os números comprovam: apesar de ter tido mais posse de bola (53%), comprovando o excesso de cadência, o Cruzeiro só finalizou uma vez, contra 8 do Botafogo. De nada adianta reter a bola se o time não souber o que fazer com ela.

No intervalo, Celso Roth fez o óbvio e tirou Souza do jogo. O meia não conseguiu dar profundidade pela direita, coisa que Fabinho fez muito bem. E logo de cara o jogo mudou, pois Montillo havia voltado à sua posição original e Fabinho foi ser o segundo atacante acompanhando WP. O veloz camisa 17 confundiu a marcação e congelou o lateral esquerdo Márcio Azevedo. Além disso, se tornava opção para o passe de Montillo, que buscava a bola no círculo central e avançava com liberdade e velocidade, como lhe é característico. O Cruzeiro passou a ter volume e ocupou o campo adversário.

Mas o futebol é futebol: justo quando estava melhor na partida, o Cruzeiro sofreu o segundo gol. Tinga perdeu uma bola para Renato no meio-campo, ela sobrou para Vitor Júnior que rapidamente enfiou uma bola longa para Herrera, entre os zagueiros do Cruzeiro. Mateus estava longe do camisa 9 botafoguense e foi pego de surpresa, mas nada pode fazer para evitar o gol. Surpreendentemente, o Cruzeiro não se abalou e logo no primeiro lance após a saída de bola, Fabinho, excelente no jogo, completou cruzamento de Marcelo Oliveira para mandar na trave e reafirmar a blitz no campo de ataque.

Celso Roth então soltou o time mandando Anselmo Ramon e Everton nas vagas de Tinga e Marcelo Oliveira. Estava formado o 4-2-1-3 da era Vágner Mancini, mas com Everton como opção de velocidade pelo lado esquerdo, Fabinho pelo lado direito e WP pela esquerda próximo a Anselmo Ramon, enfiado e brigando com os zagueiros. Os dois pecados do primeiro tempo foram resolvidos, e no primeiro lance de Anselmo, ele tabelou com WP e mandou na rede pelo lado de fora. Depois, recebeu passe de Montillo e dividiu com o goleiro Milton Raphael, a bola sobrou para WP, fora da área, que tentou encobrir o jovem arqueiro, mas sem sucesso.

Então aconteceu a virada. Primeiro, Montillo recebeu passe pela direita, tentou driblar seu marcador e acabou arrumando um escanteio. Na cobrança, a zaga afastou mal, Mateus concluiu e Anselmo desviou levemente para fazer o primeiro gol cruzeirense no Brasileirão 2012.

Um minuto depois, em um contra-ataque ultraveloz, Montillo conduziu com muito espaço e conectou a Anselmo Ramon na quina direita da área. Ele viu WP dentro mas viu também Everton erguendo os braços e correndo como um raio, sem marcação pelo outro lado. O impulso da corrida fez o cabeceio sair forte e vencer Milton Raphael.

A velocidade no gol de empate celeste: Montillo com muito campo pra avançar, e Everton livre pela esquerda para testar para o fundo das redes

O Botafogo se lançou à frente para buscar a vitória, mas o Cruzeiro não deixou o time da casa respirar, e mais alguns minutos depois, Fabinho recebeu uma bola longa, dominou com categoria e achou Montillo que ia escapando entre os zagueiros do time da casa. O goleiro dividiu com ele, mas cometendo falta. Pênalti que WP converteu contra seu ex-time.

O time que virou o jogo era um 4-2-3-1 que virava um 4-2-1-3 com a bola, muito mais equilibrado, veloz e atacando por todos os lados

Logo após o terceiro gol, que WP preferiu não comemorar, foi possível ver Celso Roth passando instruções para o camisa 9. Certamente foi para recuar pelo lado esquerdo para recompor o 4-2-3-1, deixando Anselmo Ramon sozinho à frente. Ele conseguiu bloquear bem os avanços de Lucas, de maneira análoga a Fabinho do lado direito. Oswaldo de Oliveira tentou um único movimento: puxou Vitor Júnior para o centro, tirou Andrezinho e lançou Elkeson pela direita. Isso acabou facilitando o trabalho de Everton, que conseguiu bloquear bem os avanços dele. Vitor Junior já não tinha mais o mesmo espaço para jogar e nada fez. O Botafogo seguiu tendo mais posse de bola mas não conseguiu produzir boas chances até o fim do jogo.

Conclusões deste jogo: primeiro, Montillo é meia, e fim de papo. O próprio Celso Roth admitiu na coletiva após o fim da partida que o argentino é bom driblador, porém não dá profundidade. Ora, se ele não dá profundidade, então porque escalá-lo como segundo atacante? Além disso, ele mesmo disse preferir atuar como camisa 10. Segundo, Tinga deve render melhor se jogar como segundo volante, ao lado de Amaral ou Leandro Guerreiro. Terceiro, Fabinho entrou muito bem e fez muito mais que Souza, que não é jogador de lado de campo, é central. Merece uma chance pelo lado direito. Quarto, talvez seja melhor dar uma chance a Everton no time titular, escalando-o na extrema esquerda, e prendendo Marcelo Oliveira, como foi na primeira partida contra o Atlético/GO. Isso geraria uma 4-2-3-1 torto a la Brasil 2010, mas com os lados invertidos. E quinto, Anselmo Ramon talvez faça melhor a função de referência do que WP. É o caso de se dar uma chance.

Meu time para o jogo contra o Sport, portanto, seria Fábio; DR, Leo, Mateus e MO; Amaral e Charles (Tinga); Fabinho, Montillo e Éverton; WP (Anselmo Ramon). No entanto, como só avalio os jogos, e o treinador está lá todo dia, não acredito que isso vá acontecer.

Mas que Montillo tem que voltar à meia central, ah, pelo menos isso tem.

Náutico 0 x 0 Cruzeiro – Em branco de novo

Mostrando evolução defensiva mais uma vez, mas com uma queda brusca de criatividade, o Cruzeiro não sofreu gol de um esforçado Náutico no Recife. Mas também não fez, num jogo fraco tecnicamente pela segunda rodada do Brasileirão 2012.

O 4-2-2-2 torto cruzeirense da primeira etapa: quem dá amplitude de ataque pela direita?

O esquema de jogo mudou de Celso Roth mudou em relação à primeira rodada, com Everton saindo para a entrada do recém-contratado Tinga. Ambos são volantes de origem que jogam como meias, mas a diferença é que Everton joga mais aberto, e Tinga centraliza mais – região onde Montillo atua mais costumeiramente. A solução encontrada por Celso Roth para escalar ambos foi adiantar o argentino, transformando-o num segundo atacante. Souza trocou de lado e foi para a esquerda, e o Cruzeiro ficou num 4-2-2-2 torto, com Charles novamente tendo mais liberdade do que Amaral para sair com a bola.

O Náutico de Alexandre Gallo entrou num 4-2-2-1. Não, eu não errei a conta: somente 9 dos jogadores de linha guardavam posição. Araújo era servido por Cleverson e Ramon, e os 4 defensores tinham a proteção de Elicarlos e Glaydson. Derley, o jogador que faltou, ficou com a missão de ser a sombra de Montillo, e perseguia o camisa 10 por todo o campo, onde quer que fosse, até mesmo quando a posse de bola era do time da casa. O resultado é que o esquema do Náutico ficou bem difícil de definir. Por vezes parecia mais um 3-4-1-2, já que Derley afundava na caça à Montillo e com isso os laterais puderam atuar bem avançados, alinhados aos volantes.

Com o recuo de Derley no encalço de Montillo, os laterais avançavam, quase se alinhando ao dois meias atrás de Araújo no 4-3-2-1 (3-4-2-1) do Náutico

O Cruzeiro começou o da mesma forma que contra o Atlético/GO: marcando alto no campo. Deu certo, pois ora o Cruzeiro retomava a posse em uma posição melhor, ora a qualidade do passe do time da casa era muito reduzida, ocasionando chutões ou passes afoitos, facilitando os desarmes. O resultado foi mais posse de bola, e como a escola Barcelona nos ensina, consequentemente mais passes e mais finalizações, correto? Errado. O Cruzeiro teve um aproveitamento tanto de passes quanto de finalizações menor do que na primeira rodada. Das 9 conclusões, só uma foi ao alvo, o pior aproveitamento entre todos os times nas duas rodadas, de acordo com números da ESPN Brasil.

Ainda, com Souza preso do lado esquerdo, Tinga mais por dentro e Montillo tentando ser um segundo atacante, o time pouco usava o lado direito do ataque. Quando Montillo caía por ali, sempre acompanhado de Derley, acabava cercado por mais adversários. Lúcio, sem ter a quem marcar, jogou avançado e prendeu Diego Renan. O resultado é que, neste jogo, o Cruzeiro concentrou 10,6% da sua posse de bola na ponta esquerda contra 6,39% do outro lado. Contra o Atlético/GO, estes números eram 5,6% e 12,21% respectivamente, um indício de quanto Souza é atualmente responsável por fazer a bola chegar ao ataque.

O Náutico, sem opções, optou por esperar o Cruzeiro em seu campo para jogar na transição ofensiva, também conhecida como contra-ataque. Mas não obtinha muito sucesso, já que a defesa azul estava bem postada e não deixava espaços aos atacantes pernambucanos. Além disso, o Náutico conseguiu ter um aproveitamento de passes ainda pior que o Cruzeiro: apenas 80,4% de acerto (contra 82,68%).

A solidez defensiva é boa notícia, mas isso se refletiu na criatividade do time. Como já dito, poucos passes trocados, pouca qualidade nos que eram e poucas finalizações no alvo, apesar da maior posse de bola no primeiro tempo. Souza se movimentava pouco, preso na esquerda, Montillo parou na marcação implacável de Derley e Tinga foi um lutador, aparecendo para jogar em todos os setores do campo, mas recebendo poucas bolas e dando passes mais seguros (como se espera dele). Assim, foi uma primeira etapa chata, a não ser por uma bobeada de Fábio ao dominar com os pés que o Náutico não conseguiu aproveitar, e por um lance curioso do juiz que “desexpulsou” Charles ao transferir o que seria o segundo cartão amarelo do volante para Diego Renan, que também estava no lance. Sorte do camisa 7, pois foi ele de fato quem fez a falta.

No fim, Cruzeiro num 4-3-1-2 muito defensivo, com vários jogadores recuando demais

No segundo tempo o Náutico veio com mais gás, ou o Cruzeiro veio com menos, e a pressão alta já não era exercida. Com William Magrão, mais um estreante, no lugar do amarelado e “desexpulso” Charles, o Cruzeiro manteve o esquema, mas decidiu se afundar e sair na boa, dando liberdade para o primeiro passe dos volantes do Náutico. Derley até esqueceu Montillo por alguns momentos para tentar uma jogada mais profunda para seus companheiros, que agora tinham Rhayner e Souza nos lugares de Cleverson e Glaydson. O primeiro jogou como meia-atacante, fazendo mais companhia a Araújo; o segundo entrou como volante pela esquerda, no mesmo local onde Glaydson atuava: seis por meia dúzia em termos táticos, mas com pernas descansadas e com mais liberdade para infernizar a vida de Diego Renan e Amaral. Era um 4-3-2-1 com cara de 4-3-1-2.

A qualidade defensiva mostrada no primeiro tempo aos poucos foi sendo minada, com algumas falhas individuais que poderiam comprometer todo o plano. O trio ofensivo do time de Pernambuco promovia movimentação e atuavam sempre próximos, tentando confundir a marcação azul. Diego Renan ficou cada vez mais preso, e os volantes já não tinham liberdade para manter a posse da bola, mesmo que ineficiente, como no primeiro tempo. A situação estava se invertendo.

Aos 15, Celso Roth enxergou o óbvio e sacou Souza, mais lento, e promoveu a entrada de Everton. O volante foi jogar na mesma posição que jogou no primeiro jogo, aberto pela esquerda. Mas infelizmente a situação não mudou: o Náutico continuava encurtando os espaços e até obrigou Fábio a fazer algumas defesas difíceis. Alexandre Gallo então soltou o time de vez, com Rodrigou Tiuí na vaga de Ramon para fazer um 4-3-3, e Celso Roth respondeu logo em seguida lançando Wallyson no lugar do cansado Tinga. Wallyson foi fazer companhia ao inoperante WP e Montillo recuou para sua posição de origem. O Náutico tinha, de fato, apenas um volante, principalmente se considerarmos que Derley continuava vigiando Montillo de perto, e o argentino o arrastava para fora de posição (se é que havia uma para o camisa 150).

O Cruzeiro só foi ter uma posse de bola mais tranquila aos 29 minutos, que parou num impedimento de WP. Pouco para quem marcava pressão com sucesso no início da partida a agora recuava suas linhas para tentar um chutão de contra-ataque para os atacantes. Até Montillo, que normalmente não recua tanto, estava jogando à frente da sua própria área cercando os espaços do trio ofensivo.

6-3-1?

Mas não teve de fazer muito esforço, já que o Náutico martelava, mas já não finalizava tanto e se contentava com jogadas de bola parada. Talvez pelo cansaço do adversário, nos últimos minutos o Cruzeiro conseguiu segurar mais a bola, mas sem o ímpeto do ataque. Só podia dar em um zero a zero entediante.

Jonathan Wilson, autor do livro Inverting the Pyramid: A History of Football Tactics, disse bem em seu blog no The Guardian: “Simetria não é essencial, mas o equilíbrio é”. O Cruzeiro jogou sem simetria mas mostrou que agora sabe se defender melhor. Mas agora precisa encontrar equilíbrio e mostrar que sabe atacar também, como o próprio Roth disse na coletiva após o jogo.

Melhor pra ele, pois aqui é Cruzeiro: futebol ofensivo sempre foi a nossa marca. Chega de zero a zero, eu quero é ver gol.

Cruzeiro 0 x 0 Atlético/GO – Anselmo e o Bandeirinha

A passagem de Celso Roth no comando do Cruzeiro começou com um empate sem gols contra o Atlético/GO em Uberlândia. Com atuações tecnicamente ruins de alguns jogadores, o aspecto tático também sofreu e o time celeste teve dificuldades defensivas no início, se acertou aos poucos mas foi prejudicado por um palavrão de Anselmo Ramon ao bandeirinha, que dedurou.

O 4-5-1 de Celso Roth (4-2-3-1 com a bola, 4-4-1-1 sem ela), mas com problemas pelo lado direito: Souza sem profundidade ofensiva e a deficiência técnica de Marcos obrigando Amaral a fazer a cobertura, abrindo espaços no meio

Celso Roth escalou um 4-2-3-1, com Charles e Amaral fazendo a dupla volância e Souza, Montillo e Everton atrás de Wellington Paulista. Sem a bola, Everton e Souza recuavam até a linha de volantes, fazendo um 4-4-1-1. Adilson Batista armou o Atlético Goianiense num 4-3-2-1: Pituca, Marino e Fernando Bob eram os volantes, Bida era o articulador principal e Elias era quase um segundo atacante atrás de Diogo Campos.

Dois aspectos devem ser considerados no esquema azul. O primeiro é que Souza, sendo um meia de ligação cadenciador, tendia a centralizar e não abria pela direita. Além de deixar a equipe sem poderio ofensivo por aquele lado, já que Montillo, quando caía por ali, era cercado facilmente por dois ou três jogadores adversários, essa movimentação desguarnecia aquele flanco. Além disso, Marcos não fez uma boa partida nem tecnicamente nem taticamente, tendo que receber a ajuda de Amaral para fazer a marcação pelo setor.

Estes dois efeitos combinados geravam espaços generosos na defesa cruzeirense. Com Marcos e Amaral no posicionamento “normal”, o lateral ficava constantemente no um contra um. Quando Amaral recuava para fazer a cobertura a Marcos, este avançava um pouco, mas continuava aberto pela direita, abrindo um buraco onde Amaral deveria estar. E foi pelo lado esquerdo do ataque que o Atlético/GO criou as melhores chances. Fernando Bob, volante esquerdo dos visitantes, combinava bem com Bida e ofereceu muito perigo nas costas de Marcos. Ainda, estes buracos faziam o Cruzeiro perder praticamente todas as segundas bolas, gerando longos períodos de posse dos visitantes e tirando a possibilidade de contra-ataques.

Do outro lado, Everton e Marcelo Oliveira não reeditaram algumas boas parcerias que tiveram na temporada. Isto porque Marcelo jogou como lateral zagueiro, plantado, fechando o setor, e pouco se aventurou no ataque. Isto, teoricamente, liberava Everton para fazer a meia extrema esquerda. Mas este jogou recuado demais, e por vezes era visto afundado na esquerda, empurrando Marcelo Oliveira para o meio e fazendo uma linha de cinco na defesa. O Atlético não jogou muito por ali, exatamente pela super-população de defensores, mas isso fazia com que Everton deixasse de ser uma opção de saída de jogo e o Cruzeiro ficava ainda mais previsível.

Essa previsibilidade facilitava a pressão alta do Atlético/GO. Amaral e Charles não eram os responsáveis pelo primeiro passe, como deve ser um 4-2-3-1, e o Cruzeiro teve pouca posse de bola e passes ruins. Porém, nas poucas vezes que chegava, conseguiu criar algumas boas chances. Montillo tentava o que podia: caía pelos lados – como lhe é característico, mais pelo lado direito, onde Souza não chegava ao fundo e Marcos tinha dificuldades de apoio. Foi justamente numa combinação com Souza por aquele setor que saiu a melhor chance azul no primeiro tempo: Montillo recebeu em boas condições na grande área e inverteu o jogo para Everton, que demorou na conclusão, dando chance para o bom goleiro Roberto. No rebote, Charles também mandou em cima do arqueiro visitante.

No intervalo, Celso Roth acertadamente tirou Marcos e lançou Diego Renan, perfazendo duas substituições sem mudar o esquema tático, pois Victorino já havia entrado na vaga de Alex Silva, contundido. O 4-2-3-1 se manteve, mas com muito mais segurança pelo lado direito. O efeito imediato foi que Amaral pôde voltar ao posicionamento inicial, e o meio-campo do Cruzeiro conseguiu ter mais presença, sem tantos espaços. Tanto é que, se no primeiro tempo o time visitante trocava passes na intermediária ofensiva, desta vez eram os zagueiros que jogavam a bola um para o outro, tentando achar uma brecha. Mas ofensivamente o problema da saída ruim persistia: o Atletico insistia na marcação mais adiantada e os jogadores cruzeirenses ofereciam facilmente a bola.

Roth então decidiu que WP seria uma melhor opção de saída se abrisse pela ponta esquerda, pois podia reter uma bola e girar para servir um companheiro. O treinador queimou sua última substituição tirando Everton, lançando Anselmo Ramon na referência e espetando o camisa 9 pelo lado sinistro, mas com liberdade para chegar dentro da área e concluir como centro-avante. A alteração surtiu efeito e o Cruzeiro criou excelentes chances, apenas para ser parado pelo goleiro Roberto.

Adilson Batista, então, foi para sua primeira mudança no jogo, tirando o meia Elias e colocando o centro-avante trombador William. Bida passava a ser o único articulador, e agora eram 4 contra 4 no meio-campo. O jogo se equilibrou um pouco, com chances de parte a parte, mas o Cruzeiro ainda tinha mais posse de bola. Aos 31, Anselmo Ramon reclamou “inapropriadamente” de um arremesso lateral com o bandeira. Foi dedurado e expulso de campo.

Uma das duas variações do 4-4-1 do Cruzeiro no fim da partida; a outra variação é ilustrada pelas setas amarelas

Logo após a expulsão, Adilson mandou Felipe a campo na vaga de Diogo Campos: outro centro-avante. O losango do meio se manteve, o Atlético-GO tinha um homem a mais: os volantes e laterais passaram a avançar com muito mais frequência. O Cruzeiro teve de abdicar da vitória para proteger seu próprio gol, e o fez com autoridade. Com as duas linhas do 4-4-1 bem compactadas, com Montillo e WP alternando para ser o homem mais avançado, o Atlético-GO não conseguiu entrar no bloqueio e nada fez. Adilson Batista ainda tentou mandar mais um atacante, Juninho, no lugar do volante Marino, fazendo um 4-2-1-3, quase um 4-2-4 devido ao posicionamento ofensivo de Bida, mas o substituto mal viu a bola. Fábio sequer encostou na bola até o apito final.

A conclusão é de que, obviamente, ainda há muito trabalho pela frente. Mas, diferentemente de muitos comentaristas esportivos, não acredito que o Cruzeiro tenha tomado sufoco. Foi um jogo equilibrado, com o Cruzeiro claramente ainda tentando se entender novamente após a troca de comando, contra um adversário já entrosado e bem treinado. Foi dominado, sim, mas nem sempre o time dominado vence ou merece vencer – vide Chelsea, justo campeão da Europa. Nosso time demonstrou evolução, pelo menos defensivamente, e com os novos contratados melhorará ainda mais. Tinga chega para ser titular, e já deve entrar no próximo fim de semana contra o Náutico nos Aflitos.

A aplicação tática defensiva após a expulsão demonstra que a equipe tem sim capacidade. Acredito que as vitórias virão. Claro, desde que não se xingue o bandeirinha – ou quem quer que seja.

Atlético/PR 1 x 0 Cruzeiro – Hipertensão

Um pouco de pressão alta do Atlético Paranaense no início do jogo mais uma certa incompetência nas finalizações foi a receita amarga da terceira derrota seguida do Cruzeiro. Se Vágner Mancini já tinha de colocar as orelhas em pé, agora então precisa vencer e convencer para ter sobrevida no cargo. Não que eu concorde, pois a má fase não é culpa inteiramente do treinador, mas sabemos que no futebol, principalmente aqui em terras tupiniquins, o resultado importa muito mais do que o planejamento e o trabalho.

O 4-3-1-2 losango inicial do Cruzeiro, com Roger e Amaral invertendo e sem força pelo lado esquerdo

O Cruzeiro foi a campo no 4-3-1-2 losango, mas com Roger recuando pela direita e invertendo com Amaral. Na zaga, Alex Silva estreou no lugar de Victorino, vetado. Já o Atlético-PR veio no 4-3-3 com triângulo alto (4-1-2-3) armado pelo técnico uruguaio Juan Carrasco, com o veterano Paulo Baier num posicionamento interessante: o camisa 10 recuava para ser o primeiro volante, liberando seus companheiros de meio-campo Deivid e Liguera para atacar.

Logo de cara, o Atlético partiu para a marcação no alto do campo quando perdia a bola, sufocando os defensores cruzeirenses. Foram 20 minutos de uma excelente execução de pressing. Os três atacantes pressionavam os quatro defensores e os volantes eram perseguidos pelos dois meias. Paulo Baier regia de trás.

Nas raras vezes em que o Cruzeiro conseguia passar pelo meio-campo, o Atlético imprimia velocidade no contra-ataque, com intensa movimentação do trio ofensivo. Foi justamente num destes contra-ataques que saiu o gol da partida. Roger e Amaral estavam na ponta direita disputando a posse, mas perderam a bola, que chegou para o ex-cruzeirense Guerrón, desta vez aparecendo pelo lado esquerdo. O veloz equatoriano tinha a marcação de Diego Renan, mas sem cobertura. Leandro Guerreiro tenta chegar para fazer a sobra, mas Diego Renan já havia sido driblado e Guerrón já partia em velocidade. Antes do camisa 5 alcançá-lo, ele cruzou rasteiro para dentro da área azul. Alex Silva, o homem da sobra, não conseguiu cortar e Edigar Junio conseguiu aparecer entre Léo e Everton para completar. Méritos de Guerrón, mas houve falha na cobertura a Diego Renan e na hora de cortar a bola no cruzamento.

Do outro lado do campo, Anselmo Ramon ainda nem tinha visto a cor da bola. O centro-avante azul ficou esperando a bola chegar, mas o Atlético continuava a pressão. Do lado esquerdo, Marcelo Oliveira se preocupava em marcar Deivid, e Everton segurava o atacante que caísse por ali, na maioria das vezes Guerrón. O lado esquerdo ofensivo do Cruzeiro ficou novamente deserto. Roger recuava para buscar o jogo e tentar dar qualidade à saída, numa tentativa de cadenciar o jogo, para frear a velocidade que o time mandante queria impor. Mas foi dele o lance mais bizarro do jogo: num passe muito displicente para Léo, acabou entregando para o centro-avante Patrick avançar sozinho. Fábio cresceu, o camisa 11 se assustou e desperdiçou.

A partir dos 20 minutos, a pressão atleticana foi arrefecendo. Aos poucos o Cruzeiro foi ganhando espaço, mas os atacantes estavam muito bem marcados. O Cruzeiro tentava bolas longas para os atacantes, principalmente partindo de Roger. O repórter da TV até conseguiu pegar uma conversa do camisa 7 com Vágner Mancini, reclamando que não tinha alvos para fazer lançamentos. De fato, os dois atacantes azuis estavam encaixotados na defesa paranaense: Wellington Paulista até tentava se esquivar, mas foi bem vigiado pelo lateral esquerdo Héracles. Anselmo Ramon não caía pelo lado esquerdo e ficava tentando brigar com o zagueiro Manoel, com Bruno Costa na sobra.

Aos poucos o Cruzeiro foi equilibrando as ações, mas muito mais porque o Atlético já não conseguia pressionar no campo adversário (nenhum time no mundo consegue fazer isso durante os 90 minutos com tal intensidade). Quando a bola passava pelos meias atleticanos, o Cruzeiro levava mais perigo. Isso porque  Paulo Baier já não tem mais energia para ser o único volante à frente de sua zaga, e com o avanço de Amaral pela direita, as jogadas começaram a sair. As melhores chances foram com Roger, aos 29, quando WP tirou um zagueiro da área e o meia recebeu um lançamento longo de Diego Renan mas mandou para fora, e aos 47, em cobrança de falta cujo rebote WP não conseguiu aproveitar.

No intervalo, Vágner Mancini tirou Amaral, pouco produtivo no primeiro tempo, e estreou o veterano Souza. A equipe passou a um híbrido de 4-2-2-2 e 4-3-1-2 pelo posicionamento variável de Roger. Juan Carrasco tirou Liguera e lançou o volante Zezinho, mudando para um 4-2-1-3, talvez tentando liberar Paulo Baier para se aproximar mais da área adversária. Também trocou seu centro-avante: Bruno Mineiro na vaga de Edigar Junio.

A combinação das três alterações do intervalo resultou em um Cruzeiro com mais espaço para tocar a bola no meio campo e um Atlético-PR “divorciado”, com uma enorme distância entre os três atacantes e os três jogadores de meio. Um filme que já vimos antes no nosso próprio time. O Atlético parou de pressionar alto e deixou o Cruzeiro jogar. Os laterais azuis começaram a aparecer mais à frente, e aos poucos o Cruzeiro foi desequilibrando a balança da posse a seu favor. A explicação era simples: com Souza e Roger, o time conseguia reter mais a posse de bola, e os volantes do time da casa tinham de se preocupar com os dois. Paulo Baier ficava sozinho e ainda tinha a companhia de LG e MO: 4 contra 3 no meio. Uma situação pela qual o Cruzeiro passou várias vezes no ano, dessa vez estava do lado contrário.

Até os 15 minutos, só o Cruzeiro havia criado chances. Juan Carrasco viu que seu time não ia sair do lugar, mas não tentou corrigir o erro: queimou a regra 3 lançando mais um volante marcador, Renan Teixeira, no lugar de Paulo Baier, efetivamente fazendo um bizarro 4-3-0-3. Sim, o time da casa ficou sem nenhum homem de ligação. É claro, essa função foi designada para os atacantes mais abertos, mas eles não conseguiram executá-la. O Atlético se defendia com 7 homens atrás da linha da bola, tentando partir em contra-ataques com bolas longas para a velocidade de seus pontas.

Era em vão. Marcelo Oliveira e Everton estavam combinando bem pelo lado esquerdo. Do lado direito, Wallyson foi a campo no lugar de WP para dar mais velocidade à saída. O esquema se manteve, mas o Cruzeiro agora tinha muito mais largura de ataque. Foi de Marcelo Oliveira a melhor chance do Cruzeiro para o empate. Everton mandou a Anselmo Ramon, que protegeu, fez o pivô e lançou ao camisa 8, entrando nas costas do lateral atleticano. Ele avançou até dentro da pequena área mas conseguiu mandar por cima do goleiro.

Após as alterações, a volta ao losango inicial, com muita posse de bola mas sem eficácia na criação e na conclusão

O lateral direito Gabriel Marques, que havia caído e deslocado o ombro, voltou para jogar no sacrifício, já que o Atlético já havia feito suas três alterações. Vágner Mancini, então, tentou aproveitar-se da situação lançando Gilson no lugar de Roger, empurrando Everton para o meio e mudando Marcelo Oliveira de lado, voltando ao losango no meio. Mas o tiro saiu pela culatra, pois Marcelo Oliveira não se aventurou tanto pela direita, e Gilson e Everton não conseguiram combinar tão bem e explorar a condição física debilitada de Gabriel Marques. O lateral do Atlético fez um fim de partida heróico, segurando seu próprio braço e não saindo de nenhuma dividida.

O Atlético viu que não conseguiria mais se impor e postou seus 11 homens atrás da linha da bola, dificultando de vez as ações do time celeste. Mesmo com mais posse de bola (cerca de 60% aos 30 do segundo tempo), o Cruzeiro não conseguiu mais criar boas chances e ainda tomou uma bola na trave num rápido contra-ataque rubro-negro. Mas uma coisa boa pode ser tirada desse final: o Cruzeiro não se desesperou e lançou chuveirinho na área (como é costumeiro com times que estão tentando o gol de qualquer jeito). A organização tática se manteve até o fim.

Talvez o empate fosse o resultado mais justo, pelo volume de jogo das duas equipes nas pontas do tempo da partida. No início, um Atlético elétrico, e no fim um Cruzeiro mais calmo, com mais posse, mas não tão elétrico. Porém, o Cruzeiro só jogou quando o adversário deixou. Mais uma vez. Souza deu qualidade ao meio-campo, pode ser titular. Alex Silva, apesar da falha no gol, também deu mais segurança em bolas aéreas. WP e Anselmo Ramon não jogaram bem. Talvez seja a hora de usar um ataque mais móvel. Os dois são centro-avantes, homens de referência: não podem mais jogar juntos.

Portanto, talvez o resultado mais “justo” fosse mesmo a derrota, mas com o Cruzeiro marcando gols. E, na Copa do Brasil, isso faria muita diferença para o jogo da volta.

Cruzeiro 1 x 2 América/MG – O problema nunca foi o esquema

Num ímpeto desorganizado, o Cruzeiro está fora das finais do Mineiro 2012 devido a uma excelente execução tática do América.

A formação inicial titular do Cruzeiro, com os dois meias que a torcida tanto queria, mas sem força pelo lado esquerdo

Vágner Mancini tinha todo o elenco à disposição, à exceção de Walter, e optou por entrar com o tradicional 4-2-2-2 que a torcida tanto pediu, com Roger e Montillo servido Anselmo Ramon e Wellington Paulista, deixando Wallyson de fora. Givanildo só não pôde contar com o lateral esquerdo Pará, lançando o jovem Bryan em seu lugar. No resto do time, sem mistério: o mesmíssimo 4-3-1-2 do primeiro jogo das semifinais.

Logo no início do jogo, o Cruzeiro mostrou sua proposta: atacar e muito. Anselmo Ramon recebeu de costas, girou e bateu pra fora. Seria um sinal do que o jogo seria. Mas logo no início o Cruzeiro sofreu um golpe: Rodriguinho recebeu na esquerda, ganhou no mano-a-mano com Diego Renan e conseguiu um cruzamento. Victorino estava na marcação de Alessandro, e atrapalhado pelo americano, cabeceou contra a própria meta.

Com a vantagem, o América se fechou ainda mais e se preocupava mais em defender do que incomodar em contra-ataques. Assim, deu campo ao Cruzeiro, que chegava até a intermediária até com certa facilidade. O time tinha mais posse de bola (chegou a 60% na metade do primeiro tempo), mas esbarrou no mesmo problema dos últimos jogos: a falta de criatividade no meio. Mesmo com Roger e Montillo em campo, ainda havia algum espaço entre os defensores e atacantes, sendo que Roger estava no primeiro grupo e Montillo no segundo. Roger mais uma vez afundou entre os volantes para fazer a bola rodar, cadenciar o jogo. Mas os outros jogadores pareciam não querer cadenciar e queriam resolver logo. WP e AR mal pegavam na bola e finalizavam, muitas vezes sem estarem em boas condições para isso.

Montillo, por sua vez, novamente teve Dudu em seu encalço. Recentemente ele disse que, no esquema com três atacantes, era mais difícil fugir do homem-a-homem, pois havia pouco espaço pelos lados, já que os pontas ocupam estes setores. No jogo de hoje, o argentino de fato participou mais do jogo e tentou sim cair pelos lados, mas esteve longe de ser o jogador decisivo de outros jogos. Dudu fez um excelente jogo e reduziu muito a efetividade do camisa 10.

Anselmo Ramon, como de costume, jogou enfiado entre os zagueiros, mas a bola chegou pouco a ele. WP caía pela direita e tinha a marcação direta de Bryan, com a cobertura de Leandro Ferreira. Não chegou a ser anulado, mas também não foi efetivo. Roger, quando subia (e, por vezes, até quando recuava) era vigiado pelo mesmo Leandro Ferreira, que forçava o camisa 7 a se livrar logo da bola. Sobrava sempre para Leandro Guerreiro e Marcelo Oliveira, que não fizeram um bom jogo ofensivamente. O último errou muitos passes e esteve longe de sua forma usual.

O jogador mais lúcido era Everton. Mas, como já dito neste espaço antes, ele tem tendência a centralizar, pois é meia de formação. Portanto, a ponta esquerda do Cruzeiro foi um setor pouco utilizado no primeiro tempo. Uma indicação disso é que o Cruzeiro teve 26% de sua posse pela esquerda do meio-campo, mas apenas 9% pela esquerda no ataque. Mesmo assim, foi dele a jogada do pênalti que WP conseguiu desperdiçar para vestir a camisa do Inacreditável Futebol Clube.

Sem criatividade e afobado nas jogadas pelo chão, restou ao Cruzeiro fazer o chuveirinho na área, para tentar aproveitar a boa presença de área de Anselmo Ramon e Wellington Paulista. Foram 13 cruzamentos no primeiro tempo, somente dois certos (no segundo tempo o Cruzeiro errou todos os 13 cruzamentos que tentou). De tanto insistir, o Cruzeiro chegou ao empate, não numa jogada aérea, mas na presença de área de WP. Diego Renan disputou uma bola pelo alto com o zagueiro, a bola foi em direção ao zagueiro Gabriel, que, ao tentar cortar o lance, acabou jogando para trás dando um presente para o camisa 9, que desta vez fez o gol.

O gol deu mais ânimo para o Cruzeiro, mas o América, com a cabeça fria, resolveu manter um pouco mais de posse. E para seu próprio espanto, conseguiu e até criou algumas chances. Porque este é o diagnóstico do Cruzeiro das últimas partidas: um time que passa aperto quando o adversário resolve manter a posse, já que deixa jogar, e somente consegue levar mais perigo se o adversário chamar o Cruzeiro para seu campo e abdicar do ataque. Foi assim contra o Uberaba, contra o Atlético/MG e na ida contra o América, quando o Cruzeiro só conseguiu gols na base da vontade, mas não em jogadas construídas e trabalhadas. Protagonismo, só quando o adversário quis.

Na saída para o intervalo, o meia Rodriguinho do América resumiu bem: “temos que manter mais posse na frente para que o Cruzeiro não tenha tanto volume”. E foi realmente isso o que houve no primeiro tempo: muito volume, mais posse (54%), mas pouco eficaz (4 finalizações certas de 13 tentativas).

Não houve alterações no intervalo, mas o Cruzeiro voltou a campo num losango, com Roger pela direita e LG na proteção à zaga. Num primeiro momento, o novo posicionamento até parecia dar certo, pois aso 4 minutos o América fazia uma marcação bem alta, e o Cruzeiro conseguiu sair numa linha de passe pelo chão sem dificuldades. A bola chegou a Everton na esquerda, que foi para o meio com a bola e, ao perceber que não havia ninguém na direita para o passe (Diego Renan estava mais preso hoje) resolveu ir ele mesmo até receber uma falta na entrada da área. Roger mandou no travessão.

Mas não demorou muito para o Cruzeiro começar a errar na saída de bola e o América aproveitar estes erros. Em um deles, Moisés recebeu uma bola livre na direita (Everton não estava por ali) e centrou para Alessandro completar. A bola caprichosamente bateu nos pés de Fábio, que já estava vencido, e ficou viva na frente do gol. Diego Renan tirou em cima da linha.

Vágner Mancini lançou Wallyson na vaga de Marcelo Oliveira. Com isso, Everton foi para o meio-campo, Diego Renan inverteu de lado e Wallyson foi jogar na ala direita. Sem a bola, Leandro Guerreiro afundava entre os zagueiros, empurrando Leo para a direita, desenhando um 4-3-3, com Roger ao lado de Everton e Montillo mais avançado à frente. Com ela, Guerreiro saía para fazer a primeira bola do 3-4-3 losango. Givanildo percebeu que o Cruzeiro era vulnerável na recomposição e lançou Bruno Meneghel no lugar de Alessandro para puxar os contra-ataques.

Aos poucos, o Cruzeiro começou a ter mais e mais dificuldade de saída de bola, já que o América recuava cada vez mais e fazia uma marcação perfeita. Para além da linha do meio-campo, os jogadores azuis tinham pouquíssimo espaço. WP não conseguia vencer Rodrigo Heffner pela esquerda e tinha que recuar ainda mais para tentar participar do jogo, mas era improdutivo. Wallyson até ganhava de Bryan pela esquerda e tinha chances, mas sua opção de passe era sempre ruim (ou inexistente, já que os atacantes se posicionavam na pequena área para concluir pelo alto). Dudu continuava perseguindo Montillo, que estava sumido no jogo, e Roger já estava cansado. Everton continuou sendo o melhor cruzeirense em campo, mas também errava.

Uma tentativa de explicar a formação cruzeirense após todas as alterações; meias de volante, volantes de zagueiros e zagueiro de lateral

O América levava perigo em contra-golpes e assustava, mas a pressão do Cruzeiro só aumentava. Em um dado momento, foi possível observar os 11 jogadores do América dentro da sua própria área. Mas a pressão era desordenada. Élber entrou no lugar de Diego Renan, fazendo Everton voltar para a lateral esquerda. A formação ficou um tanto confusa, uma espécie de 3-2-3-2, com Élber na esquerda, Montillo pelo meio e Wallyson na direita atrás dos dois centro-avantes. Roger era volante e nem aparecia no ataque mais. Everton subia para atacar e o Cruzeiro ficava com apenas dois defensores.

Sem sucesso, Mancini preparava Bobô no lugar de WP para dar mais estatura e força e jogar a bola na área (claramente uma estratégia de desespero). Mas foi forçado a mudar, já que Victorino levou uma cotovelada ao disputar uma bola aérea e saiu de campo sangrando. O Cruzeiro só ficou com um zagueiro de ofício em campo, e a formação a essa altura era quase impossível de entender.

O gol de Fábio Júnior, nos acréscimos, dá uma idéia disso. Na hora do lançamento, era Léo que estava encurtando em China (que havia entrado no lugar de Rodriguinho, o melhor em campo), tendo Amaral e Leandro Guerreiro mais centralizados na última linha de defesa. Amaral que não é zagueiro, sai da marcação de Bruno Meneghel, que parte em velocidade. Everton, perdido, deu condições, mas parou pedindo impedimento. Ficaram dois contra Fábio.

Léo cerca China, Amaral se “esquece” de Bruno Meneghel, já pedindo bola, e Everton, fora da imagem, dá condições

É preciso entender que o adversário foi melhor. Executou sua proposta tática com precisão e segurou o ataque sem criatividade do Cruzeiro. Mesmo com três meias e três atacantes. Ao Cruzeiro, restou a Copa do Brasil. Se não chegar ao menos em uma semi-final, pode sobrar para o técnico, e todo o trabalho de 4 meses é jogado fora (infelizmente, mas no Brasil é assim). Mas, como o título do post diz, o problema nunca foi a formação tática, mas sim sua execução.

É compreensível que 2012 seja um ano de mudanças, afinal é uma administração nova, um time novo (diferente da era Adilson Batista, na qual o meio-campo jogava junto há muito tempo). É compreensível que não seja um ano de conquistas. Mas é preciso mudar para que o ano não seja de vergonhas.

Na coletiva do fim do jogo, ao ser perguntado se o Cruzeiro iria brigar na rabeira do Brasileiro novamente, Montillo foi categórico: “No”. E, depois de uma pausa, emendou: “Tomara que no.”

Tomara que “no”, Montillo. Tomara que “no”.