Cruzeiro 1 x 1 Caldense – Aquela palavra

Intensidade. Essa palavra, que muitas vezes é confundida com pressa ou raça, é a palavra da moda no futebol moderno. Ser intenso é executar as ações com mais rapidez; saber identificar os espaços antes do adversário; se movimentar muito sem a bola para dar opções de passe ao companheiro; subir o bote nos momentos certos e não deixar o adversário respirar até roubar a bola.

Foi exatamente isso que faltou ao Cruzeiro hoje. É claro, foi apenas o quarto jogo, o segundo oficial, e diante de um adversário que fez uma partida quase perfeita taticamente. Tudo isso conta. Mas mesmo assim, era de se esperar um time um pouco mais intenso com a bola, ou pelo menos um pouco mais do que foi na partida contra o Democrata.

Sistemas iniciais

No 1º tempo, o 4-1-4-1 da Caldense encaixou a marcação no 4-2-3-1 do Cruzeiro e negou espaços; estático, time celeste não conseguiu criá-los

No 1º tempo, o 4-1-4-1 da Caldense encaixou a marcação no 4-2-3-1 do Cruzeiro e negou espaços; estático, time celeste não conseguiu criá-los

Marcelo Oliveira teve dois problemas de última hora e teve que modificar o time que treinou durante a semana. Arrascaeta teve problema na documentação, e Bruno Rodrigo foi poupado por dores. Com isso, Fabiano entrou na zaga, pela direita, mudando Léo de lado. Mayke e o estreante Mena completaram a linha defensiva pelas laterais. Willian Farias e Henrique fizeram a dupla volância, atrás do trio formado por Marquinhos à direita, Judivan por dentro e Willian à esquerda, e na referência do ataque, Damião.

Já a Caldense do técnico Léo Condá se postou num 4-1-4-1 muito bem postado e preparado para reagir. O goleiro Rodrigo Viana teve Andrezinho à direita, Rafael Estevam à esquerda e Plínio e Marcelinho no miolo de zaga. Yuri foi o homem entre a defesa e a segunda linha, formada por Tiago Azulão à direita, Nádson e Tiago Ulisses por dentro e Zambi pelo lado esquerdo. Luiz Eduardo era o mais avançado.

Marcação encaixada

No confronto das formações, a marcação ficou muito encaixada. Cada ponteiro da Caldense fechava em um lateral do Cruzeiro; os meias nos volantes; o volante entrelinhas no central Judivan e os laterais marcavam os ponteiros. O time do interior usava a marcação individual por função, isto é, cada jogador pegava o adversário que chegava no seu setor e ia com ele até o fim da jogada.

Assim, não havia espaços no terço final. Era preciso criá-los. Em 2013/14, o Cruzeiro sabia bem fazer isso: quando o time tinha a bola, os jogadores sem ela eram intensos na movimentação, arrastavam os marcadores consigo e abriam linhas de passe. Essa movimentação é coordenada e organizada, o jogador precisa identificar o espaço e ir até ele. E para isso precisa de entrosamento com os companheiros.

Em 2015, os jogadores ainda estão se conhecendo. E não se movimentaram o suficiente para sair da boa estrutura do time da Caldense, ficando muito estáticos em suas posições. Os 3 jogadores atrás de Damião até trocavam de posição, mas sempre antes do Cruzeiro recuperar a posse, e nunca durante as jogadas, facilitando a marcação.

Recomposição e transição

Quando perdia a bola, o Cruzeiro tentava pressionar alto, mas sem coordenação. Para que a marcação no campo de ataque funcione, todos os jogadores tem que avançar de forma a fechar as opções de passe do homem da bola, forçando-o a um erro ou à perda de posse de bola. Mas houve vários momentos em que um dos jogadores do quarteto de frente do Cruzeiro não subia o bote, deixando um jogador da Caldense livre. A bola rodava e chegava nesse jogador, que iniciava o ataque tranquilamente. Assim, o Cruzeiro não conseguia roubar a bola já perto da área adversária, tendo que iniciar os ataques quase sempre de seu próprio campo.

Outro problema apresentado hoje foi a lentidão no contra-ataque. Quando roubava a bola no campo de defesa, o Cruzeiro simplesmente não era veloz o suficiente, e assim a defesa da Caldense conseguia se recompor, fechando os espaços novamente e voltando ao estado anterior: time com mais posse de bola, mas sem conseguir criar espaços para ameaçar Rodrigo Viana.

Em suma: nas quatro fases do jogo (ataque, recomposição, defesa e transição) o Cruzeiro foi mal em três, sendo razoável apenas na parte defensiva. Mena, o estreante, fechou bem a linha de quatro, Léo e Fabiano fizeram um primeiro tempo seguro e os volantes Henrique e Willian Farias protegeram bem a área de Fábio. De resto, faltou movimentação sem a bola no ataque, coordenação na pressão alta na recomposição e velocidade no contra-ataque. Intensidade é o ponto em comum.

A intensidade de Joel

Com Joel, Cruzeiro ganhou muita movimentação e conseguiu criar boas chances pela direita, apertando a Caldense contra sua própria área

Com Joel, Cruzeiro ganhou muita movimentação e conseguiu criar boas chances pela direita, apertando a Caldense contra sua própria área

No intervalo, Marcelo trocou Judivan por Júlio Baptista, mais acostumado a jogar como central do 4-2-3-1. Na Caldense, Léo Condé tirou Tiago Ulisses e lançou Diego Souza (não é aquele). Mas nem deu tempo de avaliar: Damião se movimentou, saiu da área para o pivô e levou a marcação, abrindo espaço para Willian, que foi até esse espaço para receber a bola do próprio Damião e vencer Rodrigo Viana. Porém, quase na sequência, uma desatenção na zaga fez a bola sobrar para Luiz Eduardo dentro da área, que fez um gol típico de centroavante à moda antiga: girou em cima de Fabiano e bateu.

Depois dos gols, o jogo assentou e aí sim deu pra ver que nada havia mudado. Júlio tem característica de reter mais a bola, e não se movimenta tanto. O time tinha mais posse de bola, mas continuava muito estático em campo. Aos 15, Willian Farias deu seu lugar a Joel. Marcelo recuou Marquinhos para a linha de Henrique e abriu Joel pela direita. E aí sim, o Cruzeiro pareceu muito mais dinâmico, pois o camaronês se movimentava bastante, com muita intensidade. Ele parece estar num nível físico acima dos demais.

Reequilíbrio na posse

Foi o melhor momento do Cruzeiro no jogo. Joel combinou bem com Mayke pela direita e criou boas jogadas, ainda que não chegassem a ser ameaças reais ao gol adversário. Só durou cinco minutos, porque Léo Condé respondeu com Ewerton Maradona na vaga de Nadson, mudando para um 4-4-1-1 com Maradona na ligação para Luiz Eduardo. O jogador tinha liberdade para se movimentar pelo campo todo, e entrou para segurar a bola nos pés para diminuir a pressão que o Cruzeiro ensaiava. Deu certo.

Para tentar desequilibrar novamente, Marcelo Oliveira ainda tentou uma última cartada, lançando Riascos no lugar de Damião. O colombiano entrou inicialmente como centroavante móvel, mas depois revezou pela direita com Joel. A troca deu mais fôlego ao time, que voltou a ter mais posse de bola (terminaria com 60%), mas novamente sem criatividade como no primeiro tempo. A equipe tinha mais movimentação, mas não conseguiu quebrar as duas linhas de quatro da Caldense, que se contentou em absorver as investidas celestes e tentar estocadas pela esquerda com Maradona e Zambi.

Fim do jogo: Cruzeiro buscando o gol da vitória sem sucesso diante de uma Caldense taticamente perfeita num 4-4-1-1 reativo

Fim do jogo: Cruzeiro buscando o gol da vitória sem sucesso diante de uma Caldense taticamente perfeita num 4-4-1-1 reativo

Mantendo o foco no que importa

É claro que é preciso ter paciência, o time ainda está em formação. Mas o próprio Marcelo Oliveira admitiu na coletiva pós-jogo que esperava mais, mesmo considerando que a Caldense fez uma ótima partida em termos táticos. O time veio evoluindo, ainda que desfigurado, nos amistosos e na estreia do Mineiro. Mas de Valadares para hoje, não houve melhora.

Entretanto, nem tudo foi ruim hoje. Mena entrou bem na defesa, mas precisa melhorar o apoio, o que também passa pela questão do entrosamento. Damião fez mais um bom jogo taticamente, saindo da área e abrindo espaços para companheiros, e contribuindo com mais uma assistência. Joel está mostrando muito mais do que o esperado, e se continuar assim deve ser titular em breve.

Até a estreia na Libertadores, no dia 25, ainda serão duas semanas e meia para treinar e entrosar o time. Os jogos no Mineiro devem servir para isso. Porém, até mesmo alguns jogos da 1ª fase da própria Libertadores serão importantes nesse sentido, pois o principal é o time estar competitivo e entrosado até o início de maio, quando começam as oitavas da competição sul-americana e o Brasileirão.

Assim, torçamos para que a pressão por resultados no Mineiro não atrapalhe a formação da equipe. Não é melhor ter o time encaixado e voando nas fases decisivas das competições mais importantes do que vencer o campeonato estadual apenas por vencer.



Democrata 1 x 2 Cruzeiro – Cedo demais

Enfim 2015 começou. Mas não da forma como gostaríamos, apesar dos três pontos em Governador Valadares contra o Democrata. Isso porque o Cruzeiro foi obrigado a estrear oficialmente na temporada sem ter todos seus jogadores à disposição. Alguns sem condições burocráticas, outros sem condições físicas.

Considerando estas ausências e o gramado ruim, o Cruzeiro até que se portou bem. Foi dominado no início até sofrer o gol, muito pela superioridade física do adversário, que começou a pré-temporada antes. Depois, sofreu com a falta de criatividade no meio-campo para furar a boa marcação. Porém, com o cansaço do Democrata e as trocas de Marcelo Oliveira, conseguiu superar essa deficiência na articulação e conseguir a virada.

Escretes iniciais

No início, o "novo velho" 4-2-3-1 do Cruzeiro diante de um 3-4-1-2 intenso do Democrata; meias tentavam buscar jogo sem sucesso e alas valadarenses pressionando a saída celeste

No início, o “novo velho” 4-2-3-1 do Cruzeiro diante de um 3-4-1-2 intenso do Democrata; meias tentavam buscar jogo sem sucesso e alas valadarenses pressionando a saída celeste

Marcelo Oliveira mandou a campo a formação já esperada pelos treinos, o mesmo 4-2-3-1 do ano passado, embora com características diferentes. A linha defensiva do goleiro Fábio teve Mayke e Gilson nas laterais, com Léo e Bruno Rodrigo no miolo. Mais à frente, Eurico teve a chance de mostrar serviço, liberando um pouco mais Henrique para se aproximar da linha de três, composta por Marquinhos à direita, Judivan por dentro e Willian à esquerda, com Damião na referência.

Já o Democrata foi armado por Gilmar Estevam num 3-4-1-2 que variava para um 3-5-2 sem a bola. O gol de Fábio Noronha foi protegido por um trio de defensores: Ricardo Duarte à direita, Rodrigo Lima centralizado e Jadson pela esquerda. Com isso, os ala direito Osvaldir e o esquerdo Denilson ficavam mais altos, na segunda linha, que tinha ainda os volantes Júlio César e Marcel. Mais à frente, um trio de atacantes, mas com Paulinho fazendo a ligação para João Paulo e Rodrigão.

Intensidade, a palavra da moda

Antes do jogo, Gilmar Estevam declarou que a diferença de condicionamento físico entre os dois times talvez fosse um fator. E logo que o jogo começou, isso ficou claro: os jogadores valadarenses se movimentavam muito para fugir da marcação da defesa celeste, e quando perdiam a bola, pressionavam para tentar forçar o chutão.

O resultado foi que o Democrata ficava muito mais com a bola no campo de ataque, rodando perigosamente a área celeste. E numa dessas, numa bola que parecia inocente pelo lado esquerdo da defesa, Osvaldir aproveitou que os marcadores do Cruzeiro estavam mais distantes e arriscou um cruzamento dali mesmo, da intermediária. Achou Rodrigão na área, que pegou de primeira com rara felicidade.

Posse estéril

Depois do gol, o Democrata arrefeceu um pouco a marcação no campo de ataque, dando o primeiro combate somente a partir da linha do meio-campo. Paulinho afundava entre os volantes, fazendo ter um jogador para cada um dos três meias do Cruzeiro, e assim os alas tinham liberdade para pressionar os laterais Mayke e Gilson. Os dois atacantes marcavam os volantes e deixavam os zagueiros do Cruzeiro livres.

Mas eles não tinham pra quem passar a bola. Eurico e Henrique conseguiam aparecer pra receber, mas logo devolviam porque também não tinham alvos. Judivan e Marquinhos começaram a recuar para tentar armar de trás, mas não tem essa característica. Em suma, faltou ao Cruzeiro no primeiro tempo fazer a ligação entre a defesa e o ataque com qualidade, seja com um meia articulador (como Éverton Ribeiro era) ou com mais movimentação.

Segundo tempo

Marcelo Oliveira resolveu dar mais tempo ao onze inicial e não fez alterações no intervalo. O segundo tempo começou como terminou o primeiro: Cruzeiro com a bola nos pés mas sem contundência, e o Democrata parecia satisfeito em apenas conter as investidas celestes. Quinze minutos se passaram até que Marcelo mudou o sistema: trocou Eurico por Joel, que foi jogar por dentro; colocou Marquinhos ao seu lado e abriu Judivan à direita. Henrique agora ficava entre duas linhas de quatro: 4-1-4-1.

Flagrante do 4-1-4-1 do Cruzeiro, com Henrique entre as duas linhas de quatro

A troca funcionou até certo ponto, até mesmo porque o Democrata já não aplicava a mesma intensidade na marcação que no primeiro tempo. Mas a nova formação também obrigava os alas valadarenses a marcarem os ponteiros celestes, já que o Cruzeiro agora não tinha mais inferioridade numérica no meio. Os espaços apareceram, também porque Joel deu certa intensidade na posse de bola, mas ainda faltava aquele toque de qualidade para deixar o companheiro na cara do gol.

Empate, recomposição e fluidez

Marcelo ainda lançou Neilton como ponteiro direito na vaga de Judivan, invertendo Willian de lado. O jovem deu ainda mais intensidade, mas continuava faltando criatividade. Gilmar Estevam respondeu com o veloz Leandro na vaga de Paulinho, numa tentativa de explorar os contra-ataques. Mas o jogo não mudou de figura.

O treinador do Cruzeiro já preparava a última substituição, que seria a entrada de Marcos Vinicius, jovem meia recém-promovido da base, mas que nunca tinha treinado sequer no time reserva. Mas mudou os planos após o gol de empate de Henrique, após Damião dar uma casquinha no escanteio cobrado por Willian. Bruno Edgar foi o escolhido, entrando na vaga de Marquinhos e recompondo o 4-2-3-1, mas desta vez com Henrique como primeiro homem de meio, como em 2014. Joel passou a jogar centralizado, Neilton na direita e Willian na esquerda.

Após o empate, o Cruzeiro se reestruturou no 4-2-3-1, e depois da virada, Joel passou para o lado pois tinha mais fôlego que Willian pra acompanhar o ala Douglas

Após o empate, o Cruzeiro se reestruturou no 4-2-3-1, e depois da virada, Joel passou para o lado pois tinha mais fôlego que Willian pra acompanhar o ala Douglas

Bruno conseguiu dar uma fluidez melhor ao meio-campo, e apenas quatro minutos depois do empate, Neilton partiu com a bola dominada, achou espaço e tentou lançar Damião, mas a bola foi desviada e acabou nos pés de Joel. O camaronês viu a movimentação de Willian às suas costas e tabelou com ele, recebendo de volta já dentro da área. A conclusão de pé esquerdo foi indefensável, e a virada tinha chegado.

Com a virada, o Democrata se lançou desesperadamente ao ataque, mas de maneira desorganizada. Perto do fim, Willian se cansou e foi para o centro, deixando Joel na esquerda para marcar o ala Douglas, que havia entrado no lugar de Osvaldir. Diante do 4-2-3-1 bem postado do Cruzeiro, o time da casa não conseguiu mais ameaçar a meta de Fábio.

Devagar com o andor

Infelizmente, ainda não se pode tirar muitas conclusões a respeito desse novo Cruzeiro. Além do gramado ruim, o forte calor e o condicionamento físico ainda não ideal, o Cruzeiro jogou em Valadares com um time misto. Sim, porque vários contratados ainda não estavam regularizados e não poderiam estrear, outros jogadores foram poupados e outros lesionados. Podemos dizer, portanto, que era uma equipe desfalcada.

Isso tudo dificulta fazer uma projeção de como o time pode jogar em 2015. Talvez as únicas conclusões que podem ser tiradas, e ainda assim sem muita convicção, são que Marcelo Oliveira pretende manter o 4-2-3-1 como sistema base, e que Henrique passará a ser o volante que sai mais para o jogo, tentando emular o papel de Lucas Silva no ano passado.

Há outras coisas que podemos inferir pelos treinamentos e amistosos, como as tentativas com Joel e Judivan como meias centrais. Mas o próprio Marcelo Oliveira já parece ter abandonado a ideia de colocar Judivan na posição, pois em entrevista recente disse achar que Judivan rende mais pelo lado. Sinal de que o treinador ainda está experimentando.

Por isso, é preciso ter paciência, sem pressão por resultados. O importante é formar o time, encaixar as características. Felizmente, porém, em Valadares o resultado veio. E isso dá confiança, que também é muito importante.



2015: Feliz Cruzeiro Novo

Enfim, 2015 começa no aqui no Blog Constelações. E como nos dois últimos anos, na transição entre janeiro e fevereiro: quando o grupo já está normalmente definido, às vésperas do primeiro jogo oficial no ano.

Mas, diferente de 2013 e 2014, o elenco do Cruzeiro aparentemente ainda não está fechado. Isso porque a espinha dorsal do time foi desfeita em janeiro, com as saídas de Lucas Silva, Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Marcelo Moreno, dando pouco tempo à diretoria para ir ao mercado contratar reposições — um processo que ainda está em curso.

Ainda assim, a reposição nas mesmas características é difícil. Lucas Silva é um meio-campista completo, marca e joga. Não foi à toda que o Real Madrid insistiu tanto. Goulart é um meia atacante de força física, que jogava como central mas encostava no centroavante, entrando na área. E Ribeiro um ponteiro passador, tomando uma terminologia do voleibol emprestada: saía da direita para a articular no centro.

Mudança de porte

O elenco do Cruzeiro de 2015 até aqui: jogadores que podem fazer mais de uma função, um zagueiro ainda por chegar e um perfil diferente

O elenco do Cruzeiro de 2015 até aqui: jogadores que podem fazer mais de uma função, um zagueiro ainda por chegar e um perfil diferente

Por isso tudo, um novo Cruzeiro surgirá adiante. Chegaram Fabiano, Joel, Gilson, Seymour e Damião em dezembro (leia aqui sobre estes reforços) e em janeiro vieram Riascos, Arrascaeta, Mena, Pará e, provavelmente, Willians. Jogadores que indicam uma mudança no perfil de jogo do Cruzeiro.

Se em 2013 e 2014 o Cruzeiro privilegiou o jogo propositivo, posse de bola e pressão alta, com muita intensidade no ataque e na recomposição, em 2015 é muito provável que o Cruzeiro seja um time mais consistente e com mais estrutura, que ceda menos espaços atrás e seja difícil de bater. Mas isso ao custo de ficar um pouco mais recuado, sem pressionar tanto no alto do campo para forçar o chutão do adversário e a recuperação na bola longa.

“Libertadores é raça”: uma lenda

Muitos dirão que esse é um perfil melhor para disputar a Libertadores, que exige times “raçudos” e físicos. Particularmente, acredito que isso seja uma grande lenda: o Flamengo venceu em 1981 com um time bem técnico; o Corinthians em 2012 com uma postura tática muito disciplinada, sofrendo apenas 3 gols em todo o torneio; o próprio San Lorenzo no ano passado não era um time que tinha jogadores especialmente físicos.

Porém, em recentes entrevistas, Marcelo Oliveira dá a entender de que acredita nessa teoria. Tanto é que usou jogadores mais pesados em alguns jogos já no ano passado, como a dupla de volantes Nilton e Rodrigo Souza no jogo contra o Defensor no Uruguai. Não deu muito certo. Depois, em algumas partidas, Ricardo Goulart foi preterido para que Júlio Baptista entrasse no time.

Assim, é provável que, pelo menos na competição continental, vejamos um Cruzeiro mais consistente, estruturado e que sofra menos gols, porém mais reativo, ficando menos com a bola. Não chega a ser um risco porque ainda há opções no banco para mudar o perfil na mesma partida.

Profundidade de elenco

Um outro aspecto interessante de se notar é que Marcelo aprendeu com os problemas que teve no ano passado. Em um dado momento, o Cruzeiro ficou sem um jogador típico para jogar como central no 4-2-3-1, chegando ao ponto de mudar para um 4-1-4-1 com Nilton entre as linhas no jogo contra o Flamengo no Maracanã. Em outro momento, teve Samudio e Egídio lesionados ao mesmo tempo, o que levou o treinador a improvisar Willian Farias e Alex na lateral esquerda, e depois revezar os naturais da função mesmo sem estarem 100% fisicamente.

Para resolver isso, Marcelo vai usar três laterais para cada lado, um a mais que no ano passado. Fabiano se junta a Mayke e Ceará pela direita, e com a chegada de Mena e Pará, Breno e Gilson passam a ter mais concorrência. Porém, a tendência é que um dos dois seja emprestado ou Gilson seja usado apenas mais à frente, como ponteiro esquerdo.

Já para a posição de central, o técnico do Cruzeiro está testando várias opções. Nos dois amistosos de janeiro, passaram pela função Júlio Baptista, Joel, Neilton e Judivan. Além disso, Arrascaeta poderá jogar na posição, que ainda contaria com Tinga e até mesmo Riascos. É claro, são jogadores diferentes: presença física, velocidade, técnica, marcação, mobilidade. Exerceriam FUNÇÕES diferentes, mas sempre jogando por dentro do trio de meias no 4-2-3-1.

Nem pior nem melhor: diferente

Com tantas mudanças, é muito difícil imaginar até onde esse Cruzeiro 2015 pode chegar. A temporada é longa e muita coisa pode mudar: os garotos da base podem atropelar e ganhar a titularidade (aposto particularmente em Judivan e Bruno Edgar), outros jogadores podem chegar na janela de inverno (como Dedé em 2013 e Marquinhos e Manoel em 2014) e vários outros aspectos.

Mas mesmo com este elenco inicial e ainda indefinido, ainda não digo que é um time pior do que nas duas últimas temporadas. Muita gente afirmaria isso sem hesitar, e é compreensível: o Cruzeiro 2013/14 já entrou para a história, não só pelas conquistas como também pelo estilo de jogo. Talvez este de 2015 também o faça, seja conquistando a América mais uma vez, e quem sabe o Mundo, ou o Brasil pela terceira vez seguida. Ou tudo isso junto. Por que não?

Enfim, é um novo Cruzeiro, com novas caras. Uma transição que aconteceu em várias outras temporadas. E mesmo assim o Cruzeiro nunca deixou de ser grande e temido. Apenas diferente.



Santos 0 x 1 Cruzeiro – O resultado é mais importante que o futebol

Fica até chato para o leitor eu ficar repetindo sempre a mesma coisa quando o Constelações fica sem atualizações por um período. Por isso, hoje vou dar uma justificativa diferente. Como sabem, não sou jornalista e não tenho pretensão de ser, porque não quero nem tentar ser imparcial. Eu sou torcedor, e só tenho olhos para o meu time. Só vejo outras equipes quando elas estão no mesmo gramado que o Cruzeiro.

Acontece que sou um torcedor que é empolgado com análise tática. É a razão de ser do Constelações: um blog de tática com foco exclusivo no Cruzeiro. E para as análises saírem com uma qualidade minimamente razoável, é preciso ter um pouco de cabeça fria e calma para observar os movimentos dos jogadores. Porém, a emoção que as partidas celestes tem proporcionado neste fim de campeonato dificulta muito esse aspecto.

Portanto, além de ter pouco tempo para escrever as análises e não ganhar nada com isso, preferi não escrever textos sobre jogos em que a torcida pela vitória celeste prejudicou as observações em campo. Qualidade é melhor do que quantidade, é o que dizem.

Isto posto, voltemos à programação normal.

Onze inicial

No 1º tempo, os dois times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem intensidade e se movimentando pouco, e Santos levando vantagem com Robinho puxando a marcação para as infiltrações de Gabriel

No 1º tempo, os dois times no 4-2-3-1: Cruzeiro sem intensidade e se movimentando pouco, e Santos levando vantagem com Robinho puxando a marcação para as infiltrações de Gabriel

Mesmo após desgastantes jogos contra o próprio Santos, Criciúma, Atlético/MG e Botafogo, Marcelo Oliveira não tem alternativas senão escalar o que tinha de melhor. Porém, resolveu poupar Henrique e Lucas Silva, que começaram no banco. Assim, o 4-2-3-1 celeste teve Fábio no gol; Ceará na lateral direita, Manoel e Bruno Rodrigo na zaga e Samudio na esquerda. Nilton foi o escolhido para a parceria com Lucas Silva, no suporte a Willian na direita, Ricardo Goulart por dentro e Marquinhos à esquerda, com Marcelo Moreno na referência do ataque.

Enderson Moreira escalou o Santos da mesma forma que no jogo de volta pela semifinal da Copa do Brasil: um 4-2-3-1 com Robinho na referência móvel do ataque. O goleiro Aranha teve sua desfalcada linha defensiva composta por Cicinho à direita e o jovem Caju à esquerda, com Neto e Bruno Uvini na zaga central. Sem Arouca, Renato foi o volante mais adiantado à frente de Alison, dando suporte à criação centralizada de Lucas Lima. E saindo das pontas para ocupar o espaço deixado por Robinho, Gabriel e Rildo.

Só uma das quatro

Se você lê o blog, sabe que o jogo celeste é baseado inteiramente em intensidade nas quatro fases do jogo: a posse de bola, a recomposição defensiva, a posse do adversário e a transição ofensiva, mais conhecida como contra-ataque. Porém, o que houve no primeiro tempo foi que o Cruzeiro simplesmente não aplicou a intensidade que lhe é característica em nenhuma dessas fases.

Quando tinha a bola, o Cruzeiro não se movimentava muito, e com isso não embaralhava a marcação postada do Santos de forma a explorar os espaços eventualmente abertos. Assim, tentava passes mais difíceis que o habitual e cedia a bola com facilidade. Nesse momento, o Santos sempre tentava sair com velocidade, principalmente com Robinho vindo buscar o primeiro passe, puxando a marcação de um dos zagueiros. O camisa 7 se livrava facilmente da pressão e encaixava o passe para a infiltração dos ponteiros Gabriel e Rildo. Ceará até que conseguiu impedir Rildo pela direita, mas Gabriel levou muita vantagem sobre Samudio, e o paraguaio teve dificuldades.

Foi assim que nasceu o lance mais perigoso do primeiro tempo: Robinho recebeu na linha do meio-campo, arrastando Bruno Rodrigo consigo, girou e deu o passe profundo para Gabriel, que foi exatamente para o espaço que Robinho deveria estar, ficando cara a cara com Fábio. Mas nosso goleiro cresceu pra cima do garoto, fechando o ângulo sem cair na primeira, dando o tempo necessário para Manoel se recuperar e atrapalhar a finalização.

Somente na fase defensiva o Cruzeiro tinha algum equilíbrio, porque apesar da movimentação do Santos ser maior, o Cruzeiro abriu tantos espaços ao time paulista. E quando roubava a bola, a velocidade da transição não era suficiente para pegar a defesa adversária desmontada. O resultado foi claro: apesar da ligeira superioridade do time da casa, nenhum chute foi na direção do gol na primeira etapa.

Mesmo com o leve domínio do Santos, todas as tentativas de gol no primeiro tempo foram pra fora ou bloqueadas pela defesa: goleiros sem tanto trabalho

Mesmo com o leve domínio do Santos, todas as tentativas de gol no primeiro tempo foram pra fora ou bloqueadas pela defesa: goleiros sem tanto trabalho

Segundo tempo

Já no intervalo, Marcelo cobrou duramente os jogadores, como revelado após a partida. Mas além disso, tirou Lucas Silva, mal na marcação de Renato no primeiro tempo, e lançou mão de Henrique. O sistema não se alterou, mas a ocupação dos espaços e a pegada no meio-campo sim. Com pernas frescas, já sem tanto sol e com o time do Santos também já mais cansado, Henrique tomou conta do setor central e reequilibrou o jogo para o Cruzeiro.

E bastaram 7 minutos para que a diferença entre os dois times aparecesse, em linda jogada de muita inteligência tática do sistema ofensivo celeste. Goulart viu Moreno recuar puxar a marcação e fazer a parede, dando oportunidade para a tabela e ao mesmo tempo abrindo espaço para Willian no centro da área. O bigode foi até lá e recebeu o segundo passe de Goulart, que fez a volta na marcação para receber de volta e chutar de canhota fora do alcance de Aranha.

A vantagem no placar fez o Cruzeiro melhorar ainda mais no jogo. Isso porque o desgaste da temporada não é apenas físico e também mental, e a vantagem no placar dá uma tranquilidade, aliviando a pressão pelo resultado.

Trocas

No fim, Cruzeiro se postou num 4-1-4-1 para proteger o resultado, mas nem havia tanta necessidade; Santos teve problemas de marcação do lado esquerdo e Éverton Ribeiro aproveitou

No fim, Cruzeiro se postou num 4-1-4-1 para proteger o resultado, mas nem havia tanta necessidade; Santos teve problemas de marcação do lado esquerdo e Éverton Ribeiro aproveitou

Pouco depois do gol, Enderson pôs Thiago Ribeiro no lugar de Rildo. A tentativa era de dar mais contundência ao ataque, mas o problema estava em outro lugar do campo e o tiro saiu pela culatra: Thiago não fazia tão bem o trabalho de recomposição pela esquerda e expôs o garoto Caju às investidas de Willian. Tentou corrigir colocando outro jovem, Zeca, na vaga de Caju, mas o problema continuou.

Marcelo Oliveira, observando a vantagem no setor, aproveitou para poupar Willian e lançar Éverton Ribeiro na sua posição característica, partindo do lado direito. E o camisa 17 aproveitou o espaço, dando ótimos passes. Enderson deu uma última cartada com Jorge Eduardo no lugar de Gabriel, mas o substituto nada produziu. Marcelo então protegeu o resultado com Willian Farias no lugar de Goulart, formando o 4-1-4-1 usado no fim dos jogos para tal fim. O volante ainda teria a chance de matar o jogo após receber passe magistral de Éverton Ribeiro, de calcanhar, ficando no mano contra Aranha, mas mandou o chute no travessão.

Jogo atípico, resultado excelente

Não foi um jogo normal do Cruzeiro. Afinal, neste fim de temporada, é difícil manter o ritmo intenso durante as partidas que encantou o Brasil no primeiro turno do Brasileirão. Porém, aqui o mais importante era o resultado. Isso pode parecer incoerente com o que eu disse quando do empate com o Botafogo no primeiro turno, por exemplo (o título dessa coluna é o inverso daquela). Mas naquele tempo ainda havia muitos jogos e, a longo prazo, jogar bem significava um número maior de vitórias. Agora, não há mais longo prazo: o fim da temporada está logo ali. Os resultados, nesse momento, são mais importantes.

Melhor que tenha sido assim, portanto: uma vitória sem ter que aplicar a intensidade necessária para furar as retrancas do Mineirão. De certa forma, até se pode dizer que o Cruzeiro venceu sem se desgastar tanto.

Isso aumenta um pouco as chances de fazer mais um bom resultado no difícil confronto com o Grêmio em Porto Alegre. O time gaúcho vem ganhando confiança e será um adversário duríssimo. Porém, o estilo de jogo do Grêmio pode favorecer o Cruzeiro, já que eles preferem marcar forte e sair para o jogo em velocidade pelas pontas, e dificilmente vão tomar a iniciativa do jogo e botar pressão ofensiva. Assim, a chance de um empate sem gols é grande.

Se tudo der certo, estarei no Mineirão no domingo para ver o Cruzeiro erguer o caneco. Fé!



Cruzeiro 1 x 0 Santos – Retomadas

Voltar a vencer após uma sequência ruim de resultados foi importante. Não sofrer gols em casa na Copa do Brasil, ainda mais. Mas o primordial foi retomar o velho estilo, ainda que por pouco tempo, para mandar um recado a todos os outros times do país, para a própria torcida a para si mesmo: o Cruzeiro ainda sabe ser Cruzeiro, e deve ser temido.

O desgaste físico é inegável, mas enquanto teve pernas, o Cruzeiro foi infinitamente superior ao Santos, tanto com a bola quanto sem ela, e construiu o resultado nesse período. Depois, quando foi obrigado a “descansar”, controlou o jogo, perdeu o controle e o retomou novamente, e ainda foi prejudicado pela arbitragem — elementos que certamente veremos nas últimas partidas do ano.

Escretes

As duas equipes entraram no 4-2-3-1; Cruzeiro muito mais intenso, com movimentação do quarteto ofensivo e Mayke sem ser perseguido por Robinho

As duas equipes entraram no 4-2-3-1; Cruzeiro muito mais intenso, com movimentação do quarteto ofensivo e Mayke sem ser perseguido por Robinho

Marcelo Oliveira mandou o costumeiro 4-2-3-1 a campo, mesmo sem ter Marcelo Moreno 100% fisicamente. Júlio Baptista foi o escolhido para ficar à frente do trio de meias, formado por Éverton Ribeiro à direita, Ricardo Goulart centralizado e Willian à esquerda. No suporte, a dupla dinâmica Henrique e Lucas Silva, e protegendo o goleiro Fábio, a última linha tinha Mayke à direita, Egídio à esquerda, e Dedé e Léo no miolo.

O Santos de Enderson Moreira também entrou num 4-2-3-1. O goleiro Aranha teve Cicinho na lateral direita, Edu Dracena e David Braz pelo meio e Mena aberto à esquerda. Mais à frente, Alisson ficava mais plantado liberando Arouca, que se juntava ao trio formado por Rildo à direita, Lucas Lima como central e Robinho pelo lado esquerdo, com Gabriel sendo o homem mais avançado.

Cruzeiro sendo Cruzeiro

O temor era que Júlio Baptista, sem ritmo, quebrasse um pouco a intensidade que o Cruzeiro sempre aplica no início das partidas, mas isso não aconteceu (muito). A movimentação e troca de posições que Willian, Ribeiro e Goulart impunham desorganizava a marcação santista, com o maior exemplo sendo o lance do gol. Naquele momento, Willian estava à direita, Ribeiro estava do outro lado e Júlio era o meia central, com Goulart sendo o centroavante. Tudo invertido.

A bola saiu da esquerda para Júlio, e de Júlio foi a Willian, totalmente livre do lado direito. O bigode chutou, a bola voltou e em um lance técnico maravilhoso, bateu com o lado do pé esquerdo, que não é o bom, aplicando uma curva de fora pra dentro que saiu totalmente do alcance de Aranha e fazendo a bola bater na bochecha da rede. Golaço.

Ponteiros x laterais

Além da movimentação ofensiva, havia outro fato que causava o grande domínio de posse de bola e territorial do Cruzeiro: a passagem dos laterais. Se pelo lado esquerdo Rildo tentava voltar com Egídio até a própria linha de fundo — e mesmo assim perdendo o duelo, do outro lado Robinho não fazia o mesmo com Mayke. Mena teve problemas em lidar com o jovem lateral e o ponteiro que caía por ali.

No meio do primeiro tempo, Enderson inverteu os lados para fazer Robinho ficar em Egídio e Rildo acompanhar Mayke, uma medida que teve um certo sucesso — mas num período do jogo em que o Cruzeiro já não estava mais tão intenso, como explicado nos parágrafos abaixo.

Pressão alta

Além disso, o Cruzeiro não era intenso só na movimentação ofensiva. Quando o ataque não se completava, o Cruzeiro sufocava a saída do Santos, sem deixar os jogadores respirarem. Lucas Silva e Henrique marcavam na intermediária de ataque; o ponteiro do lado da bola e o meia central faziam pressão no homem da bola e o ponteiro oposto fechava para o centro para recuperar um possível rebote, e o centroavante fechava as linhas de passe para os zagueiros e goleiros. Uma coordenação de time bem treinado, e que gerou muitas roubadas de bola já no campo de ataque.

Esse é o estilo deste Cruzeiro. Porém, toda essa intensidade vem sendo usada há dois anos. Nenhum time consegue aplicar essa velocidade defensiva e ofensiva durante os 90 minutos, que dirá durante duas temporadas inteiras. E agora, no fim da temporada, os jogadores estão cansando e naturalmente tendo que dosar. Após o gol, o time começou a preferir esperar o Santos já a partir da linha de meio-campo.

Mas não tive certeza quanto ao motivo: seria cansaço ou estratégia, uma vez que o placar era favorável? Ou ainda, seria o Santos que conseguiu concatenar mais passes? As duas primeiras opções me parecem mais prováveis, e foi assim que acabou o primeiro tempo: com o Cruzeiro “descansando” com a bola e às vezes sem ela, mas controlando o jogo. Fábio sequer sujou o uniforme.

Após o intervalo

Diferente do que alguns analistas da mídia disseram, o segundo tempo começou igual ao primeiro. Nada havia mudado: a vantagem no placar permitia ao Cruzeiro se posicionar mais pragmaticamente, fechando os espaços em seu próprio campo. Isso obrigava os zagueiros do Santos a trocarem passes entre si, sem encaixar uma bola mais aguda. E mesmo quando isso acontecia, o recebedor do passe imediatamente recebia pressão e era obrigado a voltar a bola para a última linha.

Numa dessas ocasiões, Willian subiu o bote em David Braz e roubou a bola, partindo num contra-ataque de três contra dois. Edu Dracena correu de costas até a grande área, e quando parou para dar o bote, Willian passou a Júlio na esquerda. O meia bateu para rebote de Aranha que Goulart completou para as redes. Mas o gol, bem construído, foi mal anulado pelo bandeira, que deu impedimento de Júlio no primeiro lance.

Perigo de gol

O segundo gol sem dúvida teria um impacto psicológico e na estratégia de ambos os times. O Cruzeiro passaria a proteger o resultado com mais calma, e o Santos tentaria se expor um pouco mais para tentar marcar ao menos um gol fora de casa, devido à abominável regra do gol qualificado. O gol anulado manteve as coisas como estavam, o que acabou sendo pior para o Cruzeiro no decorrer do segundo tempo.

Já sem muito vigor físico, o Cruzeiro começou a ceder espaços importantes no meio-campo ofensivo. Arouca começou a se sentir à vontade para se juntar à construção, e não era marcado por nenhum dos meias celeste. Além disso, Lucas Lima começou a voltar para pegar a bola nos pés dos zagueiros — um movimento que Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart repetem constantemente no Cruzeiro — e também não era perseguido. Com liberdade, o meia começou a encaixar passes nas costas dos laterais para os ponteiros, que geraram lances muito perigosos. Só não aconteceu o gol porque os jogadores santistas finalizaram muito mal.

Trocas

Com o Cruzeiro já cansado e mais espaçado em campo, Lucas Lima e Arouca tentaram aproveitar os buracos da marcação, mas a entrada de Damião travou o time, e a partir daí o Cruzeiro controlou melhor a posse com Goulart mais fixo na faixa central tendo Moreno à sua frente

Com o Cruzeiro já cansado e mais espaçado em campo, Lucas Lima e Arouca tentaram aproveitar os buracos da marcação, mas a entrada de Damião travou o time, e a partir daí o Cruzeiro controlou melhor a posse com Goulart mais fixo na faixa central tendo Moreno à sua frente

Marcelo foi obrigado a lançar Dagoberto na vaga de Willian, que havia sofrido uma fratura na costela ainda no primeiro tempo e continuou jogando por mais um tempo. Dagoberto entrou inicialmente pelo lado direito, invertido com Éverton Ribeiro, mas logo isso se desfez. Já Enderson Moreira trocou o opaco Gabriel por Serginho. Com isso, Robinho passou ao centro do ataque e Serginho passou ao lado esquerdo.

O jogo não mudou muito, com o Santos ainda com mais posse de bola. Visando uma melhor recomposição e também numa tentativa de colocar sangue novo na sua equipe, Marcelo Oliveira colocou Marlone na vaga de Éverton Ribeiro. Dessa vez, Marlone jogou na sua posição “original”, que é o lado do campo. Se ofensivamente não contribuiu para equilibrar a posse de bola, taticamente foi importante para fechar os espaços a Mena pelo lado esquerdo.

Centroavantes

Por fim, Júlio Baptista, ainda sem ritmo, não aguentou os 90 minutos e Marcelo Moreno entrou em seu lugar. Mais fixo à frente, Moreno fazia com que Ricardo Goulart ficasse mais fixo como meia central, passando a organizar melhor o ataque celeste. Enderson respondeu com Jorge Eduardo na vaga do Rildo e também com Leandro Damião na vaga de Robinho, mas as trocas não deram certo, pois Damião travou o time e facilitou a marcação da defesa celeste.

As duas coisas somadas — Goulart fixo como meia central e Damião fixo como centroavante — acabaram por reequilibrar a posse de bola e a disputa no meio-campo. Com ambas as equipes cansadas e taticamente iguais, a melhor técnica dos jogadores celestes começou a aparecer e o Cruzeiro ainda criaria boas chances de aumentar, principalmente em cruzamentos de Mayke pela direita, mas o placar permaneceu inalterado.

Chover no molhado

O jogo foi importante para reafirmar, não só para todo o Brasil como também para si mesmo, que o Cruzeiro ainda é o melhor time do país. E foi isso o que Marcelo Oliveira e seus comandados buscaram na primeira meia hora de jogo: amassando o Santos, o Cruzeiro foi muito superior e teve azar nas finalizações. Mas o fim de temporada cobrou seu preço, e já no primeiro tempo o Cruzeiro teve que dosar o ritmo.

E é isso que devemos esperar para todos os jogos até o fim do ano. Dificilmente o Cruzeiro jogará com a intensidade que lhe é característica durante mais de 30 minutos por jogo, e em alguns casos não vai fazer isso em nenhum momento das partidas. Em 2014, o Cruzeiro já fez 3 partidas a mais que em 2013, e não há como negar que isso tem um impacto.

Sim, todos os outros times também estão desgastados, mas o estilo de jogo que o Cruzeiro prefere usar faz com que os jogadores se desgastem mais. Então é seguro concluir que isso afeta mais ao Cruzeiro que a outros times. No entanto, agora é a hora de se superar. Apesar do desgaste, falta pouco agora. Longas viagens sempre cansam, mas quando se está perto do destino, sabendo que falta tão pouco, um ânimo surge do nada para que demos um último gás e completemos a jornada.

Dez jogos, talvez menos, para dois títulos. Seguiremos confiantes como nunca.