Criciúma 0 x 0 Cruzeiro – Enfrentando um 3-4-4-1-1

Este é um blog que fala principalmente de tática no futebol, e de vez em quando sobre estatísticas e gráficos também relacionados a futebol. A premissa principal é falar sobre essas coisas e somente sobre essas coisas, apenas dando pinceladas em outros assuntos que são importantes para os dois principais. Entretanto, quando o plano de jogo, a estratégia, a tática e a técnica dão todos certos, mas o resultado não vem assim mesmo, somente duas coisas explicam. Uma é o acaso do futebol, que de fato existe. Outra é a arbitragem.

Assim como o placar verdadeiro da partida foi 2×0, com gols de Marquinhos e Willian, o título deste texto é uma referência ao sistema tático “real” da equipe catarinense. Ora, isso dá mais de dez jogadores de linha, mas quando se consegue passar da defesa e do goleiro, aí foi preciso vencer outro trio: o de apitadores. E dessa vez o Cruzeiro não conseguiu vencer essa última “linha defensiva”.

Escalações

Criciúma no 4-4-1-1: volantes Serginho e Martinez causavam tripla marcação no lado da jogada e Paulo Baier ocupava o volante, forçando o passe de retorno aos zagueiros do 4-2-3-1 cruzeirense

Criciúma no 4-4-1-1: volantes Serginho e Martinez causavam tripla marcação no lado da jogada e Paulo Baier ocupava o volante, forçando o passe de retorno aos zagueiros do 4-2-3-1 cruzeirense

Sem Henrique, suspenso e lesionado, Nilton voltou à volância ao lado de Lucas Silva, reeditando a parceria que deu muito certo no ano passado. O goleiro Fábio ainda foi protegido pela sua linha defensiva, ainda com Mayke à direita, e também com Egídio na esquerda, e Dedé e Léo na zaga central. Mais à frente, Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Marquinhos articulavam coletivamente com a ajuda de Marcelo Moreno na referência: o 4-2-3-1 imutável de Marcelo Oliveira.

O técnico do Criciúma, Wagner Lopes, sabia do poder de criação celeste e articulou seu time num 4-4-1-1 com muita movimentação defensiva, sempre para ter superioridade numérica no seu campo. A última linha de proteção da meta de Luís tinha Eduardo à direita, Fábio Ferreira e Gualberto centralizados e Giovanni à esquerda; e a segunda linha tinha João Vitor à direita, os (velhos conhecidos) volantes Serginho e Martinez pelo centro e do lado esquerdo fechava o atacante Silvinho. Tudo para compensar a falta de combatividade do veteraníssimo Paulo Baier, que se limitou a ocupar os volantes junto com o atacante solitário Gustavo.

Sem espaço

O plano de marcação do treinador do Criciúma funcionou bem no primeiro tempo, e consistia de três partes. Primeiro, aproximar as duas linhas, evitando o trânsito entre elas e o espaço — com a diferença de que era a linha média que se aproximava da de defesa, e não o contrário. Ou seja, o Criciúma marcou em bloco médio-baixo. Segundo, pressionar imediatamente o lateral do Cruzeiro que recebesse a bola, subindo o bote dos meias abertos e fazendo a rotação, de forma que o meia aberto do lado oposto fechava no centro. E terceiro, bloquear o passe de retorno para os volantes do Cruzeiro, ocupando-os com Paulo Baier e o atacante Gustavo, para evitar a inversão rápida para o lado fraco da marcação.

Essas medidas forçavam o Cruzeiro a voltar o lance para os pés dos zagueiros Dedé e Léo, que acabaram por ficar encarregados do primeiro passe. Nesse ponto, Henrique fez falta, pois vinha fazendo muito bem esse papel. Além disso, quando o Cruzeiro conseguia engatar os passes mais rapidamente, o movimento lateral dos volantes centrais, Serginho e Martinez, superlotava o lado da jogada, fazendo não dois contra dois mais sim três contra dois e um na sobra: o lateral pegava o ponteiro mais à frente, o ponteiro e o volante pegavam o lateral, que ainda tinham o outro volante na cobertura cercando Ricardo Goulart.

Mapa de passes do 1º tempo ilustra como foi difícil entrar na bem postada defesa catarinense e Criciúma usando muitas bolas longas

Mapa de passes do 1º tempo ilustra como foi difícil entrar na bem postada defesa catarinense e Criciúma usando muitas bolas longas

Mover, mover

A única forma de sair desse ferrolho seria se movimentar. E muito. Os meias do Cruzeiro se movimentaram bem, mas não foi suficiente. E aqui, cabe a cobrança: não adianta culpar o posicionamento adversário pela falta de gols. Cabe ao Cruzeiro, como melhor time do país, encontrar os espaços ou senão criá-los.

Não foi capaz, e o primeiro tempo se esvaiu com apenas três “meias chances” para o Cruzeiro: um contra-ataque desperdiçado em um chute ruim de Marquinhos; um cruzamento de Mayke que Moreno resvalou e achou Goulart, que finalizou duas vezes em cima do goleiro Luís, e a jogada que deveria ter sido gol: em rebote da cobrança de falta de Dedé, Nilton devolve pra área de cabeça e acha Goulart, que divide em lance normal com Fábio Ferreira. Marquinhos completa para o gol e marca, mas o Sr. Jaílson viu um empurrão inexistente de Goulart.

Do outro lado, Fábio devia ter pago ingresso. Pois simplesmente assistiu ao jogo em um lugar privilegiado do estádio Heriberto Hulse.

Fábio foi espectador privilegiado: dos 4 chutes do Criciúma no 1º tempo, nenhum foi na direção certa

Fábio foi espectador privilegiado: dos 4 chutes do Criciúma no 1º tempo, nenhum foi na direção certa

Observação e trocas

A segunda etapa começou sem trocas. Alguns amigos questionaram nas redes sociais, entendendo que Marcelo deveria fazer as trocas já no intervalo. A ideia, no entanto, era observar a postura dos catarinenses no segundo tempo. Caso eles saíssem um pouco mais, abririam mais espaços e o time que iniciou a partida poderia render mais; caso contrário, uma substituição teria que ser feita.

E foi o que aconteceu. No início do segundo tempo, o Criciúma até saiu um pouco mais, mas apenas nas bolas paradas, mandando uma artilharia aérea na área do Cruzeiro para ver o que acontecia. Um futebol ruim, coisa de time sem repertório. A estratégia é válida, mas não é dá preferência deste. O Cruzeiro se viu defendendo mais do que o normal e não conseguia encaixar as sequências de passes. Mas logo o jogo voltou ao modo do primeiro tempo, e Marcelo tomou providências: mandou Willian na vaga de Marquinhos, dando total liberdade para Éverton Ribeiro se mexer por trás do ataque celeste.

A troca teria sido um sucesso se não fosse o árbitro, Sr. Jaílson, ter entrado em ação novamente. Éverton Ribeiro apareceu na esquerda, tabelou com Egídio e aplicou um corte seco no zagueiro, finalizando no ângulo oposto, tirando de Luís. O arqueiro do Criciúma ainda conseguiu encostar na bola, que beijou caprichosamente a trave e voltou nos pés de Moreno, em totais condições. Ele pegou mal o rebote, mas Willian, atrás da linha da bola, completou para as redes. O assistente viu impedimento.

Baier sai, Éverton recua

Cruzeiro antes da última troca: Willian próximo a Goulart e Ribeiro armando de trás, com Mayke pouco acionado pelo lado direito

Cruzeiro antes da última troca: Willian próximo a Goulart e Ribeiro armando de trás, com Mayke pouco acionado pelo lado direito

Wagner Lopes só tinha o contra-ataque como opção. Por isso, Paulo Baier teve que dar seu lugar ao veloz Lucca — aquele mesmo que passou pelo Cruzeiro no início do ano. O jovem foi jogar aberto à direita, centralizando Gustavo de vez. Silvinho manteve-se na esquerda, e estava configurado um 4-3-3, mas com três volantes preenchendo o meio. Isso acabou abrindo um espaço à frente da defesa do Cruzeiro, que era por onde Paulo Baier transitava. Quase que imediatamente, Éverton Ribeiro sentiu o espaço e já começou a buscá-lo, para armar o time de trás. O Cruzeiro passou a dominar a posse de bola ainda mais.

Sentindo o mesmo espaço, Marcelo Oliveira mudou pra vencer: oficializou Éverton Ribeiro como o “Pirlo cruzeirense”, tirando Lucas Silva e lançando Dagoberto no jogo. O camisa 11 foi para sua posição costumeira à esquerda, mas Willian não foi para a direita, ficou mais próximo de Goulart. Em teoria, Mayke teria campo livre para avançar, mas foi pouco acionado. Assim, o Cruzeiro forçou muito pela esquerda.

Wagner Lopes trocou de centroavante, uma troca física, por cansaço. O sistema não foi alterado. Faltando cinco minutos, Marcelo deu sua última cartada: Alisson na vaga de Moreno, mandando Goulart para a área. Agora havia cinco jogadores leves na frente e dois laterais apoiadores. Não se pode ser mais ofensivo do que isto. Porém, como definiu o próprio treinador na coletiva pós-jogo: faltou o “algo mais”, aquele toque final caprichado para chegar ao terceiro gol, que seria o primeiro válido. Infelizmente o zero teimou em permanecer no placar.

Mapa de passes do Cruzeiro no segundo tempo mostra como o time procurou muito mais o lado de Egídio do que o de Mayke

Mapa de passes do Cruzeiro no segundo tempo mostra como o time procurou muito mais o lado de Egídio do que o de Mayke

A oscilação normal e a “forçada”

Oscilar num campeonato tão longo e tão equilibrado é normal. Como dito pelo Marcelo Bechler: no Brasil não há nenhum Bayern. Perder pontos considerados mais fáceis é normal aqui. O próprio Cruzeiro fez isso no ano passado. Porém, encaixou uma sequência de 12 jogos sem perder, sendo 11 vitórias, e isso sim esteve fora da normalidade: o Cruzeiro de 2013 foi espetacular. Uma sequência que começou justamente a partir da 15ª rodada, a próxima do certame atual.

Mas a oscilação “normal” do Cruzeiro terminou no sábado. O time jogou o suficiente para fazer dois gols e voltar do sul com mais três pontos. Mas a arbitragem não deixou. E já são sete pontos pelo caminho: 2 contra o São Paulo (a falta invertida no último lance do jogo que gerou o gol de empate), 3 contra o rival citadino (os pênaltis, o inexistente marcado contra e o claro e cristalino não marcado a favor, além do impedimento ridículo da bandeirinha bonitona) e mais 2 agora.

A atuação foi um pouco abaixo do que a apresentada na última partida, mas mesmo assim foi suficiente pra vencer o Criciúma. Taticamente, não há do que reclamar: Marcelo mexeu bem e nos momentos certos, fez a leitura correta da partida. Se a vitória não veio, foi só por conta dos fatores externos já citados. Se o campeonato já seria mais difícil este ano por que os adversários diretos estão melhores, estes fatores fazem o bi se tornar ainda mais difícil. Ainda mais depois de já ter vencido o certame anterior. E ainda mais por ter nos encalços times que têm força política nos bastidores da entidade que rege o futebol.

Mesmo assim, o Cruzeiro mostrou novamente que tem bola pra vencer os 19 adversários do campo — e também os outros fora dele.



Cruzeiro 5 x 1 U. de Chile – Variar é preciso

Mais do que uma goleada acachapante, a vitória do Cruzeiro sobre a Universidad do Chile, no reencontro do Cruzeiro com o Mineirão em uma Libertadores, fez com que o respeito que a equipe já possuía no Brasil, conquistado com um título inapelável e com futebol ofensivo e agradável — extrapolasse os limites nacionais e ecoasse por toda a América.

O jogo foi um bom resumo do que este Cruzeiro pode fazer nesta temporada, ainda que tenha quesitos a evoluir. Bola aérea forte e bem treinada, intensidade ofensiva e defensiva e — tão importante quanto as outras — variações táticas.

Alinhamentos

Universidad num 3-4-1-2 com compensações nos alas para garantir a sobra frente a quarteto ofensivo do 4-2-3-1 celeste; Goulart escapou de Martinez

Universidad num 3-4-1-2 com compensações nos alas para garantir a sobra frente a quarteto ofensivo do 4-2-3-1 celeste; Goulart escapou de Martinez

O Cruzeiro veio a campo no seu 4-2-3-1 tradicional. O gol do capitão Fábio era protegido pode Dedé e Bruno Rodrigo, com Ceará e Egídio fechando os lados. Mais à frente, Rodrigo Souza ganhou a posição e protegeu a área, liberando Lucas Silva para circular e se juntar ao trio de meias formado por Éverton Ribeiro partindo da direita, Ricardo Goulart como central e Dagoberto na esquerda. Na frente, Marcelo Moreno foi o escolhido.

O time chileno foi para o jogo com um sistema muito fluido, mas que tinha como base um 3-4-1-2. Protegendo a meta de Johnny Herrera, os zagueiros González, Caruzzo e José Rojas, faziam a linha de três, que por vezes tinha a companhia dos alas Cereceda à direita ou Castro pela esquerda. Mais plantado, o volante Martínez ficava mais centralizado e liberava Rodrigo Rojas para marcar um pouco mais à frente, alinhado a Lorenzetti, o meia de ligação. Na frente, Rubio e Gutiérrez.

Encaixe

A movimentação do volante Rodrigo Rojas pelo meio por vezes configurava a Universidade num 3-1-4-2, que seria um sistema espelhado do 4-2-3-1, pois o posicionamento de referência faz com que cada jogador tenho um oponente claro para marcar. Atacantes marcam zagueiros, alas pegam laterais, meias perseguem volantes, o volante único fica com o meia central e os zagueiros pegam o centroavante e os dois jogadores abertos.

Em teoria, isso deixaria a zaga sem sobra, uma coisa impensável diante de jogadores dribladores como Dagoberto e Éverton Ribeiro. Mas como futebol não é totó e o sistema é só uma referência inicial, os defensores da Universidad deixavam o quarteto de frente do Cruzeiro se movimentar, mas ajustavam a marcação de acordo, por vezes com os três zagueiros tendo a companhia de um dos alas para fazer a linha de quatro e garantir a cobertura dos ponteiros e de Moreno.

Mas se sobrou intensidade defensiva, com a bola o Cruzeiro não aplicou a mesma movimentação de sempre, facilitando o sistema defensivo da Universidad. Moreno ficou encaixotado entre os zagueiros e não participava muito da construção, sobrecarregando Goulart e Ribeiro. Pela esquerda, Dagoberto teve mais chances, principalmente porque ganhava o duelo com o zagueiro Gonzáles, mas não foi o suficiente para abrir o marcador.

Moreno e Goulart

Muitos atribuíram a lesão do zagueiro José Rojas, que acompanhava o lado direito, ao buraco deixado na defesa que Goulart penetrou e concluiu com passe de Dagoberto para abrir o marcador. Mas o fator preponderante é a inteligência tática de Ricardo Goulart. Se o camisa 28 não é um primor técnico, tem uma ótima visão dos espaços no campo e do posicionamento de seus companheiros e adversários. Bastou Moreno se movimentar mais para participar da criação, mais próximo dos meias, que Goulart achou os espaços rumo à grande área.

O mapa de calor de Goulart mostra o jogador caindo pelas pontas e entrando na área: movimentação ofensiva de um meia central moderno (Footstats)

O mapa de calor de Goulart mostra o jogador caindo pelas pontas e entrando na área: movimentação ofensiva de um meia central moderno (Footstats)

Há uma boa explicação da falha defensiva da Universidad no primeiro gol celeste no blog do André Rocha – aqui. O time chileno contraria a escola sul-americana e marca por zona, mas um lugar-comum em tática no futebol é que não existe um sistema de marcação perfeito. E o primeiro gol celeste é um bom exemplo de um potencial problema do sistema zonal — coberturas que falham em efeito dominó, deixando um jogador livre na cara do goleiro.

No segundo gol, a retribuição: Goulart invade a área novamente, livre de Martinez, que só marcava o meia até a entrada da área. Recebendo passe de Ribeiro, que puxava um ala, Goulart entrou às costas do zagueiro Caruzzo, Lichnovsky — que havia entrado na vaga de Rojas — foi na cobertura e puxou Gonzáles para a cobertura em Moreno. Resultado: Dagoberto totalmente livre, recebeu o cruzamento de Goulart e ampliou.

Ainda haveria tempo para mais um gol, desta vez de bola parada. Mas há que se destacar também a inteligência da movimentação de Goulart na cobrança: ele se livra do zagueiro e vai até a segunda trave para concluir, ANTES do desvio de Bruno Rodrigo. O zagueiro, por sinal, subiu mais alto que todos na grande área para resvalar na bola. Bola parada bem treinada também é mérito do técnico.

Segundo tempo

Com três a zero à frente, o Cruzeiro diminuiu um pouco o ritmo na volta do intervalo. O jogo ficou mais morno e equilibrado, sem domínio de posse de nenhum lado. Provavelmente tentando aproveitar isto, o treinador Cristian Romero fez sua segunda troca, mas a primeira por opção: tirou o avante Rubio e mandou o meia Fernandez a campo, que foi jogar centralizado por onde perambulava Lorenzetti, que por sua vez abriu à esquerda para jogar em cima de Ceará. O time chileno ganhou em volume e começou a rondar a grande área de Fábio.

Marcelo Oliveira respondeu mandando Willian a campo na vaga de Moreno. O bigode foi ser ponteiro direito, empurrando Ribeiro para o centro e avançando Goulart para o comando. Eram duas tentativas em uma: dar energia ofensiva com mais movimentação e mais proteção defensiva pelo lado direito, justamente no setor onde Lorenzetti jogava, já que Willian faz isso melhor do que Ribeiro. No primeiro lance, porém, Willian e Ceará erraram a troca de cobertura e Lorenzetti entrou às costas da defesa pela direita para ficar frente a frente com Fábio e diminuir.

Com Lorenzetti na esquerda, a Universidad começou a ganhar o meio-campo; MO respondeu com um triângulo de volantes que retomou o controle do setor

Com Lorenzetti na esquerda, a Universidad começou a ganhar o meio-campo; MO respondeu com um triângulo de volantes que retomou o controle do setor

O gol animou os visitantes, que continuaram tentando ter o domínio da posse no meio campo. Romero tentou dar mais velocidade com Mora na vaga do atacante Gutiérrez, mas a alteração não surtiu o efeito esperado e o jogo continuou com uma leve tensão para o lado celeste. Marcelo Oliveira mais uma vez tentou corrigir isto mandando mais intensidade a campo, com Marlone na vaga de Dagoberto. Pouco depois, uma substituição pouco comum: a saída de Éverton Ribeiro para a entrada de Souza. O Cruzeiro passou a ter um triângulo de volantes no meio, formado por Rodrigo Souza mais atrás e Lucas Silva e Souza quase como meias do novo 4-3-3/4-1-4-1. A mexida pode ter despovoado o ataque mas deu consistência ao meio campo e o jogo voltou a ficar controlado, ainda que sem a mesma intensidade ofensiva de antes.

Gol da tranquilidade

Em nova cobrança de escanteio e novo desvio de um zagueiro — desta vez Dedé — mais um gol de Ricardo Goulart na segunda trave. É praticamente um replay do terceiro gol, mais uma prova do senso de posicionamento que Goulart possui e que é pouco visto pela crítica e torcedores.

Com a vitória praticamente garantida, o Cruzeiro voltou ao modo cadenciado e esperava o jogo terminar. A Universidad tentava achar mais um gol, mas sem querer buscar a virada. Mas num descuido deixou a zaga no mano a mano e isso foi aproveitado pelo trio ofensivo celeste: balão da defesa, a bola cai em Goulart que mata e dá o passe para Egídio com o mesmo movimento. O lateral avança e passa a Willian na entrada da área, que limpa e bate sem chances para Herrera. Goleada e liderança garantidas.

Aquele Cruzeiro voltou — e melhor

A partida de terça foi a primeira mostra de que aquele futebol praticado no ano passado, e que valeu o título nacional, pode não só ser recuperado como melhorado. Pois mais importante foi ver que Marcelo Oliveira tem alternativas para retomar o controle do jogo não somente trocando peças e/ou características, mas também trocando o sistema. Se no Brasileirão ’13 o Cruzeiro foi uma equipe de um sistema só — e isso bastou, pois o campeonato de pontos corridos permite isso — esse ano mostra que as variações estão sendo treinadas, pois são muito importante numa competição com esse caráter como é a Libertadores, principalmente em sua fase eliminatória.

Sim, pois se é público e notório que o clube e a torcida tem uma identificação com o futebol ofensivo e de toque de bola, não se pode jogar assim em todos os momentos. Fatalmente chegará o momento em que o Cruzeiro precisará proteger um resultado para avançar, e para isso é preciso aprender a fazer isso. E ter variações de sistema é um importante passo para alcançar tal meta.

E também serve pra dar um pouco de graça para este blog, que só fala de 4-2-3-1 há mais de um ano…



Cruzeiro 2 x 2 Ponte Preta – À brinca

Dois descuidos da zaga, no início e no finzinho do jogo, tiraram os três pontos do Cruzeiro de ressaca pelo título conquistado oficialmente em Salvador. Méritos da Ponte Preta, que se defendeu bem e aproveitou as pouquíssimas oportunidades de gol que teve.

Mas ouso dizer que caso o Cruzeiro tivesse encarado o jogo “à vera” e não “à brinca”, o resultado com certeza seria outro.

Sistemas iniciais

Ataque contra defesa: teoricamente a Ponte veio num teórico losango, mas Rildo e Adrianinho afundavam tanto que parecia um 4-5-1 em linha

Ataque contra defesa: teoricamente a Ponte veio num teórico losango, mas Rildo e Adrianinho afundavam tanto que parecia um 4-5-1 em linha

O Cruzeiro, como todos sabem — menos o cara que faz a arte com a disposição tática antes dos jogos na TV — joga no seu costumeiro 4-2-3-1, mas desta vez com muitas novidades. Fábio, que será o primeiro jogador a colocar a mão na taça no dia 1º de dezembro, não foi poupado e defendeu a baliza celeste mais uma vez, protegido pelos zagueiros Paulão e Léo, com Ceará e Éverton fechando a defesa pelas laterais. Souza e Henrique formaram a dupla volância, dando suporte a Júlio Baptista como central e a Éverton Ribeiro e Willian de ponteiros, com Ricardo Goulart na frente.

Jorginho escalou a Ponte Preta num teórico 4-3-1-2 losangal. Na prática o desenho se deformou pela postura defensiva do time de Campinas na partida. O gol de Roberto foi defendido por Artur à direita, César e Ferron no miolo e Uendel à esquerda. Baraka era o “cão de guarda” da defesa, e era acompanhado nessa tarefa por Fernando Bob e Fellipe Bastos como os vértices laterais do losango. Adrianinho era o único meia criativo, com o atacante Rildo posicionado quase como um ponteiro esquerdo e Leonardo centralizado na referência.

Estacionando o ônibus

Antes do gol, o jogo já dava sinais de que seria praticamente um exercício de ataque contra defesa. E na primeira investida, cochilo de Léo na marcação de Leonardo, que iniciou a jogada sob a marcação do zagueiro, mas entrou na área para concluir livre. Talvez porque Léo se acostumou a jogar na esquerda da zaga quando fez parceria com Dedé — quando joga ao lado de Paulão, ele fica no seu lado preferido, o direito, no qual já foi até lateral.

O gol só fez acentuar a característica do jogo. Desesperada para fugir do rebaixamento, a Ponte Preta só se defendia. Nem contra-ataques arriscava, deixando apenas Leonardo já na sua intermediária defensiva como o homem mais avançado. O losango de meio-campo se planificou, Rildo voltava acompanhando Ceará, e Adrianinho afundava entre os volantes, transformando o time praticamente um 4-5-1 — assim mesmo, com cinco jogadores quase alinhados no meio-campo.

Sem conseguir entrar na defesa campineira, o Cruzeiro abusou de cruzamentos e finalizou bastante, mas com pouco perigo. E a partir dos 30 minutos, a Ponte conseguiu sair um pouco de trás e aproveitava algumas falhas provenientes do desentrosamento dos defensores do Cruzeiro: dois jogadores na pressão da bola e nenhum na cobertura, por exemplo, abrindo espaços que normalmente o Cruzeiro não cede.

Flagrante do desentrosamento da defesa celeste: nesta bola, Paulão devia dar o combate e Ceará devia estar em Rildo, mas o atacante ficou sozinho para receber

Flagrante do desentrosamento da defesa celeste: nesta bola, Paulão devia dar o combate e Ceará devia estar em Rildo, mas o atacante ficou sozinho para receber

Segunda etapa

Após virar o intervalo na frente, Jorginho acreditou na proposta. Apenas trocou Fellipe Bastos por Magal, na direita do “losango” — entre aspas porque o jogo voltou ao padrão ataque-defesa do primeiro tempo, fazendo com que a Ponte afundasse o seu meio-campo para marcar o Cruzeiro. Só que desta vez, Éverton Ribeiro começou a jogar pra valer: chamou o jogo pra si e começou a distribuir como nunca, mas as finalizações dos companheiros não eram boas.

Depois de quinze minutos, Marcelo Oliveira resolveu que era hora de tentar vencer, para dar alegria ao torcedor uberlandense. Em duas trocas, mandou Élber e Vinícius Araújo nas vagas de Júlio Baptista e Henrique, inovando: montou um 4-2-3-1 com Élber, Goulart e Willian atrás de Vinícius, mas com Éverton Ribeiro como um “armador recuado”, posicionado como volante, mas que só tinha a função de pensar o jogo. Na prática, era um 4-1-4-1/4-3-3, pois a Ponte praticamente não atacava.

Virada

Após as trocas, Cruzeiro todo no ataque, mesmo quando já vencia, com Éverton Ribeiro distribuindo: o risco era ter marcação frouxa no meio-campo. Assim saiu o segundo gol do time de Campinas

Após as trocas, Cruzeiro todo no ataque, mesmo quando já vencia, com Éverton Ribeiro distribuindo: o risco era ter marcação frouxa no meio-campo. Assim saiu o segundo gol do time de Campinas

A terceira troca, Éverton por Luan, já estava preparada antes mesmo do empate, num cabeceio de Souza em cobrança de escanteio de — não poderia ser outro — Éverton Ribeiro. Luan entrou como lateral-esquerdo mesmo, indicando a vontade de Marcelo de atacar a todo custo. Àquela altura, Willian já fazia mais companhia a Vinícius Araújo dentro da área ofensiva do que a Éverton Ribeiro no meio. Goulart passou à esquerda e o time ficou numa espécia de 2-1-3-4 — sim, porque os laterais estavam tão avançados que já não eram mais defensores.

Jorginho lançou Elias na vaga de Adrianinho numa troca direta, de meia por meia, mas era um jogador descansado. E pouco depois, mandou Rafael Ratão na vaga de Rildo, que neste jogo não foi atacante e sim “marcador de lateral”. Mas o jogo não mudou, e mais uma vez Éverton decidiu: recebeu um passe de Vinícius Araújo e viu a movimentação do garoto, colocando uma bola precisa e preciosa para o camisa 30 chutar de primeira e fazer um dos gols mais bonitos da rodada.

O Cruzeiro até que tentou mais vezes, mas em mais um descuido — desta vez de todo o sistema defensivo — a Ponte conseguiu achar o empate, num contra-ataque nem tão rápido assim, mas que pegou a defesa celeste se recompondo. Quem erra a interceptação do passe para Leonardo é Souza, que está fazendo a cobertura de Paulão, voltando lentamente de um ataque. Como era o único volante, não havia marcadores para impedir o passe original de Elias.

Filosofia vitoriosa

No primeiro texto do ano, este blog destacou o provável estilo de jogo que o Cruzeiro teria este ano, baseado nas contratações feitas. Seria um resgate do futebol ofensivo, de toque de bola, que é a escola histórica do Cruzeiro. Deu muito certo, ainda mais considerando que é uma equipe ainda em processo de amadurecimento.

Sim, pois como disse Fábio na sua entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil: “depois da eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil, chegamos à conclusão de que nós não sabíamos jogar nos defendendo”. E sabendo dessa limitação, a partir dali o Cruzeiro arrancou para o título jogando da forma que sabe: atacando sempre, com intensidade.

Mas a frase também indica que há espaço para melhorar. Um time maduro consegue se adaptar sem problemas às características de uma partida, e haverá sim momentos em que o adversário tentará atacar de todas as formas. A Libertadores é uma competição que tem esse lado.

É preciso, portanto, saber variar a estratégia, mas sem variar o estilo. Porque deixar de ser um time de toque de bola, jamais.



Vitória 1 x 3 Cruzeiro – Jogando por diversão

O Cruzeiro não foi perfeito na partida contra o Vitória. Tampouco jogou com a mesma intensidade e qualidade de outras jornadas. Porém, sem o peso da pressão pelos três pontos, o Cruzeiro acabou jogando despreocupadamente, mas sem perder a seriedade, e acabou por fazer três gols quase sem fazer força contra uma boa equipe, que vinha em ascensão no campeonato, e fora de casa.

Nem era necessário vencer para confirmar o título, mas a forma como veio o triunfo foi, de certa forma, um símbolo da superioridade celeste ao longo de todo o campeonato.

Escretes iniciais

O 4-3-1-2 losango do Vitória causou problemas para Mayke e Egídio, por causa da movimentação de Escudero e do pouco auxílio dos ponteiros do 4-2-3-1 celeste

O 4-3-1-2 losango do Vitória causou problemas para Mayke e Egídio, por causa da movimentação de Escudero e do pouco auxílio dos ponteiros do 4-2-3-1 celeste

Desta feita, Marcelo Oliveira tinha vários desfalques para a montagem do time. Ao lesionado Bruno Rodrigo se juntou Nilton, e Ceará e Éverton Ribeiro estavam suspensos. Para seus lugares, o treinador escolheu, além de Léo, Leandro Guerreiro, Mayke e Willian, formando seu 4-2-3-1 costumeiro com Fábio no gol, Mayke pela direita da defesa, Dedé e Léo no miolo e Egídio pelo lado esquerdo. Na volância, Leandro Guerreiro se plantou à frente da zaga e soltou Lucas Silva para se juntar ao trio de meias-atacantes, com Willian à direita, Dagoberto à esquerda e Ricardo Goulart como central, atrás do artilheiro baiano Borges.

Ney Franco montou o vitória num 4-3-1-2 muito móvel, que variava para o 4-2-3-1 com a movimentação de Escudero pela esquerda e o recuo de Marquinhos pela direita. No modo losango, o goleiro Wilson tinha Victor Ramos e Kadu como zagueiros centrais, ladeados por Ayrton à direita e Juan pela esquerda. Marcelo ficava centralizado à frente da área, tendo Luís Cáceres à direita ligeiramente mais avançado, e Escudero à sua esquerda, mas quase na linha do ponta-de-lança Renato Cajá. Marquinhos era o atacante móvel, principalmente pela direita, e Dinei fazia a referência, mais por dentro.

Flancos expostos

O jogo começou com o Cruzeiro tendo alguns problemas defensivos pelos flancos. Com Willian e Dagoberto em campo, o time fica muito agudo e com menos poder de recomposição, ainda que Willian recuasse com Juan por alguns momentos. Com Leandro Guerreiro tendo dificuldade em fazer a cobertura com a mesma qualidade que Nilton, os laterais ficaram expostos demais, principalmente Mayke pela direita, que tinha que vigiar Escudero e Juan ao mesmo tempo. Do outro lado, Ayrton não ajudava tanto a Marquinhos, mas Egídio também teve dificuldades.

Porém, o Vitória foi acometido por um mal que o Cruzeiro já sofrera neste certame: a má pontaria. Marquinhos teve uma chance de ouro em erro de Leandro Guerreiro na saída, recebendo um passe de Renato Cajá e mandando nas mãos de Fábio, e depois Escudero ficou livre para a finalização na entrada da área após jogada pela direita, mas mandou por cima. A principal chance, porém, foi uma jogada na qual Juan avançou pelo centro, com Escudero mais aberto, e que confundiu a marcação de Mayke. O lateral do time baiano recebeu passe de Cáceres e ajeitou para Dinei, sozinho e de frente para Fábio, mandar à direita.

O Vitória foi o time que mais tentou o gol na rodada, mas, ao contrário do Cruzeiro, não era eficiente; e quando acertava a o gol, tinha Fábio pela frente

O Vitória foi o time que mais tentou o gol na rodada, mas, ao contrário do Cruzeiro, não era eficiente; e quando acertava a o gol, tinha Fábio pela frente

Precisão cirúrgica

Se atrás o Cruzeiro escapava por pouco de sofrer o gol, na frente não deixava de atacar, ainda que sem o mesmo toque de bola. O comentarista já dizia, não se pode errar contra este time. Borges já tinha conseguido um lance típico de centroavante, girando na marcação e tocando no cantinho, com a bola passando muito perto da trave. Mas foi num chutão da defesa que o Cruzeiro “ensinou” ao Vitória como jogar em velocidade: Dagoberto ganhou a disputa aérea e imediatamente lançou Willian, livre, que avançou e venceu Wilson.

Era apenas a quarta finalização do Cruzeiro no jogo, a segunda na direção do gol, contra 9 do Vitória àquela altura. O Cruzeiro ainda é o time que mais finaliza no campeonato, mas também tem a melhor eficiência, com praticamente 46% das conclusões indo na direção do gol — um belo indício do estilo de jogo ofensivo e que prevaleceu sobre todos os outros no torneio.

Primeiras trocas

O gol fez o Vitória perder um pouco o norte, e o primeiro tempo acabaria mesmo com o Cruzeiro na frente. No intervalo, Ney Franco desfez o losango, tirando Renato Cajá para a entrada de William Henrique, que foi jogar na ponta esquerda em cima de Mayke. Com isso, Escudero foi “oficializado” na meia-esquerda, e assim o time passou para um 4-3-3. Já Marcelo Oliveira promoveu a entrada de Éverton na vaga de Egídio, com dois objetivos. Um era reforçar um pouco mais a marcação naquele setor, e o outro era rodar o elenco, àquela altura já matematicamente campeão. Era um experimento, por assim dizer.

Ironicamente, as duas trocas funcionaram a favor do Cruzeiro. Sem um armador central, o Vitória forçou ainda mais pelos flancos, mas Éverton de fato segurou o ímpeto ofensivo de Marquinhos de maneira mais eficiente que Egídio pela esquerda. Na direita, Mayke tinha um alvo de marcação bem definido, que era William Henrique. Teve trabalho, mas foi bem melhor que no primeiro tempo, exceção feita ao lance do gol, mas que é totalmente perdoável — depois de um chutão de Léo que rebateu em um jogador do Vitória, Mayke errou o tempo da bola e não conseguiu interceptá-la, e ela sobrou para William Henrique. Dedé abandonou Dinei e foi na cobertura, e por isso o centroavante recebeu o passe por cima, concluindo em cima de Fábio — a bola rebateu nele mesmo e foi para o gol.

Clima de festa

No segundo gol, a movimentação de Goulart e Júlio confunde Ayrton, que é atraído para dentro e acaba abandonando Dagoberto

No segundo gol, a movimentação de Goulart e Júlio confunde Ayrton, que é atraído para dentro e acaba abandonando Dagoberto

Depois disso, quase nada aconteceu por 20 minutos, até a segundas trocas dos times. O Cruzeiro não forçava muito pois já era campeão, e jogava leve. Já o Vitória tinha dificuldade para penetrar na defesa celeste, agora melhor postada. Ney Franco soltou o time de vez tirando seu único volante de marcação, Marcelo, para promover a entrada de Euller na lateral esquerda, mudando Juan para a meia-direita e fazendo Cáceres ser o meio-campista mais recuado. Marcelo fez uma a troca já corriqueira, Borges por Júlio Baptista, avançando Goulart.

O Vitória melhorou, mas nem bem tentava imprimir seu ritmo o Cruzeiro aumentou com muita tranquilidade. Willian carregou pelo meio e viu a movimentação de Goulart e Júlio Baptista, que também atraiu a atenção do lateral Ayrton. Dagoberto ficou livre, e a bola chegou diretamente ao camisa 11. Dali, foi só rolar pra dentro para Júlio Baptista colocar o campeão novamente na frente.

Fim de jogo?

O time da casa “sentiu” o gol, na gíria do futebol. Mas neste caso foi um pouco diferente, era o peso do time campeão, do melhor ataque do campeonato, de um elenco com muita qualidade. Só chegou quando o Cruzeiro tinha 10 em campo, com Léo fora do gramado para receber atendimento: Kadu acertou a trave após ficar sozinho na área, no lugar onde provavelmente Léo estaria.

Antes do lance, Marcelo Oliveira havia mandado Tinga a campo na vaga de Dagoberto, numa rara troca mais defensiva — o cabeludo ficou pela direita mesmo, ajudando Mayke na marcação. O Vitória perdeu força de ataque e o jogo parecia estar no fim, mas não antes do Cruzeiro marcar o terceiro gol, com muita tranquilidade de Willian, o assistente, e de Ricardo Goulart, o autor do gol. Nenhum deles sofria combate próximo.

Ney Franco ainda desfez a linha de quatro com o atacante Pedro Oldoni na vaga do lateral Ayrton. Não havia sistema de jogo, era só atacar para tentar diminuir, mas o máximo que o time baiano fez foi consagrar Fábio em um chute de William Henrique.

Qualidade pura

Além de confirmar o título, mesmo que a vitória não fosse necessária, a partida de quarta-feira serviu para mostrar a qualidade verdadeira deste elenco celeste e de seu treinador. A pressão pelo triunfo é um fator psicológico que pode ajudar ou atrapalhar um time, dependendo das circunstâncias. Neste jogo, porém, vimos uma equipe desobrigada de vencer, sem pressão, e por isso jogando um futebol em estado puro, apenas na base da técnica e da tática. E por isso prevaleceu: pois tem jogadores melhores e um treinador que soube explorar as características de seus comandados, armando um sistema que hoje é muito bem assimilado por todo o elenco.

Título garantido, já se pode projetar a temporada seguinte. Certamente chegarão reforços e Marcelo provavelmente poderá pensar em variações, que devem ser treinadas no início do ano, já que 2014 terá um calendário ainda mais apertado que 2013, sem tempo para treinamentos táticos. Variações que não só são necessárias no que se refere ao sistema de jogo, mas também ao estilo: em alguns momentos, é preciso se defender mais do que atacar, como na partida contra o Flamengo pela Copa do Brasil. A Libertadores tem este caráter decisivo em sua fase eliminatória, e isso é um ponto a melhorar nesta equipe.

Mas, se essa equipe foi campeã em seu primeiro ano junta, podemos esperar voos ainda mais altos daqui pra frente.

Três volantes e um armador? Não, é um meia e três atacantes.

Três volantes e um armador? Não, é um meia e três atacantes.



Cruzeiro 5 x 3 Criciúma – Sempre há espaço para melhorar

O Cruzeiro voltou a ser o Cruzeiro da sequência de doze rodadas invictas que encantou o Brasil — mas só durante trinta minutos. Depois disso, inventou de diminuir a velocidade do jogo, coisa que não sabe (ainda) fazer, expôs seus problemas defensivos e levou um baita susto ainda na primeira etapa. Mas se ainda não é um time maduro para mudar o estilo durante a partida, teve capacidade mental suficiente para conseguir “desvirar” o placar, se aproximando muito do tri.

Formações táticas

O 4-3-1-2 losango do Criciúma tentou lotar o meio-campo mas deu liberdade aos laterais do 4-2-1-2 celeste e só se defendeu durante meia hora

O 4-3-1-2 losango do Criciúma tentou lotar o meio-campo mas deu liberdade aos laterais do 4-2-1-2 celeste e só se defendeu durante meia hora

O Cruzeiro foi para o jogo no seu 4-2-3-1 usual, mas com mudanças no estilo dos jogadores que o compunham. Do gol, Fábio viu sua linha defensiva ser formada por Ceará à direita, Egídio à esquerda e Dedé e Léo compondo a zaga central. Com Nilton suspenso, Henrique fez o papel do primeiro volante na companhia a Lucas Silva, e Dagoberto foi o escolhido para a vaga de Ricardo Goulart no trio de meias, composto também por Willian, desta vez à direita, e Éverton Ribeiro, “oficializado” como central. Na frente, Borges enfiado entre os zagueiros.

Argel Fucks armou o Criciúma tendo o 4-3-1-2 losango como base, mas altamente adaptável para se defender do ataque celeste. A meta de Gallato foi defendida pelos zagueiros Matheus Ferraz e Fábio Ferreira, que por sua vez eram flanqueados por Sueliton na lateral direita e Marlon na esquerda. Henik foi o volante mais defensivo, com Ricardinho jogando mais à direita e João Vitor mais pela esquerda, mas ainda no meio-campo central, dando suporte a Ivo na ligação. Na frente, Lins se movimentava e Marcel ficava na referência.

Corredores livres

É claro que a volta da intensidade característica do quarteto ofensivo, tanto defendendo como atacando, foi um fator determinante para o início arrasador do Cruzeiro. Porém é preciso também destacar o corredor que os dois laterais tiveram para subir e se aproximar dos ponteiros, fazendo maior número pelos lados do campo. Ricardinho até abandonava o meio-campo para encurtar o espaço em Egídio, mas o camisa 6, sem ter um ponteiro verdadeiro para marcar, ultrapassou seu marcador com o mesmo ímpeto que chamou a atenção de todos no primeiro turno do certame.

Ceará, por outro lado, teve toda a liberdade para apoiar, pois quando recebia a bola, João Vitor só o marcava à distância. O veterano camisa 2 subiu frequentemente ao ataque, recebendo ora passes de trás e avançando até encontrar Marlon, ora inversões de jogada que Lucas Silva produzia tão bem, fazendo o lateral esquerdo do Criciúma sair da formação da defesa para ir à marcação. Foi deste lado que saiu o primeiro gol, num belo passe de Ribeiro para Ceará já avançado até a linha de fundo, que cruzou rasteiro mas encontrou a defesa. No rebote, o próprio Éverton bateu de esquerda — o pé bom — para abrir o placar.

Dagoberto

Outro fator interessante é a característica que Dagoberto dá ao time. Enquanto Goulart é mais aplicado taticamente e tem papel fundamental na movimentação e na construção da jogada, Dagoberto é mais agudo e finalizador, procurando espaços com o drible rápido — um pouco parecido com Willian. O segundo gol aconteceu por causa disso — Dagoberto já estava posicionado junto à linha defensiva do Criciúma, mas bem aberto à esquerda, quando Éverton Ribeiro encontrou Egídio sem marcação. O lateral entrou um pouco pelo centro mas passou a Dagoberto, que imediatamente deu a Éverton, que havia tomado a frente de dois marcadores dentro da área. O passe não foi bom, mas Éverton fez do limão uma limonada: deu um passe escorpião de volta a Dagoberto na entrada da área, que pegou de primeira, se marcação — atraída por Ribeiro — e aumentou.

Defensivamente, porém, Dagoberto não contribui tanto. Isso não era um problema naquele momento do jogo, pois só o Cruzeiro atacava e Sueliton se limitava a compor a linha defensiva, mas quando o Cruzeiro diminuiu o ritmo — talvez pela facilidade que encontrava no campo ofensivo — isso passou a ser um fator de preocupação.

Volância leve

Cruzeiro 5 x 3 Criciúma - Fim do 1º Tempo

No fim do primeiro tempo, o Cruzeiro deu campo ao Criciúma, mas os ponteiros não voltavam com os laterais, e os volantes (principalmente Henrique) com falhas nas coberturas

Mas o maior problema defensivo, neste momento da partida, residia na entrada da área. O primeiro gol do Criciúma — numa cobrança muito bem feita de João Vitor, diga-se — já poderia ser um alerta, pois Henik avança sem ser incomodado no setor, obrigando o zagueiro a subir o bote, errar o tempo e cometer a falta. Lucas Silva tem um bom combate, mas jogava mais avançado, e Henrique simplesmente não estava no mesmo ritmo dos outros jogadores, limitando-se ao cerco sem dar botes mais fortes.

Em que pese o Cruzeiro ter continuado atacando após sofrer o gol, o Criciúma passou a jogar também e encontrou este espaço na entrada da área para criar e conseguir uma virada surpreendente ainda na primeira etapa. Primeiro, Marlon avança pela esquerda mas não é acompanhado por Éverton Ribeiro, que naquele momento era o ponteiro e devia marcá-lo, e a cobertura de Henrique é falha — o camisa 8 deixa um passe de Marlon entrar nas suas costas pela direita. O cruzamento acha Lins, que está longe de Lucas Silva.

Depois, uma inversão de bola da esquerda para a direita acha Sueliton avançando com espaço. Dagoberto tenta voltar para acompanhar mas não consegue, e Egídio está pelo centro da área compactado lateralmente na defesa (que é o comportamento certo). O lateral direito do Criciúma cruza rasteiro de primeira para Ricardinho, na meia-lua, completar de primeira. É possível ver Henrique muito afundado na marcação, quando deveria estar ali para interceptar o passe.

Sueliton fora

O time voltou para o segundo tempo sem alterações, mas não deu tempo de avaliar se havia algo novo na postura do time, pois logo aos 4 Sueliton receberia o segundo amarelo e o Cruzeiro passou a ter vantagem numérica. Marcelo Oliveira esperou Argel reformatar sua equipe com Ezequiel, lateral direito, na vaga de Ivo, optando pelo 4-4-1 (na transmissão foi possível ver o técnico do Criciúma fazendo dois números quatro com as mãos, uma na frente da outra, indicando o sistema que queria) para poder fazer seus movimentos.

O time da virada: com um a mais, Júlio e Éverton foram os meias do inédito 4-3-3 com laterais totalmente livres para apoiar ao mesmo tempo

O time da virada: com um a mais, Júlio e Éverton foram os meias do inédito 4-3-3 com laterais totalmente livres para apoiar ao mesmo tempo

As entradas de Júlio Baptista e Mayke nas vagas de Henrique e Ceará deram ao time um viés ultra ofensivo. Mayke é reconhecidamente mais ofensivo que o veterano camisa 2, e Júlio, um meia-atacante de origem, entrou na vaga de um volante, e com isso o Cruzeiro passou pela primeira vez a jogar num 4-3-3 clássico, com Éverton um pouco mais recuado como meia direita, Júlio na meia-esquerda, Willian e Dagoberto nas pontas e Borges de centroavante. Isso além de Lucas Silva ser um volante com chegada e Egídio ser um lateral ofensivo também — apenas os zagueiros não participariam da construção ofensiva.

Muitos cruzamentos

Este embate de sistemas proporcionou duelos por todo o campo. Marcelo abdicou de pressionar os zagueiros e se limitava a cercar Lucas Silva, enquanto que os laterais celestes batiam com os meias abertos do time catarinense. Os meias batiam com os volantes e os ponteiros com os laterais, deixando apenas Borges segurando os dois zagueiros.

Seguros da cobertura de Lucas e dos zagueiros, os laterais avançaram sem medo. Resultado: foi o jogo com maior número de cruzamentos do Cruzeiro no campeonato. Não demorou para Borges empatar com um passe vindo de Mayke e desviado por Willian, pegando a defesa desprevenida. Gol típico de centroavante: batendo cruzado na primeira oportunidade. Argel só tinha a opção do contra-ataque, e lançou Douglas, mais leve, na vaga de Marcel. Já Marcelo Oliveira tirou Willian, cansado, por Élber, na ponta direita. E foi com ele que veio o gol da tranquilidade, do mesmo lado direito. O cruzamento achou a cabeça de Borges, sozinho, no meio da área.

Com dois laterais bem ofensivos, o Cruzeiro levantou nada menos do que 37 bolas na área (7 certos), o maior número até aqui no campeonato

Com dois laterais bem ofensivos, o Cruzeiro levantou nada menos do que 37 bolas na área (7 certos), o maior número até aqui no campeonato

Em desvantagem, o Criciúma tentou avançar suas linhas, com Lins saindo do meio para fazer um 4-3-2 ao lado de Douglas no ataque, numa última tentativa de achar o empate. Mas isso acabou piorando a situação no meio-campo, e o Cruzeiro desta vez conseguiu trocar passes sem sustos, e até eventualmente conseguir marcar mais um no pênalti incontestável em Dagoberto que ele mesmo cobrou.

Quase campeão, mas ainda verde

Não há como negar que a expulsão mudou a maneira de jogar das equipes na partida, mas dizer que foi o único fator responsável pelo resultado é demais. O Cruzeiro venceu por méritos próprios, tanto dos jogadores quanto de Marcelo Oliveira, que fez as trocas corretas para dar o melhor resultado tático possível.

Mas o susto no fim do primeiro tempo liga um alerta. Por causa dele, este blog se convenceu de que o Cruzeiro de fato ainda não sabe jogar de outra forma que não atacando com intensidade sempre. Este time ainda não é maduro para segurar a partida tendo a bola nos pés e diminuir o ritmo do jogo. Pode ter dado certo em alguns momentos nesta temporada, mas isto ainda é um fator a se evoluir. Não é surpreendente, no entanto, pois é uma equipe em sua primeira temporada e que não teve tempo para treinar variações, ainda que esteja liderando o campeonato com folga.

E, por isso mesmo, o provável título será ainda mais valorizado. Afinal, o Cruzeiro é uma equipe ainda longe de estar perfeita.