Náutico 1 x 4 Cruzeiro – Trotando

Seis minutos do segundo tempo, escanteio para o Náutico. Ricardo Goulart é quem sobe para afastar a bola da área, que sobra no pé de Éverton Ribeiro no grande círculo. Goulart avança correndo de leve, desde a grande área defensiva vendo o lance se desenrolar. Troca de passes daqui e dali, e sem interromper o ritmo da corrida, o jogador invade a área ofensiva sem marcação, e de repente a bola chega, redondinha, até seus pés. Arremate no canto esquerdo baixo de Ricardo Berna e a corrida para o abraço.

Poucas partidas podem ser bem sintetizadas taticamente pelos lances dos gols como a que aconteceu na Arena Pernambuco no domingo — partida esta que este blogueiro teve o prazer de acompanhar in loco, pela primeira vez na torcida visitante. Acima, a descrição do segundo gol pela perspectiva de Ricardo Goulart é um bom exemplo: um Cruzeiro descansando, quase em ritmo de amistoso, mas mesmo assim conseguindo criar o suficiente para vencer de forma inapelável.

Onze inicial

Dois momentos capturados, ambos tiros de meta a serem cobrados por Fábio. Note as diferenças na marcação encaixada do Náutico nos dois momentos

Dois momentos capturados, ambos tiros de meta a serem cobrados por Fábio. Note as diferenças na marcação encaixada do Náutico nos dois momentos

O 4-2-3-1 habitual de Marcelo Oliveira teve mudanças. Para a vaga do suspenso Egídio, Mayke foi o escolhido, com Ceará indo para a lateral esquerda. E na zaga, Léo entrou no lugar de Dedé, a serviço da seleção nacional. Desta forma, o Cruzeiro se alinhou com Fábio no gol, Mayke, Léo, Bruno Rodrigo e Ceará na linha defensiva, Nilton e Lucas Silva na proteção, Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Willian na articulação e Borges na referência, como você pode ver nas fotografias ao lado, clicadas diretamente da arquibancada da Arena Pernambuco por este que vos escreve.

Já o Náutico, do até então invicto treinador Marcelo Martelotte, veio a campo num 4-3-1-2, para tentar se defender ganhando o meio-campo em número e partindo em velocidade nos contra-ataques, principalmente com Maikon Leite. A meta de Ricardo Berna foi protegida pelos zagueiros William Alves e Leandro Amaro, com João Filipe na lateral direita e Bruno Collaço na esquerda. Elicarlos — aquele mesmo — ficou plantado na frente da defesa, tendo Dadá à sua direita e Derley à sua esquerda. A criação ficou por conta de Morales, que procurava Maikon Leite mais leve pela direita e Olivera, mais centroavante, um pouco mais à esquerda.

Superioridade clara

A partida começou com domínio total de território do Cruzeiro, embora a maior posse de bola fosse um tanto preguiçosa. Os três meias não se aproximavam tanto quanto em outras jornadas, facilitando a marcação pernambucana. Na primeira vez em que Willian e Éverton Ribeiro se aproximaram e tabelaram, saiu o escanteio que originou o gol. Goulart sobe sem marcação para cabecear, num erro crasso de marcação de bola parada do time da casa. Aparentemente, ali os jogadores celestes sentiram que seria um jogo fácil, talvez inconscientemente.

Assim, após o gol, diminuiu ainda mais a velocidade, deixando o Náutico com a bola e frustrando os planos de ataque do Náutico com facilidade — principalmente com Ceará pela esquerda, iniciando o seu jogo perfeito. Sem dúvida, o veterano foi o melhor em campo defensivamente, anulando Maikon Leite no setor. Morales não via a bola e quando a tinha não criava, Olivera não era perigoso e os laterais do Náutico não apoiavam tanto, receosos de levar um contra-ataque dos rápidos meias cruzeirenses. Fábio só teve trabalho em uma cobrança de falta.

Aqui um tiro de meta defensivo, mostrando o 4-3-1-2 pernambucano. Nota-se Dadá bem aberto à direita e B. Collaço avançado para bater diretamente com Mayke

Aqui um tiro de meta defensivo, mostrando o 4-3-1-2 pernambucano. Nota-se Dadá bem aberto à direita e B. Collaço avançado para bater diretamente com Mayke

E quanto tinha a bola, porém, o Cruzeiro era marcado de duas formas diferentes pelos lados do campo. Pela direita, Dadá abria para impedir o avanço de Ceará, deixando João Filipe para marcar o ponteiro esquerdo do Cruzeiro. Do lado esquerdo, Bruno Collaço tinha liberdade para subir e bater diretamente com Mayke, e Derley fazia a cobertura do ponteiro direito celeste. Se a jogada fosse pelo meio, os volantes fechavam de novo e ajudavam Elicarlos a superlotar o setor. Só funcionou porque o Cruzeiro, como explicado, estava em ritmo de amistoso.

Mudança de planos

Com a lesão de Dadá, porém, o jogo mudou. Marcelo Martelotte ousou e mandou Peña a campo, um meia para espelhar o esquema celeste, mandando Maikon Leite para o lado esquerdo. O Náutico melhorou em três setores: o meio-campo central, que agora tinha um jogador mais criativo — Peña fazia a mesma rota de Éverton, partindo da direita para o centro; a lateral-direita, já que o corredor se abriu para o apoio do zagueiro-lateral João Filipe; e a ponta esquerda, com Maikon Leite dando muito trabalho para Mayke na marcação.

O gol de empate é a síntese: belíssimo passe de Peña entre os zagueiros celestes, achando Maikon Leite fazendo a diagonal, ganhando na velocidade de Mayke e completando de primeira.

É importante dizer, no entanto, que mesmo em ritmo claramente menor que o adversário, o Cruzeiro matou a maioria das campanhas ofensivas do Náutico e ainda conseguia com pouco esforço chegar em alguns momentos. Então, é seguro concluir que a primeira etapa foi equilibrada principalmente porque o Cruzeiro não quis acelerar muito.

Etapa final e trocas

Mas Marcelo Oliveira não queria que fosse equilibrado, e pediu mais vontade no intervalo. Dito e feito: o lance do segundo gol, narrado no primeiro parágrafo deste texto sob a perspectiva do autor do tento, novamente é uma boa síntese daquele momento do jogo e da partida como um todo. Aproximação e troca de passes entre Éverton Ribeiro e William, com intensidade suficiente para enlouquecer a defensa pernambucana, que nem viu Ricardo Goulart entrar na área praticamente andando e colocar o Cruzeiro novamente na frente. Veja o vídeo e repare na tranquilidade de Goulart: ele só aparece na imagem aos 6 segundos, à direita.

Pouco tempo depois, Willian fez fila pela esquerda e sofreu pênalti tão claro que os zagueiros nem reclamaram. Éverton Ribeiro quase perdeu mas converteu, praticamente definindo o jogo ali mesmo aos 13 da etapa final. Logo após o gol, Martelotte tirou Morales e mandou Hugo a campo como ponteiro esquerdo, centralizando Peña na criação e invertendo Maikon Leite novamente de lado. Marcelo Oliveira respondeu com Dagoberto e Tinga nas vagas de Borges e Éverton Ribeiro, com Ricardo Goulart indo fazer a função de centroavante, e Tinga flutuando entre as duas grandes áreas. Dagoberto foi para a direita.

Ao 32, quase 50 segundos de posse de bola e dezoito toques na bola até a conclusão de Mayke no canto direito que mandou a torcida pernambucana embora do estádio. Nós, torcedores celestes, agora éramos oficialmente donos daquele campo. Alisson ainda entrou no lugar de Willian, e Maikon Leite jogaria por dez minutos na função de centroavante com a entrada de Marcos Vinícius na vaga de Olivera, mas nada mais aconteceu de relevante.

Sínteses e analogias

Como dito, os gols resumem bem o que foi a partida. O primeiro estabeleceu a diferença entre as equipes, já que foi um erro infantil de marcação da defesa do Náutico; o gol de empate mostrou como o time da casa levava vantagem em alguns setores, muito devido ao baixo ritmo do Cruzeiro naquele momento; o segundo gol foi uma demonstração de que bastava o Cruzeiro acelerar um pouco mais que criava com facilidade, em clara superioridade tática; o terceiro a prova da superioridade técnica, com dribles sucessivos de Willian até o pênalti; e o quarto gol foi a confirmação do que o primeiro estabeleceu, já que o Náutico sequer encostou na bola durante vários segundos até a conclusão final.

Convido o leitor, porém, a reler o primeiro parágrafo deste texto, mas agora fazendo uma analogia diferente: o trote de Goulart de uma área até a outra, sem ter a companhia de nenhum adversário até a linha fatal, pode ser uma representação do trajeto do próprio Cruzeiro no certame a partir daqui. A vantagem de onze pontos é muito significativa, e faz com que os adversários tenham que galopar muito intensamente durante todo o resto do campeonato, e ainda contando com tragédias do Cruzeiro ao longo do caminho.

Ao Cruzeiro, porém, basta um leve trote — como o de Goulart.



Cruzeiro 3 x 0 Náutico – Chegadas e partidas

Então Diego Souza saiu. Diego vinha sendo o pilar central no meio-campo celeste, o meia por dentro do 4-2-3-1, e sua história no futebol faziam dele um ímã natural da marcação adversária. Entretanto, sua saída pode ser benéfica para o time. Isso porque, nas palavras do próprio Marcelo Oliveira antes do início da partida, com saída do camisa 10, “perdemos na experiência, na proteção da bola, na cadência, mas ganhamos em mobilidade.” E, num 4-2-3-1 moderno, é fundamental que os três meias se movimentem muito. As melhores partidas do Cruzeiro no ano tiveram um Diego Souza com mais energia, saindo do meio e abrindo espaço para os ponteiros ali penetrarem, confundindo a marcação adversária.

Na 1ª etapa, Ricardo Goulart pelo meio se movimentando, e Mayke mais contido que Egídio

Na 1ª etapa, Ricardo Goulart pelo meio se movimentando, e Mayke mais contido que Egídio

Foi um pouco do que aconteceu no Mineirão, no domingo à noite contra o Náutico. Sem Diego, Marcelo Oliveira mandou Lucca em seu lugar, que foi fazer o lado esquerdo, com Ricardo Goulart, que seria o substituto de Luan, suspenso, deslocado para a faixa central. Everton Ribeiro permaneceu na direita. O resto do time foi o de sempre, com Fábio no gol, Mayke e Egídio nas laterais, Dedé e Bruno Rodrigo na zaga, Nilton e Souza na volância e Vinicius Araújo na frente.

No início do jogo, foi difícil definir o desenho que Zé Teodoro imaginou para o time pernambucano, principalmente no meio-campo. O goleiro estreante Ricardo Berna tinha em sua linha defensiva Maranhão pela direita, João Felipe e William Alves na zaga e Eltinho na lateral esquerda. No ataque, o centro-avante Olivera tinha a companhia de Rogério, caindo pelas pontas, e um pouco mais atrás estava Marcos Vinicius. Os três homens restantes eram volantes, com Auremir mais preso e mais à esquerda, e Derley e Magrão com mais liberdade para sair, Derley pela direita e Magrão pelo centro. Algo entre um 4-3-1-2 losango (porém com os volantes alinhados) e um 4-3-3 defensivo, com o meio-campo em linha e Marcos Vinicius saindo do centro para o lado esquerdo.

Ritmo forte pela esquerda

Como vem acontecendo frequentemente, o Cruzeiro começou o jogo marcando por pressão no alto do campo. Isso resultou numa posse de bola que chegou a 80% em um determinado momento do primeiro tempo. Auremir ajudava Eltinho a fechar o lado esquerdo da defesa pernambucana, provavelmente tentando bloquear as investidas de Everton Ribeiro por ali, e como Mayke ficava um pouco mais preso, muito provavelmente sob determinação de Marcelo Oliveira, era natural que Egídio e Lucca tivessem mais liberdade pela canhota. Também porque Rogério não voltava acompanhando o lateral cruzeirense, e quem tentava ajudar o pobre Maranhão era Derley, que era um volante pela direita com mais liberdade para atacar.

Com menos de dez minutos de jogo, o lateral direito do Náutico já se via combantendo dois cruzeirenses ao mesmo tempo, e foi assim que saiu a jogada do primeiro gol. Egídio e Lucca fizeram o dois contra um, passe do primeiro para o segundo, livre, cruzar para o gol de Ricardo Goulart.

Egídio e Lucca fazendo dois contra um no primeiro gol do Cruzeiro

Egídio e Lucca fazendo dois contra um no primeiro gol do Cruzeiro

O gol muda o jogo

Como é normal no futebol, o resultado corrente da partida muda as estratégias. Em tese, o Náutico teria que ter mais a bola nos pés, saindo de suas trincheiras para tentar levar mais perigo ao gol de Fábio. Com isso, o Cruzeiro teria mais espaço para jogar. As duas coisas aconteceram, mas não por iniciativa do time pernambucano e sim por que o Cruzeiro começou a errar passes em demasia, principalmente os passes mais incisivos. Com mais espaço, as tentativas de um passe mais difícil são maiores, e também os erros. No fim da partida, Everton Ribeiro ilustrou bem isso em sua entrevista: “Eles abriram muito, então fica mais fácil de errar porque a gente tenta mais.”

Além disso, o técnico Zé Teodoro mandou Marcos Vinicius e Rogério inverterem de lado no 4-3-3 com meio-campo em linha. O jovem meia Marcos Vinicius é, teoricamente, mais “defensivo” que seu companheiro de time, atacante, e agora tinha de acompanhar Egídio, deixando Mayke por conta de Rogério. Funcionou em certa medida, e o lateral esquerdo só levou algum perigo em jogada de condução da bola em velocidade, que vem sendo uma de suas características mais marcantes. O cruzamento passou perto do pé de Ricardo Goulart, mas não o encontrou.

Trio leve pela direita

Corroborando o que Marcelo Oliveira disse antes do jogo, é notória a diferença da movimentação do trio de meias sem Diego Souza — e sem Luan, pelo mesmo motivo. Ricardo Goulart não se escondeu do jogo, se movimentou pelos flancos e apareceu na área — como no lance do gol. Pela esquerda, ajudava Lucca, que é muito mais leve que Luan, mas fazendo a mesma função de acompanhar o lateral adversário sem a bola.

Mas essa característica de leveza apareceria bem mais após o intervalo, que não teve substituições mas teve mudanças: Ricardo Goulart agora era ponteiro esquerdo, Lucca era o direito e Everton Ribeiro ficou por dentro. Auremir também inverteu o lado da sua marcação e foi ajudar Maranhão contra Egídio e Goulart. Mas isso acabou liberando espaço na direita que, antes inexplorado, agora era invadido por Mayke e Lucca, sendo ajudados por Everton Ribeiro. O jovem lateral celeste tinha sempre muito espaço para avançar sem ser incomodado, já que nem Rogério nem Marcos Vinicius acompanhavam suas ofensivas.

Tanto espaço acabou por ser explorado justamente por Everton Ribeiro, que puxou um contra-ataque pelo meio, avançando de forma meio atabalhoada. Ele achou Lucca mais à frente e fez a ultrapassagem, onde não havia ninguém do time pernambucano. Lucca recuou para Vinicius Araújo, que deu um passe magistral de volta para o camisa 17. O goleiro salvou o primeiro, mas na segunda jogada Vinicius Araújo, que estava fora da área quando fez o passe, apareceu como um bom centro-avante e fuzilou.

Poucos minutos depois, uma jogada que mostrou bem a postura cruzeirense. Everton Ribeiro pressionou a zaga e roubou a bola, achando Mayke totalmente livre pela direita. O cabeceio de Ricardo Goulart, do outro lado da área, só parou na mão do zagueiro.

Bastante espaço para Mayke.

Bastante espaço para Mayke.

Trocas

O melhor momento do Cruzeiro na partida foi no início da etapa final, com Ribeiro centralizado, Lucca na direita e Goulart na esquerda

Zé Teodoro continuou o jogo de xadrez trocando Magrão por Jonatas Belusso, atacante, que foi jogar na ponta esquerda. Rogério permaneceu na ponta direita e o time agora tinha uma cara mais definida, um 4-2-1-3. Não era 4-2-3-1 porque os pontas continuavam não voltando com os laterais, mas a presença destes dois jogadores abertos nas pontas inibiu o ímpeto ofensivo de Egídio e Mayke, e o Cruzeiro perdeu um pouco do volume. Mesmo assim, a defesa sobressaía, principalmente sobre Marcos Vinícius, que seria substituído poucos minutos depois por Dadá, que é volante, mas fez a mesma função.

No Cruzeiro, Lucca deu seu lugar a Martinuccio, que inicialmente ficou pelo centro, deslocando Ribeiro para a direita. Goulart permaneceu do lado esquerdo, por onde fez a jogada do segundo gol. Tentou aplicar um drible em João Felipe, mas o zagueiro tomou-lhe à frente, tentando proteger para ganhar o tiro de meta. A insistência valeu a posse de bola dentro da área, de onde passou a Vinicius Araújo fazer o seu segundo na noite.

Com grande vantagem, o Cruzeiro tirou o pé e se contentou em segurar o time pernambucano, que não conseguia incomodar muito. Anselmo Ramon entrou na vaga de Vinicius Araújo e Tinga na de Ricardo Goulart. O primeiro para fazer o famoso jogo de pivô — destacado na jogada com Nilton ultrapassando e que seria um golaço — e o segundo pra encorpar o meio e dar mais cadência à partida já decidida. Zé Teodoro ainda tiraria Olivera para mandar Jones Carioca na ponta direita e empurrando Belusso para o centro do ataque, mas o jogador mais defendeu do que atacou.

Bons frutos

A experiência de Marcelo Oliveira no início do segundo tempo tem que ser repetida mais vezes, a saber: Everton Ribeiro no centro da linha de três. Boa visão de jogo, bom passe e velocidade suficiente para puxar um contra-ataque veloz, precisando apenas melhorar a finalização. Com a chegada de Willian, envolvido na negociação com Diego Souza e que faz bem o lado direito, é muito provável que isso aconteça, fazendo o Cruzeiro ficar num 4-2-3-1, digamos, mais “tradicional”, com dois ponteiros atacantes de ofício (ao invés de um meia e um atacante, como é hoje), voltando com o lateral adversário.

Mas se o treinador optar pelo modelo atual, Ricardo Goulart provou hoje que tem condições de ser um meia central eficiente. Ele já havia mostrado isso no primeiro jogo da temporada, quando jogou na mesma posição, e nessa partida foi eleito o melhor em campo pelo site WhoScored.com. Além disso, a se destacar as atuações de Vinicius Araújo, cada vez mais à vontade no comando do ataque, Egídio, que ainda tem problemas defensivos mas qualidades indiscutíveis no apoio, e Nilton, se acostumando à função de primeiro volante.

Negativamente, o número excessivo de passes errados. Isso é um pouco relativizado pelo fato de que o entrosamento que tinha sido conquistado até aqui tenha diminuído com a mudança das peças do time: as lesões de Ceará, Borges e Dagoberto; a suspensão de Luan, que vinha sendo o titular na ausência dos dois primeiros; a entrada de Souza na equipe, mudando um pouco a característica do time; e agora a saída de Diego Souza, titular até então absoluto de Marcelo Oliveira.

É claro que o impressionante número de 8 gols em dois jogos são diminuídos pela fragilidade dos adversários, mas é isso o que bons times fazem: massacram os adversários fracos. Há times grandes por aí que sofrem pra vencer os considerados pequenos, isso quando vencem. Mas será nas próximas rodadas que o Cruzeiro mostrará a que veio nesse campeonato, pois são jogos contra São Paulo, que mesmo em crise, é uma pedra no sapato celeste, e Atlético/MG, em alta por causa dos resultados que nunca teve na Libertadores. Bons resultados nesses jogos credenciarão o time de vez ao título.

E, sinceramente? Esse ano dá pra chegar.



Cruzeiro 3 x 0 Náutico – Virada tática

Depois de tomar um baile tático no primeiro tempo, Celso Roth errou na primeira mas acertou na segunda substituição, abrindo caminho para o maior placar cruzeirense do Campeonato até aqui.

Wallyson muito centralizado no 4-3-1-2 losango inicial do Cruzeiro, estreitando o time e facilitando a marcação encaixada do superlotado meio-campo do Náutico

Primeiro onze

Roth repetiu o sistema pelo quinto jogo seguido, mandando a campo um 4-3-1-2 losango formado por Fábio no gol, Léo novamente mais preso na lateral direita, Everton mais solto na esquerda, e Rafael Donato e Mateus fechando o centro da defesa. De volta ao time, Leandro Guerreiro foi a base do meio-campo, que ainda tinha Tinga pela esquerda e Charles pela direita. Substituto do vetado Montillo, Souza foi o homem de ligação no topo do losango, pensando o jogo para Wallyson e Borges.

Alexandre Gallo certamente estudou as partidas do Cruzeiro. O Náutico entrou armado num 3-4-2-1 variava para um 3-5-1-1, lotando o meio campo. O gol de Gideão foi protegido por Ronaldo Alves, Alemão e Jean Rolt. No meio, uma linha defensiva alta, com Patric na direita correndo por todo o flanco com Everton, João Paulo na esquerda tentando explorar as costas de Léo, e Dadá e Souza combatendo muito pelo centro, junto com Martinez, que tinha mais liberdade para se juntar ao ataque formado por Lúcio atrás de Araújo.

Alta densidade demográfica

Logo nos primeiros minutos já ficava claro a tônica da primeira etapa: o time visitante, com dois homens a mais no meio-campo, tinha mais opções de passe e ficou mais com a bola no pé. Os jogadores cruzeirenses apertavam a marcação, mas sempre havia um pernambucano livre. Porém, com poucos alvos à frente, o meio-campo do Náutico não produziu nada muito incisivo. As principais jogadas do adversário vinham pelos flancos, principalmente pelo esquerdo, onde Léo ficava mais preso e esperava o avanço do ala esquerdo João Paulo.

A superlotação do setor central fazia o Cruzeiro ficar sem espaço para pensar o jogo quando tinha a bola, recorrendo a passes arriscados e errando a maioria deles, aumentando ainda mais a posse de bola do time adversário. Com o tempo, o Cruzeiro passou a ignorar o meio-campo e procurar a ligação direta, mas Borges não tem perfil de disputa pelo alto e quase sempre perdia. E mesmo quando ganhava, a segunda bola era sempre do Náutico, pelo simples fato de ter mais gente por perto.

A ponta direita

Outro fator tático interessante do primeiro tempo foi a postura de Wallyson. Como em quase todos os esquemas com três zagueiros, as áreas mais vulneráveis do sistema pernambucano eram os flancos de sua defesa. Quando o time adversário tem um jogador aberto no ataque, ou um zagueiro tem que sair da área para cobrir, ou o ala perde a vantagem de marcar à frente e tem que recuar. Infelizmente, Wallyson não repetiu as boas atuações táticas das últimas partidas e insistia em ficar próximo a Borges, talvez numa tentativa de fazer número. Do outro lado, Everton não apoio tanto devido ao posicionamento alto de Patric, mas mesmo assim criou algumas boas jogadas, como no passe recebido de Souza por cima da defesa em velocidade.

No intervalo, as equipes não mexeram nas peças, mas Celso Roth percebeu o problema na ponta direita e chamou a atenção de Wallyson, que voltou jogando mais aberto. Imediatamente a equipe melhorou de produção e chegou a criar três boas oportunidades, todas pela ponta direita e com a participação de Wallyson. O bandeira deu três impedimentos seguidos. Estranhamente, o time parou de jogar por ali, recorrendo cada vez mais às bolas longas para a disputa pelo alto e tentativa de pegar a sobra — o chamado jogo de “primeira e segunda bola” que Celso Roth tanto menciona em suas entrevistas quando se refere ao tipo de jogo praticado no Independência.

Um erro e um acerto

Aos 15 minutos, os primeiros movimentos dos treinadores: Gallo mandou Kim, mais veloz, na vaga de Araújo, e Lúcio deu lugar a Rogerinho. O sistema permaneceu. No Cruzeiro, Celso Roth tirou Charles, contundido, e lançou Wellington Paulista. Estava claro que ele queria insistir na disputa pela primeira bola no alto, e WP consegue fazer isso melhor do que Borges. Mas o novo 4-3-3 cruzeirense tinha ainda menos jogadores no meio, e tomou um susto justamente no flanco que Charles protegia — o direito. Kim passou por Donato e tocou a João Paulo, que entrava sem marcação na área. Ele centrou, mas Souza não conseguiu finalizar.

Roth então iluminou-se e tirou Wallyson do jogo, mandando Élber fazer a função de ponteiro direito, um pouco mais longe da área, fechando o lado, mas aberto e procurando a velocidade. E mal o garoto entrou, já criou problemas: três lances de perigo pelo lado direito, o terceiro resultando na falta que originou o primeiro gol. O gol foi um lance de oportunismo de Borges, mas na opinião deste blogueiro, era questão de tempo, com o lado esquerdo pernambucano sendo explorado por Élber com qualidade.

Espaço

Após as alterações, Élber explorando a vulnerabilidade do flanco esquerdo do Náutico e Sandro Silva igualando o número de jogadores de meio, no 4-3-2-1 que pendia para a direita

Gol este que mudou o panorama da partida. O Náutico, naturalmente, teve que abandonar sua estratégia de lotar o meio-campo e atacar. Gallo gastou sua última cartada mandando o atacante Romero a campo no lugar do volante Dadá. Os três zagueiros permaneceram compondo a última linha do agora 3-4-1-2 pernambucano. Um minuto depois, Borges sairia para a entrada de Sandro Silva, e assim o Cruzeiro tinha dois volantes puramente de marcação à frente da área — um 4-3-2-1 torto: cinco contra cinco no meio, mas sem um jogador pela esquerda do ataque.

Mas não fez diferença, porque quem ultimamente tem dado amplitude pela esquerda é Everton. Foi com ele que nasceu o segundo gol, em uma belíssima linha de passe. Everton puxou o contra-ataque por aquele lado, tocou a WP que estava aberto pela esquerda. Num altruísmo surpreendente para um atacante, WP devolveu a Everton, que já estava pelo meio. Ele viu Élber do outro lado, vindo como um raio e sem marcação — da forma como Wallyson devia fazer desde o primeiro tempo. O jovem dominou e fuzilou no canto esquerdo alto de Gideão.

O segundo gol matou a reação pernambucana, que desistiu de marcar pressão em cima do campo e ficou assistindo a defesa cruzeirense tocar a bola. Era só esperar o apito do árbitro, mas ainda havia tempo para mais. Tinga, que não fez uma boa partida nem técnica nem taticamente, explorou a defesa avançada e entregue do Náutico, alcançando a linha de fundo e centrando rasteiro para WP fazer o dele no fim da partida.

Conclusão

A vitória pode ter sido a maior do Cruzeiro no campeonato, mas não pode esconder alguns erros táticos cometidos, principalmente no primeiro tempo. Wallyson voltou a oscilar taticamente, e com isso seu jogo técnico também cai. Além disso, Celso Roth precisa arrumar um jeito de sair da armadilha dos 3 zagueiros e a consequente lotação do meio-campo, se quiser continuar jogando com o 4-3-1-2 losango.

Mas há pontos positivos. Everton, que foi muito contestado no início do ano — e mesmo neste campeonato no jogo contra o Grêmio — mais uma vez, demonstrou consistência pela esquerda: por ora, o problema da lateral está, no mínimo, atenuado. Na direita, Léo jogou “improvisado” — por falta de uma palavra melhor — pela terceira vez seguida, também sem comprometer. E Élber, um garoto ainda, mostrando ter competência para ser um reserva que pode mudar a cara da partida, principalmente jogando na função de ontem: ponteiro pela direita. Já vislumbro um time com Montillo e Élber de ponteiros…

Celso Roth disse na entrevista coletiva que torce para que o tão sonhado “equilíbrio” esteja começando a ser encontrado. É o que todos torcemos, e que, pelo menos a princípio, parece mesmo estar sendo alcançado.



Náutico 0 x 0 Cruzeiro – Em branco de novo

Mostrando evolução defensiva mais uma vez, mas com uma queda brusca de criatividade, o Cruzeiro não sofreu gol de um esforçado Náutico no Recife. Mas também não fez, num jogo fraco tecnicamente pela segunda rodada do Brasileirão 2012.

O 4-2-2-2 torto cruzeirense da primeira etapa: quem dá amplitude de ataque pela direita?

O esquema de jogo mudou de Celso Roth mudou em relação à primeira rodada, com Everton saindo para a entrada do recém-contratado Tinga. Ambos são volantes de origem que jogam como meias, mas a diferença é que Everton joga mais aberto, e Tinga centraliza mais – região onde Montillo atua mais costumeiramente. A solução encontrada por Celso Roth para escalar ambos foi adiantar o argentino, transformando-o num segundo atacante. Souza trocou de lado e foi para a esquerda, e o Cruzeiro ficou num 4-2-2-2 torto, com Charles novamente tendo mais liberdade do que Amaral para sair com a bola.

O Náutico de Alexandre Gallo entrou num 4-2-2-1. Não, eu não errei a conta: somente 9 dos jogadores de linha guardavam posição. Araújo era servido por Cleverson e Ramon, e os 4 defensores tinham a proteção de Elicarlos e Glaydson. Derley, o jogador que faltou, ficou com a missão de ser a sombra de Montillo, e perseguia o camisa 10 por todo o campo, onde quer que fosse, até mesmo quando a posse de bola era do time da casa. O resultado é que o esquema do Náutico ficou bem difícil de definir. Por vezes parecia mais um 3-4-1-2, já que Derley afundava na caça à Montillo e com isso os laterais puderam atuar bem avançados, alinhados aos volantes.

Com o recuo de Derley no encalço de Montillo, os laterais avançavam, quase se alinhando ao dois meias atrás de Araújo no 4-3-2-1 (3-4-2-1) do Náutico

O Cruzeiro começou o da mesma forma que contra o Atlético/GO: marcando alto no campo. Deu certo, pois ora o Cruzeiro retomava a posse em uma posição melhor, ora a qualidade do passe do time da casa era muito reduzida, ocasionando chutões ou passes afoitos, facilitando os desarmes. O resultado foi mais posse de bola, e como a escola Barcelona nos ensina, consequentemente mais passes e mais finalizações, correto? Errado. O Cruzeiro teve um aproveitamento tanto de passes quanto de finalizações menor do que na primeira rodada. Das 9 conclusões, só uma foi ao alvo, o pior aproveitamento entre todos os times nas duas rodadas, de acordo com números da ESPN Brasil.

Ainda, com Souza preso do lado esquerdo, Tinga mais por dentro e Montillo tentando ser um segundo atacante, o time pouco usava o lado direito do ataque. Quando Montillo caía por ali, sempre acompanhado de Derley, acabava cercado por mais adversários. Lúcio, sem ter a quem marcar, jogou avançado e prendeu Diego Renan. O resultado é que, neste jogo, o Cruzeiro concentrou 10,6% da sua posse de bola na ponta esquerda contra 6,39% do outro lado. Contra o Atlético/GO, estes números eram 5,6% e 12,21% respectivamente, um indício de quanto Souza é atualmente responsável por fazer a bola chegar ao ataque.

O Náutico, sem opções, optou por esperar o Cruzeiro em seu campo para jogar na transição ofensiva, também conhecida como contra-ataque. Mas não obtinha muito sucesso, já que a defesa azul estava bem postada e não deixava espaços aos atacantes pernambucanos. Além disso, o Náutico conseguiu ter um aproveitamento de passes ainda pior que o Cruzeiro: apenas 80,4% de acerto (contra 82,68%).

A solidez defensiva é boa notícia, mas isso se refletiu na criatividade do time. Como já dito, poucos passes trocados, pouca qualidade nos que eram e poucas finalizações no alvo, apesar da maior posse de bola no primeiro tempo. Souza se movimentava pouco, preso na esquerda, Montillo parou na marcação implacável de Derley e Tinga foi um lutador, aparecendo para jogar em todos os setores do campo, mas recebendo poucas bolas e dando passes mais seguros (como se espera dele). Assim, foi uma primeira etapa chata, a não ser por uma bobeada de Fábio ao dominar com os pés que o Náutico não conseguiu aproveitar, e por um lance curioso do juiz que “desexpulsou” Charles ao transferir o que seria o segundo cartão amarelo do volante para Diego Renan, que também estava no lance. Sorte do camisa 7, pois foi ele de fato quem fez a falta.

No fim, Cruzeiro num 4-3-1-2 muito defensivo, com vários jogadores recuando demais

No segundo tempo o Náutico veio com mais gás, ou o Cruzeiro veio com menos, e a pressão alta já não era exercida. Com William Magrão, mais um estreante, no lugar do amarelado e “desexpulso” Charles, o Cruzeiro manteve o esquema, mas decidiu se afundar e sair na boa, dando liberdade para o primeiro passe dos volantes do Náutico. Derley até esqueceu Montillo por alguns momentos para tentar uma jogada mais profunda para seus companheiros, que agora tinham Rhayner e Souza nos lugares de Cleverson e Glaydson. O primeiro jogou como meia-atacante, fazendo mais companhia a Araújo; o segundo entrou como volante pela esquerda, no mesmo local onde Glaydson atuava: seis por meia dúzia em termos táticos, mas com pernas descansadas e com mais liberdade para infernizar a vida de Diego Renan e Amaral. Era um 4-3-2-1 com cara de 4-3-1-2.

A qualidade defensiva mostrada no primeiro tempo aos poucos foi sendo minada, com algumas falhas individuais que poderiam comprometer todo o plano. O trio ofensivo do time de Pernambuco promovia movimentação e atuavam sempre próximos, tentando confundir a marcação azul. Diego Renan ficou cada vez mais preso, e os volantes já não tinham liberdade para manter a posse da bola, mesmo que ineficiente, como no primeiro tempo. A situação estava se invertendo.

Aos 15, Celso Roth enxergou o óbvio e sacou Souza, mais lento, e promoveu a entrada de Everton. O volante foi jogar na mesma posição que jogou no primeiro jogo, aberto pela esquerda. Mas infelizmente a situação não mudou: o Náutico continuava encurtando os espaços e até obrigou Fábio a fazer algumas defesas difíceis. Alexandre Gallo então soltou o time de vez, com Rodrigou Tiuí na vaga de Ramon para fazer um 4-3-3, e Celso Roth respondeu logo em seguida lançando Wallyson no lugar do cansado Tinga. Wallyson foi fazer companhia ao inoperante WP e Montillo recuou para sua posição de origem. O Náutico tinha, de fato, apenas um volante, principalmente se considerarmos que Derley continuava vigiando Montillo de perto, e o argentino o arrastava para fora de posição (se é que havia uma para o camisa 150).

O Cruzeiro só foi ter uma posse de bola mais tranquila aos 29 minutos, que parou num impedimento de WP. Pouco para quem marcava pressão com sucesso no início da partida a agora recuava suas linhas para tentar um chutão de contra-ataque para os atacantes. Até Montillo, que normalmente não recua tanto, estava jogando à frente da sua própria área cercando os espaços do trio ofensivo.

6-3-1?

Mas não teve de fazer muito esforço, já que o Náutico martelava, mas já não finalizava tanto e se contentava com jogadas de bola parada. Talvez pelo cansaço do adversário, nos últimos minutos o Cruzeiro conseguiu segurar mais a bola, mas sem o ímpeto do ataque. Só podia dar em um zero a zero entediante.

Jonathan Wilson, autor do livro Inverting the Pyramid: A History of Football Tactics, disse bem em seu blog no The Guardian: “Simetria não é essencial, mas o equilíbrio é”. O Cruzeiro jogou sem simetria mas mostrou que agora sabe se defender melhor. Mas agora precisa encontrar equilíbrio e mostrar que sabe atacar também, como o próprio Roth disse na coletiva após o jogo.

Melhor pra ele, pois aqui é Cruzeiro: futebol ofensivo sempre foi a nossa marca. Chega de zero a zero, eu quero é ver gol.