Cruzeiro 3 x 0 Botafogo – O time da moda

Muito já se falou sobre o jogo de quarta-feira (leia as análises de André Rocha, do blog Olho Tático do ESPN.com.br, e de Léo Miranda, no blog Painel Tático na Globo.com). Obviamente, por ser inegavelmente o jogo mais esperado da rodada, do líder contra o vice-líder, ambos com sequências de vitórias incomuns em Campeonatos Brasileiros (7 celestes contra 4). E os textos contém muitos pontos importantes e descrevem bem a partida, mas o Constelações não poderia ficar de fora, já que é o único blog de tática exclusivo sobre o Cruzeiro Esporte Clube, o líder incontestável do Brasileirão 2013.

O jogo foi de domínio cruzeirense na primeira etapa e de equilíbrio na segunda — em que pese as propostas das equipes terem se alterado no intervalo.

Esquemas táticos iniciais

A diferença entre os 4-2-3-1 de ambas as equipes era a intensidade, e Borges se aproximando dos meias para dar velocidade às trocas de passes

A diferença entre os 4-2-3-1 de ambas as equipes era a intensidade, e Borges se aproximando dos meias para dar velocidade às trocas de passes

O Cruzeiro foi para o jogo no tradicional 4-2-3-1 de Marcelo Oliveira, apenas com a volta de Ceará à lateral direita no lugar de Mayke, que jogou contra o Atlético-PR. O resto da linha defensiva foi igual à daquele jogo, com Egídio na lateral esquerda, Dedé de zagueiro direito e Bruno Rodrigo na zaga esquerda, protegendo o gol de Fábio. Nilton e Lucas Silva fizeram mais uma vez a dupla volância para dar suporte à linha de três meias, com Ribeiro partindo da direita, Goulart se movimentando do centro para as pontas e Willian fazendo a diagonal da esquerda para a área, se aproximando do centroavante Borges.

Oswaldo de Oliveira também armou seu Botafogo no 4-2-3-1 que vem utilizando na temporada toda. De volta da Seleção, o goleiro Jefferson teve sua meta defendida pelos zagueiros Bolívar e André Bahia — este último na vaga do suspenso Dória. Nas laterais, Edilson ficou pela direita e Júlio César foi o esquerdo. Marcelo Mattos fez a marcação principal e Renato tinha um pouco mais de liberdade no meio-campo defensivo, tentando se juntar ao trio formado por Lodeiro, Seedorf e Rafael Marques. Na referência do ataque, Elias.

Pressão na saída

Como vem se tornando comum em jogos no Mineirão, no início do jogo, o Cruzeiro procurou dar o máximo de intensidade, tanto na ofensiva quanto na marcação. Pressionava os zagueiros do Botafogo, forçando-os ou a passes longos — que ficavam quase sempre com a defesa celeste — ou a erros que entregavam a posse da bola perto da sua própria área, ou mesmo dentro dela, como no passe errado de André Bahia que Borges recebeu de presente dentro da área, logo a 3 minutos. Bolívar se recuperou e travou a conclusão.

Já quando tinha a bola, a “novidade” foi o posicionamento de Borges, um pouco mais recuado junto aos três meias, que naturalmente já jogam mais próximos uns dos outros. O camisa 9 ficou mais longe da área e não teve tantas chances de conclusão, mas ofereceu uma linha de passe rápida para dar seguimento e velocidade às jogadas. Destaque para um lance de condução de Goulart, que tabelou com Borges e passou a Willian já dentro da área, com Bolívar travando o chute no último instante.

Verticalidade x cadência

O Botafogo demorou uns dez minutos para passar da linha divisória, tamanho o controle do jogo que o Cruzeiro exercia. Porém, depois dos quinze minutos iniciais, o Cruzeiro arrefeceu um pouco e passou a variar mais a altura da pressão: ora buscava encurtar em cima dos zagueiros e laterais botafoguenses para forçar o chutão, ora fechava o meio-campo e deixava o time carioca com a bola. Com isso o Botafogo cadenciou, pois lhe era vantajoso tirar a intensidade do Cruzeiro naquele momento.

A estatística de posse de bola foi virando lentamente, muito devido aos estilos contrastantes. O Cruzeiro recuperava a bola e aplicava velocidade, tentando resolver rápido a jogada para pegar os defensores cariocas fora de posição e recuando para a sua própria área, e o Botafogo tentando abrir um espaço no excelente sistema defensivo do Cruzeiro. A estratégia cruzeirense acabou funcionando melhor, com Jefferson trabalhando em conclusões de Ribeiro e Willian, além de dois lances de cruzamento rasteiro que por pouco não foram empurrados para o gol, um de cada lado.

Já o Botafogo pouco ameaçou a meta de Fábio. O bom jogo defensivo dos laterais foi um fator, mas Lucas Silva fez uma partida excelente, conseguindo ganhar a maioria dos embates com Seedorf. Isso acabou por fazer o holandês procurar espaços longe da área, para ter tempo com a bola e armar o time de trás, tentando fugir da marcação de Lucas.  Fábio só trabalhou em chute de Elias na entrada da área, mas trabalhou muito bem.

O gol e a mudança

É difícil falar em justiça no futebol, porque este blogueiro sempre acredita que o placar do jogo é o mais justo. Mas merecimento é diferente, e se tinha de haver um vencedor no primeiro tempo, este tinha de ser o Cruzeiro. E no último lance do primeiro tempo isso se comprovou, num repeteco do lance do gol contra o Atlético/PR: escanteio da direita, Dedé segurando o marcador e Nilton sozinho completando de pé para o gol. Desta vez, porém, o volante pegou mais bonito na bola para fazer um golaço.

Apesar de não terem modificações, os times voltaram diferentes. Talvez pela vantagem que conseguiu, o Cruzeiro voltou mais calmo e assistindo o Botafogo trocar passes em sua defesa, provavelmente mais cansado pela intensidade do primeiro tempo. E por isso mesmo o Botafogo, que também tem jogadores de qualidade, imprimiu mais velocidade e foi acuando o Cruzeiro, aos poucos, até que Seedorf, naquele que talvez tenha sido seu único bom lance na partida, deu um belo passe e achou Rafael Marques livre de marcação na área. Bruno Rodrigo tentou tirar, e o zagueiro acabou chutando a perna do atacante botafoguense, que já havia sido dominada por ele. A bola de Seedorf no pênalti passou rente à trave direita, e isso foi o mais perto que o Botafogo chegaria do gol de Fábio.

Trocas

O Botafogo sentiu a perda do pênalti por sua maior referência em campo, e deixou de atacar tanto o Cruzeiro. Mas àquela altura o time celeste já estava no modo “contra-ataque para matar o jogo”, e novamente o Botafogo teve mais a bola nos pés, apesar de não levar tanto perigo como antes do pênalti.

Marcelo Oliveira se viu obrigado a trocar Nilton por Henrique devido a uma lesão do volante-artilheiro, mas aproveitou para lançar Júlio Baptista na vaga de Borges. Júlio foi ser o central e Goulart passou para a referência, mas depois sairia para a entrada de Dagoberto, que foi ser ponteiro direito, com Ribeiro passando a ser o central e Júlio o centroavante. No Botafogo, Oswaldo de Oliveira mandou Hyuri na vaga de Renato, fazendo um 4-3-3 com Marcelo Mattos de único volante e Seedorf tendo a companhia de Rafael Marques no meio-campo ofensivo, e depois lançou Alex na vaga de Elias na referência.

As trocas fizeram a intensidade cruzeirense ser retomada, principalmente nos contra-ataques. E foi numa transição rápida, em bola roubada por Bruno Rodrigo, que Everton Ribeiro entrou driblando na área, caiu e o juiz marcou pênalti duvidoso. Júlio converteu e praticamente matou o jogo. Oswaldo ainda tentaria uma última cartada, com Henrique no lugar de Rafael Marques, lotando o setor ofensivo com dois centroavantes e dois jogadores abertos. Henrique chegou a fazer Fábio defender uma bola, mas um contra-ataque mortal puxado por Júlio Baptista e muito bem concluído pelo próprio em um drible de corpo deu a oitava vitória seguida ao Cruzeiro.

O site WhoScored.com mostra equilíbrio nas finalizações, mas com o Cruzeiro sendo muito mais eficiente (10 chutes certos contra 3)

O site WhoScored.com mostra equilíbrio nas finalizações, mas com o Cruzeiro sendo muito mais eficiente (10 chutes certos contra 3)

Cara de campeão

A proposta de jogo cruzeirense já é bem conhecida: marcação a partir dos atacantes sem a bola, e aproximação e troca de posição dos meias e ultrapassagem dos laterais com a bola nos pés, tudo isso feito com muita intensidade. É claro que nenhuma proposta é perfeita — às vezes o Cruzeiro dá muito espaço, deixando os adversários com tempo demais com a bola nos pés. Porém, seja quando os adversários mudam sua forma de jogar, seja quando não o fazem e exploram os pontos menos fortes do Cruzeiro, como o Botafogo fez, a vitória vem.

Além disso, o comprometimento dos jogadores com o objetivo de campeonar ficou claro na saída para o intervalo, quando o repórter do PFC tentou entrevistar Nilton. O jogador não conseguiu falar devido à emoção de ver a torcida enlouquecida com o seu gol. Indício de comprometimento e motivação.

Se o Cruzeiro vencerá o torneio, ainda é cedo para dizer. Mas que estes ingredientes dão à equipe uma cara de campeão, ah, isso dão.



Flamengo 1 x 0 Cruzeiro – Sempre em frente

Esta postagem está atrasada. Deveria ter sido escrita na quinta, um dia após a queda nas oitavas de final da Copa do Brasil. Porém, é preciso lembrar que, antes de ser blogueiro, este que vos fala é cruzeirense de carteirinha — literalmente. Não sou jornalista, e este blog é iniciativa pessoal e voluntária. Por isso, me reservei ao direito de não escrever ainda no calor do revés. Entretanto, acabou sendo melhor para poder balizar a postagem com as reações de todos perante a este resultado inesperado. Ouvi e considerei opiniões e explicações de comissão técnica, jogadores, direção, torcedores e analistas da grande mídia, e elas estão todas de uma forma ou de outra neste texto abaixo.

Não foi possível identificar um único fator que fosse determinante para esta eliminação. Antes de Leandro Guerreiro deixar Elias sem marcação para a conclusão fatal, Vinicius Araújo havia perdido mais de uma chance frente a frente com Felipe. Porém, antes disso, o Cruzeiro já havia saído de sua característica principal, que é marcar mais à frente quando não tem a bola. Porém, muito antes disso tudo acontecer, Dedé havia falhado naquele gol no Mineirão, mas isso foi só depois de o ataque perder muitos gols que poderiam ter aumentado a vantagem.

Mas este blog é sobre a tática da partida, então vamos a ela.

Formações

Na primeira etapa, Flamengo insistiu pela direita usando um híbrido 4-3-3/4-2-3-1, mas o Cruzeiro passou poucos sustos

Na primeira etapa, Flamengo insistiu pela direita usando um híbrido 4-3-3/4-2-3-1, mas o Cruzeiro passou poucos sustos

Ao contrário do que muitos “profetas do acontecido” disseram após o jogo, Marcelo Oliveira não postou um Cruzeiro diferente das características do Brasileirão. Prova disso é a escalação de Lucas Silva na vaga de Souza, lesionado, como parceiro de Nilton na volância do 4-2-3-1. Fosse uma postura de defender o resultado, Leandro Guerreiro teria sido a melhor opção. Assim, a meta de Fábio foi defendida por Dedé e Bruno Rodrigo, com Ceará e Egídio nos flancos. Nilton e Lucas Silva davam o suporte para o trio de meias mais móvel da temporada até aqui, com Everton Ribeiro à direita, Willian à esquerda e Ricardo Goulart centralizado, atrás de Borges no ataque.

Já Mano Menezes mudou em relação à partida no Mineirão. No papel parecia ser o 4-3-3 (ou 4-1-2-3) costumeiro, mas ao longo do primeiro tempo tinha cara de 4-2-3-1 com uma inversão de papéis pelo lado esquerdo. O goleiro Felipe viu Luiz Antônio à direita e João Paulo à esquerda, fechando os lados da defesa composta por Chicão e Wallace. Víctor Cáceres, que normalmente é o volante único, teve mais a companhia de Elias, que não estava em sua condição física ideal. Rafinha era o ponteiro direito clássico, preso daquele lado, e Carlos Eduardo e André Santos revezavam entre o centro e a esquerda, com o primeiro se movimentando mais pelo centro. Na frente, apenas Marcelo Moreno.

Estratégias

Como era previsto, o Flamengo tentou ser intenso logo no início, tentando pegar carona na euforia da torcida. O Cruzeiro, porém, marcou em bloco alto — com os meias e atacantes fazendo pressão nos zagueiros e volantes do Flamengo. Que é a característica do time. Quando o time da casa conseguia passar pela pressão inicial, encontrava uma defesa sólida que só dava espaços pelos lados, apesar da partida inconstante de Lucas Silva no centro.

E foi pelos flancos que a equipe carioca deu alguns sustos, principalmente pela esquerda, com Luiz Antônio bem insistente no apoio e Rafinha prendendo Egídio. Willian até voltava para ajudar e conseguia de certa forma, com o Flamengo chegando muito mais no ímpeto do que no toque de bola.

Do outro lado, no entanto, Ceará controlava o setor com mais tranquilidade. André Santos tinha dificuldades em vencer o camisa 2, e João Paulo não apoiava tanto, facilitando o trabalho defensivo de Everton Ribeiro. Aos poucos, o Cruzeiro começou a conseguir concatenar mais passes no seu próprio campo, fugindo da intensidade carioca. Lentamente, o Flamengo foi deixando de marcar o Cruzeiro no seu próprio campo, e o tine celeste conseguiu fazer um primeiro tempo bem controlado defensivamente.

Os dados da Footstats mostram a preferência do Flamengo pela direita: 41,31% do tempo de posse

Os dados da Footstats mostram a preferência do Flamengo pela direita: 41,31% do tempo de posse

Já quando tinha a bola, o Cruzeiro não foi tão eficiente quanto vinha sendo. A estratégia de cadenciar, tirando a velocidade do jogo, foi certamente um dos fatores, já que este Cruzeiro é um time que sabe jogar melhor com intensidade na criação. Outra causa foi o alto índice de passes errados no terço final do campo — o famoso último passe, o decisivo, o passe para gol. Foram 25 contra 18 do Flamengo, o que é muito considerando a menor posse de bola (45% x 55%). Mesmo assim, esteve mais perto de abrir o placar que o Flamengo, quando Dedé completou escanteio com o pé direito e o zagueiro Chicão salvou com Felipe já vendido.

Mais para o fim do primeiro tempo, veio o primeiro sinal de que o jogo poderia ser mais perigoso do que devia: a marcação dos meias e atacantes havia recuado lentamente, e Borges já estava sendo visto atrás da linha de meio-campo, sem correr atrás dos zagueiros para pressioná-los. Nunca saberemos ao certo a causa disso, mas o caráter decisivo do jogo e o resultado favorável podem ter contribuído para o inconsciente dos jogadores.

O intervalo misterioso

Marcelo Oliveira e Fábio já disseram em entrevistas após o jogo que era preciso avançar novamente a marcação. E assim foi combinado no vestiário. Porém, não foi o que aconteceu. A marcação continuou baixa demais, sem pressão e sem intensidade na frente. Isso chamou ainda mais o Flamengo a avançar, o que já seria certo devido à desvantagem no resultado agregado.

Além disso, Mano tirou Cáceres e lançou Paulinho, que é atacante, na lateral direita, empurrando Luiz Antônio para sua posição de origem. Elias também foi fazer mais companhia a Carlos Eduardo, e assim foi formado um 4-3-3 mais claro. Com as linhas adiantadas e jogadores estritamente ofensivos em posições de defesa, e com o Cruzeiro continuando a errar passes e marcar muito atrás, o volume de jogo do Flamengo continuou. Naquele momento, a partida foi bem definida pelo narrador da ESPN Brasil como “ataque contra defesa”.

Incrivelmente, Fábio nada teve que fazer durante este tempo todo. Se você assistir aos melhores momentos da partida, verá que o goleiro celeste não fez nenhuma defesa. O Flamengo tinha mais a bola, mas não conseguia fazer nada muito bom com ela. A rigor, até os 28, foram só duas finalizações no segundo tempo, ambas de Moreno e para fora.

Contra-ataques

Aos 28, os treinadores fizeram suas segundas trocas — Borges já havia deixado o campo lesionado para a entrada de Vinicius Araújo. Mano Menezes tirou Carlos Eduardo e lançou Adryan, mais meia-atacante do que meia de criação, com presença de área. Já Marcelo Oliveira colocou Martinuccio em campo na vaga de Éverton Ribeiro, que já estava amarelado e visivelmente nervoso. Willian passou à direita.

A partir daí, foram quase 10 minutos de um jogo muito bom. Martinuccio deu a movimentação e a intensidade que o Cruzeiro precisava para sair de trás, e gerou três lances de perigo com Vinicius Araújo. O primeiro em passe de Willian, em que ele fez um corta-luz e deixou Vinicius dentro da área, mas a finalização saiu muito errada. Depois, recebeu pela esquerda e acionou Vinicius no meio da área para marcar, mas em impedimento. E por fim, deu um passe sensacional para o camisa 30 ficar frente a frente com Felipe, mas Vinicius não conseguiu driblá-lo e saiu com bola e tudo.

Cedo demais?

No fim, Flamengo lotou a grande área para usar bola aérea, e Marcelo quis fechar os flancos com a entrada de Guerreiro -- funcionou exceto por um único lance...

No fim, Flamengo lotou a grande área para usar bola aérea, e Marcelo quis fechar os flancos com a entrada de Guerreiro — funcionou exceto por um único lance…

Aos 36, Marcelo Oliveira sentiu que era a hora de defender o resultado, e tirou Willian de campo e lançou Leandro Guerreiro. O volante foi para o centro do meio-campo defensivo, empurrando Nilton para a esquerda e Lucas Silva para a direita, fazendo um 4-3-2-1 bem recuado, com a intenção de fazer 3 contra 2 pelos lados e evitar a única arma que o Flamengo ainda tinha — o chuveirinho na área. Tese que foi provada pela entrada de Hernane na vaga de André Santos, ou seja, mais um centroavante, mais um alvo na área para os cruzamentos. O Flamengo jogava àquela altura numa espécie de 4-2-4, mas bem desorganizado e na base do desespero.

Em certa medida, deu certo, exceto pelo lance fatal. Egídio decidiu subir a pressão no momento errado e foi driblado, deixado Martinuccio e Nilton no mano a mano pelo lado esquerdo e gerando um efeito cascata nas coberturas. Nilton não conseguiu impedir o cruzamento rasteiro de Paulinho para Elias, sozinho na entrada da área, concluir no canto direito e fechar o jogo aos 43. Já não havia mais tempo.

A derrota ensina

O resultado só é doloroso porque sabemos do que o Cruzeiro já é capaz de fazer. Ninguém é líder do Brasileirão na 16ª rodada por acaso ou por sorte. É competência. Mas a Copa do Brasil é uma competição diferente, porque são apenas dois jogos — um erro é muito mais determinante. E o Cruzeiro cometeu vários pequenos, que se tornaram poucos grandes e decidiram o confronto.

Porém, é preciso lembrar sempre que 2013 ainda é o primeiro ano desta equipe. Parece desculpa, mas não: o time ainda está em formação. Talvez não na questão do entrosamento, que obviamente veio antes do “normal”. Mas existe uma coisa que pode ainda não ter chegado: a maturidade para lidar com jogos muito decisivos. Ribeiro, Goulart, Vinicius e Lucas Silva são exemplos de jogadores jovens e com pouca experiência em decisões. Além disso não é somente a experiência dos jogadores individualmente que conta neste quesito. Também é preciso levar em conta a experiência da equipe como um todo — c Corinthians contra o Tolima é um bom exemplo. Foi somente a segunda decisão de grande importância deste grupo.

Nas derrotas também vem um crescimento. E é nisso que todo cruzeirense deve acreditar, até o fim do Brasileirão.



Cruzeiro 5 x 1 Vitória – Variedade e qualidade

Mesmo sem os considerados titulares Bruno Rodrigo, Souza e Luan, suspensos, o Cruzeiro se impôs no Mineirão contra o Vitória. A manutenção da qualidade do futebol apresentado prova que o elenco celeste é muito bom, quiçá um dos melhores do país. Taticamente, a partida mostrou um Cruzeiro que sabe se adaptar sem alterar seu estilo, e que consegue atacar por todos os lados com a mesma qualidade.

Além disso, a goleada “recuperou” o saldo perdido nos últimos jogos, quando a produção ofensiva não tinha sido a mesma do restante da temporada, muito por causa do alto índice de chances criadas e não aproveitadas — que ainda persistiram nesta partida, mas em menor grau.

Os onze

Depois do 1x0, Caio Jr. inverteu Vander para marcar Egídio, deixando Mayke livre para jogar com Everton Ribeiro; e Goulart ia para os flancos para fugir do trio de volantes centralizados

Depois do 1×0, Caio Jr. inverteu Vander para marcar Egídio, deixando Mayke livre para jogar com Everton Ribeiro; e Goulart ia para os flancos para fugir do trio de volantes centralizados

As três suspensões já obrigariam Marcelo Oliveira a mudar mais peças do que a média das últimas partidas. Porém, ainda mais trocas foram feitas: Mayke retornou e Borges entrou na vaga de Vinicius Araújo. Quase metade do time estava modificado, portanto, mas a estrutura tática se preservou. O 4-2-3-1 teve Fábio no gol, com Mayke e Egídio flanqueando Dedé e seu novo parceiro de zaga Léo. À frente da área, Nilton teve a seu lado Lucas Silva na volância, e Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart foram acompanhados por Willian na linha de três meias, tendo Borges no comando do ataque.

Caio Júnior armou o Vitória num 4-3-2-1 que variou para um 4-3-1-2, mas com o meio-campo sem formar um losango. Os volantes, Cáceres, Michel e Luís Alberto fizeram um parede à frente da área, uma linha de três homens bloqueando as ações pelo centro. Atrás deles, a linha defensiva tinha os jovens Dimas e Euler nas laterais direita e esquerda respectivamente, com os zagueiros Victor Ramos e Fabrício defendendo o gol de Wilson. Na frente, Renato Cajá tinha a missão de armar o jogo partindo do centro, com Vander a princípio mais recuado à esquerda e Maxi Biancucchi sozinho à frente.

Dando a volta no “muro”

O posicionamento defensivo do Vitória, inicialmente, pareceu ter dois objetivos: primeiro, fechar o lado direito, principalmente com Vander perseguindo Mayke; e segundo, bloquear as ações pelo centro, com os três volantes bem recuados e centralizados. Com isso, tinha campo para avançar até a intermediária ofensiva, quando Cáceres subia o posicionamento para bloquear o camisa 6. Porém, sem Luan à sua frente para fazer a jogada de pivô e receber de volta, Egídio não procurava tanto Willian, e o jogo não fluiu tanto por aquele lado.

Mas Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro, vendo o congestionamento à sua frente, começaram a se movimentar. Goulart procurava os flancos para fugir do muro de volantes, se apresentando com a primeira opção de passe dos laterais. E Ribeiro, além de fazer sua rota regular, saindo da direita para armar o time do centro, desta vez também deu profundidade pela direita, vendo o espaço que o jovem Euler dava por ali, levando ampla vantagem. Primeiro recebeu um lateral de Mayke para cruzar rasteiro e Willian concluir em cima de Wilson, e depois ao limpar a marcação do lateral baiano pra dentro e bater para Wilson espalmar e ceder o escanteio que originou o primeiro gol.

Vander

Não se sabe ao certo porque Caio Júnior decidiu inverter Vander de lado. Talvez ele estivesse considerando que Egídio, sendo a principal saída cruzeirense no jogo, pudesse crescer na partida e se tornar mais uma ameaça. O certo é que, depois do gol, o atacante baiano se posicionou bem aberto pela direita, combatendo Egídio assim que o lateral recebia a bola. Se antes era o camisa 6 quem tinha espaço, desta vez foi Mayke quem tinha mais liberdade. Renato Cajá tentava compensar, saindo do centro para acompanhar o lateral.

Funcionou em certa medida, mas o Cruzeiro continuou a criar e chutar a gol, dominando amplamente a posse de bola. O Vitória só finalizou três vezes no primeiro tempo, sendo duas apenas nos minutos finais. Já o Cruzeiro parecia que seria novamente atacado pelo “fantasma do pé torto”: 8 finalizações, sendo 3 certas (com um gol), 3 erradas e 2 bloqueadas.

Segundo tempo

Mas só parecia. Pois no intervalo Caio Júnior tirou um de seus volantes, Michel, para dar lugar a Dinei, centroavante de ofício, coisa que Maxi Biancucchi nunca foi. O argentino foi jogar atrás de Dinei, empurrando Renato Cajá de vez para o lado direito, formando um 4-2-3-1. A marcação encaixou, mas Éverton Ribeiro continuou levando muita vantagem sobre Euler, que não sabia como marcar o camisa 17 celeste. Renato Cajá não tinha poder de marcação suficiente para acompanhar Mayke, significando que o Cruzeiro fez a festa pelo lado direito, de onde saiu o segundo gol: Ribeiro, bem aberto pela ponta, recebeu de Nilton e viu Mayke passar como um raio às suas costas. Bola pro garoto, que chutou rasteiro e contou com o desvio do zagueiro para fazer seu primeiro gol como profissional. Já era hora.

Everton Ribeiro e Mayke foram bastante acionados, como mostra a mapa de posse de bola do Cruzeiro (Footstats)

Caio Júnior finalmente percebeu a mina de ouro que estava entregando ao Cruzeiro e tirou o garoto Euler do time, lançando o zagueiro Reniê, que foi fazer parceria com Victor Ramos no miolo de zaga. Com isso, Fabrício foi deslocado para a lateral esquerda. A tentativa de aumentar a marcação naquele lado era clara. A resposta de Marcelo Oliveira foi imediata: colocou Élber, mais incisivo, na vaga de Everton Ribeiro, provavelmente pensando em poupar o meia para a partida da Copa do Brasil contra o Flamengo. E na sua primeira jogada, Elber já mostrou a que veio, deixando Fabrício sentado no chão antes de concluir para a defesa de Wilson.

Impassível

Mesmo com a marcação mais encaixada e o zagueiro Reniê na lateral esquerda, o Cruzeiro continuou fazendo a festa pela direita, e também pela esquerda com Martinuccio

Mesmo com a marcação mais encaixada e o zagueiro Reniê na lateral esquerda, o Cruzeiro continuou fazendo a festa pela direita, e também pela esquerda com Martinuccio

Mesmo antes do pênalti cometido atabalhoadamente por Dedé em Dinei, Marcelo já preparava sua segunda mudança: Martinuccio na mesma ponta esquerda onde estava o pouco participativo Willian. E mesmo com a conversão da penalidade, Marcelo não modificou sua substituição — sinal de que confia no seu elenco e não viu o resultado ameaçado em nenhum momento. E pouco tempo depois a mudança já surtiria efeito: passe de Egídio, jogando como meia, para Martinuccio levar até o fundo e cruzar na testa de Borges e aumentar a conta.

Logo após o gol, Caio Júnior mexeu pela última vez, trocando Vander por Marquinhos, sem alterar o sistema, talvez para dar mais folêgo ao time. Mas o jogo já estava resolvido, e a defesa baiana seguiu dando espaços. O Cruzeiro passou a dominar amplamente, e consagrou o goleiro baiano Wilson. É até estranho dizer que o goleiro foi o melhor adversário em campo numa partida que terminou em goleada, mas foi o que aconteceu. Tanto Ricardo Goulart quanto Martinuccio tiveram chance de aumentar a conta, até que finalmente, Goulart fez o trigésimo gol celeste no certame em cruzamento de Élber, lançado na velocidade por Nilton.

Marcelo Oliveira ainda tinha uma troca a fazer, e quis dar moral para o garoto Vinicius Araújo, lançando-o na vaga de Borges. Ele não decepcionou: cabeceou firme pro fundo do gol a cobrança de falta pela esquerda de Egídio, fechando a goleada.

Variado e qualificado

Mais uma vez, um adversário é goleado no Mineirão pelo melhor ataque do Brasileirão. Não é pra menos: das 264 conclusões do Cruzeiro até aqui, nada menos do que 115 foram no alvo, o que coloca o Cruzeiro como o terceiro melhor aproveitamento de finalizações (43,56%), atrás de Grêmio (43,68%) e Ponte Preta (44,58%) — mas é preciso levar em conta que estas equipes tem números bem menores em total de finalizações (174 e 166, respectivamente).

Porém, o principal aspecto tático da partida foi que, mesmo com tantas peças modificadas, o time continuou jogando da mesma forma, mas se adaptando dentro de campo para sobrpeujar os diferentes esquemas defensivos dos adversários. Aparentemente, jogar contra o Cruzeiro é o problema do cobertor curto: se você cobre um setor, abre o outro para que o time ataque com a mesma qualidade (se não ainda melhor). O Cruzeiro é uniformemente bom em todos os setores: direita, centro e esquerda; zaga, meio-campo e ataque.

É claro que, quando há trocas, as características mudam. Por exemplo, como ponteiros esquerdos podem jogar Luan, Martinuccio e Dagoberto — jogadores muito diferentes. Assim como Élber, Everton Ribeiro e Willian, pela direita. Ou Borges e Vinicius Araújo na frente; Júlio Baptista e Ricardo Goulart por dentro; Lucas Silva, Henrique, Souza e Nilton — isso só mostra como Marcelo Oliveira tem opções de qualidade para mexer no time sem alterar muito a estrutura tática.

Um treinador disse uma vez que bons times ganham jogos, mas bons elencos ganham campeonatos. Mais uma razão para acreditar-se que o Cruzeiro está, sim, muito bem na briga pelo caneco.



Cruzeiro 1 x 0 Coritiba – A outra estratégia

O Cruzeiro fugiu um pouco de seu estilo tradicional diante de um adversário muito bem montado, mas mesmo assim conseguiu a vitória. E diferente da última partida, onde jogou melhor e não merecia perder, desta vez o Cruzeiro conseguiu marcar durante seu período de domínio e levar os três pontos, seguindo no encalço da liderança.

O aproveitamento máximo no Mineirão foi mantido graças ao excelente momento técnico de alguns jogadores e à entrega física de outros, mas também à variação na estratégia de jogo, ainda que algumas alterações não tenham dado certo.

O blog Painel Tático, de Leo Miranda, fez uma boa análise do jogo, mas um tanto quanto sucinta para meus gostos tão prolixos, então aqui vão as minhas impressões.

Formações

O Coritiba lotou o meio-campo com a bola, mas sem ela se movimentava para fechar os laterais cruzeirenses

O Coritiba lotou o meio-campo com a bola, mas sem ela se movimentava para fechar os laterais cruzeirenses

Marcelo Oliveira repetiu o time das últimas duas partidas e mandou a campo o mesmo 4-2-3-1 de toda a temporada. De tão rotineiro, ainda é incrível que existam torcedores que achem que o time ainda não tem um padrão tático. Novamente, o goleiro Fábio capitaneou sua defesa composta por Dedé e Bruno Rodrigo, com Mayke e Egídio nas laterais direita e esquerda. Protegendo a área, Nilton e Souza em uma dupla volância cada vez mais entrosada, se equilibrando mais entre atacar e defender ao invés de dividirem esses papéis. Mais à frente, o trio de meias, com Everton Ribeiro partindo da direita para o centro, alternando com Ricardo Goulart, e Luan mais preso à faixa esquerda, e no comando do ataque, Vinicius Araújo se movimentando para puxar a marcação e dar opção de passe.

Marquinhos Santos, substituto de Marcelo quando este deixou o Coritiba para assumir o Vasco, não tinha o talento azul Alex à sua disposição. Assim, colocou Lincoln em seu lugar, mas o time não jogou no 4-1-4-1 adaptado das últimas partidas, e sim mais numa espécie de 4-3-2-1, com algumas particularidades. A meta de Vanderlei foi protegida pelo lateral direito Victor Ferraz, os zagueiros Leandro Almeida e Chico e o lateral esquerdo Diogo. Willian era um volante mais plantado, liberando um pouco mais Gil à sua esquerda e Robinho à direita. Botinelli ficava mais avançado formando um losango “torto” com os volantes, liberando Lincoln do combate para que ele fizesse o papel de Alex. Na frente, Gil substituiu o lesionado Deivid.

Flancos fechados

Quando o Cruzeiro tinha a bola, o Coritiba se movimentava para bloquear os laterais: bola na esquerda e Gil subia o bote para cercar Egídio, com Botinelli centralizando para impedir o passe para os volantes, e Willian fazendo a cobertura diagonal. Se o Cruzeiro atacava pelo lado direito, era Robinho quem voltava com Mayke, ajudando Diogo na marcação, e novamente com Willian na cobertura. Cabia ao volante oposto ao lado da jogada marcar Ricardo Goulart. Um cerco de três contra um, efetivamente bloqueando as saídas pelo lado e todas as opções de passes próximos.

É surpreendente, portanto, que o lance do gol tenha saído justamente numa jogada de ultrapassagem de Mayke e cruzando para o outro lado para Luan. Não só pela jogada, mas pela movimentação de outros jogadores: Ricardo Goulart invertendo com Everton Ribeiro e indo para a direita; Ribeiro aprofundando para arrastar a marcação de Willian e deixar Goulart e Mayke no dois contra dois. O meia se movimentou, recebeu do lateral e devolveu uma linda bola longa nas costas de Diogo, que não acompanhou. Do outro lado, Luan já previa o destino da bola e já corria à frente de Victor Ferraz, completando o ótimo cruzamento rasteiro de Mayke. Um gol físico, tático e técnico.

De novo, intensidade

O gol foi logo aos 11, e por isso a partida não mudou muito. O Coritiba retinha mais a bola, tentando tirar a velocidade do jogo, e conseguia, pois tinha mais jogadores no centro do meio-campo. Eram praticamente cinco contra os três (ou quatro, quando Everton centralizava) cruzeirenses. Assim, o time visitante tocava a bola, mas a excelente postura defensiva do Cruzeiro repelia qualquer perigo, principalmente nas figuras de Nilton e Souza, dois dos melhores em campo no primeiro tempo.

Já o Cruzeiro, assim que recuperava a bola, tentava resolver logo a jogada, com passes agudos ou condução em velocidade na direção do gol. Mais uma vez, a razão disso foi a intensidade de marcação celeste, que forçava um erro de passe e roubava a bola já no campo de ataque, pegando a defesa do Coritiba desprevenida. E assim foram criadas as melhores chances da primeira etapa: Egídio avançando sem marcação mas demorando a decidir; Ricardo Goulart passando a Vinicius Araújo, que bateu fraco; Luan ganhando presente de Victor Ferraz e passando para Everton Ribeiro driblar seu marcador e chutar em cima de Vanderlei; e ainda outra chance de Vinicius Araújo recebendo passe de Egídio pela direita e passando por Vanderlei, mas concluindo sem ângulo pra fora.

Ainda no primeiro tempo, Keirrison herdou a vaga de Gil, lesionado, no ataque, mas sem alterar o sistema do Coritiba.

Arthur

No fim, times no losango e marcação encaixada, mas com Tinga indefinido do lado direito causando problemas para Mayke

No fim, times no losango e marcação encaixada, mas com Tinga indefinido do lado direito causando problemas para Mayke

Na volta do intervalo, o Cruzeiro partiu com tudo para ampliar e sufocou ainda mais o Coritiba, demonstrando que era possível sim ser mais intenso. Foram dez a quinze minutos de domínio, onde o Coritiba se defendeu de todas as formas. Até a entrada de Arthur na vaga de Botinelli, o Cruzeiro já havia finalizado na trave e deixando Vinicius Araújo no mano-a-mano com Vanderlei, oportunidades de ouro desperdiçadas para “matar” o confronto.

A alteração de Marquinhos Santos, porém, mudou a cara da partida. O Coritiba mudou para um losango no meio, com Lincoln no vértice da frente e Arthur fazendo companhia a Bill no ataque. Com dois atacantes, os laterais do Cruzeiro, que já estavam tendo pouca liberdade, agora tinham ainda menos e eram obrigados a alternar no apoio para garantir a sobra na defesa. A consequência direta foi que os laterais do Coritiba começaram a apoiar mais, empurrando os pontas cruzeirenses pra trás, que tinham pouco suporte dos seus laterais. Nilton e Souza faziam o que podiam no meio para diminuir os espaços.

Tentativa de resposta

Marcelo leu bem e tentou corrigir, colocando Tinga na vaga de Ricardo Goulart. O cabeludo foi ser o lado direito do agora novo losango cruzeirense, encaixando a marcação com o Coritiba. Nilton passou a ficar mais preso, Souza foi pro lado esquerdo e Everton Ribeiro solto na ligação. A segunda troca, na frente, Vinicius Araújo saiu para a volta de reestreia de Borges após a lesão. A tentativa era de reter melhor a bola na frente, ao custo da mobilidade que Vinicius entrega melhor para o time.

As alterações, porém, não funcionaram. Sem o passe de Goulart e a mobilidade de Vinicius, Ribeiro e Luan não conseguiam fazer a bola chegar a Borges, e por isso ela logo voltava para os pés dos visitantes. E quando isso acontecia, Luan até que prendeu melhor Victor Ferraz pelo lado esquerdo, mas do outro lado Tinga esperava Diogo e indefinia a marcação entre ele e Robinho. Com isso, Mayke ficou sobrecarregado e por ali o time paranaense criou algumas chances, a mais perigosa em finalização de Keirrison na trave em cruzamento de Diogo pelas costas de Mayke.

Pé no freio

Felizmente, a bola não entrou, e a partir daí, o Cruzeiro fez o que o Coritiba tentou no primeiro tempo: tirar a velocidade do jogo. O Cruzeiro tentava reter a bola nos pés, mas o Coritiba ainda era melhor nesse quesito, fazendo o jogo ficar tenso para o torcedor no Mineirão. Mesmo assim, o Cruzeiro ainda teve chances, quando na única vez em que a bola chegou com qualidade para Borges ele fez o pivô e passou a Tinga mandar por cima.

Keirrison se lesionou e foi substituído por Everton Costa, e Nilton saiu por cansaço dando lugar a Leandro Guerreiro, mas nada de mais notável aconteceu na partida e os 100% no Mineirão estavam garantidos.

Vitória de equipe

Talvez tenha sido a partida mais difícil do Cruzeiro até aqui. O Coritiba soube anular as boas opções de saída do Cruzeiro, que mudou sua estratégia para jogar na transição ofensiva, funcionando muito bem no primeiro tempo. Sinal de que o time tem qualidade para isso, só precisando acertar um pouco mais as finalizações nas chances que cria — o Cruzeiro é o time que mais finaliza neste Brasileirão.

Marquinhos Santos, porém, se mostrou ser um desafio à altura para seu ex-mentor, tentando controlar o jogo do banco de reservas com suas trocas. Marcelo respondeu com as opções táticas corretas, mas infelizmente Tinga não fez uma boa apresentação, minando a tentativa. Abrir o time com um velocista na ponta direita poderia favorecer o contra-ataque mas certamente perderia o meio-campo, o que convidaria o Coritiba a tomar o controle do jogo.

Nem sempre as alterações dão certo. E hoje algumas de fato não deram, mas mesmo assim o Cruzeiro venceu. Não acho que tenha sido sorte, mas para os que acreditam, a sorte acompanha os competentes. E acho que não há mais dúvidas quanto à competência desta equipe, e principalmente, no trabalho de Marcelo Oliveira, que pode ser ilustrada no seguinte fato: as outras equipes que estão brigando na parte de cima da tabela com o Cruzeiro tem todas um destaque individual, celebrado pela imprensa.

Pois no Cruzeiro de 2013, o craque é justamente a coletividade.



Atlético/GO 0 x 1 Cruzeiro – Sonolento mas interessante

Eu havia cogitado não escrever a respeito desta partida, pois já se sabia que o time que iria jogar não era o titular, e portanto seria uma análise isolada das outras e sem parâmetro de comparação. Porém, como o confronto já tinha sido decidido no jogo de ida, as experiências dos treinadores foram tantas que a partida mereceu um post mais curto.

Partidas que valem-mas-não-valem, como esta, são excelentes para fazer experimentos no time, pois o resultado é o que menos importa. O Cruzeiro querendo rodar o seu elenco, se preparando para a maratona de quarta e domingo que está por vir, enquanto que o Atlético Goianiense quis dar ritmo ao seu novo time, reformulado após a chacoalhada sofrida na semana passada e a derrota no jogo da Série B.

Formações

O mistão celeste no 4-2-3-1: Tinga mais contido que Lucca e espaço à frente dos dois "primeiros" volantes

O mistão celeste no 4-2-3-1: Tinga mais contido que Lucca e espaço à frente dos dois “primeiros” volantes

Marcelo Oliveira só mandou três titulares a campo, mas manteve o 4-2-3-1. O gol de Fábio foi protegido pelos zagueiros Paulão e Léo, ladeados por Egídio na esquerda e Lucas Silva — isso mesmo — na lateral direita. Uelliton e Leandro Guerreiro ficaram na dupla volância atrás da linha de três, com Tinga fazendo o lado direito mais contido, o recém-promovido à titularidade Ricardo Goulart partindo do centro e circulando, e Lucca pela esquerda com mais liberdade para atacar. Na frente, Anselmo Ramon duelava com os zagueiros.

O esquema de Renê Simões tinha muitas particularidades interessantes. Era um 4-5-1 com meio-campo em linha sem a bola e que virava um 4-3-2-1 na fase ofensiva, com os “ponteiros” Diogo Campos pela direita e João Paulo pela esquerda centralizando e se aproximando de Ricardo Jesus. Renan Foguinho era o volante mais plantado, o que dava mais liberdade para Dodó e Marino avançarem. E, por fim, a linha defensiva do goleiro Márcio tinha Jorginho — com a camisa 10 — na lateral direita, Artur e Diego Giaretta no miolo de zaga e Ernandes na lateral esquerda.

Lentidão e espaços

Esse posicionamento do time goiano sem a bola lotava a entrada da área com os três volantes. Com os meias acompanhando os laterais, só Ricardo Jesus raramente tentava pressionar Léo e Paulão, que trocavam bolas sem muita dificuldade, o que fazia a partida ser bem sonolenta. Já o Cruzeiro, quando perdia a bola, tentava retomar, mas sem a mesma intensidade característica — naturalmente, pois é difícil dar motivação para jogadores em um jogo que pouco interessa.

Outro aspecto é o espaço entre os volantes e os meias. Leandro Guerreiro e Uelliton são primeiros volantes, e não tem característica de sair pro jogo. Ricardo Goulart participava pouco do trabalho defensivo, e Tinga e Lucca voltavam só até a intermediária, abrindo um grande espaço na frente da área celeste. Não foram poucas as vezes em que um jogador goiano teve liberdade naquele setor.

O jogo era tão lento que, quando as equipes arriscavam acelerar um pouco, conseguiam criar. Foi assim o gol: bola roubada, Ricardo Goulart teve toda a liberdade do mundo para pensar no melhor passe ao mesmo tempo em que Lucca saía da esquerda e ia para o centro, abrindo o flanco para Anselmo Ramon receber o passe em profundidade, cruzar de três dedos de primeira para Lucca completar e marcar o gol solitário da partida.

As trocas

No final, zagueiro Leo e atacante Luan improvisados como laterais, mas sem tomar sustos

No final, zagueiro Leo e atacante Luan improvisados como laterais, mas sem tomar sustos

Entretanto, a parte mais interessante — taticamente falando — foram as trocas. No Atlético, Renê Simões foi aos poucos fazendo o time ficar num esquema mais “normal”, mas mesmo assim com jogadores improvisados. A primeira substituição foi tirar o meia-esquerda João Paulo e colocar o ponteiro-esquerdo Caio. A diferença é que o jogador permanecia aberto ao invés de centralizar. Depois, Dodó deu seu lugar a Mahatma Ghandi — nome mais do que apropriado para uma partida nessa intensidade — que foi ser lateral esquerdo, empurrando Ernandes para o meio-campo. E por fim, Diogo Campos — que apesar de estar com a camisa 2 e a repórter da TV insistir que ele estava jogando na lateral direita, é atacante de ofício e estava na meia-direita — deu seu lugar a Juninho, que espelhou a movimentação de Caio do outro lado. No fim, o time goiano estava num 4-3-3 clássico, com dois meias, dois atacantes abertos centro-avante.

Já no Cruzeiro, as substituições de Marcelo Oliveira foram muito mais “estranhas”. A entrada de Martinuccio na vaga de Ricardo Goulart no intervalo não chega a ser classificada assim — o gringo indo fazer o lado esquerdo que lhe é característico e Lucca invertendo para a direita e Tinga passando para o meio — mas depois Egídio deu lugar a Luan, que foi fazer a bizarra função de ser lateral esquerdo. E mais pro fim da partida, o zagueiro Wallace entrou na vaga de Lucas Silva, e quem foi fazer a lateral direita foi Léo, que até arriscou um apoio ao ataque ao fim da partida. Assim, no fim do jogo, a linha defensiva celeste era Leo, Wallace, Paulão e Luan.

Pra que serviu, então?

Rodar o elenco é fundamental em um time grande de futebol. Não só pra poupar os titulares, mas pra dar ritmo aos reservas, que certamente serão acionados mais pra frente devido a inevitáveis lesões e suspensões. Marcelo aproveitou também para tentar ampliar o seu leque de opções, vendo a resposta que os jogadores dariam em posições que não lhe são naturais. Mas valeu pela manutenção dos 100%, e pra aumentar o aproveitamento em 2013 para impressionantes 81,3% (19 vitórias, 4 empates e apenas 2 derrotas no ano).

A fala de Tinga após o jogo reflete como o Cruzeiro encarou a partida: “Eu venho jogando quase todas as partidas, mas maioria [dos jogadores] estava há muito tempo sem jogar, sem entrosamento. Deu pra ver que o Cruzeiro está com um plantel bom. A vitória foi importante para mostrar a força do grupo. Pra conquistar algo importante nesta temporada tem que ter um grupo forte.”

De fato faltou entrosamento, mas também faltou intensidade, porque faltou motivação, o que é natural, causando o baixo nível técnico da partida. Na parte tática, entretanto, foi muito mais interessante.