Cruzeiro 3 x 0 Boa – Tranquilidade visando a estreia

O Cruzeiro segue evoluindo. Na partida de sábado, mostrou mais movimentação e entrosamento quando tinha a bola nos pés, o que ocorreu em grande parte do tempo. Sem a bola, foi pouco testado, devido à postura reativa e ao sistema de marcação que o Boa usou. Com grande atuação de Damião, que marcou dois e deu passe pro outro, o Cruzeiro ficou tranquilo durante toda a partida — algo que dificilmente acontecerá na partida de quarta-feira na Bolívia.

O onze inicial

Cruzeiro no 4-2-3-1 costumeiro, contra um Boa usando perseguições individuais por todo o campo e um zagueiro na sobra

Cruzeiro no 4-2-3-1 costumeiro, contra um Boa usando perseguições individuais por todo o campo e um zagueiro na sobra

Marcelo Oliveira promoveu a estreia de Paulo André no lado esquerdo da zaga, na parceria com Léo. Além deles, a linha defensiva do goleiro Fábio tinha Fabiano pela direita e Mena pela esquerda. Na proteção, Willian Farias e Henrique se alternavam nas raras tentativas de suporte ao quarteto ofensivo, que tinha Marquinhos à direita, Willian à esquerda, De Arrascaeta central e Damião na referência, completando o 4-2-3-1 quase imutável de Marcelo.

Já o Boa do técnico Ney da Mata veio num teórico 4-3-2-1, mas o desenho era muito bagunçado pela escolha do sistema de marcação, como veremos a seguir. O gol de Douglas foi protegido por Arlan à direita, Éverton Sena e Matheus Ferraz no miolo e Marinho Donizete pela esquerda. À frente da zaga, Gilson era flanqueado por Leonardo e Mardley, deixando Hiltinho e Natan um pouco mais recuados em relação ao Daivison, o centroavante solitário.

Perseguições individuais do Boa

Chamei o sistema do Boa de 4-3-2-1, mas poderia chamá-lo também de 4-1-4-1, porque cada jogador tinha o seu adversário destacado para marcar, com o zagueiro Matheus Ferraz na sobra. Os duelos só trocavam quando a jogada iniciava com os jogadores do Cruzeiro em posições diferentes; por exemplo, se Willian e Marquinhos invertiam de lado, Leonardo pegava o baiano e Mardley marcava o bigode.

O problema com esse sistema de marcação é que um drible ou uma escapada já deixa um jogador livre para avançar, matando a sobra. Ou então, numa transição defesa-ataque veloz, com os jogadores sem estar “encaixados” na marcação individual, gerando superioridade numérica. O Boa usou este sistema até o fim do jogo, e em vários momentos expôs seu goleiro a situações de perigo por causa destes problemas.

O primeiro gol é um bom exemplo: pressão pelo lado direito na saída do Boa e Léo intercepta e já aciona Arrascaeta pela direita, livre da marcação de dois adversários e com muito campo pra avançar. O uruguaio carregou e inverteu para Damião, já no mano a mano com Éverton Sena. O camisa 9 girou e esperou a chegada de Msdarquinhos, mandando por cima de Mardley, que vinha tentando acompanhar o baiano. Sem marcação, Marquinhos fuzilou mesmo sem ângulo.

Flagrante dos encaixes individuais do Boa: laterais do Cruzeiro dando amplitude e ponteiros procurando o centro, sendo perseguidos por seus marcadores designados

Flagrante dos encaixes individuais do Boa: laterais do Cruzeiro dando amplitude e ponteiros procurando o centro, sendo perseguidos por seus marcadores designados

O problema da saída de bola e a posse inócua

De certa forma, a escolha por esse sistema facilitou o trabalho da defesa celeste. Isso porque o Boa esperava o Cruzeiro errar um passe para partir em contra, mas com pouca gente. Assim, a defesa rechaçava as investidas do Boa facilmente, recuperando a bola. O Boa então voltava para o modo de perseguições individuais, mas sem pressionar alto. Com isso, os zagueiros ficavam trocando passes entre si, até um deles tentar o passe longo, ou o lateral vir buscar mais atrás, momento em que era pressionado pelo lateral adversário.

Henrique e Willian Farias também tentavam ajudar na saída, mas também não conseguiam achar os companheiros, todos marcados individualmente. Esse problema também era sentido na transição defesa-ataque veloz, também conhecida como contra-ataque: se a bola era roubada no campo de defesa e o Cruzeiro tentava acelerar, o jogador com a bola ficava sem opções de passe e logo tinha que parar o avanço e usar o passe de retorno, voltando ao modo anterior.

Cruzeiro no campo de ataque

Porém, quando o Cruzeiro finalmente conseguia chegar perto da área adversária, as coisas fluíam melhor. Houve mais mobilidade, principalmente em relação aos jogadores atrás de Damião: Willian e Marquinhos apareciam por dentro para participar da construção junto com Arrascaeta, que também procurava as pontas. Damião também saía da área para abrir espaços, e Mena e Fabiano avançavam, o primeiro melhor que o segundo.

Mas se a bola era perdida, o Cruzeiro fazia uma de duas coisas: ou pressionava alto com uma linha de quatro, com os ponteiros alinhados a Damião e Arrascaeta, ou recuava e deixava apenas o uruguaio e o centroavante à frente. Ou seja, ou se desenhava num 4-2-4, ou num 4-4-2 em linhas.

A primeira abordagem dificultava muito o primeiro passe do Boa, mas se o time de Varginha conseguia passar desse primeiro combate, achava muito espaço, pois os volantes e a linha defensiva não subiam a pressão junto, deixando o time pouco compactado. Já o segundo modo reduzia mais o espaço entrelinhas, mas o ponteiro do lado oposto da bola não recuava até a linha dos volantes, preferindo ficar alto próximo ao lateral adversário.

Tudo quase igual

Mesmo do segundo gol, a postura das duas equipes não se alterou. O Boa continuou marcando individualmente, esperando no campo de defesa, enquanto o Cruzeiro ficava com a bola, mas sem a verticalidade do ano passado, pouco incisivo. Veio o intervalo e com ele a entrada Ualison Pikachu na vaga de Natan, numa tentativa de Ney da Mata de melhorar a articulação. O sistema de marcação permaneceu o mesmo, no entanto.

Passava o tempo e o panorama não mudava, mas o Cruzeiro já não ficava mais tanto com a bola, muito por causa da vantagem no placar. As investidas do Boa eram facilmente repelidas, mas o Cruzeiro também não encaixava seus ataques. Marcelo então resolveu agir com Judivan na vaga de Marquinhos, que tinha acabado de ser advertido.

Flagrante do 4-2-3-1 em fase defensiva, num momento em que o Cruzeiro dava campo ao Boa: Judivan, aqui invertido com Willian, não acompanhou o lateral e deixou estourar 2 contra 1 em Mena

Flagrante do 4-2-3-1 em fase defensiva, num momento em que o Cruzeiro dava campo ao Boa: Judivan, aqui invertido com Willian, não acompanhou o lateral e deixou estourar 2 contra 1 em Mena

E quase na sua primeira jogada, mais uma vez o problema da marcação individual por função apareceu: Judivan venceu seu marcador, que não por coincidência, era o mesmo Mardley que marcou Marquinhos no 1º tempo. De frente para a área, viu Damião se descolar de Éverton Sena e cruzou na medida para o cabeceio certeiro do camisa 9, no contrapé de Douglas.

Boa perigoso e a resposta de MO

No fim, o Cruzeiro apenas protegeu sua enorme vantagem no placar e partia em contragolpes, principalmente pelo lado esquerdo com Mena e Judivan

No fim, o Cruzeiro apenas protegeu sua enorme vantagem no placar e partia em contragolpes, principalmente pelo lado esquerdo com Mena e Judivan

Ney da Mata trocou de centroavante, Daivison por Alexandre, assim como Marcelo Oliveira. Damião saiu sob aplausos para a entrada de Dourado. Depois, no Boa, Mardley deu seu lugar a Éverton Ferrão. Nesse momento, o Boa foi pra cima e o Cruzeiro não respondia, talvez com seus defensores já se poupando para a estreia na Libertadores em Sucre.

Marcelo não gostou nada disso e lançou Joel na vaga de Willian, invertendo Judivan de lado. Joel protegeu melhor Fabiano e ainda deu mais intensidade pela direita. Judivan fez o mesmo com Mena pela esquerda, combinando bem em três jogadas de contra-ataque que quase resultaram em gol, um do próprio Judivan e dois de Henrique Dourado. Mas infelizmente não aconteceram, e nada mais aconteceu na partida.

Ok, mas e para quarta?

Impossível negar que o Cruzeiro melhorou. Teve mais mobilidade na fase ofensiva, pressionou melhor quando perdia a bola e se defendeu bem quando era atacado. Porém, muito disso se deveu à estratégia adotada pelo time de Varginha, de esperar no seu campo e usar perseguições homem a homem por todo o campo. O sistema defensivo não chegou a ser testado verdadeiramente.

Para o jogo de quarta pela Libertadores, que é o que realmente importa, o Cruzeiro deve enfrentar uma situação diferente. Jogando em casa e tentando usar a altitude a seu favor (ainda que Sucre não seja tão alto), o Universitario deve atacar bem mais o Cruzeiro. Dessa forma, apesar da evolução, podemos esperar um jogo duríssimo na Bolívia. Pessoalmente, acredito em um Cruzeiro com pouca posse de bola, mas que assim que recuperá-la, fará tentativas de resolver a jogada o mais rápido possível. De certa forma, a questão da saída de bola fica amenizada com essa estratégia.

Marcelo Oliveira já declarou que quer um Cruzeiro mais competitivo, brigando mais nos momentos sem a bola, mas sem deixar de atacar. Principalmente nos jogos fora de casa. Acredito que o treinador saberá usar a melhor estratégia para este jogo, até mesmo por estar mais experiente na competição. E mais do que ninguém, ele tem que saber que este grupo não é tão fácil como a imprensa gosta de alardear. Pode ser menos difícil, mas ainda assim é muito difícil.

Que os jogadores também tenham essa consciência, e sejam competitivos como a Libertadores pede e merece. Que seja o início do tri.



Cruzeiro 4 x 2 Chapecoense – Nota 10

Quem acompanha este espaço há mais tempo sabe que às vezes uso referências do site WhoScored.com, um site especializado em estatísticas futebolísticas e que usa dados gerados pela Opta Sports. Lá, eles possuem um sistema que dá uma nota para cada jogador em uma determinada partida de acordo com a influência no resultado.

O título deste texto é em homenagem à nota que Mayke recebeu nesta partida. Em quase dois anos acompanhando o site, este blogueiro nunca tinha visto tal número. As três assistências falam por si só, mas o jovem lateral foi muito mais do que isso. Sua atuação foi decisiva principalmente por explorar bem o único espaço que o adversário cedeu na partida: os lados do campo.

Esquemas

A "árvore de natal" (4-3-2-1) da Chapecoense que marcou o 4-2-3-1 do Cruzeiro com meias centralizados, encaixotando Goulart e dando espaço pelos lados

A “árvore de natal” (4-3-2-1) da Chapecoense que marcou o 4-2-3-1 do Cruzeiro com meias centralizados, encaixotando Goulart e dando espaço pelos lados

Depois de poupar os selecionáveis Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, Marcelo Oliveira voltou com a força máxima para este duelo, tendo apenas que escalar Samudio na vaga de Egídio. O outro lado da linha defensiva do goleiro Fábio tinha Mayke, com Dedé e Léo novamente na parceria de miolo de zaga. Lucas Silva e Henrique protegiam a última linha e ajudavam Éverton Ribeiro — partindo da direita para dentro, Ricardo Goulart — do centro para a frente, e Willian na esquerda, procurando Marcelo Moreno na área.

Já o técnico da Chapecoense, Celso Rodrigues, mandou a campo um sistema pouco comum, um 4-3-2-1 com os meias bem centralizados. O gol de Danilo foi protegido pelos zagueiros Jaílton e Rafael Lima, com Ednei fechando pela direita e Neuton pela esquerda. Wanderson ficou à frente da zaga, muito plantado, quase formando uma linha de cinco. Dedé e Abuda eram os volantes de lado, mas bem próximos do central. Mais à frente, Camilo e Zezinho perseguiam a dupla de volantes do Cruzeiro, deixando Bruno Rangel solitário à frente.

Espaço pelos flancos

A ideia do técnico visitante era muito provavelmente lotar o setor por onde o Cruzeiro é mais perigoso: a intermediária ofensiva. Para isso colocou cinco jogadores praticamente cercando Ricardo Goulart, para garantir a superioridade numérica no setor e não perder a posse de bola. Por conta disso, Goulart participou pouco do jogo no primeiro tempo, e Éverton Ribeiro não tinha com quem dialogar e nem espaço para conduzir no meio. O passe para Willian ficou distante, porque a bola não conseguia transitar por ali.

Mas, como sempre acontece, isso deixa outros setores descobertos, e esses eram as laterais. Com cinco jogadores centralizados, os corredores ficaram livres. O bloco de meio-campistas até se movimentava lateralmente para fechar o espaço, mas deixava o outro descoberto. E Lucas Silva e Henrique conseguiam recuperar o passe de retorno e mudar de lado com qualidade. Assim, trocando passes e com paciência, o Cruzeiro chegou com facilidade pelos lados até a área da Chapecoense. Não raro víamos dois contra um nos laterais do time catarinense e um jogador celeste aparecia ao lado da área com a posse da bola.

A partir daí, o problema foi outro. Sem ângulo para chutar e sem opção de passes rasteiros, a solução foi levantar a bola na área. Havia alvos, é verdade, mas a qualidade dos cruzamentos não foi boa. Por vezes, era muito forte e saía por cima ou chegava do outro lado da área; por vezes muito fechado em cima do goleiro. Quando o cruzamento saía na medida, os zagueiros da Chapecoense conseguiam tirar. Nas contas do Squawka (com dados da Opta Sports), ao todo foram 31 cruzamentos na área, sendo apenas 5 certos, e desses, 2 só foram computados como certos porque chegaram em um companheiro do outro lado da área.

Os cruzamentos do Cruzeiro no 1º tempo foram excessivos e ineficientes, indicando facilidade de chegar pelos lados mas ansiedade para definir

Os cruzamentos do Cruzeiro no 1º tempo foram excessivos e ineficientes, indicando facilidade de chegar pelos lados mas ansiedade para definir

Defendendo

Quando perdia a bola, o Cruzeiro fazia a velha e boa pressão alta. Com intensidade, obrigou os jogadores da Chapecoense a tomarem decisões precipitadas e entregarem a posse, seja em erro de passe, seja em perda de bola. O time catarinense tentou exatamente 100 passes no primeiro tempo, o que já é pouco, e ainda completou apenas 57 deles, novamente de acordo com o Squawka/Opta. Uma taxa de acerto baixíssima.

O gol foi apenas a segunda finalização do time no primeiro tempo, e também a última. A destacar apenas que o Dedé, o autor do chute original, teve muita liberdade para arriscar, mesmo sendo de longe. E isso pode decidir uma partida. Felizmente, não foi o caso.

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro obrigou a Chapecoense a se precipitar nos passes: apenas 57% de acerto nas poucas tentativas

O mapa de passes mostra como o Cruzeiro obrigou a Chapecoense a se precipitar nos passes: apenas 57% de acerto nas poucas tentativas

Alisson e Mayke

Este blogueiro apostava numa alteração ousada, tirando um dos volantes se recuando Éverton para pensar o jogo de trás, fora da área do quinteto de meias da Chapecoense. Mas Marcelo Oliveira optou por Alisson na vaga de Willian, principalmente para dar profundidade do lado esquerdo em cima do lateral Ednei. Já Celso Rodrigues trocou um volante por outro. Abuda, amarelado, deu lugar a Diones, mantendo o sistema que deu tão certo no primeiro tempo.

O jogo recomeçou e víamos o Cruzeiro ligeiramente menos afobado, chegando novamente com facilidade pelos lados mas tentando fazer algo diferente. Lucas Silva e Mayke arriscaram chutes de longe. E se na etapa inicial o Cruzeiro acertou poucos levantamentos, no segundo tempo a primeira bola alçada, de Alisson, achou a cabeça de Léo para empatar o jogo. E aí começou o show de Mayke.

Enquanto teve liberdade, o jovem lateral foi muito acionado e não fugiu à responsabilidade. Apoiou o ataque sem medo e com velocidade, tendo o suporte de Samudio do outro lado — o paraguaio se limitou à marcação no segundo tempo. Primeiro, um levantamento que achou Moreno sem marcação na área, com Goulart fazendo um papel importante de atrair o zagueiro. Depois, outro levantamento que achou Alisson livre na segunda trave, atrás da defesa.

Mudança e resposta rápida

Após o quarto gol, Cruzeiro deu ritmo a Nilton e Dagoberto; Chapecoense voltou ao modo com três volantes mas com Zezinho central e Tiago Luís aberto pela esquerda

Após o quarto gol, Cruzeiro deu ritmo a Nilton e Dagoberto; Chapecoense voltou ao modo com três volantes mas com Zezinho central e Tiago Luís aberto pela esquerda

Com 3 a 1, o Cruzeiro se tranquilizou, mas seguiu atacando e tentando roubar a bola, sem deixar a Chapecoense respirar. Digno de aplausos, pois a maioria dos times se daria por satisfeito com uma vantagem dessas e naturalmente se pouparia. Mas o Cruzeiro de Marcelo Oliveira sempre quer mais.

Celso Rodrigues então tentou algo. Tirou o volante Dedé e lançou o atacante Tiago Luís, que foi jogar aberto do lado esquerdo, dando trabalho a Mayke. Nesse momento o sistema da Chapecoense parecia um 4-2-2-2 meio torto para a esquerda. E o atacante deu trabalho, sendo o principal responsável pela jogada do segundo gol, em tabela com Camilo e assistência para Bruno Rangel.

Os jogadores catarinenses nem tiveram tempo de comemorar. Na jogada seguinte, Mayke combinou com Éverton Ribeiro e achou Moreno novamente na área. Nono gol do boliviano, o que o coloca ao lado de Goulart como artilheiro do certame. Se ter o goleador do campeonato não é pra qualquer equipe, imagine ter dois.

A resposta rápida fez o ritmo da partida arrefecer. Celso Rodrigues voltou ao modo com 3 volantes para evitar mais gols, colocando Ricardo Conceição na vaga de Camilo e remontando o 4-3-2-1, mas desta vez com um jogador aberto pela esquerda. Já Marcelo Oliveira, ciente de que perderia jogadores para a Seleção, optou por dar ritmo aos prováveis substitutos. Moreno deu seu lugar a Dagoberto — centralizando Éverton Ribeiro e avançando Goulart — e depois Lucas Silva saiu para a entrada de Nilton, mas o jogo já tinha terminado.

Sintonia fina e cuidados

Esta foi uma partida atípica. Diante de um sistema incomum e atrás no placar por um acaso típico do futebol, o Cruzeiro chegou a demonstrar certa ansiedade para empatar ainda no primeiro tempo, e o excesso de cruzamentos foi um sintoma disso.

Porém, Marcelo demonstrou ter mais uma vez o grupo na mão, e, conforme revelou na coletiva pós-jogo, acalmou o time e ficou ajustando o destino dos cruzamentos na área. Uma sintonia fina que indica o quanto este time do Cruzeiro está encaixado e entrosado. Enquanto outros treinadores acertariam posicionamento, dariam broncas ou mexeriam no sistema do time, Marcelo apenas se preocupou com detalhes.

Esse é uma das razões pelas quais o Cruzeiro caminha firme rumo ao tetra. As próximas rodadas, entretanto, serão o trecho mais perigoso da campanha, com duelos diretos com todos os perseguidores mais próximos: Fluminense (19ª), São Paulo (21ª), Internacional (26ª) e Corinthians (27ª). Os quatro têm oscilado e perdido pontos para os times de baixo, mas ao jogar contra o líder darão aquele algo a mais — exatamente por se tratar de um confronto direto e que pode mudar o rumo do campeonato.

Portanto, a vantagem é enorme, mas, mais do que nunca, todo cuidado é pouco.



Criciúma 0 x 0 Cruzeiro – Enfrentando um 3-4-4-1-1

Este é um blog que fala principalmente de tática no futebol, e de vez em quando sobre estatísticas e gráficos também relacionados a futebol. A premissa principal é falar sobre essas coisas e somente sobre essas coisas, apenas dando pinceladas em outros assuntos que são importantes para os dois principais. Entretanto, quando o plano de jogo, a estratégia, a tática e a técnica dão todos certos, mas o resultado não vem assim mesmo, somente duas coisas explicam. Uma é o acaso do futebol, que de fato existe. Outra é a arbitragem.

Assim como o placar verdadeiro da partida foi 2×0, com gols de Marquinhos e Willian, o título deste texto é uma referência ao sistema tático “real” da equipe catarinense. Ora, isso dá mais de dez jogadores de linha, mas quando se consegue passar da defesa e do goleiro, aí foi preciso vencer outro trio: o de apitadores. E dessa vez o Cruzeiro não conseguiu vencer essa última “linha defensiva”.

Escalações

Criciúma no 4-4-1-1: volantes Serginho e Martinez causavam tripla marcação no lado da jogada e Paulo Baier ocupava o volante, forçando o passe de retorno aos zagueiros do 4-2-3-1 cruzeirense

Criciúma no 4-4-1-1: volantes Serginho e Martinez causavam tripla marcação no lado da jogada e Paulo Baier ocupava o volante, forçando o passe de retorno aos zagueiros do 4-2-3-1 cruzeirense

Sem Henrique, suspenso e lesionado, Nilton voltou à volância ao lado de Lucas Silva, reeditando a parceria que deu muito certo no ano passado. O goleiro Fábio ainda foi protegido pela sua linha defensiva, ainda com Mayke à direita, e também com Egídio na esquerda, e Dedé e Léo na zaga central. Mais à frente, Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Marquinhos articulavam coletivamente com a ajuda de Marcelo Moreno na referência: o 4-2-3-1 imutável de Marcelo Oliveira.

O técnico do Criciúma, Wagner Lopes, sabia do poder de criação celeste e articulou seu time num 4-4-1-1 com muita movimentação defensiva, sempre para ter superioridade numérica no seu campo. A última linha de proteção da meta de Luís tinha Eduardo à direita, Fábio Ferreira e Gualberto centralizados e Giovanni à esquerda; e a segunda linha tinha João Vitor à direita, os (velhos conhecidos) volantes Serginho e Martinez pelo centro e do lado esquerdo fechava o atacante Silvinho. Tudo para compensar a falta de combatividade do veteraníssimo Paulo Baier, que se limitou a ocupar os volantes junto com o atacante solitário Gustavo.

Sem espaço

O plano de marcação do treinador do Criciúma funcionou bem no primeiro tempo, e consistia de três partes. Primeiro, aproximar as duas linhas, evitando o trânsito entre elas e o espaço — com a diferença de que era a linha média que se aproximava da de defesa, e não o contrário. Ou seja, o Criciúma marcou em bloco médio-baixo. Segundo, pressionar imediatamente o lateral do Cruzeiro que recebesse a bola, subindo o bote dos meias abertos e fazendo a rotação, de forma que o meia aberto do lado oposto fechava no centro. E terceiro, bloquear o passe de retorno para os volantes do Cruzeiro, ocupando-os com Paulo Baier e o atacante Gustavo, para evitar a inversão rápida para o lado fraco da marcação.

Essas medidas forçavam o Cruzeiro a voltar o lance para os pés dos zagueiros Dedé e Léo, que acabaram por ficar encarregados do primeiro passe. Nesse ponto, Henrique fez falta, pois vinha fazendo muito bem esse papel. Além disso, quando o Cruzeiro conseguia engatar os passes mais rapidamente, o movimento lateral dos volantes centrais, Serginho e Martinez, superlotava o lado da jogada, fazendo não dois contra dois mais sim três contra dois e um na sobra: o lateral pegava o ponteiro mais à frente, o ponteiro e o volante pegavam o lateral, que ainda tinham o outro volante na cobertura cercando Ricardo Goulart.

Mapa de passes do 1º tempo ilustra como foi difícil entrar na bem postada defesa catarinense e Criciúma usando muitas bolas longas

Mapa de passes do 1º tempo ilustra como foi difícil entrar na bem postada defesa catarinense e Criciúma usando muitas bolas longas

Mover, mover

A única forma de sair desse ferrolho seria se movimentar. E muito. Os meias do Cruzeiro se movimentaram bem, mas não foi suficiente. E aqui, cabe a cobrança: não adianta culpar o posicionamento adversário pela falta de gols. Cabe ao Cruzeiro, como melhor time do país, encontrar os espaços ou senão criá-los.

Não foi capaz, e o primeiro tempo se esvaiu com apenas três “meias chances” para o Cruzeiro: um contra-ataque desperdiçado em um chute ruim de Marquinhos; um cruzamento de Mayke que Moreno resvalou e achou Goulart, que finalizou duas vezes em cima do goleiro Luís, e a jogada que deveria ter sido gol: em rebote da cobrança de falta de Dedé, Nilton devolve pra área de cabeça e acha Goulart, que divide em lance normal com Fábio Ferreira. Marquinhos completa para o gol e marca, mas o Sr. Jaílson viu um empurrão inexistente de Goulart.

Do outro lado, Fábio devia ter pago ingresso. Pois simplesmente assistiu ao jogo em um lugar privilegiado do estádio Heriberto Hulse.

Fábio foi espectador privilegiado: dos 4 chutes do Criciúma no 1º tempo, nenhum foi na direção certa

Fábio foi espectador privilegiado: dos 4 chutes do Criciúma no 1º tempo, nenhum foi na direção certa

Observação e trocas

A segunda etapa começou sem trocas. Alguns amigos questionaram nas redes sociais, entendendo que Marcelo deveria fazer as trocas já no intervalo. A ideia, no entanto, era observar a postura dos catarinenses no segundo tempo. Caso eles saíssem um pouco mais, abririam mais espaços e o time que iniciou a partida poderia render mais; caso contrário, uma substituição teria que ser feita.

E foi o que aconteceu. No início do segundo tempo, o Criciúma até saiu um pouco mais, mas apenas nas bolas paradas, mandando uma artilharia aérea na área do Cruzeiro para ver o que acontecia. Um futebol ruim, coisa de time sem repertório. A estratégia é válida, mas não é dá preferência deste. O Cruzeiro se viu defendendo mais do que o normal e não conseguia encaixar as sequências de passes. Mas logo o jogo voltou ao modo do primeiro tempo, e Marcelo tomou providências: mandou Willian na vaga de Marquinhos, dando total liberdade para Éverton Ribeiro se mexer por trás do ataque celeste.

A troca teria sido um sucesso se não fosse o árbitro, Sr. Jaílson, ter entrado em ação novamente. Éverton Ribeiro apareceu na esquerda, tabelou com Egídio e aplicou um corte seco no zagueiro, finalizando no ângulo oposto, tirando de Luís. O arqueiro do Criciúma ainda conseguiu encostar na bola, que beijou caprichosamente a trave e voltou nos pés de Moreno, em totais condições. Ele pegou mal o rebote, mas Willian, atrás da linha da bola, completou para as redes. O assistente viu impedimento.

Baier sai, Éverton recua

Cruzeiro antes da última troca: Willian próximo a Goulart e Ribeiro armando de trás, com Mayke pouco acionado pelo lado direito

Cruzeiro antes da última troca: Willian próximo a Goulart e Ribeiro armando de trás, com Mayke pouco acionado pelo lado direito

Wagner Lopes só tinha o contra-ataque como opção. Por isso, Paulo Baier teve que dar seu lugar ao veloz Lucca — aquele mesmo que passou pelo Cruzeiro no início do ano. O jovem foi jogar aberto à direita, centralizando Gustavo de vez. Silvinho manteve-se na esquerda, e estava configurado um 4-3-3, mas com três volantes preenchendo o meio. Isso acabou abrindo um espaço à frente da defesa do Cruzeiro, que era por onde Paulo Baier transitava. Quase que imediatamente, Éverton Ribeiro sentiu o espaço e já começou a buscá-lo, para armar o time de trás. O Cruzeiro passou a dominar a posse de bola ainda mais.

Sentindo o mesmo espaço, Marcelo Oliveira mudou pra vencer: oficializou Éverton Ribeiro como o “Pirlo cruzeirense”, tirando Lucas Silva e lançando Dagoberto no jogo. O camisa 11 foi para sua posição costumeira à esquerda, mas Willian não foi para a direita, ficou mais próximo de Goulart. Em teoria, Mayke teria campo livre para avançar, mas foi pouco acionado. Assim, o Cruzeiro forçou muito pela esquerda.

Wagner Lopes trocou de centroavante, uma troca física, por cansaço. O sistema não foi alterado. Faltando cinco minutos, Marcelo deu sua última cartada: Alisson na vaga de Moreno, mandando Goulart para a área. Agora havia cinco jogadores leves na frente e dois laterais apoiadores. Não se pode ser mais ofensivo do que isto. Porém, como definiu o próprio treinador na coletiva pós-jogo: faltou o “algo mais”, aquele toque final caprichado para chegar ao terceiro gol, que seria o primeiro válido. Infelizmente o zero teimou em permanecer no placar.

Mapa de passes do Cruzeiro no segundo tempo mostra como o time procurou muito mais o lado de Egídio do que o de Mayke

Mapa de passes do Cruzeiro no segundo tempo mostra como o time procurou muito mais o lado de Egídio do que o de Mayke

A oscilação normal e a “forçada”

Oscilar num campeonato tão longo e tão equilibrado é normal. Como dito pelo Marcelo Bechler: no Brasil não há nenhum Bayern. Perder pontos considerados mais fáceis é normal aqui. O próprio Cruzeiro fez isso no ano passado. Porém, encaixou uma sequência de 12 jogos sem perder, sendo 11 vitórias, e isso sim esteve fora da normalidade: o Cruzeiro de 2013 foi espetacular. Uma sequência que começou justamente a partir da 15ª rodada, a próxima do certame atual.

Mas a oscilação “normal” do Cruzeiro terminou no sábado. O time jogou o suficiente para fazer dois gols e voltar do sul com mais três pontos. Mas a arbitragem não deixou. E já são sete pontos pelo caminho: 2 contra o São Paulo (a falta invertida no último lance do jogo que gerou o gol de empate), 3 contra o rival citadino (os pênaltis, o inexistente marcado contra e o claro e cristalino não marcado a favor, além do impedimento ridículo da bandeirinha bonitona) e mais 2 agora.

A atuação foi um pouco abaixo do que a apresentada na última partida, mas mesmo assim foi suficiente pra vencer o Criciúma. Taticamente, não há do que reclamar: Marcelo mexeu bem e nos momentos certos, fez a leitura correta da partida. Se a vitória não veio, foi só por conta dos fatores externos já citados. Se o campeonato já seria mais difícil este ano por que os adversários diretos estão melhores, estes fatores fazem o bi se tornar ainda mais difícil. Ainda mais depois de já ter vencido o certame anterior. E ainda mais por ter nos encalços times que têm força política nos bastidores da entidade que rege o futebol.

Mesmo assim, o Cruzeiro mostrou novamente que tem bola pra vencer os 19 adversários do campo — e também os outros fora dele.



2014: o ano da Copa… Libertadores

O Constelações está de volta. O único blog de análise tática assumidamente sem compromisso com a análise neutra — aqui é só o Cruzeiro que interessa — abre seus trabalhos em 2014 com uma opinião sobre os novos contratados e um resumo sobre as duas primeiras partidas do ano.

Mas antes, cabe uma rápida explicação: as últimas rodadas do Brasileirão 2013 foram atenciosamente vistas por este que vos escreve. Porém, como sabem, este não é o meu trabalho principal (adoraria que fosse) e portanto não posso me dedicar a ele como gostaria. Some-se a isso as viagens e festas de fim de ano, nas quais fiquei sem meu equipamento para escrever os textos (um computador), passou-se o tempo, as análises não foram escritas e deixaram de ser relevantes.

Entretanto, não acredito ter perdido muita coisa. Afinal o Cruzeiro foi totalmente outro após a conquista do título, jogando mais para festejar com a torcida do que para vencer. O mesmo 4-2-3-1 permaneceu até o final, mas com equipes do outro lado jogando a vida para não caírem para a segunda divisão — uns conseguiram, outros não.

Reforços

Os inscritos para a Libertadores 2014.

Os inscritos para a Libertadores 2014

Mas 2014, o ano da Copa (Libertadores), chegou. E com ele, novos contratados apareceram na Toca II: Rodrigo Souza, Samudio, Marlone e Marcelo Moreno.

O primeiro é volante, mais de contenção, e portanto jogaria na posição que é atualmente do Nilton. Confesso que não sei se o jogador tem a mesma qualidade de passe e chegada na área em bolas paradas, a conferir.

O lateral esquerdo Samudio foi uma excelente contratação. Vem para ser a sombra que Egídio precisava, já que Éverton chegou a ser titular no Campeonato Mineiro mas perdeu a posição novamente e não jogou mais. O gringo traz a experiência de Libertadores que possui e será muito importante quando Egídio, ainda dono da posição, não puder jogar. Não conheço a característica do jogador, se é lateral mais defensivo (como Ceará) ou tem mais ímpeto (como Mayke e Egídio). Se eu tivesse que apostar, apostaria no primeiro caso.

Marlone é uma jovem promessa que apareceu muito bem no Vasco no ano passado. É ponteiro, podendo jogar pelos dois lados mas preferencialmente o esquerdo. Está na disputa com Willian, Dagoberto e Luan por esta vaga — sim, porque do lado direito, Éverton Ribeiro é o dono indiscutível da posição. E pode ter sido uma contratação já pensando numa provável saída de Éverton Ribeiro para o futebol europeu.

Já Moreno é velho conhecido da torcida celeste. Foi o artilheiro da Libertadores de 2008, a primeira da era Adílson Batista. Volta quatro anos mais experiente, depois de uma temporada razoável no Grêmio e no Flamengo, onde amargou a reserva de Hernane. Centroavante, possui bola aérea forte, mas tem características bem diferentes dos outros centroavantes Borges e Anselmo Ramon (e de Vinícius Araújo, que já se foi). Confesso que estou com um pé atrás com esta contratação, pois precisávamos de centroavantes móveis e não de mais uma referência na área (Borges e Anselmo já servem a esse propósito), mas pode também ser um indicativo de que Marcelo Oliveira está disposto a mudar o estilo de jogo se for preciso.

Cruzeiro 1 x 0 URT

O 4-2-3-1 de sempre, diante de uma URT recuada e defensiva tentando bloquear os laterais celestes

O 4-2-3-1 de sempre, diante de uma URT recuada e defensiva tentando bloquear os laterais celestes

O ano começou como terminou ano passado: o mesmo 4-2-3-1, porém com Souza na vaga de Nilton. Os outros dez eram os de sempre: Fábio no gol, Ceará e Egídio nas laterais, Dedé e Bruno Rodrigo na zaga, Lucas Silva de volante avançado e Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Dagoberto na linha de três meias atrás de Borges. Nada de novo.

Como também não foi novidade o número de finalizações celestes: 35, sendo 14 na direção do gol, contra apenas 6 da URT. Isso porque o time de Patos de postou com uma trinca de volantes, dois meias mais abertos para barrar as subidas dos laterais e um atacante apenas, que não fazia pressão em Dedé e Bruno Rodrigo. Assim, o Cruzeiro avançava até quase na intermediária ofensiva sem ser incomodado, e só sofria marcação mais pesada a partir daí.

A movimentação da trinca de meias do ano passado estava lá, ainda um pouco enferrujada, mas era intensa o suficiente para por vezes afundar um ou dois volantes patenses na linha defensiva e abrindo espaço logo à frente da área. Esse espaço gerou uma profusão de chances, que só não foram melhor aproveitadas porque o goleiro Guilliano estava em tarde inspirada, e também o pé ainda não me pareceu bem calibrado. Era o primeiro jogo da temporada, afinal.

Marcelo fez trocas simples, apesar de não serem diretas. Dagoberto por Willian, Júlio Baptista por Borges (com Goulart temporariamente na referência) e Goulart por Moreno. Manteve-se o 4-2-3-1 e o placar de 1 a 0 construído no fim do primeiro tempo.

Caldense 0 x 0 Cruzeiro

No mesmo 4-2-3-1 do Cruzeiro, a Caldense teve mais físico e por isso mais intensidade: muita marcação e velocidade com a bola

No mesmo 4-2-3-1 do Cruzeiro, a Caldense teve mais físico e por isso mais intensidade: muita marcação e velocidade com a bola

Já no sul de Minas foi diferente. A Caldense, com um bom time armado pelo técnico Leonardo Condé, não teve a mesma postura da URT e avançou suas linhas de marcação. Jogando no mesmo 4-2-3-1 do Cruzeiro, tinha o veloz Diney na esquerda, e Éverton Maradona comandando o meio-campo central. Em teoria, não havia superioridade numérica em nenhum setor do campo, mas o time de Poços tinha mais energia e preparo físico, jogando com muita velocidade tanto no ataque como na defesa. O Cruzeiro, sem o mesmo condicionamento, tentava tirar a velocidade do jogo, e por isso ficava com a bola mais tempo mas sem produzir nada.

Nesta feita, Marcelo Oliveira teve que trocar Borges por Moreno diretamente, devido a lesão do camisa 9 ainda no primeiro tempo. Depois, Júlio Baptista entrou na vaga de Willian (que havia começado o jogo pela esquerda na vaga do poupado Dagoberto), fazendo Ricardo Goulart jogar pela esquerda na linha de três, mas “a la Éverton Ribeiro”: puxando para o centro, devido sua tendência de estar por dentro do campo, e ao mesmo tempo explorando o espaço que Júlio Baptista tentava criar com incursões à grande área.

E por fim, Éverton Ribeiro, que errou muitos passes neste jogo, saiu para a entrada de Élber. A tentativa era a da velocidade, ultrapassagens pelos lados para levantar a bola para Moreno na área, mas não houve sucesso.
E, em suma, foi assim o jogo: a Caldense jogando a vida, pois qualquer ponto nos confrontos com os time da capital pode valer uma vaga na semifinal, e o Cruzeiro ainda tentando encontrar um ritmo e recuperando a questão física. O zero a zero acabou sendo um resultado condizente, em que pese o time da casa ter tido mais chances.

Ainda é pré-temporada

Lembremos que o Cruzeiro jogou sua última partida em 2013 no dia 8 de dezembro. Somemos o mês de férias e o mês de pré-temporada e chegamos à data de 8 de fevereiro: o dia em que aí sim podemos passar a cobrar um pouco mais do Cruzeiro, ainda que seja o início da temporada. Portanto, estes primeiros jogos só servem como pré-temporada de fato, mesmo que sejam jogos oficiais. A estreia na Libertadores é no dia 12 contra o Real Garcilaso, e até lá o Cruzeiro ainda vai evoluir física e tecnicamente.

Taticamente, a evolução continua, mas já é um time bastante amadurecido com o sucesso na temporada passada.



Exaltando a escola cruzeirense de futebol

Depois de um jogo em que poderia ter vencido não fosse o goleiro adversário ter gasto suas últimas fichas para fechar a meta, o Cruzeiro não deu chances ao azar e venceu outros dois adversários. Internacional e Portuguesa usaram estratégias e estilos de jogo diferentes para tentar surpreender Marcelo Oliveira, mas o estilo leve e rápido do ataque cruzeirense sobressaiu sobre ambas as equipes.

Como não sou pago para escrever e não posso tirar meu sustento do blog, não posso me dedicar a ele como gostaria. Por isso não foi possível postar uma análise separada para os dois jogos. Assim, o blogueiro vai tentar ser menos prolixo e condensar as duas partidas em apenas uma postagem.

Internacional 1 x 2 Cruzeiro

O 4-2-3-1 do Internacional tentou explorar a velocidade com um quarteto leve, principalmente com Otávio às costas de Egídio; já o Cruzeiro sentiu um pouco a falta de Goulart e não teve tanta presença no meio-campo central

O 4-2-3-1 do Internacional tentou explorar a velocidade com um quarteto leve, principalmente com Otávio às costas de Egídio; já o Cruzeiro sentiu um pouco a falta de Goulart e não teve tanta presença no meio-campo central

Para o jogo contra o Internacional, Ricardo Goulart e Lucas Silva estavam suspensos, e por isso Marcelo optou por lançar Henrique de volante mais solto e Dagoberto de ponteiro direito no 4-2-3-1 habitual. Com isso, Éverton Ribeiro foi deslocado para a posição de central — mas essa é só uma referência inicial neste Cruzeiro de 2013, onde os três meias circulam por todos os setores. Porém, mais do que o ponto de partida de Ribeiro, o estilo do quarteto ofensivo também mudou. Com Goulart, o time tem mais presença próximo ao círculo central e por isso as jogadas saem de trás com mais fluência. Já Dagoberto tem tendência de ser mais agudo, como Willian do outro lado. Com isso o Cruzeiro fica mais vertical e incisivo, mas perde em volume no meio-campo.

A jogada do primeiro gol merece destaque. Nas partidas contra o Atlético/PR e Botafogo, Nilton “inverteu” de papéis com Dedé — ou seja, o volante fechava na segunda trave enquanto Dedé puxava a marcação. Normalmente é o volante que segura os marcadores do zagueiro, numa jogada inspirada no pick-and-roll do basquete. Porém, depois de dar certo duas vezes, a dupla voltou ao modo “normal”, e o cruzamento de Egídio na primeira trave achou a cabeça de Nilton.

No lance seguinte o Inter empataria, tirando a vantagem psicológica que o Cruzeiro acabara de construir. Com a igualdade de volta ao placar, o estado inicial do jogo foi recolocado. Sem D’Alessandro, Dunga — agora ex-técnico do Inter — armou um 4-2-3-1 com Jorge Henrique pela esquerda, Otávio na direita e Alan Patrick de central, com Caio na frente — quatro jogadores leves, tentando surpreender a defesa celeste na base da velocidade. Otávio foi quem melhor aproveitou a estratégia, aproveitando espaços às costas de Egídio. Foi dele o gol de empate, recuando para sair da marcação do lateral esquerdo e ainda contando com um desvio no meio do caminho, mas não parou por aí. O Inter arrematou 7 vezes no primeiro tempo, com um gol e duas defesas de Fábio, bem acima do que o Cruzeiro permite a seus adversários.

Com as trocas, o Intermacional tentou pressionar com Damião e Alex, mas o Cruzeiro mudou o sistema e se defendeu com Tinga entre os volantes, controlando o jogo sem sustos até o fim

Com as trocas, o Intermacional tentou pressionar com Damião e Alex, mas o Cruzeiro mudou o sistema e se defendeu com Tinga entre os volantes, controlando o jogo sem sustos até o fim

Ofensivamente, Goulart fez falta. Ribeiro foi muito bem marcado por Willians, mais plantado para liberar Josimar, e Dagoberto ficou escondido do lado do campo. Só Willian tentava algo. Depois do gol, o Cruzeiro finalizou mais 3 vezes até os 15 minutos, e não mais até o intervalo. Marcelo percebeu o problema defensivo e tirou Egídio, amarelado, lançando Mayke e deslocando Ceará para a direita. A substituição funcionou e a defesa celeste equilibrou o jogo, que ficou mais lento e truncado. Quando o Cruzeiro acelerou pela primeira vez na segunda etapa, conseguiu o gol da vitória em jogada de Dagoberto, disputando bola aérea e acionando Willian no bico esquerdo da área. O bigodinho cortou pra dentro e colocou a bola quase com a mão no canto de Muriel, sem chance para o goleiro. Golaço.

Desta vez o Internacional não conseguiu empatar logo em seguida e o lado psicológico falou mais alto. Dunga tentou soltar o time, lançando Damião na vaga de Josimar e recuando Jorge Henrique para a volância, na tentativa de qualificar a saída e ter presença de área — Caio foi ser o ponteiro esquerdo. Depois trocou de central, Alan Patrick por Alex. Marcelo respondeu com Alisson na vaga do cansado Dagoberto para fazer as funções defensivas de ponteiro e depois Tinga no lugar de Éverton Ribeiro — uma espécie de 4-3-2-1 com dois jogadores abertos, quase um 4-5-1 com meio em linha. Assim o Cruzeiro controlou o jogo até o fim e garantiu mais três pontos.

Cruzeiro 4 x 0 Portuguesa

O 4-1-4-1 da Portuguesa até tentou explorar o lado esquerdo da defesa celeste com Luís Ricardo e Corrêa, mas Ferdinando e os laterais não conseguiram conter a intensidade do quarteto ofensivo celeste

O 4-1-4-1 da Portuguesa até tentou explorar o lado esquerdo da defesa celeste com Luís Ricardo e Corrêa, mas Ferdinando e os laterais não conseguiram conter a intensidade do quarteto ofensivo celeste

Já no jogo seguinte, o adversário tentou usar o mesmo espaço de campo, mas usou de outra estratégia. A ideia de Guto Ferreira era encaixar a marcação no meio-campo e soltar a bola rapidamente para Luís Ricardo — lateral de origem improvisado como ponteiro direito num 4-1-4-1 com Ferdinando entre as linhas e dois volantes — Bruno Henrique e Moisés — como meias centrais. Souza abriu na esquerda e Gilberto ficava centralizado. Corrêa, volante de ofício, foi quem deu o suporte defensivo a Luís Ricardo, jogando como lateral direito.

A tentativa era boa, pois é sabido que a marcação de Egídio é o ponto menos forte do time celeste. A primeira chance da partida foi exatamente com Luís Ricardo, mas não deu tempo de haver mais chances, porque a goleada foi construída em apenas 30 minutos. Nos outros 60 o Cruzeiro nitidamente se poupou e a Portuguesa recuou para não negativar o saldo de gols construído na partida anterior contra o Corinthians.

Os gols não foram parecidos na construção, mas tiveram sempre o mesmo elemento: Borges. No primeiro, a disputa aérea de Willian com Corrêa foi suficiente para fazer o volante-lateral errar e mandar a bola pra trás, que Borges aproveitou e mandou na trave. No rebote, Éverton Ribeiro, que acompanhou todo o lance, mandou para as redes sem marcação. Detalhe: quando a bola cruza a linha, Willian já estava dentro da área.

Depois, uma troca de passes pela esquerda e Goulart arrisca uma bomba que explode no travessão. No rebote, Borges está sozinho à frente de Lauro para aumentar. Já no terceiro, Borges, o camisa 9, homem de área, está à direita para receber o passe de Éverton Ribeiro e cruzar rasteiro para Willian ampliar. E no quarto, Borges é lançado após erro de saída da Portuguesa — na verdade forçado pela pressão alta dos atacantes celestes — e serve Ribeiro dentro da área sem olhar, saindo da área depois disso. Ribeiro perde o ângulo e acha Goulart, que finaliza em cima da zaga, e após disputa de Willian com o zagueiro, a bola sobra caprichosamente nos pés de Borges, que voltou lentamente para dentro da área. Fim de papo ainda com quinze minutos por jogar na primeira etapa.

Tudo por causa da estratégia de Marcelo nos jogos em casa: intensidade no início da partida para resolver logo a parada e chamar a torcida para junto do time. Com apenas dois pontos perdidos no Mineirão comprovam que a postura tem dado muito certo. Borges, que no fim do jogo contra o Inter saiu extenuado de campo, dizendo que todos estavam no limite, foi quem mais se aplicou enquanto houve jogo e por isso foi o nome da partida, com dois gols, duas traves e uma assistência.

Na etapa final, Marcelo Oliveira tentou reacender o jogo trocando todo o ataque; já Guto Ferreira repaginou o lado direito com Wanderson para poder deslocar Corrêa de volta para a proteção e melhorar a marcação no setor

Na etapa final, Marcelo Oliveira tentou reacender o jogo trocando todo o ataque; já Guto Ferreira repaginou o lado direito com Wanderson para poder deslocar Corrêa de volta para a proteção e melhorar a marcação no setor

Porém, depois dos gols, o jogo morreu. Difícil motivar um time no intervalo com tamanha vantagem, mas Marcelo Oliveira disse na coletiva pós-jogo que criou o desafio para o time de não sofrer gols, mesmo se poupando. A Portuguesa mudou para não sofrer mais gols, com o meia Wanderson de ponteiro direito na vaga de Ferdinando, que sofreu com os três mais celestes no primeiro tempo. Com isso, Corrêa e Luís Ricardo voltaram para suas posições “de origem” — volante e lateral direito, respectivamente, reforçando a marcação no meio e na direita.

Já o Cruzeiro claramente descansava com a bola nos pés, preservando a parte física para enfrentar a última maratona de jogos até o fim de outubro (em novembro os jogos serão apenas aos domingos, com exceção de uma rodada). Borges saiu ovacionado para dar lugar a Dagoberto, mandando Goulart temporariamente à frente. Era uma tentativa de Marcelo Oliveira de reacender o jogo, sem muito sucesso. Na Portuguesa, Cañete entrou na vaga de um inoperante Souza, mantendo a função de ponteiro esquerdo, e depois Gilberto cedeu seu lugar a Bérgson, mais móvel. Mas não houve sucesso em incomodar a defesa do Cruzeiro, que ainda teve Vinícius Araújo e Lucca nos lugares de Willian e Éverton Ribeiro, em novas tentativas de continuar com a intensidade, mas os jogadores preferiram descansar e repelir as poucas ações do time visitante.

Contra tudo e contra todos

Talvez eu não tenha conseguido resumir tanto quanto gostaria. Mas a ideia é que o Cruzeiro consegue jogar sempre da mesma forma, contra qualquer adversário, estilo ou estratégia adotada, seja onde for.

O Cruzeiro enfrentou dois adversários em momentos diferentes — a Portuguesa em recuperação e o Internacional em queda — com estratégias diferentes, mas tendo o mesmo resultado: o revés. O estilo cruzeirense — intensidade em todos os setores, solidez e estrutura defensiva, e velocidade, leveza e maleabilidade no ataque — se impõe sobre os planos táticos dos adversários, que já não sabem muito o que fazer para parar o time celeste. Um time que respeita o estilo histórico de jogar futebol do Cruzeiro: ofensivo e envolvente.

Esta equipe já foi testada de todas as formas, seja saindo atrás do placar e sendo paciente para buscar a virada; seja resolvendo o jogo em trinta minutos e garantindo os três pontos, e saiu vitoriosa na grande maioria das vezes. Ainda falta muito, mas a consistência tática é que permite aos estatísticos afirmar que o Cruzeiro tem mais de 90% de chances de levantar a taça no fim do ano.

Porém, se continuar neste ritmo, talvez até mesmo antes do fim do ano.