Coritiba 2 x 1 Cruzeiro – Chegou a hora

Uma ferroada de abelha, para pessoas não-alérgicas, não costuma trazer nenhuma consequência mais séria, apenas uma dor intensa e inchaço. Picadas múltiplas, entretanto, pode levar a um colapso.

Pois tal como se tivesse sido atacado por um enxame de abelhas — como indicava o uniforme do time da casa — os jogadores do Cruzeiro mostraram um certo torpor durante a partida de domingo e colecionaram sua terceira derrota em quatro jogos. É claro que os gols do adversário aconteceram por um erro individual e um lance bizarro, mas a falta de intensidade acabou mesmo sendo a principal causa do revés. Sim, já que se tivesse aplicado um pouco mais de vontade, certamente o Cruzeiro conseguiria marcar mais gols, que acabariam por compensar os erros.

Fichas iniciais

O 4-4-1-1 do Coritiba bloqueou a já reduzida movimentação do trio de meias e ao mesmo tempo liberava Alex da marcação, deixando os defensores celestes trocando passes laterais

O 4-4-1-1 do Coritiba bloqueou a já reduzida movimentação do trio de meias e ao mesmo tempo liberava Alex da marcação, deixando os defensores celestes trocando passes laterais

Marcelo Oliveira escalou o Cruzeiro no 4-2-3-1 usual, apenas com Henrique na vaga do suspenso Lucas Silva — cuja ausência foi sentida, como veremos adiante. Do gol, Fábio teve Ceará e Egídio como laterais da linha defensiva, composta por Dedé e Bruno Rodrigo. Nilton foi o companheiro de Henrique na proteção, e na frente o quarteto ofensivo que mais vem se repetindo nos últimos jogos: Éverton Ribeiro de ponteiro direito, Ricardo Goulart de central, Willian de ponteiro esquerdo e Borges na referência.

Já Péricles Chamusca armou o Coritiba num 4-4-1-1, feito para diminuir ao máximo os efeitos da falta de mobilidade e combatividade de Alex, ao mesmo tempo em que aproveita sua melhor arma: o passe. Protegendo a meta de Vanderlei, os zagueiros Luccas Claro e Leandro Almeida eram flanqueados por Gil à direita e Carlinhos na esquerda. Na cabeça de área, Willian e Júnior Urso faziam a base do tripé do meio, completado por Alex à frente, e ainda tinham a companhia de Robinho pelo lado direito e Geraldo fechando o lado esquerdo. Na frente, Júlio César.

O primeiro e o último passe

Ao contrário do que normalmente acontece, o time da casa preferiu esperar o Cruzeiro em seu campo. As duas linhas de quatro do Coritiba tiravam os espaços do quarteto ofensivo e deixavam os zagueiros e laterais celestes sem opções de passes para a frente. Parecia um jogo de handebol, no qual a bola girava de um lado para o outro: de Ceará a Dedé a Bruno a Egídio, que devolvia para Bruno, para Dedé e de volta a Ceará. O Coritiba se limitava a fechar as linhas de passe para os volantes com Alex e Júlio César, que por vezes se alinhavam desenhando um 4-4-2, e até mesmo com Alex sendo o jogador mais avançado. A pressão nos zagueiros celestes era muito esporádica.

Assim, não era raro ver Henrique voltando para pegar a bola nos pés dos zagueiros. O camisa 8 saía do meio-campo e recebia, mas não conseguia iniciar a jogada por nenhum lado, acabando por voltar a bola para os zagueiros ou para os laterais. Lucas Silva faz melhor este papel. E mesmo quando algum jogador tentava um passe agudo para iniciar a movimentação ofensiva, os erros aconteciam e armavam contra-ataques para o time da casa.

Quando conseguiu, com muita paciência, chegar na intermediária ofensiva, o Cruzeiro até imprimia velocidade, mas errava o último passe — aquele que deixa o jogador em condições de finalização. Vanderlei quase não trabalhou no primeiro tempo, pois quando finalmente o Cruzeiro conseguia superar todas estas dificuldades e finalizar, não era com qualidade.

Foi a partida com mais posse de bola do Cruzeiro, empatada com a 7ª rodada contra o Náutico no Mineirão -- mas era um domínio estéril, com muitos passes no campo defensivo

Foi a partida com mais posse de bola do Cruzeiro, empatada com a 7ª rodada contra o Náutico no Mineirão — mas era um domínio estéril, com muitos passes no campo defensivo (veja mais aqui)

Sem a bola

Defensivamente o Cruzeiro até que se postava bem. Alex não tinha espaço para criar e Júlio César ficou escondido diante da excelente atuação dos zagueiros celestes. Pela esquerda, Egídio não sofreu tanto com Gil e Robinho, mas Ceará tinha muito trabalho pela direita, e foi por ali que saiu o gol. Uma jogada de ultrapassagem de Carlinhos e Geraldo, que viu o avanço de seu lateral e fez o passe por cima. Ceará conseguiu voltar e tomar a frente, mas tentou se apoiar no corpo do jogador do Coritiba, errou e passou da bola, que sobrou limpa para Carlinhos finalizar.

Era tudo o que o Coritiba queria, se defender o máximo possível e jogar nos erros do Cruzeiro — uma estratégia que vários time vem usando, muito por conta do desempenho que o Cruzeiro apresentou no campeonato. Dedé ainda fez um gol injustamente anulado pelo árbitro, mas pouco criou além disso.

Segundo tempo

Após o intervalo, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 e  jogo abriu: após o empate, Lincoln entrou e deu movimentação; no Cruzeiro, Luan acertou o lado esquerdo e Dagoberto acelerou, mas e o Cruzeiro pecou nas finalizações

Após o intervalo, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 e jogo abriu: após o empate, Lincoln entrou e deu movimentação; no Cruzeiro, Luan acertou o lado esquerdo e Dagoberto acelerou, mas e o Cruzeiro pecou nas finalizações

Nenhum dos treinadores fez trocas, mas o jogo mudou. O Cruzeiro aparentemente cansou, não reteve a bola no ataque nem pressionou o homem da bola no seu campo defensivo. Resultado: com os mesmo onze, o Coritiba passou ao 4-2-3-1 com o avanço dos ponteiros, e por quinze minutos, jogou praticamente sozinho: Alex, Júlio César e Robinho tiveram chances. Marcelo Oliveira então resolveu agir: primeiro se precaveu lançando Luan na lateral esquerda na vaga de Egídio — o lateral estava sendo pressionado por Robinho e já tinha cartão amarelo — e depois trocou Borges por Dagoberto na direita, centralizando Éverton Ribeiro e fazendo Goulart mais uma vez ser o centroavante.

Praticamente na jogada seguinte, Willian conseguiu enganar o árbitro e Dagoberto converteu o pênalti. O empate não foi consequência direta das substituições, mas o Cruzeiro melhorou depois de igualar o placar. Luan, por incrível que pareça, melhorou a marcação do lado esquerdo e ainda apareceu mais vezes no ataque, e Dagoberto deu mais ofensividade pela direita. Péricles Chamusca já havia substituído Júlio César por Keirrison, sem alterar o sistema, mas equilibrou o jogo novamente com a entrada de Lincoln na vaga de Alex. O sistema não se alterou, mas Lincoln se movimentou mais do que o veterano camisa 10 do Coritiba, que é mais lento. O jogo ficou aberto, com chances de parte a parte.

Chuteira na mão

Com exceção do erro que originou o gol, Ceará continuava tendo uma boa atuação defensiva, como lhe é costumeiro. Em um lance até perdeu a chuteira para ganhar a posse de bola. O futebol é cheio de ironias, no entanto, e justamente por causa de estar com a chuteira na mão, não conseguiu correr para impedir novo ataque do Coritiba pela esquerda. Assim, Dedé saiu na cobertura e Léo, que tinha entrado no lugar do lesionado Bruno Rodrigo, marcou a bola ao invés de Keirrison, que cabeceou sozinho para o gol. Talvez tenha sido por causa do posicionamento nas três partidas anteriores: zagueiro direito, no lugar de Dedé, ao invés de ser pela esquerda como naquela tarde.

Dali pra frente, foi ataque contra defesa. O Coritiba achou o seu resultado e se contentou em voltar ao modo inicial do jogo: se defender e jogar no erro celeste. Já o Cruzeiro foi pra cima e criou, mas tomou decisões ruins na hora de finalizar. Dagoberto, Willian e até Dedé tiveram chances, mas se afobaram ou erraram a conclusão e não conseguiram evitar a inesperada derrota.

O físico, o psicológico e o técnico

Está claro que o problema do time nestes últimas partidas não é no sistema tático, que é o mesmo desde o início da temporada — foi com ele que o Cruzeiro conseguiu sua melhor sequência no campeonato. A questão passa pela execução do esquema, que exige intensidade tanto com quanto sem a posse da bola, e isso obviamente passa pela parte física, essa sim prejudicada. O desgaste, por sua vez, influencia também em outros aspectos, como o técnico — exemplificado na média acima do normal de erros de passe e finalização.

Porém, a parte mental é uma das que precisa melhorar. Talvez a grande vantagem, ainda mantida para o segundo colocado, tenha afetado a motivação dos jogadores, mesmo que inconscientemente. Também, os outros times já não tem mais tempo de recuperação no campeonato e acabam por jogar tudo o que conseguem na partida contra o líder, ao passo de que o Cruzeiro, por ter vantagem, não vai atrás do resultado com a mesma fome.

A rotação dos jogadores, antes feita com maestria por Marcelo Oliveira, deixou de acontecer há algumas rodadas. A troca de uma ou outra posições a cada jogo serve tanto como motivação para os que estão na reserva quanto como descanso para os que jogaram sequências grandes. Talvez seja a hora de voltar com esta política. Já no campo psicológico, nada pode ser mais motivante que o título nacional. Difícil entender como Marcelo pode melhorar neste aspecto.

Chega de sentar na vantagem, é hora de resolver o certame.



São Paulo 0 x 3 Cruzeiro – Truque de cartola

Como todos sabem, o futebol foi inventado na Inglaterra no fim do século XIX, durante o reinado da Rainha Vitória. Este período ficou conhecido como a Era Vitoriana, um tempo de prosperidade para o Reino Unido. E também nesta época foi cunhado o termo “hat-trick” (truque de cartola, numa tradução livre), referindo-se a um truque no qual um mágico tirava três coelhos de uma cartola posta sobre uma mesa. No ludopédio, a expressão passou a ser usada quando um jogador marca três vezes na mesma partida.

E foi o que Luan fez sábado à noite no Morumbi. Porém, ao contrário do que sugere a etimologia, o hat-trick de Luan não foi mágico e nem truque, e sim fruto de competência celeste e incompetência do time paulista.

Onze inicial

No primeiro tempo, um 4-2-3-1 propositalmente sem intensidade mas com espaços pela esquerda nas costas de Everton Ribeiro

No primeiro tempo, um 4-2-3-1 propositalmente sem intensidade mas com espaços pela esquerda nas costas de Everton Ribeiro

Marcelo Oliveira voltou com seus titulares poupados, com Luan pela esquerda, Everton Ribeiro na direita e Ricardo Goulart por dentro, atrás de Vinicius Araújo. Na volância, Nilton cada vez mais acostumado a ser primeiro volante, e Souza, saindo mais para o jogo. E mais atrás, Mayke e Egídio fechavam os lados da zaga com Dedé e Bruno Rodrigo, todos capitaneados por Fábio no gol — o 4-2-3-1 de sempre.

Paulo Autuori, em início de trabalho, preferiu repetir o time que perdeu a Recopa Sulamericana para o Corinthians. O São Paulo se postou num 4-2-3-1 muito parecido com o cruzeirense, com Jádson caindo pela direita mas centralizando na posse, procurando Ganso, e Osvaldo partia da esquerda e se aproximava de Luís Fabiano na frente, fazendo o time ficar com uma cara de 4-2-2-2. O goleiro Rogério Ceni teve uma linha defensiva composta por Lúcio e Rafael Tolói, com Douglas na lateral direita e Clemente Rodriguez do outro lado, e Denilson e Rodrigo Caio como volantes, este último caindo muito mais à esquerda.

Estratégias defensivas

No início, faltou um componente fundamental para que um futebol moderno e envolvente aparecesse: a intensidade. Pois o Cruzeiro tirou de propósito o ritmo da partida, marcando com muita segurança. A ideia de Marcelo Oliveira, como ele mesmo explicou depois do jogo, tinha dois propósitos: enervar a torcida adversária, tentando aproveitar o mau momento do São Paulo, e usar da melhor condição física no segundo tempo, já que no meio de semana os titulares não jogaram e o São Paulo passou por uma decisão.

Assim, nem o Cruzeiro marcava por pressão na frente, como lhe é característico, e nem o São Paulo, que por viver um mau momento, preferiu se retrair para não sofrer gols e causar ainda mais impaciência em seu torcedor. Após duas chances criadas no início, o Cruzeiro segurou o São Paulo com tranquilidade, e só fez Fábio trabalhar aos 27 minutos, em erro num bote de Egídio que deixou os zagueiros no mano-a-mano.

O lado direito

O único setor onde o São Paulo poderia ter ameaçado mais era o lado direito, nas costas de Everton Ribeiro. Quando a jogada era pelo lado esquerdo, o meia ficava muito próximo para encurtar o espaço. Virada de jogo, e Clemente Rodriguez achava muit espaço para avançar. Não era raro ver Everton Ribeiro correndo em diagonal de volta a seu campo para não sobrecarregar Mayke à frente contra Osvaldo e Clemente Rodriguez.

Felizmente, o nosso jovem lateral direito fez mais uma partida estupenda na marcação. Parece que ele vem aprendendo com Ceará e tem segurando o seu ímpeto ofensivo natural para recompor com muita propriedade a linha defensiva. Osvaldo, que é uma das principais válvulas de escape da equipe paulista, foi muito bem marcado enquanto esteve jogando aberto pela esquerda. Em um determinado momento, Osvaldo passou a compor uma dupla de centroavantes ao lado de Luís Fabiano, por ordem de Paulo Autuori, e Mayke virou quase um zagueiro de área, novamente exercendo bem a função defensiva.

Portanto, com Mayke mais preso, era natural que o Cruzeiro tentasse atacar mais pelo outro lado, mas Rodrigo Caio caía por ali e cobria Jádson, que também voltava com Egídio, congestionando o setor. Ricardo Goulart aparecia para o jogo, mas cadenciava ao invés de dar velocidade — provavelmente a pedido de Marcelo Oliveira. O primeiro tempo acabou com a sensação de que, tivesse o Cruzeiro acelerado um pouco mais, teria conseguido vencer sem dificuldade a defesa tricolor.

Etapa final

Não houve trocas no intervalo, mas houve mudança na postura do São Paulo, talvez encorajada pela estratégia cruzeirense de se poupar no primeiro tempo. O time da casa acelerava o jogo quando o Cruzeiro errava, tentando pegar a defesa celeste saindo para o ataque. Conseguiu assustar duas vezes, a primeira em passe de Ganso para Jadson chutar em cima de Fábio, e a outra quando Egídio avança e erra o passe, abrindo espaço às suas costas que Jádson aproveitou, recebendo novo passe de Ganso e cruzando perigosamente para dentro da área. Bruno Rodrigo resvalou e Fábio salvou novamente.

Logo depois, Luan abriu a contagem em cruzamento despretensioso de Mayke. Mérito do atacante, que acertou um lindo chute de primeira no ângulo de Rogério, prevendo o erro de Douglas, que pulou no tempo errado. O gol esfriou o ímpeto são-paulino, e o Cruzeiro passou a controlar a partida, perigosamente. Aloísio entrou na vaga de um inoperante Luís Fabiano, dando mais velocidade ao ataque. Duas chances aconteceram para o time da casa: Dedé errou o tempo da bola, que sobrou para Jádson cruzar e Fábio salvar nos pés de Aloísio; depois, Bruno Rodrigo arriscou uma linha de impedimento que deu errado, deixando Aloísio entrar na cara de Fábio. Assustado com a grandeza de nosso arqueiro, o atacante chutou pra fora.

Aula de contra-ataques

Com Martinuccio, Luan foi para o centro e o time se postou num 4-2-3-1/4-4-1-1 armado para contra-atacar

Àquela altura, Lucca já havia entrado na vaga de Ricardo Goulart, indo para a direita e mandando Everton Ribeiro para o centro. Mas foi a segunda substituição que mudou a partida: Everton Ribeiro deu seu lugar a Martinuccio, empurrando Luan para o centro, quase num 4-4-1-1. A ideia era clara: usar a velocidade dos dois ponteiros para puxar contra-ataques e matar o jogo, e no primeiro lance isso já aconteceu. Martinuccio lançou Vinicius Araújo, que com muita visão de jogo passou para Luan ganhar na corrida e na força de Clemente Rodriguez e vencer Rogério Ceni.

Logo após o gol, Paulo Autori tentou suas últimas cartadas, tirando Osvaldo e Denilson e lançando Silvinho e Roni. Parecia um 4-1-2-3, com Roni mais avançado ao lado de Ganso, deixando Rodrigo Caio sozinho na proteção, e Jádson e Silvinho de ponteiros. Mas não deu tempo de dar certo, pois quase num repeteco, Martinuccio avançou com velocidade e Vinicius Araújo puxa a marcação brilhantemente para o lado, abrindo um clarão imenso para Luan. Martinuccio deu um passe curto demais, mas Luan ganhou a dividida com Rodrigo Caio, e ficou novamente de frente para Rogério Ceni. Com muita frieza, escolheu o canto e tirou o terceiro coelho da cartola.

A brilhante movimentação de Vinicius Araújo no terceiro gol, arrastando Lúcio e abrindo espaço para Luan

A brilhante movimentação de Vinicius Araújo no terceiro gol, arrastando Lúcio e abrindo espaço para Luan

Com o jogo resolvido, Marcelo Oliveira estreou o ex-CSA Leandrinho na vaga de Mayke, para dar rotatividade ao elenco, mas o jogador teve pouco tempo para mostrar seu futebol.

Riscos, evolução e rivalidade

A estratégia deu certo, mas foi arriscada. O São Paulo teve chances de abrir o marcador antes do Cruzeiro, e certamente se encastelaria para segurar a vitória que há muito não vem. O ideal seria dar velocidade e já abrir o placar no primeiro tempo, provocando a ira da torcida e enervando ainda mais o time adversário. O aspecto físico faria diferença de qualquer forma no segundo tempo.

Além disso, ainda há alguns problemas na defesa cruzeirense. Egídio erra muitos passes, alguns com o time avançando o posicionamento para começar a ofensiva, e Dedé e Bruno Rodrigo tem errado alguns fundamentos, proporcionando chances em demasiado para os atacantes adversários, principalmente Dedé, que tem se mostrado um tanto estabanado para dar o bote. Felizmente, a fase ruim do São Paulo ajudou a tirar a concentração dos atacantes na hora de concluir.

No entanto, a equipe vem mostrando que assimilou o jeito de jogar e parece estar bem confortável com o sistema — o que é surpreendente para um trabalho de apenas sete meses. Mayke vem agradando muito no quesito defensivo –o lateral foi o segundo melhor em campo de acordo com o WhoScored.com, atrás de Luan, por razões óbvias. E o ataque vem mudando com frequência sem perder a eficácia, mas ainda gostaria de ver Everton Ribeiro como nosso meia central. Com a provável chegada de Júlio Baptista, isso pode ser mais difícil de acontecer.

Agora é o Superclássico. Independentemente do resultado do meio de semana, será mais um bom teste para a equipe, o primeiro bom teste no Mineirão neste campeonato. Até agora, o Cruzeiro vem sendo aprovado em quase todos os grandes jogos. E, se continuar assim e melhorar pequenos pontos aqui e ali, com certeza será aprovado em mais um.



Guarani/MG 0 x 0 Cruzeiro – O anti-futebol

Diz-se na física que quando matéria e antimatéria colidem, o resultado é o aniquilamento de ambos. Traduzindo para o futebol, seria mais ou menos assim: quando o futebol e o “anti-futebol” se encontram, o resultado é um zero a zero.

Assim foi na Arena do Calçado, em Nova Serrana, onde o Guarani mandará seus jogos. Que o time de Divinópolis entraria para se defender era certo; o que foi surpresa foi abdicar também do contra-ataque. Ao Cruzeiro faltou velocidade no início e paciência no fim.

Foi um jogo razoável do Cruzeiro, que ainda podemos dar um desconto por ser início de temporada. Mas também temos que dar créditos ao esquema defensivo do Guarani, que cumpriu melhor sua proposta de jogo.

Estreias

Dagoberto mais espetado pela esquerda e a movimentação do trio de meias no 4-2-3-1 cruzeirense do primeiro tempo

Dagoberto mais espetado pela esquerda e a movimentação do trio de meias no 4-2-3-1 cruzeirense do primeiro tempo

Regularizado, Diego Souza pôde enfim ser escalado por Marcelo Oliveira no centro da linha de três meias do 4-2-3-1, atrás de Anselmo Ramon. Dagoberto, que começou jogando, estava à esquerda do camisa 10, e Everton Ribeiro era o ponteiro direito. Nilton e Leandro Guerreiro protegiam a linha defensiva composta por Ceará e Everton, de volta à lateral esquerda, e Bruno Rodrigo e Paulão no miolo de zaga, todos capitaneados por Fábio debaixo das traves.

O Guarani do técnico Leston Jr. veio num teórico 4-3-1-2, mas os inúmeros ajustes defensivos descaracterizaram o esquema. O goleiro Leandro, destaque do jogo, teve Adalberto e Asprilla à sua frente, com os laterais Choco à direita e Rafael Estevam à esquerda. O meio-campo começavam com André Silva centralizado, mas os volantes de lado, Rafael Pulga pela direita e Eder pela esquerda, se alinhavam a ele e abriam, para fazer dois contra um nos ponteiros do Cruzeiro. À frente, Joubert, o armador, era flanqueado pelos atacantes Lucas Newiton e Carlos Júnior, fazendo a primeira linha de marcação. Na prática, uma espécie de 4-3-3-0 super defensivo.

Bloco baixo

Como se não bastasse, a marcação só começava mesmo a partir da linha do meio-campo, o que é comumente chamado de bloco baixo (com o bloco médio sendo a marcação a partir da intermediária adversária, e o bloco alto a pressão nos zagueiros, o famoso pressing). O time vermelho deixava os zagueiros do Cruzeiro tocarem a bola livremente entre si e até para os volantes Leandro Guerreiro e Nilton, que conseguiam ficar com a bola no pé sem ser incomodados. O trio avançado, comandado por Joubert, ficava bem agrupado para forçar a saída celeste com os laterais. Porém, quando a bola chegava neles, os três giravam e pressionavam o lado da bola, congestionando o setor e fechando as linhas de passe, obrigando o Cruzeiro a voltar ou virar o jogo.

Obviamente, a segunda opção era a melhor, mas não pelo alto, direto para o ponteiro, como queria o comentarista da TV. O certo era girar pelo chão, voltando no zagueiro e, este sim, direto para o outro lateral, com velocidade para pegar a defesa aberta. Mas o Cruzeiro fazia isso com uma certa preguiça, dando tempo para o Guarani se recompor.

O trio de meias não guardava posição e tentava se movimentar. Everton Ribeiro partia da direita mas circulava por todo o campo; Dagoberto ficava mais espetado pelo lado esquerdo mas por vezes invertia de lado; e Diego Souza ora vinha buscar a bola no pé dos volantes, ora caía pela esquerda para tentar desarmar a setorização defensiva do Guarani. Diego, no entanto, parecia um pouco fora de sintonia, com a bola meio “queimando” no pé e ainda faltando ritmo de jogo. Acredito que vá melhorar.

Mesmo assim, o Cruzeiro conseguiu criar algumas chances. Um delas, ironicamente, foi num contra-ataque de bola parada. Anselmo Ramon, que estava na área ajudando na bola aérea, recebeu passe e lançou rapidamente a Everton Ribeiro, que avançou pela direita e mandou preciso e rasteiro para Dagoberto no meio da área, que infelizmente não esperava que a bola passasse do zagueiro e não conseguiu concluir. Em outro lance, Everton tabelou com Dagoberto em passes de primeira e concluiu no canto alto de Luciano, que praticou bela defesa.

E foi só isso no primeiro tempo: oito contra onze em uma metade do campo só.

Segundo tempo

No intervalo, Marcelo Oliveira lançou Egídio na lateral esquerda, avançando Everton e tirando Dagoberto do jogo, aparentemente ainda sem muitas condições físicas. O Cruzeiro aumentou a velocidade com a dupla Egídio e Everton, mas ainda continuava sem muitas opções para passar a bola, na mesma toada do primeiro tempo. Foi só quando Luan entrou como ponteiro esquerdo substituindo Leandro Guerreiro, com Everton para ser volante pela esquerda, é que o Cruzeiro ameaçou mais, sempre buscando o lado do campo para a conclusão do centro-avante.

No fim, Cruzeiro se lançou à frente no mesmo 4-2-3-1, embora mais na vontade do que na organização tática

No fim, Cruzeiro se lançou à frente no mesmo 4-2-3-1, embora mais na vontade do que na organização tática

Percebendo que a ameaça era por aquele setor, Leston Jr. sacou um de seus “atacantes defensivos”, Lucas Newiton para colocar mais um volante, Nando, para dar suporte naquele lado, aberto pela esquerda, com Pulga na centro-esquerda. O repaginado 4-4-2 (ou seja, meio-campo em linha) travou as ações pelos flancos do Cruzeiro e ainda proporcionou o melhor (e único) momento ofensivo do Guarani na partida, já que Everton estava de volante mas com uma incumbência clara de sair para o jogo, deixando apenas Nilton na proteção à zaga.

O Guarani então começou a rebater bolas em velocidade para Carlos Júnior, que agora tinha mais liberdade para circular. Leston Jr. então dobrou sua capacidade de contra-ataque colocando o veloz Eric na vaga de seu único criador, Joubert, oficializando o jogo de ligação direta: quatro volantes e dois atacantes.

Funcionou por um tempo até que o Cruzeiro começou a perder a paciência, e tentar sair com velocidade mas sem organização. Os jogadores se afobavam e tentavam levantar a bola na área de qualquer jeito para Borges, que a essa altura havia entrado na vaga de Anselmo Ramon. Só quem parecia mais lúcido era Everton Ribeiro, que por vezes conseguia se desvencilhar da marcação e cruzar com mais perigo. Mesmo na afobação, algumas finalizações de cabeça ainda aconteceram, muito mais na vontade do que na técnica ou na paciência. Mas não teve jeito: o zero insistiu em permanecer no placar.

Sem afobação

Se os jogadores não podem se afobar no fim do jogo, tendo que ter paciência, o mesmo vale para nós torcedores. Ainda é cedo para tirar uma conclusão definitiva, foi só o primeiro jogo deste que provavelmente será o trio de meias titular da temporada. Então, devagar com o andor.

Mas o aspecto mais importante é que este jogo não pode servir de parâmetro. Os grandes jogos, que todos nós esperamos que o Cruzeiro irá disputar na temporada, não serão de ataque contra defesa desta forma. Os outros times, no Campeonato Brasileiro e fases finais da Copa do Brasil, tentarão sair mais para o jogo, abrindo espaço para nós também, e aí que acredito que faremos a diferença. Enfrentar retrancas como essa não será, nem de longe, a tônica da nossa temporada.

Que sirva de lição, entretanto. Afinal, quando estivermos atrás no placar contra grandes times brasileiros, certamente se fecharão em muralhas tão bem postadas como a do Guarani de hoje.

Mas nós havemos de derrubá-las.



Três alternativas para o Superclássico

Depois de muito tempo, o encontro entre Cruzeiro e Atlético Mineiro voltou a ser um clássico: ambos os times bem na tabela (levando em conta o prognóstico de ambos no início do campeonato) e com o rival melhor do que o Cruzeiro após muitos embates em que a situação era invertida. Assim, após ler as notícias de lado a lado na semana inteira, esperando pra saber se Ceará iria ou não para o jogo, quem seria a dupla de zaga e como seria composto o meio-campo cruzeirense, tento apresentar aqui alternativas de Celso Roth para o jogo de domingo.

O time adversário é o de sempre: o mesmo 4-2-3-1 empregado por Cuca desde o início do ano, mas desta vez com peças novas. Victor no gol, Marcos Rocha de volta à lateral direita e Júnior César do lado oposto; Leonardo Silva — o vira-casaca — e Réver no miolo de zaga. À frente, Pierre e Leandro Donizete fazem a dupla volância, atrás de Ronaldinho, o articulador principal e com tendências de cair pela esquerda. Flanqueando-o, Danilinho ou Guilherme pelo lado direito e Bernard pelo esquerdo. À frente, Jô brigando com os zagueiros.

Do nosso lado, Victorino está fora do jogo, Ceará é dúvida e não se sabe quem será escalado na lateral esquerda: Everton ou Diego Renan, dependendo da situação de Ceará. Para a zaga, levando em conta o estilo de Jô, a dupla de zaga ideal seria composta por um zagueiro forte, para marcar diretamente o centro-avante — nesse caso, seria Léo — e um com bom posicionamento de sobra, que seria Victorino. Mas na ausência deste último, Thiago Carvalho deve entrar em seu lugar. Outra opção seria fazer uma zaga com Léo e Donato, mas essa seria uma dupla pesada, correndo riscos contra os rápidos Bernard e Danilinho.

Caso Ceará não possa jogar, duas opções se apresentam. Deslocar Diego Renan para a direita para manter o equilíbrio defesa/ataque por aquele lado, ou destacar Leo para o setor, com a finalidade exclusiva de anular Bernard. Isso faria o Cruzeiro perder ofensividade, mas aumentaria muito o poder de marcação.

E na lateral esquerda, Diego Renan é mais lento que Everton, que se destaca mais no apoio mas não defende tão bem quanto o primeiro. Como Danilinho é menos ofensivo que Bernard, talvez Everton seja a melhor opção.

Como se trata de um clássico, abrirei uma exceção e colocarei os jogadores do time adversário nos diagramas abaixo.

 

Opção 1 – Equilíbrio

Minha alternativa preferida: um 4-2-3-1 com Montillo de ponteiro esquerdo, Tinga se movimentando para opção de passe de segurança, Guerreiro na cola de Ronaldinho e marcação especial do lado direito

A primeira opção é mandar a campo um 4-2-3-1 com Montillo de ponteiro esquerdo, como na partida contra o Palmeiras, que este blogueiro considera ser a melhor do time no certame atual. Naquele jogo, a dupla de volantes era Guerreiro e Charles, ao passo de que nesta deverá ser Guerreiro e Lucas Silva, com uma diferença: contra o time paulista, Guerreiro perseguia Daniel Carvalho, que caía mais pela direita. Contra o rival, Guerreiro será muito provavelmente o marcador de Ronaldinho, que tem uma tendência maior a cair pela esquerda do ataque — direita da defesa adversária.

Colocar Montillo pelo lado esquerdo do meio-campo faz com que o argentino tenha menos marcação, e consiga usar sua melhor arma: o drible. Passando por Marcos Rocha, que fatalmente seria seu marcador, Montillo teria campo livre para cruzar, bater pro gol ou enfiar uma bola para Borges ou quem estiver na área. E Tinga, que já tem tendências centralizadoras, jogando pelo meio, serviria muito mais como um ponto de apoio no meio do pentágono formado pelos volantes, meias abertos e centro-avante, sendo o passe de segurança. O ideal seria ter um meia cadenciador por ali, alguém como Souza, suspenso, ou Roger, já fora do clube, para fazer a bola rodar e inverter as jogadas, mas infelizmente não temos este jogador disponível no elenco para este jogo.

Do outro lado, Fabinho como ponteiro direito teria funções mais defensivas, acompanhando Júnior César e ajudando na marcação ao lado mais forte do Atlético: o esquerdo. Por ali, cairiam Ceará, na sua posição natural e marcando o garoto Bernard; Guerreiro, marcando Ronaldinho quando este pendesse para o lado esquerdo; Lucas Silva ajudando na sobra e Fabinho marcando Júnior César. O meio-campo fica esvaziado, mas Tinga pode recuar e guardar o meio contra os dois volantes do Atlético que não tem tanto poder de ataque assim. O perigo ficaria do outro lado: Montillo teria que recuar acompanhando Marcos Rocha, para evitar que Diego Renan fique no dois contra um contra ele e Danilinho.

 

Opção 2 – Conservadorismo

Um 4-4-1-1 que fecha bem os flancos e aproveita a velocidade de Montillo para contra-atacar; mas perigoso porque chama demais o Atlético com o apoio dos laterais liberado

Outra opção é assumir que o rival vive um momento melhor e se fechar, partindo nos contra-ataques velozes num 4-4-1-1, com Montillo atrás de Borges como únicas peças ofensivas à frente das duas linhas de quatro. A grande vantagem dessa formação é compactar as linhas e tirar o espaço das ações ofensivas adversárias, espanando as bolas para as pontas para Montillo, que tentaria jogar nas costas dos laterais. Assim, Everton à frente de Diego Renan pelo lado esquerdo para fechar o lado direito de ataque do Atlético, e Ceará e Lucas Silva ou Tinga para fechar o lado direito. Sem espaço para articular, os jogadores do Atlético tenderiam a subir cada vez mais, para tentar um abafa, dando ainda mais espaço para Montillo ganhar uma bola rebatida e conduzir até a área adversária em velocidade.

Não é a opção preferida deste blogueiro e muito menos deverá ser a de Celso Roth, pois é muito perigoso chamar o time adversário pra cima, principalmente levando em consideração que o jogo será “em casa”: somente a exigente e mal-acostumada torcida do Cruzeiro estará presente. Jogar recuado contra o Atlético, na cabeça dos torcedores, é assumir a inferioridade diante do maior rival — mesmo que isso seja atualmente um fato — fazendo com que a chance da torcida se virar contra o time seja muito grande.

 

Opção 3 – Ousadia

Ousadia total: jogar sem centro-avantes de ofício, explorando velocidade e posse de bola, com Montillo de “falso nove” e jogadores rápidos pelos lados

A opção mais ousada é usar o que eu chamaria de 4-3-3-0, com dois jogadores rápidos como ponteiros — por exemplo, Wallyson e Fabinho, Montillo por dentro na posição de meia-atacante “falso 9” e ganhar em número do Atlético no meio-campo: 6 jogadores contra 5, ou 4 contra 3 se considerarmos apenas a faixa central. Isso deixaria os zagueiros do Atlético livres, mas sem alvos para direcionar os passes, forçando-os ao passe longo por cima. Com as linhas compactas e menos gente no meio-campo, fica mais difícil ganhar a segunda bola disputada por Jô e os zagueiros ou volantes cruzeirenses, frustrando as ações ofensivas adversárias.

Entretanto, ao recuperar a bola, o trio ofensivo teria que ter muita inteligência tática e técnica para saber se movimentar e dar opções de passe para contornar a dupla de zaga atleticana, o que acredito que os jogadores têm, mas só conseguiriam executar se tiverem confiança, que é uma coisa que me parece em falta atualmente.

 

Mas…

É muito provável que Celso Roth mande a campo um time diferente dos três que postei aqui, mas é certo que Guerreiro será o marcador de Ronaldinho. Resta saber como Montillo será escalado, e de que forma Tinga jogará: se mais recuado, como volante fazendo um tripé — e consequentemente um losango no meio, o que na opinião deste blogueiro seria um suicídio — ou se jogará mais avançado, à frente dos outros dois volantes. O mais provável é que ele mantenha Montillo por dentro e desloque Tinga para o lado, com Fabinho do outro — algo próximo do que foi feito no jogo contra o Sport, mas com os ponteiro invertidos. Lucas Silva deverá ficar mais liberado para se juntar ao ataque, pois os volantes adversários não deverão combatê-lo no alto do campo. Os laterais deverão ficar um pouco mais presos, principalmente o direito, devido à presença de Bernard por ali.

A chave do jogo, entretanto, será Montillo. Se ele jogar por dentro, terá de brigar com Pierre e Leandro Donizete para conseguir encaixar um passe. Se jogar pelo lado, terá somente Marcos Rocha pela frente — teoricamente um jogador com menos poder de marcação que seus companheiros volantes. Além do fato óbvio de ser apenas um jogador contra dois no meio.

Pode ser um jogo amarrado ou solto — depende da estratégia cruzeirense apenas. O outro time, todo mundo sabe como joga.



Bahia 0 x 1 Cruzeiro – Sofrer sem sofrer

Mesmo sem jogar bem ofensivamente e correndo riscos desnecessários, sair à frente no placar deu a tranquilidade que o Cruzeiro precisava para fazer o frágil ataque do Bahia passar em branco, no último sábado em Pituaçu.

O 4-3-1-2 losango cruzeirense do primeiro tempo, com Ceará bem mais solto que Marcelo Oliveira e sendo coberto por Lucas Silva, que sobrou no meio-campo e também chegava ao ataque com qualidade

Celso Roth fez mudanças em cinco posições e escalou o Cruzeiro num 4-3-1-2 losango “a la” Vagner Mancini. O gol de Fábio foi defendido por Ceará na direita, Marcelo Oliveira na esquerda e Léo e Thiago Carvalho no miolo. À frente destes, Leandro Guerreiro foi o vértice mais baixo do losango, que ainda tinha Lucas Silva pela direita e Charles pela esquerda. No topo, Montilo ligava para Borges, mais centralizado, e Wellington Paulista, mais pelos lados.

O Bahia foi escalado por Caio Júnior em seu esquema preferido, o 4-2-3-1, mas que tinha uma característica diagonal. O goleiro Marcelo Lomba teve os volantes Diones e Hélder nas laterais direita e esquerda respectivamente, com Danny Morais e Titi de zagueiros centrais. Fabinho e Fahel suportavam na volância Mancini, articulador central, que tinha Zé Roberto, um pouco mais recuado e aberto pela direita, Gabriel mais à frente do lado oposto e Rafael no comando do ataque.

Os dois flancos cruzeirenses tinha comportamentos diferentes. Do lado esquerdo, Marcelo Oliveira ficava naturalmente mais preso. Com isso, Charles não precisava cobrir as investidas do camisa 6 e continuou exercendo sua função de marcador no meio campo, pegando principalmente o volante adversário Fabinho, que era quem se arriscava mais — Fahel ficava mais plantado, por vezes recebendo a marcação de Montillo.

Mas o lado mais forte do Cruzeiro era o direito. Tudo porque, como Guerreiro perseguia Mancini, Lucas Silva sobrava no meio-campo. Assim, ora o garoto cobria os avanços de Ceará pela direita, marcando o meia-atacante Gabriel, ora tinha liberdade para sair, fazer o primeiro passe e até se juntar ao ataque. Tanto que em um determinado lance, mandou um petardo de fora da área que passou rente à trave direita de Lomba. Exerceu a função de meio-campista pela direita com qualidade, fazendo uma excelente partida.

E foi pela direita que nasceu o gol, em avanço de Ceará. Marcado de longe por Hélder, Ceará encaixou um cruzamento para os dois alvos dentro da área. Os zagueiros até conseguiram rebater, mas a bola sobrou para Montillo, dentro da área e com espaço. Ajeitou e finalizou primorosamente, fora do alcance dos pés dos zagueiros e da mão do goleiro adversário.

Sair na frente, como tem sempre acontecido nas partidas do Cruzeiro, acalmou os ânimos. Com um homem a mais no meio-campo, o Cruzeiro se dava ao luxo de rodar a bola com paciência, e conseguia chegar até com certa facilidade perto da área baiana. Porém, como aconteceu na partida contra a Ponte Preta, o time só atacava por um lado e ficava previsível na marcação, facilitando o trabalho dos defensores da casa. A rigor, a única boa chance do Cruzeiro além do gol foi uma bola roubada por Montillo, fazendo pressão alta no zagueiro do Bahia. Roubada a bola, o argentino esperou o posicionamento de Borges, dando um passe primoroso, fora do alcance de Lomba. Borges mandou pra fora o que seria o gol da tranquilidade absoluta.

Já o Bahia não ameaçou a meta cruzeirense nenhuma vez com real perigo no primeiro tempo, muito por conta da boa marcação que o Cruzeiro exercia nos articuladores Zé Roberto, Mancini e Gabriel. Rafael praticamente não tocaria na bola se não recuasse algumas vezes para participar do jogo no meio-campo. Com a linha de três bem marcada, quem tinha de sair para o jogo era Fabinho, o que abria ainda mais o meio-campo com quatro jogadores do Cruzeiro.

Além disso, estranhamente o Bahia não saía pelo lado direito com Diones, preferindo sair pela esquerda com Hélder. Ambos estavam livres, mas quando Hélder era acionado, Ceará e Lucas Silva alternavam na marcação, e pelo lado oposto Diones tinha campo livre, já que Charles estava mais para dentro do campo e Marcelo Oliveira estava mais preso na defesa. Isso também facilitou a marcação, e o primeiro tempo terminou com o Cruzeiro controlando a posse e o Bahia ameaçando pouco.

Os dois times voltaram modificados do vestiário. Roth tirou Borges e lançou Anselmo Ramon. A intenção era chutar a bola em direção ao pivô, para que ele segurasse a bola e esperasse a chegada dos companheiros. Já Caio Júnior colocou Lulinha na vaga de Fabinho. Ele foi jogar do lado esquerdo, Gabriel inverteu para a direita, recuando Zé Roberto para pensar o jogo ao lado de Mancini. O time se transformou num 4-3-3 brasileiro, ou 4-1-2-3.

A segunda etapa começou, entretanto, com o Cruzeiro postado num 3-4-1-2, com Guerreiro afundado entre os zagueiros. Talvez Celso Roth tivesse pensado que Lulinha seria mais um atacante ao lado de Rafael, e portanto fez a sobra sem prender os laterais, que continuariam marcando os jogadores abertos. Assim, os dois times passaram e ter trios no centro do campo, desfazendo a vantagem numérica cruzeirense no setor que havia no primeiro tempo. A consequência foi um pequeno sufoco que o Bahia aplicou nos minutos iniciais, ma sem finalizações perigosas e com muitas bolas na área, todas rebatidas pela zaga.

Aparentemente o próprio Leandro Guerreiro deve ter percebido que estava fazendo uma sobra redundante tendo apenas um jogador dentro da área, e avançou novamente para o meio-campo, recompondo o 4-3-1-2 losango inicial. A pressão baiana arrefeceu e o Cruzeiro começou a controlar novamente a posse no meio-campo, sempre tendo linhas de passe para sair tocando com tranquilidade.

Aos 20, trocas de laterais direitos nas duas equipes, mantendo a formação de ambas. Ceará deu lugar a Diego Renan, por contusão. No Bahia, Diones, volante improvisado, saiu para a entrada de Gil Bahia, revelação da base do Cruzeiro. O garoto, muito mais ofensivo que Diones, entrou para equilibrar os dois lados, e acabou fazendo dois contra um em cima de Marcelo Oliveira, junto com Gabriel. WP teve que começar a recuar pelo lado direito para ajudar Marcelo, e com os três volante do Cruzeiro postados na frente da área, o Cruzeiro ficou postado num estranho 4-4-1-1, meio torto, com um buraco do lado esquerdo, eventualmente preenchido por Montillo fazendo um 4-5-1 em linha pouco usual.

O Bahia avançava suas linhas cada vez mais, empurrando o Cruzeiro para dentro de sua própria área. Com a frente da área bem protegida, o Cruzeiro forçava o jogo do Bahia pelos lados, e o atacante adversário do lado oposto entrava na área para ser alvo dos inúmeros cruzamentos tentados. De tanto insistir, alguns foram certos, mas para sorte do Cruzeiro, nenhuma finalização foi muito perigosa, e Fábio teve pouco trabalho.

O estranho híbrido de 4-4-1-1 e 5-3-1-1 super defensivo do final da partida, tendo WP quase como volante e Anselmo Ramon como alvo das rebatidas para segurar a bola e esperar os companheiros

A última cartada de Caio Júnior foi sacar seu atacante Rafael e lançar o estreante Caio em seu lugar. O meia jogou um pouco mais recuado, os atacantes abertos entraram um pouco mais no campo e o Bahia ficou com cara de 4-1-3-2, sem centro-avante. O treinador baiano queria tentar o gol pelo chão, mas a alteração não deu muito certo e o Bahia continuava levantando bolas na área. A zaga do Cruzeiro começou a ganhar as bolas, e a entrada de Souza no lugar de um cansado Montillo, quase como um lateral esquerdo, mandando Marcelo Oliveira mais para dentro do campo e dando uma cara de 5-3-1-1 ao time, fez com que o ímpeto baiano fosse diminuindo e matando o jogo aos poucos. A bola foi ficando pelo meio-campo e a vitória veio.

Uma vitória, aliás, que veio muito mais pela qualidade técnica de Montillo na finalização do que no posicionamento tático. É verdade que com um homem a mais no meio-campo o Cruzeiro teve mais controle do setor, mas não soube aproveitar muito isto. Além disso, continuou a previsibilidade do ataque, insistindo praticamente somente pela direita ao invés de tentar virar o lado da jogada e surpreender o adversário. Isso precisa ser corrigido rapidamente.

Particularmente, não gosto dessa formação em losango. É uma boa formação quando se tem laterais ofensivos, que apóiam com qualidade, mas nossos laterais, com uma reticente ressalva feita a Ceará, não tem essa qualidade e acabam ficando muitos expostos. Se medidas forem tomadas para ajudá-los, como por exemplo, mandar os lados do losango na cobertura, abrimos o meio-campo e provavelmente perderemos a batalha pela posse de bola. Eu ainda prefiro o 4-2-3-1 com Montillo de ponteiro esquerdo.

Mas nem tudo são espinhos. Mais uma vez o garoto Lucas Silva provou que pode sim ser titular neste time, é uma grata surpresa para Celso Roth. Provavelmente será mantido. Outra virtude a se ressaltar foi que o passe errado na transição — um dos maiores defeitos da equipe atual — não apareceu na partida, o que foi consequência direta da calma do time. Esta, por sua vez, foi causada pelo fato de o time já estar à frente no placar. É um efeito cascata, que evidencia o quanto o fator psicológico vem influenciando na atuação da equipe no campeonato.

O próximo jogo será em casa contra o vice-líder Fluminense. Será o primeiro depois do episódio da torcida versus Charles na partida contra a Ponte Preta. É preciso que a torcida jogue junto, para não desestabilizar ainda mais o emocional do time.

Outra coisa importante será a formação: o Fluminense joga num conhecidíssimo 4-2-3-1, com Fred sendo suportado por três entre Deco, Thiago Neves, Wagner (aquele mesmo), Rafael Sobis e Wellington Nem. Um meio-campo ofensivo de dar inveja. Deco e Nem devem estar fora, portanto o quarteto ofensivo deve ser Sobis, Thiago Neves, Wagner e Fred. Não sou da opinião de que o losango deva ser mantido, mas a julgar pela sequência de trabalho de Celso Roth, isso deverá acontecer, e portanto podemos esperar um Cruzeiro mais recuado esperando o Fluminense em seu campo para partir em velocidade nos contra-ataques, mesmo em casa.

Sair para o jogo com essas formações em campo será arriscar demais, e o que importa atualmente são os três pontos, mesmo que seja com um futebol desagradável aos olhares brasileiros.